Notas iniciais
FELIZ DIA DOS PAIS AOS PAIS DE VOCÊS :) Obrigada pelos comentários anteriores! Hoje é um dia especial para Fix You, afinal de contas, Scorpius é pai. E o Draco também. Então espero que gostem desse e deixem um recadinho no final sobre o que acharam. Não é um capítulo gigante, mas espero que tamanho não seja documento, alright? Mais um capítulo no domingo! Boa leitura! =)

Capítulo 30.: Yes

"God, only god knows I'm trying my best
But I'm just so tired of this loneliness..."

Scorpius nunca esquecia dia 27 de novembro e 22 de setembro.

A primeira data o fazia acordar com a vontade de se afogar com o whisky mais forte pela manhã. E a segunda data o fazia querer comprar todas as lojas de brinquedos do mundo.

Rose acordou com a cama vazia ao seu lado no dia 27 de novembro daquele ano. Como era sábado, ela estranhou por ver apenas a marca da cabeça dele no travesseiro.

Ela o encontrou atrás do balcão da cozinha com a cabeça apoiada pela mão. Estava dormindo com a xícara de café inclinada em seus dedos. O líquido escuro espalhava-se sobre papeladas na mesa. Rose ajeitou seu robe para proteger-se do frio que cercava a atmosfera naquela manhã e se aproximou dele.

O cigarro entre seus dedos não estava terminado e Rose ficou um pouco decepcionada por vê-lo fumando novamente. Mas ele esteve em semanas difíceis. Ela delicadamente tirou o cigarro de sua mão para evitar que queimasse o dedo. Pegou o primeiro pano que viu na pia e limpou a mesa, apalpando com cuidado os papeis que haviam sido manchados.

Promotoria reabre caso de Otavio Trentwell para decidir fiança em mais um julgamento.

Rose sentou-se ao lado dele. Scorpius esteve preocupado a semana toda, brigando com inúmeros advogados por celular e pessoalmente; nem ao menos conseguia dormir direito e Rose presenciava de perto. Ele abriu os olhos aos poucos quando sentiu a mão dela brincando com os cabelos despenteados de sua nuca. Abriu-os completamente quando ela beijou o rosto dele.

Scorpius passou a mão no rosto, exausto, assustado com o lugar onde esteve dormindo.

— Algo em que eu posso ajudar? — Às vezes, Rose não sentia que Scorpius estava inteiramente presente com ela. Ele tinha problemas, segredos e históricos que envolviam seu trabalho. Sempre foi assim. Ela se sentia, naquele momento, impotente. Queria ajudá-lo, mas não havia nada que uma curadora de museus pudesse fazer.

— Está tudo bem — ele disse eficientemente. Mentir, para ele, sempre foi fácil. Acreditar, para Rose, impossível. — São uns casos antigos que voltam à tona. Daqueles que dão dores de cabeça e...

— Otavio Trentwell não é só um caso, Scorpius. Ele tentou te matar.

— Você lembra o nome? — perguntou baixo, surpreso. Nunca havia conversado com Rose sobre o assunto.

— Se lembro? Passei a noite toda esperando que Zoe não perdesse o pai dela. Acha que não me informei no assunto? — Ela parou e respirou um pouco. A lembrança do episódio a deixava ligeiramente nervosa. — Como as ameaças pararam depois daquele dia?

— Meu avô sabia resolver esse tipo de situação com apenas um telefonema. Mas... agora ele está morto. Se aceitarem a fiança, Trentwell sairá da prisão.

E isso não era notícia boa para advogados envolvidos nessa prisão.

— Foi minha pior performance — contou Scorpius com a expressão de alguém que se lembrava amargamente do dia. — O julgamento de Trentwell. A promotoria não estava investigando o caso. Estavam investigando os advogados dele. Ou seja, eu. Descobriram... não sei como, mas conseguiram achar a prova de que eu dormia com uma das testemunha. Acharam que eu a manipulava.

— Você manipulava?

— Sim — ele disse quase cochichando, com medo de que Zoe, em seu quarto, escutasse a confissão. — Eu queria ganhar o caso. Sabia que Trentwell era culpado, não teria como vencer de outra maneira... Mas os outros foram mais espertos. Desde então ele tem me culpado por isso e eu recebi uns telefonemas da prisão e não acreditava nas ameaças. Até o dia que aconteceu.

Rose jogou o corpo para trás, lentamente se encostando à cadeira. Olhou para a janela esbranquiçada pela neblina da manhã que, há um ano, Scorpius quase perdera a vida por sua estupidez.

— Se um dia Zoe souber disso... — ele se condenou, mas Rose não deixou.

— Você precisa pensar no que está acontecendo agora. Talvez Trentwell não consiga a fiança.

— Talvez — ele quis se convencer. — Se ele não estivesse sendo representado por Augustus Rookwood.

— Quem é esse?

— Costumava ser o maior rival de meu avô. Quando tinha um julgamento com os dois se opondo... Londres inteira acompanhava. Minha mãe falava muito sobre ele. Ganha casos extremamente difíceis no tribunal. Seria uma lenda se ele não estivesse vivo. Mas ainda está firme e forte.

— E por que está ajudando Trentwell?

— É a pergunta que não me deixa dormir direito à noite.

Eles não falaram mais sobre esse assunto. Scorpius começou a recolher suas coisas e Rose se levantou para preparar a si mesma um café forte. Rose teria que acordar Zoe em meia hora para a menina se trocar e ir à aula de teatro com Draco.

