Floresça-me
15 Kenji's pov
Notas iniciais
Ultimamente tenho pensado que o tempo, esse ser eterno e completamente filho da mãe me tem escorrido pelas mãos.
Cinco meses.
Faz quase cinco meses desde que tudo mudou.
As eleições começaram e houveram candidatos realmente bons disputando com o Castle. Alguns estavam levando a sério a responsabilidade de modificar as coisas por aqui; as ideias surgiram e receberam a aprovação do povo. Alguns tinham ideias revolucionárias – teletransportes, ajuda de alienígenas (usaram como exemplo uns aliens de orelha pontuda e sobrancelhas extremamente arqueadas. Eram uns caras altos e sérios, totalmente sem graça. Que a Amaya não me ouça falando isso, mas não vi e nunca verei nada demais neles. Ela os venera.), repovoação de planetas da nossa galáxia, entre outros que não valem a pena ser comentados. Houve aqueles que queriam começar devagar, ir alcançando pequenas conquistas e a confiança do povo. Entre estes está o Castle, e um dos planos que mais ganharam destaque dele foi o de dar lares às pessoas. Levá-las para os campos, para as ruas, para os prédios e fazer delas trabalhadoras, reconstruindo estas áreas há tanto perdidas.
E assim ele fez ao ganhar a eleição. Ele abriu os cofres do Restabelecimento – cofres bem gordos, devo dizer – e deu uma quantia para cada família, para se ajeitarem. Depois, pegou as pessoas com idade hábil para trabalhar e deu-lhes um trabalho. Tudo está sendo inovado. As ruas estão mais limpas, mais coloridas, mais felizes. As escolas têm muros e cadeiras e mesas e professores e alunos – o James está mais feliz que qualquer garota que ficar comigo, o que é muita felicidade –, as casas têm alimentos frescos e sadios, legumes e verduras, grãos e carnes. Nada mais de ração, graças ao bom Deus. Os campos estão sendo reflorestados: há mais árvores e flores e ouvi até um pássaro cantando por aí – o que deixou a J meio maluca, não sei bem o porquê, mas ela nunca foi normal mesmo.
Todos os cidadãos receberam o incentivo de ter uma horta e um jardim em casa. São distribuídas diariamente várias sementes para serem plantadas nos jardins.
Com o reforço dado, surgiram pessoas que constroem e melhoram as casas. Warner contratou algumas dezenas destes e os mandou para os complexos, onde derrubaram muitas paredes e levantaram mais algumas, e o lugar está irreconhecível. Já é possível ver as casas se formando e uma das casas que já estão ficando prontas é deles. Subentenda eles por Warner e Juliette, pois eles nem parecem duas pessoas mais. Eles se tornaram um só. Onde um vai, o outro vai junto. Eu acho isso realmente nojento, mas a Amaya acha – e abra aspas nisto, pois eu nunca diria uma merda desta, nem em um milhão de anos – que é super hiper mega blaster fofo. Eles já começaram a pintar a casa. Imagine a cena: a Juliette enorme, com uma barriga maior do que qualquer coisa que já vi, com um pincel na mão, toda suja de tinta. Eu não ajudei e joguei um pouco mais nela, o que me causou uma lata de tinta inteira na cabeça. A Amaya gosta de me dar nos nervos.
Perguntei para Warner o que seriam feitas das casas que restaram e ele muito humildemente disse que elas seriam nossas – minha, do Castle, do Adam (do Adam!) e da Alia, da Lily, do Ian, do Winston, do Brendan e das gêmeas. Foi uma surpresa para todos nós. Eu queria a casa do lado direito da J e do Warner, mas a Amaya fez o favor de pegá-la antes. Então fiquei com a do lado esquerdo e estou morando lá desde então.
A Angelina Jolie é bem simples e o seu tamanho está ótimo para mim. Aliás, Angelina Jolie é o nome da minha casa. – “Existem pessoas estranhas que dão nomes para carros. Existem pessoas mais estranhas ainda que dão nomes para casas. Por que diabos você deu um nome para a casa?” A Amaya pergutou. Respondi-lhe que dei um nome para casa porque como terei muitas daqui uns anos, por causa do dinheiro abundante que terei e gastarei erroneamente, terei que identificá-las de algum jeito. Nada melhor que batizá-las, então. “Você sabe que o marido dela é bem melhor que você, não sabe?” Não, não sei de nada disso. “Bom, pois agora sabe. Ele tinha um cabelo loiro escuro e olhos azuis claros e ele era tão lindo. Você já viu o filme em que ele nascia velho e –“ Não, Amaya, não vi. “E o que ele lutava contra uns zumbis e –“ Não. “E o que ele era casado com a Angelina Jolie e –“ Não, Amaya. “Então é por isso que você gosta da Angelina. É porque você ainda não viu o Brad. Se eu fosse homem, eu viraria gay por ele.”
