Flor de Lótus
5 Capítulo IV ✽ "Algo de muito errado"
Notas iniciais
Capítulo IV ✽ "Algo de muito errado"
O general jamais poderia deixar o palácio.
Essa era a primeira regra.
Haviam dois guardas em vestes vermelhas e dois em vestes azuis, um par de cada lado do huīxià, cuidando de sua proteção. Dois ministros também faziam companhia aos cinco militares, sempre sérios, observadores e de posturas defensivas. A eles, no entanto, não era permitido atravessarem o rio. Cavalos e carroças também estavam dispostos no campo de batalha e canhões foram colocados à frente dos cavalos naquele diligente início. Cinco soldados prostravam-se logo atrás do rio, esperando para atacarem os inimigos igualmente organizados.
O tabuleiro de xiàngq [1] estava devidamente pronto sobre a qí zhuō [2]. Como sempre, havia chá e jogos em um encontro nos aposentos do herdeiro do trono. Shun Hai gostava daquelas pequenas reuniões e principalmente das conversas com o príncipe coroado. Era em Shun Fēi que depositava a maior parte de sua confiança.
O lǜ chá [3] estava quase frio dentro das louças ricamente desenhadas. Era uma conversa séria disfarçada de jogo e tinham uma presença ilustre cuidando de suas preciosas vidas, como o próprio imperador havia designado.
"Vou capturar o general, gege." Hai ameaçou ao avançar com o canhão pelo tabuleiro. Ainda faltavam algumas peças antes do fim, mas a implicância não era somente com a peça do xadrez.
A sobrancelha erguida de Shun Fēi veio seguida de um olhar de soslaio ao general — o general de carne e osso — que se colocava como uma muralha perto dali, mas distante o bastante para que pudesse fornecer privacidade aos seus protegidos.
"Imagino que vá mesmo capturar o general, Hai." Sábio, Fēi acabou por apanhar sua ameaça desatenta com um soldado estrategicamente posicionado. "Mas não o meu general." Talvez ele tivesse mais sorte na próxima. Shun Hai era um oponente à altura quando o assunto era estratégia e esperteza. "Vai acabar desmaiando nosso guerreiro com esse seu olhar insistente." Obviamente, não podia deixar de alfinetar.
O huīxià era um homem sério e centrado, mas se tornava um menino sem lugar quando Hai impunha aquelas duas jades sobre o pobre homem. Por vezes, Shun Fēi se perguntava se ele sabia mais do que os trejeitos inocentes davam a entender.
Como uma criança pega em flagrante por ter feito alguma travessura, o mais jovem naquele quarto se aprumou e buscou por um gole do chá-verde, bebendo de maneira elegante e menos nervosa do que a aceleração no peito.
"Eu não estou... Não estava encarando." Moveu outra peça ao virar o rosto levemente corado para o lado. "E de qualquer modo, somos amigos." Os dedos torceram o tecido delicado das vestes azuis quando se debruçou e colocou uma das mãos para cobrir a lateral do rosto ao sussurrar: "Ainda estou com saudades." E tudo bem admitir ao irmão.
Mas ele não precisava dizer.
Da mesma maneira que tinha o costume de monitorar as escapadas do terceiro príncipe em certas época do ano, Fēi sabia que Shun Hai jamais havia sido o mesmo após perder o único amigo, ainda na infância. Pelo que pôde observar, nem mesmo a frágil memória infantil pôde suplantar a amizade fortalecida logo na tenra idade.
Algo tão bonito que fazia com que o herdeiro se lembrasse que Liánhuā era ainda uma criança. Com mais responsabilidades e deveres que qualquer outra, mas com as mesmas necessidades.
"Tenho certeza de que o sentimento saudoso é recíproco, irmão caçula." Os olhos não deixavam o tabuleiro e o chá do herdeiro não era bebericado. Ele não havia apreciado o sabor. "Não quero destruir o clima ameno, mas... Gostaria de saber o que pensa sobre a repentina preocupação de Tiānzı." Mais um assunto que não aceitava procrastinação.
Sentia, naquele momento, o que diziam ser a calmaria antes da tempestade.
