Fogo
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Heitor cortava as pradarias da fazenda montando o corcel que haviam lhe dado naquela manhã. Iria completar amanhã onze anos e seu pai pensou que já era tempo de dar-lhe um presente de homem crescido. Nunca havia montado em nenhum cavalo antes, mas mostrou-se extremamente familiarizado com as rédeas e com a postura necessárias para cavalgar de forma bem-sucedida. Explorou todos os limites da enorme fazenda pertencente aos Outubro. Desde o regato que dividiam com a fazenda dos De Castro, passando ao lado das imensas plantações de café onde os negros trabalhavam no sol a pino, até a fronteira nordeste da fazenda, que dava numa cachoeira de vinte metros de altura, propriedade deles mesmos. A fazenda era uma das mais lindas da região, dizer-se-ia até mesmo de todo o estado.
Depois de atravessar os quatro cantos daquela imensidão verde voltou ao centro, o ponto de partida e localização da Casa-grande. A cem metros já avistava seu pai e o Senhor de Castro aguardando-o ansiosamente para saberem se o puro-sangue teria dado seu efeito.
Parou de forma propositalmente desajeitada e levantou uma montanha de poeira em cima dos dois.
— Moleque danado. Vamos, desça daí e vá trocar a roupa. Hoje à noite vamos para a festa na casa do Senhor de Castro e é bom que esteja com tudo em ordem para não fazer vergonha à família. Cumprimente o senhor De Castro.
— Bom-dia seu De Castro! Qual seria o motivo da festa? Comprou escravos novos?
— Na verdade não é bem isso... — respondeu prudente o senhor de Castro – É algo que festa surpresa e gostaria de mantê-la nessas condições até sua hora.
— Tá bom então.
— Ande menino! — Esbravejou o Barão de Outubro — Vá se aprontar ou não chegaremos a tempo.
— Mas pai, ainda é meio-dia. A festa é só à noite.
— Ande logo! Vamos, vamos, vamos.
Heitor desmontou do cavalo e seguiu para dentro da casa. De Castro dirigiu-se em sua carruagem para sua própria fazenda logo em seguida, não sem antes despedir-se do Barão e conversarem sobre coisa ou outra.
Como era de costume, Heitor havia entrado pela porta de trás. Entrava por lá para conversar com sua ama-de-leite, Nega. Após seu parto, Dona Lícia teve algumas complicações e precisou se ausentar durante alguns meses do estado. Nesse período de recuperação coube à Nega dar de mamar ao garoto, que cresceu forte e saudável da mesma maneira. Obviamente Heitor não se lembrava dessa época de sua vida, mas sentia uma ligação muito forte, tanto quanto tinha com sua mãe, com a escrava.
— Nega! Adivinha. O senhor De Castro vai dar uma festa hoje à noite!
— Eu já sabia minino, não se fala de outra coisa na região.
— Que coisa mais chata. Tive que fingir que gostei da ideia. Detesto essas festas com esses senhores de terras. Só falam de seus escravos e de dinheiro. Sem falar que meu pai vai vir com história de namoro com a filha De Castro.
— Mas garoto, um dia vosmecê vai ter que namorar. Seu pai iria gostar muito se fosse a tal da... da... Como é mesmo o nome da rebenta?
— Acho que é... Flor... Florença! É isso, Florença. Que nome mais feio não é?
Nega cobriu a boca para não rir. Falou com voz fingidamente severa.
— Menino danado. Sei não, viu. Logo tu que gosta tanto de ir até a outra fazenda reclamando de ir pr’uma festa lá mesmo.
— Só gosto de ir lá pra brincar na jabuticabeira que eles têm. Não fosse isso, seria uma chatice sempre.
— Mas é reclamão, viu.
Heitor deu umas cheiradas no ar e disse:
— Que cheiro bom, Nega. Que há pra o almoço hoje?
— Tô fazendo um assado de porco, com feijão e batatas. E vá avisar pra sua mãe que quando quiser que o almoço seja servido mande alguém avisar, já está pronto. Diga a Netinha pra arrumar a mesa.
— Tá, tá. — começou a subir a escada e parou, voltando alguns passos. — Mas diz, não é um nome feio mesmo?
Nega deu um passo brusco na direção dele, e ele correu subindo as escadas rindo alto. Ela também sorriu intimamente depois que o menino se foi.
—
Heitor subiu as escadas apressadamente. Encontrou Netinha, neta de Nega, no corredor anterior à sala de jantar e deu-lhe o recado de sua avó. Correu mais alguns metros e encontrou sua mãe lendo um livro em uma das janelas da casa. Perto do escritório do pai. Heitor achava-a a mais linda de todas as pessoas. Tinha os cabelos extremamente pretos, iguais aos seus próprios. Sentava-se com uma postura de rainha, o que por pouco não era, mas era tão humilde quanto bela. Depois que voltou da internação não conseguiu se recuperar totalmente da infecção. Seu pai sempre dizia que ela mudou muito, que era ainda mais bonita antes de Heitor nascer. Desde esse tempo não era mais a mesma Mas o menino acreditava que era impossível alguém ser ainda mais linda do que sua mãe. Até ela mesma.
