Fogo

5 Capítulo 4


Notas iniciais
oi geeente gostaria de agradecer aos reviews maravilhosos (até esse momento apenas da Juliane Bauer, muito obrigado amor!)esse capítulo é o último da parte 1 e aguardem surpresas na parte 2 hushausauhsuashs agora me dá licença que preciso escrever! *garoto aplicado*

Na hora do jantar o senhor de Castro sentou-se à mesa com sua filha Florença. A mesa era grande demais pra somente duas pessoas, já que tinha seis lugares e sua mulher e os outros dois filhos moravam na Itália há cinco anos. A filha do meio, Florença, tinha ficado com o pai porque na época em que a senhora de Castro levou os filhos pra estudar na Europa, a menina tinha pegado uma pneumonia grave, e ficou um mês hospitalizada. A mãe até tinha vindo buscá-la dois anos depois, mas ela não quis ir, já tinha acostumado com o pai. Viviam como uma família solitária e a única família que morava na vizinhança, a de Heitor, se fora noite passada.

– Papai, Heitor não vai vir jantar? – Perguntou Florença, preocupada.

– Florença, querida, Heitor perdeu os pais ontem. Ele precisa ficar um pouco sozinho pra se acostumar à ideia.

– Eu imagino como deve ser difícil. Mas mesmo assim não acha que ele deveria comer alguma coisa?

– Hun, você tem razão, vou pedir pra Maria levar alguma coisa pra ele lá em cima...

– Pode deixar que eu vou. Não me importo. – Disse, dando um sorrisinho.

– Eu não sei se é uma boa ide... – Mas ela já tinha se levantado.

Florença apressou-se para pegar alguma coisa na cozinha. Arrumou tudo na bandeja e subiu as escadas rapidamente pra levar alguma coisa pra Heitor. Não ligava nem um pouco se ele ia comer ou não. Chegou na porta, passou a mão pra tentar arrumar um pouco os cabelos e deu duas batidinhas na porta.

Ao abri-la viu Heitor deitado, virado pro outro lado. Não dava pra ver o rosto dele, sendo assim não sabia se ele estava dormindo ou acordado. Sentou-se na cama com a bandeja no colo. Ao ver que ele não se mexeu, deu um pigarreio. Sem resultado, resolveu dizer:

– Ei, eu trouxe algo pra você comer. Espero que esteja melhor.

Ele não respondeu, mas Florença podia ver que ele estava de olhos abertos.

– Bem, vou deixar aqui mesmo. Se quiser comer...

Ele permaneceu em silêncio. Ela deu-se por vencida e levantou-se da cama.

– Então, boa noite. – Ao não receber resposta novamente, saiu do quarto.

Ao voltar a sentar-se à mesa, seu pai perguntou-a se ele havia aceitado.

– Claro que sim. Ele até sorriu pra mim.

No dia seguinte o sol nasceu com um brilho um pouco mais forte, cheio de esperanças e possibilidades. Os homens do senhor de Castro foram até a fazenda Graças de Santa Bárbara, dos pais de Heitor, e tentaram ver o que tinha sobrado. Era impossível procurar alguma coisa nos destroços da Casa-grande, pois o entulho era muito grande. Quase toda colheita de café foi queimada, assim como a de cana-de-açúcar. Como contagem geral: perderam-se todos os mais de quinhentos escravos, vinte deles foram mortos na fuga; apenas um dos vinte e três cavalos restou, os outros foram mortos, roubados ou fugiram; a senzala, os estábulos, a casa de farinha e a casa-grande foram completamente destruídas pelo fogo.

O senhor de Castro acordou aproximadamente às sete horas, com uma notícia não muito esperada. Florença o sacudia e gritava na cama.

– Papai, papai! Heitor fugiu!

– Calma minha filha me explique isso direito. – Perguntou o senhor de Castro.

– Eu fui assim que acordei vê-lo no quarto, se ele precisava de alguma coisa. Só que quando cheguei lá a cama estava completamente vazia! Ele não estava no quarto e não está em nenhum lugar da casa.

– Santo Deus! Vamos logo atrás dele. – Ele levantou-se e vestiu-se em poucos segundos, e logo estavam os dois descendo as escadas apressadamente.

Encontraram Maria no caminho.

– Maria! Você viu Heitor em algum lugar hoje?

– Ah, sim, senhor. Ele acordou bem cedo e foi lá pra fora. Disse que queria comer jabuticabas. Ficou lá o tempo todo, eu podia enxergá-lo da janela da cozinha.

O senhor de Castro olhou pra sua filha.

– Jabuticabas... rum. – Depois de fulminá-la com o olhar, dirigiu-se para o lado de fora.

De fato Heitor estava sentado nos galhos da jabuticabeira. Ainda vestia a mesma roupa do dia anterior, e sua expressão denunciava que havia chorado a noite toda.

– Oi rapaz! Gosta mesmo das jabuticabas, não é?

Heitor olhou pra ele, mas não respondeu.

