Floresça-me
17 Leila pov's
Notas iniciais
Sete anos depois...
O dia está lindo. Há sol e verde e flores e vermelho rosa azul e vestidos esvoaçantes e ternos bem passados cinzas e pretos e brancos. O do papai é preto, e a camisa é branca. Ele está sem gravata, mas há um lenço no bolso do terno. Não sei bem definir a cor dele. Parece verde. Parece cinza. Parece azul.
É o tom confuso e exato da cor dos olhos da mamãe.
Papai me vê andando e acena, me chamando. Enquanto caminho até ele, vejo seu cabelo loiro penteado elegantemente para trás, dando uma visão espetacular dos seus olhos – dos nossos olhos – verde esmeralda. Eles parecem conter o brilho de todas as estrelas e do sol e dos diamantes e das galáxias e da Via Láctea.
Quando chego perto dele, ele me abraça com força.
– Como você está, Leila?
Seus olhos parecem preocupados. Preocupados e agitados e orgulhosos e felizes. Felizes acima de tudo.
– Bem, papai. Tudo está tão bonito! Parece o casamento de uma princesa. – Digo, observando como as toalhas de mesa balançam levemente com a brisa, a brisa que traz o cheiro de flores, cheiro de união, cheiro de família.
– Bem, em uma coisa você está errada: você é minha princesa. Minha princesinha. Sua mãe está mais para... rainha.
– Rainha?! – pergunto, surpresa. – E isso faz de você rei?
Ele me olha por uns instantes, pensando no assunto.
– Tenho tudo o que um rei poderia querer, Leila. Uma família linda, uma casa agradável, um trabalho que gosto. Amigos bons e leais. Irmãos maravilhosos. Pergunto-me se viver como um rei é sinônimo de ser um.
Olho para ele. Papai tem cara de rei.
– Você é rei sim, papai. Um rei poderoso e feliz, um rei que se importa com o povo e ah! Eu sou uma princesa! Preciso de um príncipe.
– Um príncipe? Você não precisa de um príncipe até, pelo menos, seus quarenta anos. – Abro minha boca, horrorizada. – Sim, quarenta anos é a idade mínima. E você já tem seu irmão. Ele é um príncipe também.
Olho para Elijah. Ele está correndo atrás de uma borboleta.
– Mas pai, ele tem dois anos! E é meu irmão! Quero um príncipe de verdade, como o da Cinderela! Ou o Felipe, da Aurora!
Reclamo mais um pouco com papai. Preciso de um príncipe. Titio James parece ver meu desespero e chega até mim, ajoelhando no chão, ele pega a minha mão e a beija.
– Desculpe, mas ouvi que a senhorita precisa de um príncipe.
– Preciso, tio! Você viu algum por aí?
Papai e titio James riem. Não entendo porque estão rindo.
– Eu sou o príncipe, Leila. Que tal?
Olho para seus olhos azuis e cabelo loiro. Ele parece mais com o papai do que o tio Adam. Ele é alto mesmo quando está ajoelhado.
– Titio, eu amo você, tudo bem? Você é um médico famoso e trabalha na área de pesquisa do Ponto Ômega, mas você não é um príncipe. Você sabe andar a cavalo?
Ele me olha confuso.
– Não.
– E esgrima?
– Não.
– Sinto muito, tio, mas essas são as características principais de um príncipe. Ah, e cantar! Você sabe cantar?
– Não, não sei – titio parece triste. Não gosto de vê-lo triste.
Abraço-o e digo – Não se preocupe, tio. Você achará uma plebeia tão boa quanto eu, te garanto.
Ele ri e me abraça de volta.
Vejo Chloe e Cleo brincando com Elijah. Cleo usa seu poder da natureza para fazer um leve vento em torno da borboleta, fazendo-a voar mais alto. Elijah começa a pular mais e mais. Afasto-me do titio e do papai para ir até eles. Eli pode se machucar desse jeito. Chloe tem um sorriso bobo no rosto, vendo Elijah se divertir tanto. Alguém que apenas a vê pode pensar que ela está se divertindo com a pequena tortura que é vê-lo pular e pular incansavelmente. Mas vejo apenas admiração em suas emoções. Quando estou a alguns passos de distância, vejo Eli cair e a borboleta se afastar. Na mesma hora ele começa a chorar. Chloe se adianta em direção a ele para ver se há algum machucado. Cleo fica a seu lado e observo-as enquanto caminho. Apesar de serem gêmeas, elas não são de todo iguais. O cabelo de Chloe é castanho avermelhado e o de Cleo é loiro escuro. Mas os olhos... os olhos de ambas são de um azul muito forte. Azul de céu e mar.
