Flores De Maio
33 Tudo No Seu Devido Lugar
Notas iniciais
Flores envenenadas na jarra. Roxas
azuis, encarnadas, atapetam o ar.
Que riqueza de hospital. Nunca vi
mais belas e mais perigosas. É
assim então o teu segredo. Teu
segredo é tão parecido contigo que
nada me revela além do que já sei.
Eu sei tão pouco como se o teu
enigma fosse eu. Assim como tu és
o meu.– Clarisse Lispector
****
~Maria~
Quando vi o fogo tomar conta da sala, me dei conta que Sérgio não estava brincando, percebi que realmente ele estava com sede de vingança, e só ia parar quando todos nós estivéssemos mortos. Eu pensei que em todas as histórias que o bem prevaleceria contra o mal, mas dessa vez, na nossa história, como ele disse, tava sentindo que o mal se daria bem. Eu não estava com um pressentimento muito bom a respeito disso, mas não temia pela minha vida, e sim pela vida da Aninha e do Enriquinho, acho que não entreguei os pontos ainda por causa desses dois, porque se fosse por mim, já teria sucumbido há tempos.
— Maria – Cecília falava de modo que só eu escutava – vamos ter que agir logo, antes que gente vire churrasco.
—Tudo bem – suspirei – não me resta outra alternativa a não ser confiar em você, faça o que tiver de fazer.
— Posso saber o que vocês estão cochichando aí? Estão se despedindo uma da outra? Ela perdoou você Ciça?
— Ele gargalhou. Não via mais o Sérgio, ou a farsa, com quem me casei na minha frente, mas acho que já via o diabo ali.
— Na verdade Sérgio, nós duas estávamos planejando como vai ser a sua morte – não queria, mas tenho que reconhecer que o jeito irônico de Cecília às vezes vinha bem a calhar – e chegamos a um consenso, não é mesmo Maria? – Ela me olhou sorrindo, por um momento me esqueci que a detestava.
— Claro Cecília – olhei Sérgio com uma cara de deboche, eu sabia ser bem debochada quando queria – e talvez você goste da forma que vai morrer, amorzinho. – Tratei de ignorar o fogo que consumia tudo a nossa volta.
— O quê? – Não entendeu do que nós duas falávamos. – Vocês estão de brincadeira, acho que a chama já deve estar queimando o cérebro de vocês, impossibilitando as duas de pensar. – Riu. – Mas eu já vou indo, senão daqui a pouco não consigo mais sair daqui, e não é isso que queremos, ainda tenho mais algumas mortes pra pensar. – Ele suspirou. – Foi um prazer conhecer vocês, até nunca mais!
— Até nunca mais Sérgio. Mas eu não posso dizer o mesmo sobre você – Cecília se levantou e apontou a arma na direção dele, a cara dele foi a melhor, ele não esperava nenhum tipo de reação da nossa parte, e ficou imóvel, sabia que Cecília seria capaz de tirar sua vida – foi um total desprazer conhecer você, seu inútil! Adeus Sérgio!
Sérgio não imaginava que sua vida teria fim naquele instante, nós também não. Sempre soube que Cecília tinha sangue frio, mas nesse dia, tive total certeza disso, só não sabia que ela atirava tão bem, suas habilidades serviram pra alguma coisa útil. Ela disparou a arma contra ele, e num tiro certeiro, acertou sua cabeça. Fiquei com medo, confesso. Sérgio ainda ficou com olhos fitados em nós antes de cair duro naquele chão quente. Por alguns segundos, pensei que ele ainda estivesse vivo, mas ainda bem que não, nunca respirei com tanto alívio, como naquele momento, mas ainda não tinha acabado, ainda estávamos dentro daquela casa, que perdia espaço a cada segundo para o fogo.
— Eu não acredito! Sérgio está morto, Cecília, você conseguiu! – Infelizmente, eu fiquei feliz com a morte de alguém, mas, ou era ele, ou nós.
— Bom, se não tiver, daqui a pouco ele morre com todo esse fogo.
Cecília me ajudou a tirar as crianças das cordas que ainda estavam envoltas sobre seus membros. Nós preferimos deixá-los meio amarrados, pra que Sérgio não suspeitasse, não queria que fosse assim, mas Enriquinho podia acabar saindo da cadeira, e estragando nosso plano.
— Vamos sair daqui logo, antes que não dê mais tempo! – Cecília me apressou, tudo muda, menos seu jeito mandão.
