Flores De Maio

21 Chorei Ouvindo Insensatez


Despretensiosa e solitária.
A rosa vive o processo
de ser quem é.
Brota sem ter medida.
Floresce de cor munida.
Depois morre.
Ida. –
Padre Fábio de Melo

****

~ Narrador ~

Alguns meses se passaram, dois para ser mais exato. Estêvão e Maria continuavam se encontrando às escondidas, vivendo aquela paixão proibida, sem despertar desconfianças da família, bom, se eles sabiam, fingiam bem, mas tudo indicava que não, já que o casal sabia ser discreto.

Era difícil para ambos conter aquele sentimento, e mais ainda tentar evitar aquilo, era algo forte demais o que sentiam um pelo outro, e não já não havia mais a condição “tentar evitar aquilo”, e então, simplesmente, se entregaram a esse amor, e deixaram ser levados por ele, agora que já tinham a convicção sobre seus sentimentos, sabiam que... Amavam-se mais que tudo.

Laboratório de manipulação.

— Lívia, minha amiga linda, que eu tanto amo! – Abraçou e beijou a amiga quando entrou.

— Maria, você tá me apertando muito! – Tentava falar enquanto a amiga a sufocava com seu amor.

— Desculpa. – A soltou sorrindo. – Eu tô muito feliz, e queria compartilhar minha alegria contigo. – Sua alegria era realmente muito visível, seu sorriso ia de orelha a orelha.

— Você sempre vai poder compartilhar sua alegria comigo, só não precisa me apertar tanto, OK? – Passou o indicador no nariz dela. – Agora me conta, o que foi que o seu San Roman fez de novo?

— Como você sabe que tem a ver com ele? – As duas foram caminhando em direção à janela, e Maria abriu as persianas, assim, olhavam para fora.

— Porque, desde que ele apareceu, você só vive assim, sorrindo atoa, tô errada?

— Não, não está. – Sorriu. – Então vamos ao que interessa – elas ficaram de frente uma para outra, e Maria pôs-se a contar o que estava lhe dando alegria – eu tomei uma decisão Lívia, uma decisão que vai mudar minha em 360°, e nada e nem ninguém vai me fazer voltar atrás.

— Eu já imagino o que seja, mas eu quero ouvir da sua boca Maria.

Maria segurou as mãos de Lívia. Seu coração batia forte, quase saltando pela boca.

— Eu vou pedir o divórcio ao Sérgio, e assumir de uma vez por todas o que sinto por Estevão! Não tem mais porque eu esconder isso de ninguém, eu o amo Lívia – sua voz era intensa – o amo com todas as minhas forças, e nada do que minha mãe e Sérgio disserem vai mudar a minha decisão, nada!

— Maria, eu tô orgulhosa de você, finalmente você escolheu ser feliz de verdade, independente dá opinião dos outros!

As duas se abraçaram.

— Só te peço uma coisa – Lívia continuou – seja forte, e não deixe que as palavras contrárias que serão ditas a você, te façam voltar atrás.

— Pode deixar Lívia, nada vai me fazer voltar atrás, Estêvão e eu estaremos ligados um ao outro pelo resto de nossas vidas...

Elas se abraçaram mais uma vez. Lívia não “pescou” o que Maria dissera, mas Maria sabia que ninguém no mundo poderia impedi-la de amar Estêvão, já que agora, os dois estariam ligados entre si para sempre.

Do lado de fora do laboratório.

Maria e Lívia mal podiam imaginar que a notícia compartilhada não havia ficado somente entre elas, existia alguém que ouvia a conversa atrás da porta, e não ia deixar o casal ter um final feliz, não sem antes agir.

— Ah Maria – dizia Sérgio baixinho próximo à porta do laboratório – sua desgraçada! Achou mesmo que ia me fazer de idiota? Vamos ver quem vai rir por último, ah se vamos... – Saiu caminhando.

Laboratório.

— E você Lívia? – Perguntou secando uma pequena lágrima que brotava em seu olhar.

— O que tem eu?

— Você anda meio quieta, saído pouco, e eu sei que você não é nada caseira.

— É... Desde que parei de sair com Fernando, não saí com outros caras, sei lá, ando sem vontade.

— Você tá esse tempo todo sem sair com ninguém? – Colocou a mão na boca surpresa.

— Não sei por que você se surpreendeu tanto Maria, não vejo nada de anormal nisso.

— Seria supernormal se não viesse de você, você não fica um dia sequer sem beijar alguém!

