Flor de Lótus

6 Capítulo V ✽ "Beleza tão sublime"


Notas iniciais
Boa noite, galera! Como passaram a virada do ano? Bem, vamos aos agradecimentos: Agradecemos a todos que estão lendo, aos que colocaram pra acompanhar: PâmChan e Mrssadness ♥ Aos que favoritaram: SakuraHarunoFanfics e PâmChan ♥ Aos que comentaram nos capítulos passados: Ishida Date, Ariane Munhoz e princesa de jade ♥ Muito obrigada mesmo! Vamos ao capítulo que tem personagens novos! Boa leitura

Capítulo V “Beleza tão sublime”

Os dedos alvos tocavam o ruqun [1] de blusa rosada e saia azul-claro em apreensão. Era filha de um importante nobre da capital, um marquês neto do antigo imperador. Prendada e ainda muito jovem, ia rumo a uma união cercada somente por interesses políticos e na linhagem que sucederia o trono do Filho do Céu. Embora soubesse que se casaria com o príncipe herdeiro desde infante, as pernas balançavam, indo para cima e para baixo na mais pura ansiedade. Casar-se, no entanto, não era o que mais desejava na vida.

Os cabelos presos em um penteado rebuscado e enfeitado por presilhas de ouro, deixavam o rosto livre e mostravam toda a beleza de Quang Qi. Certamente agradaria o futuro esposo, mas não eram essas suas preocupações. Os pensamentos iam somente para um acontecimento que, embora não fosse tão grandioso quanto casar-se com o herdeiro, era um de seus grandes desejos. Entraria finalmente na Cidade Proibida. Os mistérios daquele império se revelariam diante de seus olhos arredondados e castanhos escuros.

E a sagrada flor dos deuses fazia morada naquele palácio.

Ouvia tantas histórias a respeito do que acontecia para lá dos muros e portões vermelhos que sua curiosidade aflorava e o coração palpitava conforme avançavam pelo pátio principal. Não se importou em espiar pela cortina da jiào zi [2] o que os olhos tanto desejavam ver, mesmo com os comentários da dama de companhia sobre aqueles modos.

Qi ignorou todos eles e a face se pintou da mais profunda admiração ante a magnificência que se estendia em templos, pavilhões e palácios rubros e dourados por onde quer que seu olhar alcançasse. Era aquele o centro de todo o poder de uma nação, local que agora seria também sua residência.

Seria seu lar e o lar de seus futuros filhos.

De qualquer forma, Zijin Cheng era deveras mais interessante que um casamento. Ou mesmo um príncipe.

As pernas deixaram de se mover e parte da ansiedade se dissipou quando a liteira parou frente a ala onde seriam seus aposentos. Era um complexo de telhados amarelos rodeados por árvores e muitos pavilhões. Era de cair o queixo toda aquela beleza. Era o sonho do imperador, mas mesmo em seus pensamentos, jamais imaginou algo tão majestoso.

"Fū ren...! [3]" A dama que vinha lhe acompanhando e era responsável por zelar por sua honra, chamou-lhe a atenção quando, perdida em contemplação, não se ateve à recepção que estava preparada especialmente para a chegada da futura esposa do Diànxià [4] que herdaria todo aquele resplendor.

Obviamente, Lan Mei não tinha a sabedoria para apreciar cada uma daquelas exuberantes construções.

As boas vindas vinham ladeadas de soldados armados, de armaduras encouraçadas e disciplina invejável, aquela que destruía a frente inimiga.

Tudo isso se estendia até um dos palácios majestosos onde quatro homens de vestes distintas esperavam ao lado daquele que obviamente seria o general, este vinha com o mestre arqueiro à tira colo e, dali, podia observar os pontos extras de onde flechas velozes poderiam ser atiradas caso algo de errado viesse do cortejo da princesa.

Era como ser recepcionada no paraíso e imaginou como seria o imperador e qual dos homens em frente à suntuosa construção seria seu prometido.

E quantos serviçais!

Todos de vestes igualmente tecidas com esmero, organizados numa frente unida logo atrás dos senhores.

Nada menos do que se esperava do lugar guardado por um artefato dos deuses.

