Flor De Lótus
4 Art. 3° — Loiras em perigo podem ser perigosas.
Notas iniciais

Lucy Heartphillia – Las Vegas, Cabana no Deserto – 16:32.
— Que merda — murmurei.
Minha cabeça latejava e a cada vez em que o ar entrava nos meus pulmões minhas costelas doíam. Senti o lado direito de meu rosto molhado, mas quando tentei tatear a região, notei que minhas mãos estavam presas. Abri os olhos, atenta.
Percebi que estava em um cômodo quente e com o ar estagnado. Por entre as frestas da madeira seca e podre do teto entravam feixes de luz, que permitiam-me ter uma melhor visão do espaço. Olhei para baixo e vi que minha blusa estava ensopada de sangue seco e evitei me movimentar demais para que meu ferimento no tórax não recomeçasse a sangrar.
Eu estava sentada em uma desconfortável, porém firme, cadeira de madeira. Tiras de metal prendiam meus pulsos e meus tornozelos de modo confortável, mas não o suficiente para que eu conseguisse me soltar com facilidade.
— Lucy! Finalmente acordou — falou um homem musculoso que chegava descendo por uma escada, fixada ao teto. Isso me levou a presumir que aquele lugar fétido era o porão de um casebre.
Ao puxar uma cordinha que se balançava no meio de seu caminho, uma lâmpada descorada se acendeu. Dessa forma consegui assisti-lo enquanto puxava para perto de si uma pequena mesa com rodinhas, com um pano sobre a mesma que escondia seu conteúdo.
Posicionou o objeto a minha frente sem preocupar-se em disfarçar sua finalidade. Após uma rápida análise notei que seus movimentos não eram confiantes, como os de um chefe, mas sim aqueles característicos de um subordinado de baixo calão. E definitivamente eu iria aproveitar-me disso.
— Lucy? Esse não é meu nome! — falei simulando uma voz apavorada e expressão confusa.
— É sim — retrucou estreitando os olhos.
— Não é! — exclamei com lágrimas forçadas começando a escorrer pelas minhas bochechas , o que fez com que a dúvida ficasse evidente em seu olhar.
— E qual é então? — perguntou apavorado com a possibilidade de ter pegado a garota errada.
— Anastácia. Onde estou? — respondi triste.
— Estamos no deserto.
Deserto. Isso explica o calor excessivo e a ausência sonora que indicasse civilização. De qualquer ângulo que eu analisasse, minha situação era deplorável. Provavelmente meu rastreador seria inútil devido às rochas presentes na região desértica e ninguém me escutaria caso gritasse. Além disso, mesmo que eu conseguisse fugir do cativeiro, teria que enfrentar alguns quilômetros de um sol abrasador e sem água ou comida, morreria em poucos dias de desidratação, desnutrição ou infecção nos ferimentos. Esse era o esconderijo perfeito. E eu os odiava por não tê-lo descoberto antes deles.
Ouvi passos leves estalando no piso de madeira sob nós, mas o brutamonte além de não perceber, ainda obstruiu minha visão. Graças a isso foi surpreendido por um soco na base de seu queixo, que fez com que seus pés saíssem alguns centímetros do chão. Seu corpo desfalecido caiu com um baque surdo, levantando um pouco de poeira.
Antes eu não tinha conseguido ver o estranho que havia acabado de chegar, pois se analisasse-o demais, o monte de músculos sem cérebro logo desconfiaria. Mas foi engraçado vê-lo levar um soco e desabar como um saco de batatas.
— Não se encontram mais lacaios que sabem manter a boca fechada — resmungou.
Sua voz era fria e irônica, a expressão demonstrava expectativa. Acho que eu ficava do mesmo jeito quando precisava torturar um criminoso. Dei um pequeno sorriso ao ver a ingenuidade do rapaz por pensar que eu diria algo a ele.
— Pare de rodeios e fale logo o que quer — pronunciei de modo firme.
