Flor de Lótus
1 Prólogo "O preço do heroísmo"
Notas iniciais
Prólogo “O preço do heroísmo”
O amarelo desfraldado das flâmulas sobre as hastes inimigas despedia-se como um ponto colorido no horizonte tão sem vida quanto os corpos que jaziam no terreno avermelhado. Uma vasta faixa de terra era o que recobria o campo de batalha até onde os olhos podiam ver e o assobio do vento trazia uma cortina de poeira que envolvia os corpos empilhados dos que se colocaram ao desagrado do impiedoso imperador.
Os corajosos; aqueles que pagaram o preço do heroísmo.
O luzir do vermelho escarlate no sublime símbolo das longínquas bandeiras, inflamava a humilhação da derrota nos frágeis corações que insistiam em continuar batendo.
E se batiam, era somente pela hipócrita compaixão do soberano da impetuosa Lótus Vermelha.
A Lótus sangrenta, alvo do ódio daqueles que pereciam ante sua supremacia. Alvo do ódio que vinha do âmago de sua alma. E do último vislumbre de vida daqueles que partiam.
A nefasta flor que era tão vermelha e cruel quanto o sangue que manchava as faces pálidas dos que outrora buscaram lutar contra a tirania do Filho do Céu [1] e fracassaram.
Destitui-lo de seu reinado de terror. Foi essa a sina que os impeliu a irromper pelo deserto, e em lamentável desgraça, os levou à irrevogável ruína.
Os soldados sucumbiram às falácias em torno dos invictos militares imperiais que, sem piedade ou misericórdia, pisotearam seus corpos inertes para, logo após, buscarem pela próxima vítima de suas lâminas imperiosas. Agraciados por um artefato que foi presente dos deuses, eram ditos invencíveis e fizeram jus à alcunha ao devastarem tudo o que encontraram pelo caminho. O sangue derramado aos seus pés coloria o brasão da maldita Lótus; a predileta dos deuses.
O crocitar dos corvos rasgava o ar ao trazer a sinfonia dos momentos finais de olhos ainda relutantes a se fecharem. Havia poucos soldados com um alento de vida, mas seus nomes não seriam lembrados pela desistência. Se entregar nunca foi e nem seria uma opção.
Os dedos manchados apertaram a areia com os últimos resquícios de força restante e enquanto o esplendor do firmamento era encoberto pela tempestade castanha que tomou o ar, uma promessa muda de vingança foi feita no vasto silêncio.
Vingança esta que já havia começado, ainda que lenta e sutil, depositada nos tolos que certamente não desconfiariam dos seus logo após mais uma vitória para o trono invicto.
Mas a Lótus Vermelha cairia e findaria seu reinado entre tragédia e desonra, ainda mais desgraçada que aqueles os quais pisoteavam.
Seu alvo era a tão falada flor dos deuses.
E ele se certificaria pessoalmente de arrancar cada uma daquelas pétalas com as próprias mãos.
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