Flores De Maio
32 O Fim?
Notas iniciais
Ele lhe deu dez flores, destas, nove
eram de verdade e uma delas feita
de plástico. Então o garoto disse:
“Eu vou te amar, até que a última
delas morra.” — Desconhecido.
****
Cecília caiu no chão desacordada, com a força da pancada que havia levado. Maria arregalou seus olhos, talvez seu coração nunca estivera tão acelerado como naquele momento, vestígios do sangue de Cecília estavam sobre suas roupas, por um instante, eles pensaram que Cecília havia partido dessa para uma melhor, ou para uma pior.
— Seu louco! O que você acabou de fazer? – Ela gritava.
— Ah Maria, não vai me dizer que ficou com peninha dela? Você tem motivos suficientes pra querer ela mortinha da Silva. – O senso de humor de Sérgio nunca se fez tão presente.
— É, talvez eu tenha ótimos motivos para odiá-la sim, mas diferente de você, eu não desejo a morte de ninguém, e não tenho desejo de me vingar dela!
— Ah Maria, como sempre, a boa samaritana. – Ele foi até Cecília, e checou sua pulsação. – Você deu sorte, ou azar, não sei, ela ainda tá viva, daqui a pouco ela acorda, que bom né, vou adorar ver vocês duas falando sobre os podres dela. – Riu enquanto amarrava Cecília ao lado de Maria.
— Sérgio, por favor, para com isso, ainda tem tempo de se arrepender. – Pediu como numa súplica.
— Ah não Maria, vamos parar com esses textos decorados de fim de novela! Ninguém merece! – Ficou a sua frente, após ter amarrado sua mãe, ou melhor, sua tia. – Sabe de uma coisa – se sentou na sua poltrona confortável – eu sempre preferi os vilões aos mocinhos, acho que me enquadrava mais nesse perfil, mas me decepcionava, pois os vilões sempre se davam mal no fim, mas dessa vez vai ser diferente, o vilão vai se dar bem, e os mocinhos vão dançar. – Gargalhou. – Quem sabe, no futuro, nossa história vire um filme, ou até mesmo uma novela. Eu sempre gostei daquela frase: Baseado em fatos reais, vai ser incrível meu amor! – Ria.
— Você acha mesmo que nessa história você vai se dar bem? Claro que não! Como sempre, o vilão vai se ferrar no final – sorriu – e pode ter certeza, se a nossa história virar um filme, eu garanto que verei, estarei na primeira fila do cinema, pra ver você caindo, e essa será a minha cena preferida do filme.
— Sabe, isso é uma coisa que eu tô gostando em você, você tá aí morrendo de medo, mas não perde o senso de humor, você deveria ter agido mais dessa forma desde o começo do nosso casamento, quem sabe eu não pensaria duas vezes, e pouparia pelo menos a sua vida.
— Poxa, se eu soubesse que isso teria salvado nosso casamento, teria agido assim desde o início! Meu maior desejo agora, é que nós dois estejamos correndo de mãos dadas pela areia da praia, poxa amor, que mancada que eu dei. – Debochou.
— Tá vendo? Eu gosto mais de você assim, e não daquela chata com quem me casei. Mas por falar em chatice, desde quando você tem uma tatuagem? Aposto que fez isso depois que começou seu casinho com Estêvão, eu sabia que esse homem te levaria ao mau caminho.
— Ah você notou minha tatuagem? Pensei que nunca notaria. Mas para seu governo, eu a fiz quando tinha dezessete anos, isso é pra você ver que nunca foi um bom marido, teve que me sequestrar, quase matar sua amante, pra ver que eu tenho uma tatuagem, e aposto qualquer coisa que não faz ideia do que seja.
— É, não sei mesmo, confesso, e confesso também que não esperava isso de você.
— Pois é, acho que também surpreendi você. – Piscou.
— Você começou a me surpreender quando soube do seu caso com aquele favelado, quando engravidou dele.
— Eu faria tudo de novo, o San Roman sim é um homem de verdade, em uma noite ele me fez sentir coisas, que você não conseguiu nos anos que estivemos casados! Ele me fez mulher de verdade! Você deveria se aconselhar com ele, quem sabe um dia aprenda fazer alguma coisa.
— Já chega! – Se levantou. – Não quero mais que o nome desse sujeitinho seja citado aqui!
— Ué, te incomoda que eu diga que ele é um homem e tanto? – Provocou.
— Não me provoca Maria, eu posso perder a minha paciência e te mandar pra terra do pé junto antes do tempo.
