Flor de Lótus
2 Capítulo I ✽ “A Flor e o Dragão”
Notas iniciais
Capítulo I ✽ “A Flor e o Dragão”
“Nunca se saberá ao certo onde surgiu a lenda da Flor e o Dragão. Alguns dizem ter visto com os olhos que há muito foram cobertos de terra, a própria criatura majestosa voar pelo céu em busca do que há tempos lhe foi tirado. Outros alegam que tudo não passa de um mero conto de ninar.
Comecemos com há muito tempo atrás…
Certa vez, cansado de voar pelo mundo e trovejar os céus azuis com todo o poder que emanava de sua imperiosa figura, um velho dragão avistou em meio ao lodo a mais pura de todas as flores.
Ela nascia majestosa em meio ao lodo, levantando-se junto ao sol e mantendo consigo toda a pureza pálida que lhe era característica. Despedia-se ao anoitecer e surgia imaculada no dia seguinte.
Nada tão intrigante jamais havia passado pelos olhos do dragão que, poderoso como apenas ele seria nos céus, de tudo já julgava ter visto. O amanhecer lhe prestava reverência e a noite temia seu rugido antes de cair. O sol deixaria o dia nublado caso fosse sua vontade e a lua deixaria de brilhar com uma ordem sua.
A flor, no entanto, nunca deixara de desabrochar com o dia e recolher-se em suas pétalas à noite, não importando o que o dragão ordenasse.
Até que a ela, a poderosa besta curvou-se, deitando o grandioso corpo sobre a montanha mais próxima e pondo-se a observar as delicadas pétalas de sublime candura, recusando-se a dormir e comer por noites adentro.
O dragão, da flor tornou-se guardião.
O sono, no entanto, chega para todos, para ele também chegou e dias, semanas, acordado vieram cobrar seu preço.
A história de uma única flor guardada por um poderoso dragão havia se espalhado pelos homens e deuses e de nada mais se falava. O dragão deitado em uma montanha, agora ressonava, mas a flor continuava a sumir de noite e nascer de dia.
Foi dito então: Aquele bravo o bastante para roubar do dragão a flor de lótus que ele tanto venerava, todo o mundo um dia haveria de governar.
Ninguém jamais ousaria protagonizar tamanha aventura, mas, no dia em que o dragão abriu os olhos dourados, junto ao erguer do sol, a flor não destacava-se mais em meio ao lodo, como em todo o amanhecer.”
Enfurecida, a fera destruiu cada vilarejo e reino por onde passava, procurando a flor que, com tanta vilania, lhe havia sido tirada.
Até hoje dizem que, quando se ouve um trovão, significa que aquele mesmo dragão está passando em toda a sua fúria, riscando o azul dos céus e o firmamento da terra em sua eterna busca pela lótus roubada.
✽ • ✽
Sobre a relva fria e úmida de orvalho, deitou-se de costas para apreciar os tons que riscavam o céu de um novo amanhecer. Os cabelos espalharam-se em mechas macias e pretas feito nanquim, a pele assim como as vestes, destacaram-se alvas em todo o verde e imponência do jardim imperial. Os dedos longos seguravam um pequeno objeto esculpido em sancai [1] com todo o sentimento que se permitia guardar pelo singelo artefato que considerava como um tesouro.
Como um amante do amanhecer em todo o seu ardor, levantava-se muito cedo para contemplar o momento em que os tons avermelhados do sol nascente, coloriam o escuro dos céus e traziam luz a mais um dia. Os jardins eram seu refúgio, lhe traziam paz e tranquilidade.
Os sons das águas escuras do lago, o aroma doce dos pessegueiros e ameixeiras, os peixes dourados e as flores de lótus que estendiam-se feito um tapete por grande parte da superfície do lago. As vezes, ia para lá e ficava sob um dos pavilhões, apreciando a chuva que caía nas folhas largas das bananeiras ou aproveitando o agradável silêncio para ler um poema ou pintar um quadro. Era uma paisagem inspiradora com suas rochas brancas e as pontes de pedras pitorescas que ligavam uma ala a outra. Ele também gostava de ouvir o vento assobiar pelos talos de bambu.
Mas gostava, principalmente, da paz que a natureza em Zijin Cheng [2] trazia.
Eram poucos os momentos em que se encontrava só e perdido em pensamentos. Era raro se permitir pensar em assuntos que não diziam respeito ao reino e que remetiam a uma época onde correr pelo palácio era uma de suas atividades favoritas, assim como os encontros sob os pessegueiros e as conversas despretensiosas nos bancos de madeira verde.
