Flamel
3 Quem Ela Estava Procurando
Notas iniciais
Eu estava algemado e de joelhos em frente a uma multidão enfurecida que a pouco tempo me via como rei. Tudo aquilo era um tribunal e o réu era eu, que o que mais desejava era justiça para meu povo. Eu não poderia deixá-los sofrerem mais.
Novamente esse sonho veio me atormentar. Como uma espécie de déjà-vu, minha mão tocou o lençol úmido e bagunçado, todo amarrotado da noite anterior. Segundos depois do meu despertar, meu telefone acusa a hora de tomar um banho e ir para o colégio para o meu terceiro dia de aula.
Assim que levanto de minha cama, flashes daquele sonho macabro tomam minha mente. Aquilo foi tudo tão real, mas era um sonho, não era? Meu antebraço está no lugar e o buraco na minha barriga não está mais aqui.
Quando olho pra baixo, percebo que emagreci. Me sinto mais leve e mais forte. Vou ao banheiro, e quando me vejo no espelho, tomo um susto que quase me faz cair. Minha íris estavam com alguns traços avermelhados bem discretos, mantendo um pouco do tom verde que já havia.
Meu corpo se tornou mais atlético e minha estatura mudou. Estou mais alto que Pietro, não sou mais o "baixinho" que costumava ser. Meu cabelo agora está um pouco maior, minha franja já alcança minhas sobrancelhas.
Meu despertador toca mais uma vez.
Estou extremamente atrasado. Percebo que minhas roupas estão pequenas em mim. Tive de pegar uma calça do meu irmão e a camisa do colégio ficou um pouco curta, mas esse era o menor dos meus problemas. O que aconteceu comigo? Aquilo não foi um sonho?
Decidi ir correndo, por que perdi meu ônibus. Incrivelmente, quando começo a minha pequena maratona, tudo ao meu redor vira um borrão. Me espanto com minha própria velocidade e volto a andar normalmente para não chamar tanta atenção desnecessária.
O que aconteceu depois de eu ter desmaiado ? E o que ela quis dizer com: “Você nunca mais será o mesmo.” ? Essas palavras ecoam em minha cabeça até o momento que avisto a fachada do Fatores.
Chego ao colégio e há muitos alunos para ser a primeira semana de aula. Passando pelo portão, logo vejo Pietro e o resto dos nossos amigos.
— Seus malditos, vocês só não viriam na terceira semana de aula ? – Pergunto.
Eles me olham e ignoram as minhas palavras, até que Marisa me reconhece.
— Ryan ? – Pergunta ela.
— Sim, sou eu, estou tão diferente assim? – faço uma careta que sempre faço pra mexer com ela.
Marisa pula em mim.
— Porque você sumiu tanto tempo sem dar notícia? – Ela pergunta enquanto me dá um abraço mega apertado.
— Hoje não é o terceiro dia de aula? Eu estive aqui ontem e vocês não vieram. – Digo não entendendo a situação.
— Terceiro dia? – Ela dá aquela risada característica dela – Estamos no segundo mês de aula. Você ficou sumido por mais de um mês. – disse ela.
— Seu filho da... ! – Exclama Pietro.
Pietro vem ao meu encontro com uma cara aborrecida, me dá um leve tapa na cabeça.
— Por onde a senhorita tem andado? E você está bem diferente. Cê tá tomando bomba? O que aconteceu com contigo? – Pergunta ele.
— Velho, pra mim esse é meu terceiro dia de aula, você sabe que eu sou assim no início do ano. O que vocês estavam pensando que eu estava fazendo enquanto eu estava ausente? Claro que eu fiz uma nova dieta e fui pra academia. – Menti.
Cumprimento o resto do pessoal. Assim que termino, ela passa por mim e sinto calafrios vindos do fundo da minha alma. Quando procuro seu olhar só vejo seu rastro. Tenho de conversar com ela.
— A aluna transferida também sumiu por um tempo. Vocês estão tendo um caso? – Disse Pietro.
— Tá maluco? – digo.
— Só achei muito estranho.
— Depois tenho que te contar umas coisas. – Quero dizer a ele o que houve entre mim e Mary, ou pelo menos o que eu acho que houve, sendo que eu não tenho certeza de nada.
— Ok, você tem muito o que explicar.
O sinal do inicio das aulas toca.
Pego minhas coisas e vou para sala de aula. Todos estranham minha atitude de ir direto para o recinto das torturas – como diz Pietro – no primeiro toque. Não posso me dar ao luxo de perder a oportunidade de conversar com Mary a sós. Preciso de respostas.
