Flamel
2 Vermelho Sangue
Notas iniciais
Acordo com o som ensurdecedor do despertador tocando. O clarão vindo do lado de fora só me fez querer afundar minha cabeça com o travesseiro e fingir que não acordei. Quando estava quase voltando pros meus sonhos, a imagem da menina misteriosa surgiu na minha mente. Droga, eu já estava acordado demais para voltar a dormir. Cambaleei até o banheiro para lavar meu rosto e quando volto pro meu quarto, posso ver o meu ônibus indo em bora.
Coloco o café pra fazer enquanto visto meu uniforme do colégio. Tentei sincronizar ambas ações pra que eu terminasse um quando o outro estivesse pronto. Acordei disposto a não ser afetado por nada hoje.
— Tudo vai ser perfeito. – Disse enquanto terminava a xícara de café.
Pego meu chaveiro em cima da mesa de madeira escura que fica no meio da cozinha. Vou em direção à porta e o sol das 7h da manhã queimou meus olhos e iluminou a grama verde do quintal da minha casa. Quando saio pelo portão cinza, suspiro ao avistar os infinitos paralelepípedos que eu seguiria por 30 minutos até chegar ao colégio Fatores.
Chego no colégio e, novamente, me deslumbro com aquele outono que sempre estava presente. Não muito depois de virar a primeira esquina do pátio, avisto um de meus amigos, Pietro. Ele e eu entramos no colégio na mesma época. A forma que nos conhecemos foi meio engraçada.
Pietro era mais alto que eu, e tinha um característico alargador prateado na orelha direita, cabelo sempre bagunçado por simplesmente pentear para trás e seja o que Deus quiser depois disso, olhos castanhos, corpo franzino e pele branca.
…
Lá estava eu, em meu primeiro ano no Fatores e quando olho para o lado, vejo uma criatura albina e magricela, obviamente mais alta que eu, mas não tanto. Começamos a nos falar, pois ele foi o único que sobrou em um trabalho que a professora passou para turma. Já que nem eu e ele lembramos de fazer a tarefa, terminamos o trabalho 2 horas antes do início da apresentação, ou seja, extremamente atrasados, tudo ocorreu bem e nós nos tornamos melhores amigos um do outro, logo depois “fundamos” o grupo de amigos que nós andamos.
…
— Aí, seu idiota, tá fingindo que nem me conhece ? – Pietro gritou.
— Cara, tava distraído. Porque você tá me xingando a essa hora? Ainda to dormindo. – Respondi em tom de brincadeira. – Olha quem está vindo Pietro, o seu amor, mais conhecida como Marisa. Quero ver quando vocês vão se oficializar. Lembre-se, agora ela está no segundo ano, então cê não tem mais desculpas.
— O queeee ? – Disse Pietro não entendendo nada.
— Olá, meninos. – Disse Marisa se posicionando para dar os característicos dois beijos no rosto de cada um.
Marisa é uma menina de longos cabelos castanho claro com as pontas loiras, ela usa um piercing transversal na orelha esquerda e um alargador preto na orelha direita, tem a pele parda e um corpo de dar inveja a muita gente, sendo que ela só tem 16 anos.
— Como vocês estão ? – Perguntou Marisa vendo Pietro corar.
— Eu to com sono e você Marisa ? Como foram suas férias ? – Perguntei.
— Você sabe, casa e reunião familiar, não é algo que eu curto muito, mas é necessário.
— E você Pietro, como você tá ? – Perguntou Marisa.
— Err... eu vou bem... também... – Pietro parecia um tomate. Ele gosta dela, mas não admite isso, talvez ele seja tímido demais.
— Que vergonha é essa Pietro ? Tem vergonha de falar comigo ? Vergonha de ser visto com minha pessoa? Se não quiser mais a minha presença avise. – Disse Marisa já se afastando de nós.
— Cara, eu não entendi nada, porque essa raiva gratuita? – Pietro resmungou.
— Ai meu Deus. Quando você vai falar do que você sente pra ela Pietro?
— Dizer o que Ryan ?! Você só pode tá viajando. – Disse Pietro enquanto o sinal do início das aulas começou a tocar.
