O objetivo de uma montanha russa é nos divertir. Eu sinto que estou em uma, mas não é divertido, aliás, nada, nem um pouco divertido. Está me causando enjoo, dor de cabeça e tontura. Quando ela dá seu último rodopio, vejo uma luz ardente que cega minha vista.

Oh Deus! Seria o céu?

A luz segue queimando minha vista me despertando, percebo que estava dormindo. Abro bem de leve meus olhos cansados, vejo que a luz que me cega é da cortina aberta. Tento me levantar mas minha cabeça lateja e gira igual peão.

— Meu Deus, que sensação horrível… — Digo baixinho para mim mesma.

Volto a deitar e levo as mãos à cabeça como se assim fosse possível fazê-la parar de girar. Claro que não funcionou. Decidi ficar quieta por um tempo. Claramente eu estou com uma puta ressaca.

Vislumbres da noite anterior invadem minha mente. Sorrio com a maioria delas. O auge foi dançar com Maxon, minha boca se curva involuntariamente ao lembrar daquele momento. Depois que dançamos, eu enchi a cara, bebi uma atrás da outra e não me lembro de absolutamente nada, nem como cheguei em casa.

Em casa? Abro meus olhos assustada. O que eu mais temia nas profundezas da minha alma estava acontecendo. Sento bruscamente e me dou conta na hora.

— Não estou em casa…

Em resposta ao meu movimento brusco minha cabeça lateja. Mas logo esqueço a existência da dor quando começo a olhar em volta e passo a reconhecer o ambiente. Levo a mão à boca. Esse é o quarto do Maxon. Ao comprovar isso vendo algumas fotos na mesa de cabeceira, levo minha outra mão a boca deixando o lençol cair, sinto um ar gelado pelo meu corpo. Olho para baixo.

Eu estou pelada.

Minha Nossa Senhora eu estou pelada!

Sem pensar muito, puxo o lençol para me esconder, arrisco olhar para debaixo das cobertas, torcendo para nenhuma peça a mais estar faltando, mas acabo sentindo meu corpo gelar.

— Ai minha nossa! Cadê minha calcinha? America! O que você fez!?

Começo a me desesperar. Eu não me lembro de nada! Será que transamos? Meu Deus! Eu perdi minha virgindade e nem me lembro como foi?

Não, não, não… eu não posso ter sido tão estúpida. America que merda você fez?

Estou atordoada, encolhida na cama me sentindo pequena. Eu não podia ter sido mais irresponsável. Se meus pais descobrem, eles me matam. Mas antes, é melhor ter certeza que fiz merda mesmo, e só saberei disso falando com Maxon.

Me levanto enrolada no lençol e fui em direção do closet, mas antes uma passada rápida no banheiro para vomitar. De volta a caminho do primeiro destino, pego uma bermuda e uma camiseta. Respiro fundo e tento ajeitar meu cabelo que estava mais para uma palha velha, toda quebrada. Sem sucesso, apenas faço um coque desajeitado e vou para a porta, mas antes de abri-la, escuto vozes alteradas.

— Mãe eu não quero saber… — é o Maxon, está irritado. Parece que sua mãe está aí.

— Filho, por favor, ele é o seu pai… — sua voz é doce e calma.

— Então vá lembrar a ele desse fato, porque eu estou bem ciente.

— Faça o favor de aparecer amanhã à noite lá, se não por ele, por mim e sua irmã.

As vozes ficaram baixas, quase inaudíveis.

— Tchau mãe, foi bom te ver.

— Tchau querido. Volte pra casa, sim?

E a porta se fecha, suponho que ela já deve ter ido. Não sei o que fazer. Pelo tom das vozes, foi uma conversa séria. E se ele não estiver bem para me ver? Bom, em alguma hora isso vai ter que acontecer, afinal, estou na casa dele e ele não vai embora. Respiro fundo e abro a porta.

O que eu menos esperava era dar de cara com ele.

