Fomaríamos um Maravilhoso Nós
38 Mar revolto - Part II
Notas iniciais
Acordei com um delicioso aroma floral que exalavam das cortinas, balançadas pela brisa fresca da manhã. A intensidade certa de luz natural iluminava o quarto, fazendo meu despertar ser muito proveitoso. Minhas mãos deslizavam pelo lençol macio enquanto me espreguiçava gostosamente, dando sinal ao meu corpo que era hora de se espertar.
No entanto, não foi isso o que fiz. Conforme minhas mãos passeavam pela cama, algo me fez falta, aliás, muita falta. Me sentia incompleta e eu sabia exatamente o que meu coração traidor tanto queria…
Maxon.
Sentando-me e olhando em volta, as lembranças dessa madrugada invadem minha mente. Eu podia jurar que aquilo não passou de um sonho se eu não estivesse tocando partes do meu corpo, que foram tocadas por ele, sentindo um enorme arrepio, como se a presença dele ainda estivesse viva dentro de mim.
Me condeno por sorrir. Eu não devia.
Mas como disse, meu coração é um traidor. Ele almejava e sentia tanta falta de ser tocada por ele, que não consigo me sentir arrependida ou culpada por me deixar levar. Foi uma necessidade maior, que falou muito mais alto e eu não posso fingir que não é assim. Não para mim mesma.
Contudo, isso não muda os fatos. Engulo em seco ao pensar nisso. Posso ter ficado minimamente contente em ter sido desejada, porém, temos assuntos imensamente mal resolvidos, que de verdade, não sei qual desfecho será tomado, e isso me apavora.
De certa forma, todo esse tempo eu desejei o retorno de Maxon, e suas explicações… mas… o que eu faria com elas?
Quando essa pergunta começou a me atormentar, chacoalhei minha cabeça, como se isso fosse espantar esses pensamentos, e para compensar, pensei no que meu pai costuma dizer quando não se tem ideia do que virá a acontecer, e você se desespera com as possibilidades: uma coisa de cada vez, tudo no seu devido tempo.
Ouço os burburinhos no andar de baixo e concluo que todos já estão acordados. E aí está outro ponto: estou magoada com meus amigos.
Não quis parar para pensar muito no detalhe que Carter e Celeste sabiam do paradeiro de Maxon. Eu me senti traída por eles, principalmente com Celeste, que acompanhou toda minha trajetória de perto. Dormi noites na mesma cama que ela, recebendo palavras de consolo, de ajuda a minha depressão, para ela injustamente manter tudo em segredo.
Não tem como não ficar chateada. Isso foi pesado da parte deles.
Agora, não quero nem pensar no principal responsável por toda essa merda. Não sei o que será de mim quando ficar cara a cara com ele daqui a pouco. Ontem eu surtei. Surtei como uma louca, mas ninguém pode me julgar por isso. Eu tinha direito e ainda tenho. A questão é se esse direito vai explodir mais uma vez assim que precisar olhar em sua cara.
Deixando minha covardia de lado, levanto, pego meu celular no meio do bolo de roupas guardadas na gaveta junto com um shorts jeans e uma blusinha. Me troquei dando uma olhada nas notificações de May ansiosa por notícias.
Imagina quando eu contar a surpresa que tive. Ela vai surtar.
Mamãe mandou um áudio de dois minutos dando um sermão por ela ter que pedir aos meus amigos notícias de quando havíamos chegado, já que, “eu não me lembro e não me importo com minha família o suficiente para avisar o básico”, palavras de uma dona Magda puta.
Eu me arrumava com a cabeça avoada, não porque nada passava por ela, mas sim porque pensava em um turbilhão de coisas. Quando saí do quarto a caminho da escada, minhas ideias bagunçadas começaram a se dispersar e uma tomou posse.
Eu finalmente falaria com Maxon.