— Você não está em posição de dar ordens, Heartphillia — retrucou calmamente enquanto me analisava.
Sustentei seu olhar quando ele o fixou em mim. Alguns segundos depois – que mais pareceram horas – o desconhecido balançou a cabeça de modo afirmativo, como se comprovasse algo que já sabia ou aprovasse o que via. Seu cabelo era preto e a pele bronzeada, seus olhos negros eram cruéis e uma grande cicatriz partia de sua bochecha direita até o lábio inferior. Ele tinha tudo para ser aqueles vilões fodões de filmes de ação, se não fosse seu diminuto tamanho. Acho que até Levy era maior que ele, não... Até Napoleão Bonaparte era maior que ele!
Ao me ver encarando-o, seus lábios se alargam em um sorriso tirânico e ele se aproximou ainda mais da mesa, retirando o pano que a cobria.
— Você é igual a mim, sabia? Faz tudo para obter uma informação. Então ambos sabemos o que virá a seguir, não precisarei desenhar para que você entenda, não é mesmo? — perguntou-me retoricamente enquanto passava os dedos por um diferenciado conjunto de facas ungidas por um líquido viscoso.
— Se realmente somos iguais já deve saber que não conseguirá nada comigo — retruquei, mas isso não o abalou.
— Só há uma pequena, porém gritante, diferença entre nós dois — concluiu como se eu não o houvesse interrompido.
— Nosso tamanho? — questionei zombando-o.
— Sei muitas maneiras de tortura, muitas você nem imaginou que existiam. — respondeu voltando seus olhos para os meus.
— Fodas — falei fingindo um bocejo, como se estivesse entediada. Ele esta curtindo com a minha cara? Tortura é quase meu codinome, ninguém se compara.
— Vamos ver se sua calma, indiferença e principalmente seu ótimo senso de humor permanecerão intactos quando começarmos — ameaçou.
— Dá pra ir logo com isso? Tenho um compromisso à noite — afirmei olhando fixamente nos olhos do homem.
Ele pegou uma pasta cor de creme em cima da mesa e abriu-a, lendo uma folha de papel que havia ali.
— Você não existe, não é mesmo? Pena que você não foi tão eficiente assim. Demorou para te encontrar, mas após ficar quase sete meses acompanhando seus passos consegui te pegar — falou sorrindo e virando a folha em minha direção.
Eu sabia ao que ele se referia. Quando eu, Levy e Juvia formamos a Flor de Lótus, a baixinha apagou todos os nossos registros no governo. Por isso, não existíamos sob os olhos do Estado. No papel havia um pedaço da minha vida que eu não gostava de lembrar. Como esse filho da puta conseguiu esse registro?
— Você deve se perguntar como o consegui, certo? — Sim, mas mantive-me em silencio. — Há um tempo uma pessoa que sentou exatamente onde você está me informou que um dos administradores do Projeto Lótus conseguiu salvar uma das fixas de uma cobaia — explicou.
Por dentro isso me abalou, mas não iria dar o gostinho para ele saber disso.
— O projeto Lótus ainda está funcionando, sabia disso? Agora você irá me contar onde é a sede que você ficou quando era uma cobaia — mandou.
Espera, ele realmente acha que eu fui uma das cobaias? Pelo visto a fonte dele não sabia tantas coisas assim. E além do mais, se eu soubesse onde fica a localidade daquele inferno, já teria mandado tudo pelos ares com um belo show de fogos de artifício... ou dinamites, que seja.
— Pergunte pro seu amigo, tenho certeza que irá conseguir sair vivo se questioná-lo — disse.
O homem soltou uma risada e foi aproximando-se de onde eu estava enquanto rodava uma tesoura no dedo indicador de sua mão direita. Quando ficou de frente para mim, fincou a ponta do objeto em minha coxa esquerda com força e sem hesitar. Por mais que eu quisesse gritar de dor, somente emiti um grunhido abafado retendo as lágrimas que teimavam em se formar em meus olhos.