— Bom dia… — digo depois de uns segundos de silêncio.

— Bom dia — ele abre um sorriso de lado — dormiu bem?

— É… acho que sim, acordar foi meio complicado. — Digo sem graça.

— Imagino, deve estar com uma ressaca das boas. — Penso comigo mesma se essa é uma boa hora para estar encantada com o sorriso dele. — Vem, tem um café bem forte para você tomar e comida.

— Não precisava se incomodar. — Começo a torcer os dedos, estou nervosa, preciso perguntar o que houve ontem, mas estou morrendo de vergonha.

— Não é incomodo, anda, vem. — Maxon pega minha mão, isso me causa uma sensação tão boa.

— Sua mãe estava aqui? — Ele me olha surpreso.

America! Por que perguntou isso? Estava claro que não foi uma visita muito amistosa.

— Estava… — ele aparenta estar desconfortável na cadeira, ou com a minha pergunta — ouviu muita coisa?

— Não, só a hora que vocês se despediram. — Espero ter mentido bem.

— Aqui — ele me alcança um comprimido fugindo do assunto — é para a dor de cabeça.

— Obrigada. — Aceitei de bom grado. Estou mesmo precisando.

Bebo um gole do meu café, realmente está bem forte. Mas nada afasta as borboletas no meu estômago. Preciso perguntar mas não sei como.

— O que se lembra de ontem a noite? — Levanto minha cabeça e o olho pasma. Maxon mordeu sua maçã.

Tenho que parar de ver malícia em tudo o que ele faz. Mas não é culpa minha se ele fica super atraente de manhã.

— Era exatamente isso que queria te perguntar. — Digo mais calma por ele ter tocado no assunto primeiro — não me lembro de muita coisa depois que… bem… dançamos. — Ele ri baixo. Por que!?

— Não sei se é sorte ou azar. — Ai Deus! Porque ele disse isso?

— Porque diz isso? — Tenho certeza que estou mais branca que papel. Maxon começa rir e abaixa a cabeça apertando seu cenho com os dedos. — Ai meu Deus! Maxon, o que eu fiz? — Ele tenta se recompor.

— Não sei se sou a pessoa mais indicada para dizer. — Ele está me assustando.

— Não importa, me diga o que sabe.

— Acho melhor você falar com a Marlee. — Ele parecia constrangido também, apesar de parecer ver graça na situação.

— Eu quero saber agora, até me encontrar com a Marlee talvez demore. Conta logo Maxon, estou perdendo a paciência. — E é verdade.

— Ok, ok… — ele levanta os braços em rendição. — Bem, como posso dizer para que não soe tão terrível. — Maxon coçou seu queixo pensativo.

— Para de tentar fazer mistério!

— Bom, sem enrolação, certo? — Assinto ja estressada — Você estava arrancando sua roupa enquanto dançava em cima da ilha da cozinha. — Levo minhas mãos à boca.

— Você está me zuando, né? — Ele negou com a cabeça — a não, não, não — me levanto e começo a andar para todos os lados — como eu tive coragem de fazer isso!

— A bebida nos revela nossos desejos mais sombrios. — Ele dá risada.

— Como pode rir disso? Não é engraçado e muito menos um desejo sombrio.

— Acredite — ele se levanta — eu não achei nada engraçado, fiquei furioso com você. Mas agora, a única coisa que me resta é rir.

— Muita gente viu?

— O colégio inteiro é muita gente? — Minhas pernas amoleceram e eu me sento no chão. Levo as mãos à cabeça me negando a acreditar.

— Maxon, isso só pode ser um pesadelo. — Ele se senta ao meu lado e afaga minhas costas. — Eu cheguei a tirar muita coisa?

— Só a sua saia, Marlee conseguiu te segurar até que eu te levei à força.

— A força? — Isso está ficando cada vez pior.

— Sim — ele ri — você não queria descer de lá de jeito nenhum. Tive que te carregar como um saco de batatas. Consequência disso, são costas doloridas, você tem um tapa forte.