Vejo Cleo tentar parar o choro de Elijah. Ele está com um pouco de dor na perna em que caiu, noto. Chloe vê a falta de sucesso da irmã gêmea e faz diferente: conjura uma outra borboleta com seu dom. Esta é idêntica a antiga.
Já vi Chloe conjurar muitos animais belos, mas este foi o ato mais bonito dela. Eli já começa a rir novamente, apesar da dor. Chego e o pego no colo, colocando-o na altura da borboleta. Ele estica o bracinho e espera, parado e ansioso, que a borboleta pouse. Ela pousa. Fica alguns segundos em seu braço e bate as asas novamente, indo embora.
– Tchau, boboleta – Elijah diz, acenando. Seus olhos verdes e azuis acinzentados – iguais os da mamãe – estão encantados. Seu cabelo castanho escuro – também igual o da mamãe – está bagunçado, então caminho com ele até o banheiro, onde posso arrumá-lo e limpá-lo. Durante o caminho concentro-me na dor que ele está sentindo, tentando fazê-la passar. Já testei fazer a tristeza passar – quando mamãe perdeu o bebê antes de Eli – e deu certo. Espero que eu consiga aliviar um pouco da dor também.
Consigo desanuviar as emoções ruins que rondam a dor, mas a dor propriamente dita eu não consigo fazer passar.
Arrumo-o e limpo-o, deixando-o impecável para carregar as alianças. Quando termino, ponho-o no chão e ando de mãos dadas com ele, indo falar com o titio James. Ele curará o Elijah.
Vejo o papai conversando com o titio Adam e o titio Kenji. Eles conversam animadamente sobre alguma coisa. Titia Amaya vai até o tio Kenji e diz alguma coisa para ele. Titio Adam e papai riem enquanto Kenji fecha sua expressão, fazendo uma carranca. Tia Amaya arrasta ele para longe e arruma sua gravata e seu terno. Decido ir até eles.
– Ora, veja só quem apareceu! – Titio Kenji diz, sorrindo. – A menina mais linda da festa não vai me dar um beijo?
Olho confusa para ele. Olho para a tia Amaya em seguida. O vestido dela é azul claro florido. Seu cabelo está solto e seus olhos maquiados.
– Titio, eu não posso.
– Não pode? Por que não pode?
– Porque a titia Amaya é a menina mais bonita da festa.
Titia sorri para mim. Isso só a deixa mais bonita ainda.
– Caramba, Amaya, subornar crianças não é um pouco demais para você? — Titio diz, sorrindo.
– Preciso levantar a minha moral às vezes. E Leila – Ela diz para mim – obrigada. Você está linda também.
Sorrio para titia e abaixo minha cabeça, envergonhada.
– Já que estou com as duas meninas mais lindas da festa – titio continua – que tal eu ganhar um beijo das duas?
Olho para a titia e ela concorda. Ela me pega no colo e beijo a bochecha direita do titio, e ela a esquerda. Quando nos afastamos tio Kenji sorri de orelha a orelha, mas diz para a titia – Faltou uma coisa, Amaya.
– Faltou, é? – Ela pergunta, desconfiada. – O quê faltou, homem invisível?
Titio sorri mais, como se tivesse lembrado de coisas boas.
– Sim. Faltou um beijo aqui – titio aponta para a boca dele. Acho que faço uma careta, pois titia ri e o titio me põe no chão.
– Leila, sua mãe pediu sua ajuda lá em cima.
– Tudo bem. Até mais tarde. – Digo, indo embora. Dou alguns passos e olho para trás. Eles estão discutindo sobre alguma coisa, mas não é nada sério. Vejo um pequeno sorriso surgir nos lábios de titio e ele subitamente puxa titia para seus braços, beijando-a. E não é um beijo qualquer: é um beijo de cinema. É lindo. Vejo suas emoções e gosto de tudo o que está ali. Amor. Paixão. Carinho. Atração.
