Fogo
15 Capítulo 13
Notas iniciais
Marcello olhou ao redor, procurando Heitor por todos os lados.
Tinho ido à jabuticabeira, entrado na casa-grande, mas nada. Heitor não estava em lugar nenhum. Decidiu finalmente ir aos estábulos, se ele não estivesse lá, aí é que deveria ficar realmente preocupado.
Os últimos raios do Sol davam o ar de sua graça, banhando a fazenda em um tom laranja. A caminhada aos estábulos não era nem um pouco breve, de modo que Heitor podia ter se atrasado, com sorte se encontrariam no caminho, mas não foi o que aconteceu.
– Mas onde está ele? – Perguntou Marcello a si mesmo, vendo que não havia ninguém nos estábulos e muito menos nos arredores.
Longe dali Heitor aplicava seus esforços para conseguir correr.
Os músculos de sua barriga ainda retorciam-no com dor, por causa do espancamento que Giancarlo lhe aplicara, mas mesmo assim ele não desistia. As chances de Marcello estar dentro da casa-grande eram enormes, e ele iria salvá-lo.
Assim que avistou a situação da fazenda, engoliu em seco. Um mar de fogo inundava todo o lugar. Pensava ser impossível o fogo se alastrar tão rápido, durante o tempo em que esteve lá. Mas quanto tempo esteve caído? Não lembrava. As memórias, mesmo de alguns minutos atrás, eram confusas.
Dentro de sua consciência algo gritava desesperadamente duas mensagens:
Tenho que salvar Marcello
Vou morrer.
Uma multidão enlouquecida de escravos misturados à capitães do mato e feitores tornava o caos ainda maior. Heitor via negras levando seus filhos no colo, buscando a liberdade preciosa que nunca haviam tido antes. Então começou a imaginar seu pai, diante da mesma cena alucinada, procurando sua mãe, como ele mesmo fazia agora tentando divisar em meio a todos os rostos assustados o de seu amor. Heitor correu na direção da casa-grande, pra ver o que tinha acontecido. As lágrimas não deixavam de rolar por seu rosto, mas Heitor não se preocupou com elas, não se preocupou com nada a não ser a massa de fogo que se apoderava de todas as áreas possíveis da casa-grande.
Ele cortava a multidão, tentando alcançar a casa, mas a grande quantidade de pessoas gritando, os tiros, tudo causava uma confusão imensa em sua mente, trazendo a ele lembranças que não queria. Quase em seu limite de visão ele avistou a jabuticabeira consumida pelo fogo, e a perda de mais algo querido lhe renovou de coragem para salvar Marcello. Não havia sinal dele em nenhum lugar. Mas assim que sua vista desanuviou o mundo pareceu desabar sobre ele ao ver Marcello adentrar o inferno de fogo que era a casa.
Marcello voltava desesperado, correndo, imaginando o pior.
Uma coluna de fumaça infernal erguia-se vinda da direção da casa-grande, da senzala, das plantações, tudo estava pegando fogo. Ele corria, sabendo o que estava acontecendo, sabendo o que Heitor iria fazer.
As lágrimas também tomavam conta de seus olhos, mas ele também não se importava. Só queria achar Heitor para que fugissem daquilo que sabia, o destino lhes proporcionara. Ele começava a se juntar à multidão, tentando desviar dos que pareciam mais perigosos, mas seu foco de visão não saía da casa-grande, seu coração lhe avisava que era pra lá que ele deveria correr.
Ele viu a jabuticabeira completamente submersa em fogo, e então uma visão terrível lhe penetrou a mente: Heitor apoiado em seus galhos, queimando junto com ela. Mas não havia sinal de nenhuma pessoa em cima dela, sendo assim ele correu ainda mais rápido, tentando apagar a imagem de sua cabeça.
Pouco antes de chegar à casa, sentiu uma dor lancinante lhe perfurar a perna, e ele caiu com tudo no chão. Gemeu de dor, mas levantou-se de onde estava, pois se ficasse ali morreria atropelado por toda aquela gente.
A cena parecia desenrolar-se em câmera lenta, os gritos, o desespero nos rostos de todos, e Heitor não estava lá. Marcello olhou para a casa-grande, tomada pelas chamas, e seu coração afundou. Heitor devia estar lá, procurando por ele. Não suportaria perdê-lo.