A culpa me consome, além de tentar me ajudar a não acabar com minha reputação, sem ter obrigação nenhuma, eu ainda o agredi.

— Me desculpa — meus olhos marejam — me desculpa mesmo.

— Ei — ele acaricia meu rosto — está tudo bem, essas coisas acontecem. Conseguimos evitar o pior pelo menos. — Maxon sorri fraco.

Ao virar o rosto para a luz que vinha da enorme janela, noto um machucado quase arroxeado no seu rosto.

— Eu que fiz isso também? — Passo a mão na ferida, ele fecha os olhos ao sentir meu toque. Maxon nega com a cabeça e abaixa se esquivando. — Então como conseguiu isso?

— Não importa, não é nada demais. — Maxon tenta fazer pouco caso, mas para mim não é.

— Claro que importa. — Fico de joelhos na frente dele. — Maxon se fui eu, me desculpe, eu juro que não sabia o que estava fazendo.

— Já disse que não foi você. — Sua voz fica mais séria.

— Então quem foi? — Por mais que ele demonstre chateação pela minha insistência, não vou desistir.

— Qual a necessidade de saber? — Juntou as sobrancelhas, como se esse assunto fosse banal.

— Qual o problema de contar? — Maxon suspirou cansado. Acho que venci essa.

— Foi o seu amiguinho, Nicholas — por instantes fico sem reação alguma — brigamos ontem, mas te garanto, ele deve estar muito pior do que eu.

O pior disso tudo é o motivo da briga, o qual eu já sei qual é.

— Brigaram por causa de mim, não é? — Ele assente.

— Ele te desrespeitou, não iria permitir. — Não sei o que pensar, fico feliz por ele me proteger, mas sem acreditar que Nicholas tenha me faltado com respeito. — Ele estava apoiando sua sessão de strip-tease se está se perguntando o que ele pode ter feito.

A verdade é que meu raciocínio está tão lento que nem me perguntei, ainda, o que Nicholas tinha feito. E agora que sei, entendo porque acham ele um babaca. Poderia responder o que acho disso, mas decido deixar esse assunto para lá, evidente que Maxon não está gostando de falar sobre isso. Não quero chateá-lo.

O mínimo que posso fazer é ajudá-lo com esse hematoma.

— Aconteceu algo mais, além desse espetáculo? — Me levanto e vou até o congelador buscar gelo. Maxon fica sem responder, ainda sentado no chão de cabeça baixa. — Maxon? Aconteceu mais alguma coisa? — Coloco o gelo dentro de um pano.

O silêncio dele inevitavelmente me assusta. O que mais eu aprontei?

— Não… — Ele não está sendo sincero. Me aproximo sentando novamente ao seu lado, apoio o gelo na sua ferida e ele recua.

— Acho melhor você ser sincero comigo e aceitar minha ajuda para desinchar esse machucado. — Sorrimos de boca fechada.

— Realmente não se lembra de nada? — Um pouco de decepção transparecia na sua voz. Volto a apoiar o gelo e Maxon não se mexe.

— Hoje eu acordei completamente nua — mais uma vez ele abaixa a cabeça para disfarçar o riso. Eu engulo em seco. — Rolou alguma coisa entre nós?

— É uma pena que você não se lembre. — Tento entender seu sorriso.

— Maxon, não me diga que a gente… — meu coração acelera.

O medo de ter feito algo a mais me assombra, seria mentirosa se dissesse que não queria. Querer eu quero, mas não embriagada ao ponto de não lembrar nem meu nome. Sem falar que eu e ele não estamos no nosso melhor momento. Não esqueci da Kriss.

— Não, isso não — suspiro aliviada — demos uns bons amassos na verdade, não vou mentir — me condeno por não lembrar — mas você insistiu bastante para irmos mais longe. — Devo estar mais vermelha que meu próprio sangue. Maxon segue rindo da minha cara.