– Olhe, não precisa ficar sem falar conosco. Eu sei que é realmente muito triste, mas nós só estamos tentando ajudar.

Heitor não respondeu novamente. O senhor de Castro não era fácil, e subiu na árvore também. Heitor ficou impressionado, para ele os adultos tinham juntas duras e não sabiam subir em árvores.

– Que foi? Eu também gostava de subir em árvores quando era criança.

Heitor deu um sorrisinho que desapareceu logo depois.

– Ouça. Eu conhecia seu pai como se ele fosse meu irmão, e tenho certeza de que ele não gostaria de te ver desse jeito. E muito menos sua mãe, que te amava mais do que tudo.

Heitor quedou pensativo por alguns segundos. Acabou falando.

– Quantos escravos morreram? – Perguntou, tímido.

O senhor de Castro mostrou-se satisfeito por ele ter falado, mas suspirou ao responder a pergunta.

– Nós não podemos dizer com certeza, mas nós encontramos vinte deles. Podiam ter mais na Casa-grande no momento que ela... – Ao ver a expressão de Heitor à essa palavra, se interrompeu. – Bem, acredito que todos os outros tenham fugido.

Heitor aos poucos desfazia sua face fechada e ia ficando mais aberto, mas ainda assim, mais triste.

– Tinha alguma mulher entre os escravos que morreram?

O senhor de Castro entendeu imediatamente a intenção da pergunta.

– Tinha uma. Mas não se preocupe, não era sua cozinheira, não.

Heitor ficou aliviado. Apesar de não terem visto Nega, ela tinha ficado na casa-grande. Quando percebeu que o incêndio tinha começado, foi tentar subir pra avisar a baronesa. Ao correr pra subir a escada, acabou tropeçando e rolando escada abaixo. Desmaiada, não chegou a acordar antes de a casa desabar. E nunca mais acordou.

Heitor tinha onze anos, mas parecia ter envelhecido muito mais desde a noite da fuga. Ficou calado alguns instantes, e depois olhou para o senhor de Castro.

– E o que vai ser de mim?

O senhor de Castro suspirou novamente.

– Sabe, essa casa é muito grande. Grande demais pra somente duas pessoas morarem nela. Se quiser, pode ficar morando aqui com a gente.

Heitor ficou surpreso. Não esperava que fosse ficar ali com eles. Achava que iam mandá-lo pra algum internato, ou creche. Um vulto de alívio passou por seu rosto.

– M-mas... e seus filhos. Eles podem voltar de viagem.

– Ah! Eles só vão voltar daqui a alguns anos. Até lá já teremos construído um outro quarto pra você.

Heitor parecia sinceramente agradecido. Só não abraçou o senhor de Castro porque ainda não se sentia no direito.

– O-obrigado.

– Então... vamos entrar? Deve ter um café-da-manhã muito gostoso esperando a gente lá dentro. – Disse ele, e tentou descer. Acabou descendo de mau jeito e caiu com tudo no chão, ficando coberto de poeira.

Heitor deu uma risada.

– Ah é, engraçadinho? – Disse o senhor de Castro, zombeteiro. – Pois venha cá.

Pegou Heitor nos braços e girou-o no ar, fazendo o menino rir.

– Vamos entrar logo.

Heitor, efetivamente, passou a morar com os de Castro. No primeiro ano ele ainda se sentia pouco à vontade, principalmente com Florença o tempo todo em cima dele. Ele ajudava como podia na casa, mas o senhor de Castro insistia que isso não era tarefa dele. Voltou a estudar com o mesmo professor particular de Florença. Às vezes ele acordava tendo pesadelos com fogo e com seus pais, principalmente nos primeiros meses. Mas aos poucos ele foi se acostumando a ser órfão. Apesar de o senhor de Castro ser muito bom com ele, Heitor sempre soube que não era filho dele, e não se sentia no direito de disfrutar de algo nesse patamar. Começou a gostar dos livros de contos e de poesias, e a mostrar-se muito bom em escrevê-los também. Passava a maior parte do dia lendo no quarto, e quando ia lá pra fora era somente para cavalgar, nadar na cachoeira ou ir à cidade comprar alguma coisa. Cresceu um jovem forte e bonito, e apesar das investidas de Florença, bem mais velha que ele, nunca chegou a se interessar por ninguém. Quando estava prestes a completar quinze anos recebeu de presente do senhor de Castro uma viagem para a capital. Era independente o suficiente para ir sozinho. Passaria algumas semanas lá, para comprar algumas coisas para o senhor de Castro e ficar um pouco com a irmã. Quanto à irmã, ela chegou realmente naquela manhã na cidade, mas ao receber notícias mal contadas sobre sua família toda ter morrido no acidente, resolveu ir embora. Recebeu notícias do irmão poucas semanas depois, e vinha visitá-lo periodicamente a cada dois ou três meses, pois morava na capital e as viagens não eram muito rápidas nem baratas. Acolheu Heitor com muito carinho em sua casa durante a viagem.

- Fim da Parte 1 -