Acho que nunca fui tão despreparada. Meu raciocínio realmente está bem lento.

Vim pensando o caminho inteiro no que aconteceu de ontem para hoje, que esqueci de parar para comprar uma roupa decente e preparar uma boa desculpa. Só lembrei desses detalhes agora, que cheguei na garagem de casa.

O que me espera quando subir as escadas, e abrir a porta que dá para um hall que leva para a sala de jantar? Não sei.

Não há mais o que esperar, estou nesse carro a mais de dez minutos, pensando nas mil maneiras que minha mãe pode acabar com a minha vida, sem ser descoberta e punida por homicídio.

Respiro fundo e penso comigo: é agora.

Subo as escadas, abro a porta que dá para o pequeno hall, onde deixo meus sapatos. Fecho os olhos com força e crio coragem para adentrar na sala, e como já esperava… toda minha família estava ali, sentada à mesa, de frente para a porta. Eles criaram uma ceninha antes do sermão.

Ali estavam os quatro, uma hierarquia perfeita. Meu pai, minha mãe, May e Gerad. Cada um expressando uma emoção diferente. Meu pai compaixão, minha mãe estava impassível. Assim que olhei para May, ela passou seu dedo indicador pelo pescoço rindo do futuro cadáver da família, mamãe dá um cutucão nela. E o Gerad? É o Gerad, não estava entendendo nada.

— Oi Ames! — Meu irmão me diz empolgado, mal sabe ele o que está para se iniciar.

— Bom dia… — respondo meu irmão tentando ser simpática — Bom dia família, como estão? — Talvez se eu fingir que está tudo bem…

— Bom dia… — esse bom dia da minha mãe, não soou como uma resposta ao meu cumprimento, e sim, como o início de uma peça de teatro. — Bom dia é algo que eu e o resto da família gostaríamos de estar tendo, nessa bela manhã de sábado… — Dona Magda fala como uma sonhadora.

May abaixa a cabeça e se encolhe para esconder a risada, apenas percebo seus ombros se movimentando de cima para baixo compulsivamente. Está para nascer um dia, que May terá compaixão de mim.

— Sabe… — minha mãe se levanta e eu estremeço — nós, mães, carregamos nossos filhos por nove meses… — interrompo minha mãe ao bufar e revirar os olhos, é sério isso, ela vai mesmo vir com essa?

Minha mãe me paralisa apenas com a fitada que me lança. Eu lia através dos seus olhos: escuta calada ou você já era agora mesmo.

— Como ia dizendo… carregamos nossos filhos por nove meses no ventre, românticos podem achar que é o período mais belo e prazeroso — Dona Magda tem um sorriso falso enquanto fala — mas mal sabe esses imbecis iludidos, que não é bem assim, é um período terrível! — Mamãe me olha segurando o encosto da cadeira a sua frente.

Meu pai está de cabeça baixa, May, a filha da mãe, estava vermelha comprimindo os lábios e soltando lágrimas já que não podia soltar suas risadas. Gerad mexia no celular.

— Ficamos os primeiros meses enjoada, vomitando até pelo nariz — não consegui evitar a cara de nojo — não bastando essa humilhação… dores nas costas e cansaço constante, como se não precisássemos seguir com a vida… mas bom se fosse apenas isso, ainda temos que aguentar surtos hormonais! — Isso eu acho que ela tem até hoje.

Me pergunto para que esse discursinho, eu sei que estou errada, me dá logo uma surra e está tudo bem.

— Mãe, eu já enten… — ela bate com força na mesa, assustando a todos que já estavam tão cansados quanto eu da sua ceninha.

— Não me interrompa! — Exclama ela apoiada com os braços na mesa. Assenti rapidamente. — Após nove meses, para o serzinho surgir ao mundo e ver a luz, temos que passar por uma dor imensa, e!... Ou ser arregaçadas ou mutiladas. O que é pior eu não sei… — ela dá de ombros — mas sabe o que é mais surpreendente? — Realmente ela espera uma resposta.