— Tá esperando o quê? Me mata logo, acaba logo com a minha vida, pra que esperar mais? O que eu tenho que fazer pra que você me mate logo de uma vez? Tenho que falar do San Roman? Tenho que dizer que ele é muito melhor na cama que você, que ele é atencioso, carinhoso e mais homem que você? Aliás, ele é melhor que você em todos os sentidos. – Sorriu provocando-o mais ainda.
Sérgio foi até ela, segurou seu queixo com muita força. Seu rosto estava próximo ao dela, ela conseguia sentir seu hálito, de tão próximos que estavam, havia ódio, muito ódio nos seus olhos.
— Se você falar nesse idiota mais uma vez, eu mato esses dois – se referiu as crianças – e depois encho tua cabeça de balas.
— Eu pago pra ver dessa vez! – Conseguiu falar, mesmo com as mãos dele apertando-a.
Sérgio a soltou de forma brusca, a olhou, e saiu do cômodo. Maria estava tirando-o do sério, sua vontade era acabar com sua vida naquele momento, mas não era o seu plano fazer aquilo, ali. Depois que ele saiu, Maria pôs-se chorar, não acreditava que tinha o desafiado daquela forma, e colocado a sua vida, e a vida das crianças em risco daquele jeito.
— Ah meu Deus – ela falava sozinha – quando isso vai acabar?
Ela olhou para as crianças, que a olhavam de volta, com os olhinhos cheio de medo. Cecília, por sua vez, ainda se encontrava desacordada.
****
Enquanto os quatro sofriam nas mãos de Sérgio, sofriam por não saber como seriam o possível fim deles, sofriam por não saber o que se passava em sua cabeça, sofriam por carregar uma angústia imensurável, os que estavam na mansão não sabiam o que fazer, o que pensar, a preocupação e a tensão tomava conta do ambiente. Os policiais tentaram investigar alguma coisa, de onde Sérgio havia feito à ligação, mas não haviam chegado a nenhum resultado preciso.
Dentro daquela casa era um falatório, misturado com choro, que impossibilitava qualquer um de pensar alguma coisa útil. Até o momento, ninguém havia sentido a falta de Cecília.
— Ah meu Deus, cuida da minha filha e dos meus netos. – Pedia Fifi olhando para o alto, como se olhasse para Deus.
— Calma tia, nada de mal vai acontecer com eles, precisamos estar confiantes. – Fernando a abraçou
— Eu não sei mais o que pensar, quais palavras usar pra ver se Deus me escuta, eu não aguento mais essa ansiedade! – Disse Estêvão chorando.
— Gente, cadê a Ciça? – Lívia, por fim, sentiu sua falta.
— É mesmo, já faz um tempão que não ouço a voz da minha mãe.
— Deve ter ido se esconder, depois de tudo o que fez, não lhe restou outra opção. – Desabafou Fifi.
— Eu vou ver se ela tá lá em cima, aproveito pra colocar Acsa na cama.
Lívia subiu com a menina nos braços, e a deixou dormindo na cama de Maria. Após, ela procurou Cecília por todo o andar, mas foi a infeliz em sua procura, ela não estava lá. Ela logo desceu, com uma feição um pouco tensa demais.
— Gente, Ciça não tá lá em cima, e eu perguntei a alguns empregados, e eles disseram que ela saiu já tem um bom tempo.
— Ué, onde minha mãe pode ter ido?
— Estranho. Mas de repente ela foi dá uma espairecida né, depois do que aconteceu nessa sala. – Comentou Estêvão.
— Quem sabe ela não teve mais uma de suas ideias brilhantes, e não está tramando algo contra nós? É bem é cara dela. – Fifi estava tão irada contra sua irmã, que não conseguia mais pensar nada bom a seu respeito.
— Tia – Fernando se sentou ao seu lado no sofá – você está no seu direito de pensar as piores coisas sobre a minha mãe, eu não te culpo, mas você não acha que ela estava arrependida? Ela parecia arrependida!
— O arrependimento dela não vai apagar o que ela fez! – Ela falou alto. – Por mim, que vá ela e o arrependimento dela para o inferno!
— Eu também acho que ela estava sendo sincera quando pedia perdão – dizia Lívia – por que a senhora não dá a ela uma oportunidade de mostrar que ela está mudada tia?
— De mim, Cecília não terá mais nada, a não ser sentimentos ruins, é o que ela merece.
— Gente, eu não culpo Fifi por isso, foi o que Cecília plantou, ela vai ter que colher, todos os nossos atos trazem consequências, bem dizia o químico, ou físico, sei lá, toda ação tem uma reação, Cecília vai ter que correr atrás do prejuízo dela.
Depois do que Estêvão disse, todos se calaram, não tinham mais o que dizer. O silêncio se tornou esmagador, mas ainda sim, continuaram em silêncio, quem sabe estivessem falando com Deus, pedindo, cada um a sua maneira, para que Ele cuidasse, e protegesse os seus das garras daquele terrível monstro.