Eu teria minhas explicações, mesmo sem ter a certeza de que estou pronta para ouvir. Tenho medo do que ele irá dizer, pois, não posso negar… eu o amo. Independente de toda a raiva que eu sinta, eu o amo. Me desespera pensar que ele dirá que sentiu falta de sua ex, que nesse tempo ele precisou dela, que correu atrás dela e que tudo que rolou entre nós, tenha sido algo vago para ele.
Me aterrorizo pensando essas atrocidades, que gera um mix de sentimentos perturbados por aquele loiro lindo e idiota. Eu sinto raiva dele ter me deixado, alívio por ele ter aparecido, tristeza pelas possíveis razões, e um pouco de alegria por tê-lo em minha vida outra vez. Enfim, é tudo uma confusão danada.
No topo da escada, começo a sentir calafrios me percorrer, além de uma enorme angústia. A cada degrau que eu descia dessa majestosa escadaria em espiral amadeirado, eu sentia que estava indo para um território desconhecido, o que é besteira. São meus amigos à minha espera. Todavia, talvez não seja pelas pessoas e o ambiente, mas sim pelo destino incerto que nos espera.
— Grr! Porque você tem que ser tão metido?! Cai fora daqui Carter!
Parece que Marlee não acordou de bom humor.
— Eu só quero ajudar Lee — ouvi Carter choramingar.
— A hora de ajudar já passou seu gradissíssimo idiota!
Minha amiga estaria de TPM?
— Eu já pedi desculpas amor, o que mais quer que eu faça?
— Que você tire essas mãos das minhas panquecas!
Eu estava no meio da escadaria, de lá, eu podia ver a mesa posta de frente para a janela de vidro, que cobre toda a extensão da parede, que agora de dia, se tem uma visão muito mais clara do jardim, piscina e mar. Do outro lado, via Marlee carregando um prato a caminho da mesa e Carter grudado ao lado dela com um olhar suplicante que minha amiga ignorava.
— Lee, até quando… — interrompido.
— Ah, bom dia Meri! — Marlee sorriu abertamente assim que me viu terminando de descer o penúltimo degrau.
— Bom dia — sorri para ela também.
— Oi Meri, bom dia — Carter fez sua tentativa, que recebeu como resposta da minha parte, um aceno com a cabeça.
— Vem! Vamos tomar café — Marlee segurou meu braço — toma Carter! — Ela entregou com certa brutalidade o prato de panquecas nas mãos dele — faça algo direito e leve isso para a mesa.
Cacete, até eu senti uma pontada de pena, não mais que o Carter claro, que saiu de cabeça baixa em direção a mesa, nos deixando para trás.
— Dormiu bem? — Perguntou empolgada enquanto íamos a caminho da mesa lentamente.
— Super! — e eu não estava mentindo, fazia tempo que não me sentia tão descansada quanto agora. — A cama é muito boa e o mar… descobri que é um ótimo calmante. Mas vejo que para você não foi bem assim, não é?
— Briguei com Carter — Marlee deu um sorriso amarelo.
— Que ótimo, agora todos estão brigados — esbravejei. — Não sei se vai rolar esses dias aqui Lee…
— Nada disso! — ela me interrompeu. — Eu não brinquei ontem quando disse que nos divertiremos sozinha se for preciso.
Não respondi, apenas suspirei. Não via como poderíamos nos divertir com tudo tão pesado ao nosso redor. Definitivamente não era para ser assim as coisas, mas, está sendo.
Deixando esse pensamento de lado, eu foquei no que mais me abalava no momento. Meus olhos começaram automaticamente a procurar por Maxon e eu não o via em canto algum. Durante minha caçada, avistei Aspen sentado na beira da piscina e Celeste em um balanço suspenso na área externa.
Mas não o via. Não o via em lugar nenhum.
Dizia mentalmente a mim mesma para deixar de ser idiota e se preocupar, mas devo estar tão traumatizada que não consigo parar de pensar que ele foi embora outra vez.