Eles parecem o casal que vi em um filme que titia Amaya me emprestou esses dias. A moça bonita disse algo... acho que foi "Eles nasceram um para o outro."
Sim, concordo com a moça. Olhando para o tio Kenji e a tia Amaya, posso ver que eles foram feitos um para o outro.
Entro em casa e subo apressadamente as escadas. Passo pelo corredor e vejo os retratos pendurados nas paredes. Há fotos da mamãe e do papai. Da mamãe, do papai, do titio Kenji e titia Amaya. Do tio James ganhando seu certificado como médico e pesquisador abraçado com papai e tio Adam. Uma foto minha com alguns meses de vida. Uma foto minha com a Chloe e a Cleo. Uma foto de nós três com Elijah. E a foto que mais gosto: uma foto com todos nós: mamãe, papai, Chloe, Cleo, Elijah e eu. Vejo os grandes sorrisos que estão nos rostos da mamãe e do papai. Eles parecem felizes em nos ter.
Espero que eles saibam que nós somos felizes em tê-los também. Que eles são os melhores pais do mundo.
Entro no quarto em que mamãe está.
A primeira coisa que noto é seu vestido. Ele me lembra uma nuvem. Uma nuvem grande e macia e suave e branca.
Pergunto-me se mamãe sente que pode voar neste vestido.
Ela me vê entrando e sorri grandemente. Comparo o seu rosto refletido no espelho com o rosto das fotos e não consigo dizer bem o que mudou. Mas algo mudou. Assim como no rosto do papai. Além do tempo que passou e das mudanças que este causou, há algo mais. Olhos mais brilhantes. Um sorriso mais... radiante. Um sorriso que irradia felicidade e amor e satisfação e contentamento e orgulho. Ela se vira para mim e vejo seu vestido completamente e lembro-me de uma descrição que papai uma vez fez. A descrição de quando o primeiro pássaro voara pelo setor após toda a guerra ter acabado. Ele disse que, ao ouvir o canto do pássaro, ele achou que fosse uma cantiga antiga e poderosa e tão bonita, mas tão bonita, que só poderia ter sido enviada dos céus por um Deus. Ele disse que ficou encantado e, quando viu o pássaro, com toda sua elegância e beleza, cantando e voando, ele quis virar um também. Ele queria experimentar tal sensação. O pássaro o hipnotizou e o enfeitiçou com sua formosura e graça. O sentimento foi tão forte que pude vê-lo nos olhos de papai e senti-los com ele.
O vestido da mamãe é meu pássaro.
Ele é longo e branco e sua saia parece feita de plumas – é cheia e solta, quase como se mamãe estivesse girando o tempo todo e a saia estivesse girando e rodando junto com ela. Da cintura para cima o vestido afina, ajustando-se ao corpo dela, e há brilhos, pequenos e espaçados brilhos até seu decote.
A mamãe parece mesmo uma princesa. Rainha – corrijo-me. Ela é uma rainha.
– Leila, meu anjo. – Mamãe sorri e me abraça. Tento não abraçá-la rudemente para não amassar o vestido, mas ela parece não ligar de pequenos vincos aparecerem.
– Mamãe, você está tão linda! E o seu vestido... seu vestido é o meu pássaro!
Ela me olha, surpresa. – Seu pássaro?
Explico para ela rapidamente sobre o pássaro que papai viu.
– Bem, esse vestido pode ser seu, se você quiser.
– Sério?! — Meio grito, meio exclamo.
– Sim, Leila. No seu casamento você pode usá-lo, e estarei lá para ver como você ficará mais bonita do que eu nele.
Penso no assunto. – Será que acharei um príncipe decente?
– Um príncipe?
– Sim. Papai disse que sou uma princesa e que você é a rainha, então preciso de um príncipe para casar e usar esse vestido.
Mamãe ri e se abaixa, ficando na altura dos meus olhos. – Você achará um príncipe, eu prometo. Você só precisa de uma fada madrinha antes.
– Fada madrinha?
– Sim. E ela te dará objetos encantados e te ajudará no que for preciso.
– Objetos encantados, mamãe?
– Sim, filha. Está vendo esta pequena gema no meu cabelo? – Mamãe pergunta, e noto que há uma gema prata em seu cabelo, perto das mechas que estão presas, tendo o caimento de uma cascata. – Seu pai me deu e, como foi dado com amor, ela é encantada.