— Como assim insisti para irmos mais longe? — Como eu consegui abrir minha boca para falar?

— Bem… — Ele coça sua cabeça — Você até me acusou de ser viado por dizer que não podiamos continuar. — Eu estava possuída, só pode. — Foi difícil se controlar, admito.

Encarei o chão, um misto de todos os tipos de ansiedade me representam nesse momento. Não consigo nem imaginar tamanha ousadia da minha parte.

— Nem sei o que dizer.

— Tambem pediu para eu dormir com você, mas fique tranquila, esperei que dormisse e fui para o outro quarto. Prefiro omitir certos detalhes se não se importa.

— Claro, acho melhor ficar sem saber também — o olhar de Maxon é compreensível, mas não deixo de notar a tristeza.

Fico feliz com suas demonstrações de cavalheirismo. Mesmo depois de tudo, ele ainda cuidou de mim, me respeitou e lutou contra seus próprios instintos. Por mim.

— Eu nunca mais vou beber. — Uma promessa vaga obviamente.

— É melhor… — Damos leves gargalhadas.

— Obrigada por cuidar de mim. — Seu sorriso bastou para me fazer ver que ele entendeu o tamanho da minha gratidão.

Se Maxon soubesse a confusão que está na minha cabeça. Primeiro, a bebedeira de ontem, com acontecimentos traumáticos que não lembro de terem acontecido. Descobri que me insinuei para ele da forma mais vergonhosa. E além disso, há os meus sentimentos. Estou tão agradecida por tudo que ele fez por mim, sinto essa paixão avassaladora que não duvido ser amor. Tenho uma vontade incontrolável de estar sempre ao seu lado. Mas a traição... a traição é algo que não consigo esquecer.

Maxon está tão pensativo quanto eu, não imagino o que passa na sua mente, mas deve ser algo que o está incomodando, pois não para de passar as mãos no cabelo e apertar os dedos.

— Sabe… — começa meio receoso — talvez não seja a melhor hora para falar sobre isso, mas… — Maxon pigarreia — você me perguntou porque te trai com a Kriss.

Fico em choque, não imaginei que seria esse o assunto e muito menos que eu tratei de falar sobre isso com ele no meio da minha bebedeira.

— Você realmente pensa isso? Pensa que eu fui capaz? — mágoa é o que sua voz reflete.

Eu sinto meu coração apertar, a raiva e a dor misturando-se dentro de mim. Essa é a verdade, mas tem passado a ser uma verdade inserta para mim. Tento responder, mas minha voz sai trêmula.

— Eu... eu não sei, Maxon. Eu não sei mais o que pensar. — Maxon se levanta abruptamente, sua frustração evidente.

— America, não acredito nisso. Você sabe que ela não presta e prefere acreditar nela do que em mim? — Eu me levanto também, tentando manter a calma, mas minhas emoções estão à flor da pele.

Me irrita o fato dele fazer tão pouco caso do que eu senti.

— Você não viu o que eu vi. Estava tudo bem, eu estava mais feliz do que nunca. Mas então eu abro aquela porta e o vejo aos beijos, agarrando ela seminua, sabendo que vocês já têm um belo histórico, que aquele lugar é onde você leva todas suas "amigas íntimas".

De um momento descontraído rindo das minhas palhaçadas, passamos para um momento delicado, uma discussão séria, de um assunto sério, onde ambos estão chateados.

Onde isso vai chegar eu não sei.

— Sim, eu já levei outras pessoas lá antes de você, mas depois que você apareceu, tudo mudou. Você acha que eu continuaria com isso?

— Como posso acreditar em você, Maxon? — pergunto, minha voz elevada. — Eu vi com meus próprios olhos. Como você explica aquilo?

Maxon respira fundo, a frustração clara em seu rosto.

— Kriss planejou tudo, em segundos tirou a camisa e me beijou de surpresa! Eu estava tentando afastá-la, mas você entrou justamente no pior momento. Você realmente acha que eu queria estar lá? Que eu queria aquilo?