Nem percebi quando cheguei à mesa e bati a ponta do pé na perna da cadeira, que tremeu com o impacto. Aqui eu fiquei com as mãos apoiadas no seu encosto olhando para todos os lados, buscando por um sinal de Maxon. Já estava quase chorando quando Carter chamou minha atenção.
— Ele foi correr na praia — revelou sentando-se na primeira cadeira de costas para a janela.
— Você costuma sempre saber onde ele está, não é? — o confrontei. Não podia esconder a decepção que sinto em todos saberem onde está meu namorado menos eu.
— Podemos ter um café tranquilo? — bufei com sua idiota pergunta.
— Faz tempo que não sei o que é ter um café tranquilo — comentei séria, querendo que Carter sinta a parcela que ele tem de culpa nessa história.
— Podemos ter um agora — rebateu prontamente, um sorriso sarcástico acompanhando.
— Acha mesmo? — retribui com a mesma dose.
— Depende só de você… — eu sentia minha pele se acender num tom vermelho, morrendo de vontade de encharcar a cabeça dele com café quente.
Ele não se toca?
— Cala essa boca Carter! — Marlee surgiu na ponta da mesa com mais comida. — Aí! Vocês dois! — Aspen e Celeste se viraram para ela. — Venham tomar café.
O tom de voz de Marlee, não era o tom meigo que ela costuma usar, e sim, mais autoritário, tom de quem guardava ressentimento. Carter não parecia disposto a confrontar sua amada como fez comigo. Sinto como se ele me culpasse pelas atitudes de Marlee, como se ele não fosse o próprio responsável.
— Bom dia Meri — Aspen cumprimentou assim que entrou e me viu.
— Bom dia — sorri para o meu amigo. Outro que também foi enganado por todos.
Sentei-me de frente com Marlee que estava ao lado de Carter. Aspen ficou na minha esquerda, na ponta da mesa. Notei Celeste entrando no ambiente, seu olhar caiu direto sobre mim e eu não consegui fazer nada mais que ignorar.
Ninguém na mesa parecia ter coragem de começar nem sequer a se servir. O clima como eu já imaginava, estava horrível, as mágoas recém nascidas pairavam sobre nossas cabeças e não duvido que não tenha um nessa mesa pensando como essa viagem foi uma péssima ideia.
Carter silenciosamente ameaçou pegar uma panqueca mas levou um baita tapa na mão de Marlee. Ele retornou com os braços ao lado do corpo e fungou irritado por ter sido impedido. Eu estava prestes a entrar em colapso, com todos duros ao meu lado, sem citar uma palavra ou respirar de uma forma diferente. Aquilo estava sufocante e eu não estava aguentando.
— Bom dia — sua voz soou nos meus ouvidos. Meu corpo reagiu de diversas maneiras, e toda a tensão do momento foi esquecida, dando espaço a uma emoção que não sei descrever.
Não era mais tão fácil e comum ouvi-lo tão nitidamente, pior, ou melhor, não sei… é que escutá-lo, apenas comprova que sua presença é real, e o quanto eu ainda não acreditava nisso. Eu sabia que ele estaria aqui em algum momento, mas suas aparições têm sido como uma surpresa para mim.
Eu tinha meus olhos fixos em minha xícara, minhas mãos presas no assento da cadeira, estabilizando a tremedeira que se dava dentro de mim. Até o momento eu não tinha o encarado, e senti uma vontade enorme de gritar quando desviei meu olhar sutilmente para ele, que fechava a porta de vidro de costas para todos.
Outra coisa que não posso negar, é que eu babo por esse cara, eu posso odiá-lo, mas sempre me sinto atraída por ele, e tudo se intensifica ainda mais quando esse desgraçado aparece sem camisa na minha frente, os músculos de suas costas reluzindo com o suor que emanou do seu corpo. O detalhe de sua camisa pendurada no ombro e seu cabelo meio úmido é pedir para eu perder o juízo de vez.