— Filho da puta — sussurrei.
— Me diga onde é a sede deles — mandou.
Pressionei fortemente os lábios, esboçando um sorrisinho de canto e olhei-o de modo desafiador. Senti o sangue escorrer pela minha coxa e pingar no chão. Em um movimento lento e torturante o homem começou a rodar a tesoura demoradamente em meu ferimento, cortando ainda mais os músculos.
Após alguns segundos ele suspirou ao ver que apesar da imensa dor eu não iria abrir a boca. Retirou o objeto de uma vez e eu quase desejei que ela permanecesse fincada em minha perna, pois assim que ela saiu, meu sangue começou a sair em maior quantidade.
— Você se acha forte, não? Veremos se toda essa resistência durará quando começar a perder ainda mais sangue — falou dirigindo-se a mesa.
O torturador jogou a tesoura no chão e o sangue respingou um pouco na parede. Observei-o chutar seu subordinado que dava indícios de recobrar a consciência.
— Vá buscar a bateria — ordenou, empurrando o sujeito para fora da sala.
Nos poucos minutos que o cara passou fora dali, predominou-se o silêncio. O torturador encarava-me e eu só me importava em controlar minha respiração e tentar esquecer a dor infernal que começava na minha coxa e alastrava-se por todo meu corpo, impedindo-me de raciocinar com clareza.
Assim que ele voltou, notei em suas mãos uma bateria de carro conectada a dois fios. O baixinho analisou minha expressão duvidosa e pegou o objeto das mãos do grandão, abaixando-se devido ao grande peso e, depois de ver que não aguentaria segurar por muito tempo, colocou-o no chão próximo a mim. Confesso que não segurei o riso e recebi um olhar mortal.
— Muito engraçadinha. Há, há, estou morrendo de rir — vociferou.
— Ah chefe, foi engraçado — riu o subordinado. Idiota.
Em milésimos de segundos o brutamonte estava com uma PT 92 apontada diretamente para o centro de sua testa.
— Continua engraçado? — perguntou o pequeno moreno raivoso.
— Não chefe — respondeu o musculoso em um fio de voz.
— Ótimo. Agora suma da minha vista antes que eu decore essa sala com seus miolos — mandou, fazendo o homem sair rapidamente.
Ele virou-se em minha direção sem um pingo de paciência.
— Onde é a sede do projeto Lótus? — questionou irritadiço.
Mas que cara persistente!
— Fica na rua vai se foder, esquina com a filho da puta. Você deve conhecê-las, já que a vadia da sua mãe roda bolsa nelas — provoquei sorrindo.
Senti o impacto de sua pesada mão chocando-se com o lado esquerdo de meu rosto. A força foi tão grande que fiquei desorientada por um instante. Ele não parecia um fracote a segundos atrás?
Rapidamente pegou os dois fios da bateria e enfiou-os no meu machucado da coxa, fazendo-me levar um choque forte. A onda de energia atingia meus nervos e percorria meus membros. Comecei a gritar de dor. Meus olhos ficaram esbugalhados enquanto a corrente elétrica fazia-me ficar dormente. Quando o moreno retirou os fios, quase desmaiei de alívio.
Certo, ele realmente tinha uma ótima técnica de tortura, e eu até o agradeceria por ensiná-la caso não estivesse testando em mim. Se eu sair viva disso, esse será um bom método de arrancar informações daqueles marginais com quem lido.
— Onde fica a sede do projeto Lótus? — perguntou pela milionésima vez sorrindo de um modo sádico próximo a mim.
Levantei a cabeça e, com extremo esforço, cuspi na cara dele. Assim que limpou a saliva de seu rosto, deu-me mais um forte e estralado tapa. Ele pôs-se de pé e pegou na mesa uma faca curta que possuía o cabo um pouco enferrujado e manchado de sangue seco.
