Flamel
23 A Defesa Absoluta
Notas iniciais
Observei brevemente aquele vale cinza contrastado com a floresta ao redor. Eu conseguiria me perder facilmente naqueles inúmeros caminhos esculpidos onde um dia, já foi uma montanha. Esse lugar me remetia uma tristeza angustiante, eu me sentia cada vez mais sufocado. Logo vejo que há coisas semelhantes a escavadeiras e ferramentas de escavação. Esse lugar que foi abandonado as pressas, provavelmente para realizar esse plano maluco de destruir o planeta. Que tipo de governante é esse? Ele vai destruir todo seu planeta natal só porque quer.
— Ryan, não fique assim tão pensativo, esse lugar é uma mina de Falir, você não consegue sentir todo essa energia vinda de Onir? — Perguntou Amohi enquanto repousava sua mão no meu ombro.
— Tudo que eu consigo perceber aqui é tristeza, mas eu não sei de onde. — Disse enquanto Amohi fazia uma cara triste.
— Prontos? — Disse Mary.
Fiz um movimento positivo com a cabeça e começamos a andar.
Ela separou o nossas tropas em várias menores para ir em cada uma das diversas entradas da mina. Acabou que, eu, Amohi, Mary e mais dois soldados ficamos juntos.
O caminho que vamos seguir, é estreito e nos levará a entrada mais próxima ao fundo do canyon. Havia um lago com aguas cristalinas no fundo. O chão era cinza e levantava poeira ao andar. Quanto mais andávamos, mais eu me sentia sufocado por essa angustia que predominava naquele lugar.
— Ryan, já que você não tem o treinamento básico no campo, fique um pouco recuado. Poderemos detectar e desarmar armadilhas com mais facilidade se você não arma-las. — Disse Amohi com um grande sorriso estampado no rosto.
— Não, se preocupe com Ryan, Amohi. Ele é mais sensível a energia de Onir do que qualquer um de nós. Ryan, você sentiu uma sensação ruim quando chegou aqui, não foi? — Disse Mary enquanto caminhávamos.
— Sim, há uma tristeza percorrendo todo meu ser. Sinto-me cada vez mais sufocado por essa sensação.
— É compreensível. Muitas pessoas morrem em minas como essa. Falir em seu estado bruto, é tóxico. Um amigo meu que trabalhou em uma dessas minas, mal sobreviveu quando eles encontraram uma grande rocha feita inteiramente de Falir. Seus trajes quase não os protegeram. — Disse Amohi.
Quanto mais andávamos na direção do fundo daquele sitio de escavação, mais evidente ficava que o lago tinha uma cor que lembrava uma esmeralda. A agua refletia a luz dos dois sóis de Jandar. Vejo uma pequena pedra de um dos caminhos. Ela era pequena, mas tinha tamanho o suficiente para agitar a calmaria daquele lago. Logo vi que aquela agitação, fez com que o reflexo se espalhasse por todo aquele lugar. Confesso que fiquei hipnotizado em como uma coisa tão pequena pode fazer algo tão calmo quanto aquelas aguas, se tornarem alguma coisa diferente. Acho que essa é uma metáfora que resume bem minha vida ultimamente.
— Chegamos. — Disse Mary apontando para um buraco com uma estrutura de madeira na parede da cratera.
— Aposto que você nem notou que estávamos chegando, não é Ryan? — Disse Amohi.
— Sim, estou com uma sensação muito ruim pra esse lugar.
— Não temos tempo para conversar. Temos de seguir em frente e terminar essa missão. — Disse Mary em tom autoritário.
Acima dessa entrada, havia uma placa de madeira escrito "perigo, use sempre seu equipamento de segurança" em jandariano. Não precisei perguntar pra ninguém o significado, a tradução surgiu automaticamente na minha mente.
— Mary, esse lugar não é perigoso para nós? Essa placa dizia para usarmos um equipamento de segurança. — Indaguei.
— Interessante, você já está lendo jandariano. Não se preocupe, nossas flamels nos protegem da nocividade que o falir bruto irradia. Prontos para entrar? Já perdemos tempo demais.
Ao entrar na caverna, um ar fétido tomou conta de nossos narizes. Há um cheiro de morte aqui. Pude perceber que todos seguraram suas flamels com mais afinco. Aquele ambiente claustrofóbico me fazia perder o ar, não que eu tivesse medo, mas algo tenebroso ocorreu aqui antes de chegarmos.
Depois de andar alguns metros, Mary ativou sua flamel e a energia que circundava seu corpo, iluminou o nosso caminho, logo todos nós fizemos o mesmo. Engraçado notar que meu treinamento deu resultados e eu não preciso me concentrar pra fazer esse tipo de coisa.