Desde muito cedo, ele sabia da importância de suas responsabilidades para com o reino. Havia nascido como aquele que daria as vitórias nas batalhas contra qualquer bandeira que ousasse enfrentá-los. Era tido como aquele que se comunicava com os deuses e suas palavras muitas vezes, soavam como ordens, tal qual o próprio Imperador. Foi como a lótus que nasceu em meio ao caos e trouxe beleza e paz ao império, recebendo a alcunha tão famosa para além dos muros que cercavam o palácio. Era a flor a qual o rei tanto se gabava e aquela que os inimigos se matavam para descobrir sua origem.
Um suspiro baixinho foi deixado quando a manhã finalmente cobriu os céus e trouxe o afetuoso calor do sol. Devia voltar e iniciar as tarefas antes que algum dos eunucos fosse buscá-lo.
Com os pensamentos frescos em memórias infantis, não percebeu quando alguém se aproximou, mas ergueu-se ao ter a ideia de entrar no lago e refrescar-se antes de retornar aos aposentos. Seria rápido e dessa vez não deixaria ninguém de cabelos brancos antes do tempo. O corpo se esticou em um espreguiçar muito semelhante a um felino e então, o pequeno objeto caiu e envolveu-se com o verde do gramado. Desesperou-se quando não o encontrou com o olhar e voltou a se abaixar para procurá-lo, notando então a presença até pouco ignorada.
“Ajude-me a procurar!” Falou sem sequer erguer o rosto para visualizar o estranho no jardim. Provavelmente era apenas um dos servos ou um guarda enviado para sua proteção. “É importante.”
Os dedos tatearam o chão, sujando-os de terra assim como o tecido do zhiduo [3] branco. De joelhos na relva e com a expressão preocupada, estava longe do que os moradores do palácio conheciam. Cabelos soltos e livres do ji [4] em ouro, caindo pelos ombros e costas, a falta de ornamentos e a majestade momentaneamente esquecida pela chateação de perder algo que era tão importante e que fazia parte de uma época doce como o aroma das árvores de pequenas flores arroxeadas.
Quando o estranho aproximou-se, parecendo receoso para ajudá-lo, sentiu a nostalgia atingi-lo como a chuva fria que costumava observar no momento em que as mãos se tocaram à procura do delicado objeto. Os olhos verdes como duas jades, ergueram-se lentos e ganharam toques de surpresa ao abrirem-se mais que o normal. As sobrancelhas grossas se elevaram e os lábios rosados se entreabriram com a pressão que o peito recebeu.
Tão importante quanto a escultura perdida, era o homem que, assim como ele, também estava surpreso com o reencontro.
Era fato que estavam ambos mais velhos, mas o reconheceria mesmo com um véu no rosto. Mesmo depois de dez anos e com toda a mágoa que ainda sentia pelo afastamento, mesmo com a distinção das famílias e proibições, não evitou sorrir. Um sorriso genuíno que fez os olhos puxados se estreitarem e o verde das íris tão incomuns, cintilar em umidade.
“Wei...” Murmurou o primeiro nome de modo que remetia a infância de ambos. Queria abraçá-lo, ofendê-lo por tê-lo deixado e pular sobre ele como fazia quando eram garotos, mas conteve-se ao rememorar o quanto não era apropriado qualquer gesto expansivo vindo de sua parte.
Ele estava mais alto do que poderia se lembrar, com a pele aquecida pelo dourado do sol, uma parte dos cabelos comportados em um coque e o restante dos fios caindo soltos pelos ombros. Os olhos amendoados continuavam vivazes como outrora foram e uma escura barba contornava o maxilar agora bem marcado.
Sentiu-se um tanto invejoso por não ter sequer um pelo no rosto, mas acreditava que não ficaria tão bem de barba quanto o amigo de infância. Lembrava-se que tudo ficava bem em Long Wei.
Até mesmo a solidão, por mais cruel que pudesse soar, lhe caía bem.
A solidão que, inicialmente, foi o que os uniu.
Não passavam de duas crianças sob extensas expectativas de suas respectivas famílias, a mente infantil que ignorava sua vocação imposta pelos deuses e a mente infantil que ignorava as inúmeras proibições e regras para se aventurar nos jardins restritos e ir observar a beleza exuberante que se resumia às flores de lótus que reinavam no lago.