****
Já era bem tarde, umas 11:00 PM, Sérgio escrevia algo num bloco de papel, enquanto eles continuavam ali, mas o que podiam fazer era isso, ou, isso.
— Sérgio, eu tô com sede, e as crianças também devem estar, por favor... – Maria dizia, com pouca força.
— Poxa amor – deixou seu bloco na mesa para olha-la – até tem água na geladeira, mas se eu der a vocês, eu fico sem. – Sorriu.
Nesse momento, Cecília começava a despertar.
— Ai, a minha cabeça dói! – Dizia sem conseguir se mexer.
— Olha só quem acordou! Agora a conversa vai ficar interessante!
— Cecília, você tá bem? – Maria perguntou.
— Não sei, minha cabeça dói muito.
— Tá vendo só Ciça, depois de tudo que você aprontou, sua filha ainda se preocupa contigo, ah, ela não é mais sua filha né. – Riu. – Você conseguiu me enganar direitinho hein, nunca imaginaria que o meu amorzinho fosse filha da Fifi com o meu tio Rui, como as coisas são irônicas, não é mesmo Ciça?
— Cala essa boca, seu maldito! – Ordenou Cecília.
— Vamos abaixando essa bola, quem tá no comando aqui sou eu, OK? Mas sabe o que eu acho engraçado, é que há algum tempo atrás, você não me mandava calar a boca, mas você me procurava cheia de amor pra dar, se esqueceu disso Ciça?
— Cala a boca Sérgio! – Maria disse aos berros. – Eu nos aguento mais ouvir sua voz!
— OK – ergueu as mãos em sinal de rendição – não tá mais aqui quem falou. – Debochou. – Eu vou ali tomar um pouco de água, vou deixar as duas tricotando, acho que vocês têm assuntos pendentes, vou permitir que vocês resolvam antes da morte de vocês. Até daqui a pouco. – Ele saiu.
— Maria – a olhou, mas Maria tinha seus olhos em outra direção – eu sei que não mereço, mas me perdoa – ela já chorava – sei que você tá no seu direito de me odiar, eu fui a protagonista das piores coisas que aconteceram na sua vida, eu tirei o direito da minha irmã de ser sua mãe, tentei matar você junto com Enrico, te vendi como se fosse um verdadeiro objeto, e como se não fosse pouco, ainda fui amante do seu marido...
— Você é um ser desprezível Cecília. – A cortou.
— Eu sei, eu sei que sou, mas infelizmente a gente não pode voltar atrás nos nossos atos, a única coisa que me resta, é pedir perdão a vocês, mas mesmo sabendo que não mereço, me sinto mal por saber que eu tanto fiz mal, e agora minha família toda me despreza. É por minha causa que estamos aqui hoje, mas eu não permitir que Sérgio saía vitorioso daqui.
— Ah é? E o que você pretende, espertinha?
— Não sei, mas eu vou tirar vocês dessa, de alguma maneira forma, eu vou, e se eu sair viva daqui, me entrego à polícia, eu vou pagar pelos meus crimes do jeito que deve ser feito.
— Tem certas coisas que eu só acredito vendo. – Suspirou e a olhou. – Não espere que eu te perdoe e corra para os seus braços te chamando de titia.
— Eu estaria pedindo demais.
Sérgio voltou para onde eles estavam.
— E então, fizeram as pazes? Hum, pelas caras, acho que não né. – Riu. – É chato, porque serão as últimas pessoas que vocês verão, agora vamos nos apressar, que vamos dar um passeio, o passeio da morte! Caramba, gostei disso, passeio da morte, o que acharam?
— Você deve ter algum distúrbio. Posso saber aonde vamos, querido? – Perguntou Maria.
— Vamos para a mansão. Acho que vocês estarão mais a vontade morrendo em casa. Ah, a forma que vocês vão morrer vai ser surpresa, mas garanto, vai ser uma morte quente. – Gargalhou.
— Seu louco, os deixe em paz! Se tiver que fazer algo, faça comigo!
— Ah Ciça, chega de blá blá blá. Agora vamos, que daqui a pouco isso aqui vai tá cheio de policiais. Enquanto vocês batiam papo eu liguei pra mansão, eu pedi que eles viessem até aqui, disse que não era pra trazer a polícia, mas sei que os policiais virão. Ah, Ciça, eles já deram sua falta lá, mas disse que você veio nos fazer uma visita, agora vamos, sem resistência, por favor, senão terei que desmaiar vocês, e vocês não querem isso que eu sei.
****
Na mansão, eles se prepararam para ir até o lugar onde Sérgio marcou, levando uma certa quantidade de dinheiro que ele havia pedido somente para disfarçar, mal eles imaginavam que era uma desculpa para que saíssem de casa.