O caminho que seguíamos era estreito, mal cabia duas pessoas por vez. Mary foi na frente abrindo caminho, enquanto eu e Amohi íamos logo em seguida. Os outros dois soldados estava tomando conta da nossa retaguarda, nós precisamos ter olhos em todos os lados.
Mary fez um sinal para todos nós pararmos. Ela abaixou a intensidade da luz que sua flamel estava emitindo e nós a seguimos. Logo percebemos que há quatro soldados com o uniforme do exercito real cuidando de uma espécie de sala onde haviam mesas, cadeiras, parecia um ponto de controle para os trabalhadores da mina. No outro lado da sala, vi dois outros caminhos, sinceramente não sei qual seguiremos.
— Nós não podemos perder tempo com eles. — Mary se adiantou e nocauteou dois deles com sua super velocidade enquanto os outros vieram em nossa direção.
Eu e Amohi desferimos golpes rápidos e precisos na direção dos nossos inimigos, nocauteei um deles enquanto o grandalhão imobilizava o outro. Eles não tiveram chance. Algo está errado, eles não parecem estar aqui por vontade própria.
— Por favor, não nos mate, eles nos deixaram aqui para morrer junto com os outros. Nós estamos procurando a saída. Não queríamos ter feito o que fizemos aqui em baixo, nós só cumpríamos ordens, não podíamos ir contra uma ordem direta do rei. — Disse o soldado.
— O que vocês fizeram aqui? — Indaguei.
— A mando do rei, nós trouxemos todos os trabalhadores da fábrica para o subterrâneo e tivemos de mata-los. Um dos homens do rei, injetou uma espécie de soro em cada um dos funcionários e os transformou alguns deles em marionetes sem vida. Agora eles estão no fundo de cada caverna protegendo cada uma das bombas que destruirá esse planeta. — O arrependimento e desespero estavam estampados no olhar daquele soldado.
— E porque você está colaborando conosco? Você é um soldado, devia estar acostumado a esse tipo de coisa. — Disse Mary.
Depois das palavras de Mary, comecei a pensar sobre que tipo de coisa ela e Amohi já passaram pra ser o que são hoje. Senti um aperto no coração ao imaginar Mary sendo capaz desse tipo de atrocidade.
— Minha ideia sobre honra mudou quando o Rei pediu para trancafiarmos sua irmã junto a bomba.
— A p-p-princesa está aqui? — Disse um dos soldados do fundo.
— Não temos tempo a perder. Amohi e Ryan vão pelo túnel da esquerda e eu vou sozinha para o túnel da direita. — Disse a ruiva.
— Mas Mary, nós devíamos estar todos juntos. — Logo sou interrompido pela sua mão em meu ombro. Seu olhar sério me deu a certeza de que ela fará tudo que ela puder para que todos saiamos vivos daqui.
— Vocês dois, escoltem os prisioneiros para uma das naves, não precisam voltar. — Disse Mary pouco antes de se tornar um borrão rubro indo para o corredor da direita.
— Lá vai a dupla dinâmica novamente. — Disse Amohi enquanto íamos para o corredor da esquerda.
— Você tem ideia de quantos funcionários tinha nessa mina?
— Não, mas esse lugar estava a pleno vapor. Tenho alguns números, mas chegava a quase dois mil funcionários. Levando em conta que alguns conseguiram fugir e o soro funcionou numa minoria, acho que teremos no máximo quinhentos inimigos para nos preocuparmos.
— Q-quinhentos? — Disse em tom surpreso.
— Sim, isso contando com a possibilidade de ter soldados vivos no meio deles.
Depois de algum tempo de caminhada, vimos uma espécie de elevador de metal que nos levaria até o ponto mais fundo daquele lugar.
— Já que ele está aqui, Mary pegou o caminho mais longo. Não tem problema, é capaz dela chegar antes de nós com a sua super velocidade. — Disse Amohi. — Vamos logo, mas muito cuidado, pois posso pressentir armadilhas nos esperando.
O grandalhão posicionou uma manivela que fica no canto direito daquela gaiola de metal e logo ela começou a se mexer. A caverna toda ecoava com o som do ranger do metal enferrujado pelo tempo. Quanto mais aquele elevador descia, de forma extremamente rápida, mais eu sentia um cheiro de podridão no ar.
Depois de minutos de descida, parecia que aquela mina não tinha fim. Amohi disse que a mina seguia por centenas de quilômetros a fio e que nós estávamos quase lá. Meus pensamentos são interrompidos pelo elevador se desfazendo nos colocando em queda livre. Devíamos ter notado que havia uma armadilha!
— Droga, agora estamos em queda livre e toda nossa missão será em vão! — Disse desesperado.
— Aí que você se engana. Segure-se em mim. — Disse Amohi.