A postura de Shun Hai novamente mudou. A expressão tornou-se séria enquanto o jogo ainda seguia.
"Penso que o Imperador suspeita de algo que não irá nos contar." Havia pensado muito sobre a atitude imperial no dia anterior. "Talvez não queira alarde ou é simplesmente algo ainda turvo e ele não se arriscaria a perder um de nós." Novamente bebeu do chá. "Zijin Cheng é uma fortaleza, não existem preocupações assim há anos."
"É um jeito de se encarar os fatos." Fēi acabou concordando e o dedo acariciou a peça de outro soldado solitário. Gostava daquelas peças mais simples, eram elas que faziam a diferença. "Mas algo me intriga ainda mais que as decisões recentes de nosso pai." Talvez fosse Long Wei, mesmo, o melhor indicado para aquela vigilância. Qualquer outro, não lhes permitiria sequer aquela frágil privacidade. "Acredito que Yuè também tenha percebido, por isso sugeriu que logo o huīxià lhe servisse de sombra."
"Eu o achei tão inconveniente."
O murmúrio veio levemente ressentido e Hai moveu um cavalo vermelho.
"Sei que nosso irmão também se preocupa, mas fora aquela cena na galeria com o imperador, Yuè não deu indícios de saber sobre nenhuma possível trama." Talvez só estivessem confabulando, mas a atitude dos familiares era tão estranha em relação a falta de acontecimentos pelo reino. "Temos um mistério em mãos."
"Yuè não fez por mal." Shun Fēi achou por bem não entrar em detalhes sobre suas suspeitas. Não enquanto não podia afirmar nada. Dito isso, acabou sorrindo ao reconhecer o brilho de animação nos olhos verdes que eram duas jades. "E quem melhor que a Flor Imperial para desvendar os mistérios que nos cercam?" Afinal, era o principal dever de Shun Hai.
Zelar pela segurança e bem-estar de todo o império e garantir que tudo corra bem em todos os aspectos importantes. Proporcionar conforto, segurança e — principalmente — vitórias nas batalhas infundadas que travavam.
Um fardo demasiado pesado para se carregar sozinho.
"Farei isso depois de vencer esse jogo." A presunção tomando conta do sorriso quase infantil quando capturou mais uma das peças do irmão. Ainda faltavam algumas jogadas até o vencedor se mostrar.
✽ • ✽
Era ali que Fēi estava quando foi abordado por um mensageiro da corte; dando de comer às carpas douradas.
Abaixo do portão meridional, rodeado pelo Rio Interior de Água Dourada, se estendia o Pátio Externo e harmonioso, tendo suas cinco pontes logo na entrada. Atrás, se erguia o Palácio da Suprema Harmonia e com todo seu resplendor cuja estrutura costumava receber horas de admiração e comentários tediosos por parte de Hai e Yuè.
Era sorte eles não estarem ali, ou teria que parar a cavalgada para ouvir novamente quantos homens haviam sido necessários para erguer não só aquela, mas as muitas outras edificações. E não podia se esquecer do quanto Yuè gostava de frisar o fato de um par de mestres obreiros terem sido decapitados ao não conseguirem deixar as construções idênticas às dos sonhos de um antigo imperador.
Isso se seguia do irmão mais velho palestrando sobre como ele, Fēi, como futuro imperador deveria ter o mesmo pulso firme e mais uma discussão entre Yuè e Hai, visto que o irmão sempre ficava horrorizado com ideias radicais ao extremo. Não era segredo para ninguém que Liánhuā não concordava com os castigos aplicados a infratores dentro da cidade proibida. Tão doce e tão bom seu irmãozinho era...
Shun Fēi gostaria de manter os aspectos pouco atraentes da vida sempre longe daqueles olhos verdes que guardavam a pureza do mundo em íris curiosas.
Tudo bem... Gostava de evitar pensar em assuntos desagradáveis quando estava de bom humor e o pôr do sol era uma visão bonita demais para ser desperdiçada com lamentações de algo que ainda podia adiar.