Chego na sala vazia e em um piscar de olhos, ela fecha a porta atrás de mim e me empurra contra a parede. Ela chega seu rosto muito próximo ao meu enquanto me analisava atentamente, aqueles olhos castanhos com traços leves de vermelho me hipnotizaram e anularam qualquer tentativa de reação por minha parte.
— Parece que você não teve problemas na sua transformação, essa é a confirmação final de que você é quem eu estava procurando. – Ela esboça um leve sorriso de alívio no canto da boca.
— O que você quer dizer com… – Sou interrompido.
Ela vai em direção a sua carteira e aponta para que eu sente também. Continuo olhando em seus olhos. Ela vira seu rosto e meio segundo depois, os alunos da turma começam a entrar junto com o professor de Física.
Vou em direção a minha mesa sem tirar os olhos dela e me sento. Meus pensamentos me dominam de uma tal forma que novamente me desligo da aula. Quem é ela? O que ela fez comigo? Ela é sensitiva para prever a presença das pessoas? Fiquei observando cada um dos seus movimentos, então a vi anotando em um caderno vermelho.
O caderno tinha uma capa de couro vermelha. Ele era tão pequeno que cabia no bolso.
O que ela pretende? Me deixar louco com seu mistério? Pois ela está conseguindo. Será que eu ainda sou humano ? Só de correr eu devo ter chegado a uns 70km/h num piscar de olhos, não sei como ninguém na rua me percebeu tão rápido assim., isso é obviamente impossível para as pessoas comuns.
— Hm, ora, ora, se não é o aluno turista. Ryan, você pode nos contar o que você fez nesse tempo todo que ficou desaparecido do Fatores ? – Disse o professor de física com um tom investigador.
— Na verdade eu fiquei malhando e fiz uma dieta, mas é claro que ninguém quer saber disso. Todos sabem que eu fico mais frequente com o passar do ano. – Contei a mesma mentira que disse a meus amigos.
— Sem problemas então, mas saiba que você perdeu uma grande parte da matéria, pegue tudo que foi passado anteriormente com a Mary, pois ela se voluntariou para fazer você entrar na linha.
Realmente, dessa vez eu acho que estou em ferrado.
As aulas terminam. Me encontro com Mary na biblioteca como o professor indicou. A biblioteca do Fatores é extensa. Diversas pilhas de livros pelos cantos e várias estantes com diversos títulos. Lá trabalha uma senhora bem baixinha que tinha alergia a tudo, então ela sempre andava com luvas e cheirando a álcool.
O lugar está vazio e isso não é bom. Me sento na mesa que fica no meio daquele labirinto de livros. Poucos instantes depois dessa ação, ela surge e senta ao meu lado.
— Espero que todas essas coisas acontecendo com você, não esteja te assustando. – Disse ela.
— Imagina, tentam me matar, depois me dão um soro e quando eu acordo eu estou completamente diferente. É claro que eu não estou assustado. – Falei com o tom mais irônico que tenho.
— Tome, essa é toda a matéria que você perdeu, e nesse livro é onde você vai fazer o relatório sobre tudo que mudou em você. – Ela joga um caderno escolar de cor preta e uma réplica do caderno de couro vermelho que ela sempre carregava consigo.
— O que te faz pensar que eu farei esses relatórios para você ?
— Simples, você não tem escolha e eu sou a única que tem as respostas. – Ela ia se afastando enquanto falava.
Essa mulher me dá calafrios, mistério é realmente a praia dela.
— Espera, onde você vai? – Disse eu enquanto Mary me dava uma ultima olhada antes de desaparecer na porta da biblioteca.
Meu celular toca e percebo que recebi uma mensagem no celular: “Não diga nada do que houve naquele dia na sua casa para ninguém, a segurança de quem souber estará em perigo, isso é um aviso antes que aconteça algo. Mary.” Como ela sabe meu numero de celular ? Ela tá ameaçando meus amigos? Não quero que ninguém seja ferido por minha causa. Não sei do que aquela mulher é capaz e tenho medo de descobrir. Seria ela capaz de ferir alguém que eu goste?
Como de costume encontro todos em frente ao colégio sentados em frente ao portão. Marisa me olha com um misto de confusão e surpresa, logo todos me fitaram do mesmo jeito.
— Tô vestido de palhaço ? – digo incomodado.