— Ficava Maria, ficava. Agora sou uma mulher direita, o próximo será pra casar.

Maria não se aguentou, e caiu na gargalhada, em contra partida, Lívia a olhava com uma cara nada boa.

— Muito engraçadinha. – Revirou os olhos.

— Desculpa Lívia – tentava controlar a crise de riso – foi mais forte que eu.

— Sei... Sabe Maria, acho que meu corpo não aceitou bem ficar sem sexo por tanto tempo.

— Hãm?

— É, desde que terminei o que nem comecei com Fernando, ando sentindo uns enjoos, um mal estar, estranho.

— Estranho mesmo Lívia. Apesar de achar que isso não é consequência de ficar sem transar, acho melhor você ir ao médico, pode ser algo mais grave, ou talvez seja só estresse, mas mesmo assim, é melhor procurar um especialista.

— Eh, eu vou fazer isso assim que sair daqui. Agora é melhor irmos trabalhar, porque esses perfumes não vão se fazer sozinhos.

— OK chefinha. Vamos, porque assim o tempo passa logo, e eu tô doida pra que chegue a noite.

— Por que você quer que chegue logo a noite?

— Quer que eu diga de novo?

— Não, daqui a pouco eu vomitar, escutando você dizendo essas coisas. – As duas riram, e voltaram ao trabalho.

O dia na empresa corria tranquilamente, como um dia normal, mas tá aí uma coisa que esse dia não seria, normal, muita coisa estava prestes a acontecer, e como Fifi dissera, nenhum sentimento é imune a problemas, e a vida ia mostrar a eles a força desse amor. Eh, a vida sempre está disposta a nos dar lições que nos fazem crescer, e nos mostram se o que queremos, realmente queremos, ou se tudo não passou de um mero capricho.

— Oi amor! – Disse Maria abraçando Estêvão por trás, assim que entrou na sala onde ele estava.

— Meu amor! – A puxou para frente e a beijou, sem medo de que alguém pudesse aparecer. – Não te esperava aqui, aliás, você quase nunca vem aqui.

— Na verdade tenho um motivo especial pra estar aqui.

— Um motivo especial senhora Maria Cristina Fernandez Acuña?

— Eu aceito que você me chamar de Maria Cristina, ou até Fernandez, mas Acuña não, por favor. – Pediu.

— Por quê? Esse nome vem da sua mãe ou do seu pai?

— Do Sérgio! – Foi direta. – Mas eu não vim aqui pra falar dele, vim falar sobre outra coisa.

— E sobre o que você quer falar meu amor? – Depositou um selinho em seus lábios.

— Quero te dizer algo, mas não aqui, e nem agora. Quero que me encontre hoje à noite no jardim, depois do jantar, depois que todos se recolherem.

— O que você tá aprontando Maria?

— Não tô aprontando nada, só tenho algo pra te dizer. – Sorriu travessa.

— Não pode adiantar o assunto?

— Não, e não seja curioso. Me espere, e você saberá. Agora deixa eu voltar ao trabalho.

— Assim, sem me dar um beijinho antes?

— Você tá muito mal acostumado hein.

— Você que me deixa assim – beijou a ponta do seu nariz – mal – beijou sua bochecha — acostumado.

Ele tomou seus lábios com vontade, e a beijou, com vontade, com desejo, como se aquele fosse o último beijo, o último...

****

Aquele dia já chegava ao fim, a família, que já havia jantado, se preparava para se recolher para seus aposentos, para mais uma noite de sono.

Maria estava ansiosa para contar ao seu amado sobre a decisão que mudaria suas vidas, só que ela tem uma surpresa desagradável ao entrar em seu quarto, seu adorável marido a aguardava sentado em sua cama.

— Você quer me matar do coração? – Colocou a mão no peito. – O que você faz no meu quarto? Quem te deu a permissão de entrar aqui?

— Desde quanto eu preciso de autorização pra entrar no quarto da minha esposa? – Se levantou e foi para próximo dela.

— Não se aproxima de mim! – Se afastou. – Foi bom você tocar nesse assunto, eu queria falar contigo sobre o nosso casamento, e esse é um ótimo momento para falarmos sobre isso.

— E o que você quer me dizer sobre o nosso casamento?

— Que a partir de hoje não existe mais nenhum casamento, eu quero o divórcio! – Foi firme, e não se abateu.