Quang Qi teve os cabelos ajeitados novamente pelas mãos da dama que a ofereceu também um espelho de bronze para que se recompusesse do estado de admiração e voltasse ao brio de sua nobre linhagem. As mãos finas e frias pelo nervosismo que voltou forte e a fez puxar o ar, foram novamente para a barra da blusa de delicados bordados que formavam pássaros pelo tecido. Ainda se mantinha impressionada e tocada pelo poder e imponência que cada um daqueles prédios exalava, mas agora havia também certa curiosidade sobre o noivo.

Um sorriso calmo foi direcionado a Lan Mei e seus olhos diziam para que ela não se preocupasse tanto. Estavam ali e agora tudo correria bem. Tocou-lhe os dedos antes de descer do veículo, os pés pequenos alcançaram o chão de azulejos do pátio de entrada com a ajuda de um dos eunucos que a reverenciou assim como os outros servos e servas.

“Seja bem-vinda, senhorita.”

“Xiè xie [5].” O agradecimento veio acompanhado de uma delicada mesura. Os olhos no entanto, correram para os quatro rapazes distintos nos degraus da galeria. “Qual deles você acha que é?” Perguntou baixinho à dama enquanto os servos se dispersavam após as apresentações e funções que agora exerceriam.

Eram os quatro muito belos. Embora Qi não se importasse com tal fato, não mais que com o reino de jade, não deixou de reparar naquele agradável detalhe.

A dama conteve um sorriso que foi coberto pela mão quando decidiu reparar diretamente nos príncipes que, incrivelmente, se prestaram todos a receberem a noiva do herdeiro.

"Que seja o mais alto deles, pela graça dos deuses." Eram todos bonitos, entretanto.

Estavam ainda a poucos metros dos homens para ouvir o que falavam aos sussurros, certamente, deveriam apreciar a beleza com que a jovem nobre se mostrava ao futuro marido.

Pobres damas, acabariam horrorizadas se tivessem a audição tão boa.

"Mude essa expressão de enjoo, Fēi. A moça ainda pode sair correndo caso se assuste." Yuè era quem implicava com o irmão. Sendo o mais alto dos príncipes, o primogênito se colocava ao lado do herdeiro para impedir que ele fosse ao chão.

Que os deuses quisessem que aquilo parecesse apenas nervosismo.

"Eu não deveria ter comido tantos bolinhos." Shun Fēi sentia que não demoraria a colocar para fora, todos os bāozǐ [6] que havia comido naquela manhã, mas o que podia fazer? Comia quando ficava ansioso.

"Recomponha-se, irmão. Sua noiva se aproxima e tenho certeza de que ela não apreciará a palidez que toma seu rosto." Yuè poderia jogar o irmão das escadas. Tão imprudente ele era que, por vezes, nem parecia o homem que o pai julgou merecedor do título de herdeiro.

“Ela parece ser adorável.” Shun Hai alargou o sorriso, embora estivesse preocupado com o irmão, ainda exibia a típica simpatia de sempre.

“Wángyé.” Qi reverenciou os príncipes, um tanto tímida agora. Lan Mei escolhera o mais alto dos quatro, mas seus olhos foram para o rapaz ao lado. Todos sorriam, mas ele parecia um tanto nervoso. “Se me permite, vossa alteza, está tudo bem?” Dirigiu-se a ele em curiosidade e preocupação.

Yuè buscou controlar o riso ao seguir a gota de suor que escorreu pela lateral do rosto pálido do irmão. E ali estava o sábio e bravo príncipe herdeiro... Derrotado por bolinhos.

"Oh... Certamente que sim, gūniang [7]." A mente de Shun Fēi ainda se perdia em arrependimento quando ele se prestou a prestar atenção naquela com quem agora se uniria perante os deuses.

Ela era linda.

Mais bela que a primeira flor a se abrir na primavera. Ela tinha um sorriso bonito e olhos de gato encantadores que pareciam observar tudo a volta e guardar cada detalhe do que viam.

"Apenas me encontro... Encantado com tamanha graça." Ele desceu o que restava dos degraus para também reverenciar a jovem. "Penso jamais ter visto beleza tão sublime." O comichão que sentiu no peito o levou a sorrir.

A nobre enrubesceu com o galanteio e, discretamente, passou um olhar a dama de companhia, algo que significava que aquele a sua frente, era mais interessante que o mais alto ou qualquer outro dos príncipes. Ele tinha o olhar gentil e um sorriso afetuoso. Não havia se preparado para encantar-se à primeira vista com o noivo.