Apenas olho para mamãe, admirando-a por ser tão bonita e esperta.
– Leila?
– Sim, mamãe?
– Quer pôr uma gema encantada no seu cabelo também?
– Eu posso?
– Claro, meu anjo. Venha aqui.
Vou até ela e sento-me em seu colo. Mamãe penteia meus cabelos e vejo no reflexo do espelho que ela está fazendo um penteado. O penteado igual ao dela. E, quando ela acaba, põe a gema na mesma posição em que a dela está.
– Pronto, Leila. Você está linda. Parece mesmo uma princesa. – Ela me olha mais um pouco e diz. – Vamos tirar uma foto.
Mamãe pega a câmera e nós nos posicionamos, bem perto uma da outra, para a foto. Sorrimos e então a mamãe tira a fotografia.
– Ficou ótima, Leila. Obrigada.
Desço de seu colo e vou em direção à porta. Lembro que titia Amaya me disse que mamãe queria minha ajuda, então pergunto – Mamãe, com o que você queria minha ajuda?
Ela sorri e apenas diz – Queria ver você.
Sorrio para ela e, antes de sair do quarto, ela me diz – Avise a Amaya que descerei daqui uns vinte minutos, tudo bem?
– Tudo bem, mamãe.
– E outra coisa, filha. Sabe quem era meu pássaro?
– Seu pássaro? Quem?
– O seu pai.
Sorrio.
– Ele ainda é?
Mamãe parece confusa, e pergunta – Se ele ainda é o meu pássaro? – Aceno com a cabeça, concordando. – Bem, posso dizer que eu me tornei meu pássaro também, meu amor. Assim como você e seus irmãos também são pequenos passarinhos para mim. Mas seu pai sempre será o meu pássaro. Sempre.
Sorrio e dou um beijo nela antes de sair. Desço a escada saltitando, procurando a tia Amaya. Acho-a conversando com titio Adam, que está com Elijah no colo.
– Titia, mamãe disse que descerá daqui uns vinte minutos.
– Vinte minutos? E ela acha que sou o Flash? – tia Amaya suspira, mas posso ver que é teatralmente.
– Você poderia ser o Flecha também. Ou o Kurt.
– O Noturno?
– É, você poderia se teletransportar.
Tia Amaya apenas olha para mim e diz – Essa menina é um prodígio. Logo, logo ela poderá fazer tantas referências quanto eu. Que orgulho! – Titia beija minha cabeça e sai andando, e tio Adam apenas olha para mim, confuso.
– Do que vocês estão falando? – Ele pergunta, ninando Elijah.
– Bem, o Flash é muito conhecido pela Liga da Justiça. O Flecha é de Os Incríveis. E o Kurt, também conhecido como Noturno, é dos X-Men.
Titio ri, mas logo para, concentrado em Elijah.
– Eli está bem, tio? — Pergunto, preocupada.
– Sim, ele só está projetando novamente.
Elijah tem um dom parecido com o da mamãe, mas com adições do dom de papai também. Ele não suga energia; ele suga as emoções das pessoas, seja ela qual for. E isso... assusta as pessoas. Ele é muito novo para saber controlar. Titia Amaya diz que o dom dele ainda está em desenvolvimento e, quando ele amadurecer, ele poderá controlar.
Fico triste por Eli. Ele não tem culpa. E não é um dom ruim, ele pode sugar a tristeza das pessoas. Pode sugar as emoções ruins e transformá-las em energia.
E fico também com raiva das pessoas que o temem por isso. Ele não merece.
Titio Adam percebe que fiquei mal.
– Ei, vem aqui – ele diz.
Chego mais perto dele e ele me pega no colo, ajeitando-me no braço direito dele, enquanto Elijah está no esquerdo.
– Não fique triste, pequena. Seu irmão é amado, e muito. A ele não faltará nada, nunca, independente do dom dele.
– Eu sei, titio. É que é triste as pessoas o evitarem por isso. Não é sempre que ele suga as emoções. E ele não pode sugar apenas as emoções boas, ele pode sugar as ruins. Ajudar as pessoas!
