Flamel
11 Viva Por Mim
Notas iniciais
Acordei de manhã e logo que abri meus olhos. Toda a pressão do problema despencou em meus ombros. Nossa, pensar que eu e Amohi teremos de salvar Mary de uns caras bem bizarros, e de quebra, acabar com os planos de um maníaco, que mata todo mundo só por diversão. A que ponto eu cheguei e a que nível de envolvimento esses dois me levarão? Meio tarde para voltar atrás. Não recuarei, todas as circunstâncias me fizeram ir para esse momento, e isso não passará em vão. Tenho uma promessa em meu coração e eu não vou quebra-la, mesmo que seja contra a decisão dela.
Levanto do chão, pois não consegui dormir em minha cama, a mesma cama que fez Mary se sacrificar por mim. – Eu sorrio. – O cheiro dela ainda está impregnado nos meus lençóis, quando ela chegar aqui eu vou dar uma bronca daquelas. Ponho instintivamente o uniforme do Fatores, não que isso faça muito sentido, mas ultimamente, nada mais está fazendo muita diferença para mim.
– Pronto para ir? – Disse Amohi entrando pela janela do meu quarto.
– Porque vocês tem essa mania de não usar as portas?
– Acredite, é mais fácil só dar um pulinho aqui do que, subir uma escada e girar uma maçaneta. – Disse o sempre encapuzado com um leve sorriso desajeitado.
– Se você diz. Quando iremos atrás daqueles caras? – Indaguei.
– Vejo que você está pronto. O prédio fica a duas quadras do fatores colineares. O melhor jeito será ir com o uniforme mesmo. – O semblante dele mudou completamente. Agora ele está sério, mas com um certo brilho animador nos olhos. – Iremos quando eu te ensinar uma coisa que, Mary não teve tempo, mas que é essencial. Antes que você diga algo, é uma coisa bem simples.
– Tomara que eu aprenda rápido mesmo. – Fiz uma cara de preocupação, não faço a mínima ideia do que seja.
– Se concentre em sua flamel. Sinta o metal frio que a envolve e lembre-se da ligação que ela fez com você. Consegue sentir a energia que ela transmite para o seu corpo ?
– Sim.
– Diga Korir seguido do nome de sua flamel. Dessa forma, Korir Abad. – Logo eu vi, a lança pairar na frente de quem eu conheci ser Wesley, o mesmo pegou-a no ar e a apoiou no chão.
– Korir Eligor. – Assim como a Abad apareceu para Amohi, Eligor apareceu para mim e logo que eu toquei em seu corpo, ouvi uma voz.
– Até que enfim um pouco de jandariano vindo de sua boca, e sim, antes que você pergunte, isso quer dizer que eu te aceitei como meu usuário temporário, mas não se vanglorie, aposto que ainda encontraremos alguém mais forte que você e eu te largarei. – Senti uma leve aura de conformação vindo de Eligor.
– Bom, viu como foi fácil? Já estamos prontos para ir. E antes que você me pergunte “por que razão eu aprendi isso?”, pense um pouco, será mais fácil irmos sem nossas flamels para lá. Nós só as chamaremos quando estivermos dentro do complexo.
– Entendi, chamaríamos muita atenção. Mais alguma coisa?
– Não, vamos deixar nossas lanças aqui e vamos para lá. Esteja preparado para fazer tudo e ser muito atento. Serão vários inimigos, mas acho que conseguiremos.
E foi assim que nosso resgate a ruiva começou. Optamos por ir a pé, pois a moto de Amohi seria muito chamativa e provavelmente não entraremos pela frente. Em uma de suas investigações anteriores, Mary conseguiu averiguar a ligação de um bueiro em especial com a parte inferior do prédio, o que não quer dizer que, terá alguém nos esperando com uma cesta de petiscos e uma taça de vinho, na verdade esse foi um sonho surreal.
Assim que chegamos na esquina do prédio, pude constatar que, ele fica localizado a duas esquinas do Fatores. Ele é branco e tem algo por volta de dez andares e ao que tudo indica, há vários jandarianos dentro, mas todos os vidros espelhados que o encobrem, não deixou que eu conseguisse ver por dentro.