Eu ouvia as batidas desesperadas do meu coração, gritando para que apenas eu ouvisse o quanto sou apaixonada por ele, o quanto ele mexe comigo de uma forma que ninguém nunca será capaz de chegar nem perto. Ele se virou e seu olhar caiu direto sobre mim, sustentei por alguns segundos, não sabendo ao certo o que eu pretendia com isso. Mas nossa conexão era algo que não estava sabendo lidar, então desviei do seu olhar, voltando para a xícara sem graça em minha frente.
— Bom dia Maxon — Marlee parecia a única a ter vontade de respondê-lo, mesmo que seja com desdém. — Venha tomar café.
— Eu só vou tomar um banho primeiro e…
— Não! — falou ríspida, franzi o cenho, sem entender minha amiga — agora você vai tomar café! — Marlee insiste firmemente.
— Mas… — Maxon se aproximou de nós, porém não deu tempo nem dele começar a próxima palavra.
— Você vai tomar café Maxon! — Marlee apertava os punhos sobre a mesa encarando seu prato, ditando as ordens com raiva. Eu fiquei com medo dela.
— Não discuta Maxon, só senta, come, e fica calado — Carter sugeriu sem paciência.
Não sei se Marlee pretendia algo ou se ela só estava pirando mesmo. Seja o que for, Maxon obedeceu indo se sentar ao lado de Celeste, deixando apenas eu e Aspen sozinhos do outro lado da mesa. Por um breve instante, eu o olhei na mesma hora que ele me olhava, e minha nossa! O rubor que deve ter subido no meu rosto pode ser comparado ao tom do meu cabelo.
Olhar no profundo dos seus olhos me fez voltar para a nossa madrugada quente, quando eu fitei o ponto mais íntimo do seu olhar e me senti a garota mais desejada do universo. Respirei fundo espantando qualquer imaginação indevida, que confunde cada vez mais meus sentimentos em relação a Maxon, que agora me olha insistentemente, deixando-me mais constrangida.
— Eu queria dizer antes de mais nada — Marlee rouba minha atenção e a de todos. — Não gosto do clima que está rolando.
— Ninguém gosta — Celeste se pronunciou pela primeira vez.
— Eu sei! — Marlee rebateu ríspida. — Eu apenas… queria pedir por um café normal — Carter me olhou, cerrei meus olhos para ele — eu sei que… — ela engoliu em seco — eu pareço bem para todos, sempre disposta e feliz a ajudar, não é que isso não seja verdade, eu amo vocês — meu coração se apertou ao ver ela segurar o choro — e eu estarei sempre aqui por todos, mas, eu também tenho sofrido com tudo isso.
Tirei meus olhos de Marlee e me voltei para o prato destinado a mim, sentindo-me péssima por mais uma vez ter sido egoísta. Ela, apesar de ser a mais sentimental entre nós, nunca demonstrou sua fraqueza diante dos nossos problemas, sempre foi forte por nós e quem disse valorizamos isso?
— Eu me sinto despedaçada nos vendo brigar, se separar — enxugou uma lágrima — eu sei que os problemas são sérios demais para resolver de uma hora para a outra, mas… eu só peço a merda de um café normal, ao nosso estilo de sempre… eu sonhei tanto com essa viagem e eu quero que pelo menos em um momento, nós estejamos bem, que esqueçamos tudo isso, só por um tempo, por favor…
Deu para notar o esforço que Marlee precisou para fazer esse pedido, e todos na mesa pareciam refletir sobre. Eu suspirei sentindo uma agonia tremenda. Eu quero fazer isso por ela, mas como?
— Marlee, você sempre tem que ser tão dramática… isso me dá nos nervos — olhei chocada para Celeste que se debruçou na mesa para alcançar uma panqueca — a sorte é que suas panquecas são as melhores, caso contrário, não sei como seria sua amiga.
A morena mordeu a panqueca como se não tivesse acabado de humilhar Marlee, mas foi olhar para a loira sorrindo que eu entendi.
