Notas iniciais
we will we will rock you

Muitas vezes, no hospício, eles recorriam aos soníferos para nos acalmar. Soníferos líquidos, inaláveis, em pílulas. Mal sabem eles que a forma estava errada. E o meio de uso também. Se eles me dessem um Aaron para passar a noite, eu dormiria como um anjo depois.

Eu dormi como um anjo. Meu corpo está relaxado, sem tensões; meus músculos não estão doloridos ou com câimbras...

Deve ser porque troquei de colchão.

Estou deitada em cima de Aaron. Ele está de barriga para cima, e eu de bruços. Minha cabeça está sobre seu peito, meus braços sobre os dele, assim como minhas pernas estão sobre as dele. É como se eu fosse um cobertor.

Nunca dormi tão bem na vida.

Ponho minha mão em seu peito, sentindo seu coração. Está calmo, mas bate forte.

É como o vejo. Meu Aaron: uma fortaleza calma. Um porto seguro.

O pai do meu filho.

O dono do meu coração. Da minha alma. E felizmente, para mim, dono do meu corpo. É por ele que suspiro e me arrepio e me excito e estremeço e me abandono ao prazer. Ser dele é um prazer. E amo isso.

Beijo seu pescoço. Seu queixo. A ponta de seu nariz. Ambas as pálpebras.

Aaron sorri antes de abrir os olhos.

– Bom dia, amor — Ele diz, ainda sorrindo.

– Eu te amo — digo.

Aaron ri. Passa as costas da mão em minha bochecha e desce até meu queixo, passando lentamente o polegar no meu lábio inferior. — Tive um sonho esta noite.

Um sonho?

– E o que acontecia?

– Eu estava com a nossa filha no colo. — ele diz, devagar — Ela tinha por volta de quatro anos, creio. Estávamos brincando e conversando sobre como o dia dela tinha sido. Ela estava se divertindo com o meu cabelo, enchendo-o de presilhas e tentando fazer tranças nele. — ele fala, rindo — Lembro dela dizer que tinha se entretido muito brincando com a mamãe.

Venha brincar comigo, mamãe.

Vejo seus olhos brilhando. Até eles sorriem.

– E o que mais? — Pergunto, curiosa, também emocionada com o sonho.

– Ela continuou brincando com o meu cabelo, falando alegremente o que tinha feito. A voz dela era tão bonita. O sorriso era igual ao seu, amor. — Ele fala, ainda sorrindo, ainda emocionando-se. — E, de repente, ela parou de falar, só continuou a mexer no meu cabelo. Perguntei-lhe o que havia de errado, e ela disse "Não há nada de errado, papai. Eu só gostaria de saber como você fez isso". Eu não sabia a que ela se referia, então perguntei "Fiz o que, amor?".

Aaron para de falar. Sorri mais largamente. Nunca o vi sorrir tanto antes. E completa: — "Eu queria saber como você pegou os raios de sol e os colocou em seus cabelos. Eles parecem raios de sol, papai." foi o que ela disse, amor. Eu respondi, dizendo "Não foram os raios de sol, minha garota. Foi você que iluminou minha vida e, sendo assim, meus cabelos também." Ela sorriu, olhou para os próprios cabelos, loiros e compridos, e disse "Bem, se eu iluminei a sua vida e também seu cabelo, já sei porque tenho meu cabelo dessa cor". Questionei-a, querendo saber porquê ela tem aquela cor de cabelo. E sabe o que ela disse? — Aaron para, relembrando o sonho, com os olhos verdes vívidos e um terno sorriso no rosto — "Porque você e a mamãe iluminam minha vida, papai. Vocês são minha luz. E meu sol. E todas aquelas estrelinhas brilhantes que vemos de noite". E então, acordei. Acordei com você aqui, em meus braços, com minha garotinha no ventre. Não sei o que é mais doce, o sonho ou a realidade.

Passo as mãos por seu cabelo. Parece mesmo raios de sol.

– Só há uma coisa errada no seu sonho, Aaron.

Ele olha para mim, franzindo o cenho, confuso. — O que é, amor?

– Será um menino.

Ele ri, achando graça. — Será deliciosamente divertido vê-la se enganar, Juliette.

Conversamos animadamente sobre a gravidez até que escuto um som. Um barulho. Parece com uma batida. Uma batida de música.

– Aaron, você está ouvindo isso?

– Sim. Acredito que é uma música. Venha, vamos ver o que está acontecendo.

Estamos chegando no elevador quando ouço. Já consigo entender a letra.