Nego com a cabeça.

— É que, apesar de todo o sofrimento, amamos esse serzinho mais do que a nossa própria vida. — Mamãe sorri com sinceridade. — Mesmo que eles destruam nosso físico e suguem toda nossa energia ao longo do crescimento, nós, mães… sempre encontramos forças para vocês. — Uma lágrima escorre pelo seu rosto.

Meu coração se aperta, sinto meus olhos marejarem. Meu pai ainda não me encarou, May cessou suas risadas ficando séria. Gerad não entende nada.

— E mesmo com tudo isso! — Sua voz se exalta — O que vocês querem fazer comigo? — Dessa vez não era para responder — ME MATAR! ME MATAR DO CORAÇÃO!

— Mãe… — tento falar mas ela me barra com um sinal da sua mão.

— Não diga NADA! America… — me encara séria — você não tem NOÇÃO! Do que seu pai e EU! Passamos essa manhã. Procurando você por todos os cantos, temendo receber uma notícia que você se matou com aquele carro, que foi sequestrada, ou qualquer coisa do tipo…

Entendo a preocupação dos meus pais, por isso, apenas abaixo a cabeça e recebo a bronca. Não há o que fazer, não tem como fugir dessa.

— Vou te perguntar apenas uma vez… — respira fundo — CUSTA AVISAR ONDE ESTÁ E COM QUEM!? — minha mãe está vermelha — EM! CUSTA AVISAR!?

— A senhora perguntou duas vezes mamãe… — Gerad colocou sua própria corda no pescoço agora.

Ele saiu correndo após minha mãe o olhar. Ela tem esse poder de nos comunicar o que quer, só com uma encarada.

— Mãe, meu celular acabou a bateria e… e… — e agora? O que eu falo!

Desespero, medo, pavor, ansiedade, angústia e todos os sinônimos possíveis me representam.

Eu não pensei o que dizer. Meu Deus, o que eu falo?

— Estou esperando… — mamãe cruza os braços e bate o pé no chão, o som da sua sandália me deixando mais nervosa. — Onde estava esse tempo todo?

Eu não sei o que inventar, estou muito nervosa e minha mãe está batendo cada vez mais rápido o seu pé.

Vou dizer a verdade, que estava com o Maxon, mas qual vai ser a reação dela?

— Já está bom Magda — meu pai se pronuncia pela primeira vez — o importante é que ela está bem, e você está apenas a assustando.

— Por favor Shalom! — Ela esbraveja — Assustada estou eu!

— Eu sei querida, se acalme… — meu pai beija sua testa. Incrível como apenas ele consegue conter minha mãe. — Eu converso com ela, você está muito exaltada, vá descansar, sim?

— Saiba que essa conversa não acabou mocinha — mamãe aponta para mim. Engulo em seco e solto o ar que devia estar preso desde que essa conversa começou — da próxima vez que fizer algo assim, você nunca mais vai ver a luz do dia — dramática como sempre — e faça o favor de vestir uma roupa descente — ela me mede com o olhar — nem vou dizer o que está parecendo.

E saiu. O alívio foi instantâneo.

Logo vou me sentar, pois sentia que ia cair. Meu pai pega o lugar na minha frente, e coloca as mãos sobre a mesa. Começo a chorar.

— Pai… — seco algumas lágrimas — me desculpa, eu não queria preocupar vocês.

— Eu sei querida — respiro fundo — só não nos faça passar por isso de novo. — Toca minha mão. — Realmente ficamos preocupados, é uma cidade nova, que você não conhece. Sair para uma festa onde tenho certeza que a maioria dos jovens são irresponsáveis, e não avisar que vai dormir fora de casa, é pedir para sua mãe surtar e nos enlouquecer.

Rimos da sua quase piada. Papai sempre foi muito compreensível e mais maleável para conversar.

— Vai me contar onde estava e com quem? — Torço meus dedos nervosa.

