Floresça-me
9 Warner's pov
– Ok! Estou grávida! — Ela grita, tampando os olhos.
Grávida.
Isso explica muita coisa. Explica porque suas emoções estão tão intensas, tão inacreditavelmente fortes. Explica também seu medo e nervosismo crescentes ao longo dos dias. Explica também porque eu estava com aquela sensação. Aquela sensação de que tudo iria mudar.
Grávida.
Fecho os olhos e relembro tudo pelo que passamos. Se eu senti todo esse estresse, imagino como deve ter sido para ela. Para a bebê.
Fico tenso na hora. Se por causa desta guerra, por causa do meu pai, algo acontecer à minha filha... se algo acontecer à Juliette...
Não permito-me pensar nisto. Tento imaginar um mundo sem a Juliette. Sem a minha Juliette. E é... aterrorizante. Dói-me física e emocionalmente. Um mundo sem a Juliette não seria um mundo.
Lembro-me de alguns livros que já li. Eles tratavam de um mesmo lugar, mas os nomes dados a ele eram diferentes. Um lugar cheio de sofrimento e miséria. Cheio de dor e aflição e agonia e angústia e tortura. Devastado de desgraças e dissabores e mágoas e tristezas. As pessoas vivem com o tormento, com a desolação. Um lugar onde as pessoas pagam por seus pecados.
Inferno. Submundo. Tártaro.
Sem a Juliette, o mundo seria assim. E eu seria um dos pecadores, um dos que sofrem com a dor e o pesar e com todas as angústias possíveis e impossíveis. Seria um dos pecadores pois a Juliette, apenas a Juliette é minha salvação. Apenas a Juliette tem o poder de me absolver dos meus pecados. De tornar-me puro por ser amado e amar também. Apenas a Juliette.
E se algo acontecer a ela ou a minha filha, a culpa será toda e absolutamente minha.
Uma filha. Uma filha minha com a Juliette.
Pensei que já tinha obtido bênçãos suficientes. Não mereço nada disso. Minhas mãos estão sujas de sangue. Minha alma está obstruída com a morte. Nunca serei digno de tantas alegrias.
Mas não irei negá-las. Não irei recusá-las.
Sou egoísta demais para isso — felizmente, neste caso.
Preciso cuidar dela. Preciso cuidar delas.
Tento lembrar tudo o que sei sobre gravidez. Há o pré-natal. Juliette precisa de remédios. Minha garota precisa nascer saudável e forte. Ela precisa. Eu preciso.
Ouço um barulho de chave e abro os olhos. A Juliette já não está mais no banheiro. Não sei como ela conseguiu passar por mim sem eu ter percebido. Eu estava distraído demais.
Levanto-me rapidamente e saio do banheiro, procurando-a. Ela está na porta, e suas emoções estão uma bagunça. Ela está triste e com raiva. Com muita raiva. Não permitirei que ela saia neste estado. — Aonde você pensa que vai, Juliette?
– Não acho que isso importa para você, comandante. — Ela responde, secamente. Não entendo a reação dela.
– Você não vai a lugar nenhum, amor. Não até que resolvamos isso.
– E o que você quer que eu faça, Warner? — Ela grita, chorando. — Quer que eu fique aqui, com você? Depois disso?
Depois disso?
Ah, acho que compreendo. Eu não disse nada a ela sobre o que penso da gravidez. Ela mal desconfia que estou temeroso e feliz e assustado e maravilhado. Não lembro de ter desejado tanto algo assim. Bem, a não ser o desejo pela própria Juliette. Mas preciso dela a salvo. Preciso delas a salvo.
– Você quer saber o que eu quero? — Pergunto, sem dar tempo para ela responder. — Quero que você sente e espere. Só isso, Juliette.
– Esperar? Para quê esperar?
Porque preciso de você calma. Preciso de você calma para conversarmos sobre isso, preciso de você calma para que você fique bem, assim como a minha garotinha. – Vou procurar alguns remédios para você — respondo, tentando me acalmar também.