“Eu digo o mesmo...” A sinceridade a fez corar ainda mais. O rosto se voltou para frente e os olhos logo alcançaram os irmãos do futuro esposo. Um deles tinha os olhos verdes como pedras de jade e ela não guardou o espanto.

“Vejo que o deixaremos em boas mãos, gege [irmão mais velho].” O tom implicante veio acompanhado de uma reverência. “Shun Hai, o quarto príncipe, xiăojiě [senhorita]. E meus irmãos, Yuè e Sying.” Apresentou os mais velhos, mostrando-se o mais falante de todos.

“É um prazer.” O sorriso alcançou os olhos. Sentiu-se acolhida naquele primeiro momento. Sentiu-se em casa.

"Sempre um compatriota nato, Liànhuā." Yuè logo revelou o motivo para aqueles olhos tão verdes, mas a expressão trocista podia ser reconhecida apenas pelos irmãos. "E concordo com Fēi, é deveras oportuno que tanta beleza venha acompanhada de igual formosura." Dessa vez, o sorriso era direcionado à dama que deveria olhar apenas para sua senhora.

O coração de Lan Mei nunca havia batido tão veloz.

"Não sou digna de tal elogio, diànxià." Mesmo assim, ela se curvou.

E a áurea amena não podia ser mais bela. Isso se o estômago de Shun Fēi não se revolvesse tanto.

"Pedimos desculpas pela nossa curiosidade em vir pessoalmente recepcioná-las." O príncipe herdeiro voltou a se sentir mal. "Devem estar fatigadas pela viagem longa, deixaremos que se acomodem." Ele foi o mais suave que conseguiu ao de afastar e lançou um olhar de soslaio para Sying.

Gostaria de manter aquela calma e serenidade com a mesma facilidade.

Quang Qi tinha tantas perguntas a fazer, mas observou os príncipes se afastarem para a ala vizinha e restou a ela entrar nos aposentos onde os servos a aguardavam e também a Lan Mei, a dama sorridente e que parecia caminhar em nuvens.

✽ • ✽

Yè yīng [8] era um dos muitos nomes pelos quais o imperador o chamava. Ele poderia ficar horas, dias ou meses ouvindo aquela sublime e doce voz. O canto de seu precioso filho o acalmava e aliviava as muitas situações de estresse que vinha tendo ultimamente e o deixava leve para as atividades do dia seguinte.

Ali, sentado no trono do dragão pouco antes de o sol se pôr, o soberano do império se rendia a voz do rouxinol.

Havia uma luz que vinha de dentro, visível para qualquer um que o olhasse. Era brilhante como o nome escolhido para a dinastia [9]. Não eram somente os olhos que traziam a cor das pedras sagradas, era a presença que exalava fascínio, era mesmo algo que vinha do interior. E quando ele cantava, tal fato ficava ainda mais evidente.

De vestes azuis pálidas como o céu de inverno e postura elegante e altiva, Shun Hai mantinha os olhos fechados enquanto cantava a pedido do pai. Os cabelos caíam pelas costas e destacavam sua escuridão na seda clara do zhiduo. As mãos estavam com os dedos entrelaçados como fazia quando criança. Deixava apenas a voz fluir e esquecia-se de tudo ao redor. Se sua voz trazia paz ao coração do senhor daquelas terras, cantaria de bom grado.

Cantava sobre uma lenda: A Terra das Flores de Pessegueiro [10], um lugar para o qual desejava secretamente ir.

Na infância, dizia ao amigo dragão que um dia velejariam até esse lugar distante e florido. Que não teriam mais regras e viveriam como iguais entre gentis aldeões e belas e bucólicas paisagens. Ainda mantinha, mesmo que silenciosamente, aquela flama no peito de deixar a cidade e seguir por outro caminho, desbravar o que as terras tinham a oferecer para além daqueles muros e deparar-se com poemas e lendas tornando-se reais.

Discretamente, aqueles desejos ainda residiam em seu coração. E sua voz e luz tornavam-se mais fortes, como se alcançassem todas as partes da Galeria da Suprema Harmonia. Estava sobre o último degrau que dava acesso ao trono, sendo apreciado pelo imperador que sentia o peso deixar os ombros.