Senti a faca perfurar minha coxa direita, porém não expressei a dor infernal que estava sentindo. O objeto deslizou por meu músculo, fazendo o sangue quente pingar no chão empoeirado. Eu sabia que estava chegando ao limite. Se aquela tortura continuasse por muito mais tempo, eu iria perder a consciência. Caso isso acontecesse, seria o meu fim.
— Essa é sua última chance. Onde fica a sede do projeto Lótus? — indagou.
— Eu já disse onde ela fica, você que não acreditou — respondi concentrando minha atenção na cicatriz medonha de seu rosto e não na intensa e persistente dor que me dominava.
Ele suspirou pesadamente. Senti que ele havia ficado de saco cheio com minha relutância em responder corretamente.
— Cansei de brincar com você. Talvez suas amigas sejam mais cooperativas. — Ele apanhou uma seringa sobre a mesa, a qual continha um líquido amarelado.
Não era preciso ser um gênio farmacêutico para perceber que aquele líquido era na realidade um composto que me faria agonizar muito antes de, enfim, morrer. Esta não era a forma que eu queria de ser morta. Se pudesse escolher, preferiria estar em uma boate repleta de homens gostosos e seminus e padecer diante da maravilhosa visão se seus belos corpos. Influência de Levy, talvez.
Enfim. Não tinha muita escolha no momento, mas contentava-me com isso.
— Quais serão suas últimas palavras? — perguntou batendo levemente o dedo indicador na lateral da seringa e apertando um pouco o êmbolo para retirar as pequenas bolhas de ar que havia por cima.
— Nos vemos em breve no inferno — dei o melhor sorriso cínico que minha situação permitia e preparei-me para a fincada da agulha.
Que não veio.
Ao invés disso, o barulho de um tiro ecoou a poucos metros de onde estávamos, e senti alguns dos meus músculos relaxarem, pois, pelo olhar que o homem lançou na direção da porta, tive a certeza que permaneceria viva por mais algum tempo.
Natsu Dragneel – Las Vegas, Algum Lugar no Meio do Deserto – 17:01
Eu não tinha muitas opções.
Ir embora dali estava completamente fora de cogitação, duvido que meu carro tenha voltado a funcionar e não tenho certeza se conseguiria chegar até ele, levando em consideração a perfuração na minha costela, por onde meu sangue continuava a escorrer progressivamente a cada segundo. Além disso, não poderia simplesmente sair correndo com o rabo entre as pernas depois de um idiota metido a atirador ter me atingido.
Olhei para trás furioso e notei que o imbecil ainda mantinha a posição de alerta, mesmo não desferindo mais nenhum tiro. Ele observava minuciosamente o meu afastamento, era questão de tempo até que disparasse novamente e, mesmo tendo total certeza de que erraria, eu não poderia arriscar.
O sol dava indícios do entardecer e as dunas se tornavam alaranjadas, seria uma bela visão se meu sangue não estivesse completando o cenário. Eu poderia morrer de muitas maneiras, já havia refletido sobre diversas possibilidades, mas sucumbir no meio de um deserto com um maldito buraco no corpo, com certeza não estava na minha lista de mortes mais honrosas. Além do mais, eu ainda tinha assuntos para resolver, criminosas a prender e um caso para desvendar...o caso, o principal motivo da minha existência e que me fez ser quem eu sou.
Não pude conter o riso quando executei o único plano que me veio à mente. Joguei-me no chão, fingindo falência. Não abstive-me da encenação, caindo de joelhos simulando profunda dor, para somente depois deitar com a face colada na areia flamejante.
Naquela posição, mantive os olhos entreabertos, esperando uma reação do sujeito. Era tudo ou nada. Ele coçou a cabeça e esticou o pescoço para ver melhor, o estúpido nem sequer tinha um binóculo, ou era burro demais para usar um. O que importa é que ele começou a caminhar na minha direção. Levando em conta a nossa distância, ele chegaria até mim em menos de dez minutos, devido a suas passadas largas.
