Fogo
16 Epílogo
Notas iniciais
Cynthia enxugou uma gota de suor na testa, pela milésima vez estava cuidando de um machucado do pestinha que se encontrava sentado à sua frente.
– Como você fez isso, menino? – Perguntou. Era uma mulher negra e corpulenta, mas dócil e delicada, embora seu humor não fosse muito aprovador com o garoto. Enfermeira do colégio em que trabalhava, já devia estar acostumada a tratar das crianças machucadas, mas começava a se irritar com Edgar, que toda semana aparecia com um machucado. Como um menino de apenas doze anos podia se machucar toda semana? A resposta estava na pergunta: doze anos.
– Desculpa Cynthia. – Falou Edgar, fazendo cara de arrependido. – É que eu estava na aula de Ciências, o nosso professor levou a gente ao laboratório.
Ele pausou, como se as explicações estivessem dadas. Mas Cynthia levantou as sobrancelhas.
– E...?
Edgar pareceu hesitar. Afinal nem ele mesmo tinha entendido o que tinha acontecido.
– Aí eu cheguei perto do balcão de experiências. A professora disse que a gente não mexesse, mas eu tava tomando cuidado. – Ele pausou, denunciando-se, afinal ele tinha se machucado. – Bom, então eu peguei um frasco pequeno, com um algodão tampando, e de repente o algodão pegou fogo e queimou minha mão.
– Não acredito nisso, você...
– Mas Cynthia, a professora disse que estava tudo sem funcionar! Não tinha nada que fizesse acender aquilo.
Cynthia pareceu amenizar a expressão, embora não acreditasse totalmente na história dele.
– Rum, tá bom. – Ela virou-se, pegando um frasquinho com uma pomada dentro. Ela tomou a mão dele e passou um pouco na queimadura que, afinal, não tinha sido tão grave. Logo depois ela trouxe umas gazes, que enrolou com cuidado na mão vitimada de Edgar.
– Olhe, a gaze não deu. Vou ali na despensa pegar mais algumas. Fique aqui e não-mexa-em-nada, compreendeu?
Edgar fez que ‘sim’ com a cabeça, o que pareceu bastante suspeito vindo de uma criança bagunceira.
Cynthia saiu da sala, deixando Edgar sozinho ali.
Sentado na maca, tentou prestar mais atenção onde estava. A enfermaria era relativamente grande, em formato de L maiúsculo. Não parecia ter mais ninguém por ali. As outras macas estavam branquinhas e arrumadas, ocupando todos os espaços disponíveis. Parecia realmente um hospital.
Mas então Edgar percebeu uma coisa estranha. Numa das macas, já virando a entrada para a outra seção da enfermaria, tinha uma pessoa deitada. Ele não aguentou a curiosidade e levantou-se da sua própria, para ver se conhecia a outra pessoa que estava doente.
Ao chegar perto viu que era um menino. Não lembrava direito dele, talvez fosse da mesma série que ele, só que de outra turma. Ele estava dormindo profundamente, deitado com um livro aberto sobre sua barriga.
Edgar se aproximou mais, para enxergar melhor o livro. Na página em que estava aberto viu algum texto e uns desenhos estranhos. Ao encostar-se à maca pôde enxergar direito.
O desenho consistia de um homem vestido de caçador, empunhando uma clava. Em cima dele mostrava-se escrita a sentença “Órion, o Caçador”. A outra figura era um Escorpião, do tamanho do homem, atacando-o. Eles estavam em polos opostos da página, mas a rivalidade entre eles era óbvia. Edgar distraiu-se olhando o livro, mas logo depois tornou sua atenção para o garoto deitado na maca. Ressonava tranquilamente, nem parecia estar doente.
Edgar levantou a mão à testa dele, pra ver se estava com febre. E ele estava, mas o que o assustou foi um leve calor que suas peles trocaram com o toque, como se se pertencessem. Achou aquilo estranho, mas foi... bom? Ficou com a mão na testa dele, e quando deu por si estava fazendo carinho nela, bem lentamente, como se o carinho fosse curá-lo. Um frio na barriga lhe digeria por dentro. Seria medo? Não, era como se estivesse encontrando algo que procurava há tempos. Logo sua mão estava nos cabelos do outro, afagando-os carinhosamente.
O outro se mexeu e ele se retesou, tirando a mão do cabelo dele na mesma hora. O menino fez menção de acordar, coçando os olhos como quando se acorda.
Ao encontrarem o olhar, ambos não puderam deixar de notar a ânsia em si mesmos, a vontade de se conhecerem como se o tempo que tivessem não fosse suficiente.
Mas, antes de tudo, o que lhes chamou a atenção foi a impressão de enxergar uma chama quase familiar nos olhos um do outro.
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