Quando no passado clamou aos deuses por um meio de conquistar as vitórias sem mais derrotas e humilhações, recebeu o quarto filho homem. Uma pequena e adorável criatura de olhos verdes como jades e que deu ao reino a prosperidade a qual viviam há dezenove anos. A flor que era o símbolo do reino e estampava as bandeiras sobre as torres e que deveria ser guardada como um tesouro.

E era isso o que o soberano havia decidido fazer, aumentar a segurança de Liànhuā e do príncipe herdeiro. Andava alerta com os sinais ao redor e não facilitaria para que algum possível atentado abatesse um dos seus. A lembrança das palavras de certo inimigo, brilhavam com mais intensidade em sua memória naqueles dias. Era quase atormentador, mas não externaria aqueles pensamentos aos comuns, preferia guardá-los assim como fazia com seu legado. Eles seriam vigiados, ainda mais que antes, e isso lhe traria algum conforto para as atividades e a normalidade seguida desde que ascendeu ao trono, mesmo que os filhos dispensassem todo aquele zelo, a última palavra era sempre a sua.

Quando a canção cessou e a melodia da voz ainda parecia flutuar no ar, Shun Hai abriu os olhos e retornou à sala do trono.

Não havia mais as árvores altas e de copas frondosas, nem os pássaros riscando os céus de azul-claro com suas asas coloridas ou as águas de um rio calmo e tocado pelos reflexos do sol. O verde-jade contemplou o rosto do imperador por alguns momentos antes que avançasse os degraus e se permitisse romper a distância e fechar os dedos suaves na mão do pai.

“Bàba [11].” O chamava com tal afeto somente quando estavam a sós. “Sobre a decisão que tomou recentemente, sei que há algo que o atormenta. Gostaria que confiasse em mim.”

Ele tinha sensibilidade suficiente para sentir a mudança de ares e tinha certeza que aquela mente tão pura quanto aquele olhar, pensava nas mais variadas possibilidades para sua repentina decisão. Tão perspicaz, porém, frágil como pétalas ao sopro de uma brisa.

“Não posso mais me preocupar com meus filhos sem causar alarde?” A recíproca veio em um tom menos altivo que o de costume. “São preocupações de pai, algo que você não entende e nem chegará a entender.” A última fala soou um tanto rude, uma maneira de afastar seu filho mais doce e fugir de seus olhos que pareciam ver além do que ele estava disposto a mostrar.

Como esperado, o mais jovem dos príncipes afastou a mão calorosa e prostrou-se reto, olhando-o de cima como só era permitido a ele fazer sem que uma punição o atingisse.

“Deixe-me a sós com meus pensamentos.” Demandou com um aceno, desviando os olhos escuros e sempre imponentes, do brilho aguçado das íris verdes.

Shun Hai ainda não havia terminado, queria dizer que tudo bem sentir medo, que isso não o tornava menos homem, que o sentimento era uma defesa natural ante qualquer ameaça e que ninguém o julgaria por isso. Sabia que o motivo por ele ter desviado os olhos era exatamente por buscar por respostas no olhar duro e que assemelhava-se a uma noite sem estrelas.

O imperador temia que algo acontecesse e se culpava por isso.

Ele só não fazia a mínima ideia do que poderia ser.

Com a devida reverência, deixou o salão com passos rápidos como uma lebre, esquecendo-se por um momento do general que o aguardava nos portões. Tê-lo em seu encalço ainda era muito repentino e a mente fervilhava em pensamentos referentes ao imperador que acabou por esquecer que ele estava ali, com a presença imponente e o olhar afetuoso o esperando para retornarem a ala dos quartos.

“Conseguiu ouvir?” Perguntou ao iniciar a caminhada, levemente receoso sobre esse fato. As mãos voltaram a se entrelaçar.

"Jamais escuto nada, diánxiá. Não seria apropriado." A resposta era o que se esperava de um general, mas ambos sabiam que era mentira.

O huīxiá [general] se preocupava também com as repentinas atitudes do imperador. Não era de praxe dar ordens ao próprio general para guardar alguém, mas Wei jamais reclamaria de passar alguns momentos ao lado do amigo de infância. Desde que foram afastados, pensar em um dia em que poderia voltar a ver aqueles olhos verdes foi o que lhe motivou a buscar por um dos postos mais alto nos exércitos.

