Flores De Maio

20 O Oceano Que Separa A Gente


Notas iniciais
Amores, desculpa por não ter respondido os comentários do capítulo anterior, estava com celular da minha irmã, por isso não vi notificação no meu e mail... Enfim, mais um!

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

****

~ Maria ~

Meu Deus, ainda não consigo entender como fiquei tanto tempo sem ter um orgasmo, isso é maravilhoso! Estêvão San Roman, você deveria ter aparecido na minha vida há mais tempo, com certeza minha vida faria mais sentido.

Estávamos ali na cama, deitados, sem dizer nada, apenas olhando para o teto, e assim ficamos por longos dez minutos. Eu continuaria em silêncio, mas ele já estava se corroendo de vontade de dizer alguma coisa, isso foi bem perceptível, e por fim, ele foi o primeiro a se manifestar.

— Quer um pouco de vinho? – Se virou para mim, apoiando seu corpo com o cotovelo.

— Eu preferia tragar um cigarro, mas como não tem.

Ele me olhou com uma cara assustada, e muito engraçada, e foi impossível não rir.

— Eu tô brincando San Roman, eu não fumo – dizia em meio ao riso – e sim, eu aceito um pouco de vinho.

Ele continuou me olhando com aquela cara engraçada, ou desconfiada, ah, sei lá, e pegou o vinho pra gente.

Ele me entregou uma taça quase cheia, e eu bebi pelo menos a metade do conteúdo que havia ali em uma golada só, e ele, que bebia de forma "fina" (talvez pra me agradar), fez a cara engraçada de novo.

— Eu estava com sede. – Me justifiquei sorrindo.

— Eh, eu percebi. – Sorriu.

— San Roman, me beija.

— Te beijar?

— Sim. É que me imaginei te beijando depois de beber vinho, deve ter um gosto, sei lá, picante, excitante.

— OK, já que insisti tanto. – Me olhou com uma cara sapeca.

Ele colocou a mão na minha nuca, trouxe meu rosto para próximo do seu, e me beijou. Eu tinha razão, beijo com sabor de vinho era maravilhoso! Aliás, a boca daquele homem era toda gostosa, quente ou gelada, era como se eu fosse ao paraíso e voltasse, ah, ele era todo gostoso.

— E então, atendi as expectativas? – Sorriu sapeca.

— Eu preciso responder? Cada vez que fico contigo, você supera as expectativas.

— Assim eu vou começar a me achar.

— Pois pode se achar, você é tudo isso! – Pisquei.

Ele sorriu. Peguei minha taça e a enchi novamente, ele preferiu não beber mais. Me recostei na cama, e em silencio, bebia aquele vinho lentamente, pensando em mil e umas coisas. Ele ficou quieto, talvez se perguntando em que eu pensava, e dessa vez demorou mais do que dez minutos pra ele romper o silêncio, talvez onze.

— Por que você tá tão calada? Não gostou do que aconteceu aqui? Ou se arrependeu? – Se sentou do meu lado.

— Claro que não Estêvão, não me arrependi de nada e gostei de tudo. – Sorri e coloquei a taça no criado mudo.

— Então posso saber o que se passa nessa cabecinha? – Colocou o indicador na minha testa.

— Não é nada de mais. Apenas pensando que, desde que você chegou, minha vida virou de cabeça pra baixo, mas um de cabeça pra baixo bom, entende.

— Acho que entendo, você também mudou a minha vida meu amor, desde que entrei naquela casa, meus olhos só procuravam por você. – Ele acariciava meu rosto e meu cabelo bagunçado.

Novamente um silêncio se formou entre nós, mas ele não esperou muito pra falar, pois parecia ansioso, parecia que queria me dizer algo.

— Maria, por que é que a gente não abandona tudo isso, e vamos viver esse amor? – Havia intensidade em sua voz.

— Você ficou maluco? Eu não posso abandonar a minha vida e ir embora assim, sem mais nem menos!

— Você pode pedir o divórcio pro Sérgio, aí saímos daquela casa, eu, você e a Aninha, vamos meu amor, vamos ser felizes juntos! – Ele segurou meu rosto e me encheu de beijos.

— Estêvão – tentei o afastar – calma, não é tão simples quanto você pensa, ou você acha que Sérgio vai me dar o divórcio assim tão fácil? Claro que não! Ele me exibe como se eu fosse seu troféu!

