Fogo

3 Capítulo 2


Notas iniciais
Boa leituraaaa :3

– Onde foi parar aquele menino? – Perguntava o Barão de Outubro. Havia se assustado com a ausência do filho. Podia jurar que tinha visto ele sentado ali há poucos minutos atrás. Mandaram um escravo ir procurá-lo nos outros cômodos da casa, mas antes dele sair Heitor apareceu correndo porta adentro, esbaforido, gritando.

– Papai! Papai! – E pulou nos seus braços. Abraçou-o com força e começou a chorar convulsivamente.

– O que aconteceu garoto? Foi algum animal?

– É a nossa fazenda, ela está pegando fogo!


Todos se encaminharam para o lado de fora para atestar o que o garoto havia dito. De fato havia realmente uma luz forte vinda da direção da fazenda dos Outubro. E a fumaça já se alongava a centenas de metros do chão.

Não pode ser verdade. Falou o Barão consigo mesmo. – Vamos todos! Vamos ver o que acontece!

Vieram cavalos de todos os lados e os senhores montaram imediatamente. Os capitães do senhor de Castro vieram armados e em poucos segundos já estavam todos indo em direção à fazenda.

– Papai! Eu quero ir! – Gritou Heitor para o Barão.

– Você fica! Fique dentro da casa e me espere voltar.

– Mas papai...

– Vá!

Heitor se calou e entrou chorando pra dentro da casa. O barão gritou para todos se apressarem e em pouco tempo haviam deixado a fazenda.


A baronesa já havia ido se deitar. O barulho dos escravos havia cessado e deixado um clima estranho no ar. O quarto de Lúcia já estava devidamente arrumado para acomodar a filha e ela estava exausta. Depois de se despedir de Nega, foi diretamente para a cama. Não sabia que hora que seu marido e filho iriam chegar e era melhor que estivesse bem descansada para a chegada da filha. Estranhamente poucos momentos atrás estava um frio terrível, mas agora o ambiente estava até quente. Nem se cobriu com o lençol.


O barão corria como se fosse por sua própria vida. Devia ter desconfiado daqueles escravos fazendo a cantoria deles com aquelas letras violentas. Os cavalos, como que percebessem a urgência do momento, corriam ainda mais rápido que de costume.

– Eiaa. – Gritou para os cavalos. – Vamos logo homens! Temos uma fazenda para salvar.

De onde estavam podiam ver as grandes dimensões do que estava acontecendo. Os escravos, outrora presos na senzala, corriam por toda parte, tentando fugir daquele castigo infernal ao qual eram submetidos todos os dias. Mães corriam com suas crianças no colo, e seus pais lutavam contra os feitores e capitães-do-mato, armados com espingardas. Os escravos eram incontáveis vezes superiores em número aos capitães do barão, e nem mesmo os que foram acompanhados eram suficientes para recuperar todos os fugitivos. Mas o que mais chamava atenção em todo o caos era o mar de fogo infernal que tomava conta de todos os ângulos de visão possíveis. Desde as plantações de café, até... até...

Os olhos do barão não conseguiram absorver a cena.

A Casa-Grande estava queimando por inteira. As colunas de madeira da escadaria principal, as janelas, em todos os cantos existia um foco de incêndio. Os homens do senhor de Castro começaram a tentar capturar os escravos mais lentos, mas pararam assim que viram que a senzala também estava completamente em chamas. Não poderiam guardá-los em nenhum lugar, pois as senzalas dos de Castro estavam superlotadas. O Barão não estava nem um pouco se importando com os escravos. Procurava em todas as faces assustadas aquela que se encaixasse nas feições que mais queria ver, sua mulher.


A Baronesa acordou com um forte cheiro de queimado e sem respirar por causa da fumaça. Em um segundo seu cérebro interpretou tudo e os reflexos mandaram-na correr. Em sua mente só um nome ecoava. Heitor

O Barão corria em direção à Casa-Grande, os outros tentaram impedi-lo, mas a força latente do amor e da proteção fora mais forte. Cortou a multidão de negros e capitães e subiu as escadarias em chamas. Uma fúria impetuosa o dominava. Abriu a porta com um chute e, aterrorizado, percebeu que a situação lá dentro era ainda pior.


Heitor estava tão chocado que mal conseguia falar. As criadas do senhor de Castro tentavam consolá-lo, mas ele apenas encarava a parede, sem falar nada, As lágrimas desciam aparentemente indolores. Era demais para uma criança suportar aquilo. Nem parecia perceber a existência da tal Florença ao seu lado. A fumaça já chegava até a fazenda onde se situavam.

– Nããããooooo. – Em um gesto brusco Heitor se levantou da cadeira e saiu correndo para fora. Ninguém ia impedi-lo de salvar sua mãe.

– Volta aqui menino! – Gritaram as escravas, mas ele se mantinha surdo.

Ao chegar do lado de fora olhou a luz laranja ainda alta, mas não se impressionou e continuou correndo, alheio aos perigos que enfrentaria na floresta que separava as duas fazendas. Passou pela jabuticabeira sem perceber e subitamente já estava na floresta.