– Eu sei, Leila. E te entendo. Mas ficar com raiva das pessoas não vai ajudar. Aqui, olhe para seu irmão. – Olho-o e vejo-o dormindo um sono tão profundo que ele até sorri levemente, como se o sonho fosse feliz. – Ele está bem. E, enquanto ele estiver bem, você não tem com o que se preocupar.
– Você tem razão, titio.
Ficamos olhando para Elijah até que de repente ele acorda. Olha-nos com interesse.
– Lela! – Ele diz, ainda com dificuldade para falar. Eli me abraça. Tio Adam nos segura firme, para que nenhum dos dois caiam.
– Titio Dadam! – Ele fala, feliz. Também abraça o tio Adam, e nós três ficamos juntos, abraçados, mas não por muito tempo. Elijah vê Brendan e Winston arrumando alguns doces e pede para ir no chão. Titio o põe e olha para mim.
– Você está bem?
– Estou. — Olho para seus olhos azuis. – Tio, você não conhece nenhum príncipe?
– Não, Leila, infelizmente. Por quê?
– Porque quero dançar e um príncipe seria perfeito para isso.
– Bem, não sou um príncipe, mas me proponho a dançar com você.
– Sério?
– Sério. – Titio limpa a garganta e diz – Leila, você me daria o prazer desta dança?
– Sim.
Ele sorri e apoia meu pé direito no seu esquerdo, e meu pé esquerdo no seu direito. Estamos frente a frente e, conforme ele levanta o pé, meu pé se levanta junto. E ele começa a dançar. Balançamos juntos e me sinto uma verdadeira princesa. Titio me guia em uma dança tranquila e me vejo em uma pista de dança. Dançamos dançamos e dançamos até que ouvimos alguém dizer – Está na hora do casamento!
– Posso te levar até lá, Vossa Alteza?
Rio e concordo. – Por favor, oh meu caro príncipe.
E titio me leva até o jardim, ainda com meus pés apoiados nos dele, eu ainda andando sem tocar no chão, flutuando sem me erguer no ar.
Estou feliz.
Estou muito feliz.
Fico posicionada no começo do corredor com tio Kenji, esperando minha mãe chegar. Papai fica no final do mesmo corredor, olhando ansiosamente para onde eu e titio estamos.
E então ele subitamente relaxa. E vejo mamãe vindo, e ela está fora do campo de visão de papai.
Será que eles sentem um ao outro? Será que o amor deles permite isso? Como será amar tão plenamente deste modo? Como será amar e sentir esta pessoa, sentir seus pensamentos e batimentos cardíacos e sentir que ela está alí para você?
Será que um dia poderei amar deste jeito?
E de repente, sei a resposta. Sei que poderei sim amar deste jeito. Tive ótimos professores. Tenho ótimos professores. O amor deles — da mamãe e do papai, do titio Kenji e da titia Amaya, do tio Adam e da tia Alia — é um amor tão intenso e sincero que parece ser enorme. Parece ter quilômetros de distância e metros de espessura.
Chloe e Cleo iniciam a caminhada pelo corredor, deixando pétalas de flores pelo caminho. As pétalas são coloridas. Vejo suas cores: brancas e amarelas e laranjas e vermelhas. A grama fica com tons vivos, tons expressivos e brilhantes, alegres como cada rosto presente.
Mamãe surge então, de braços dados com tio Kenji, andando lado a lado com ele. O mundo parece ter parado de girar para olhar pra ela. A felicidade nela e no papai é tão patente que praticamente posso tocá-la. A felicidade deles foge da explicação do abstrato, foge do seu significado na gramática, em que abstrato é tudo aquilo que existe apenas na concepção da mente. Foge do significado mais aceito de abstrato: "é tudo aquilo que só existe na ideia, no conceito." Lembro-me da minha professora na escola dizer que tudo o que é abstrato nos não podemos pegar. "Não podemos pegar o amor." Ela disse.
Não podemos? Se eu posso vê-lo, se eu posso senti-lo, por que não posso também pegá-lo? Não posso pegar o amor ao dar um abraço em meu irmão? Não posso pegar o amor que meus pais fundiram e então criaram e então deram para nós? Não posso pegar o amor se dele fui feita, assim como meus irmãos?