— O que?! – Deu uma gargalhada. – Você só pode tá de brincadeira comigo, não é mesmo?

— Nunca falei tão sério em toda minha vida. Dessa forma, você pode viver com sua amante, sem se preocupar com a tinta aqui, aliás, você nunca se preocupou comigo mesmo. – Ele arregalou os olhos ao perceber que ela sabia de sua infidelidade.

— O que você pode dizer de mim? Você não tem moral pra falar da minha infidelidade, ou você acha que eu não sei do caso com o San Roman? – Ela também arregalou os olhos, ao ver que ela sabia de seu caso.

— Então agora é a hora de falarmos verdades? OK, então vamos falar. Eu amo o Estêvão, e é com ele que eu quero ficar, sabe por que Sérgio? Porque ele é muito melhor que você, em poucos meses ele me fez sentir como uma mulher de verdade, algo que você não soube fazer nesses anos de casados!

— Sua vagabunda! — Deu uma bofetada em seu rosto, que a fez ficar um pouco tonta, mas não caiu, foi por pouco. – Eu não permitir que vocês dois sejam felizes Maria, eu não serei feito de idiota!

— Eu não me importo com o que você acha – falava alto com a mão no rosto – eu vou ficar com ele custe o que custar, e você não vai impedir porque...

— Por que você tá grávida? – A cortou, e ela ficou surpresa ao saber que ele sabia. – Ou vai mentir pra mim?

Ela ficou pálida, se perguntando como ele sabia.

— Achou que eu não soubesse né. Pois é, eu sei, encontrei um teste de farmácia no seu banheiro.

— Você já sabe, então não tem porque negar. Sim, eu estou grávida do Estêvão. – Confirmou.

— Quem diria hein Maria – riu – você, a santinha, fazendo um papel que, sinceramente não esperava, sério, nunca esperei isso de você.

— Eu cansei de andar na linha e ser feita de idiota por você e por Cecília, já chega, hoje dou um basta nisso!

— Mas quem disse que eu vou deixar vocês viverem esse conto de fadas? Eu não vou dar o divórcio que você tanto quer Maria, Ah, mas não mesmo.

— Você acha que pode me obrigar a continuar casada contigo, é isso?

— Até que você é inteligente. É isso que eu vou fazer, você vai continuar casada comigo, querendo ou não.

— Você só pode tá brincando comigo. – Sorriu desacreditada.

— Não estou brincando não Maria Cristina, tô falando muito sério, nós dois vamos continuar como o belo casal que somos, ou você prefere que eu acabe com a vida do seu amante?

— Você é louco! Não tá dizendo coisa com coisa.

— Você vai pagar pra ver?

Neste momento, Sérgio tirou uma arma que estava em sua cintura, e com uma velocidade incrível, segurou Maria por trás, colando seu revolver gelado, em sua cabeça, que agora tremia. Ela desconhecia o homem com quem se casou e dividiu alguns anos de sua vida.

— Se você não acabar com esse seu romance, eu mato a Aninha, aquela criança mais doce, que não tem culpa de nada, a tonta da Fifi, o seu San Roman, depois você, aí acabo com a minha vida também. – Sussurrava em seu ouvido.

— Você está blefando! – Foi corajosa ao dizer isso, mesmo com uma arma apontada em sua cabeça.

— Maria, Maria, não duvide mim meu amor, você não sabe o que um homem apaixonado é capaz de fazer.

Maria, como que num impulso, se soltou dele, e pôs-se a vomitar tudo o que estava em sua garganta há tempos.

— Apaixonado?! – Falava alto. – Que apaixonado o que Sérgio, você nunca sentiu nada por mim, porque se sentisse algo, não me deixaria largada o tempo todo, talvez se você fosse um marido atencioso, eu não teria buscado sanar minha carência em outros braços!

— Acho melhor você falar mais baixo – segurou seu queixo com brutalidade, e a olhava com ódio – e seu fosse você, eu ia agora mesmo falar com Estêvão e acabar com isso de uma vez por todas, porque eu não estou brincando, eu vou acabar com vida de vocês dois.

~ Flashback on ~

— Sabe quando vai ter certeza que o ama? Quando você deixar de fazer algo que quer muito por ele, qualquer coisa que seja, aí você vai ter certeza que o ama, quando renunciar suas vontades por ele.

— Então quer dizer que não o amo?