— Você acha que é fácil para mim? — pergunto, sentindo a dor se intensificar. — Ver você com outra pessoa, ainda mais depois da noite maravilhosa que tivemos, de todas as coisas bonitas que você me disse?

— Não, America, eu não acho que é fácil. — Maxon diz, sua voz carregada de emoções. — Mas você precisa entender que eu nunca faria isso com você. Eu nunca trairia sua confiança desse jeito.

As lágrimas começam a escorrer. Maxon se aproxima com cautela e segura meu rosto com as suas mãos. Meu corpo está estático, sem resposta alguma dos sinais enviados pelo meu cérebro para se afastar, provavelmente porque no fundo, é bem ali que eu queria estar.

— Por favor, você tem que acreditar em mim — a proximidade que ele faz questão de deixar entre nossos olhares me deixam sem ar — você não sabe o quanto doi ver que você duvida do que eu sinto por você, que não confia em mim. — Ele fecha seus olhos expressivos e faz nossos narizes se tocarem.

Me permito fechar os olhos também e me entregar aquela troca de sentimentos, que ocorre de forma tão sincera e singela. É inevitável. Começo a chorar. Ele está dizendo a verdade, sei que está. E mais uma vez eu ferrei com tudo. Mais uma vez!

— Não chora linda, por favor! — Seus braços me entrelaçam, mas não me sinto digna deles. — Não sei o que fazer quando mulheres choram. — Isso me arrancou um pequeno sorriso.

— E-eu não mereço você Max… — Maxon me aperta e beija minha testa.

— Não diga isso. — Sua mão coloca uma mecha rebelde atrás da minha orelha — Não diga isso porque não é verdade.

— É sim! Outra vez eu deixei minha raiva e meu ciúme me cegarem, pensei o que quis como da outra vez ignorando seus sentimentos, que sempre foram sinceros. — Evito encará-lo, acho que nem dançar nua em público abate a vergonha que estou sentindo agora.

— Eu não me importo com isso desde que me prometa não fazer de novo, desde que você nos dê mais uma chance. — Maxon faz com que eu o encare. Suas emoções claras como água. — Eu quero ficar com você America, desejo você, preciso de você… sabe… — ele chacoalha a cabeça sorrindo, depois me fitou profundamente — quero que formemos um “nós”.

Meus olhos se perdem nas lágrimas que escorrem silenciosamente pelo meu rosto, evitando piscar, com medo de perder o momento em que seus olhos castanhos me contemplam com devoção e esperança. A sensação de ser amada, desejada e admirada por ele preenche meu coração de uma forma tão maravilhosa, como nunca havia sentido antes.

— Acha possível formarmos um bom “nós”?

Maxon riu da minha pergunta.

— Formaríamos um maravilhoso “nós”!

Sem mais esperar, Maxon une nossos lábios. A intensidade desse momento é indescritível. Nos perdemos um no outro com tanta voracidade, já odiando o fato que esse instante uma hora vai acabar. Nos beijamos com fervor, com desejo e também com muito carinho. Meus braços envoltos no seu pescoço se recusam a soltá-lo, assim como suas mãos me prendem com delicadeza.

Mas tivemos que nos separar ofegantes. Precisávamos tomar um ar. Nossas testas coladas, olhos fechados e gargalhadas de felicidade saíam de nós. Não faço a menor ideia de como fomos parar no seu sofá. Eu por cima e ele por baixo. O que sei, é que sinto-me flutuar quando estou em seus braços.

— Eu senti tanto a sua falta. — Maxon sussurra de uma forma gostosa no meu ouvido.

— Eu também…

Um momento perfeito, uma reconciliação perfeita. E uma promessa silenciosa de que não iremos permitir que mais nada nos separe.

Uma pena o celular dele não parar de insistir no toque irritante.

— Acho melhor você atender. — Digo acariciando sua nuca ainda por cima dele com uma perna de cada lado.