– Bom Ryan, esse é o ponto onde não há volta. Você tem certeza que vai resgatá-la?Estou te perguntando novamente, pois aqui conseguimos sentir a tensão que esse lugar emana. Devo confessar que eu estou um pouco ansioso, mas você me deu forças ontem para fazer um pouco a vontade do meu coração. – Amohi agora tinha uma expressão de que iria salvá-la mesmo que fosse sozinho.
– É claro que nós vamos salvá-la, tenho de assumir minha palavra e além de tudo, é o que ela faria por mim, não como dever e sim porque sinto que ela me protege. – Soltei um leve sorriso sem graça.
– Então vamos logo, mal posso esperar para ver a cara que Mary fará.
– Sim, vamos.
Eu e Amohi entramos em um bueiro que ficava localizado em uma rua transversal, por volta de 200 metros do prédio. Estranhamente, essa tampa tinha uma coloração mais nova do que a dos outros da rua, meio previsível para um túnel subterrâneo de 3 meses deidade.
Quando nós descemos, as escadas do que era pra ser um esgoto, nos surpreendemos com a iluminação do local. Estávamos esperando um lugar escuro, úmido e fétido, mas muito pelo contrário, o lugar era iluminado e muito limpo, as paredes eram de um concreto muito recente e uniforme. Cada passo que nós dávamos, nós conseguíamos ver uma espécie de sala com chão e parede de concreto com uma porta de madeira em uma de suas extremidades. Algumas mesas com umas ferramentas como: chaves de fenda e algumas lonas.
Quando nós chegamos perto desse local, ouvimos vozes vindo do outro lado daquela placa de madeira, e logo, Amohi e eu ficamos nos dois extremos horizontais da mesma, esperando que as pessoas que vinham em nossa direção, sejam pegas de surpresa pelo nosso ataque.
Dito e feito, quando a porta foi aberta, nós conseguimos golpear três soldados de surpresa. Amohi decapitou dois deles com apenas um balanço de sua lança, sujando de sangue grande parte do chão no nosso lado da sala e eu dei uma rasteira no outro soldado e depois chutei sua cabeça para que o mesmo desmaiasse.
–Vamos usar aquela lona ali para esconder os corpos e amarrar o que está inconsciente, mas com relação ao sangue, eu não posso fazer nada. – Disse o decapitador de pessoas ao limpar umas gotas de sangue que pingaram em sua bota para depois ir em direção as lonas.
–Vê se da próxima vez você não os mata, mas apenas os desmaia. Sério, algumas mortes não são necessárias. – Não conseguia me conformar em tirar uma vida, mas eu entendo que ele conviveu com isso a vida inteira e para ele é normal esse tipo de atitude.
–Tá tá, entendi.
– Vamos, ainda temo muito trabalho a frente.
Depois que eu e Amohi passamos da porta de madeira, nós fomos para uma pequena passagem escura com uma escada. Finalmente nós estaremos no local definitivo de nosso resgate. Caminhamos pelas salas do que parecia ser o hall, e pelo incrível que pareça, todo o lugar era como se o lugar só tivesse sido construído para que, a parte de fora parecesse um prédio comercial, digo isso pois, o prédio está vazio. Tudo que nós víamos se baseava na estrutura do complexo e algumas caixas que também estavam vazias. Nós avançamos e subíamos de forma cautelosa, mas a mesma cena se repetia. Já estávamos no penúltimo andar do prédio e nenhum sinal dos guardas, eles estão no último andar, eles tem de estar lá.
– Será que não vai haver ninguém aqui? Será que viemos em vão e eles já levaram a Mary? –Meus pensamentos fugiram de minha mente e se transportaram para minha boca.
– Quieto, sinto a presença de onze pessoas, parece que nosso inimigo é um pouco maior do que nós esperávamos. Ryan, por favor, não se arrisque demais, pois se você morrer, ela nunca me perdoará e nossa missão será dada como total fracasso. – Uma gota de suor escorria pela testa de Amohi, algo me diz que ele sabe que algo ruim está por vir.
Ouço o som de passos descendo a escada e antes que eu perceba, vejo meu protetor largar a flamel no chão e reclinar a cabeça.
– O que houve? – Pergunto.
– Eles nos perceberam assim que nós entramos aqui e minha inutilidade me fez perceber isso só agora. Aqueles soldados que nós matamos na entrada, eram a isca para saber se nós estávamos de fato aqui.