Deuses quisessem que sua coroação fosse o mais tardia possível. Não se considerava preparado para passar dias isolado numa cadeira de ouro na presença de dragões entalhados em todos os lados.
Dragões só eram interessantes quando podia implicar com o irmão caçula sobre seu antigo e renovado interesse no general que, pelo que se lembrava, era descendente do antigo imperador.
Não estava preparado, sobremaneira, para abrir mão dos passeios com os irmãos. O curioso Hai, o sereno Sying e o primogênito falastrão, Yuè. Não era o usual que os príncipes fossem tão próximos mas, sendo três deles filhos da Imperatriz, ela havia feito questão de unir os garotos desde a tenra idade, com o amor maternal de quem não suportaria ver as crianças que carregou no ventre dispostas a matar umas às outras pelo domínio de um império.
Obviamente, tal amor de mãe se estendia apenas aos três filhos, deixando o primogênito excluído das atividades inventadas pela monarca e uma pesada culpa pesando o ombro dos outros três. Como quando foi nomeado Príncipe Herdeiro e...
Yuè não havia aceitado muito bem, embora tivesse voltado a se unir a eles depois de semanas em reclusão.
As estrelas eram pontilhados brilhantes no céu quando se deu conta do rumo de suas divagações e quis se jogar do cavalo que o levava ao segundo mais importante encontro do dia.
"Sou mesmo um tolo, não é?" Perguntou à égua branca que o guiava ao encontro da mãe.
Bái Fūrén [4] era sua companheira de anos e mais fiel confidente, isso em grande parte se devendo ao fato de que duvidava que ela fosse contar a alguém sobre o que revelava a ela. Mesmo que dissesse contar tudo à Hai, com quem tinha maior afinidade, haviam coisas com as quais apenas o herdeiro deveria de preocupar.
O lado sombrio de Zijin Cheng, afinal, não se parecia com aquele início de noite cheio de estrelas e sonhos.
O Jardim Imperial entrou em seu campo de visão em todo seu esplendor e, novamente pensou em como Shun Hai gostava de visitar aquele lugar. Fēi, por outro lado, se interessava mais pelas concubinas espalhadas por todo o canto que pelas estátuas.
Tão logo avistou a mãe acompanhada de perto por suas damas de companhia, puxou as rédeas da equina e saltou para o chão, sentindo a dureza dos azulejos de base sob os sapatos e se pondo a caminhar para onde a mãe se enamorava com o rio. Ela sempre havia gostado muito de água, mas Fēi achava a variedade de flores e plantas muito mais bonita.
Sua família tinha conceitos de beleza um tanto distintos, em seu ponto de vista.
"Você já foi mais pontual, xiăo [5] Fēi." A reprimenda veio acompanhada de um olhar um tanto irritado que a deixava medonha para as damas, mas adorável aos seus olhos.
Zhang Yifei era ainda muito jovem e conservava a beleza mantida por sua realeza. Os cabelos negros eram presos em um arranjo complicado e cobertos de joias que deviam ser muito pesadas. Ela trazia o rosto corado e os lábios carmim, combinando com a suntuosa vestimenta em cores douradas e verdes. Esperava que sua noiva prometida guardasse tal beleza.
Mas concubinas existiam para isso. Quisessem os deuses que não se valesse de concubinas, no entanto. Via sempre a contrariedade de Yuè quando se encontravam com a imperatriz.
"Māmā [6]!" Como sempre, ele dispensou a reverência e se aproximou mais, ganhando um sorriso pequeno dela. "Suplico seu perdão pela minha falta, mas eu me encontrava do outro lado da cidade quando seu mensageiro me encontrou." Sorriu para ela quando a viu se surpreender.
"Pensei que estaria na biblioteca com seu irmão." Ela bem sabia de seu gosto por derrotar a aclamada Liánhuā nos jogos de xiangqi pelas tardes.
"É xīng qī tiān [7]." A lembrou. "Hai faz orações pela tarde no templo de Yù Dì [8]."