— Maria – segurou meu queixo fazendo-me olhar pra ele – eu não quero ficar com você às escondidas, eu quero dizer pra todo mundo que te amo, quero ter uma família contigo. Por favor meu amor, me deixa te fazer feliz?

— Eu não posso Estêvão... – Virei o rosto.

— Você não pode, ou não quer?

Essas palavras me machucaram mais, do que se eu levasse mil pedradas, mas ele estava no direito de me perguntar aquilo, eu também não iria querer dividi-lo com outro, mesmo sabendo que a outra parte não é amada.

— Eu não tenho coragem...

O olhei quando disse aquilo. Criei coragem pra dizer que não tinha coragem de acabar com meu casamento, aliás, com aquela farsa que Sérgio insistia em chamar de casamento.

Eu vi a decepção estampada na cara dele, mas o que eu podia fazer? Chegar em casa e dizer: Sérgio, nosso casamento está acabado, eu quero divórcio, isso? Talvez seja, mas não é tão fácil, apesar de querer muito fazer isso, não sabia como, nem quando iria arrumar coragem pra enfrentar Sérgio e minha mãe, que com certeza não iria concordar com essa ideia absurda.

Não trocamos mais nenhuma palavra, apenas nos arrumamos, e fomos pra casa, sem levantar suspeitas de que estávamos juntos.

Cheguei no quarto, encontrei Sérgio dormindo, preferi ir pra estufa, já que sabia que nem tão cedo o sono ia chegar. Fiquei lá, sentada, olhando para as flores, pensado em tudo, e no quanto estava sendo covarde. Chorei, não quis chorar, mas foi inevitável, e quando me lembrava dos nossos momentos juntos, as lágrimas caiam com mais entusiasmo, mas essas não eram de tristeza, eu não ficava triste quando me lembrava de nós. Eram de raiva, raiva de mim mesma por ser tão fraca, por não servir nem pra lutar pelo homem que eu amo. Talvez eu não mereça o amor dele e talvez eu nunca vá merecer Estêvão San Roman. E vou entender se ele não quiser mais me ver enquanto eu carregar o peso dessa aliança no meu anelar esquerdo.

****

A noite passou lentamente, como eu imaginei que fosse, mal consegui pregar o olho, e pior que não pensava só naqueles minutos maravilhosos que Estêvão me proporcionou, mas sim o peso daquelas palavras duras ficaram matutando na minha cabeça durante toda a madrugada.

Durante o café da manhã, foi um falatório que eu até estranhei, até minha mãe tava falando, a única que não disse uma palavra, fui eu.

— Maria Cristina, você está tão quieta hoje, o que houve? – Minha mãe perguntou de forma tão, educada, que tive vontade de retribuir a pergunta.

— Não é nada mãe, só não estou com vontade de falar.

Eles continuaram a conversa, e minha mãe me deixou em paz, ótimo!

Estêvão mal olhou pra mim, e isso me consumia mais do que o fato de eu estar traindo Sérgio, aliás, nada que envolva Sérgio me interessa, mas aquele pequeno gelo do meu San Roman, era demais pra mim, era difícil de suportar.

****

Finalmente estava na empresa, trabalhar me liberta. Só na empresa eu ia conseguir esquecer os problemas da vida, tomara que Lívia esteja de bom humor hoje, ela seria um ótimo remédio pra eu rir.

— Apareceu a margarida! – Ela disse assim que eu entrei.

— Tô vendo que você já tá melhor né. – Fui até o armário e coloquei minha bolsa dentro.

— Bem, bem não estou, mas a vida continua, ela sempre continua. E então – veio até mim – como foi a noite do casal?

— Ah Lívia – me sentei, parecia que tinha um balão em cima da minha cabeça, passando todos os momentos maravilhosos que vivi ontem – foi tudo lindo, perfeito, o San Roman é o homem da minha vida!

— Ah amiga – se sentou de frente pra mim segurando minhas mãos – eu fico tão feliz por te ver assim, com esse sorriso no rosto.

— O San Roman era o que faltava em mim. Lívia, ele é perfeito, o jeito que ele me beija, me abraça, o jeito que ele me faz sentir segura. – Suspirei. – Eu tô completamente apaixonada por ele.

— Quem te viu e quem te vê, hein Maria Fernandez, nunca pensei que você falaria de um homem desse jeito.

— Nem eu. – Me levantei. – Pena que nem tudo são flores. – Fui até a bancada onde estavam às vidrarias que a gente usa na manipulação, ela me seguiu.

