Flores De Maio
8 Não Tive A Intenção... Nem Tentei Fugir
Não sou sempre flor. Às vezes
espinho me define tão melhor. Mas
só espeto o dedo de quem acha que
me tem nas mãos. – Clarisse
Lispector
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Seus olhos se perderam nos dela, ele estava hipnotizado, e nem se importava com as pessoas que o olhava, ele só queria... Olhar mais um pouquinho para ela. Ela também o olhava, mas com um ar curioso, talvez se perguntando por que ele a olhara tanto.
— Estêvão? Estêvão? – O advogado o tirou de sua hipnose.
— Sim! – Voltou os olhos para ele.
— Sente-se, vamos começar a leitura do testamento.
E assim Estêvão e Aninha fizeram. Eles não sabiam o porquê suas presenças ali, e nem mesmo os outros, mas com certeza estavam se corroendo de curiosidade, e outros de ódio.
— Bom – disse o advogado – vou começar a leitura, já que todos os interessados estão aqui. – Ele tosse, coçando a garganta, era a deixa para ele começar. – Eu, Enrico Goulart, me encontrando no meu perfeito juízo, livre de qualquer coação, deliberei esse meu testamento, como efetivamente o faço, sem constrangimento. Para Cecília, minha esposa (Cecília sorriu descaradamente) que compartilhou anos de sua vida comigo, não deixo nada! (logo desfez o sorriso o maldizendo). Para minha querida cunhada Josefina (sorriu emocionada) eu deixo as joias que estão em meu cofre forte, as joias que comprei para a mulher que um dia tanto amei, meu único e verdadeiro amor, e como ela não poderá mais recebê-las, não vejo pessoa melhor para possuí-las. Para Fernando e Sérgio, nada! Meus bens adquiridos serão dispostos a meu filho, meu único filho, Estêvão San Roman (surge um espanto na mesa, e um sorriso de canto em Maria). Ele ficará com a minha mansão, minhas casas de praia, iates e com a minha empresa. Como meu herdeiro comprovado, ele dará continuidade ao meu patrimônio. E por fim, para minha adorada Cris, como sei que você não se prende a bens materiais, eu deixo a estufa, que você tanto queria ( todos se espantam. Por que ela iria querer uma estufa?) eu assinei um documento, e agora a estufa é um local independente na mansão, que terá você como dona. Quero que você seja vice presidente da empresa e meu filho será o presidente, Cris, auxilie Estêvão no que ele precisar, porque tudo isso é novo para ele. Estêvão, confie em Maria, e faça o que ela achar certo... Ah, apesar da mansão ser de Estêvão e de minha neta Ana Lara, vocês poderão continuar vivendo nela. Caso Estêvão se recuse a receber meus bens, Cecília assume tudo por direito. É isso, desfrutem a minha morte. — Essas foram as últimas vontades de Enrico.
— Como assim? Isso não pode ser possível, Enrico não pode ter um filho! – Cecília entrou em desespero.
— Essa herança por direito é de Cecília, esse cara é um oportunista que quer se dar bem às custas de Enrico! – Se meteu Sérgio.
— Enrico escondeu um filho de nós esse tempo todo, isso só pode ser brincadeira! – Disse Fernando.
Um bando de gente desconhecida brigando por um dinheiro que... Era seu? Onde ele tinha se metido? Aliás, onde o meteram? Ele não podia ficar mais ali, estava se sentindo asfixiado com tanta raiva que aquelas pessoas transmitiam, quer dizer, todas não.
— Já chega! – Se pronunciou por fim, ficando de pé. – Eu não quero um centavo dessa herança! Quem esse cara pensa que é? Iludiu a minha mãe, e quando soube que ela estava grávida, meteu o pé na bunda dela, sem pensar que ela precisaria dele, e agora, depois da sua morte, quer pagar de bom moço, deixando seu dinheiro pra mim? Não, muito obrigado, eu não quero!
— Estêvão, você estaria abrindo mão de muito dinheiro, dinheiro que você não conseguiria nem se matando de trabalhar. Tem certeza do que tá fazendo? – Perguntou o advogado.
— Eu não faço questão, eu vou saber me virar muito bem sem ele, me virei até hoje! – Se virou para Aninha. – Vamos filha.
Ela o obedeceu sem protestos, mas, assim como ele, estava muito surpresa com o que acabara de acontecer.
— Maravilhoso! Esse favelado não poderia ter tomado decisão melhor! – Comemorou Cecília.
— Ah mãe – se levantou – você ainda tem coragem de dizer que ficou triste com a morte de Enrico? – Balançou a cabeça em sinal de negação. – Não sei como esperei algo diferente vindo de você! – Se retirou da sala.