Amor, penso, é tudo que consigo pegar agora. Vejo minha mãe andar com Kenji até papai, e alí há amor. Amor nos braços dados de mamãe e titio, amor nas lágrimas que tia Amaya derrama, amor em cada passo que aproxima mamãe de papai; amor no aperto de mãos que tio Kenji troca com meu pai; amor na mão da minha mãe que papai beija. Vejo amor em Elijah, que caminha praticamente saltitando pelo corredor de pétalas. E posso pegar o amor que está ali, em forma de alianças, que Eli traz tão cuidadosamente — ok, nem tão cuidadosamente assim. Há um amor sólido quando Eli tropeça e quase todos se adiantam para ajudá-lo. O amor se estende ainda mais quando ele ri, levantando-se e fazendo todos rirem também.
O amor não é abstrato. O amor está em cada forma, cada figura e situação. O amor é tudo o que nos rodeia, tudo o que nos abriga.
Elijah fica atrás da mamãe e do papai, segurando as alianças em uma pequena almofada.
O padre – o Castle, no caso — sorri e suspira.
– Estou imensamente feliz em poder realizar a união deste casal. A união deste casal que, por muitas pessoas, foi desacreditado. Este casal que, contra todos os pesares e situações, continuaram juntos. Este casal que nos pareceu improvável e, por isso, talvez, brilhou aos nossos olhos. Enalteceu o poder do amor. O poder de estar apaixonado. De amar ao outro mais que a si próprio. De pegar este amor e então combiná-lo e juntá-lo, fecundando-no em uma vida. Um amor que foi, e é tão grande, que pôde gerar vidas com base nele. Não se pode desejar mais de um amor. De um alguém que nós amamos. – Castle respira fundo, parecendo conter as lágrimas. – Estou aqui hoje para unir Aaron e Juliette. Vocês podem dizer seus votos.
Mamãe respira fundo e sorri. Seus olhos estão apenas e unicamente em papai.
– Aaron Warner Anderson, mal posso dizer quando meu amor por você realmente se tornou um fato. Talvez tenha sido no dia em que você me salvou e cuidou de mim, ao tomar um tiro no peito. Talvez tenha sido no dia em que você me deu roupa e comida e eu tão negligentemente recusei. Talvez tenha sido no dia em que eu comecei a roubar seus sabonetes. Talvez tenha sido no dia em que você me apoiou, real e verdadeiramente; no dia em que você me aceitou quando ninguém mais o fez. Talvez tenha sido na primeira vez que você me chamara de amor. Mas eu sei que não foi em nenhum destes dias, Aaron. Eu me apaixonei muito antes. Eu me apaixonei por você durante um sonho. Um sonho que mostrava um pássaro voando. Esse pássaro era você, meu amor. E ainda é. Nunca perguntei se você sabe o significado simbólico de um pássaro; o pássaro simboliza a inteligência, a sabedoria, o divino, a alma, a liberdade, a amizade, a leveza. Por voarem, pássaros são os mensageiros divinos. Você consegue se identificar, Aaron? Pois tudo isso eu vejo em você. Vejo em cada pequeno gesto que você faz, em cada pequena ação, meu amor. Você não foi apenas o mensageiro, Aaron. Você foi a mensagem. Você foi enviado para mim, para nós. Assusta-me pensar em como seria a minha vida sem você. Acredito que eu estaria até hoje no hospício, mas verdadeiramente louca desta vez. Verdadeiramente louca e insana, esperando aquele pássaro que nunca veio. E nossa história juntos, Aaron, tudo pelo que já passamos, todo o nosso passado, suas asas já deixaram para trás. Já sobrevoaram, já estão mais acima, além das nuvens negras e sólidas da chuva. O nosso amor já confrontou névoas e chuviscos e trovões e garoas e granizo e tempestades e tufões, furacões e todo desastre natural ou proposital, Aaron. Só nos resta agora o sol, a luz pura e primária e infinita. O que é uma garoa comparada a um dia de sol?
Mamãe suspira e seus olhos não se desviam dos de papai nem por um segundo. – Já tivemos dias cinzas demais, Aaron. Agora é hora de aproveitarmos o sol. E eu te amo, te amo profundamente por isso. Por ter me arrastado da sombra. Por ter me tirado da nuvem escura que formava pequenas gotas de chuva, por ter me impedido de ser uma gota também. Te devo uma vida ao sol, amor. E vou iluminá-lo – nós iremos iluminá-lo – todos os dias, pelo resto da minha longa e comprida vida. Eu prometo.