— Pois é… — ele suspirou desanimado. Me dá um beijo rápido e se estica para pegar o celular — é a Marlee. — Maxon vira a tela onde mostrava seu nome e então atende. — Oi Marlee.

No fundo consigo ouvir que ela pergunta por mim. Cochicho e gesticulo para ele por no viva-voz.

Viva-voz on:

— Sim ela está aqui.

— E ela está bem?

— Acordou meio mal mas já está bem melhor. — sorriu malicioso pra mim e eu lhe dou um tapa.

— Que ótimo, porque ela ta muito ferrada. — Meu sangue congela e passo a apurar meus ouvidos para escutá-la melhor.

— Por que diz isso? — Maxon também se preocupa.

— A mãe dela está ligando para mim e para Celeste desesperada, disse que a America não deu sinal de vida desde ontem a tarde, está querendo chamar a polícia.

Apenas fecho os olhos com força. Eu estou ferrada. Muito ferrada. Dona Magda vai me comer viva.

— E você disse o que? — Me intrometi na conversa.

— Ah! Oi Meri, como está?

— Bem. — Respondo na lata sem me importar em cumprimentá-la. Tem uma corda no meu pescoço. — O que você disse pra ela Marlee!? — O desespero me representa muito bem agora.

— Que você dormiu na casa da Celeste — senti um pouco de alívio — mas… — a não — Celeste disse que você dormiu na minha casa, isso já ferrou com tudo né, mas como somos vizinhas, sua mãe foi lá te procurar e meus pais disseram que não viram nem sua sombra.

Nem respondi. A imagem da minha mãe surtando, querendo chamar “o esquadrão menina ruiva desaparecida”, que ela daria um jeito de criar apenas para me encontrar passa pela minha cabeça.

— Obrigado Marlee, ela já vai para casa. — Maxon responde por mim.

— Boa sorte Meri, tchau Maxon.

Ligação off

— Eu to muito, muito ferrada. — Apoio minha testa no ombro do Maxon.

— Eu nem lembrei de inventar alguma coisa para sua mãe. Desculpa. — Meu coração se aperta por Maxon se sentir culpado.

— Não é culpa sua — volto a ficar de frente com ele — eu é que fui irresponsável.

— O que vai fazer?

Me jogar de uma ponte? Entrar na frente de um trem? Poupar minha mãe de me matar parece uma boa solução.

— Não sei… — suspiro cansada — acho que só chegar em casa e ver a bomba explodir.

— Posso ir com você. Posso explicar para ela que passou a noite na minha casa, minha mãe pode te acobertar.

Eu já disse que ele é perfeito?

— Você é muito fofo mas minha mãe não sabe ainda de você. Se aparecer lá, ela vai me matar por desaparecer, me ressussitar, e me matar de novo por não contar que você resurgiu desde que cheguei em Angeles.

— Você ainda não contou de mim? — Perguntou surpreso.

— Contei para a May e meu pai, para minha mãe ainda não. Eu preciso ir, ela deve estar infartando. — Me levanto do colo dele, Maxon vem logo atrás. — Viu o meu celular?

— Acho que está no quarto junto com suas roupas.

Vou buscar e para minha alegria, ele está sem bateria e a tela quebrada. Nem me atrevo a por ele na tomada, não quero saber a quantidade de chamadas não atendidas e mensagens não visualizadas. Minha roupa não está nos seus melhores dias também. Cheira a bebida alcoólica. Mas é o que tenho.

— Espero que minha mãe não sinta o cheiro. — Digo olhando para Maxon.

— Quer que eu vá comprar alguma roupa para você? Posso ir rapidinho na primeira loja que eu achar. — Fico toda boba com a preocupação dele.

— Não precisa Max. — Beijo a ponta do seu nariz e vou até o banheiro.