Cada um dos dias, era regido por um deus em um certo horário no calendário da Liánhuā. Fēi não entendia muito bem como funcionava, mas Hai tinha uma incrível organização para cumprir todas as obrigações como presente dos céus, ter algum lazer com os irmãos e ainda se enfiar nos assuntos do reino. Era surpreendente.
Se não fosse ele a flor dos deuses, abdicaria de seu posto e o entregaria a ele de bom grado, mesmo sendo uma ofensa mortal ao filho do céu.
"Oh, sim... Ando distraída."
Shun Fēi a olhou com estranheza e ela sorriu ainda mais.
"A idade cobra seu preço, meu xiăo Fēi." Aquele tratamento era um tanto vergonhoso, mas ele já estava acostumado ao carinho.
Como muitos diziam; Zhang Yifei não era a mais usual das imperatrizes que já havia passado por Zijin Cheng.
"Deve cobrá-la apenas em suas memórias, māmā. Pois em aparência contínua bela como um pêssego maduro. A mais bela da cidade proibida." Mais uma troça, outro sorriso.
Não demorou para que um servo viesse lhe tomar as rédeas de Bái Fūrén e ficasse livre para acompanhar a mãe numa lenta caminhada pelos jardins.
"Me pergunto se continuará a pensar assim quando sua futura esposa enfim chegar. Tiānzi recebeu uma mensagem de que logo ela chegará, uma vez que já atingiu a idade necessária." A revelação causou o efeito esperado e despertou a curiosidade do filho. "Tenha cuidado, Fēi." Ela estava séria.
Ele também ficou sério.
"Está diferente, minha mãe." Observou, sustentando o olhar firme. "Acaso sabe o motivo por trás de toda a preocupação do Imperador para com os filhos?"
"Nada sei." Fēi não esperava que ela soubesse, mulheres não eram permitidas nas reuniões.
Mas, se os boatos fossem remotamente verdadeiros, a imperatriz era mais informada do que todos pensavam. Ainda assim, duvidava que ela fosse sair de trás da máscara de ignorância que usava.
"Tanta preocupação é intrigante, estamos em tempos de harmoniosa paz graças à Liánhuā." Dessa vez, ela desviou o olhar. Estava irritada, agora.
"Não posso ter preocupação com meu filho mais querido? Chame de um aviso dos deuses, não me sinto segura nos últimos tempos." Era capaz de ver a cabeça feminina maquinar para a escolha de palavras.
"Pensei que esse fosse Hai." Buscou amenizar o clima, não querendo trazer mais preocupações à mãe, não importando o motivo delas.
Yifei acabou girando os olhos e pousou a mão no rosto de seu primeiro filho.
"Shun Hai é o que mais me demanda atenção, você é o que mais me preocupa." Era dali que vinha sua veia implicante.
"E quanto ao Sying?"
"Oras, Sying é uma dádiva dos deuses. Era tão quieto quando criança enquanto você e Hai sempre sumiam das minhas vistas." Fēi achou por bem não lembrá-la que havia outro irmão.
"Pode se preocupar com minhas irmãs também." Eram tantas que se perdia, mas todas adoráveis.
"Suas irmãs ainda não têm idade para me causar preocupações, xiăo Fēi." Ela garantiu e ele buscou não se importar.
"Chamou-me aqui para me pedir cautela quanto à minha noiva?" A mãe costumava ser bem mais direta que aquilo.
Com um suspiro, ela negou.
"Solidão, talvez." Mas ela não iniciou nenhum outro assunto de real relevância.
Enquanto retomavam a caminhada entre frivolidades, Fēi só pensava que ele e Hai estavam certos em suas suspeitas.
Havia algo de muito errado em Zijin Cheng.
E ele pretendia descobrir o que era.
✽ • ✽
Pela terceira vez – havia contado – ele interrompeu a fluída leitura de Os Anais de Primavera e Outono [9] para observar o homem prostrado a sua porta. Sabia que aquele não era o lugar de um militar a frente de um exército, mas o imperador não se importou em designá-lo para aquela fatídica missão. Não reclamaria daquela decisão, afinal, estavam agora mais próximos.