Fechei os olhos e concentrei-me na vibração da areia, que conduzia até mim o estremecimento originado de seus passos. Pude sentir exatamente quando ele estava a dois minutos de mim e retirei cautelosamente minha faca de dois gumes serrilhada do cinto, mantendo-a em punho. Como não sabia se ele tinha comparsas, optei por não propelir mais nenhum tiro.
Seus pés se puseram ao meu lado, analisando-me. Minha respiração cessada ajudou na atuação e, quando ele apoiou o pé sobre minhas costas, para ter certeza da minha morte, cortei com muita precisão seu tendão de Aquiles, fazendo-o cair no chão, agonizando.
Não perdi tempo, pus-me de pé e me movimentei sobre ele, ignorando alguns xingamentos de baixo calão. Pisei com o máximo de força que conseguia sobre o pulso cuja mão segurava a arma, e só parei de pressionar quando senti o estalido do osso se partindo.
Ele gritou desesperadamente, mas calei-o com um chute certeiro no maxilar. Após isso, me abaixei com o joelho esquerdo em cima do seu pescoço e analisei cada linha de sua aparência. Sua característica mais notável era o tamanho, e o que tinha de altura e massa muscular, faltava na inteligência. A cabeça era mal raspada e uma falha horrorosa na sobrancelha atribuía-lhe um esboço assimétrico, isso sem mencionar as duas argolas no lábio inferior, por onde um dedo poderia passar com facilidade. Feio e burro. É, tem gente que não nasce com sorte mesmo.
— Então, você sempre grita feito uma menininha? — perguntei de forma irônica e ameaçadora ao mesmo tempo.
— Po... Policia? — questionou entre arfadas doloridas.
— Policia? Pode se dizer que sim, mas eu prefiro: investigador Natsu Dragneel, do primeiro Departamento de Policia. — Eu sempre gostava de ver a expressão de medo se formar nos olhos de criminosos como ele ao ouvir minha alcunha. — E você deve ser o senhor morto-daqui-dez-segundos — blefei para amedrontá-lo.
— O quê? N... não, eu sou...
— Oito — interrompi-o —, nove, dez.
Acertei o cabo da minha faca na lateral de sua cabeça, fazendo aquele retardado desmaiar instantaneamente. Minha vontade era de realmente aplicar a sentença anteriormente citada por mim, e desfigurar ainda mais a sua face horrenda, mas um extenso código de conduta se encontrava entre minha faca e a vida do individuo. Claro que isso não significava necessariamente que eu não o visitaria em sua cela posteriormente para um acerto de contas, mas agora eu tinha coisas mais importantes para lidar, como sobreviver, por exemplo.
Provavelmente ele permaneceria desmaiado por mais de meia hora, então amarrei suas mãos aos pés, recolhi sua arma e o revistei, não encontrando nenhuma identificação. De tal forma, abandonei seu corpo inerte ali mesmo e dirigi-me sorrateiramente para a cabana. Armei-me com minha pistola, tendo a certeza de manter a atenção fixa em todas as direções, pois mais um tiro significaria a minha morte.
A porta de madeira maltratada pelo sol rangia com o contado de uma leve brisa que trazia consigo o anoitecer álgido. O interior se evidenciava negrume por uma brecha exposta pela porta entreaberta e, em um primeiro momento, ela parecia completamente vazia e silenciosa.
Mas eu tinha certeza de que as coisas não seriam tão fáceis assim, isso me cheirava a salada podre. E eu odeio salada.
Adentrei com o cano da arma apontada para minha fronte, e limitei-me a caminhar lentamente, evitando maiores estrépitos. O interior da cabana era tão deteriorado quanto o lado de fora. As tábuas mal dispostas permitiam que alguns feixes de luminosidade clareassem o local, que realmente era demasiado pequeno, com apenas dois cômodos vazios, exceto por alguns colchonetes velhos em um dos cantos.