Visto minha roupa de ontem, lavo meu rosto, tento dar um jeito no cabelo mas não dá pra fazer muita coisa. Talvez eu passe em uma loja comprar uma roupa como Maxon sugeriu. Eu estou louca se acho que minha mãe não vai perceber o puro álcool que emana dessa porcaria.

Saio do quarto e Maxon está me esperando no sofá mexendo no celular. Seu cabelo em uma perfeita bagunça. Lindo, ele é lindo.

Não demora muito para ele notar minha presença e, nossa, ele me mede com o olhar mordendo seu lábio inferior. Sei que minha roupa é provocante.

— Nossa… — ele se levanta e vem ao meu encontro — você não sabe a vontade do que eu estava ontem vendo você tão gostosa assim — dou risada. Maxon me prende na parede apoiando suas mãos na mesma, na altura dos meus ombros — aliás, que eu ainda estou.

Seu olhar me admirando dos pés a cabeça contém muita malícia, sua boca entreaberta de uma forma sexy me faz esquecer meus propósitos. Mas perco a razão de vez quando ele se aproxima e beija minha bochecha, roça seu nariz de forma suave até minha orelha, e desce aos beijos em toda altura do meu pescoço, me fazendo arrepiar e desejar por mais.

Maxon escorrega suas mãos pela lateral do meu corpo, apertando de leve minha cintura. Fecho meus olhos suspirando pela sensação maravilhosa que suas carícias fazem meu corpo sentir. Sua boca se junta com a minha em um beijo muito sensual, nossas linguas trabalham muito bem juntas. Suas mãos sobem juntas até os meus peitos e os apertam me arrancando baixos gemidos.

Arranhei seu abdômen por cima da camisa chegando na barra do seu short de moletom. O puxei para mais perto, nossas bocas ainda unidas, desci um pouco mais minha mão pegando com vontade no seu membro já bem desperto. Maxon suspira e me pressiona ainda mais na parede.

“America sua mãe!”… Penso comigo mesma.

— Max… — tento falar entre a nossa pegação. — Max eu não quero, mas preciso mesmo ir.

Vejo ele usando todas as suas forças para se conter.

— Sim, está certo… — ele engole em seco, se afastando aos poucos. — Vou sentir saudades.

Alargo meu sorriso e o abraço.

— Eu também vou…

— Podemos fazer algo hoje a noite, o que acha?

— Eu vou adorar. — Damos um beijo contido — Tenho que ir.

— Eu te acompanho.

Saio na frente e levo um belo tapa na bunda. Se eu gostei?

Não, eu adorei.

Olho por cima do ombro cheia de segundas intenções. Mas nós dois sabemos que a cada minuto que passa, é um minuto a mais que minha mãe vai passar apertando meu pescoço.

Maxon me acompanhou até meu carro. Falei que não precisava, mas ele insistiu, disse que precisa cuidar do que é dele. Também insistiu para ir falar com minha mãe, mas isso no momento não vai ajudar.

No caminho de casa, várias coisas passam pela minha cabeça.

A noite anterior. Relances de Marlee dando tapas na minha cara, de conversas e pegações entre mim e Maxon no carro. Dele me carregando até o banheiro. De eu vomitando no banho. Não sei dizer se isso aconteceu ou não, mas estou tendo vislumbres de nós dois declarando nosso amor um para o outro.

Sorrio com essa ideia, que dá espaço para a lembrança da nossa conversa de agora a pouco. Nem dá para acreditar que nos resolvemos. Estava convicta do nosso fim, mas parando para pensar, era até óbvio essa reconciliação.

Eu não consegui parar de pensar e desejar ele um segundo sequer. Quem nos conhecia, não duvido que apostaram que logo estaríamos bem. Mas admito que não estou cem porcento segura, tenho medo de algo voltar a acontecer. Tudo é possível. No entanto, me esforçarei para evitar.

— Ai Deus… socorro… — digo para mim mesma ao virar a rua da minha casa. — Se for o meu fim, me perdoe por ter colado chiclete no cabelo da Kriss.