Meu pai já sabe de Maxon, não tem porque mentir para ele. Respiro fundo antes de falar.

— Com o Maxon… — papai arqueia as sobrancelhas — não é nada disso que o senhor pode estar pensando — talvez ele não estivesse pensando, e agora está.

America sua burra!

— Quero dizer… ele me ajudou apenas. — É, eu sou uma imbecil, pelo seu sorrisinho sacana, notei que papai já percebeu que está rolando alguma coisa.

— Te ajudou como? — Um pouco de preocupação tinha em sua voz.

— Eu bebi, digamos que… um pouco além da conta — papai cruza os braços — desculpa pai, o senhor sabe que não sou de fazer essas coisas, aconteceu sem que eu percebesse — falo tão rápido que quase eu não me entendo — eu estava sem condições para dirigir, Maxon se prontificou em me trazer pra casa, mas fiquei com medo da mamãe brigar comigo por chegar bêbada e pedi pra ele deixar eu dormir na casa dele. — Vou me limitar a dizer isso. Distorci um pouco os fatos, afinal, nem me lembro se foi assim ou não.

— Tudo bem gatinha, não estou chateado e nem bravo com você — seu sorriso é tão reconfortante — você é jovem, tem direito de fazer suas loucuras, sua mãe também fez as dela e talvez seja por isso que ela se preocupa tanto com vocês.

— Mamãe fez loucuras? — Pergunto chocada, sem acreditar que ela já saiu da linha.

— Ah sim! — Meu pai ri provavelmente se recordando de alguma aventura. — Uma vez, estávamos em uma festa, sua mãe tinha bebido bastante e estava chateada com um professor que pegava no pé dela, então ela decidiu sequestrar o cachorro dele. Sua mãe o depilou por inteiro deixando alguns tufos com o desenho de um… é… — meu pai coça a cabeça constrangido, fiquei boquiaberta, porque estou achando que é de um penis?

— Eu acho que entendi pai — dou risada — não precisa concluir. — Papai agradece sem dizer nada.

— Sobre Maxon — apoio meus cotovelos na mesa e tapo meus olhos nervosa — está tudo bem entre você e ele?

— Digamos que conversamos e estamos bem sim. — Dou um meio sorriso.

— Filha… — meu pai pigarreou — sei que não sou a pessoa mais indicada — pigarreou novamente — mas você sabe se cuidar em relação a essas questões, não é? — Fico vermelha — Digo… em relação a essas questões de relação íntima entre um homem e uma mulher…

Como uma bronca, a qual eu tinha uma grande chance de sair sem vida, chegou no tema sexo? E com o meu pai!?

— Eu sei que pode ser um pouco constrangedor eu perguntar isso filha — meu pai gesticula nervoso com as mãos — mas eu sei que sua mãe não é muito de conversar, e quando conversa não é uma conversa…

— Pai… — o corto. Apesar de achar fofo sua preocupação, não me sinto nem um pouco confortável de falar sobre esse assunto — eu sei me cuidar sim, fica tranquilo.

— Ah! Claro filha! — Meu pai se alivia — Desculpe me intrometer em algo tão íntimo, mas precisava ter certeza.

— Sem problemas…

— Então, se está tudo bem entre os dois… acho que já está na hora de contar a sua mãe e ele nos visitar, não acha?

— É acho que sim. — Digo sem muita confiança. — Será que a mamãe vai se zangar muito por eu não ter falado antes?

— Talvez — papai sorri — mas daremos um jeito de acalmá-la.

Após essa conversa com meu pai, subi para meu quarto aliviada. Vou correndo tirar essa roupa vulgar e fedida. Tomo um belo banho e me deito na cama. Estava em um ótimo sono quando lembro do meu celular e de Maxon que devia estar super preocupado com meu sumiço.