Long Wei era alguém de pensamentos muito simples. Havia aqueles que devia proteger e havia os inimigos. Mas Shun Hai estava acima de tudo aquilo, talvez até mesmo acima do filho do céu. Pois Wei queria protegê-lo, mas não apenas por ser seu dever.

Era algo que não entendia e nem buscava entender.

“Não, homem!” Hai virou-se para encará-lo de maneira divertida ao caminhar de costas para o pátio e de frente para o general. Tinha que erguer um pouco o rosto para encará-lo nos olhos. “Eu me referia a canção. Pensei em nós dois enquanto cantava.” Era sempre sincero e andava um pouco nostálgico também.

Um pequeno sorriso acabou nascendo na boca do huīxiá e ele se adiantou alguns passos curtos e discretos para poder se aproximar mais daquele que jamais deveria ser alcançado.

"As pétalas das flores de pessegueiro sendo levadas ao vento junto ao perfume que me seguiu nas muralhas dias e noites..." Contou. Por vezes, também se imaginava desbravando o mar que parecia tão interessante e encontrar a terra farta com a singela flor de lótus a sua espera. "Algumas vezes, eu imaginava que eram de duas mãos que saíam as flores que me alcançavam nas fronteiras." Que, embora fossem lindas, não se compravam à beleza da flor que se desabrochava na lama e vinha gloriosa aos olhos dos pobres mortais que a admiravam.

“Das minhas mãos, certamente.” Ele parou subitamente em uma das pilastras vermelhas de um dos pavilhões, obrigando o general a parar também e se atrapalhar por ficar repentinamente mais próximo. Estava sorrindo de maneira soberba somente por provocação, mas logo tornou-se mais sério. “Um dia ainda iremos para lá.” Era uma promessa e um desejo de infância. Sob as luzes das lanternas via as cores aquecidas dos olhos e do rosto do amigo e pensou que gostava do que via. Conscientemente ele gostava, embora não soubesse a dimensão do sentimento.

Era impossível, isso para dizer o mínimo.

Mas, ainda assim, Long Wei abriu um sorriso contido e desviou o olhar antes de voltar a encarar as duas jades com a mesma intensidade com que ele sempre o olhava. Era devoto daquele olhar, cativo de cada palavra que saia daquela boca.

"É uma promessa?" Regrediram dez anos, na época em que seus olhos brilhavam quando o príncipe lhe prometia roubar doces para lhe dar como desculpas por alguma traquinagem.

“Sempre foi uma promessa, dragão.” A fala veio como um sopro e assim como ela, o corpo se afastou para seguir a caminhada. “Que bela noite, não acha?” Implicou ao olhar para trás. Não era de todo uma implicância, a noite trazia um véu estrelado e não admirá-la seria um crime.

Os olhos castanhos do general sempre ganhavam um novo brilho. Desde crianças, mesmo entre implicâncias, não importava.

"É... É sim."

Mas não falava da noite.

✽ • ✽

Existiam instantes em que paramos para nos perguntar sobre quando o certo se tornou certo e quem inventou o conceito de errado. Shun Yuè era do provérbio de que; se não pode dizer a ninguém o que está fazendo, provavelmente não deveria estar fazendo.

Mas ali estava ele novamente.

A ala vazia e inutilizada há anos juntava poeira sobre os móveis cobertos por panos brancos e intocados. Aquele era um dos quartos da infinidade dos aposentos construídos em Zijin Cheng e nunca tinha estado naquele lugar antes. Os encontros eram sempre em locais diferentes, sem ligação e altamente sigilosos de maneira a nunca levantar suspeitas sobre o que acontecia na calada da noite.

Ela chegou iluminada pela luz de uma única lanterna. O rosto coberto pelos cabelos negros e trajada em seda tão pálida como se estivesse em luto [12]. Assemelhava-se a um espírito da lua, talvez à própria morte, tendo em vista o quanto era proibida.

Era uma aparição.

Olhos cinzentos encontraram os seus castanhos, o olhar afiado tão diferente do caloroso e contido humor que sempre mostrava a todos. Bonita e fria como a neve que caía no inverno.