Um café normal… era isso o que Marlee queria… então era isso o que ela teria.
— Eu quero saber até quando vou ficar na seca — Carter comentou como nada pegando finalmente sua panqueca.
— Eu não disse que você podia pegar — Marlee o repreendeu e teve um beijo roubado de seu namorado a fazendo sorrir.
— Eu não sei vocês, mas eu estou morrendo de fome — Aspen atacou o salgado da pilha desajeitada que Marlee montou. — E Carter, me poupe de coisas nojentas por hora, obrigado.
— Nojento é o Maxon sentado à mesa todo suado — típico do Carter jogar a culpa nos outros.
— Não discordo, mas não tive muita escolha, não é mesmo? — Maxon se defendeu, inclinando-se para encarar Marlee que lhe mostrou a língua.
— Ao menos vista a camisa, você está fedendo — Celeste fez sinal de pare com a mão quando Maxon se aproximou dela para pegar uma torrada.
Eu não via como a ideia de Marlee poderia funcionar, mas até que estava dando certo. Eu sorria feliz com a palhaçada dos meninos na mesa. Maxon estava um pouco recluso, mas ainda sim, tentava entrar na onda. Marlee como sempre repreendia Carter pelas besteiras que ele falava, e Celeste botava fogo no parquinho.
— Eu estou com uma puta vontade de ficar pelado — Carter se levantou do nada. Olhei para ele sem aguentar o riso.
— Não se atreva! — Marlee puxou seu antebraço.
— Está calor amor — Carter arrancou sua camisa.
— Era só o que me faltava — Celeste tapou os olhos com os cotovelos na mesa quando ele abaixou suas calças. — O pedido foi um café normal, não a merda de um show de streper Carter.
— Aí que está o problema… não somos normais — e ele tirou a cueca.
— CARTER! — Marlee berrou e eu tapei os olhos junto com a Celeste.
Ver Carter totalmente despido não estava na minha lista de desejo, independente dele ser tão lindo quanto Aspen e Maxon.
— Porra cara, aí não… — Aspen lamentou de boca cheia jogando seu salgado no prato com desanimo.
— Ah… bem melhor — Carter suspirou após se sentar, ignorando qualquer reclamação ao redor.
— Não é possível! Não. É. Possível! — Marlee massageou a têmpora, porém um sorrisinho estava escondido atrás de sua indignação.
— Sei que você gosta de salame no café da manhã — Carter piscou para Aspen.
— De salame, não de salsicha… — comprimi os lábios segurando a risada, assim como todos.
— Sempre suspeitei — Celeste soprou rindo maliciosa.
— O que? — perguntou Aspen, meio que ele não percebeu o que acabou de dizer. — Não! Não quis dizer isso…
— Aaah… mas você disse — Carter estava se eletrocutando na mesa de tanto rir — Maxon pode te ajudar nessa, salsicha é especialidade dele — mais risos.
— Vou te mostrar minha especialidade — Maxon sorriu convencido. Eu abaixei a cabeça, rindo de lado.
— Não, obrigado — disse Carter — meu departamento é outra coisa — ele abraçou Marlee pelo ombro dando um cheiro nela.
— Saí… — a mão dela estralou em seu ombro — ou fica na seca por mais tempo seu engraçadinho.
— Deus me livre! — Carter se afastou, levantando as mãos em rendição.
Eu disse que tudo é muito incerto. A última coisa que imaginei era rir nesse café. Esperava que o clima ruim que iniciou, se estenderia, porém não, cá estamos nós deixando as diferenças de lado, talvez porque realmente era isso o que todos queriam, mas principalmente por Marlee.
— Maxon… — todos me olharam surpresos, principalmente ele ao notar a calma na minha voz — pode me passar o café?
— Claro — demorou alguns seguros para ele responder e reagir.
Maxon sorriu fraco ao me alcançar a térmica, e então, o mais clichê aconteceu, dá até vontade de revirar os olhos: minha mão tocou a dele e… aff… maldito arrepio.