— Cara, antes de você ir. Você viu aquela menina nova que entrou no colégio? – Perguntei a Pietro.
— E como não ver uma deusa daquelas? Velho, eu ia olhar a listagem dos alunos e ela parou em frente ao papel onde estava a sua sala, e se liga, nós não vamos estudar juntos esse ano.
— O quê?! – Exclamei surpreso – Como assim nos separaram no nosso ultimo ano? Como se isso não bastasse, aceitaram a transferência de uma aluna na nossa classe?
— Velho, você sabe como esse colégio é louco, então não vou reclamar com a direção. Depois nós pedimos transferência para a sala entre nós. E sim, ela é uma aluna transferida, o que é muito bizarro. – Respondeu Pietro já se despedindo.
Peguei minhas coisas e já comecei a caminhar para minha sala, que no caso era no prédio “Elite” do colégio, onde só ficavam os melhores alunos e as melhores turmas. Para minha surpresa Pietro não foi para lá, acho ocorreu um engano e o colocaram na única turma do terceirão que estava no prédio do meio, o que era o mais bagunçado e obviamente era o lugar com os piores alunos e as piores turmas. Coitado dele, o nerd no meio dos valentões.
Quando cheguei na minha sala, lá estava ela, me encarando com seus olhos castanhos. Sentei 3 carteiras a sua frente, a fim de ignorá-la, tentando desligar meu lado Sherlock.
— Alunos, sou seu novo professor de física e quero conhecê-los. Vocês vão dizer seu nome; idade; cidade natal e seus sonhos, você começa. – Disse o professor apontando para um aluno próximo a porta.
— Eu sou …
Assim que o cara começou a falar, falhei em minha missão e foquei em tentar desvendar o segredo dela. Resisti o quanto deu, mas é mais forte do que eu. Comecei a pensar em todas as possibilidades ou um motivo de ela ter me chamado tanta atenção. Ela continuava sendo um mistério pra mim, um enigma que eu estava disposto a desvendar, mas será que eu deveria ou seria seguro para mim fazê-lo? Um novo calafrio percorreu minha espinha.
— Hm... Ok, o próximo. – Disse o professor.
Para ela ter sido transferida para o Fatores, ela deve ter tido um passado misterioso, uma história bem complexa ou ser de uma família influente, afinal, para conseguir transferência assim, só se alguma dessas características forem contempladas. Para que seja verdade, ela provavelmente seria rica, mas ela não tem anéis, brincos ou cordões a mostra nem algo parecido. Pra ser bem sincero, se não fosse sua beleza seu cabelo vermelho e essa "aura", ela seria a pessoa mais comum daqui. Cheguei a conclusão que eu penso demais…
— Ryan, sei que você é desligado, mas assim já é um absurdo. – Disse o professor com uma cara raivosa.
— O que houve ? – Perguntei ao professor.
— É a sua vez de se apresentar. Sei que já te dei aula, mas não faz sentido todos falarem e você ficar aí sentado quieto o tempo inteiro, não acha ?
— Ah sim... Meu nome é Ryan d'Castri, tenho 17 anos, sou nascido do Rio de Janeiro, meu sonho é trabalhar na área de pesquisa espacial, pois sempre tive paixão com o universo e tudo que nele habita.
— Seja mais atento, Ryan. Ok... Próximo.
— Meu nome é... – Começou outro colega de classe.
Só precisei falar sobre o que eu gostava para todos começarem a cochichar sobre como eu parecia estranho em dizer uma coisa dessas. Não dou a mínima para o que eles pensam, se eu descobrir algo como vida extraterrestre, eu poderia mudar o mundo.
— Ok, agora é sua vez aluna nova.
Seguida das palavras do professor, um clima de tensão foi gerado. Todos viraram suas cabeças na direção dela, prontos para ouvir cada palavra e ver cada gesto que ela fizesse. Parece que não sou o único que está curioso com a chegada dela. O que ela tem que hipnotiza todos ao redor?
— Meu nome é Mary Alves, tenho 17 anos, sou de São Paulo e vim cumprir minha missão aqui no Fatores. – Disse de forma apática e ensaiada.
— Sua missão seria se formar no ensino médio, certo? – Perguntou o professor.
Todos riram.
