Olhei para Elena com uma sobrancelha arqueada, fazendo uma pergunta silenciosa.

Ela encolheu os ombros.

- Trauma – disse, — não gosto de falar sobre isso.

Absorvi isso. Ela era linda, nervosinha e tinha bagagem.

- Ok – falei, minha voz mais doce.

Sem piadas sobre carros, anotei mentalmente para o resto da noite.

Que droga, o lugar para onde eu queria leva-la ficava longe demais para irmos a pé.

Chequei meu mapa mental da cidade e me decidi pelo restaurante caseiro que tinha no final do quarteirão. Comida boa e lugar aconchegante. Perfeito.

- Venha – falei, começando a andar.

Ela me acompanhou.

Caminhamos em silencio por um tempo, eu a olhei pelo canto do olho. Elena era muito bonita, mesmo sem maquiagem e com o cabelo preso naquele rabo de cavalo, imagine o quanto deveria ser bela com seus cabelos negros jogados nos ombros, maquiada, de vestido, ou sem nada...

- O que está olhando?

Pego no fraga, e tendo pensamentos indevidos. Que droga.

Suspirei.

- Você também estava me olhando – comentei, claro, era apenas um chute. Eu não sabia de verdade.

Elena corou.

Céus, ela estava realmente me olhando!

Um sorriso convencido preencheu meu rosto.

- Apenas tentando descobrir se você é um psicopata, um maníaco ou sei lá – ela se defendeu.

Eu ri alto.

- “O Psicopata da Floresta” – anunciei, – ele mata jovens bonitas e joga seus corpos para coelhos carnívoros comerem, ás vezes esquilos cantores ou formigas gigantes. Cuidado, tranquem suas portas!

Ela riu.

- Não quero ser devorada por formigas ou coelhos! – ela brincou, fingindo estar assustada.

- Nenhuma objeção quanto aos esquilos?

Ela deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos.

- Nenhuma – respondeu, — até conheço um que se chama Joe. Ele já foi vocalista dos Ramones, sabia?

- Não conheço essa história.

- Quem sabe um dia eu não te conte?

Andamos o resto do caminho em silêncio até chegarmos ao restaurante, então abri a porta para ela.

- Madame – falei.

- Senhor – respondeu, fingindo segurar uma saia imaginária.

Rimos juntos, e eu a levei até a mesa mais reservada que havia ali, no canto escondida, assim teríamos privacidade.

Afastei uma cadeira para Elena.

- Obrigado – ela disse ao se sentar.

Sentei-me em frente a ela.

- Sobre o que quer conversar? – perguntei.

Ela ficou em silêncio por um tempo, pensando.

- Qual sua cor favorita?

Abri um grande sorriso e me segurei para não rir. Elena obviamente não era de sair em encontros.

- Preto – respondi, — e a sua?

Elena me olhou então disse sem pensar:

- Azul.

Então corou furiosamente.

- Como os meus olhos? – provoquei maliciosamente.

Ela corou mais. Se é que é possível.

Pelo canto do olho vi que a garçonete que ia atender nossa mesa havia chegado. Elena suspirou aliviada.

- Olá, sou Claire e eu vou... – ela olhou para mim e gaguejou, — vou... é....

- Nos atender? – ajudei.

Ela acenou com a cabeça, corando.

Céus, tem muita mulher corando por minha causa hoje.

- O que vai querer, Elena?

Ela olhou o cardápio.

- Qualquer coisa – falou enfim, olhando para mim.

Fechei o cardápio com um suspiro.

- Quero o prato do dia e o melhor vinho que tiverem.

Claire acenou com a cabeça e sumiu com nossos pedidos.

- Coitada – Elena disse.

- Eu sei – falei, — não conseguiu resistir ao meu charme, por isso ficou toda boba – suspirei. – Mal ela sabe...

- Convencido – Elena disse, — mal ela sabe do que?

Inclinei-me sobre a mesa, aproximando meu rosto do dela até que ela pudesse sentir minha respiração.

- Hoje eu sou só seu – sussurrei.

A respiração de Elena ficou entrecortada e eu sorri satisfeito.

Sentei-me direito enquanto ela se recuperava

Elena pigarreou.

- Não deveria fazer isso – finalmente disse.

- Isso o que?

- Seduzir, manipular, usar as pessoas. É errado.

- Prefiro apenas a parte da sedução. O resto só uso quando é necessário.

- É necessário agora?

- Talvez.

- Vai tentar me seduzir?

- Você é seduzível?

- Nem um pouco.

Nós rimos.

- Não sei como fazer isso sem a parte da sedução – falei a verdade.

- E o que estamos fazendo?

- Não sei ao certo. É complicado.

- Explique.

Suspirei e passei a mão no cabelo os bagunçando.

- Posso te contar uma história, Elena?

Ela se jogou na cadeira.

- Vá em frente.

Ótimo, por onde eu começo?

- Bem... Tinha esse homem, ele era rico e tinha dois filhos que odiava. Quando ele morreu escreveu um testamento, dividindo toda sua fortuna entre a esposa, os dois filhos e alguns outros familiares. Só que os filhos só receberiam sua parte da fortuna se o filho mais velho, o mais bonito, se casasse em um mês e o filho mais novo o ajudasse a arranjar uma boa esposa que o amasse.

- Vi esse filme na Sessão da Tarde – Elena disse.

Eu ri.

- É, meu pai não era muito criativo.

Ela congelou.

- É sério?

Assenti.

- Oh. Meu. Deus. Está brincando comigo?

Neguei.

- Bem que eu queria.

- E o que eu tenho a ver com isso – Elena perguntou.

- Esperava que aceitasse ser minha esposa.

Notas finais
Gostaram??? Me digam o que acharam! Próximo capítulo só semana que vem, mas talvez eu escreva antes. Não se desesperem!