Então era isso? Aquela voz misteriosa havia se infiltrado no sistema elétrico do meu carro e me deixado no meio de um deserto só para capturar um brutamonte com menos da metade do cérebro em funcionamento, que dorme em colchonetes esfarrapados dentro de um casebre abandonado?
Não, eu tenho certeza que preciso analisar melhor. Infelizmente a dor que se acentuava no meu corpo me impedia de refletir direito. Por isso, rasguei cuidadosamente um pedaço de minha blusa empapada de sangue e enrolei-o ao redor de meu tórax para estancar um pouco o sangramento, mesmo que não funcionasse como eu desejava, pelo menos reteria um pouco o líquido carmesim. Além disso, impedia que algum agente externo entrasse no ferimento e causasse uma infecção.
Voltei a analisar o meu redor, atentando para cada centímetro de madeira, e constatei que minhas suspeitas eram verídicas, havia uma entrada fixada ao chão. Tateei as linhas divisórias e consegui cravar as pontas dos dedos para deslocar a entrada. Felizmente ela não rangeu como o resto da casa.
Ergui o postigo gentilmente, mas não precisei descer e nem mesmo prosseguir com a perquirição, pois uma lâmpada amarelada evidenciou a cena que ocorria naquele porão.
Um homem caminhava impacientemente de um lado para o outro. Ele era pequeno, – bem pequeno na verdade – tinha os cabelos pretos e mal penteados. A direita alguns instrumentos de tortura se encontravam remexidos. Sua atenção estava completamente voltada a uma pessoa encarcerada em uma cadeira de madeira grande, era com certeza uma mulher, cujas curvas femininas identifiquei, mas não consegui acesso visual para enxergar seu rosto.
Mas que porra estava acontecendo ali? Ela tinha uma lâmina enterrada na perna, por onde muito sangue escorria, já formando uma poça no chão, se não fosse por alguns movimentos reflexivos que ela realizava, poderia jurar que estava morta. Essa imagem fervilhou o pouco de paciência que me restava e então engatilhei minha arma, foi quando ouvi a voz da mulher se manifestar, interrompendo qualquer ação que eu poderia executar.
— Ficar andando de um lado para o outro, feito barata tonta não vai adiantar muita coisa, sabia? O que foi, esta com medo de um tirinho? — ela soou prepotente e audaciosa para uma prisioneira. Interessante.
— Cala essa boca, eu vou arrancar a sua língua — respondeu desesperado.
— Antes ou depois de me matar? — mais uma vez ela provocou. — Quer saber de uma coisa? Eu conheço pessoas como você, minha parceira costuma designá-los como loroteiros, homens que falam demais e agem de menos. A realidade é que você esta tremendo de medo — riu. — Ora vamos, nós dois sabemos que você assinou sua sentença de morte quando me pegou, e esse tiro só pode significar que já acharam você.
— É impossível! — berrou o homem, ao chutar uma cadeira quebrada para disseminar sua ira. — Eu mesmo arquitetei aquela emboscada, tomei todos os cuidados cabíveis para não ser rastreado e, inclusive, mantive apenas meu subordinado mais fiel como guarda-costas — vangloriou-se.
Ainda bem que ele não sabe qual fim levou o guarda-costas e, cá entre nós, “subordinado” e “fidelidade” não ficam muito bem dentro de um mesmo contexto.
— Se você não me disser o que eu quero saber, irei atrás das suas amiguinhas, e pode ter certeza de que não serei tão gentil como agora — ele afirmou ameaçadoramente, mas era evidente que estava descontrolado. — Onde, porra, fica a merda da sede do Projeto Lótus?!
Meus olhos se arregalaram. Projeto Lótus? Ele realmente tinha falado a respeito disso? Era muita coincidência me deparar com essa situação. Esperei minha vida toda para encontrar alguma informação sobre esse caso, e agora me vejo diante de uma pista primordial, porém, permanecer apenas escutando essa conversa poderia acarretar na morte daquela mulher audaciosa.