Coloquei Enriquinho no colo, e Cecília segurou Aninha pelas mãos, e procuramos o melhor lugar para sairmos, ou melhor, o lugar menos pior, não dava pra ver nada com clareza, a fumaça já havia tomado conta de tudo, uma hora dessas eu me pergunto, cadê os policiais e os bombeiros que ainda não invadiram isso aqui pra nos salvar? Já vi que sair dessa casa vai ser mais difícil do que eliminar Sérgio.
Parece que quando as coisas começam a dar certo, tem algo que nos impulsiona a desistir, só pode. Quando finalmente encontramos um lugar pra sair, uma madeira, que veio do além, caiu no pé direito de Cecília. Ela nunca conseguiria sair dali sozinha, pelo que vi, aquela madeira pesava uma tonelada, eu não podia deixa-la ali, minha consciência não me deixaria dormir se eu fizesse isso.
— Merda, merda, merda! — Disse ao ver Cecília imóvel no chão. – Aninha – eu tinha que gritar, senão minha voz não apareceria, o barulho ali dentro estava muito alto – você vai ter que sair daqui com seu irmão!
— Maria, eu não vou conseguir! – Ela também falava alto.
— Claro que vai meu amor, eu confio em você! Vai nessa direção – apontei – e não olha pra trás. Eu vou ajudar Cecília, e daqui a pouco estarei com vocês lá fora.
Beijei os dois, com medo de que fosse o último beijo. Ainda olhei Aninha e Enriquinho, até que sumissem diante daquela fumaça. Respirei fundo, e fui até onde Cecília estava.
— Você ficou maluca! Sai daqui Maria!
— Eu não posso ir e te deixar. – Fui até onde o pé dela estava preso. – Cecília, eu vou tentar levantar isso aqui, quando eu levantar, você tira o pé.
— Tá.
Eu sabia que não era a pessoa mais forte do mundo, a ali, só constatei o que já sabia. Aquela madeira pesava muito Mas ainda sim tentei levantar, a vida de Cecília estava nas minhas mãos, ah destino, você e suas ironias.
— Maria, eu não vou conseguir, meu pé tá doendo muito!
— Cecília, você tem que ser forte, na nos resta muito tempo. Eu vou levantar mais uma vez, e no três, você puxa o pé, OK? Vamos lá, um, dois três.
Busquei força onde não havia, e consegui levantar aquele objeto maldito, e Cecília conseguiu tirar o pé dali.
— Aaaaaaaah! – Um grito de dor invadiu sua garganta quando seu pé saiu debaixo da madeira.
— Acha que consegue andar? – Fui até ela, o calor ali dentro já era insuportável.
— Não sei, tá doendo demais.
— Vem – a ajudei a se levantar – se apoia em mim.
Foi difícil, mas consegui fazer com que ela se apoiasse em mim, para que, finalmente, conseguíssemos sair dali.
****
~Estêvão~
Quando ouvi a voz de Sérgio me dizendo que ele estava na mansão, e que ia mata-los, eu me senti um completo idiota, o desgraçado só queria um oportunidade pra entrar na casa. Um medo sobrenatural tomou conta de mim, quando vi aquela casa em chamas, não tinha forças pra consolar ninguém, e também não queria consolo, eu queria entrar lá dentro e tirar meus filhos e minha mulher, mas aqueles policiais inúteis não faziam nada, e não me deixavam fazer.
Eu olhava pra cara da Fifi, e sabia exatamente o que ela sentia, era pior pra ela, coitada, descobriu que sua filha estava viva, e talvez não teria a oportunidade de abraçá-la, não Estêvão, não pense isso, sua Maria e seus filhos vão voltar, e bem, nessa altura do campeonato, até Cecília eu quero que esteja bem.
— Pelo amor de Deus, vocês não vão fazer nada? Vão ficar aí olhando? – Eu disse aos policiais, não aguentava mais eles dizerem que tudo devia ser pensado com cautela. – Se vocês não entrarem, eu entro! – Eu ia passar, mas eles me impediram.
— Você não pode entrar, você pode não sair. – Um dos policiais falou, aquela calma deles me irritava.
— Dane-se, é a minha mulher e os meus filhos que estão lá dentro!
Fernando veio até mim, e tentou me acalmar, ele sabia que não ia demorar pra eu socar qualquer um deles.
Eu olhei pra frente, e pensei que fosse uma miragem, esfreguei os olhos, e vi que não era, Aninha vinha de mãos dadas com Enriquinho, ah, ninguém mais me segurou, passei por aqueles policiais, e fui ao encontro dos meus filhos, eles não tentaram me impedir, ai deles se fizessem isso.