Sentou-se ao seu lado no pequeno divã e abraçou-a.
— Heitor, querido? Porque está tão coberto de poeira?
— Fui cavalgar no meu cavalo novo. Papai me deu de aniversário.
— Não acredito que seu pai fez isso. Eu disse a ele que você ainda não era crescido o suficiente pra isso. Olhe, está todo sujo... — disse, dando uns tapinhas na roupa pra tirar um pouco da poeira.
— Tudo bem, mãe, tomarei banho em breve. Vou com papai pra festa do Senhor de Castro, hoje à noite.
— Eu já estava sabendo. Tome cuidado lá, me ouviu? Se comporte e não saia de perto de seu pai.
— Por quê? A senhora não vai?
— Seu pai prefere que eu fique em casa pra qualquer ordem que precise ser dada. Além do mais sua irmã chega de viagem amanhã pela manhã e tudo deve estar pronto pra chegada dela.
— Tem razão. Nem lembrava mais dela. – disse, dando um sorriso sarcástico. — Vou brincar lá fora, tchau mãe!
Despediu-se dele e se perguntou se ele não havia se esquecido de avisá-la do almoço.
Quinze minutos depois estavam todos à mesa. O Barão tomava seu ensopado fazendo barulho com a colher e a baronesa acabava de sentar-se à mesa. Já Heitor ainda estava coberto de poeira, e Nega estava tentando passar um pano nas partes mais sujas.
— Filho, passe-me as batatas, por favor. E fique quieto pra que Nega possa limpá-lo.
— Lícia — perguntou o Barão. — Já sabe que horas que Lúcia chega de viagem? Se for cedo demais não vou sair da festa muito tarde, pra não ir com muitas olheiras buscá-la na estação.
— Não será tão cedo. Provavelmente chegará por volta das dez, no máximo onze, horas.
— É bom que não tenha arranjado nenhum namorado na universidade. Essa idade dela é perigosa.
— Ernesto! Mais respeito com nossa filha.
— Só estou falando a verdade. Todas essas mocinhas se desvirtuam ao chegar à cidade grande.
— Mas todas essas mocinhas não são nossa filha.
— Pouco vai me surpreender se estiver prenha.
— Isso é um disparate! Chega. Perdi o apetite.
Lícia levantou-se abruptamente da mesa e seguiu para o quarto. O silêncio reinou durante todo o almoço.
Mais tarde o Barão foi até o quarto onde estava a baronesa e desculpou-se. Heitor percebeu que ele havia feito isso, pois logo depois já estavam caminhando de braços dados pela fazenda.
Heitor definitivamente não entendia os adultos.
A noite foi chegando e Heitor e seu pai já se preparavam para a grande comemoração do dia. Assim como todos na casa-grande já sabiam, a notícia voou com as folhas no vento e chegou até a senzala. Os negros estavam irrequietos há meses, mas o Barão redobrou a guarda e diminuiu o tempo livre fora da senzala, o que os deixou ainda mais irritados. Uma fuga em massa era iminente, mas o Barão confiava que seus capitães não permitiriam algo dessa natureza.
Depois que tomou banho e trocou de roupa, Heitor desceu para a cozinha para conversar com Nega. Como, aliás, sempre fazia.
— Aí, Nega, eu consegui chegar até a cachoeira montado no meu cavalo. Claro que não cheguei até a cachoeira, porque aí ele ia se afogar, mas de onde eu estava... Nega, você está prestando atenção?
Interrompeu-se porque a escrava olhava a todo momento para fora da janela, na direção da senzala, como se sentisse que algo estava pra acontecer.
— Nega!
— Ah, oi meu fio. Descurpe, tava meio distraída.
— Você estava olhando pra senzala por quê?
— Né nada não anjinho. É só a cantoria deles.
— É, dá mesmo pra ouvir daqui. Nega, já vou embora, daqui a pouco meu pai e eu vamos pra fazenda dos de Castro e é melhor eu já estar na porta de casa quando ele for sair.
— Vá mesmo, meu fio. Vá mesmo.
— Tchau, Nega.
Abraçou-a fortemente, tentando levantá-la, como sempre fazia. Ela se despediu também, dando nele um tapinha no bumbum. Depois que ele subiu para a casa, ela olhou novamente para a janela, direto pra senzala. Ela conhecia algumas das canções de capoeira dos negros e segundo o que ela se lembrava aquela era uma das mais violentas de todas. Alguma coisa a dizia que aquela não seria uma noite tranquila.
A Baronesa havia conversado com o Barão sobre o movimento dos escravos, mas ele manteve-se irredutível na decisão de ir à grande comemoração dos de Castro. Heitor observou-os discutindo. De seu ponto de vista sua mãe estava de costas e ele só conseguia ver a expressão de seu pai. Heitor divertia-se de ver seu pai preocupado, porque ele tinha sobrancelhas grossas e quando ele franzia o cenho parecia que era uma só, ou ainda um outro bigodão em cima dos olhos. O garoto não podia ver sobre o que conversavam, mas parecia sério. Sua mãe gesticulava muito com as mãos, como sempre fazia quando estava nervosa, e vestia o vestido que lhe cabia melhor, e na cor favorita de Heitor, vermelho. Os dois abraçaram-se e vieram em direção à Heitor.