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Ela saiu da sala para ir até a estufa, era uma boa forma de se acalmar, lembrar dele, e tentar digerir essa informação, quem poderia imaginar que Enrico teria um filho? O tal amor do passado o marcou mesmo. Mas o que será que houve para que eles se separassem? Com certeza Enrico jamais deixaria uma mulher grávida largada à sorte, ainda mais aquela que ele tanto amou. Enquanto caminhava, Maria pensava no que acabara de acontecer, e quando ia descer as escadas, se deparou com aquela criança mais fofa sentada lá no último degrau, e é claro, ela foi lhe fazer companhia.
— Oi. – Se sentou ao seu lado. – Tá aí uma coisa que eu não faço há séculos.
— O que? – A olhou.
— Sentar nos degraus da escada. – Riram uma para outra. – Eu me lembro do seu rostinho, foi você quem foi falar comigo lá no cemitério, não foi?
— Eh, eu me lembro. Engraçado né, eu consolando uma pessoa que chorava por causa da morte do meu avô.
— O mundo é mesmo pequeno. O que você está achando dessa história toda?
— Não sei. Não sei se penso como meu pai... Não sei o que dizer, eu não posso julgar o...
— Enrico.
— Isso, brigada! Eu não posso julgar o Enrico sem saber de verdade o que aconteceu, foi isso que meu pai me ensinou.
— Tô vendo que você é mais madura do que eu pensava. Eu não sei o que aconteceu, mas o Enrico não teria abandonado a mãe do seu pai a ver navios, não mesmo.
Maria e Aninha estavam se entendendo muito bem, a conversa das duas era bem interessante e madura também, talvez as circunstâncias da vida a fez se tornar madura precocemente. No meio da conversa, quando menos esperavam, surgiu uma voz as interrompendo, uma voz forte, firme... Atraente?
— Aninha, vamos. – Dizia enquanto descia a escada.
— Caramba pai – as duas se levantaram – demorou à beça!
— Eh, eu me perdi procurando o banheiro.
Estêvão agia de forma engraçada, pois enquanto falava com a filha, não tirava os olhos de Maria, e não se sentia encabulado por isso, e ela o encarou também.
— Chega de papo, não temos mais nada o que fazer aqui!
— Tudo bem. Tchau Maria! – Deu a mão a seu pai.
— Tchau Aninha.
Ela respondeu ainda olhando-o, mas a culpa não foi dela, ele não parava de olha-la. Finalmente ele se virou e os dois se foram. Ela sorriu com aquela situação, primeira vez que sorriu de verdade após a morte de Enrico. Nenhuma palavra foi trocada entre os dois, mas uma coisa estranha se formou dentro dela, ela desejava vê-los de novo, ela desejava vê-lo de novo, ele precisava assumir a herança que era sua por direito, sua mãe não podia de forma alguma se apossar dela, mas sim ele o deveria fazer. Será mesmo que esse era o único motivo pelo qual ela queria que ele voltasse?
— Bonitão ele, não? – Disse Fifi descendo a escada.
— Hãm!? – Se virou rapidamente.
— O... Como é mesmo o nome dele? Ah, Estêvão! Nome forte! Gostei dele, e pelo visto você também. – Parou ao seu lado.
— A senhora pirou né? Não tá falando coisa com coisa!
— Ele é charmoso, meio bronco, só está mal vestido, mas um banho de loja vai transforma-lo num desses galãs de novela.
— Eh, agora estou convicta que a senhora está maluca!
—Maria deixa de ser sonsa! – Maria arregalou os olhos. – Eu vi a forma que vocês se olharam.
— Eu não o olhei, ele que ficou me olhando o tempo todo. Aliás, ele deve ser um cafajeste, enquanto a esposa fazia sei lá o que, ele aqui me comendo com os olhos.
— Não tinha pensado nisso... A filha dele é linda né.
— Um amorzinho. – Elas sorriem.
O advogado se aproxima.
— Acho que já cumpri meu papel aqui hoje.
— O senhor precisa fazer ele mudar de ideia. – Pediu Maria.
— Não estou entendendo Maria, se sua mãe ficar com a herança, vai ser melhor pra todos aqui, ou não?
— Não se iluda com isso. Você tem que o convencer a isso.
— Vou tentar, mas não prometo.
— Que tentar, o senhor está incumbido de trazê-lo a esta casa!
— Tô achando que você sim é a filha do Enrico, e não Estêvão. – Os três riem. – Eu vou conversar com ele, e ver o que posso fazer, até mais.
— Tomara que ele consiga fazer esse pedaço de mau caminho, digo, o Estêvão, cair em si, senão... – As duas caminhavam até o sofá.
— Senão essa casa vai se transformar num verdadeiro inferno. – Se sentam. – Não sei se iria aguentar tia, se a minha mãe colocar as mãos nesse dinheiro, eu não ficaria aqui por muito temo, eu fugiria dessa casa. – Desabafou.