– Ora, ora, o que temos aqui? A resistência jandariana pronta para morrer. Entendo, parece que vocês não tem amor a vida que eu deixei que tivessem. Bom, não me resta mais nada, deixarei que vocês a vejam, mas somente para que ela contemple sua morte.Não sei se ela conseguirá reconhecê-los depois da medicação, mas vamos tentar, certo? E antes que você façam alguma gracinha, nós bloqueamos os comandos por voz de suas arminhas de brinquedo, então não conseguirão chamá-las depois que nós a tomarmos. –Disse Gastin com um largo sorriso estampado em seu rosto.
Fomos escoltados até o último andar. Nesse lugar havia somente uma grande sala totalmente panorâmica e vários soldados nos aguardavam, todos eles empunhavam suas flamels e as apoiavam no chão, como se fosse uma espécie de cajado ou um sinal de “aguardando instruções”.
Logo Gastin correu para o canto esquerdo da sala, no qual se encontrava Mary. Ela estava presa por grilhões em uma parede e muito debilitada. Nada mais que uma túnica bege cobria seu corpo, seus olhos perderam a vida e o calor. Parece que ela realmente tinha se entregado ao fato de morrer ou ter se sacrificado por mim, e talvez, pelo fato de não poder mais ver o suposto único amigo que ela teve.
– Olá ruiva, olha quem veio lhe ver. – Gastin pegava a ponta de sua lança e tocava no queixo de Mary fazendo-a levantar o rosto e focar seus olhos nos meus.
Amohi golpeia o soldado que está na sua esquerda, pega sua flamel e vai na direção de Gastin que, por sua vez, crava sua lança no meio do peito de seu oponente.
– Amohi, não!
– Mas que pena, parece que ele morreu e não tem como eu me divertir com ele, tomara que você consiga pelo menos me fazer suar.
– Mary, me ouça, saiba que não deixarei de ser quem eu sou. Sei que no fundo você sabia que eu viria por você, então não se preocupe que logo termino com isso.
Depois de minhas palavras, vi o olhar de Mary aquecer e seu rosto corar levemente. Percebi também que a Eligor estava me chamando para que nós terminássemos logo aquela peleja, pois ela queria descansar.
– Korir Eligor. – Disse.
Minha flamel estava leve como nunca, vejo pela ponta de minha franja que, meu cabelo está branco, e logo percebo o sangue escorrendo do meu rosto. Um sorriso abusado se abriu em meu rosto, o que fez as mãos de Gastin tremer, meu oponente estava visivelmente desestabilizado, tenho de usar isso em meu favor.
– Então quer dizer que o escolhido na verdade é você. Entendo, pena que você veio direto para as garras do seu predador. Vai ser muito bom te matar.
Meu oponente vem com uma série de ataques frontais ligeiramente difíceis de se defender, mas eu consegui fazê-lo. De repente, ele some da minha frente e aparece atrás de mim e me golpeia na cabeça me deixando tonto.
– Parece que você não é tão ameaçador quanto parecia, te dou 20 segundos de vida.– Gastin sorria incontrolavelmente.
Novamente, ele se moveu mais rápido do que os meus olhos e investiu vários golpes, mas dessa vez, ele estava muito mais veloz e tudo que eu conseguia de seu rastro, era sua risada. Em alguns momentos, eu conseguia ver seu vulto, mas nada que eu conseguisse prever ou atacar de volta. Droga, se isso continuar assim eu vou morrer e tudo isso seria em vão.
Vários ataques depois, eu mal me aguentando em pé e minhas roupas estavam muito ensanguentadas. Havia lacerações por todo o meu corpo, não sei como ele não tinha me partido no meio ainda. Seguindo a linha de raciocínio dele, ele está apenas se divertindo com o meu sofrimento.
–Vamos melhorar as coisas, já que eu sei que a ruiva não é a escolhida, posso me divertir com ela também. Adeus Mary.
Numa fração de segundos, Mary estava atrás de mim e estava chorando, Gastin estava na minha frente e minhas mãos estavam com o corpo de sua flamel, mas uma pontada sondava todo o meu corpo. Quando eu vi o sorriso vitorioso de meu inimigo, pude perceber que ele atravessou sua lança em meu abdômen e logo vi que eu estava perdendo a consciência.
De repente, a voz fraca de Mary começou a ser ouvida logo acima do meu ombro.
–Ry... An... Ryan... Não... Desista... Viva por... Viva por mim...–
Essas palavras foram seguidas por um clarão.
Notas finais
Welldone, Cya.
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