Marcello arrombou a porta da entrada jogando-se sobre ela, e não sabia de onde tirou forças para isso. A sala de visitas estava irreconhecível, com vários pedaços do teto caído e outros pendurados, queimando, todos os móveis em chamas, não havia uma direção em que não se erguesse uma parede de fogo maldita.
– Heitor! – Gritou, mas sua voz mal saía por causa da fumaça.
Ele atravessou os obstáculos em chamas da sala, chegando à união desta com a sala de jantar, logo em seguida subindo as escadas para o primeiro andar, onde ficavam os quartos, foi então que um grande pedaço do teto caiu por cima dele, velando seus olhos em escuridão.
Heitor correu como pôde em direção às escadas da entrada, atravessando o fogo que já se erguia a muitos metros de altura. Viu a porta derrubada e seu coração pesou imaginando Marcello fazendo isso poucos momentos atrás. A fumaça escurecia a visão, dificultando a respiração. O fogo surgia em todos os lados, e o teto da sala tinha vários pedaços pendurados e outros caídos. Um caos mortal.
Heitor tentou correr para pular a parede de fogo separando a sala de visitas e a de jantar, caindo com tudo no chão do outro lado.
– Aaargh! – Gritou de dor.
Ele levantou-se na mesma hora, ignorando a dor que lhe invadia, olhando ao redor pra tentar enxergar alguma coisa.
– Marcello! – Chamou, sem obter resposta.
Ele devia ter ido procurá-lo nos quartos, pensou, mas o corredor que dava acesso às escadas estava lacrado pelo fogo e por escombros. Marcello não poderia ter se arriscado tanto, poderia? A casa tremeu e ele já não se importou com perigo, tomou impulso e jogou-se contra a muralha de fogo.
Caiu do outro lado com algumas partes de sua roupa entrando em combustão e seus cabelos chamuscados. Apagou-as imediatamente, gritando por Heitor sem parar.
– Marcello! Meu amor, por favor, responda! – Chorava compulsivamente.
Uma grande pilha de escombros indistinta dificultava a passagem pelo corredor, e Heitor contornou-a com alguma habilidade, correndo em seguida para a escada, sua barriga latejando de dor.
Arrombou a porta do quarto de ambos dando um chute. Gritou por Marcello mais uma vez, mas ele não estava lá. Deu meia-volta, o coração batendo furiosamente. Será que Marcello não o encontrou e saiu por outro lado, ou estava desmaiado em algum lugar por ali? Pensar nessa hipótese matou-o por dentro. Desceu as escadas, mas uma dor parecida com enfiar uma espada em brasa através da carne penetrou sua perna e ele caiu no chão, sem respirar.
Parecia estar tudo acabado. Marcello devia estar ali, ou lá fora, esperando por ele, e ele ia morrer, deixá-lo sozinho. Não podia permitir isso, não podiam se separar, viver um sem o outro. Sua visão estava embaçada, mas num lampejo de clareza ele enxergou uma massa de cabelos loiros a poucos metros dele.
Marcello! Tentou gritar, mas não conseguiu.
Rastejou até ele, chorando sem parar. Ali estava ele, caído. Morto? Não sabia, não acreditava que o destino não seria tão cruel. Pareceu passar um tempo infinito até ele conseguir tocar os cabelos loiros de Marcello, e tirar furiosamente os escombros de cima dele.
Marcello acordou sobressaltado, um calor infernal assolava seu corpo, e ele mal respirava. Algo indistinto se movia acima dele, e seu coração acelerou ao detectar o halo negro do cabelo de Heitor refletindo as chamas.
– H-Heitor. – Falou, sem acreditar.
Heitor virou-se pra ele, o rosto sujo e o cabelo com as pontas queimadas. Ele parecia não acreditar que Marcello tinha acordado.
– Meu amor! Oh meu Deus, temos que sair daqui logo! Vamos, eu te ajudo a se levantar.
Marcello obedeceu às ordens, mas o outro parou ao olhar para a perna dele, manchada de vermelho.
– O-o que foi isso? Você levou um tiro?
Marcello virou-se assustado para a própria perna, como se tivesse dado conta de que tinha sido um tiro somente agora. Daí então virou-se novamente, sério.
– Isso não é importante. Vamos logo. – E ergueu-se com o outro ajudando-o com os braços.