Buddy you're a boy make a big noise playin' in the street gonna be a big man some day

Estamos saindo da base

you got mud on yo' face, you big disgrace

Abrimos os portões, com algumas armas em punho, prontos para qualquer coisa

kickin' you can all over the place, singin'

saímos e há um carro estacionado, com uma mulher apoiada no capô, cantando animadamente a música que sai do alto-falante do carro

'we will we will rock you

we will we will rock you'

Ela está balançando a cabeça com a batida, cantando alto. Ela está usando coturnos, calça jeans velha e rasgada em vários lugares com uma regata preta e óculos escuros, do tipo aviador. Sua pele é clara, e seu cabelo preto e liso está preso em uma trança de lado.

A garota finalmente nota que estamos ali, observando-a. Ela diz:

– Ah! Até que enfim! — Ela desencosta do carro e abre a porta, abaixando o volume da música. Olhando para nossas expressões assustadas, ela fala — O quê? Vocês não gostaram da música? — ela para, esperando uma resposta. Como nem eu, nem Aaron respondemos, ela continua — É Queen! Um clássico! — Ela espera por algum reconhecimento, mas não há nenhum. — Pessoas sem cultura... — ela diz, estalando a língua.

– Quem é você? — Aaron pergunta.

– Sou Amaya, e é um prazer te conhecer, comandante. — Amaya fala, tirando os óculos escuros. — Hmmmm, vejo que você pode ler as emoções das pessoas, assim como usar os dons delas. Vejo também uma incrível beleza. Sim. Muito bonito. — Ela diz, com um toque de brincadeira na voz, portanto, não me ofendo. Ela é oriental também. Já aprendi o suficiente com o Kenji. O bom humor deve ser característica da região.

– Como você sabe os dons dele? — Pergunto, curiosa.

– Juliette Ferrars, sabia que você era poderosa, mas não tinha noção do quanto. Uau. — Ela diz, observando-me atentamente — Super força e você pode matar com apenas um toque? Uau. Isso seria realmente útil com os rapazes que conheço. São bem insistentes — ela diz, piscando.

– É o dom dela, amor. Ela consegue ver quais são os dons das pessoas. Entretanto, Amaya, isto não explica o que você veio fazer aqui. Creio que este não é o seu setor, certo?

– Você crê certo, caro comandante. Venho do setor 35, do outro lado do mar que banha suas costas. Não as suas costas, o que seria agradável de ver, mas as costas do território de vocês. Sem ofensas, Juliette Ferrars, não precisa me dar um toque. Quer dizer, não preciso nem do toque figurado, nem do literal, obrigada.

Rio, achando-a engraçada. Engraçada e irritante. Lembra-me muito o Kenji. Acho que posso apresentá-los. — E o que você veio fazer aqui?

– Boa pergunta, Juliette Ferrars. Venho porque há vários foques de ataque contra o Restabelecimento após a vitória de vocês. E vim pedir ajuda. Eu e mais umas dúzias de pessoas queremos extinguir o Restabelecimento total e completamente.

– Defina "umas dúzias" — Aaron pede.

– Hmmm — Amaya parece pensar. — Umas cinco... talvez seis...

– Pessoas? — Pergunto-lhe.

Ela olha para mim, com um sorriso de lado. Seu olhar é sanguinário. — Sim, umas cinco, ou seis... milhões de pessoas.

Olho-a boquiaberta. Aaron também está surpreso.

Amaya apenas sorri. — Espero que esta base seja grande o suficiente — ela comenta. — Porque eles estão vindo para cá. E que Deus ajude, vocês são péssimos anfitriões. Como vamos receber pessoas com poderes que podem nos rasgar em pedacinhos, o que seria um desperdício, porque olhe para nós, somos perfeitos, se nem as convidarmos para entrar e tomar um café?

Aaron olha para ela. Até mesmo sorri um pouco. Diz:

– Entre, Amaya. Temos muito o que discutir.

Ela entra na base.

Olho para Aaron.

Aaron olha para mim.

Consegue sentir como se tudo estivesse... a um passo de mudar?

Sorrio. Acabar de vez com o Restabelecimento parece perfeito para mim.

Notas finais
ANA, valeu de novo, VOCÊ ME FALOU DESSE SONHO DO WAR E ME APAIXONEI NA HORA, TE DEVO UMA ETERNAMENTE. Val, obrigada novamente por me aguentar. E aos que estão esperando um pouco de ação, vocês a terão. Vocês a terão.