Dois corações que buscavam pela paz e calma que suas vidas turbulentas não permitiam. Dois corações que aprenderam a reconhecer a presença um do outro.
Algo surpreendente para dois garotinhos, mas nada era surpreendente para Liánhuā [5] e um garoto qualquer que, todas as tardes, dava um jeito de aparecer ali, naquele mesmo lugar. Vestes sujas de grama e tão descomposto quanto um filhote selvagem, uma perfeita e fascinante confusão aos olhos do quarto príncipe, do Presente dos Deuses…
"Shun Hai."
Eram os olhos.
A cor da sagrada jade que se fundia às duas íris cintilantes que eram seu fascínio desde que podia se lembrar.
Tão incomuns, tão bonitas.
Após a dura separação na infância, tudo fazia com que se lembrasse daqueles olhos.
A grama molhada pelo orvalho quando o sol tocava o chão ao nascer, as folhas verdes nas árvores, até mesmo alguns alimentos e especiárias.
Ao menos não o chamaria de estranho, não daquela vez.
A nostalgia e a memória infante trouxeram seus pensamentos ao presente tão logo alcançaram o motivo de apenas terem se reencontrado tantos anos depois. Quando um menino, quase um rapaz, foi acusado de tentar levar desonra à família e mandado para o exército.
Quando a flor dos deuses lhe escapou pelos dedos, levando consigo suas pétalas e a alegria que enchia seu peito sempre que se encontravam naquele lago para serem os meninos que não podiam ser.
Longe de títulos e obrigações, podendo correr, nadar como peixes, subir nas árvores e comerem pêssegos e amoras sob alguma árvore no fim de um jubiloso dia.
A flor que povoava seus pensamentos nas feições de um garotinho de olhos estranhos e sensível a ponto de chorar pela morte de um pássaro. De cabelos negros e a pele pálida, de um sorriso tão grande que chegava aos olhos e lhe fazia sorrir também.
E foi diante desse garotinho que se curvou suplicando perdão dez anos atrás, quando o menino voltou com os braços e pernas feridos após cair de uma das árvores. Também agora, era diante desse garotinho que se curvava.
Todavia, jamais seus olhos agora sustentariam o olhar verde sem se deitarem no chão com o mais inexorável respeito e de seus lábios não sairiam mais palavras desajeitadas de uma criança maravilhada.
"Liánhuā." Suas mãos jamais o alcançariam novamente.
Mas isso não o incomodava, não mais.
Como um militar de alta patente, o huīxià [6] Long Wei, estaria satisfeito enquanto suas mãos pudessem alcançar qualquer mal que tentasse tocá-lo.
Shun Hai, no entanto, vacilou.
A forma de tratamento era comum quando vinda de qualquer morador da Cidade Proibida, mas ouvi-la naquela voz e justamente do único que antes o tratava como um igual, o fez esmorecer por breves momentos. Não era como se, no entanto, pudesse esperar por modos descompromissados vindos do general dos exércitos, o único a responder diretamente ao Imperador e apenas a ele. Havia reconhecido a patente pelas vestes do amigo e embora tivesse esmorecido um pouco, sentia-se feliz por ele.
Os olhos observaram o corpo curvado em respeito e desviaram-se exatamente para o ponto em que o objeto havia caído. Dez anos mudavam muitas coisas.
“Eu estava...” Começou ao mover os dedos pelos contornos da tartaruga moldada na louça. “Pensando em como tudo era mais simples e em como esse jardim parecia uma selva quando éramos pequenos.” Buscou iniciar algum assunto, temendo que alguém os interrompesse naquele reencontro. Queria perguntar tantas coisas, mas sabia seu lugar e demonstrou o menos possível o quanto ainda estava afetado e levemente magoado.
Levemente, não. Talvez também um pouco indignado pela lembrança ser impossível de ser vivida uma vez mais.
Ali era mesmo uma selva repleta de magia, com dragões e bruxas contra quem lutavam em suas imaginações férteis. Long Wei costumava ser um garoto indefeso e ser salvo pelo bravo príncipe enviado pelos deuses, isso quando não reclamava dos dragões, amedrontado com as histórias fantasiosas a respeito das imponentes criaturas.
Foi naquela selva que, na intenção de mostrar o quanto era bom em entalhar figuras na madeira, tentou esculpir aquela tartaruga e falhou miseravelmente.