Coloco meu celular na tomada, o joguei na cama assusta com o tanto que ele vibrava. Olho para as notificações que não paravam de aparecer. Tem dos meus pais, principalmente da minha mãe que começou a chegar a partir das quatro da manhã e foram se intensificando a partir das sete. Ligações eram inúmeras. May e Marlee também enviaram mensagens hoje de manhã, querendo saber onde eu estava. Fotos, recebi muitas fotos até com pessoas que nunca vi na minha vida.

— Meu Deus America! — Digo para mim mesma ao ver fotografias minhas dançando na ilha. Até então não tinha acreditado, mas eis a prova.

As últimas notificações eram dele, sinto um frio na barriga e o sorriso escapa sem nem pedir permissão.

Mensagem on

Maxon: Oi linda, chegou em casa?

Maxon: Como estão as coisas?

Se passaram cinquenta minutos.

Maxon: Sei que sua mãe deve estar falando bastante, mas estou ficando preocupado.

Um pouco mais de uma hora.

Maxon: America?

Duas horas e meia.

Maxon: Seria muito legal da sua parte dar um sinal de vida!

Quem me visse nesse moemento me chamaria de idiota, pelo sorriso bobo no meu rosto.

Me sinto tão bem por ele se preocupar comigo.

America: Oi Max

Estava digitando “estou bem”, mas ele nem me deu tempo de enviar.

Maxon: Finalmente!

Maxon: Estava preocupado.

America: Está tudo bem.

America: Minha mãe me deu uma baita bronca, mas está tudo bem agora.

Maxon: Que bom! Fico mais tranquilo…

Maxon: Que horas posso te buscar?

Tinha esquecido que ele me chamou para sair.

America: Que tal as dezoito?

Maxon: Ótimo!

America: Estou contando os segundos…

Maxon: Eu também…

Mensagem off

— Que cara de idiota é essa? — Fecho meus olhos respirando fundo.

— Se veio rir da minha cara, é melhor ir embora, não to afim de conversar.

— Não quer conversar porque está chateada pela bronca da mamãe ou porque está falando com o gostosão? — Ela se joga na minha cama.

— Você é impossível garota! — Digo rindo da minha irmã.

— É… ta falando com o gostosão do Maxon, se resolveram, por fim?

— Não é da sua conta. — Só quero deixa-la irritada. May adorou me ver levando uma bronca.

— É da minha conta sim! — Usou um tom autoritário. — Vai me conta… o que rolou ontem? Onde estava que não voltou para casa?

— Quer mesmo saber? — May chacoalha a cabeça com empolgação afirmando.

Conto para minha irmã os detalhes da festa ontem, e da minha reconciliação com Maxon. Durante nossa conversa, as risadas foram incontroláveis, principalmente quando mostrei as fotos. Adoro nossa relação e a facilidade da nossa comunicação. Apesar de trocarmos “farpas”, nós somos melhores amigas.

— Me conta como vai o seu namoro. — Pedi.

— Estava esperando você perguntar. — May se ajeita animada na cama — Você não tem ideia de como o Henri é fofo e romântico — nunca imaginei ver minha irmã tão apaixonada — entre nós está tudo bem, tanto que estou pensando em apresentar ele para a família.

Me engasguei com a própria saliva.

— O que foi? — May franze o cenho confusa.

— May, sabe perfeitamente que a mamãe não vai gostar nada. Ela sempre disse que você é muito nova para essas coisas.

— Idai? — Esbraveja — Eu gosto dele, quero namorar sério.

— Você sabe que Dona Magda vai dizer que você só tem quatorze anos, que ainda é uma criança — ela enche a boca com palavras, as quais eu já sabia quais eram, por isso não a deixei falar — sei que você não é mais uma criança, e saiba que eu te apoio, mas não é assim que nossa mãe vê.

Ela abaixa a cabeça me dando razão.

— Meu conselho é. Se quiser ter paz na sua vida, siga ficando com ele só na escola e tendo encontros mais reservados, não faça nenhuma besteira para ninguém surtar, explica a situação para o Henrique. Esse período pode ser bom para vocês se conhecerem melhor.