Tão bela. E jamais seria sua.

"Por que me chamou aqui?" Ele não sorriu para ela, ela também não sorriu para ele.

"Você sabe." Direta como sempre era apenas com ele, como nunca se mostrava a ninguém quando o sol brilhava.

"Eu disse que não voltaríamos a nos encontrar."

"Mas está aqui agora. Comigo." A mão suave tocou seu rosto. "Você não é tão forte, Yuè. Nenhum de nós dois é."

Ela estava certa.

Todas as vezes que se encontravam, desde que aquela loucura começou, era a última. Sempre seria o último beijo, o ultimo toque. O último sorriso, um último abraço.

De novo e de novo.

"É um crime." E, como das outras vezes, ele voltou a argumentar e teve os lábios cobertos pelos dedos magros e delicados.

Ela jamais sorria. Não precisava sorrir quando estavam juntos, nenhum dos dois tinha motivos para sorrir.

"Pare de se lamentar, por favor." Quando ela se afastou, a seda branca e pura que cobria o corpo foi ao chão, revelando a nudez que a revestia em beleza. "Perder nosso pouco tempo com lamúrias seria tolice. Você, wángyé, mais do que ninguém, deveria saber disso."

Mas ele não disse nada para contrariar a voz feminina. Nem quando ela se livrou do tecido que cobria a imensa e dourada jiàzi chuáng [13], ou quando ela esticou o corpo bonito e feminino no colchão, tal como uma gata carente de atenção.

Ele não disse nada, porque ela estava certa.

Certa em sua ira fria quando rosnava ao ouvir o nome de seu pai, certa em sua revolta com o amor impossível que ficava no recôndito de seu peito. Certa, ela sempre acertava.

Nos sorrisos medidos, nos olhos felinos e na boca vermelha que sempre se abria para lançar-lhe palavras duras quando dela discordava. E ele, o primogênito do imperador, era apenas um humilde servo a quem ela concedia a imensurável dádiva de dividir seu leito.

Mais que o imperador, acima dos céus.

Naquela noite, quando tocou os lábios aos dela pela primeira vez após incontável tempo, jurou a si mesmo que seria o fim daquela relação. Uma última vez, para acabar com todo o desejo. A última vez.

Assim como a próxima.

Notas finais
GLOSSÁRIO: [1] Ruqun – Um item de trajes tradicionais chineses, principalmente para mulheres, mas pode ser usado por homens também. É composto por uma blusa e uma saia. [2] Jiào zi – Liteira. Uma cadeira portátil fechada ou aberta e que é carregada por dois homens. [3] Fū ren – senhorita. [4] Diànxià – Sua Majestade. [5] Xiè xie – Obrigado. [6] Bāozǐ – Pãezinhos recheados com carne. [7] Gūniang – Jovem senhorita. [8] Yè yīng – Rouxinol. [9] Ming – O nome da dinastia, significa “brilhante” [10] A Terra das Flores de Pessegueiro – Uma lenda muito antiga sobre um pescador que encontrou uma terra mística, pacífica e cheia de belezas. [11] Bàba – Papai. [12] Na China antiga, a roupa de luto costumava ser branca. [13] Jiàzi Chuáng: Cama de dossel. GOSTARAM? Chegou a nossa linda noivinha, a Qi ♥ Ela é um amorzinho, gente, já deu pra gostar dessa neném? E rolou bem um amorzinho a primeira vista entre ela e o príncipe herdeiro ^^ que, no caso, é o noivo dela desde sempre XD Opa, o Hai cantando pro papai foi uma cena tão gostosinha de escrever, o imperador adora esse menino, mas é um homem bem duro e demonstra zero sentimento, só deixou transparecer mesmo que se preocupa com os filhotes. É um bom pai... E depois, o casal que também é um casal desde sempre, mas ainda não sabem que são um casal XD Eles são tão fofos ♥ O general super se entregou ali, falando da noite bela, porém, não pensando exatamente na noite, esse safado hihi E por último! Olha esse encontro! Quem será que essa mulher misteriosa e proibida, ein? Será se isso vai dar alguma treta? Bem, esperamos que vocês tenham gostado! Por favor, deixem um comentário, o apoio de vocês é muito importante e nos motiva a continuar! Bjuss
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.