Papai parece soltar uma respiração que está presa há muito. Vejo em suas emoções o quão emocionado ele está. Suas emoções são uma pequena bagunça, mas ah, uma bagunça tão bonita de se ver.
– Nunca houve e nunca haverá meios de expor e explicar e simplificar em palavras o que sinto por você, amor. Por você e por nossa família, nossos amigos. E, com um discurso deste, você tirou toda e completamente a capacidade mínima que existia em mim para fazê-lo. – Papai suspira e recomeça. – Sempre fui reconhecido como monstro, como perturbado. Sempre acreditei que o amor fosse um cretino. Um cretino perverso sem coração. E quando soube sua história, amor, quando li sua ficha, seu histórico, sua descrição, a descrição de seu poder, de sua força, te vi como uma igual. Uma menina taxada como monstro, uma menina incompreendida. Aparentemente sem coração. Uma aliada. Mal sabia eu que você mudaria a meus olhos. Que você se mostraria forte, se mostraria ser além de um monstro que suga a vida das pessoas que toca. Você mostrou que poderia deixar de ser uma garota assustada; você mostrou que eu poderia deixar de ser um garoto assustado. O garoto sem rumo por dentro, que se perdia de si próprio, que se perdia em seus sentimentos e tentava mesmo assim parecer em ordem; normal, na medida do possível. O menino que lutava pela vida e pelo coração já perdidos da única pessoa que alguma vez já se importara com ele. O menino que seguia o pai contrariando-o, recebendo anualmente apenas cicatrizes, apenas mais mágoas, apenas mais medo e ódio e desprezo infundados e centrados nele próprio. Vê-la crescer me fez crescer, amor. Vê-la desabrochar e tirar cada pequeno pensamento que a impedia de ser quem você é hoje me fez querer desnudar-me a mim mesmo. Tirei cada máscara que compunha meu rosto quando ia até seu quarto, na base. Sentia-me seguro o suficiente para isso. Conversava e experimentava todas as palavras que conseguia arrancar de você. Mas seu toque — seu toque mortífero, seu toque que abstrai a vida — sempre fora uma curiosidade para mim. Talvez apenas por querer saber a sensação de ser consumido. Ou talvez pela sensação de poder morrer. De poder acabar. De devastar os pensamentos e os sentimentos, tanto os meus quanto os de quem me rodeava. É difícil dizer, Juliette. Mas eu queria tanto sentir seu toque. Tanto. E quando o senti – aquele toque que poderia me matar, extinguir toda a minha energia, o meu ser – nunca me senti tão vivo. Uma antítese. Uma contradição. Um momento que vivi repetidas e consecutivas vezes. Se a única forma, o único jeito, a única pessoa que poderia me matar me deixou vivo, me reviveu, me renasceu, restaram-me duas opções: viver por aquilo que me reanimou. Viver... ou morrer. E naquele dia, Juliette, naquele dia em que te vi no chão da sala, sangrando e respirando o que restava da sua alma, eu me vi morrendo. Morri tantas vezes por você, amor. Vezes intermináveis e doloridas. Vezes em que você me rejeitara. Vezes em que você atirava em mim. Vezes em que você dizia a coisa errada e então subitamente a coisa certa. Eu já tinha morrido tantas vezes por você, amor. Tantas vezes. Tantas vezes que, decidi então viver por você. Decidi viver por você no momento que sua vida se esvaia de seu peito. Eu não poderia deixá-la morrer. Desistir de você não era uma opção. Nunca foi uma opção. Nunca será uma opção. – Papai sorri para mamãe. – Tenho vivido por você deste então. Toda noite. Todo dia. Todo amanhecer e alvorecer e a cada respiração. A cada batida do coração, cada piscada de olho, cada movimento e passo e segundo e instante, amor. Viver por você tornou-se natural. Tornou-se o que sei fazer de melhor. E tudo isso só mudou no dia em que as crianças nasceram, pois passei a viver por elas também. Passei a viver por você, por Leila, por Chloe e Cleo e Elijah e por nosso pequeno anjo que não nasceu, mas que sei que cuida de nós. Vivi e vivo por você, Juliette, e não me vejo vivendo de outra forma. Não há um jeito melhor de se viver. Superei cada medo e ódio e desprezo que havia em meu coração. E, ao viver por você, ganhei mais pessoas por quem viver. Meus irmãos. Meus amigos. Minha família. Já disse antes que nunca agradecerei o suficiente por tudo o que você me fez, Juliette. E repito isso para você, amor. Você me mudou. Você me deu o sopro de vida do qual eu precisava tanto. Você abrigou uma alma solitária nos berços que são seus braços, no abrigo que é seu colo, no porto seguro que é seu coração. E, apesar de não poder agradecer agora, quero continuar tentando. Hoje. Amanhã. Daqui uma semana. Um mês. Um ano. Uma década. Para toda a eternidade, meu amor. Pois eu vivo em você, assim como você vive em mim. Viver por você é amá-la, Juliette. E a amarei com todo o meu ser, com toda a minha alma, para o resto da vida.