Minha atitude chocou todo mundo, mas eu queria agradar Marlee, e nada melhor que falar com a pessoa mais desafiadora para mim. Maxon sabia que tudo não passava de uma encenação, contudo, foi bom… foi legal falar como se os problemas não existissem, mesmo que ainda houvesse uma certa distância de como as coisas seriam mesmo se tudo estivesse bem. Mas nos tratando com respeito pareceu ser o suficiente para minha amiga.
O café seguiu um pouco mais silencioso depois do meu singelo pedido, que na verdade, pareceu mega significativo. Por mais que estivéssemos tentando parecer “normais”, todos estavam ciente dos graves problemas que cercam a mim e a Maxon. Me ver dirigir a palavra a ele, não era esperado.
A casa estava por nossa conta, então a limpeza e comida também. Começamos a arrumar a mesa, e de brinde, tivemos que aguentar Carter andando pelado pelos cantos. Ao menos ele tinha a decência de ficar de costas quando eu ou Celeste estávamos no seu caminho, mas pobre de Marlee, Aspen e Maxon. Esses sofreram.
Os meninos ajudaram a retirar a mesa, e eu me pegava coçando nervosa o pescoço, ora o braço sempre que Maxon e eu nos cruzamos. No meu quarto eu disse que não sabia o que faria quando o visse, e eu estou vendo-o e ainda não sei o que fazer. Eu ainda sentia raiva, tristeza, decepção, amargura. Ele conseguia ver tudo isso, Maxon me conhece bem demais para não perceber.
Eu via em seu olhar a necessidade que ele tinha em falar comigo, mas estava nítida a sua covardia, ele tinha tanto medo quanto eu.
Me prontifiquei a lavar a louça, pensando que assim que terminar aqui, eu falaria com ele, e seja o que Deus quiser. Marlee e Celeste ficaram responsáveis em secar e guardar. Os meninos, desapareceram. Sei apenas de Maxon que foi tomar banho, e um grande dilema passou pela minha cabeça se deveria ir atrás dele. Mas algo dentro de mim me impedia. O medo.
O clima entre eu e as meninas pesou, toda aquela mágoa retornou. A mesa foi um bom lugar de paz, mas as coisas não procederam assim. Eu lavava as xícaras sentindo uma agonia tremenda, Marlee enxugava os pratos encarando o nada com uma expressão preocupada, e Celeste os guardava, porém, ela estava inquieta, e eu sabia que ela não aguentaria o que está guardando.
— Eu preciso falar com vocês — ela soltou temerosa.
Continuei enxaguando sem prestar muita atenção. Eu estava magoada. Marlee também não disse nada, era como se ela tivesse tomado minha dor para ela mesma.
— Por favor, preciso que me ouçam — Celeste suplicou.
Engoli em seco, deixando a água escorrer mesmo que toda a espuma já tivesse saído da xícara ao ver Marlee furiosa tacar o pano na bancada.
— E você tem o que dizer? — A loira estava impassível essa manhã.
— Meri… — Celeste me chamou com cautela, eu continuava com a mandíbula trancada desperdiçando água na mesma xícara. — Por favor… vamos conversar. — Marlee bufou enfadada. — Qual é? Vocês não vão me dar a chance nem de explicar?
— Eu sentiria vergonha de tentar explicar o que você fez — Marlee jogou possessa na cara de Celeste, que vi pela visão periférica abaixar a cabeça.
— Bom… não importa, vão me ouvir de qualquer forma — disse Celeste orgulhosa — mesmo que decidam não olhar na minha cara nunca mais — fechei os olhos e desliguei a torneira. Eu iria ouvi-la, seja o que for que tem para dizer.
— Muito bem… — me virei e encostei na bancada. — explique-se Celeste… porque foi uma filha da puta comigo? Porque ajudou Maxon com tudo isso? Porque o encobriu para que ele fosse atrás de outra? — A raiva retorna com força.