— Calma minha flor, tudo vai dar certo, e você não vai fugir, você nunca foge de nada, lembra disso?
As palavras de sua tia eram calmantes para ela, ela se sentia segura ouvindo-as, e mesmo com todo o problema cercando-a, se Josefina dizia que ia ficar tudo bem, certamente ia.
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Ele estava se sentindo tão, tão, tão confuso, que não poderia descrever seus sentimentos. Sentia um turbilhão de emoções, era raiva, frustração e infelizmente (para ele no momento) existia algo dentro dele que queria voltar naquela casa, era como se algum pertence muito valioso seu tivesse ficado lá.
Chegou em casa, e durante o longo caminho Aninha e ele não falaram nada. Ao entrar, se jogou em seu duro e querido sofá, e lá ficou, mas sentiu com uma leve sensação que estava sendo olhado, abriu seus olhos, e estava mesmo. Aninha estava parada o olhando com uma cara que não era das melhores.
— O que foi? Que cara é essa?
— É assim? Você não vai fazer mais nada, vai ficar nesse sofá, e daqui a pouco vai se fazer de coitado?
— Tá falando do que Aninha? – Se endireitou no sofá. – Eu não tô entendendo.
— Ah não Pai, a vida está sorrindo, sorrindo não, escancarando os dentes pra você, e você vai abrir mão, assim, sem mais nem menos?
— Eu não acredito que estou ouvindo isso da minha própria filha!
— Pai, presta atenção – gesticulou – você sempre diz que as coisas vão melhorar, você não acha que esse pode ser o começo?
— Minha mãe, sua vó, sofreu muito por causa desse cara, pra gora eu me enfiar na casa dele, e desfrutar da fortuna dele? Não, eu dispenso.
— Você não ouviu a versão dele, não sabe o que realmente houve, então não pode julgar ele. Caramba pai, acho que você se esqueceu de tudo que me disse!
— Eu não estou entendendo sua vontade de viver naquela casa.
— Sério? – Foi sarcástica. – Pai a nossa casa é do tamanho de ante sala daquela casa é gigantesca! É pedir demais um pouco de conforto? – Fez bico. – E essa casa só vai trazer pra gente lembranças da minha bisa.
— Tá Aninha, vamos mudar de assunto. – Ouviu batidas na porta. – Vai lá, abre a porta, deve ser a Babi. – Ela fez careta e foi.
— Oi. – Disse ao abrir a porta.
— Oi, o senhor San Roman está?
— Pai! – Grita.
Estêvão aparece na porta.
— Pronto pirralha, pode ir. – Disse Estêvão olhando para o engravatado.
Ela saiu.
— Eu me lembro do senhor, te vi na mansão.
— Sim, eu sou o advogado do Enrico, e vim para tentar fazê-lo voltar atrás.
— O senhor perdeu a viagem, eu não tô disposto a voltar atrás.
— Bom, eu vim porque Maria me pediu.
— Maria!?
— Sim, ela implorou para que eu viesse, ela quer que você assuma o que é seu!
— Mas ela pediu sem nenhum motivo especial?
— Interprete como quiser. Pensa bem, quem sabe assim você responde as perguntas que existe em sua mente a respeito do seu pai. Bom, eu já vou, espero que volte atrás.
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Dia seguinte.
Tudo voltara ao normal, quer dizer, agora estava um pouco pior que antes, já que, teoricamente, Cecília seria a mais nova bilionária da área. Maria já estava sem saco, e não queria ver escrito em sua cara ‘eu venci’. Ela chegava na sala e ouve algumas risadas, sabia que ia se arrepender, mas foi até lá.
— Posso saber o motivo de tanta alegria? Por que estão brindando?
— Estamos ricos amor! – Disse Sérgio.
— Estamos? – Franziu a testa.
— Vem brindar com a gente Maria! – Chamou-a Fernando tomando um gole de champanhe.
— Vem filha, vamos brindar a nossa fortuna! Esse favelado tornou minha vida maravilhosa! – Ria. – Enrico se deu mal ao pensar que ia conseguir me atingir! – Gargalhava.
— Vocês me dão nojo! – Balançou a cabeça de um lado para o outro.
Seu sangue ferveu, queria xingar aqueles três vermes, mas segurou a onda, manteve a finesse e se retirou, mas ao se virar, tropeçou, seu lado desastrada estava vindo à tona, mas não caiu, pois alguém com braços muito fortes a segurou.
— É melhor você olhar por onde anda, se eu não estivesse aqui, você teria caído. – Estêvão estava com Maria nos braços, olhando-a nos olhos, com respiração ofegante.
— Obrigada! – Ela disse sem jeito, saindo de seus braços.
— O que você está fazendo aqui? – Perguntou Cecília nervosa.
— Ué, essa casa não é minha?
Continua...
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