— Aninha! Enriquinho! – Os abracei tão forte, que talvez quebrasse uma de suas costelas. – Como vocês estão? Aquele monstro machucou vocês?
— Não pai, a gente tá bem.
Eles não estavam 100% bem, mas não estavam machucados.
— Onde está Maria? Cadê ela, por que ela não veio com vocês?
— Ela tá lá dentro – ela começou a chorar – pai, ela tá lá, a Cecília ficou com o pé preso, e ela ficou lá pra ajudar ela a sair, pai, ela vai ficar bem?
— Calma filha, elas já vão sair.
Eu queria entrar e tirar aquelas duas lá de dentro, mas tinha que tirar meus filhos dali, eu sabia que Maria era forte, e sairia de dentro daquela casa, com Cecília junto. Fernando veio ao meu encontro, e pegou Aninha no colo, tadinha, ela não parava de chorar, enquanto Enriquinho, ele estava tão assustado, que não tinha outra reação, a não ser ficar quieto.
Fernando e eu saímos da frente da casa, ficamos um pouco distante, e demos as crianças água, e o que comer, Lívia e Fifi também vierem ao encontro da gente, Fifi segurou a onda, e parou de chorar, pras crianças não ficarem assustadas.
Finalmente os policiais resolveram invadir, eu não sabia qual era o plano deles, e como eles encontrariam elas lá dentro. Eu fiquei próximo deles, e vi quando as duas saíram de dentro da casa, Maria servindo de apoio para Cecília. Fernando e eu corremos até elas, Cecília se jogou no chão, acho que tava com dor no pé, e eu não acreditei quando vi Maria na minha frente.
— Maria, meu amor, eu sabia que você sairia bem! – A abracei como nunca antes.
— San Roman! – Ela me olhou com um leve sorriso, e logo após, desmaiou nos meus braços.
****
~Maria~
Eu não sabia muito bem onde estava, e o que tinha acontecido comigo. Não tenho certeza, mas acho que acabei morrendo, não me lembro de nada, apenas uma breve recordação de quando eu saí de dentro da mansão com Cecília, depois não me lembro de mais nada.
Eu realmente pensava que estava morta, não sentia dor nenhuma no corpo, sentia uma paz, e não ouvia nada, mas sonhava, e ouvia a voz do San Roman e da minha tia Fifi no sonho, e se realmente estiver morta, até que não é tão ruim quanto acham que é.
— Será que ela não vai acordar? Por que ela não acorda logo Estêvão?
— Calma Fifi, ela vai acordar, você não ouviu o médico dizer? Só espera mais um pouquinho.
Espera! Acho que não morri, pois, acho que se tivesse morrido, não sentiria uma mão segurando a minha, e eu sabia que era o meu San Roman.
Se eu não estava morta, então só podia estar num sono muito profundo. Eu tentava abrir os olhos, mas minhas pálpebras não me obedeciam, depois de um tempo, acho que estava achando forças pra despertar.
— Olha Fifi, ela tá abrindo os olhos! – Sim, estava conseguindo despertar.
— Onde eu tô? – Tanta coisa pra perguntar, eu tinha que perguntar logo isso? – San Roman? Tia? – Consegui abrir os olhos de vez, e vi os dois, um de cada lado.
— Meu amor, como você tá se sentindo? – Estêvão, sempre atencioso.
— Tô bem, não tô morta. – Brinquei. – Me ajuda a sentar. – Estêvão me ajudou, e olhei pra minha tia, sorrindo, não consegui dizer nada, apenas lágrimas escorreram dos meus olhos, ela também me olhava, e não falava nada.
— Vocês vão ficar se olhando, não vão dizer nada?
Eu sabia que não sairia nenhuma palavra da minha boca, foi quando me joguei nos braços da minha tia. O abraço que levei trinta anos pra receber, o abraço da minha mãe, no meu íntimo, sabia que existia algo a mais entre nós duas, não éramos somente tia e sobrinha, acho que essa coisa do sangue falar, existe mesmo, pois no nosso caso, funcionou bem. Não sei dizer qual das duas chorava mais, eu sabia que se tivesse que morrer agora, morreria feliz, pois já vi e abracei minha tia como minha mãe.
— Meu amor – ela secava minhas lágrimas, em vão, pois quanto mais ela secava, mais eu chorava – eu não acredito, é você mesmo? Minha filhinha! Eu não acreditei quando soube, você nunca esteve morta, sempre esteve do meu lado.
— Ah tia, a senhora não sabe o quanto eu me sinto feliz por saber que você é a minha mãe!
Ela me abraçou de novo, eu ficaria por toda a eternidade nos seus braços, nos braços da minha mãe.