— Você cresceu e emagreceu e a claridade não está mais incomodando seus olhos. O que houve Ryan ? – disse Marisa
— Você conseguiu aquela poção, que você leu naquele livro que eu te emprestei ? – disse Therese com uma cara investigativa – Aquele sobre a imortalidade.
Therese é uma menina com pele branca e cabelo no ombro, bem preto com uma franja bem suave. Ela é viciada em livros por isso ela sempre está lendo algum ou discutindo com alguém sobre algo que ela leu. Costuma ser bem paranoica e inteligente.
— Aham, aproveitei e desenvolvi teletransporte só com o pensamento – fiz uma cara de deboche sem saber se era isso ou não, só sei que o líquido parecia sangue.
— Se você não quer compartilhar com os outros o elixir da imortalidade, compartilhe comigo e ninguém saberá do nosso segredo. – desse ela rindo freneticamente.
Dei uma risada sem graça e totalmente social, então Pietro veio a mim.
— Cara, o que você queria conversar comigo ?
— Nada demais, já resolvi. – disse num tom preocupado, mais do que eu queria demonstrar.
— Cara você some por dois meses e não diz para onde vai. Agora fica cheio de segredos, fora o fato de você achar que eu não te conheço. – disse Pietro com um olhar desapontado.
Eu entendia o que ele estava passando, afinal éramos melhores amigos, então dei um tapa na cabeça dele e mandei ele parar de palhaçada, porque todos achariam que estávamos tendo uma D.R.. Ele riu e logo em seguida, nos despedimos para ir embora, sei que isso não resolve, mas me dará um tempo pra reaver as semanas em que eu fiquei adormecido e conseguir algumas respostas.
Logo que virei a primeira esquina, Mary começou a andar do meu lado. Percebi que ela estava olhando para os lados pra se certificar que não estávamos sendo seguidos.
Fizemos todo o percurso em silêncio e aquilo me incomodou bastante. Eu estava com medo do que ela pudesse fazer. Se ela quisesse me matar, não teria me salvo.
Quando chegamos em minha casa ela desapareceu, de alguma forma isso era previsível, afinal ela deve pensar que eu sou o seu mais novo experimento, ou algo assim. Entrando em minha casa reparo que algo está diferente, alguma coisa que não estava lá de manhã. Havia uma cruz parecida com a que Mary empunhava pendurada bem no teto da minha sala.
Fiquei olhando aquele objeto que me causava calafrios, e de alguma forma senti minha pele se arrepiar, aquela cruz estava me chamando. Eu sentia cada pulsar daquela energia vermelha e sinuosa, uma conexão inexplicável poderia ser obtida assim que eu tocasse aquela arma prateada.
— Ryan... – Mary aparece atrás de mim, pulo em direção ao sofá com o susto. Ela só estava parada me olhando com olhos de preocupação.
— Não se assuste assim, não vou te machucar. – disse ela
— Entendo isso, o que eu não sei, é o fato de você sempre aparecer do nada. Preciso de respostas, preciso saber o que você fez comigo. Toda essa mudança tem mais efeitos colaterais?
— Acredite, tudo ao seu tempo. O que eu posso adiantar para você é que estamos do mesmo lado e tenho motivos para ter colocado essa lança no teto da sua casa. – ela pisca para mim num tom de cumplicidade.
— Isso é uma lança?
— Sim, sei que se assemelha a uma cruz, mas é uma lança. Uma arma bastante especial.
— E quais seriam os motivos para por essa lança no teto? – Perguntei.
— Você vai necessitar dela, para liberar todo o seu potencial, isso se você tiver um.
— O que você quer dizer com... – Tentei começar, mas Mary desapareceu.
Ignoro esse sumiço com um suspiro e vou para o banho. Coloco qualquer roupa e vou pra cozinha fazer alguns hambúrgueres, é a única coisa que eu estava com saco de fazer.
Desde que nossos olhos se cruzaram, tudo que acontece comigo não faz sentido, ela é misteriosa demais e não abre uma brecha. A impressão que eu tenho é que ela não é desse planeta. Espera aí, porque eu estou tão calmo? Preciso que ela me responda o que ela fez comigo!
Ouço uma vidros estourando e um estrondo muito alto vindo da sala. Quando corro para lá, me deparo com uma figura bem alta, aproximadamente dois metros de altura com vestes brancas e uma daquelas lanças em suas costas. Ele rapidamente empunha a lança e a aponta para mim.
— É exatamente atrás de você que eu estou. – Exclamou o encapuzado com uma voz extremamente grossa.
— O-o quê ?! – Exclamei apavorado.
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