Só fico consciente da dor. É como a cólica, só que mais forte e intensa. Sinto as gotas de suor escorrerem do meu pescoço, da minha cabeça.

E só de imaginar que a dor vai ficar pior...

Prefiro não imaginar.

As gêmeas chegam logo e começam a medir minha temperatura, ver meus batimentos cardíacos e minha pressão arterial. Amaya continua a meu lado, ajudando como pode.

Vejo Kenji andar de um lado para o outro perto da porta do quarto.

– Kenji... Onde está Aaron?

Kenji olha para mim, nervoso. – Ele já está vindo para cá, J.

Olho para ele mais uma vez e ocupo-me com minha respiração. Respiro e expiro e exalo e inspiro e aspiro e expilo e Sonya diz – Precisamos verificar a dilatação, Juliette.

Ouço um pelo amor de Deus de Kenji e ele se senta em uma cadeira afastada da cama e apoia o rosto nas mãos.

Dobro as pernas, os lençóis cobrindo a extensão delas, e Sara diz – Cinco centímetros, Juliette. Faltam cinco. Aguente firme.

Sinto um pouco de frio e tremo levemente, conseguindo me acalmar até que sinto outra contração chegando. Seguro os lençóis em volta de mim, fechando os olhos e tensionando o maxilar, tentando aguentar a dor. Esta contração não parece acabar nunca. E então, depois do que parecem dias e anos e décadas e séculos, ela passa.

Minha respiração está acelerada e aproveito o intervalo para deixá-la estável.

– Essa contração pareceu não ter fim – digo a ninguém particular.

– Quarenta e cinco segundos – Amaya diz.

– O quê? – Pergunto, confusa.

– A contração durou quarenta e cinco segundos.

Acho que o choque ficou transparente em minha expressão, já que Amaya diz um baixo sinto muito e Kenji apenas balança a cabeça, indignado.

– Isso é pior do que qualquer filme de terror. – Ele diz.

– Isso é lindo – Amaya diz, olhando para mim, dando-me apoio moral – É o sonho de qualquer mulher.

– Vocês mulheres são loucas. Sairá um... uma pessoa de você! Visualize a cena: é como se um alien cavasse um buraco até a superfície e então colocasse a cabeça para fora e dissesse oi!

– Kenji? – digo.

– Sim?

– Cala a boca.

Aaron entra afobado e agitado no quarto, perguntando se está tudo bem, vindo diretamente até mim.

– Está sim – Respondo, inspirando pelo nariz e expirando pela boca – O Kenji só está sendo... o Kenji.

– Obrigado – Kenji responde.

– Não foi um elogio, homem invisível.

Preparo-me para uma nova contração. Pego a mão de Aaron e controlo minha respiração, passando pela dor repetidas vezes. As contrações vêm e vão e trazem o cansaço junto, o cansaço e o desespero e a leve insegurança e o medo de que não dê certo.

Tem que dar certo.

Deus, faça dar certo.

Após várias contrações, as gêmeas veem novamente minha dilatação.

– Oito centímetros. Só faltam dois.

Só faltam dois. Não sei se trato esta frase com alegria ou com ironia. Só?

– Há quanto tempo o trabalho de parto começou? – Aaron pergunta, sentindo meu nervosismo e apreensão.

Olho pela janela e vejo que já está escuro. O medo invade meu coração. Estava claro quando comecei.

Amaya olha no relógio e confirma os horrores que me assombram. – Seis horas e doze minutos, Comandante.

Apoio a cabeça no travesseiro e fecho meus olhos, preocupada.

Minha filha. Meu anjo.

Leila.

– Partos normais costumam demorar, Juliette. Não se preocupe.

Sou impedida de responder pois as contrações estão vindo mais rapidamente agora. Elas duram mais e, por consequência, o intervalo entre elas é menor.

Meu corpo não parece mais ser meu. Sinto vontade de chorar e rir e gritar e gargalhar e sair correndo desta cama e começar uma cesariana agora mesmo.

Foco em Leila. Foco na minha visão dela. De seus olhos verdes e cabelos loiros e Venha brincar comigo, mamãe. Foco em como ela já mudou tanto a minha vida – as nossas vidas.