Marlee estava encostada na bancada à minha frente, com os braços cruzados mirando o chão. A cozinha era separada dos demais cômodos, mas não deixava de ser tão glamurosa quanto o resto da casa. Havia uma porta-janela que dava acesso a lateral do terreno, móveis em todas as paredes, e uma península para refeições rápidas, onde Marlee deixava as louças para Celeste guardar.
Celeste não pareceu se intimidar com minha pergunta. Minimamente levantou as sobrancelhas, poderia jurar que era um sinal de que ela me achava uma idiota.
— Certo, para começar — disse firme — não ajudei Maxon com nada — cruzei os braços e bufei — eu não sabia do paradeiro dele o tempo todo, ok? — franzi o cenho — Assim como para vocês, foi uma novidade saber que Maxon tinha se afastado, no começo eu nem me preocupei tanto por conta dos problemas com minha mãe — talvez não fosse a melhor atitude, mas eu acabei abaixando um pouco da guarda quando Celeste lembrou dela. — Mas quando comecei a ficar tensa com o sumiço dele, investi nas ligações e mensagens para ser ignorada o tempo todo, até que um dia, ele me ligou.
Meu queixo caiu. Ele tinha ligado pra ela?
— Quando? — Disse raivosa, isso sem dúvidas só piorou o caso de Celeste.
— Um dia depois que você saiu sem avisar e… se pegou com o Aspen.
Arregalei os olhos e tranquei a mandíbula quando Celeste falou em alto e bom tom esse deslize infeliz que cometi. Me perguntei se ela não fez por maldade. Para me lembrar que eu também fui uma filha da puta com ela e assim amenizar sua culpa.
— Como é que é? — Marlee esbravejou. Esqueci completamente que ela não sabia desse ocorrido. — Você e o Aspen ficaram? Como eu não soube disso?!
— Longa história Marlee — Celeste respondeu com uma pontada de desdém, enquanto Marlee me encarava chocada.
Eu queria explicar para minha amiga, mas agora não era a hora, Celeste estava falando de algo mais relevante para o momento.
— Enfim, Maxon me ligou desesperado achando que algo tinha acontecido com você — Celeste fez uma pausa.
— E porque isso? — não me comovi, mas fiquei sem entender a preocupação.
— Você não ligou e não mandou mensagem naquele dia, e nem no seguinte — uma pausa desnecessária — queria saber se estava tudo bem com você… — interrompi Celeste bufando indignada, batendo os braços ao lado do corpo.
Perguntar se eu estava bem? Mas será possível? Ele achou que o que? Eu passei todos os dias tomando banho de sol feliz da vida? As mensagens que agora eu tenho certeza absoluta que ele viu e as centenas de ligações que eu sei que ele ignorou, não diz como eu estava, como eu estive todos os caralhos daqueles dias?
— E… bom… você já deve imaginar, gritei com ele e fiz ele ouvir tudo e mais um pouco pelo telefone. Exigi que ele parasse com isso e voltasse, deixei claro sua situação, que ele parecia saber muito bem qual era. E então ele me disse que acabaria com isso, que era para virmos para cá.
Eu estava possessa. Toda essa vinda e história de uns dias na praia foi armada. Nossa America, que novidade. Disse para mim mesma, estava claro desde o início.
— Foi isso — Celeste suspirou roubando minha atenção — ele me pediu para não dizer nada até estarmos aqui e você constatar tudo sozinha. Eu jamais esconderia isso de você por tanto tempo. Eu sou sua amiga, você é a minha família, vocês duas são — Marlee também encarou ela — eu só não disse porque era questão de tempo tudo vir à tona, e você ficaria mais ansiosa do que nunca se soubesse antes.
— Devia ter me contado no mesmo dia Celeste — uma lágrima escorreu.