— Também, mas não preciso entrar em detalhes, preciso? – Disse ela soltando um olhar ameaçador para o professor, que o fez gaguejar.
Com essa declaração o silencio voltou a reinar e o clima que antes era pesado ficou ainda pior. Ouvi o sinal da troca dos professores e ele saiu da sala com o emocional um pouco abalado. Coitado. Sinto que eles não estava preparado para esse tipo de resposta.
No final da aula, já era de tardinha e eu estava esgotado, afinal, quem adivinharia que todos os professores dariam aula hoje ? Vou a pé para minha casa. No caminho eu percebo que ela está me seguindo. Isso só pode ser coisa da minha cabeça. Ela mora perto de mim? Não percebi nenhum morador recente no meu bairro.
Viro algumas esquinas e a perco de vista. Chego em casa e jogo a minha mochila na sala. Quando vejo a casa toda escura e sem vida, sinto saudades do meu irmão. Vivo sozinho desde que ele foi viajar à trabalho. Subo para meu quarto e coloco a primeira roupa que encontro. Olho meu celular, vejo uma mensagem de Pietro e os outros me avisando que finalmente estão animados para jogar RPG. Não nos reunimos no período das férias.
Ouço um barulho vindo da sala e quando chego lá, me deparo com a imagem de Mary me fitando com uma "cruz" em formato de lança enorme pousada em seu ombro. A "cruz" era bem maior que eu, era prateada, com linhas vermelhas das laterais para o centro, brilhantes como se passasse energia ali, uma linha fina se ligava a uma espécie de luva que ficava em seu punho direito. Eu poderia jurar que a esfera vermelha cravada no centro da lança pulsava como um coração.
Esfrego os meus olhos por um segundo e ela não está mais lá. Eu acho que preciso ver mais gente, tô tão solitário que estou alucinando. Fui para a cozinha fazer algo para comer. Mais tarde colocando o lixo para fora, eu vi novamente a imagem dela, mas como antes, em um piscar de olhos desapareceu. Meu instinto disse que essas aparições eram um aviso de perigo, mas como sempre, deve ser coisa da minha cabeça.
Do lado de fora da casa, vejo um clarão e um grito vindo janela da sala. Quando entro em casa, me deparo com Mary e um homem bem alto encapuzado e roupas pretas, ambos tinham a tal "cruz" nas mãos.
— Não era para você estar aqui! Saia agora! – Gritou Mary olhando para mim.
Nessa fração de segundos que nosso olhar se encontrou, o homem rapidamente me feriu no abdômen.
Com o impacto do golpe, fui jogado contra a porta da sala. Ferido e coberto pelo meu sangue, eu não sentia mais os meus dedos. Quando olho pra baixo pude ver que meu antebraço direito havia sido arrancado do meu corpo. A adrenalina não me permitia sentir dor, mas eu sabia que eu iria morrer se não parasse o sangramento.
— Tyfah oon Kruxim! – Exclamou Mary aproveitando a distração do homem.
Nesse momento, eu vejo a cruz girando na palma de sua mão como uma espécie de broca que ia atravessando o corpo de seu oponente. O sangue jorrou em mim e por toda a sala. Não sei se foi a cena ou se é a adrenalina abaixando, mas eu estava perdendo a consciência.
Ofegante, ela veio em minha direção, meu olhar é fixo no dela e vi que ela com alguns ferimentos leves.
— Desculpe a bagunça e o sangue. Droga! Não era pra você ter visto. – Diz Mary cambaleante.
— Você m-matou ele? – Assim que digo essas palavras, eu começo a sentir uma dor excruciante em todo meu corpo.
Ela corre e começa a aplicar pressão no meu abdômen.
— Não se preocupe, ele era ninguém para se importar... Não mais. – Respondeu ela rasgando um pedaço de tecido da camisa pra tentar parar o sangramento.
Sinto meu ombro latejar de dor, ele começou a ficar escuro, assim como minha visão estava ficando turva.
— Droga! Não vai dar pra te salvar por meios comuns. Você tem de fazer uma escolha. Eu posso te salvar, mas você nunca mais será o mesmo. – Disse Mary com uma voz preocupada.
— Me s-salve... – Respondo com minhas ultimas forças.
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