— Isso não é justo — May suspirou desanimada — mas você tem razão, mamãe vai surtar, mas como dependo dela para ter o que comer…

— May! — Dou risada e um fraco tapa em sua perna — Não seja interesseira. — Ela ri.

— Eu sei, estou brincando. — Suspira com um pequeno sorriso. — Que droga, não é? — Tento entender o motivo do seu protesto — Se eu não posso nem namorar, imagina transar…

— May Singer! Por Deus! — Repreender e rir é a única coisa que consigo fazer diante do que ela disse.

— O que é America! Minha amiguinha tá piscando faz tempo!

Socorro!

Eu definitivamente não sei lidar com a minha irmã.

[...]

No almoço não consegui comer muito, meu estomago do nada passou a ficar enjoado por conta da ressaca, claro que disfarcei da melhor forma possível. Imagina se minha mãe descobre o fiasco de ontem! Ai sim estarei morta.

O silêncio é torturante, mamãe parecia querer morder o garfo a cada bocada que dava, me olhando com raiva. Papai incomodado com a situação, começa a falar para aliviar..

— Amanhã temos um jantar, é mais de negócios do que para distração. Mas é importante toda a família estar presente. — Diz meu pai cortando sua carne. — Então, estejam todos prontos.

— Kenna e Kota também estarão? — Pergunto, já me arrependendo. Minha mãe me encarou como se minha voz fosse um insulto.

— Apenas o Kota filha. Kenna está viajando com James.

— Esse jantar vai ser um saco! — May diz aborrecida batendo o talher no prato.

E eu concordo. Sempre que precisamos acompanhar nossos pais nesses jantares ficamos no tédio. A não ser quando tinha um garoto bonito. Precisava apenas dar um sorriso para nos encontrarmos em um corredor e se beijar o jantar inteiro. Mas agora eu acho que estou com o Maxon, não vou ficar me engraçando com ninguém.

Parece até que estou em depressão. Após o almoço subi para o meu quarto e aqui estou no maior tédio. Quase que literalmente contando os segundos para a hora que meu dia vai ficar interessante. Até pensei em já começar a me arrumar, mas ainda é cedo.

Olho para o teto caçando o que fazer. Absolutamente nada me vem à mente. Fuço o celular, minhas redes sociais, não há nada de interessante. Até que me lembro da minha adorável amiga Celeste. Ela foi a única a não se preocupar com o meu sumiço e até o momento não me deu sinal de vida. Isso me deixou levemente preocupada.

Decido ligar e ver se está tudo bem.

A ligação chama mas ninguém atende. Tendo pela segunda vez e novamente não atende. Começo a ficar preocupada de verdade. Celeste vive grudada no seu celular. Ligo outra vez e ela recusa minha chamada, começo a me desesperar e ligo de novo.

Graças a Deus ela atendeu. Mas acho que não liguei em uma boa hora.

— Caralho America! Eu estou transando, não enche a porra do saco! — E desliga.

Nunca me senti tão constrangida na vida. Devo estar como uma pimenta pois sinto minha pele queimar de vergonha. A única coisa que desejo é conseguir apagar os sons que ecoaram daquela ligação. Definitivamente escutar minha amiga transando não estava na minha lista de desejo.

Depois dessa eu decidi começar a me arrumar. Tomei um longo banho, que levou cerca de mais de uma hora, onde eu me depilei, afinal, não sabia onde essa noite poderia chegar, e eu estou contando que ela vá bem longe. Hidratei meu cabelo e minha pele. Sequei meu cabelo e fiz ondas com o babyliss.

Estava decidindo minha roupa, vestida com um roupão encarando meu closet, quando mamãe chega a minha procura.

— Onde você pensa que vai? — Cruza os braços e me olha de cima a baixo.

— Vou sair com minhas amigas. — Minto na cara dura, mas não me orgulho.