— O que você quis dizer com isso Maria?

— Estêvão me propôs que eu abadonasse tudo, e fosse ficar com ele, de verdade. – Eu estava de costas para ela.

— E é claro que do jeito que você é, você disse que não.

— E eu disse que não. — A olhei. — O que você queria — estava um pouco alterada e gesticulando — que eu pegasse minhas coisas e sumisse do mapa com ele e Aninha? – Gesticulei tanto que, sem querer, dei um tapa no becker, que foi ao chão em mil pedaços.

— Calma – deu um pulo pra se afastar dos cacos – não precisa ficar nervosa!

— Você acha mesmo que eu não preciso ficar nervosa? – Fui irônica na minha pergunta.

— Bem – a louca olhava para o nada contando nos dedos – você é casada, se envolveu com o filho do seu padrasto, descubriu que seu marido te trai, pagou na mesma moeda, se apaixonou pelo seu amante, recebeu uma proposta de ficarem juntos, não tem coragem de pedir o divórcio pro corno do seu marido – depois dessa breve retrospectiva sobre mim, ela me olhou – é, pode ficar nervosa sim.

— Nossa, você me ajudou muito. – Saímos daquela área cheia de cacos. – Eu vou chamar a limpeza pra tirar esses vidros do chão, antes que alguém se machuque. Agora Lívia – mudei o assunto – será que agora você pode me explicar aquela sua mudança de humor repentina de ontem?

— OK, eu falo. Você tinha razão quando me alertou sobre o Fernando, ele me dispensou. – Abaixou a cabeça.

— Lívia... – Toquei seu ombro.

— Tudo bem – levantou a cabeça com uma cara "normal" – eu vou superar, ele que saiu perdendo, afinal, não se acha uma Lívia em qualquer esquina. Agora só te peço uma coisa, não diga... – A cortei.

— Eu avisei. – Franzi a testa balançando a cabeça pra cima e pra baixo.

— Não era pra você ter dito isso.

— Eu não resisti. – Ri. – Eu quero ver você sorrindo, sempre Lívia, agora vamos trabalhar? Já conversamos demais.

— Tudo bem. – Fez uma pausa. – Maria, como você se sente sabendo que seu amante e seu marido estão na mesma sala agora, talvez até falando de você?

— Eu não sinto nada Lívia.

— Imagina o Sérgio falando: nossa, a Maria é tão gostosa na cama, e o Estêvão pensando: mano, eu já experimentei cada milímetro daquele corpo, e você não sabe de nada.

— Lívia, cala a boca, por favor.

— Ah ex cunhada, me diz que você nunca pensou nisso?

— Lívia, vamos trabalhar.

Encerrei aquele assunto ali mesmo. E fiquei com o que ela disse na cabeça, era uma sensação estranha ter "meu marido e meu amante" como ela disse, na mesma sala, e quiçá eles realmente estejam falando de mim, seria uma situação um tanto quanto constrangedora.

Tratrei de fazer o meu trabalho quieta, Lívia quase não falou comigo, a não ser sobre assuntos de perfumes.

****

Já eram quase três da tarde, e hoje ia sair mais cedo novamente pra trabalhar na estufa, essa flor rara da África tá me fazendo quebrar a cabeça, espero que saia um perfume digno desse trabalho todo.

Antes de ir pra estufa, passei no meu quarto pra deixar minhas coisas. Ao sair, vi que a porta do quarto da Aninha tava meio aberta, e ela estudando. Entrei pra dar um beijinho nela, estava com saudades daquele sorrisinho meigo, daquela vozinha doce, que sempre arranca um sorriso meu.

— Oi Aninha – entrei – tô entrando, posso?

— Maria! – Ela sorriu quando me viu entrando. – Não sabia que você tava em casa.

— É, vim trabalhar um pouco. – Me sentei de frente pra ela, que estava sentada com pernas de chinês, com um caderno e várias canetas em sua frente. – Tá estudando o que?

— Um pouco de literatura. – ela brincava com o lápis que estava em sua mão – e já tenho certeza que essa não será minha matéria preferida. – Ria.

— Por que Aninha? Literatura é uma matéria legal, aprender sobre as fases dá literatura, e tal, é interessante.

— Eu não achei. Tava lendo um poema de... – Tentou se lembrar do nome do poeta. – Ah, lembrei, de Camões, conhece?