E na contração seguinte, imagino Leila abraçada com Aaron, assim como no sonho dele. Eu queria saber como você pegou os raios de sol e os colocou em seus cabelos. Eles parecem raios de sol, papai.

E na contração após esta, imaginei Leila, mas não só ela. Vi outras crianças com ela também. Vi Amaya e Kenji com uma criança nos braços, assim como Adam e Alia. Vi crianças correndo e se divertindo, vi-as mudando as pessoas.

Crianças são pequenas esperanças, pequenos recomeços e alegria e vida. Crianças são o sopro fresco da brisa mais leve e calorosa que pode bater nas cortinas, nos galhos das árvores, nas folhas e na água e na grama e nas flores. Crianças são revigorantes. São o que esta nova sociedade precisa: um recomeço, uma renascença.

E em cada contração que se inicia e acaba, imagino minha filha. E, vendo toda a dor que este momento está propiciando, vejo que... vale a pena. Vale a pena por qualquer criança, qualquer filho e filha. Vale a pena pela Leila.

O cansaço está impregnado em cada parte do meu corpo, mas há um escudo que impede-o de entrar em minha mente. Estou determinada. Estou pronta.

E é aí que a contração vem pior. A dor parece ter multiplicado. Não consigo segurar o gemido que se arrasta por minha garganta e se espalha por minha boca, fazendo pressão para escapar dos meus lábios. Seguro a mão de Aaron com tanta força que percebo que posso quebrá-la, então a solto, subitamente.

Sentindo como a dor aumentou, Aaron alerta as gêmeas.

– Acho que está na hora, Juliette. Verificarei quão dilatado está o colo do seu útero.

Tento controlar minha respiração novamente e meus olhos caem em Kenji. Ele está meio verde.

– Dez centímetros. – Sonya diz, sorrindo.

– Agora você pode começar a fazer força durante as contrações. – Sara completa.

Aceno com a cabeça, concordando.

Olho para Aaron e vejo uma pequena ruga de preocupação entre suas sobrancelhas. Ele pega minha mão novamente.

– Não, Aaron. Eu posso te machucar. Não conseguirei controlar minha força.

– Eu não ligo, amor. Pode gritar também, se quiser.

Sorrio para ele, apertando de leve a sua mão. Ele aperta de volta.

Olho para as gêmeas, aguardando, ainda controlando a respiração.

– É agora, Juliette. Faça força.

E sinto a contração novamente, aquela dor aguda e intensa que se mistura com a emoção e a ansiedade. Minha filha. Minha filha está nascendo.

Faço força, segurando com firmeza a mão de Aaron. Meu maxilar está trancado tão firmemente que acho um milagre meus dentes não se quebrarem. Aguento pelo que parece ser uma eternidade, mas só se passou um minuto.

A contração se vai e deito exausta na cama, minha respiração agitada e meu coração em uma corrida com meu cérebro para ver quem consegue me deixar louca mais rapidamente. O cérebro me diz friamente o que fazer, respire agora e faça força agora e tente relaxar e encurve mais a coluna, a gravidade ajudará e o coração apenas grita ai meu Deus, será que está tudo bem? e o que acontecerá em seguida? será que é agora? e cadê esta criança que não sai nunca, pelo amor de Jesus Cristo?!

Descanso enquanto a próxima contração não vem. Amaya limpa o suor do meu rosto. Aaron apenas olha para mim, preocupado. Sara e Sonya andam rapidamente em torno de mim, arrumando e pegando instrumentos. Kenji continua verde, e eu queria poder tirar uma foto dele.

Quando outra contração chega, o processo se repete novamente. Força. Suor. Fadiga. E quando esta também termina sem maiores resultados, ouço Kenji dizer – Pelo amor de Deus, não é possível outra pessoa, outro ser humano sair daí!

– É um processo demorado. Durante a contração o bebê desce pela bacia, mas quando a contração acaba, ele recua.

– É o quê? – Kenji diz, desesperado. – Então isso não vai acabar nunca? Não? Isso é um pesadelo, um pesadelo.