– Remédios? — ela pergunta, confusa.
– Sim, amor. Para a gravidez. — Preciso que elas estejam bem. Saudáveis. Preciso desses remédios.
Vejo a expressão de Juliette mudar. E muda tão rapidamente que mal consigo captar as emoções. Achei que ela estava com muita raiva antes. Bom, eu estava total e irrevogavelmente enganado. Agora ela está com muita raiva.
– Você quer que eu... aborte?! — Ela pergunta, gritando — Que tipo de monstro você é?
Aborto? Não cogitei esta hipótese nem um segundo. Não era uma hipótese até Juliette a citar. — Juliette, eu não..
– Não quero saber, Aaron! Eu só não... não posso acreditar nisso! — grito — Nunca esperaria isso de você. Nunca. Jamais. Será que seu pai deturpou tanto a sua visão que você é capaz de matar seu próprio filho?
Meu pai... ele nunca foi um pai de verdade. E comparar-me a ele é ultrajante. Mas, acima de tudo, é aterrorizante. Não posso ser como ele. Não quero ser como ele.
Juliette abre a porta. Ela não pode sair. Ela não vai sair.
– Você não terá um filho, Juliette. Não agora, pelo menos.
Vejo em seus olhos emoções horríveis, mas não é isso que me desagrada. Reconheço este olhar. Era assim que ela me olhava antes. Era assim que ela me olhava quando chegara à base.
Preciso mantê-la aqui. Minha filha — minha garota — aparece em minha mente. Vejo-a sentada ao lado da mãe, seus físicos idênticos. As pernas compridas, os braços magros. Mas a aparência... ela tem cabelos loiros e lisos que atingem até o meio das costas — igual o da mãe — e seus olhos... seus olhos são verdes. Verde esmeralda. Iguais aos meus. Na minha visão, ela olha direta e intensamente em meus olhos. Ela sorri e diz — Até que enfim você chegou, papai. Só faltava você.
Até que enfim você chegou, papai. Só faltava você.
Sinto a presença da minha filha. Sinto que estas imagens não foram meras obras de minha cabeça. Sinto que finalmente a conheci.
Só faltava você.
– Você não terá um filho agora. Será uma menina. Uma filha. E ela será igual a mim, se você quer saber. Cabelos loiros e olhos verdes. Dará muito trabalho com os garotos quando for mais velha, mas valerá a pena. Talvez Kishimoto me ajude a mantê-los longe dela. — Imagino quantos garotos a aterrorizarão. Se ela puxar esse lado da mãe, será exaustivo. A fila será longa.
Até que enfim você chegou, papai.
– Você precisará de remédios. Medicamentos. Um polivitamínico. Ácido fólico. Sulfato ferroso. Seria bom passar com um médico. Talvez as gêmeas saibam mais do assunto. Quero minha garota saudável, e você também.
Noto suas emoções mudando novamente. A raiva se foi, assim como a tristeza. Agora só há alívio, felicidade e amor.
Ela finalmente entendeu.
– Sim, amor. Eu quero esta criança. Eu desejo real e verdadeiramente a bebê. Nossa filha.
Juliette olha para mim. Sorri. Fecha a porta. E corre até meus braços, pendurando-se no meu pescoço e passando as pernas por minha cintura.
– Ai meu Deus, Aaron! Ainda bem... — ela diz, me abraçando. Abraçando-me tão forte que parece que vamos nos fundir um ao outro. — E eu disse todas aquelas coisas horríveis para você... Perdoe-me. Eu não queria dizer tudo aquilo.
Abraço-a com força também. — Estou com medo, amor.
Ela me olha. Pergunta — Medo do quê, Aaron?
Desvio meus olhos. Só de pensar nisso, meu ódio aflora. Ódio por meu pai, por ele ter feito tudo o que fez. E ódio de mim mesmo. Ódio de mim mesmo por considerar que posso ser como ele.
