Flores de Rodório - A flor da Romãzeira
10 Capítulo 9 Tudo em seu Devido Lugar
Notas iniciais
Posso dizer que, quando cheguei até minha casa, devidamente acompanhada de Milo, causei emoções diferenciadas em cada pessoa. Meu pai quase teve um ataque do coração e não parou de me abraçar e chorar, minhas irmãs me rodeavam perguntando sobre meu cabelo e sobre o que havia acontecido comigo, já minha madrasta, bem, ela apenas me encarava como se visse um fantasma, não conseguindo pronunciar uma palavra sequer.
Naquele dia, eu dormi na sala de casa, rodeada pelos meus irmãos e pelo meu pai, que não me largava em nenhum momento, ele dizia que era porque sabia que eu teria de partir em pouco mais de vinte e nove dias.
Mas, nos dias que vieram, eu revirei Rodório atrás de Euron; quando não o encontrei na cidade, levei o assunto até Athena, que, transtornada, abriu uma investigação para apurar se havia mais acusações como a minha.
E realmente havia. Uma atrás da outra, servas e moças do Santuário surgiram para relatar casos de abuso físico e sexual, sendo que até mesmo a esposa daquele monstro apareceu. Ele havia se casado com uma menina de treze anos e conseguiu destruir uma boa parte do que ela era.
Após um julgamento curto e sem defesa, Euron foi sentenciado à morte e esquartejamento. O carrasco que o fizera fora preciso, pois o fatiou em tantos pedaços que Euron mais parecia uma batata cortada em cubos bem pequenos.
Os pedaços foram enterrados em uma cova não marcada, como forma de indicar que ali jazia um monstro inominável, e as mulheres que sofreram com as agressões de Euron seriam cuidadas pelo Santuário, em acompanhamentos psicológicos e físicos para garantir que poderiam seguir uma vida melhor a partir daquele ponto.
Se minha madrasta já estava estranha, depois do julgamento de Euron, Malva-Rosa evitava até mesmo me olhar nos olhos, e aquilo me deixava incomodada e intrigada, já que ela costumava ter sempre uma resposta para tudo e sempre tentava me colocar em “meu devido lugar”.
Era uma noite até agradável, a casa estava silenciosa e eu deslizava pelo corredor do segundo andar, adentrando o quarto de Malva-Rosa, que dormia tranquilamente em sua cama. Olhando-a desconfiada, fiz surgir miosótis azuis pelo chão, e os ramalhetes continuaram até erguerem-se pelos braços da megera, chegando até as têmporas de Malva-Rosa.
— Mostra-me o que escondes. – ordenei às plantas e no momento seguinte uma profusão de imagens tomou conta da minha mente.
Malva-Rosa conversando com Euron, acordando que ele deveria me levar para longe e então pagando-o muito bem para que se livrasse de mim. Depois disso, ela chorava junto de meu pai, que cessara as buscas por mim, dando-me como morta. E em seguida ela falando de mim para minhas irmãs, como se eu fosse a pior das pessoas na Terra.
Quando as imagens pararam, eu arfei e, surpresa, olhei para Malva-Rosa, com os olhos verdes arregalados e os lábios entreabertos.
— Diana... – ela murmurou, sentando-se na cama, enquanto eu fazia os miosótis desaparecerem.
— Você fez isso comigo. – sentenciei, completamente devastada. – Você mandou que Euron me raptasse.
— Diana, não! – ela tentou segurar meus braços, mas eu a joguei para trás. – Não conte a ninguém!
— Eu deveria contar à Athena, assim ela lhe daria um destino semelhante ao daquele monstro! – sussurrei de forma agressiva, não querendo acordar os outros habitantes da casa. – Sua maldita, eu amaldiçoo o dia em que você nasceu!
— Por favor, não conte nada a ninguém, por favor! – pediu ela, chorando. – Eu tenho minhas filhas para criar.
— Fique tranquila, Malva-Rosa. – disse, completamente enojada. – Eu não vou falar nada hoje, mas, quero que você se lembre de uma coisa, eu posso contar a qualquer momento, então, aproveite e muito bem o tempo que você tem com elas, pois amanhã pode ser o último dia que irá vê-las.
E saí do quarto como um furacão, deixando-a para trás, chorando como nunca antes Malva-Rosa havia chorado.