— Não flor, não é isso. O amor é assim como as suas flores lá da estufa, primeiro ele é um botão, e vai desabrochando todos os dias, mas precisa ser cuidado com carinho. Eu sei que você já ama esse rapaz, eu sei por que te conheço, e vejo algo diferente em você, mas você só vai saber o quanto esse amor é forte quando vierem as adversidades, porque nenhum sentimento é imune a problemas, e você vai ter que lutar por ele com todas suas forças, e em alguns momentos, até abrir mão desse amor.

~ Flashback off ~

Num instante as palavras de Fifi vieram em sua cabeça. Ela tinha duas opções: ou pagava para se Sérgio estava mesmo blefando, ou abriria mão do seu grande amor, assim, fazendo com que ele e a filha ficassem em segurança, e agora, o que fazer? Ela não tinha muito tempo para pensar, aliás, o tempo não era o seu melhor amigo no momento.

— Como posso ter certeza de que você não fará nenhum mal a eles se eu ficar contigo? – Dizia em meio às lágrimas.

— Te dou a minha palavra que não farei mal a eles.

— Eu não confio mais na tua palavra. – Se soltou dele.

— Você não tem muita escolha, ou é isso, ou... É isso.

— OK, você venceu Sérgio, eu vou acabar logo com isso, pode se sentir vencedor. – Ela ia saindo do quarto, mas Sérgio a impediu segurando seu braço.

— Espera Maria. – Ela o olhou. – Essa pode ser uma oportunidade que a vida está nos dando de tentar recuperar nosso casamento.

— Esqueça isso Sérgio – se soltou – continuaremos casados no papel, mas só isso.

Maria saiu do quarto aos prantos, seu coração estava dilacerado por saber o que estava prestes a fazer, encerrar de uma vez por todas o que tinha com Estêvão, sabia que seria a melhor escolha, era para o bem de todos.

— Meu amor! – Ele a abraçou e a beijou, e ela não esboçava emoção nenhuma. – Pensei que não viesse mais, já ia te mandar uma mensagem. E então, o que você quer me dizer? Tô muito curioso pra saber o que...

— Acabou Estêvão. – Disse friamente o cortando.

— O que?! – Parecia não ter escutado o que Maria disse.

— Isso mesmo que você ouviu, está tudo acabado entre nós, não vamos nos encontrar mais, e nada do que você disser vai mudar meu pensamento.

— Eu não tô entendendo Maria! Mais cedo você era só sorrisos. Foi alguma coisa que eu fiz?

— Por favor Estêvão, não me pergunte nada, nem tente entender, é o melhor pra nós dois.

Ela virou as costas, mas ele segurou sua mão, queria explicações, ela não podia dizer que estava tudo acabado, e ficar por isso mesmo. Ela o olhou chorando, seu coração queria que ela estivesse em seus braços, mas ela sabia que não podia agir com o coração, e a razão falou mais alto, e ela simplesmente soltou sua mão da dele, e saiu sem olhar para trás.

— Maria... – Dizia em lágrimas.

Quarto Maria.

— Satisfeito? – Ela perguntou ao entrar, e perceber que ele ainda estava ali.

— Não, na verdade não – se virou para ela – essa foi uma parte, uma parte bastante importante, claro, mas não a única.

— O que mais você quer que eu faça? Diga que te amo em público? Pra mim não importa mais.

— Não é isso, mas também é uma ótima ideia. O que eu quero é que você diga a todos que o filho que você espera é meu, isso é meio óbvio né, e quero que você volte para nosso quarto.

— Pra quê que eu vou fazer isso?

— Porque você é minha Maria! – Se aproximou como um lobo faminto.

— Eu não sou sua, nunca fui e nunca serei! – Se afastou.

— Aí é que você se engana, você é minha Maria, eu te comprei!

— O que?! – Não acreditou no que ouviu.

— Isso mesmo que você ouviu, eu paguei caro por você, então você será minha para resto das nossas vidas.

— Você ficou louco! Eu não sou um objeto pra ser comprado ou vendido!

— Diga isso a sua mãe, porque ela te vendeu a mim como se você fosse isso mesmo!

~ Flashback on ~

— Sérgio, eu não posso ficar pegando dinheiro do Enrico assim, ele vai acabar descobrindo! – Cecília dizia num tom de desespero.

— Cecília, eu não posso fazer nada, eu preciso desse dinheiro!

— Eu sei Sérgio, mas não é tão fácil assim, a não ser que...

— A não ser que o que?