— Vamos meu filho? Chegaremos atrasados se nos demorarmos mais.
Heitor fez que ‘sim’ com a cabeça e desceu da cadeira em que estava sentado. Abraçou a mãe e ela se curvou para beijá-lo na face.
— Comporte-se. E faça o que seu pai mandar.
— Pode deixar, mãe.
Desvencilhou-se de seus braços e correu para seu pai do lado de fora, que já gritava para apressar-se.
Do lado de fora da casa o barulho dos negros cantando era perfeitamente audível. A senzala não ficava tão perto da casa-grande, mas o coro de mais de quinhentos escravos cobria a distância facilmente. Heitor desceu as escadas da frente e avistou uma carruagem, puxada por dois cavalos negros, parada à frente. Seu pai já estava montado e olhava impacientemente para Heitor, mandando-o correr. Dois escravos de companhia iam junto com eles, dirigindo a carruagem. Heitor olhou para trás, na direção da senzala e um arrepio subiu-lhe a espinha. Conseguiu compreender um pequeno verso da cantoria.
Porque, por todos que já pisaram aqui
Todo sangue derramado
Todo negro que teve que ir
Para o Tronco morrer açoitado.
A cena descrita chocou sua mente e ele tentou desviar sua atenção. Nunca tinha visto nenhuma das “lições”, como seu pai dizia. Nega já havia lhe contado como seu marido havia morrido. No Tronco. Heitor não sabia o que era isso, mas pelo que imaginou, devia ser algo muito terrível. A carruagem deu um solavanco e seguiu para a fazenda vizinha.
O frio da noite batia contra a pele de Heitor, fazendo-o sentir calafrios dolorosos. A estrada era de terra e estava irregular, fazendo com que a carruagem subisse e descesse de nível muito rapidamente. A floresta ao redor era de um negrume infernal. Heitor imaginou que tipo de coisa poderia sair dali e matar todo mundo. Uma coruja saiu voando repentinamente e ele se encolheu atrás do pai.
— P-Pai, ainda v-vai demorar muito? — Disse, batendo os dentes.
— Não se lembra do caminho não? E falta bem pouco, se quer mesmo saber.
Heitor olhou para o céu. A Lua brilhava tão forte que impedia que se vissem as estrelas ao seu redor. Heitor gostava muito da Lua. Servia para quebrar um pouco as trevas da noite. Não demorou muito e já dava pra ver a entrada da fazenda. Era um arco enorme, com letras em proporção escritas em bela caligrafia: Fazenda de Engenho Baccus. Heitor sabia o que era aquele Baccus por ter visto em um dos livros de sua mãe. Era o deus antigo do vinho. Fazia lógica, se soubéssemos que era uma fazenda especializada em plantio de uvas. Heitor também havia encontrado o significado de seu nome, que vinha de um grande guerreiro, o que o deixou envaidecido. Já podiam avistar dali as luzes da comemoração, o cocheiro apressou-se, parecia que iria cair um temporal.
Da casa grande, a baronesa observava a grande nuvem se aproximar. Era vermelha e ameaçadora. Parecia que os ventos curvavam-se à sua vontade, ela os arrastava. O sonoro coro dos escravos orquestrava o balé do céu, transformando tudo em uma sinfonia de ordem humana e natural, assustadora. A baronesa sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e fechou a janela de onde observava tudo. Atrás dela estava a pequena negrinha, Netinha, carregando as roupas limpas. Lícia observou que ela se tremia toda. Não era à toa, o frio estava mortal.
— Sinhá, a porta do seu quarto tá fechada.
— Tudo bem Netinha, deixe isso aqui mesmo e desça pra cozinha e fique com sua avó. Está muito frio.
— B-brigada sinhá. — e se dirigiu para as escadas que davam na cozinha.
Na fazenda dos Castro, Heitor estava extremamente entediado. Como previu, só estavam presente senhores de terras, que só discutiam sobre suas propriedades e sobre escravos. Do outro lado da sala a tal da Florença não parava de olhar para Heitor, deixando-o constrangido. Tinha boa música e boa comida, mas Heitor estava odiando estar ali. Procurou o que fazer. Dali de onde estava não podia ver a jabuticabeira da qual tanto gostava. Teria de andar uns cem metros pra chegar até ela. Olhou para seu pai, que conversava animadamente com os outros senhores. Desceu da cadeira em que estava e escapou silenciosamente dali.
Viu que ninguém havia prestado atenção em sua fuga e correu o mais rápido que pôde. Chegou à árvore em poucos segundos. Estava muito escuro, e o frio era cortante. Mas era melhor ficar ali do que naquela chatice. Depois de alguns minutos percebeu uma luz alaranjada no horizonte, acompanhada de estouros. No início pensou que fosse um relâmpago e os trovões. Mas entendeu o que realmente era ao ver a fumaça elevar-se no céu.
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