Não preciso dizer que ela é irritante, porque convenhamos, isso está na cara.
E, é claro, você deve ter notado que citei a Amaya várias vezes. Isso se deve ao fato que temos passado muito tempos juntos – infelizmente. Já não basta sermos vizinhos, temos deveres de padrinhos a serem feitos. Adicione ainda a persistência da Juliette em fazer com que fiquemos o máximo de tempo possível juntos e o resultado desta receita é o inferno. Eu já não gostava da Amaya com a falta de convivência, imagine agora que a vejo todo dia.
E ainda há uma coisa que Castle não conseguiu remover deste povo: o trabalho escravo. Pois a Juliette está me usando para cuidar das coisas da casa e eu realmente não aguento mais. Ontem eu ajudei a limpar o banheiro, que estava empoeirado pela colocação do piso. Hoje comecei a pintar as paredes da parte de trás da casa, porque a Juliette está com os pés inchados. “Estou com oito meses e algumas semanas, Kenji. Seja um bom padrinho e ajude. A Amaya não liga em nos ajudar.”
E por falar nisso, estou ouvindo-a vir para cá. E não, não desenvolvi super audição nem nada disso. Ela vem cantando. Cantando. Se você já ouviu um alce morrendo, você deve saber como a voz dela se parece.
– I said, It’s gettin hot in here, so hot, so take off all your clothes, I am gettin so hot, I wanna take my clothes off – Ela canta a música interpretando duas vozes, uma de homem e uma de mulher. Vou até a quina da parede mais próxima e ponho apenas minha cabeça além do limite dela, olhando para Amaya. Ela vem segurando o pincel para pintar a parede como microfone e fazendo passos de dança ao longo do caminho. Seus olhos estão fechados, então não preciso me preocupar em ser visto. Noto agora que ela tem algo nos ouvidos. Parece um fone de ouvido. O que pode explicar o porquê ela está cantando tão alto: ela não está ouvindo a altura de sua voz.
Conforme ela caminha, ela para e dança algum passo maluco. Agora mesmo ela abriu as mãos com as costas das mãos de frente para ela e as move rapidamente para frente e para trás.
Queria poder filmar isto.
Agora ela apoia o pincel no chão e o faz de poste, como se estivesse fazendo pole dance – não me pergunte como sei o nome disto – e anda em volta dele. Em certo momento, ela desce até o chão e se levanta novamente, ainda de olhos fechados, ainda cantando com a música.
– Nelly hang out, mix a little bit a ah, ah, with a little bit a ah, ah, Nelly just fall out! – Ela canta esta parte jogando os braços para cima e, a esta altura, já estou deitado no chão de tanto rir.
Um carro passa e acho que o motorista também nota a dançarina louca na calçada, pois ele buzina várias vezes para ela. Amaya parece ouvir as buzinas e olha para o carro. Ela grita um valeu, sei que sou demais e se vira novamente. Só que ela não esperava me ver a observando e chorando de tanto rir.
– O quê, homem invisível? Você quer aprender um pouco da minha ginga maravilhosa? – Amaya pergunta irônica.
– Claro, quando eu quiser fazer papel de ridículo eu peço para você me ensinar esses passos de dança.
Ela só olha para mim, pega o aparelho que está conectado aos fones e aperta uns botões.
– Ei, o que é isso? – Pergunto para ela. Amaya nem olha para mim, só continua a andar até chegar à lata de tinta. Ela pega o pincel e o molha na tinta amarela clara e começa a pintar o lado oposto da parede que estou pintando.
Posso ouvir algo daqui. Acho que é a música que ela estava cantando.
Chego mais perto dela e ouço a música com um pouco de clareza. É definitivamente a música que ela estava cantando. O ritmo dela é bem dançante e a letra é engraçada. Aproximo-me mais para conseguir ouvir a música e mal percebo que estou ao lado de Amaya. Ela nota a proximidade e me olha com um olhar estranho. Não consigo interpretá-lo.
– Você quer ouvir um pouco? – Ela pergunta, tirando os fones e apontando-os para mim.
– Você não se importa?
– Claro que não. Aqui, pegue. – Ela me dá um dos fones. Amaya põe um na orelha e eu a imito.