— Bom, podemos fazer um acordo. Eu tenho uma filha, ela é muito bonita, inteligente e virgem, se você quiser, eu posso dá-la como pagamentos, e quitamos a nossa dívida.

— Não sei se é uma boa ideia.

— Você pode conhecê-la, ela é fácil de domar. Se casando com ela, você tem livre acesso na mansão, e pode garantir um emprego na empresa do Enrico, e então, o que acha?

— OK, eu topo conhece sua filha, mas isso não quer dizer nada ainda, eu tenho que constatar se realmente vale a pena essa troca.

— Tenho certeza que você vai aceitar, Maria é uma linda mulher, e você vai querer tê-la ao seu lado como esposa, garanto. Agora eu preciso ir, Enrico não sabe que saí de casa, até mais Sérgio. – Se foi.

— Ah Cecília – ele falava consigo mesmo – vai ser mais fácil do que eu pensava, Ah se vai...

~ Flashback off ~

— Eu não tô acreditando que ouvi isso, vocês dois são dois monstros!

— Fui eu que te vendi pra um homem que eu mal conhecia? – Gritava. – Era eu quem tinha uma dívida de jogo gigantesca e não tinha como pagar? Não!

— Você é tão sujo quanto ela por ter aceitado! – Gritava chorando, andando de um lado para o outro.

— E você queria o que? – Abaixou o tem de voz. – Você sempre foi linda Maria, eu me encantei quanto te vi pela primeira vez e não passou pela minha cabeça negar a proposta da sua mãe.

— Proposta, proposta! Eu tô cansada das propostas sujas de vocês dois. – Se virou, ia sair do quarto.

— Aonde você vai?

— Para o nosso quarto meu amor – ironizou – ou você se esqueceu da proposta que você me fez? Eu vou cumprir a minha parte, espero que você faça o mesmo. – Se virou e saiu.

E foi assim que terminou aquela noite, aos berros, destruindo sonhos, quebrando corações, e pra alguns olhares, dando por encerrado aquele amor, que era sincero e verdadeiro. Esse era só o começo da reviravolta que estava para acontecer na vida da família, muita coisa estava por vir, e viria também um tempo de falsa paz, mas, como foi dito, era falsa.

****

Por fim, aquela noite turbulenta passou, dando a vez há um dia nublado, sem cor, sem risos. Ao invés de risos de alegria, sorrisos formais, em forma de educação, ao invés daquele brilho notório no olhar, olhos vermelhos por causa do choro, esses foram protagonistas daquela manhã, e talvez seria por algum tempo.

Após um café da manhã silencioso, com olhares voltados somente para suas xícaras, como se fossem robôs e tivessem sido programados a isso, cada um se retirou para seu dever diário. Não foi trocada palavra alguma entre Maria e Estêvão, talvez em algum momento, ele a olhou, perguntando dentro de si o porquê daquilo tudo, ser deixado pela mulher que ama, sem um argumento contundente, mas o que ela poderia dizer?

Escritório da mansão.

— Cecília, preciso falar com você agora! – Sérgio adentrou pelas portas sem nenhuma cerimônia.

— Bom dia pra você também Sérgio, você pode entrar, claro. – Foi sarcástica.

— Não é hora de sarcasmos Cecília, temos que agir logo, antes que seja tarde demais!

— Do que você tá falando Sérgio? Eu não estou entendendo.

— Cecília, Estêvão está a cada dia mais por dentro das coisas da família, ele tá ficando esperto, se continuamos nesse ritmo, nunca vamos conseguir tirar nada dele!

— Por que será que eu acho que tem algo, além disso, nessa sua preocupação? Me diz o que aconteceu Sérgio, te conheço e sei que aconteceu algo mais.

— Tudo bem, mas se segura, porque o que vou te dizer vai te fazer cair dessa cadeira.

— Acho difícil, você me surpreender com alguma coisa. – Recostou na cadeira.

— Ah é? Então lá vai: a Maria, sua filhinha, está grávida de Estêvão San Roman!

Cecília arregalou os olhos, não acreditara no que acabara de ouvir, me arrisco a dizer que seus batimentos, assim como sua pressão arterial, subiram. Eh, Maria soube surpreender.

— Você não pode tá falando Sérgio!

— Nunca falei tão sério em toda minha vida. Você será avó do filho do filho seu falecido marido Ciça.

Cecília encarou Sérgio por alguns segundos, e começou a gargalhar, ele claro, ficou sem entender nada.

— Você ficou louca? Por que tá rindo?

