Floresça-me
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Silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio
silêncio
Já ouvi sons apavorantes nessa vida. Sons altos e baixos. Sons horríveis e bons. O barulho da chuva. O barulho do disparo de uma arma. O som de um beijo. O som da morte.
Mas nenhum som é tão alto ou aterrorizante quanto o som do silêncio. Seu grito é tão agonizante que penetra meus ouvidos, passa pelo meu coração e invade minha alma, tornando-a temerosa, fazendo-a desejar qualquer som que seja.
Mas só há silêncio.
Aaron ainda está ajoelhado. Seu corpo está aqui. Sua mente não. Seus olhos estão fechados, assim como sua boca, em uma fina e tênue linha. Seus ombros estão tensos. Suas mãos estão jogadas de lado, em punhos. Ele está imóvel. Se fosse em outra situação, eu poderia achar que ele está meditando.
Mal consigo ouvir sua respiração.
Tenho medo de Aaron não querer um filho. Esse medo supera qualquer outro, Kenji. O que farei se ele não quiser o bebê?
O que farei se ele não quiser o bebê?
Ele não quer o bebê. Eu sabia.
Não preciso nem ter o dom de Aaron para ver as emoções dele. Ele não gostou.
Ele não quer o bebê. O nosso bebê.
Preciso sair daqui.
Levanto-me e desvio de Aaron, saindo do banheiro. Sento na cama para pôr o tênis. Enquanto amarro o cadarço, parece que meu pescoço está entre eles e que estou me enforcando, que minha vida está se esvaindo. O ar me falta, assim como qualquer pensamento racional. As lágrimas já começaram a escorrer, fazendo uma trilha por minhas bochechas, meu pescoço.
Não, não estou me enforcando. Pois isso, esse momento, é pior que a morte.
Venha brincar comigo, mamãe.
Meu filho. Meu doce filho.
Choro tanto que mal vejo as minhas mãos, mal as vejo alcançando a chave do tanque, mal vejo que estas lágrimas são lágrimas derramadas por duas pessoas. Por mim e por meu filho.
Quando chego na porta, ouço os passos firmes de Aaron. Ele diz — Aonde você pensa que vai, Juliette? — ele parece nervoso.
– Não acho que isso importa para você, comandante. — Respondo secamente.
– Você não vai a lugar nenhum, amor. Não até que resolvamos isso. — Ele fala.
– E o que você quer que eu faça, Warner? — grito, ainda chorando. — Quer que eu fique aqui, com você? Depois disso?
Ele olha para mim. Seu rosto não expressa muita coisa, pois todas as emoções estão embaralhadas em sua feição, todas ao mesmo tempo. Emoções que não posso ler. Emoções que não quero ler.
– Você quer saber o que eu quero? — Ele pergunta, sem esperar uma resposta — Quero que você sente e espere. Só isso, Juliette.
– Esperar? Para quê esperar?
– Vou procurar alguns remédios para você — responde, respirando fundo.
– Remédios? — pergunto, confusa.
– Sim, amor. Para a gravidez.
Remédios. Para a gravidez.
Remédios.
Ele quer que eu
não, ele não quer que eu
Nem posso dizer a palavra. Nem posso pensar nessa palavra.
Vejo vermelho. Meus pulmões foram levados para algum lugar e só sei que gostaria de estar lá com eles, pois não quero ficar aqui. Não com ele. Não consigo nem olhar para ele.
– Você quer que eu... aborte?! — pergunto, aos gritos. — Que tipo de monstro você é?
Aaron olha para mim, seus olhos confusos encarando os meus. — Juliette, eu não...
– Não quero saber, Aaron! Eu só não... não posso acreditar nisso! — grito — Nunca esperaria isso de você. Nunca. Jamais. Será que seu pai deturpou tanto a sua visão que você é capaz de matar seu próprio filho?
Ele apenas me observa. Seu maxilar está tenso, seus olhos estão brilhando.
Abro a porta. Não vou mais ficar neste lugar.
– Você não terá um filho, Juliette. Não agora, pelo menos.
Olho para ele.
Aí está. Aí está o homem, o garoto, que achei que Aaron, que Warner fosse assim que o vi pela primeira vez.
– Você não terá um filho agora. Será uma menina. Uma filha. E ela será igual a mim, se você quer saber. Cabelos loiros e olhos verdes. Dará muito trabalho com os garotos quando for mais velha — diz ele, olhando para cima — mas valerá a pena. Talvez Kishimoto me ajude a mantê-los longe dela.
Uma filha.
Do que ele está falando?
– Você precisará de remédios. Medicamentos. Um polivitamínico. Ácido fólico. Sulfato ferroso. Seria bom passar com um médico. Talvez as gêmeas saibam mais do assunto. Quero minha garota saudável, e você também. — ele diz, com um sorriso no rosto, seu olhar sonhador.
Ele não quer que eu aborte.
Ele não quer que eu aborte.
Então isso quer dizer que
– Sim, amor. Eu quero esta criança. Eu desejo real e verdadeiramente a bebê. Nossa filha.
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