Sua expressão não era de quem estava prestes a morrer, mas sim de alguém extremamente confiante no que estava fazendo. Pude perceber a serenidade de sua aura passando através de mim. Logo percebi que era uma energia defensiva extremamente poderosa.
— Confie e mim, nós vamos aterrissar bem.
Confio em Amohi, mas quanto tempo até o fundo nós teremos?
Segundos depois, nos encontramos com algo estranhamente macio.
— Ainda bem que nós conseguimos sobreviver a isso. — Disse enquanto ajudava Amohi a levantar.
— Droga, nós caímos em um dos trabalhadores. Esse provavelmente estava tentando fugir quando foi morto a algumas horas. Estranhamente, não há sangue nesse corpo. Esse é um dos efeitos do soro? — Amohi foi interrompido por um grito abafado de dor.
— Não sei, mas você tem certeza de que está bem? — Indaguei sabendo a resposta óbvia para aquela questão, Amohi tentou disfarçar, mas seu uniforme tinha uma mancha de sangue fresco na costela, provenientes da queda.
— Sim, vamos logo... — Amohi interrompeu sua fala e arregalou os olhos.
Me virei para acompanhar seu olhar e percebi que estávamos de frente a grande sala com centenas de corpos vindo em nossa direção. O impacto que tivemos com o solo, mandou vários para longe. Todas essas marionetes usavam um uniforme com camisa amarela e calça cinza. Eles tinham um lugar vazio no lugar de seus olhos. Seus movimentos eram descoordenados e previsíveis. Pude ouvir que do outro lado da sala, alguém já tinha começado uma luta com eles.
— Vocês vão me ajudar ou vão ficar parados aí? — Disse Mary enquanto golpeava um deles.
— Não disse? Acabou que ela chegou antes de nós. — Disse Amohi enquanto ia na frente golpeando os corpos.
— Me desculpem fazer isso com vocês. — Me juntei a Amohi e Mary.
Lutando contra essas criaturas, pude constatar que elas não morreriam nem se nós decapitássemos elas.
— Mary, eles não caem, o que nós devemos fazer? — Perguntei a ruiva.
— Você vai ter de fazer o que você fez com Galter, terá de desintegra-los. Sei que você não está se sentindo bem lutando contra eles, mas eles não são mais jandarianos. Acabando com o sofrimento deles, você poderá libertá-los para seguirem Onir na próxima vida.
Não gosto da ideia de fazer isso, mas como Mary já disse, eles já são marionetes sem vida. Me desculpem.
— Eligor, está pronto para mandar todos eles pelos ares? Esses inimigos não vão cair pelos métodos convencionais. Me desculpe pedir isso a você.
— Não há problema, comece a canalizar energia e te avisarei quando eu estiver pronto. — Respondeu Eligor em minha mente.
— Me protejam, vou canalizar minha energia, só demorará alguns segundos.
Instantes depois, Eligor me deu sinal verde para utilizar essa técnica. Minha flamel brilhou e se transformou em uma balestra, ela emanava uma grande energia, mais do que da ultima vez. O salão foi tomado por um clarão.
Vi todos aqueles corpos inertes sendo desintegrados na minha frente. Senti um aperto no coração cada vez maior. Eles não mereciam morrer desse jeito, não posso deixar quem quer que seja que ordenou esse tipo de coisa, ficar impune. O raio vindo de Eligor abriu um caminho para a superfície e a água daquele lago de antes, começou a descer.
Depois que o clarão se foi, percebemos que haviam vários outros corpos atirados no chão, provavelmente dos trabalhadores em que o soro não surtiu efeito. Havia um corredor onde ouvíamos uma voz gritando por socorro. Havia um calor imenso sendo emanado daquele lugar.
Quando seguimos por aquele corredor, nos deparamos com uma outra sala um pouco menor que a anterior, onde, no meio dela, havia uma mulher de cabelos azuis que me lembravam os de Raenuc, amarrada com uma espécie de míssil nuclear na cor preta. Logo notei que aquela era a bomba que poderia acabar com o planeta inteiro.
— Acalme-se, vamos te tirar daqui. Há mais alguém por perto? — Disse Amohi enquanto desamarrava aquela mulher.
— Não, estou sozinha. Todos eles me deixaram para morrer, meu irmão me deixou para morrer.
— Parece que achamos a irmã de Raenuc. — Disse Mary.
— Vamos deixar as apresentações para depois, o que vamos fazer para tirar isso daqui? — Disse apontando para a bomba.
— Não se preocupe, vou chamar a cavalaria para retirar isso daqui. — Disse Mary enquanto ia para o buraco que eu havia aberto com Eligor.
— Quem são vocês? A resistência? — Disse a mulher com um tom tímido.
— S-sim, mas não vamos fazer mal algum a você. Nós estamos atrás de seu irmão. — Disse Amohi.
— E-eu me chamo Sophira, obrigado por me salvar.