— Claro! E quem não conhece Camões? O amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente... – Recitei dois versos daquele poema, não só por dizer, mas disse com a alma, como se aquelas palavras fizessem todo o sentido pra mim, é a pequena me olhava com uma cara engraçada, com certeza herdou isso do pai.

— Nossa – bateu palmas – um dia vou recitar esse poema como você, foi simplesmente, espetacular!

— Obrigada querida! – Sorri. – Esse poema é lindo, e algumas vezes participei de recitais na escola, e a minha escolha era ele, foi amor à primeira lida! – Nós duas rimos.

—Sabe em que eu pensei quando li pela primeira vez?

— Hum?

— Em você é no meu pai.

— Oi?! – Se eu tivesse comendo alguma coisa na hora com certeza engasgaria. – Por que em nós dois?

— Essa resposta é óbvia Maria, você gosta dele e ele de você, e pra falar a verdade, eu vou gostar muito de te ter como minha madrasta, porque eu sei que você não vai ser uma madrasta má, mas vai ser como minha mãe mesmo. – A pequena sorria, e eu me senti tão mal com isso.

— Aninha... – Hesitei, não consegui falar mais nada.

— O único ruim dessa história é que você é casada.

Ela abaixou a cabeça pra escrever algo no seu caderno, e eu fiquei olhando-a. Será que o San Roman e eu estávamos dando tanta pinta assim? Ah meu Deus, será que minha mãe ou Sérgio também já perceberam? Ao pensar nisso, meu coração ficou apertadinho, me lembrei daquela proposta, e se eles só tiverem esperando pra agir na hora certa? Ai meu Deus, e agora?

— Maria – ela interrompeu meus pensamentos – eu achei linda essa parte que diz -lia – É um não querer mais que bem querer, É um andar solitário entre a gente, É nunca contentar-se de contente, É um cuidar que ganha em se perder. – me olhou – amor é um sentimento muito intenso né Maria? Um dia quero amar alguém com a mesma intensidade desse poema, a ponto de nada me segurar ou impedir, e eu vou enfrentar tudo e todos por esse amor, ninguém vai conseguir me afastar do meu futuro grande amor!

Eu sorri meio sem jeito pra ela, me levantei e fui caminhando lentamente em direção à porta, com certeza ela ficou sem entender. Não acreditei no que ouvi, uma criança de dez anos com mais coragem que eu, uma mulher “vivida”, tudo bem que ela pode mudar de opinião com o passar do tempo, mas, e eu? Continuarei sendo uma mulher frustrada, e com medo de encarar a vida e lutar pelo que quero.

****

Já era um pouco tarde, mas pelo menos consegui concluir meus objetivos, as flores me relaxam.

Subi para o quarto, fui me arrumar para o jantar. Entrei no banheiro, abri o chuveiro e deixei a água cair, por um longo tempo. Percebi que meus problemas não iam correm com a água pelo ralo, aí resolvi sair do banheiro.

Me vesti com meu roupão macio e fofinho, que eu adorava, acho que estava um pouco manhosa, não sei, mas era uma bela desculpa pra eu estar desse jeito.

Quando saí do banheiro tive a infelicidade de ver meu adorável marido sentado na cama. Quando ele bateu os olhos em mim, me senti violada pelo como ele me olhou, confesso, tive medo.

— Maria – vinha em minha direção – sabia que eu estava com saudades da minha mulher? – O traste me agarrou, beijando meu pescoço, tive mais medo ainda.

— Me solta Sérgio – tentava empurra-lo, mas ele era muito mais forte que eu – me solta!

— Por que meu amor? – Olhou pra mim. – Tô doidinho pra ver o que tem por dentro desse roupão.

— Você bebeu? – Fiz uma cara de nojo diante do bafo do cidadão. – Você está bêbado! – Me solta seu cachaceiro! – Batia em seu peito na esperança de que ele me soltasse.

— Eu não tô bêbado não amor – ele beijava meu pescoço e isso estava me dando asco – apenas tomei um gole depois do trabalho com os amigos.

— Amigos? Por acaso acha que eu sou idiota? Mas não me interessa com que você estava, você faz o que quiser da sua vida, não me importa, a única coisa que eu quero é que você me solte. – Esse desgraçado era muito mais forte que eu, sozinha eu não ia conseguir me soltar nunca.

— Eu não vou te soltar Maria, vou te amar agora – abria meu roupão – você é minha mulher é tem que me satisfazer!