— Me perdoa Meri — ela se aproximou, seu olhar embaçado e sua voz alarmada — eu não fiz isso com má intenção, eu juro. Eu só… eu só…
— Eu sei… — disse enxugando a lágrima — eu sei Cel — ela pareceu ter tirado um peso gigante das costas ao me ouvir chamá-la pelo apelido.
Eu ainda estava chateada, pois de qualquer forma, Celeste escondeu isso de mim, porém eu entendo as razões dela. Tudo ficou um pouco mais claro, e seria egoísmo da minha parte não saber valorizar sua sinceridade, visto que, ela sempre esteve comigo, e me deu apoio como ninguém, e esse detalhe, pode ser perdoado.
— Você me perdoa? — esperançosa Celeste perguntou com os olhos brilhando.
— Perdoo — sorri fraco abrindo os braços, que Celeste veio correndo se abrigar.
Era um aperto forte, mas aconchegante. Como Celeste disse, eu era sua família e ela a minha. Isso me fez lembrar de Marlee que estava logo ali observando tudo, e injustamente fora desse abraço caloroso. Bastou um olhar meu e de Celeste para ela se juntar feliz a nós duas. E só então eu percebi o quanto eu amo minhas amigas.
— Abraço em grupo? Eu também quero! — Carter surgiu na cozinha correndo até nós pe-la-do!
— Ah não! — Celeste gritou. — SOCORRO!
Berrou quando não conseguiu se afastar por Aspen chegar nos abraçando também. Ele e Carter nos mantiveram presas entre os braços deles, e seus pulos de empolgação. Eu e Marlee rindo e Celeste fazendo um escândalo por Carter estar entre ela e Marlee sem roupa nenhuma.
— Chega mais Maxon! Você também faz parte disso.
Os saltos pararam, e nossos sorrisos diminuíram. Maxon estava na abertura da cozinha nos observando de braços cruzados. Curvando o canto da boca. Rolou um clima estranho, principalmente quando ele me encarou e de certa forma, pediu permissão para participar do nosso abraço em grupo. Eu sorri sem jeito, independente de tudo, eu não tinha o direito de tirar isso dele nem de nós. Acho que foi o suficiente para Maxon entender que ele podia estar junto de nós.
Ele veio rápido, e se pôs entre Marlee e… eu… meu coração acelerou horrores quando senti seu braço descendo pelas minhas costas e sua mão pousando na minha cintura, abaixo do braço de Marlee que passava pelo meus ombros. É simplesmente arrepiante seu toque.
Mas o momento se tornou muito maior e significativo quando nós seis nos apertamos em um abraço. Transmitindo ali o amor e carinho que sentimos uns pelos outros. Pois somos sim… uma família.
— Caralho, eu amo vocês… — Carter desabafou.
— Eu também — todos respondemos juntos.
— Só não amo essa minhoca morta do meu lado — Celeste esbravejou tentando disfarçar as lágrimas, fazendo-nos rir. — Vaza Carter!
— Amor, ela me ofendeu — ele apelou para Marlee.
— Vai se vestir logo antes que eu te apelide de minhoquinha — Carter não conseguiu o amparo que queria de sua amada.
— Agora já era! — Aspen exclamou rindo. — Você a partir de agora é oficialmente o minhoquinha — disse arrancando gargalhada de todos.
— Vou te mostrar a minhoquinha seu filho da mãe! — E saiu correndo atrás de Aspen jardim a fora.
— O que eu faço com ele? — Marlee perguntou desanimada, mas sorrindo.
— Interna num hospício antes que você fique louca — sugeriu Celeste. Marlee fez cara de quem realmente pensou na ideia. — Agora vamos Lee — franzi o cenho. Onde elas iriam?
— Aonde? — Marlee perguntou confusa. Celeste arqueou as sobrancelhas indicando algo e a loira pareceu se tocar — aaah, sim… vamos… vamos ali — Marlee sorriu nervosa e compadecida.
E eu sei porque, e ficou mais claro ainda quando ele pigarreou.
— Vamos conversar?
— É… acho que sim…
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