— Não há de que, eu sou Amohi, ela se chama Mary e ele é Ryan.
— Ryan? Como o rei legitimo?
— Sim, mas acredite, caí de paraquedas nessa história.
— Você caiu de paraquedas num planeta? Não se queimou na reentrada? — Indagou ela.
— É uma expressão que quer dizer que eu vim para cá sem saber muito o que era pra eu fazer. — Disse. — Me desculpe, é uma expressão que usamos bastante no meu planeta natal.
Ela riu e eu pude notar que Amohi ruborizou de leve. O deixei com ela e pus me a subir aquela nova entrada da caverna. Soldados desciam esse mesmo caminho para pegar a bomba e tira-las de lá.
Quando cheguei ao topo da caverna, pude respirar aliviado que mais ninguém havia se machucado e somente alguns esquadrões reportaram combate. Pude ajudar junto com Amohi o deslocamento da bomba. Vários usuários de flamels se juntaram formando uma espécie de corda formada pela energia vinda do núcleo de suas armas. Depois de algumas horas de esforço, conseguimos colocar a bomba em uma das naves.
— Algo ainda não está certo pra mim, essa bomba parece desativada. Isso só pode ser uma distração! — Gritou Mary.
Segundos depois, pudemos ver duas naves menores e uma maior no céu. Elas eram naves muito adornadas para serem naves comuns. Raenuc estava dentro de uma delas. Tudo não passou de uma armadilha para nos fazer perder tempo.
— Senhores, vocês me fazem muito feliz com toda essa trabalheira e esforço inútil. Quero lhes dizer que toda a sua missão não adiantou nada. Seu outro exército foi dizimado no caminho e para a sorte de vocês, não havíamos planejado nada para aquela direção. Aproveitem o tempo que vocês tem, nós vamos dar um pequeno tiro com um de nossos canhões e ele será o suficiente para desestabilizar o planeta. Adeus! — Disse uma voz vindo da nave central. Logo percebi que aquela voz era de Raenuc.
A nave central e uma das menores logo sumiram do nosso campo de visão, a que sobrou começou a acumular uma imensa quantidade de energia que eu jamais pude sentir. Ela apontava para o caminho que Eligor havia aberto. Droga!
— Colocar uma nave não tripulada com a bomba não seria uma opção? — Disse Mary pelo rádio. — Droga, não vai dar tempo de fazerem isso. Se tivéssemos algo que conseguisse resistir aquele canhão.
— Fiquem tranquilos, eu vou segurar aquele tiro nem que isso custe minha vida. — Disse Amohi.
— Ei, isso é suicídio, você sabia?! Como você espera que eu vou viver com esse peso nas minhas costas?! — Disse tentando segurar Amohi.
— Fique tranquilo, Ryan. Confie no seu amigo, da mesma forma que ele confia em você. — Disse a ruiva.
Amohi pulou do topo daquele canyon até chegar onde era um lago. Ele pegou sua flamel e a empalou na terra. Ajoelhou atrás dela e logo o lugar foi tomado por um clarão gigantesco. Sua flamel havia se tornado uma espécie de escudo que até eu que estava distante, sentia que era intransponível.
— Eu sabia que ele era capaz disso, mas eu nunca o vi fazer. — Disse Mary.
— O que é isso? — Indaguei.
— É o escudo absoluto. Uma técnica que exige que o usuário tenha sincronia perfeita com sua flamel, tanto psicologicamente quanto fisicamente. É um poder extremamente raro. Durante a história de nosso planeta, somente três pessoas tiveram a oportunidade de utilizar esse poder. — Disse Sophira que estava ao lado de Mary. — Vocês tem um soldado e tanto.
— Pode vir! Seu canhãozinho não vai nem me arranhar! — Gritou Amohi.
Instantes depois, um raio atravessou as nuvens daquele por do sol e foi diretamente para Amohi. Sua face era serena e trazia paz. Ele passava plena certeza de que ele e sua flamel sobreviveriam aquele episódio. Foram os três segundos mais lentos da minha vida. Foi tempo o bastante para que a nossa nave não tripulada atravessasse a nave que estava atirando e explodindo-a de dentro para fora.
Quando aquele raio parou, instintivamente pulei do topo do canyon em direção do meu amigo que ainda estava lá com seu escudo levantado, mas havia acontecido algo com ele. Amohi havia desmaiado, mas ainda continuava com um escudo denso de energia que só veio cessar quando eu o toquei. Seu lado direito do corpo tinha queimaduras de terceiro grau. Ele estava muito ferido e eu não podia fazer nada.
— Leve-o para a enfermaria, coloquem ele no tanque de recuperação, ele tem prioridade máxima! — Disse Mary enquanto soldados colocavam Amohi numa maca.
Se apenas eu pudesse fazer alguma coisa.
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