— Eu nunca imaginei que a tonta da Maria pudesse fazer uma coisa dessas, logo ela, toda certinha, grávida? Do favelado? Meu Deus!

— Pois é...

— Sabe, confesso que fiquei feliz, sabia que tinha algo de mim nela, não vivi a minha vida toda em vão. – Ria.

— O que você quer dizer com isso Cecília? A Maria, ou o Fernando não são filhos do seu primeiro marido? – Arregalou os olhos.

— Isso não vem ao caso Sérgio.

— Então quem é o pai de um deles? – Insistiu.

—Isso não vem ao caso. – Foi dura na resposta.

— Tudo bem, se você não confia em mim, o que posso fazer. Agora, acho que temos que fazer algo logo, porque consegui separa-los por um tempo, mas não sei vai ser por muito tempo.

— Então o que você sugere?

— Fazer o que tínhamos que ter feito há muito tempo, e vamos usar sua filha pra isso.

— Ela não vai te perdoar.

— Ela já me odeia, mas sabe que sempre será minha, sabe que eu a comprei por um por um alto preço.

— Não, você não fez isso! – Falou alto.

— Fiz, eu disse a ela que você me vendeu para quitar sua dívida de jogo comigo.

— Você não deveria ter feito isso Sérgio? O que ela vai pensar de mim?

— Não sei por que o drama, sei que você não morre de amores por ela, até porque se a amasse não a vendia como um animal. – Jogou bem sua cara com todas as letras, ela se sentiu mal.

— Vamos pensar logo em como vamos botar seu plano em prática. – Mudou o assunto.

— Nosso plano, mas fica tranquila, eu cuido da parte burocrática, e vou tratar de destruir mais um pouco o coração dá sua filha. Tenho uma amiga que vai adorar consolar o San Roman – disse seu nome com deboche na voz – e minha esposinha vai se sentir mal por ter sido trocada em tão pouco tempo.

Os dois se olharam de forma maléfica, e um pouco amedrontadora, e sorriram um para o outro.

****

O dia logo passou, e todos se preparavam para mais um jantar em família, se é que aquilo podia ser chamado de família.

Maria se preparava para descer, assim como Estêvão, e como se fosse consciência, os dois se esbarraram no corredor.

— Boa noite San Roman. – O cumprimentou sem o olhar nos olhos.

— Então é assim? Agora você age como se nada tivesse acontecido? Não sabia que você era dissimulada, atriz.

— Você está me ofendendo!

— Ah, agora você é a ofendida? E eu? Eu sou o errado da história Maria?

— Por favor, Estêvão...

— Por favor, nada Maria! Você acaba com tudo, sem me dar uma explicação, e ainda me pede, por favor? Eu pensei que o que existia entre nós fosse verdadeiro Maria, mas tô vendo que você é igual a eles.

— Não me compare a eles, por favor, eu tive motivos fortes pra tomar a decisão que tomei, e não vou voltar atrás.

Ela o olhou, queria chorar, mas se segurou, tinha que ser forte, mas ele queria entender o que estava acontecendo, queria mais explicações, “motivos fortes” não eram convincentes. Ela ia se retirar, mas ele segurou seu braço, impedindo-a.

— Maria... – O tom de sua voz não era acusatório.

— Me deixa ir, eu te peço.

Ele a soltou, e foram em direção à mesa de jantar, sem dizerem mais nada.

****

Eles comiam em silêncio, e só se ouvia o barulho dos talheres nos pratos. Foi quando Sérgio se pronunciou, tinha uma novidade para contar para família.

— Bom, queria a atenção de todos, tenho algo importante a dizer. – Sorria como um político fazendo um discurso.

— Que tipo de novidade Sérgio? – Perguntou Fernando.

— Algo que vai mudar nossas vidas, principalmente a minha e da minha esposa.

Maria já sabia o que ele ia dizer, queria fugir dali, teve que se segurar pra não chorar, é o que lhe dava forças para prosseguir com essa ideia, era o fato da segurança das pessoas que amava depender disso.

— Fala logo Sérgio, eles devem estar curiosos com a nossa novidade. – Disse sem emoção.

— Tudo bem meu amor, eu vou dizer. Bem – fez uma pausa – Maria e eu vamos ser papais!

Continua...

Notas finais
Mais um capítulo amores, espero que gostem. Obs.: Não xinguem minha mãe, ela não tem nada a ver com isso hahaha Las quiero