– Aaron? — Juliette pergunta, levantando meu queixo para encontrar meus olhos.
– Tenho medo de ser como meu pai. — digo.
Juliette passa as mãos por meus cabelos. Para com as palmas em meu pescoço. Seus polegares fazem desenhos em meus lábios. — Você nunca será como seu pai, Aaron. Meus pais também não foram os melhores na categoria. Confie em mim, amor. Aprenderemos um com o outro.
Abraço-a com força novamente, procurando conforto na proximidade do seu corpo.
Até que enfim você chegou, papai.
Papai.
Sim, terei a Juliette para me auxiliar. Para sempre.
– Ai! — Juliette diz, surpresa.
– O quê? O que foi? — Levo-a até a cama e a deito. — Você está bem? É a bebê?
Juliette põe ambas as mãos em sua barriga e espera, atenta. — Acho que... acho que o bebê se mexeu.
Sento-me a seu lado e ponho minhas mãos sobre as suas. — Será que ela se mexerá novamente? — digo, enquanto aproveito a sensação de estar com as mãos em sua barriga. Minha garota. Até que enfim você chegou, papai.
– Espero que sim, Aaron. — Responde ela, sorrindo — E que mania de chamá-lo de "ela"! Será um menino, Aaron.
– Será uma menina, amor. Sabe o que dizem sobre o sexo do bebê?
– Não, senhor Warner. O que dizem?
– Que é sempre o pai que escolhe o sexo do bebê. E eu quero uma menina.
– Isso é uma mentira descabida. Duvido que seja comprovado e ai! — Juliette diz, surpresa novamente.
– Ela se mexeu de novo?
– Sim, ele se mexeu. Aqui — ela pega minhas mãos, posicionando-as onde o último movimento foi feito. — Sinta.
Espero ansiosamente até que sinto. É um chute. Um chute da minha garota.
– Sentiu isso? — Juliette pergunta, animada.
Senti. Não só o chute. Mas alegria, felicidade, contentamento. Um misto de emoções, emoções felizes, que nunca senti antes.
Até que enfim você chegou, papai.
Beijo sua barriga onde senti o movimento. Subo por seu corpo, deixando uma trilha de beijos. Passo por seus seios, seu pescoço, suas bochechas. Quando chego na sua boca, digo, ofegante — Sabe, senhorita Ferrars, é uma honra ter uma filha com você — beijo seus lábios, faminto por eles — e fazer uma filha com você, então... é um prazer imensurável.
– Bem... — Juliette diz — que tal fazer outro filho agora?
– Outro?! — digo, surpreso.
– Sou gananciosa, Aaron — Ela diz, rindo.
– Bom, não vou negar nada a você, já que sou um cavalheiro.
Tiro sua roupa com uma velocidade digna de um dom e rolamos no colchão, fazendo uma bagunça de lençóis, travesseiros e membros. Observo seu corpo como se o estivesse vendo pela primeira vez, cobrindo-o com uma manta de beijos e carícias e mordidas e lambidas. Já começo a notar as pequenas transformações em seu corpo pela gravidez. Seus seios aumentaram. O que não é realmente incômodo. Delicio-me com seu corpo, com o nosso prazer, e sinto uma familiaridade quando finalmente nossos corpos se unem.
Há algo maravilhoso sobre nós. Algo que não sei nomear, nem distinguir, muito menos descrever. Não sei nem mesmo se é amor. Para mim, já é um nível superior a isto, se é que tal coisa é possível.
Tenho muitas coisas ruins e negativas para dizer desta vida, mas de uma coisa não posso reclamar: a Juliette me deu tudo o que me faltava. Eu não tirei. Não a fiz dar compulsoriamente. Ela me entregou.
Até que enfim você chegou, papai.
Sim, filha. Minha garota. O papai nunca sairá de perto de você. Jamais.
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