E ele ainda a guardava…
Agora, Wei tinha uma jian [7] segura na cintura e a armadura servindo de ornamento para o corpo alto e forte, duvidava que ele ainda temesse um dragão ou qualquer coisa parecida. Parecia fazer jus ao nome, na verdade, tão forte e imponente como apenas um Long [8] seria.
"É uma honra sem igual que ainda se lembre de seu servo após tantos anos..." Ele gostaria que fossem menos anos.
Tão perto e tão longe um do outro eles estavam. Um erguer de mão traria um toque, um erguer de olhos traria o paraíso. Ambos proibidos pela flor que estampava as bandeiras douradas.
“Foi o meu melhor amigo.”
A voz baixa foi acompanhada de um sorriso ao fim da fala, um sorriso menor e que logo se desvaneceu.
“Eu nunca o esqueci.” As maçãs do rosto ganharam um tom tímido e rosado. Não era propriamente um assunto que deveria ter com um militar, mas quem o puniria por falar com um amigo e por estar realmente saudoso de tê-lo por perto? “E você? Estou certo que teve muito com o que se preocupar.”
Talvez pelo teor leve do assunto, o general se permitiu erguer-se e a altura sobrepôs o jovem príncipe em vários centímetros. Os cabelos longos e negros que voavam sedosos com a mais simples brisa que os tocavam. Os olhos castanhos de Long Wei invejaram a folha que se prendeu nos fios de anoitecer.
Foi sem pensar que apanhou a planta intrusa.
“Como poderia esquecer?” Dos olhos, do sorriso. “Deu-me motivação e forças em todas as batalhas que encontrei no caminho.” Agora sabia do motivo de suas muitas vitórias.
A própria Liànhuā olhava por si.
A flor que nascia em meio ao lodo, era o símbolo do reino e da crença das muitas vitórias sobre os inimigos, mas, novamente, ouvir o huīxià falar como todos ao seu redor, trouxe ao olhar seu descontentamento. Não desejava que ele o tratasse como os outros, queria seu amigo de volta.
“É bom saber que mesmo longe eu o ajudei.” Replicou, virando o rosto e se erguendo de vez. Costumava derrubá-lo no chão em dias passados, algo que jamais poderia voltar a fazer. “E a sua família? Esposa e filhos…?” Não que quisesse ser invasivo, mas a curiosidade o alertava para aquele detalhe. Tanto tempo sem notícias e vivendo somente de memórias que não sabia como estava a vida do general agora.
Aquela conversa despretensiosa seria considerada desrespeitosa por quem os visse
Certamente que não.
O general dragão era respeitado por seus feitos e pelas honrarias que trazia ao nome da família. Provavelmente pensariam que estavam a tratar de política ou algo do tipo, não de lembranças antigas e infantis.
"Sou viúvo, alteza. Uma infeliz tragédia levou minha esposa e o filho que ela trazia no ventre." Uma tragédia que tinha nome e sobrenome e morava fora dos muros, mas não mancharia aquele dia bonito com o sangue do passado doloroso. "Mas não poderia lhe perguntar o mesmo..." Acabou sorrindo, mas logo se atrapalhou. "Digo, não deveria, devido às vossas obrigações e..." Um assunto delicado para o reencontro. Long Wei certamente não possuía o dom da palavra. "É um belo dia, não acha?"
Os olhos verdes piscaram algumas vezes na falta de palavras. Acabava de descobrir que o amigo de infância perdera a esposa e o filho, algo que o deixou abalado e com vontade de confortá-lo, mas a fala seguinte o deixou muito próximo do garotinho que sempre sorria com as conversas e brincadeiras de infância.
“É um belo reencontro também.” Sorriu como uma criança sapeca ao levar as mãos para trás das costas e enlaçar os dedos. “Estou feliz em revê-lo, Lóng nánhái [9].” De fato não o via como um menino, mas a lembrança pareceu mais forte ao vê-lo atrapalhado e tropeçando nas palavras.
Um sorriso acabou por também nascer no rosto do general que continuava a evitar as jades que buscavam insistentes por seus olhos, não sendo digno de contemplar o paraíso que era refletido dentro de todo o verde. Um mero mortal.
"É mais que uma dádiva revê-lo, Liànhuā." Evitou fazer outra reverência, tendo em vista as feições que sempre se torciam em desagrado quando era tratado com formalidades. Ele não tinha mudado.
O dragão havia finalmente voltado para sua flor.
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