Será que estava reparando demais como o irmão havia comentado? De qualquer forma, Long Wei não parecia se importar. Com um risinho divertido nos lábios, abandonou a leitura sobre a seda do colchão e sentou-se na posição de flor de lótus, com as pernas cruzadas e os pés sobre as coxas. Era uma posição para meditar, mas a achava confortável.
O quarto abrigava grandes móveis de madeira e uma suntuosa Jiàzi chuáng [10] a qual se encontrava sentado. A seda e a decoração eram em tons dourados e vermelhos, mas toques de verde-jade também enfeitavam os aposentos, respectivamente as cores da fortuna, do imperador e da harmonia. As cores da Cidade Proibida.
Por alguns momentos, somente o observou. A armadura de bronze e couro cru caía tão bem naquela nova imagem do amigo de infância que não se parecia nem um pouco com o garotinho medroso de anos atrás. Embora soubesse sim da valentia bem guardada do menino dragão, não imaginou que ele se tornaria um militar. Sentia tanto orgulho.
"Lembra-se do dia em que Shun Fēi o assustou com o dragão de mármore e o fez cair no lago?" A voz soou divertida e os olhos ganharam um cintilar nostálgico com a lembrança. Quem via aquele homem imponente, não imaginava que há dez anos ele se assustava com estátuas e incensos que serviam de fumaça para o hálito do temível dragão.
A menção da lembrança fez com que o olhar do general se erguesse da decoração e encontrasse os olhos tão insistentes que vinham lhe procurar de tempos em tempos. Não sabia o que dizer, na maioria das vezes.
"Ele me acusou de desonrar minha família e até mesmo uma vaca." Se lembrava do Dragão revoltado que falava coisas horríveis e o atormentava quando era um garotinho. Foi um choque quando Yuè entregou o irmão escondido atrás da estátua. "Tive que inventar a mais mirabolante história para explicar as vestes molhadas."
"Pobrezinho." Hai encolheu os ombros de maneira graciosa ao rir. "Eles ainda vivem para as implicâncias, mas são menos fantasiosos agora." Contou como se fosse um segredo. "Você era tão medroso e eu ficava dividido entre rir e ajudá-lo com os vilões da história." Agora era claramente diferente. O general não parecia temer nada. Bem... Acabou sorrindo novamente. "Mas ainda fica nervoso quando eu me aproximo."
Mesmo que não tivesse feito movimento algum, o general ainda deu um passo para trás e quase tropeçou no próprio pé. Tudo bem, não entraria em pânico. Era apenas uma conversa despretensiosa.
"Creio que não se trata de nervosismo, wángyé, mas de admiração em demasia." Talvez um pouco de nervosismo, sim, apenas um pouco. "Peço perdão se meu comportamento foi ofensivo em algum momento."
Ali estava ele, um guerreiro de respeito, completamente atrapalhado por um simples comentário. Shun Hai saiu daquela posição e alcançou o tapete com os pés livres dos calçados. Caminhou calmamente até uma das cômodas e moveu os dedos pelos objetos decorativos dispostos na superfície de madeira.
"Não me ofendeu." Deixou claro. Só era pedir demais para que fossem como antes de tudo. "Eu só acho divertido que justamente esse detalhe não tenha mudado." Comentou de maneira displicente ao abrir um baú de argila púrpura e encontrar alguns adornos de cabelo ali dentro.
Cada movimento era acompanhado pelos atentos olhos do huīxià e cada palavra era guardada como um tesouro. O ar era sagrado onde ele respirava e Long Wei tinha curiosidade de tocá-lo nos cabelos; lustrosas madeixas feitas de escuridão.
"Muitas coisas não mudaram." Acabou falando e foi rápido também em se arrepender e limpar a garganta. "Bem, vosso divertimento e gentileza continuam os mesmos, se permite que eu diga." Já podia ter a língua cortada, não reclamaria.
Os olhos verdes se ergueram da fita branca que pegara no delicado baú e pararam nas íris castanhas do general. Eram como o sol no horizonte a se despedir de mais um dia; agradáveis e dignos daquela comparação. Agora, tanto tempo depois, não eram olhos assustados e tímidos, eram intensos e calorosos. Muitas coisas haviam mudado, mas ainda era o olhar gentil de um querido amigo.