Mamãe assim que eu digo, passa a rir sem sentir graça, chegava a ser uma risada maléfica. Eu já entendi o que aquilo queria dizer, mas eu realmente não queria acreditar.

— Acha mesmo que você tem permissão para ir a algum lugar depois do que fez? — Ela cruza os braços convencida. Eu já estava querendo chorar de desespero.

— Mãe, por favor! — Começo a implorar. Não quero perder meu encontro com o Maxon. — Eu aprendi a lição, prometo não deixar de dar notícias, mas eu imploro, me deixe sair hoje…

— O que tem de tão importante hoje? — Engulo em seco.

— Não é nada demais — é tudo pra mim na verdade — marquei de sair com as meninas, Celeste não está muito bem, precisa de nós.

— Então ela que se console apenas com a Marlee, você não sai daqui hoje, nem que fosse obrigada. — Mamãe me dá as costas se retirando do quarto.

O que ela veio me dizer antes de me proibir de sair eu não sei, e nem me importa. A única coisa que sei é que uma tristeza e raiva sem tamanho crescem dentro de mim, pois vou ter que desmarcar com o Maxon.

Estava tão ansiosa pelo nosso encontro. Estou com tanta saudade, foi tanto tempo separados e brigados. Quero ele perto.

Alternativas começam a passar pela minha cabeça, eu poderia fugir, May me acobertaria, mas e se eles descobrem? Ai que eu não vejo a luz do dia nunca mais. Tendo pensar em outras manobras para fugir desse castigo, mas todas envolvem mentiras, e a coragem para colocá-las em pratica esta me faltando.

Sento no chão encostada na cama, soltando um longo suspiro de frustração. Uma lágrima solitária escorrega pelo meu rosto ao pegar meu celular, tenho que avisar ao Maxon para não vir me buscar.

Mensagem on

America: Oi Max, como está?

Ele não demora muito a responder.

Maxon: Oi linda, estou bem e você?

America: Não podia estar pior…

Maxon: O que houve?

Maxon: Aconteceu alguma coisa?

Por mais que sejam apenas combinações de letras, eu sinto sua preocupação.

America: Não vamos poder nos encontrar hoje.

Maxon: Porque!?

America: Minha mãe acaba de me proibir de sair.

Maxon: Sério?

Maxon: Que pena, de verdade… mas eu entendo.

America: Desculpa… eu até tentei reverter a situação, mas minha mãe está muito chateada.

Maxon: Tudo bem linda, sem problemas. Nos vemos outro dia.

America: Podemos tentar amanhã?

Maxon: É o que eu mais queria, juro! Só que a pedido da minha mãe eu vou ter de passar o dia lá amanhã.

Maxon: Sinto muito.

Suspiro mais uma vez decepcionada.

America: Não precisa se desculpar.

Maxon: Você está bem?

Conversei horas com o Maxon. Trocamos mensagens praticamente o dia inteiro, e por mim, poderíamos ficar a noite inteira também. Se não fosse pelo cansaço e o celular pedindo para ser carregado, assim nós dois faríamos.

Por mais que nosso encontro não tenha rolado, eu gostei da nossa longa conversa virtual, obviamente não se compara, mas posso dizer que essa conversa apenas me deixou mais animada para quando nos encontrarmos de novo, visto que Maxon, teve a coragem de escrever diversas safadezas. Não imaginava que era possível ficar excitada apenas com uma mensagem de texto.

O jantar em família estava um pouco mais leve. Soube que amanhã, Kota vem almoçar para discutir detalhes do jantar na casa de sei lá quem. Não fiz questão alguma de saber também. Esse jantar vai ser um tédio.

[...]

— Boa tarde família linda! — Kota chega cumprimentando quase que aos berros.

Mamãe já estava nervosa com o atraso dele.

— Finalmente você chegou filho — mamãe ajeita o seu topete — por pouco cansamos de lhe esperar.

— Desculpe mãe, o trânsito estava horrível. — Meu irmão a abraça.