— Acho que as coisas tão começando a caminhar no rumo certo, né? – Estêvão se aproximou de mim, mexendo no meu cabelo.
— Tomara que sim. – Sorri. – Cadê o Enriquinho e a Aninha? Eles estão bem? Me diz que eles estão bem, por favor? – Fiquei um pouco inquieta.
— Calma filha. – Ela sorriu, acho que gostou de me chamar dessa forma.
— Os dois estão na lanchonete com Lívia e a filha dela. Eles foram examinados, mas não tinham nada, só fome mesmo. – Brincou.
— Ai que susto! – Suspirei aliviada. – E Cecília, como ela está?
— Ela tá no quarto do lado. Tá bem, só inalou bastante fumaça, e quebrou o pé, mas vai sobreviver. – Estêvão sorriu um pouco sem graça. – Ela tá depondo agora, os policiais disseram que ela podia fazer isso depois que recuperasse, mas ela insistiu pra que fizesse agora. Fernando tá com ela.
— Eh, tenho que confessar que ela merece meu respeito, pelo menos uma vez. – Disse.
— Pra mim, ela vai ser sempre a mesma Cecília de sempre.
— Tia, sei que talvez eu esteja pedindo demais, mas tenta perdoar ela, sei que ela fez besteira demais nessa vida, e não foram coisas bobas, foram coisas bem graves, mas acho que ela se arrependeu, ela não sacrificaria a própria vida se não tivesse arrependida.
— Não seu se sou capaz de fazer o que você tá pedindo.
— Pelo menos tenta tia, talvez se não fosse por ela, eu estaria morta, estaria fazendo companhia pra Sérgio – tentei brincar com a situação – se não fosse ela, Sérgio estaria vivo, porque eu não teria coragem de mata-lo. Pelo menos tenta perdoar ela tia, por mim. – A olhei com aquela cara que conseguia tudo o que queria.
— Eu vou tentar – Estêvão e eu sorrimos – por você, somente por você.
— Claro tia.
Ainda recebi muitos mimos do amor da minha vida, que graças a Deus, não era meu irmão, e da minha tia, vou ter que me acostumar com essa ideia de que ela é minha mãe, não chamar Cecília de mãe é muito fácil, mas ter que trocar o tia pelo mãe, vai ser mais complicado, mas vou conseguir, claro que vou.
~Estêvão~
Eu sentia uma alegria tão grande dentro de mim por saber que Maria, a mulher dos meus sonhos, o amor da minha vida estava bem. Vê-la nos meus braços desmaiada me fez pensar as piores coisas, se ela tivesse morrido, eu daria um jeito de fazer Sérgio reviver, só pra mata-lo com minhas próprias mãos.
Chegamos ao hospital com os quatro. Aninha e Enriquinho já estavam bem e brincando, Cecília estava consciente, mas um pouco debilitada, ela ia ficar bem, ela é forte. A médica que atendeu Maria, disse que ela ia ficar bem e logo acordaria, Fifi não escondia sua ansiedade quanto a isso, mas no fundo, eu tava da mesma forma que ela. E por fim, ela acordou.
Foi tão bonito ver as duas finalmente juntas, como mãe e filha, quase chorei, mas segurei a onda, tinha que manter minha pose de macho alfa. Acho que Maria está certa, todos nós devemos perdoar Cecília, todos merecem um segunda chance, ela tá disposta a mudança, e provou isso, agindo como agiu, e virei fã dela, afinal, ela lavou a honra da nossa família, acabando com a raça do maldito do Sérgio.
Quando souberam que Maria estava acordada, e sorrindo como nunca, todos foram para o quarto, minha Maria nunca foi tão bajulada, e coitado do Enriquinho e da Aninha, Maria os abraçou tanto, eu no lugar dela faria o mesmo. Aquele quarto estava uma algazarra só, acho que nós esquecemos que estávamos num hospital.
— Bom dia! – Disse a médica sorridente que acabou de entrar no quarto, todos ficaram em silêncio quando ela entrou. – Tô vendo que a minha paciente já está bem. – Ela foi até Maria, checar se estava tudo sob controle.
— Tô me sentindo ótima doutora, estar com a minha família me faz bem.
— Ótimo! Bom, hoje mesmo você poderá ir pra casa, não tem porque eu segurar você aqui.
— Casa? Nós não temos mais casa! – Ela disse rindo, nós e a doutora rimos também.
— Nossa, é mesmo! Acabamos nos esquecendo disso. – Comentou Fifi.