Durante os dias que me restaram na Terra, foi interessante ver a face apavorada dela a cada minuto do dia. Podem me achar cruel por torturá-la ao invés de perdoar e seguir em frente, mas, meu coração não é tão bom assim como imaginam, e eu admito que foi uma ótima sensação vê-la temendo que eu dissesse algo.
— Você realmente tem de ir embora? – perguntavam as trigêmeas, paradas à porta da casa de papai, onde eu já me preparava para ser levada por Lune, encarregado de me trazer para o Submundo.
— Sim, queridas. – sorri, ajoelhada no chão. – Não se preocupem, um ano passa rapidinho e logo eu estarei aqui com vocês de novo!
— Tá... – murmuraram, emburradas. Eu simplesmente ri e beijei a testa de cada uma delas, erguendo-me para olhar o rosto de Milo, que fingia não chorar.
— Não faça essa cara! – ordenei, abraçando-o com carinho. – Eu volto rápido.
— Vou sentir saudades. – ditou ele, beijando-me na bochecha. – Se algum marmanjo tentar passar a mão em você, chute os bagos dele!
— Pode deixar, querido. – sorri, beijando os dedos dele. – Se cuide. E, diga para o Aiolos que eu ainda vou descobrir por que ele não se lembra de mim!
— Tá. – e Milo voltou a chorar, enquanto papai ria.
— Tente mandar cartas. – pediu papai, ajeitando minha trança sobre meu ombro. – Vou sentir muito a sua falta, minha Diana. – e me abraçou, suspirando como se seu coração pesasse.
— Eu vou tentar enviar mensagem pelas flores, então preste atenção nas papoulas do jardim. – sorri, beijando-o no rosto. – Papa, coloque as meninas na escolinha do Santuário, tá? Elas são inteligentes, podem fazer grandes coisas quando crescerem!
— Tá certo, querida. – concordou ele, passando a mão em meu rosto. – Vá com cuidado.
— Pode deixar. – e a próxima pessoa da linha era Malva-Rosa, olhando fixamente para o chão. Eu a abracei e, bem baixinho, sussurrei em seu ouvido. – Eu não preciso das flores para contar o que aconteceu, cuidado, mensagens do Inferno chegam rápido! – e ao me afastar vi os olhos cheios de água. – Não chore, madrasta! – pedi, em tom ensaiado. – Eu volto!
Ela nada disse, baixando novamente os olhos e fungando. Acenei para todos mais uma vez antes de aceitar a mão que Lune me estendia.
— Tchau, gente. Até o ano que vem! – sorri, e então alçamos voo, para adentrarmos a dobra dimensional que nos levaria ao Submundo.
Voltar para casa foi quase um sopro de água fresca, e, rever meus amigos e senhores, com toda certeza me fez muito bem! Assim que cheguei, descobri que Thanatos e Hypnos haviam retornado a seus deveres como seguidores fiéis de Hades e Macária havia voltado para Thanatos, desta vez dominando ela mesma a relação, até mesmo ignorando o deus quando ele começava a incomodá-la. Era muito engraçado vê-lo tentando discutir o ciúme irascível dele e ela o ignorando.
Eu ria muito.
Quando eu cheguei, Pandora estava enlouquecendo com a quantidade de trabalho acumulado, e eu rapidamente assumi minha função na administração do Castelo e como coadministradora das tropas e treinamento dos espectros, além de sempre estar presente quando Perséfone precisasse de mim. Era muito bom estar de volta atolada em problemas, pois eles não permitiam que eu queimasse meus neurônios tentando entender por que Aiolos não se lembrava de mim.
— Dianinha, eu já vou indo. – ditou Pandora, erguendo-se da cadeira à sua mesa, no escritório que foi preparado para nós duas. – Ikki já deve estar me esperando.
— Oh, okay, Pan-pan. – volvi, erguendo meus olhos dos relatórios entregues por Radamanthys ainda naquela manhã. – Não queremos deixar o cavaleiro de Fênix esperando. – e dei uma risadinha safada. – Vai e depois me conta tudo!
— Tá! – ela soltou uma risada e saiu do escritório, deixando-me novamente sozinha.
Neguei algumas vezes com a cabeça, massageando minhas têmporas antes de voltar a conferir os dados passados por Radamanthys – e, só para constar, nos tornamos bons amigos depois que eu voltei! A gente até jogava cartas juntos de Quinta-Feira à tarde. Então, ouvi uma batida leve na porta e depois passos metálicos no chão.