Ele pode ter dado essa desculpa esfarrapada, mas está na cara que ele deve ter ido para a noitada e acordado na cama com cinco mulheres diferentes ao seu lado.

Kota vivia fazendo isso, se aproveita por ser bonito e encanta as mulheres apenas para levá-las pra cama. É o típico cafajeste. O mais engraçado, é que na época que ele vivia em casa, Kota sempre conseguia se livrar das broncas da mamãe por chegar bêbado ou só depois de três dias em casa. Ela parecia ficar sempre surda e muda quando se trata do Kota.

— Que cara é essa maninha? — Kota me tira dos meus pensamentos.

— É a dona ressaca que ainda reina no corpinho dela. — May sendo a May.

— Quer dizer que a Ames mal chegou em Angeles e já está dando dor de cabeça? — As vezes acho que eu fui a única filha a nascer sem humor.

— Não é nada disso, só não tive uma boa noite de sono. — Respondo totalmente desinteressada no assunto, após dar um abraço no meu irmão.

A verdade é que dormi mal pra caramba essa noite, e o resultado da falta de sono não deu em outra essa manhã. Olheiras, cara inchada e cabelo bagunçado. Não fiz questão alguma de me ajeitar, afinal, estou sendo obrigada a passar o dia inteiro trancada nessa casa, a não ser pela noite que vai ser uma merda.

— Deve ser o peso na consciência! — Minha mãe exclama depositando uma travessa sobre a mesa. Apenas reviro os olhos. — Não sabe o que ela nos fez passar Kota.

E lá vamos nós, para mais um discurso de como sou uma filha irresponsável sem consideração. Impressionante como minha mãe consegue tornar tudo mil vezes pior do que realmente foi. Minha sorte… é que Kota sabe exatamente como ela é, então apenas ri acompanhado de nada mais nada menos que nossa querida irmã May.

— Você conseguiu despertar a fera Ames. — Kota cochicha no meu ouvido enquanto mamãe faz seu discurso de ódio.

— Você bem que poderia me ensinar sua técnica de se safar dela. — Sussurro em seu ouvido.

— Minha técnica é o meu charme, portanto — ele ensena colocando a mão no coração como se lamentasse — você está ferrada.

Mostro a língua e ele ri. O mais triste é que é verdade. Seria ótimo ter um jeito de acalmar minha mãe, mas estou tirando a conclusão que eu precisaria ter um pau no meio das pernas para isso. Pois, só os homens dessa casa acalmam os nervos dela.

Se o jantar hoje for igual ao nosso almoço, eu vou dormir no primeiro canto que eu sentar. Meus pais e meu irmão não falaram de outra coisa senão sobre as pessoas que estarão por lá, com quem eles precisam conversar e possivelmente fechar algum negócio. May e eu nos encaramos toda hora revirando os olhos, sem aguentar toda aquela chatice.

O dia seguiu tão chato quanto o almoço, meus pais ainda discutindo com meu irmão as estratégias. Fiquei sem falar com o Maxon o dia inteiro. Sei que ele estava na casa dos pais, a qual eu sei, ele tenta evitar o máximo que dá. Não mando nada pois temo atrapalhar, mas a saudade está grande.

— Não entendo porque temos que ir nesse jantar idiota. — May entra aborrecida no meu quarto. — O imbecil que planejou essa porcaria não poderia ao menos fazer no sábado?

— Como você mesma disse, o cara que planejou é um imbecil. — May começa a fuçar minhas gavetas. — Perdeu alguma coisa?

— Minha paciência, a viu por aqui? — Dou risada — Quero meu colar de brilhante, sei que você pegou.

— Não peguei não! — Esbravejo — Costuminho seu de sempre me acusar de pegar suas coisas.

— É porque você realmente faz isso — ela me encara — e ainda por cima estraga, não pense que esqueci da minha blusinha branca que você estuprou com essa cabeça enorme que tem.