— Eu também vou, não vou aguentar ficar aqui! – Protestou Fifi.
— Claro que não tia, a senhora não vai arredar o pé desta casa!
— É verdade tia, é melhor a senhora não ir, isso não é coisa para mulheres. É melhor a senhora ir comigo pro meu apartamento, e tentar descansar um pouco. – Disse Lívia.
— Eu não quero descansar, será que vocês não entendem?
— Tá decidido, você vai com Lívia pro apartamento dela. – Disse Estêvão. – Agora vamos Fernando, nós só voltaremos a essa casa com Maria, as crianças e Cecília.
Eles estavam de saída, quando Lívia abordou Fernando antes que partissem.
— Fernando, toma cuidado, eu não sei o que seria de mim sem o pau da minha filha.
— Fica tranquila Lívia – ele tocou seu rosto – eu vou voltar com eles, e ainda seremos uma família feliz. – Ele sorriu, e a abraçou.
Os policiais, Estêvão e Fernando foram a caminho do endereço que Sérgio havia dado, e Fifi fora com Lívia para o seu apartamento, contra sua vontade, e relutante, deixando a mansão vazia.
Não demorou para que Sérgio chegasse à mansão com eles, e não achou nenhuma dificuldade em entrar e se instalar. Antes de saírem do tal esconderijo, ele deu de beber a eles, não porque ainda tinha um pouco de humanidade em si, mas ele colocara algo na bebida, fazendo com eles ficassem um pouco dopados, e não dificultasse seu trabalho, mas ainda estavam conscientes, andando com suas próprias pernas, mas com dificuldade, assim, não conseguiriam fugir.
Ele os amarrou, dessa vez não no chão, mas numa cadeira. Cecília de costas para Aninha, e Maria de costas para Enriquinho, as duas estavam uma do lado da outra. Mas antes que cumprisse o desejo de mata-los, ele foi até a estufa, e a destruiu completamente, talvez essa fosse uma fantasia que ele carregava consigo.
Após estar completamente seguro do que estava fazendo, ele ligou de volta para Estêvão, informando de onde estava, seu desejo era que eles fossem para a mansão, e assistisse a morte de sua amada, e filhos. Estêvão não acreditou no que ouvira, queria matar Sérgio com suas próprias mãos, mas ao invés de xinga-lo, eles partiram disparados para a mansão, a fim de tentar impedir aquela atrocidade. Sérgio também havia ligado para Josefina, que quase teve um troço. Lívia não conseguiu segura-la, e as duas foram em direção à mansão.
— Eu não tô com bom pressentimento. – Disse Maria.
— Calma, ainda não chegou ao fim. Eu tô vendo a arma do Sérgio, eu vou dar um jeito de pegar. Aninha, você acha que consegue desamarrar minhas mãos?
— Não sei, mas posso tentar.
Aninha foi, e com muita dificuldade, conseguiu desamarrar as mãos de Cecília, que desamarrou suas pernas, e depois desamarrou Maria, e as crianças. Mas elas não podiam fugir, não sabiam onde Sérgio estava, elas tinham que agir com cautela. Foi então que elas continuaram a fingir que ainda estavam amarradas, Cecília estava com a arma, ela tinha uma ótima oportunidade, mas não podia desperdiça-la como da outra vez. Sérgio apareceu.
— Então, estão prontas pra darem adeus a vida de vocês? – Ele estava com algo em mãos.
— Sérgio, por favor... – Pediu Maria.
— Eu não vou voltar atrás Maria, eu nunca volto atrás. Ah, tá todo mundo lá fora, Estêvão, Fernando, Lívia, Fifi, e muitos policiais. Sabe, eu ainda não pensei como vou acabar com Estêvão, Fernando e a filha dele, já que também é da família, mas vou poupar Lívia, alguém tem que contar essa história, não é? – Ele começou a despejar um líquido no chão.
— O que é isso? – Cecília perguntou preocupada.
— Eu não disse que a morte de vocês ia ser bem quente? Não sei se vocês tão sentindo, mas já tá bem quente aqui, é que já botei fogo nos outros cômodos, não vou demorar muito, senão daqui a pouco os policiais vão invadir, e vão acabar encontrando vocês quatro com vida. – Ele parou de derramar a gasolina, e parou frente às duas.
— Você tá ficando louco, você não pode fazer isso! Pelo amor de Deus Sérgio, tem duas crianças aqui dentro! – Maria se desesperou.
— Sinto muito Maria.
Ele riscou um palito de fósforo, e jogou no chão, e ficou a olhar o fogo de espalhar por todo o cômodo.
Continua...
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