A cabeça de Heitor doía, mas sua alma ainda mais, como poderiam estar numa situação tão desesperadora que um tiro não seria importante? Levantou Marcello com dificuldade, e o toque com o corpo do outro, o calor estranho que sentiam, fez com que se lembrasse do motivo de lutar por viver: estar ao lado dele.
Andaram mais alguns metros, mas atestaram que seria impossível voltar onde tinham vindo.
– Vamos ter que ir pela cozinha. É o único outro lugar com saída. – Disse Heitor.
Apressaram-se virando a direção. Andaram atravessando os escombros, os pedaços de teto caídos e as chamas, mas não foram muito longe.
Estavam cercados, um círculo de fogo à volta dos dois impedia a passagem para qualquer direção.
– Não vamos conseguir. – Disse Marcello, mas Heitor se recusava a admitir isso.
Tentou ir para o lado que a parede de fogo parecia menor, mas então uma parte do teto caiu bem ao lado deles, fazendo-os tombar com tudo no chão.
– M-Marcello... e-eu não sei o que fazer.
A face de Marcello estava calma: não havia nada o que fazer, por que se preocupar? Lentamente se aproximou do outro, estavam sentados e um círculo protetor parecia deixá-los fora do alcance das chamas.
– Amor... – Disse Marcello, levando a mão até o cabelo do outro. –, não tenha medo... – A expressão de Marcello era de tristeza. O único medo era de perder Heitor, mas não parecia que isso ia acontecer apesar de tudo. – Foi para isso que nós nascemos. O fogo nos une e nos separa. Nascemos para morrer, para aproveitar o fogo do nosso amor enquanto pudermos.
Marcello parecia compenetrado, então era o fim.
– E-eu não posso aceitar isso. Eu quero ficar ao seu lado... – Mas no fundo sabia que o outro estava certo. Terem se amado tão rapidamente, o que sentiam ao se tocar, o fogo que os consumia de todas as formas, não podia ser algo comum, eles eram ligados de uma maneira mais forte.
Ficaram olhando nos olhos marejados de lágrimas um do outro, sem saber o que fazer, até que algo atrás das chamas chamou a atenção de Heitor. Algo... seria uma pessoa? Não, eram duas pessoas, paradas de pé, tranquilamente, perto das chamas. Heitor não podia enxergar bem, mas parecia... um homem e uma mulher. A mulher de cabelos de chocolate usava um vestido vermelho, e o homem vestido parecido o Senhor de Castro, só que possuía uma sobrancelha grossa, e então Heitor reconheceu-os.
Como seus pais poderiam estar ali? Pareciam olhar a cena tranquilamente, como se estivessem aguardando um acontecimento importante. Heitor quis gritar para eles, mas sabia que não deveria fazer isso. Deveria estar avistando alguma miragem, ou uma lembrança de seu cérebro confuso e afetado pela fumaça. Então as chamas cobriram-nos e eles desapareceram.
A atenção de Heitor voltou-se para Marcello ao seu lado.
– P-prometa... prometa que nunca vai me deixar... – Disse Heitor, a fala desesperada, cortada pela lágrimas.
Marcello olhou fundo nos olhos dele. Iria perdê-los, nunca mais veria aqueles olhos misteriosos que amava tanto.
Levou a mão à face do outro, enxugando suas lágrimas com o polegar.
– Até parece que você esqueceu... – Pausou, evitando chorar. – quando nos beijamos pela primeira vez...
Heitor passou a mão no cabelo dele, sentindo-os como se fosse a primeira vez. A última vez.
– ...Que eu jamais te deixaria. Que eu estaria aqui pra você pra sempre...
Então aproximaram os rostos. O fogo estava a menos de um metro de ambos, enclausurando-os em um círculo perfeito, uma energia que os protegia enquanto desse tempo.
– Sempre... – Disse, encostando os lábios nos dele, unindo-os em um beijo derradeiro, o último beijo da vida de ambos.
Então fecharam os olhos, sentindo o toque de seus lábios. Um tremor universal desceu sobre o lugar, a existência de ambos comprimiu-se em uma massa única de fogo.
Mas a massa de fogo destruidora não foi capaz de eliminar a paz que os dois sentiram ao descobrirem, um segundo antes de morrer, que nada era mais forte que o fogo do amor que sentiam um pelo outro.
Notas finais
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1 pequena surpresa em breve
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