E ele era ainda tão receoso para elogios, embora mais sensato.
Por momentos que, se parassem para pensar seriam os mais íntimos já compartilhados, a jade foi tocada pelo pôr do sol.
"Da última vez, disse que meus olhos eram estranhos." Não havia mágoa na fala, era apenas mais uma lembrança com um fim bonito. Estava chorando naquele dia, justamente por achar-se tão diferente por carregar aquela cor em vez dos tons escuros que eram comuns entre os que conhecia. E o amigo o confortou, bem como uma criança poderia fazer.
O sorriso desinibido acabou relaxando as feições do huīxià e os olhos calorosos vieram para trazer um sorriso idêntico ao rosto sempre tão sério. Não por escolha, nunca por escolha.
A imposição dos títulos que carregavam, pela primeira vez em anos, não significou nada.
"Admito que ainda não tive a chance de mudar a confusão que faço com as palavras." Os castanhos recairiam naquele verde eterno para todo o sempre, se pudessem. "Mas hoje eu diria o quanto são especiais." Um milagre, ele diria. O milagre de todos os outros.
Ele não parecia atrapalhado agora.
Shun Hai se aproximou um pouco mais e ergueu as mãos para amarrar a fita branca na alça do colete do general. Não invadiu o espaço pessoal de Long Wei, somente os dedos sobre a couraça da armadura criaram uma maior aproximação, justamente para não deixá-lo tenso e criar uma situação contrária ao que queria passar.
"Conseguiu se redimir, Lóng nánhái." Ajeitou o laço de seda e ainda sem desviar os olhos dos castanhos, afastou-se como uma brisa. "Alguém andou treinando certas palavras frente ao espelho."
Os sorrisos da flor para o dragão, eram sempre sinceros e divertidos, algumas vezes, implicantes.
E eram recebidos todos com o desarranjo de palavras e fuga dos olhos castanhos que não suportavam por muito tempo a intensidade do olhar verde e incisivo. Entendia porque as vontades de Shun Hai, o quarto príncipe, eram ouvidas avidamente pelos ministros e até pelo próprio imperador.
Era mais que ser um presente dos céus, era mais que ser a flor de lótus protetora. A paixão que emanava do olhar puro era a mesma que movia os exércitos nas batalhas. Que o movia.
"Eu... Também tenho uma lembrança." Limpou a garganta, fazia muito isso quando se sentia nervoso. Algo que acontecia apenas em situações como aquela. "Era noite e... E você não queria voltar para casa. Estava pegando algumas Lótus do lago quando cheguei e me presenteou com uma." O que fez com que ambos voltassem sujos de lama.
A imperatriz ficara a beira de um estado de nervos naquela noite, mas como sempre acontecia após qualquer bronca, ele logo voltava para as aventuras pelo jardim imperial com o amigo.
A lembrança aqueceu o peito. No fim, era egoísta por desejar tê-lo sempre por perto, à disposição para conversas sobre um passado distante. Long Wei lhe trazia conforto e o admirava secretamente. Bem, talvez não tão secretamente assim.
"Queria colocar a flor nos seus cabelos." Comentou com a memória viva e colorida como no dia em questão. Tinha umas ideias bobas na infância. "Foi um presente sincero. É uma pena que não tenha durado." Sentiu-se levemente culpado por isso. "Mas tem a minha amizade." Que de igual maneira era sincera.
E após uma longa contemplação, Long Wei chegou à conclusão de que ele não sabia da magnitude do que lhe oferecia.
Eram belas as pétalas de uma lótus engalanada de sentimentos tão puros unidos à fúria de mil guerreiros. Haviam mais implicações dentro daqueles olhos do que qualquer um podia enxergar. Talvez os deuses vissem.
Os deuses que o enviaram.
"De igual maneira, tem a minha amizade, Liànhuā." Embora não se achasse digno de tal.
Se a lótus plantada em seu peito o julgou merecedor, não contestaria jamais.
Fale com o autor