Fogo
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Heitor abriu os olhos.
Fechou-os.
Abriu-os novamente. Fechou-os novamente.
Sentia um formigamento em todo seu corpo. Seus olhos ardiam e, ao abri-los novamente, exibiam para ele um céu cinza, completamente nublado. Podia sentir suas roupas completamente molhadas, e estava deitado na lama.
Levantou-se e sentiu o corpo todo doer. Haviam plantas em todos os lados que olhava, assim como poças de lama, mas não conseguia enxergar muito longe. Seu limite de visão chegava a uns dez metros, pois uma névoa espessa dominava o ambiente. Não conseguia discernir se estava amanhecendo ou anoitecendo, o fato era que o horário era de transição entre dia e noite. Caminhou alguns passos e apoiou-se em uma árvore. Não conseguia se lembrar de nada. Sua cabeça fazia um barulho de tambores a cada passo. As lembranças retornavam aos poucos, como borrões. Sua mente repetia os gritos daquilo que parecia ser a noite passada. Lembrava-se de cheiro de queimado. Na verdade, parecia estar sentindo o cheiro agora. A epifania fez seu cérebro acordar para o olfato e o fedor de matéria orgânica após a combustão invadiu-lhe o nariz, queimando suas narinas por dentro.
O choque fez com que se lembrasse do que havia acontecido noite passada, e imediatamente as lágrimas correram em seu rosto. Não sabia onde estava, nem onde estava seu pai nem sua mãe. Andava um pouco mais rápido agora, sem saber pra onde ia, nem ao menos enxergar. Pelo visto estava realmente amanhecendo, uma manhã descaradamente tranquila, sem respeito pelo que acontecera na noite anterior. A névoa e a fumaça velavam seu caminho, já distorcido pela dura realidade. Depois, como uma brincadeira má do destino, ele chegou à área aberta, com a relva completamente queimada.
Pôde enxergar os destroços daquilo que menos de um dia atrás, e durante todos seus onze anos, havia sido sua casa. Era de lá que vinha a maior parte da fumaça. Uma grande pilha de madeira queimada estava agrupada em uma área equivalente à área que era de sua casa. Pedra, tijolos, o resto de toda sua pequena vida estavam ali, como lixo. Queria ter alguém para abraçar nesse momento. Toda a grama aos seus pés havia sido queimada, assim como as árvores e a plantação de café. Não havia restado nada. Que será que tinha acontecido à sua mãe e ao seu pai? E à Nega? Lembrar deles fez seu coração doer mais ainda.
Atordoado, voltou para a margem da área queimada, onde a grama voltava a ficar verde novamente, apenas coberta com uma pequena camada de cinzas. Heitor ficou confuso. Lembrava-se de ter caído ali mesmo, onde estava nesse momento, mas poucos minutos atrás havia acordado uns trinta metros mais pra dentro da mata, onde era seguro. Essa reflexão saiu da sua cabeça rapidamente, ele tinha que voltar pra outra fazenda ver se tinha alguém lá. Sua mãe provavelmente estaria esperando-o sentada à mesa com o café-da-manhã, como sempre fazia. E seu pai faria aquele discurso imenso que sempre fazia ao acordar: que os negócios iam mal, mas acabava chegando á conclusão de que tudo ia até bem demais.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma repentina dor de cabeça maior ainda. Agora já andava sem saber a direção, quase correndo desesperadamente. Depois de mais uma centena de metros, tropeços e arranhões, deu de cara com uma árvore cheia de frutinhas pretas grudadas no tronco. Pegou uma e pôs na boca. As jabuticabas estavam ainda melhor que na noite anterior. Depois que viu uma das escravas dos de Castro se aproximar dele gritando: Meu Deus! Ele tá vivo! É milagre!, apenas deu um pequeno sorriso, enxugou uma última lágrima e desmaiou.