— A cala a boca May…

— Não me calo… ainda farei justiça por ela. Acredite se quiser, eu a amava. — Impossível não rir do seu drama.

— Como está tudo aqui? — Minha mãe aparece pela décima vez.

Estamos todos nos me arrumando para o tal jantar. Mamãe disse que temos que usar um traje de gala, seria algo extremamente formal e elegante. Ela está tão pirada que vem toda hora se certificar que estamos se arrumando da forma correta.

— Tudo em ordem Dona Magda. — Mamãe não diz nada.

— Mãe, viu meu colar de brilhante? — May pergunta abrindo meu porta joias.

— Não — responde sem se importar muito — agilizem as duas, saímos daqui meia hora.

Nossa mãe se retira e May vai correndo até a porta se certificar que ela já está longe o suficiente.

— Até parece que vamos daqui meia hora — May fala baixo conferindo se pode falar em segurança — ela acha que não a conhecemos.

Apenas respiro fundo. Eu amo minha mãe, por mais difícil e surtada que ela possa ser.

Assim que termino minha maquiagem, com muita dificuldade pois May ficou me infernizando por conta do seu colar, que eu não faço a menor ideia de onde esteja, vou me vestir. Meu vestido é longo, um azul mais escuro, de cetim, decote reto, colado até a cintura com uma enorme fenda na perna direita. Ele é maravilhoso.

— Vamos! Estamos atrasados! — Minha mãe grita.

Confiro meu visual pela última vez, ficando muito satisfeita. Pego minha bolsa e desço junto com May. Kota foi em seu carro, enquanto eu e May fomos com nossos pais. Gerad sortudo, ficou aos cuidados de Betina, pois ele é muito novo para jantares assim. Sinto apenas inveja.

A casa do anfitrião não ficava muito longe da nossa. Meu queixo caiu assim que passamos dos portões. Aquilo estava mais para um palácio do que para uma residência normal. A casa tem um estilo clássico, mas ainda sim muito moderna. Me encantei ao passar pela porta e dar de cara com uma enorme sala, muito elegante, clássica e ao mesmo tempo moderna.

Meus pais logo começaram a se enturmar com casais que eu não fazia a menor ideia de quem poderiam ser. Claro que de início eu e May fomos os acompanhando para que fôssemos apresentadas. Um dos casais ainda teve a ousadia de “brincar” propondo uma possível união entre May e eu com seus dois filhos solteiros. Eu nem soube como reagir, e fiquei feliz por ver que meu pai não ficou contente com a ideia.

— Eles são dois panacas com cara de sonsos. — May análise o seu óbvio não candidato.

— São mesmo — digo rindo os analisando também.

Nós duas já tínhamos se afastado daquele jogo sujo de poder e ambição. Os milionários, com suas intenções dissimuladas, eram visíveis a quilômetros de distância. Cada palavra que pronunciavam revelava apenas um desejo insaciável de lucro, e isso me da nojo, estamos no meio de um ninho de cobras.

— Aquela mulher é tão antiquada — desabafo com May — ela disse mesmo “unir nossas famílias”?

— Muito otária né? — Ela responde dando risada, mas seus olhos vagavam pelo salão como se reconhecesse algo por lá. — Já volto.

— May… — a chamo usando o tom de voz mais educado possível. Mas ela não me deu ouvidos. Saiu quase correndo para sei lá onde.

Não queria ficar sozinha, mas era assim que eu estava no momento. Busco meus pais com o olhar pelo salão. Já que May me abandonou, era com eles que teria que ficar.

Seguia os procurando, tirando a conclusão que eles não estavam por aqui. Ia me retirar e procurar em outro lugar, mas então, um perfume muito familiar me fez estremecer. E paralisei com sua voz rouca no meu ouvido.

— Esse jantar acaba de se tornar muito interessante.

Mordo o lábio inferior contendo o que sua voz sedutora me faz sentir. Me viro apenas para ter certeza que não estava alucinando.

E então a surpresa veio.

— Maxon! O que faz aqui?