– Kishimoto! – Aaron e Amaya dizem ao mesmo tempo, fazendo Kenji se calar.

– Já está quase acabando – Sara continua – Quase consegui ver a cabeça dele.

– Sério?! – Amaya diz, animada – Que incrível!

– Ai, – Kenji resmunga – acho que vou desmaiar.

– Que maricas. – Amaya comenta baixo.

– Que o quê? – Kenji olha para ela, indignado.

– Maricas. Boiola. Bixona. Você pode falar chiclete para confirmar minha tese?

– Vou mostrar como sua tese está errada agora mesmo, se quiser – Kenji responde, ameaçador e malicioso.

– Parem de brigar – digo, fazendo ambos parar com a discussão. – Mas realmente, Kenji, que maricas.

Ele apenas olha para mim, sério. Não ouço a resposta pois outra contração vem, esta mais forte que as outras. Sinto uma pressão e um ardor, aumentado assim a aflição que estava sentindo.

Ouço Sara dizer que ela está chegando, mas não deixo de fazer força. Inclino minha cabeça para frente, segurando a respiração conforme faço força. Puxo os lençóis que estão na cama, minha cabeça doendo e pesando com tanto esforço. Estou prestes a fazer força novamente quando Sonya diz para eu parar.

E é quando escuto o choro. Um alto e agudo choro.

Lágrimas já começam a escorrer dos meus olhos e a dor se extinguiu completamente. Saber que meu bebê, que minha filha nasceu e está bem é o melhor analgésico que qualquer médico pudesse me dar.

Sara e Sônia a limpam e olham para Aaron. – Quer cortar o cordão?

Aaron parece assustado, mas vai mesmo assim.

No momento em que seus olhos caem sobre ela, ele sorri. É um sorriso lindo e maravilhado. Posso ver lágrimas escorrendo por seu rosto.

– Ei, princesinha – Aaron diz, sorrindo para ela. O choro parou e ela pareceu ficar atenta a ele, à suas palavras, ao som e o tom de voz dele. Do pai dela. Ele pega a mãozinha dela e, em troca, ela segura o dedo indicador dele. – Bem-vinda, meu anjo.

Aaron corta o cordão umbilical cuidadosamente e Leila se agita novamente. Amaya pega uma toalha e ajuda as gêmeas.

Sonya traz Leila até mim. – Parabéns, Juliette. Ela é perfeita.

Pego-a e olho para seus olhos. Tenho um pequeno sobressalto ao constatar que são verdes. Verdes esmeralda. Olho rapidamente para Aaron e ele sorri de contentamento e orgulho.

– Você sabe que a cor dos olhos pode mudar, certo? – Pergunto, sorrindo e chorando e adorando minha pequena nova maravilha.

– Sim, pode mudar. Não significa que irá mudar.

Continuo olhando para Leila. Ela é tão pequena e frágil e há tão poucos fios de cabelo – cabelo loiro – em sua cabecinha. Ela olha curiosa para todos até que seus olhos param em mim. Ela é tão linda.

Perfeita.

Ela dá um pequeno bocejo. E penso que nunca vi uma visão mais linda em toda a minha vida. Seus olhinhos se fecham e a boca abre muito, formando um pequeno O.

Minha filha. Nossa filha. Nossa Leila.

As gêmeas a pegam e dão os últimos cuidados que ela precisa.

E eu posso ter segurado-a apenas por alguns segundos, mas não posso me imaginar ficando sem a segurar mais.

*~*~*~*~*

Descanso enquanto as gêmeas cuidam de Leila. O cansaço não se compara com a felicidade que sinto. Êxtase e alegria e contentamento e euforia e júbilo e satisfação e entusiasmo misturam-se e condensam-se em meu peito, fazendo-me me sentir completa. Viva. Preocupada com Leila mas feliz com sua existência. Fazendo-me me sentir... mãe.

Olho para Aaron e Amaya e Kenji e Sonya e Sara e divido um pouco do que sinto com eles. E quando encontro os olhos de Aaron, vejo que ele sente o mesmo. Lembro-me do medo que senti quando fiquei grávida. O medo que senti da reação dele. E o vejo agora, desfrutando deste momento tanto quanto eu.