Heitor acordou deitado em uma cama bem macia, com um gosto ruim na boca. Ao abrir os olhos enxergou a mesma escrava de antes de desmaiar com uma colher na mão e uma pratinho na outra. Sentia seu corpo todo dormente como se tivesse cavalgado durante 24 horas seguidas. Sua cabeça latejava horrivelmente e ele mal conseguia manter os olhos abertos.
– Menino, você dormiu durante doze horas. Tá se sentindo melhor?
– E-eu... – Assim que tentou falar lhe faltou ar e ele teve de inspirar profundamente.
– Fique aí deitado. Vou avisar o senhor de Castro que você acordou.
Heitor acenou com a cabeça e se afundou no travesseiro novamente. Queria que alguém trouxesse seus pais logo. Tentou prestar atenção onde estava. Tinha alguns carrinhos e cavalos de brinquedo, feitos de madeira, em todos os móveis. O armário era de madeira, também, e alguns detalhes eram pintados em tinta azul. Escrito com uma letra magnífica em sua base e topo havia o nome Marcello. Heitor lembrou que o senhor de Castro tinha outros filhos, além de Florença, e que moravam na Europa. Não lembrava exatamente qual país, talvez França, ou Itália. O quarto devia ser de um deles, de quando era pequeno. A senhora de Castro, cujo sobrenome original era Boschetto, era... italiana? Heitor não sabia, mas provavelmente era esse país mesmo, e ela tinha levado os filhos para estudarem lá.
Mergulhado em pensamentos, assustou-se quando ouviu barulho de passos vindos do corredor. Em poucos segundos o senhor de Castro entrou no quarto, acompanhado de sua escrava. Sentou-se na cama ao seu lado, com um sorriso forçadamente acolhedor no rosto.
– Está se sentindo melhor rapaz?
Heitor não respondeu. Sentia-se melhor para falar agora, mas preferiu permanecer em silêncio. Olhava estático para o senhor de Castro, cuja expressão era de pesar e dúvida, como se fosse tomar uma decisão difícil.
– Você esteve desaparecido a noite toda, achamos que tivesse se machucado.
O olhar de Heitor era duro e indecifrável. Depois de alguns segundos de pausa, ele resolveu falar.
– Onde estão meus pais?
O senhor de Castro passou a mão na própria testa e respirou fundo. Heitor olhou para a escrava, que estava à beira das lágrimas. Ele disse.
– Garoto... Sei que você vai ser forte, porque tem o sangue de seu pai nas veias e...
– Onde... estão... meus... pais?
– Eu... eu sinto muito Heitor. Ontem, assim que soubemos do incêndio, fomos todos pra sua fazenda e quando seu pai viu que sua mãe estava dentro da sua casa em chamas, entrou pra resgatá-la. E... eles não conseguiram sair a tempo.
O senhor de Castro olhou para Heitor. O rosto do garoto era de pânico, mas pânico contido. Uma lágrima desceu de cada olho.
– Eu... sinto muito. – Completou o senhor de Castro.
– Saia daqui. – Disse Heitor, de dentes cerrados, sem que de Castro compreendesse.
– Saia daqui!!! Saia!! Eu não quero ver ninguém!! Sai daqui! Saia, saia, saia!!
O senhor de Castro, triste, levantou-se e saiu do quarto. A escrava acompanhou-o. Logo depois Heitor entrou em uma crise de choro intensa e deitou-se de lado na cama. Ficou assim, apenas encarando a parede amarela, e nem percebeu que anoitecia. Estava em transe. Nunca mais abraçaria a mãe. Não apreciaria mais ela passar pó de arroz no rosto, nem vestir aqueles vestidos rodados de algodão. Não veria mais o pai vangloriar-se de ter uma mulher linda, nem iria mais rir de suas sobrancelhas grossas. Todos os momentos bons pelos quais passaram retornaram em sua mente, Até mesmo os ruins não pareciam tão maus agora. Era demais pra cabeça de uma criança perder os dois pais num dia só, Heitor precisava descansar. Nem percebeu e caiu no sono. Teve sonhos que não recordou ao acordar. Sonhou com seus pais e Nega, e de repente não se sentiu mais tão sozinho.
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