— Eu não vou fazer nada! – Eu estava ficando com muito medo dele. – Me solta senão eu grito! Socor... – Ele me cortou botando a mão na minha boca e me imprensou na parede.

— É melhor você ficar quietinha, pro seu próprio bem – me olhava nos olhos, eu desconhecia o Sérgio que via, parecia ser uma questão de honra me ter ali, naquele exato momento – o que você acha que vão dizer se te ouvirem gritar? Vão te chamar de maluca, eu sou seu marido Maria, ninguém vai se meter em nada sobre nós dois, agora, deixa eu fazer meu trabalho, meu amor. – Riu de forma cínica.

Eu o odiei aquele momento mais que todos. Sentia nojo dele, e de mim por tê-lo tão próximo contra minha vontade. Com uma mão ele tapava minha boca, impedindo que eu gritasse, e com a outra, ele apertava e alisava minha coxa por baixo do roupão, me beijando, e eu sentia hálito de bebida barata da casa da puta em mim, isso me dava mais repulsa.

Eu não podia deixar isso acontecer, senão não me perdoaria. Foi então que, sem pensar duas vezes, dei um chute nos países baixos, conseguindo me livrar desse monstro. Ele se jogou no chão de dor, e eu, aliviada por ter impedido que ele me... Não quero completar.

— Sua louca! – Se contorcia no chão. – Por que você fez isso?

— Eu não vou deixar que você acabe com a minha vida mais vez Sérgio. – Balancei a cabeça em sinal de negação. – Não mesmo. – Virei as costas indo em direção a porta, ia sair, mas sua voz me interrompeu.

— Onde você pensa que vai? Contar pra sua titia o que acabou de acontecer aqui?

— Não, eu não vou dizer nada a ela – o olhei nos olhos – mas fique sabendo que não vou ficar mais nem um segundo do seu lado correndo esse risco de novo.

— Deixa de ser dramática Maria, qualquer casal passa por pequenas crises, assim como nós dois.

— Eu não quero mais olhar pra essa tua cara. Pode ficar com esse quarto, eu vou pro de hóspedes, depois mando vir pegar minhas roupas.

— Você não pode fazer isso! – Gritou.

— Tanto posso como vou! – Falei na mesma altura.

Sai por aquelas portas sem olhar pra trás. Estava feliz comigo, agora pedir o divórcio seria o próximo passo, mas calma, uma coisa de cada vez, pelo menos não ia dormir mais com esse crápula, só em saber que não veria seu rosto quando ficasse sem sono no meio da madrugada já era um alívio, em breve, quando criasse coragem de verdade, acordaria com um sorriso olhando para o homem que amo, de verdade.

****

~ Estêvão ~

Esse foi o pior dia desde que entrei nesta casa. Fiquei muito chateado com a atitude de Maria, eu enfrentaria tudo, até o marido, pra ficar com ela, mas infelizmente ela não pensa como eu, talvez eu não signifique tanto pra ela quanto penso, talvez o “eu te amo” seja só de boca, talvez eu não a mereça, talvez Sérgio sim, Ah, já não sei de mais nada.

Já eram umas 20:00 hrs, e já estávamos todos a mesa, menos ela. Eu estranhei o fato dela não ter descido pra jantar, ela sempre descia. Fifi perguntou ao Sérgio o porquê, mas ele desconversou, enfim, fiquei um pouco preocupado, o que será que houve?

****

Por fim estava no meu quarto, pensava nela, o sono não vinha, e só via ela em meus pensamentos, eu não aguentava mais isso, queria tê-la comigo, protegê-la, afaga-la em meus braços. Ah Maria, o que você fez comigo?

Tava tão desligado, que mal senti que meu celular vibrou, pensei que fosse mensagem dá Babi, mas me enganei, era ela.

Ainda está chateado comigo? O que eu faço pra vc me desculpar? :’(

Eu sorri quando vi aquela mensagem, acho que ela tava sentindo a mesma coisa que eu. Mas, e se a gente ficasse mais uma vez? Depois ela ia voltar fazendo pose de mulher certinha, como se nada tivesse acontecido, desfilando com o corno do marido, que, eu tenho certeza, não a ama como eu... Ah, quer saber, eu não tô nem aí, dane-se o que eu penso, dane-se Sérgio, dane-se tudo.

Te quero agora nos meus braços!

Continua...

****

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor? — Luís Vaz de Camões

Notas finais
Desfrutem!!!