— Bom, eu ainda tenho minha casa na favela, não chega aos pés da mansão, mas é alguma coisa pros sem teto, não? – Brinquei.
— Por mim, não tem problema nenhum em ir pra lá. – Disse Maria.
— Se a casa do Estêvão for pequena demais, Fernando pode ir pro meu apartamento, claro, Acsa vai amar.
— O que a gente não fez pelos filhos, não é mesmo. – Disse Fernando rindo, tudo pelos filhos.
— Filhos em primeiro lugar, não é cunhada, digo, Lívia.
— Ah Maria, não é porque você tá nessa cama, que tá livre de receber uns tapas.
— Na minha filhinha ninguém encosta o dedo! – Fifi disse abraçando Maria.
— Maria ganhou uma advogada! – Fernando disse rindo, e Maria mostrou a língua a ele.
— Ah Lívia, admite, vocês dois se amam, já tá na hora.
— Talvez, quem sabe, a gente se gosta um pouquinho. – Lívia disse passando a mão pelo ombro de Fernando, que envolveu sua cintura com suas mãos, e beijou sua bochecha.
— Ah, antes que eu me esqueça porque vim aqui – a doutora parou de rir da gente, e falou, tivemos que ficar sérios – é bom que a família esteja reunida, Maria, como eu tenho quase certeza que você não sabe, darei a notícia em primeira mão.
— Notícia? Que notícia? Aconteceu alguma coisa doutora? – Maria, sempre curiosa, e dessa vez, preocupada.
— Calma, não é uma coisa ruim, é boa, muito boa por sinal. A família de vocês vai aumentar, meus parabéns, você está grávida, e o bebê não foi afetado em nada, está super saudável.
— Eu vou ser mãe de novo? – Ela arregalou os olhos.
— E eu pai?
— Parabéns ao casal! – Disse a doutora.
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~Maria~
Acho que esse foi o dia mais feliz da minha vida! Eu nunca imaginei que estivesse grávida, a melhor notícia do mundo, dada de uma forma engraçada. Eu fiquei feliz quando soube da minha primeira gravidez, mas era tudo de outra forma, agora não tinha nada o que esconder.
Fizemos a maior festa naquele hospital, a ponto da doutora ter que me dar alta logo pra sairmos de lá.
Nos instalamos naquela casinha pequenina do San Roman, Não tinha luxo nenhum, mas quem liga pra luxo quando se tem a melhor coisa do mundo do lado? Minha família, minha mãe, meus filhos, agora três, e o homem pelo qual eu me apaixono todos os dias. Fernando foi pro apartamento da Lívia, sabia, mais cedo ou mais tarde Lívia acabaria cedendo, minha amiga, virou minha cunhada, realizou o sonho dela.
Algumas semanas se passaram, e Cecília teve alta do hospital, e seria levada direto para prisão. Engraçado, eu não queria que ela fosse presa, mas eu não podia fazer nada, ela ia colher o que plantou, e no futuro, vai colher as coisas boas que plantou também.
Estêvão, Fernando e eu fomos até o hospital, fomos falar com ela antes que fosse levada para prisão, tia Fifi, ou melhor, minha mãe, preferiu ficar em casa, entendo que seja difícil pra ela ver a irmã, quem sabe um dia elas se acertem.
— Eh, chegou a minha hora, eu quero que saibam que eu estou arrependida dos meus erros, e espero que um dia me perdoem. – Ela estava de muletas, pois seu pé estava engessado.
— Mãe, nós vamos estar aqui esperando por você, leve o tempo que for. – Disse Fernando, acariciando seu rosto, seus olhos encheram de lágrimas.
— Ah Maria, soube que você está grávida novamente, meus parabéns, a vocês dois – olhou para Estêvão – vocês merecem serem felizes. E Estêvão, eu já assinei um documento, a empresa, os bens do seu pai são seus de novo.
— Eh... Obrigada Ciça, digo Cecília.
— Pode me chamar de Ciça, não ligo.
— Já está na hora, vamos? – Disse o policial.
— Cecília, vai soar meio repetitivo, mas eu não sei o que dizer, mas estaremos esperando por você, torcendo pro seu recomeço.
— Obrigada. Um dia ainda terei a confiança de vocês, mas peço mais uma vez, me perdoem.
Ela saiu mancando, com dois policiais ao seu lado, e sem olhar pra trás ela foi. Nós três ficamos olhando ela ir, até que ela virasse o corredor, e sumisse das nossas vistas. Tomara que o tempo passe logo, e que ela possa aproveitar essa oportunidade que a vida está dando a ela.
Continua…
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