O Projeto Lótus. Uma pesquisa clandestina realizada a cerca de vinte anos atrás, que acarretou na morte de centenas de pessoas. E, mesmo não tendo nenhuma ligação comprovada com as Flores de Lótus – óbvio, se tratando de um evento antigo – eu sempre tive a infelicidade de ligar-me quase magneticamente com casos cujos nomes carregavam o dessa maldita flor.
— Voltamos a estaca zero? É que tínhamos parado na parte em que você me mata com aquela seringa ali — a mulher apontou com o pé esquerdo para um objeto no chão, era uma seringa com um liquido amarelado, desconhecido por mim, dentro. Mas presumi ser algum medicamento letal.
Eu precisaria agir. Nada, nem mesmo meus interesses pessoais, me impediriam de salvar a vida de uma pessoa.
Minha vista já dava indícios de oscilação e eu não resistiria muito mais tempo naquela posição, que favorecia na minha circulação sanguínea, intensificando o coágulo. Eu teria tempo para pensar sobre toda essa merda depois – se eu sobrevivesse –, e encontraria respostas, tenho certeza.
À medida que ele passou a caminhar na direção da moça, com a seringa já em mãos, me limitei a mirar precisamente em sua nuca. Não poderia errar, seria um tiro certeiro. Fechei os olhos momentaneamente, sentido a direção do ar, calculando a velocidade do disparo, e a probabilidade de desvio, para só então apertar o gatilho.
Antes mesmo de o barulho proeminente do disparo se extinguir, o corpo ensanguentado do sujeito já se encontrava no chão. Mas não me ative a isso, pois achei muito interessante o som estridulo gerado pelo grito espantado da garota. É, foi engraçado ouvi-la perder a pose.
Mas a verdade é que já não tinha forças para mais nada, ao menos não morreria no meio do deserto, mas sim em uma cabana no meio de um deserto após salvar a vida de uma jovem, ao menos isso era mais honroso.
Meus olhos se enegreceram ainda mais e com muita dificuldade me sentei recostado na parede, enquanto ouvia alguns barulhos estranhos vindos do andar de baixo. Aquela maluca devia estar tentando se soltar, mas creio que somente alguém muito habilidoso conseguiria, quem era ela afinal?
Senti quando minha respiração cessou e minhas extremidades adormeceram. Eu podia estar delirando, mas tenho a certeza de visualizar alguém saindo daquele buraco do chão. Ou era a mulher — comprovando ser alguém cujas habilidades eu menosprezei -, ou o homem virou um zumbi, e eu voto na primeira opção.
Forcei-me a abrir os olhos e constatei pernas curvilíneas mancando em minha direção. E que pernas! Mesmo o sangue que escorria irregularmente por uma delas, parecia ainda mais sensual. Bem que eu queria... Droga, eu não devia pensar numa coisa dessas enquanto meu próprio sangue escorre para fora de mim.
Talvez ela me salve, sim, talvez ela tenha um celular e possamos fugir daqui... talvez ela me faça um curativo e eu consiga sobreviver!
Ou talvez ela apenas me acerte um chute entre o maxilar e o ouvido.
E foi o que ela fez. Por sorte meu corpo todo já estava dormente e a dor se tornou insignificante. A última coisa que vi antes de desmaiar – ou seria morrer? – foi a coloração loura de seus cabelos. Acho que já mencionei que prefiro as loiras. Bem, parece que loiras em perigo podem ser perigosas.
No próximo capítulo de Flor de Lótus.
...você esta dizendo que pode existir alguma ligação entre o Projeto Lótus, de vinte anos atrás, com as criminosas da Flor de Lótus? Olha, não me leve a mal, mas a perda de sangue deve ter afetado o seu cérebro. Olha para você, esta parecendo um vampiro em jejum, de tão branco.
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