Sou mãe agora. Aaron é pai agora.

Somos pais agora.

Ouço o choro de Leila novamente e Sara a traz rapidamente para mim.

– Ela está com fome – Sonya diz. – Está na hora de amamentar.

Ouço uma pequena ânsia e olho para Kenji.

– Uau, homem invisível. Você está parecendo com o Shrek. E com o Grinch.

– Você pode ir tomar um ar se quiser, Kenji.

Ele olha para nós e continua sentado, olhando para Leila. Ele até mesmo sorri um pouco, dizendo – Ela é linda mesmo. Puxou ao pai, hein, J? Que sorte.

– O próximo parecerá comigo – digo.

Aaron apenas sorri para mim. Pego Leila e a ajeito em meu braço, posicionando-a na melhor posição possível. Ela não demora a começar a mamar, arrancando sorrisos e suspiros de todos.

– Sabe, nunca tive certeza se o amor à primeira vista existia mesmo. – Aaron diz, pensando – Mas assim que vi nossa filha, eu... fiquei sem chão. Já a amava antes mesmo de vê-la. Mal consigo explicar quão feliz estou, amor. Queria que você tivesse meu dom agora, para que pudesse ver exatamente como me sinto.

Olho em seus olhos e vejo. Vejo tudo o que ele quer dizer. – Eu sei, Aaron. Eu sei.

– Falando em dons – Amaya diz, sorrindo – Leila tem um dom curioso.

Todos olham assustados para ela.

– Ela tem um dom? – Pergunto, enquanto Kenji pergunta – Você já consegue ver o dom dela?

– Sim para as duas perguntas. Ela tem um pouco do dom do pai, pelo que vejo – Ela diz. Pai. Nunca notei como esta palavra e Aaron se adaptam tão bem juntas. – Ela também consegue ver as emoções das pessoas. Porém ela pode manipulá-las, se quiser.

– Sério? – Aaron pergunta, pasmo.

– Sim, comandante. Muito sério. Parece que a família de vocês será talentosíssima.

Penso nisso por mais uns instantes. – Será que todos os nossos cinco filhos nascerão com dons?

– Cinco filhos? – Aaron pergunta.

– Sim, cinco.

– Isso que é gostar de fazer filhos. Quem diria que, Juliette Ferrars, a garota chata e intocável criaria tanto gosto pela coisa. – Kenji comenta.

Mostro a língua para ele.

Aaron passa as costas da mão no rosto de Leila. – Até que entendo você, amor. Vê-la assim, tão linda e pequena, me fez ter vontade de ter mais. – Ele olha para mim, sorrindo.

– Que tal fazer um mais tarde? – Pergunto.

– Que tal fazer um daqui um ano? – Amaya diz – Seu útero precisa se recuperar.

Olho para ela e então para Aaron.

– Então que tal só ensaiarmos?

Aaron e Amaya riem, e Aaron respira fundo antes de responder – Pode contar comigo, amor.

Olho para ele e para nossa filha. Seu sono é tão profundo e calmo e tranquilo. Seu corpo está aconchegado ao meu e sinto nossos corações baterem juntos. Vejo nós aqui, juntos, e finalmente entendo. Finalmente entendo que não há nada mais certo que isso.

Pego a pequenina mão de Leila e dou um beijo nela. – Nós te amamos, meu anjinho. E sempre iremos te amar. Não importa a circunstância ou o momento ou a situação ou o lugar: nós te amaremos. Para sempre.

Notas finais
Obrigada por tudo, gente. Fico feliz - e triste - em avisar que este é o penúltimo capítulo desta fanfic. Contudo, a fanfic do Kenji e da Amaya já começou a ser postada e seria um prazer se vocês acompanhassem a história deles também. Ela se chama Habita-me e já tem o primeiro capítulo postado. E o próximo capítulo desta fic será um tanto difícil de escrever, mas será lindo. Espero que vocês tenham gostado deste e que gostem também do próximo. Obrigada!