Corria loucamente, e só quando passou por alguma planta com espinhos e arranhou o braço, tropeçou e caiu, percebeu o que estava fazendo. Estava sozinho, no meio do mato. Cheio de animais selvagens e famintos de criancinhas. Não podia contar com a luz da Lua Cheia porque o céu estava completamente nublado. Nem parecia com aquela noite linda de quando saiu de casa algumas horas atrás. Começou a ouvir uivos e galhos sendo partidos, que o apavoraram ao limite. Heitor já havia perdido o senso de direção e estava perdido na floresta. Até que uma coruja assustada passou voando bem acima de sua cabeça, e olhando a direção de onde ela veio, conseguiu avistar a luz entre a mata densa. Mesmo com medo continuou correndo para salvar sua mãe.


O Barão não respirava, mas continuou adentrando o fogo. A sala, irreconhecível com os móveis em chamas e pedaços do teto de madeira caídos ou pendurados, quase não tinha áreas seguras por onde ele pudesse passar. Se a esposa ainda estivesse na casa, provavelmente deveria estar em seu quarto. Pulou sobre uma coluna de fogo e direcionou-se para o corredor que dava acesso às escadas, que terminavam nos quartos. Ao chegar ao corredor, cheio de fumaça, correu ainda mais rápido e subiu as escadas três degraus de cada vez. Sem olhar onde pisava tamanho o desespero.

Desviando de pedaços do teto pendurados chegou à porta do quarto que dividia com a baronesa e encontrou a porta aberta. Olhou lá dentro e, exceto os móveis queimados e o fogo, não havia nada. Sua esposa não estava lá dentro. O desespero tomou conta de seu coração. Será que ela teria tentado fugir e acabou se desviando do caminho, ou será que já estava lá fora, segura? Um estalido vindo das paredes interrompeu seus pensamentos e o trouxe de volta ao que estava acontecendo. Voltou rapidamente para o topo das escadas e ao começar a descê-las, avistou um volume de tecido vermelho embaixo de uns escombros. Mesma cor do robe que a baronesa usava naquela mesma noite, quando se despediram.

Depois de repreender-se mentalmente por não tê-la visto, desceu ao seu socorro e tirou os escombros de cima dela. O calor estava infernal, e a fumaça deixava-o quase cego. Virou seu rosto para cima. Tinha um corte profundo na testa, e suas roupas estavam chamuscadas. Tentou acordá-la, mas ela, como que sentindo sua presença apertou sua mão, para avisar-lhe que estava acordada.

– Temos que sair daqui, querida, vamos. – Segurou-a pelos braços e pôs ela no colo.

– H-Heitor... ele está... bem? – Tentou falar, e apesar de não passar de um balbucio, o barão lhe respondeu.

– Está sim. Vamos sair daqui logo.

Mas eles estavam encurralados. A entrada do corredor estava completamente bloqueada por uma coluna de fogo. Seus reflexos trabalharam ligeiro e lhe apontaram uma porta à direita. Dali poderiam pular para fora. Como estavam no térreo, a queda não seria tão grande. Deu um chute na porta e a derrubou. Lá dentro não havia fogo, mas a parede exibia uma imensa rachadura. O tempo se transformava em questão de vida ou morte. A janela estava trancada, e ele acomodou a esposa no chão, para poder abri-la com segurança e sem quebrar os vidros, já que teriam que passar por ela. Puxou com todas as suas forças, mas não conseguiu abrir.

– Meu esposo... – Falou Dona Lícia.

– O que houve? Os ferimentos estão doendo muito?

– Não, eu... você me ama, n-não é mesmo?

– Mas é claro que amo. – Disse beijando-lhe as mãos.

– E Heitor está seguro?

– Está na casa dos de Castro. Pare de falar, mulher, temos que sair daqui!

Nesse momento um tremor sacudiu a casa. O Barão olhou desesperado para os lados. Não tinham pra onde ir. O lado de fora da janela também já tinha sido tomado por fogo. Só nesse momento percebeu que as lágrimas não paravam de rolar por seu rosto, assim como no da esposa.

– Lícia...

– Está tudo bem. – Em um último esforço, levantou-se e beijou o marido. O melhor beijo da vida de ambos.


Heitor quase se afogou tentando atravessar o rio que separava as duas fazendas. Não respirava direito, tanto por causa do imenso e repentino esforço, como por causa da densa fumaça que lhe invadia as narinas. Até que, ao ver que tinha chegado em espaço aberto, jogou-se no chão. Antes de perder completamente a consciência, ainda conseguiu avistar uma multidão correndo. Viu todo o fogo e os homens em seus cavalos. Mas de todas as imagens que viu, uma intrigou-o por completo. Não sabia se eram seus olhos, que transmitiam a imagem errada, ou seu cérebro não podia admitir tal visão. Com um olhar confuso dali, deitado na relva, avistou a casa onde tinha vivido por todos os anos de sua vida desabar completamente de uma vez só, sendo consumida pelo fogo. A cena era surreal demais para que a energia que restava em seu corpo e mente aguentasse. Desmaiou imediatamente.