– O que é isto? – Aponto para o pequeno aparelho em sua mão.
– É um MP3. Tenho músicas salvas nele. Colocarei uma para você.
Ela aperta um botão e batidas começam a soar do fone. Ouço uma voz cantando, seguindo o ritmo calmo e envolvente da música.
Mad mad mad
I...
I can't get these memories out of my mind
And some kind of madness
Is starting to evolve, mmmm
Observo a Amaya cantar junto com o vocalista. Seus olhos estão fechados novamente e ela parece em outro mundo.
And I...
I tried so hard to let you go
But some kind of madness
Is swallowing me whole
Yeah
Seu rosto está concentrado e não sei se presto atenção nela ou na letra da música. Já tinha notado que ela era bonita antes – é claro, não sou cego – mas agora ela parece quase... linda. Estonteante.
I have finally seen the light
And I have finally realised
What you mean
Now,
I need to know is this real love
Or is it just madness
Keeping us afloat, mmmm
Seus olhos se abrem, subitamente, observando-me enquanto ela canta. Não preciso dizer que estamos muito próximos. Consigo ver as rajadas que partem de sua pupila até sua íris, formando desenhos espetaculares em seus olhos castanhos escuros. Consigo vê-la engolindo em seco e parando de cantar, nervosa. Consigo ver sua respiração se acelerando, seu peito subindo e descendo em uma velocidade revigorante.
When I look back, at all the crazy fights we had
It's like some kind of madness
Was taking control, yeah
Now I have finally seen the light
And I have finally realised
What you need
Consigo ver que seus olhos estão mais escuros agora, mais ansiosos agora. Consigo ver que ela está se aproximando mais. Que eu estou me aproximando mais.
Mad mad mad
Now I have finally seen the end (finally seen the end)
And I'm...
Not expecting you to care, no
(expecting you to care)
That I have finally seen the light (finally seen the light)
And I have finally realised (realised)
I need your love
I need your love
Consigo ver que ela está tentando se decidir. Seus olhos estão confusos. Consigo ver que ela está em conflito, que esta música significa mais do que um conjunto de acordes e palavras para ela.
Come to me
Just in a dream
Come on and rescue me
Yes, I know
I can't be wrong
And baby, you're too headstring
Our love is...
Consigo ver que ela está se decidindo, ela está quase lá. E estou ansioso por isso. Consigo me ver a beijando. Consigo me ver junto a ela.
Mad mad mad
Madness
E conforme os últimos toques da música chegam ao fim, consigo ver que é agora. Sua mão direita está em meu bíceps e a esquerda em minha nuca. Não sei o que ela fez ou como ela fez, se foi com esta música ou com apenas o toque de suas mãos mas porra, estou preso. Estou capturado e cativo, atado a este momento como eu nunca estive em nenhum outro.
Devo dar crédito a Juliette. Praga de mãe pega
Levo minhas mãos até a cintura de Amaya e ela suspira. Deixo a esquerda na cintura enquanto a direita sobe e explora, passando pelo braço, pelo ombro, pelo pescoço, até chegar na bochecha. Amaya inclina sua cabeça em direção à minha mão e deixa um suave beijo na palma dela.
Pergunto-me como um beijo na palma da minha mão pode chegar e refletir e ressoar e arrepiar lugares que Amaya está longe de tocar.
E, quando estou prestes a beijá-la ouço um grito. Um grito de uma voz que conheço e que temo por ter ouvido.
– Amaya! – Juliette grita.
Amaya parece despertar e olha assustada para mim. Ela se afasta e corre, indo em direção à casa.
Vou atrás dela e corro até encontrar uma Juliette deitada na cama, suando.
– Amaya, Kenji, preciso ver as gêmeas. Eu... eu não estou bem. Acho que é a bebê.
– Eu vou. Amaya, você sabe se – E não consigo completar a frase pois vejo uma quantidade grande de água escorrer das pernas de Juliette e molhar o colchão.
– Merda! – Amaya arruma a Juliette na cama e vai até o banheiro, pegando uma toalha e molhando-a. Ela a coloca na testa da Juliette enquanto diz – Kenji, as gêmeas estão na casa delas. Chame-as e diga que a bolsa da Juliette estourou.
Olho-a assustado. – Mas Amaya, ainda não deram nove meses.
– Eu sei, Kenji. – Amaya diz, não escondendo o terror que ela está sentindo. – Eu sei.
Olho para ela mais uma vez e saio da casa, indo em direção às gêmeas.
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