– Puta merda– ouço tia Amaya xingar baixinho.
Castle suspira e sorri. Passam-se alguns segundos em absoluto silêncio, como se as palavras de papai ainda estivessem sendo absorvidas por todos.
– Podem trocar as alianças agora.
Elijah se posiciona mais a frente, deixando as alianças em um lugar fácil de ser alcançado. Mamãe pega a do papai e, antes de colocá-la no dedo dele, ela beija a testa de Eli. Prosseguindo, ela apoia a aliança na ponta do dedo anelar da mão esquerda do papai, dizendo – Neste dedo, em que há uma veia ligada diretamente ao seu coração, ponho esta aliança, que marca a minha promessa de amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até nossos corpos se fundirem e voltarem a ser poeira das estrelas.
Papai também pega uma aliança, esta sendo a da mamãe e, colocando a aliança em seu dedo anelar da mão esquerda, ele diz – Neste dedo, em que há uma veia ligada diretamente ao seu coração, ponho esta aliança, que marca a minha promessa de amá-la e respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até nossos corpos se fundirem e voltarem a ser poeira das estrelas. Até nos tornarmos outro astro. Outro planeta, outra esfera, outra forma de vida. Eu prometo – papai completa.
– Então, declaro-os marido e...
– Ah, senhor Castle, está faltando uma coisa — tia Amaya diz.
– Uma coisa? – Castle parece confuso. – O quê?
– Aquilo... ai, Cristo — titia limpa a garganta e faz uma voz grossa quando diz — Se alguém tem algo a dizer, fale agora ou se cale para sempre.
Todos se encaram por um tempo, sem saber o que dizer.
– Você tem algo a dizer, senhorita Amaya?
– Tenho. Tenho sim. Quero dizer que se alguém se meter com vocês, se alguém ameaçar vocês, se alguém dizer apenas uma palavra da qual vocês não gostem, eu farei esta pessoa sofrer. Lentamente.
Olho para titia e sorrio.
– Eu estou junto com a Amaya nessa. – Tio Adam diz.
– Eu também — titio Kenji concorda.
E, depois disso, cada cabeça e boca presente concordou com a titia. Todos arriscariam a própria vida por nós. E não sei se posso ter mais sorte.
– Sendo assim, agora os declaro definitivamente marido e mulher. – Castle pausa e sorri antes de dizer – Pode beijar a noiva.
Papai sorri como nunca o vi fazendo. Ele põe a mão na cintura da mamãe, trazendo-a para perto. A outra mão vai até a nuca dela, dando apoio. E ele a beija. E é um beijo quase tão bonito quanto a bagunça de sentimentos felizes e bons que rodeiam a todos neste jardim. Quase.
Sorrio e maravilho-me com essa vida. Se ela é tão boa agora, com apenas sete anos passados, imagine só daqui mais cinco anos? E daqui dez anos?!
Ah, a vida promete e aguarda e sussurra tanta coisa em meus jovens ouvidos. E mal posso esperar para vivê-las.
Penso nisso uma última vez e então corro para ver mamãe jogando o buquê de flores – e titia Amaya pegando-o, surpresa – e correndo até a saída, onde um carro espera por ela e por papai.
Lua de mel, penso, sorrindo.
Tomara que eles voltem com outro irmãozinho para mim.
Vou até Elijah e o abraço, junto de Chloe e Cleo.
Essa vida é boa. Ah, como é.
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