— Desculpa, Rada, não consegui terminar de corrigir e... – dizia, imaginando que fosse o inglês atrás da papelada, e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com a figura de Aiolos parada a frente da minha mesa, trajando sua armadura completa e me olhando de forma serena. – Aiolos? – coloquei-me de pé, confusa.
Foi quando eu notei aqueles olhos melancólicos, olhos que não me lembravam em nada os olhos azuis e brilhantes do homem que falara comigo no dia da assinatura do Tratado de Paz. Aquele não era o verdadeiro Aiolos, mas era o mestre que me ensinara o que eu precisava saber para vencer as barreiras do Mundo dos Sonhos. Passando a mão por meus cabelos e sentindo algumas pétalas das flores rosadas em minhas mãos, dei a volta na mesa, parando à frente dele, encarando-o com os olhos marejados.
— Você não é o Aiolos. – comuniquei, tocando o peito da armadura de ouro. – Você é meu mestre... A pessoa por quem eu me apaixonei nos Campos Elísios...
— Me desculpe por ter te enganado assim. – pediu ele, levando a mão até meu rosto. – Achei que seria a forma mais rápida de ganhar sua confiança e assim treiná-la mais rápido.
— Está tudo bem. – sorri, piscando e sentindo as lágrimas correrem por minhas bochechas. – Mas eu quero ver você como é de verdade, não seu disfarce.
Ele concordou com a cabeça, sorrindo de forma sincera. Então, as mudanças começaram pelas pontas das asas, que mudaram de forma e ficaram da cor negra de uma sapuris. Depois disso, toda a armadura, até que os cabelos e rosto se transmutassem em uma forma que eu já conhecia. O rosto de traços sérios e belos, os olhos acinzentados e os cabelos platinados por trás do elmo negro com asas... Meu sorriso apenas crescia durante a mudança e minhas mãos permaneciam agarradas às dele, que me acariciava singelamente com o polegar.
Quando tudo terminou, eu via Oneiros parado bem a minha frente, com sua armadura divina de longas asas, encarando-me como se eu fosse muito especial. Meu coração tremia de felicidade e eu chorava copiosamente, soluçando e tremendo como uma criança.
— Olhe só para você... – disse, respirando fundo e tentando me conter, mas o sorriso parecia cravado no meu rosto. – Esses olhos foram os que me conquistaram. – e o puxei para um beijo, o beijo que eu ansiava desde o treinamento nos Elísios.
Aquelas eram as mesmas mãos que me seguravam apertado e me ensinaram a lutar, era o mesmo abraço que me pegava de surpresa durante uma luta, e os olhos eram os mesmos que me faziam questionar o que havia por trás deles. Meu mestre era Oneiros de Sonho, um dos Oneiroi. Eu havia me apaixonado por um deus disfarçado.
Depois daquele beijo, nos afastamos e eu não conseguia parar de sorrir, estava simplesmente deleitada e, pelo sorriso no rosto dele, parecia que ele sentia o mesmo.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu em todos esses éons de vida. – disse ele, colando nossas testas. – Fiz loucuras por duas eternidades para ficar perto de você.
— Da próxima vez que for fazer uma loucura, por favor, não faça nada que envolva a minha pessoa tentando te matar, tá bom? – pedi, ajeitando os cabelos dele por trás do elmo.
— Certo. – ele concordou, me dando mais um beijo.
Preciso dizer que depois daquele dia minha vida não foi mais a mesma? Bem, mesmo assim eu vou dizer. Minha vida não foi mais a mesma depois de descobrir que Oneiros era o mestre por quem eu havia me apaixonado!
No mesmo dia, ele fez questão de ir até Hades e Perséfone pedir a permissão para me cortejar, e, nossa, que cortejo... Ele era um sonho em muitos sentidos. Devo dizer que em todos, pois até hoje eu não consigo encontrar defeitos que o deixem menos perfeito.
E, quando as pessoas dizem que não há relação perfeita, eu me pergunto se a minha é uma exceção tão grande. Acho que eu simplesmente não consigo me lembrar dos momentos ruins, porque, simplesmente de pensar nisso, minha mente já começa a lembrar de todos os bons momentos e o quanto eu o amo.
Posso dizer, com convicção, que não queria viver outra vida, pois esta que tenho me traz felicidade além da compreensão humana.
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