Scorpius esteve passando boa parte do tempo nos finais de semana com elas, no apartamento delas. Oficialmente, Cupcake estava morando lá. Apesar da riqueza e da beleza do edifício de Scorpius, ele preferia o conforto e o aconchegante apartamento de Rose. Tinha a vista para a London Eye. Mas sabia que muito dessa sensação boa tinha a ver com as garotas que ele amava e a incapacidade delas em deixarem o lugar silencioso.

Algumas vezes Rose pegava um embalo para sugerir a Scorpius que jantasse com elas em dias normais, como em uma quarta-feira. Mas quando estava investindo na ideia de ter Scorpius mais tempo com elas, ele disse naquela manhã:

— Talvez fosse melhor eu resolver essas coisas no meu apartamento.

Ela tomava um gole do café, olhando para ele.

— Não quero trazer isso para você. Muito menos para Zoe... Pelo menos até toda essa poeira abaixar. A nova sentença será decidida depois do ano novo e...

— E você vai se afastar até lá? — repreendeu-o.

— Além disso, voltei a fumar.

Odiava-se por isso, mas a recaída foi uma fraqueza para tentar botar as coisas no lugar. Pelo menos, ele tinha sido franco com a verdade.

— Bem, então pare outra vez — ela disse diretamente e se aproximou dele. Inconformada, ralhou: — Você não está mais sozinho, Scorpius. Você não tem que passar pelos seus problemas sozinho. Quantas vezes eu preciso... dizer... que você pode contar as coisas para mim?

— Você me conhece. Não serão coisas excelentes.

— Foda-se que não serão coisas boas. Você não me deixa te conhecer. Nunca deixou. Eu precisei cavar, eu precisei insistir, para você tirar o que tem dentro de você. Tenta fugir dos problemas não falando sobre isso... e volta a fumar. E, como sempre, acha que a solução para tudo é se afastar!

— Você quer isso, então? — ele alterou um pouco a voz. — Quer me ver sentado na sua cozinha de manhã com essas papeladas. Porque eu não durmo de madrugada com essas coisas na cabeça, não consigo ficar na cama. Eu preciso pensar. E isso me deixa nervoso, estressado, posso descontar em você ou na Zoe. Você quer isso, então? Os meus problemas para vocês duas também?

Eles não escutaram o breve ranger da porta quando Zoe saiu de seu quarto, ainda com o pijama Que o sono esteja com você no corpo sonolento. Ela ouvia as vozes dos pais e observou por trás da parede o motivo de estarem altas. Não conseguiu entrar na cozinha, apenas observar, espiar, curiosa e confusa.

— Sim. — Ouviu sua mãe dizer baixinho e não compreendeu o motivo.

Scorpius não falou nada; calou-se, atônito. Sim.

— Não precisa ser fácil o tempo todo, sabe — ela continuou. — A vida. Os problemas e os medos... mas aturar tudo isso sozinho? Ninguém consegue, Scorpius. E acho que foi esse o problema... — olhou para os olhos dele, aflitos. — Que nos separou antes. Você não me dava um pouco de si mesmo, você se afastava e se ausentava. Os seus problemas ficavam só com você. E os meus? Eu dividia tudo. E você foi incrível como namorado por me escutar. Por ser sincero. Mas não me deixou entrar, nenhuma vez.

Scorpius nunca a escutou dizer essas coisas.

— Quando sua mãe morreu você não falou sobre isso. Nunca fala sobre isso, na verdade. Depois daquele dia... você não percebeu mas começou a me afastar. A afastar todo mundo. A afastar seu pai, sua avó, seu avô, Albus e outros amigos que tinha. Arrumava desculpas que ia estudar para ficar sozinho. Eu achava que era para me chifrar, mas era para ficar sozinho. Você estava depressivo e eu tentava ajudar, mas você me jogava para o outro lado... até eu perceber, ter a impressão... que você não me amava mais.

— Não é verdade, Rose.

— Pode não ser. Mas me deu essa impressão. Por muitos anos. Na verdade, até você aparecer aquele dia dizendo que nunca seria um pai sem mim, eu ainda tinha essa impressão. Às vezes penso que eu não deveria ter levado Zoe para longe de você, não daquele jeito. Mas me machucou o quanto você não se importou mais com nada, e a raiva de você me consumiu depois que demonstrou isso dormindo com aquela garota e mais outras que nem sei durante aquele tempo.

— Eu me importei com Zoe.

— Sim — Rose confirmou. Os olhos ficaram aguados. Estava entalado dentro dela, todas aquelas palavras. Foi bom soltá-las, foi bom que finalmente ela sentiu espaço para desabafá-las. — Ela te trouxe de volta aos eixos, Scorpius. Você estava totalmente apagado. Sozinho. — Ela enxugou os olhos e se recompôs. — Se você acha que ainda sente necessidade de se afastar agora... eu não acho que deveríamos continuar juntos.

— Rose...

— Deixe-me terminar. Não valeria a pena recomeçarmos para cometermos os mesmos erros. E eu quero que isso dê certo... eu preciso que isso dê certo. E eu entendo que você tem a necessidade do seu espaço e que as coisas do seu trabalho são complicadas, eu também preciso do meu. Mas... preciso sentir que você não vai nos deixar de lado em momentos que você precisa. Eu preciso da confirmação de que, nesse relacionamento, dessa vez, vou ter você inteiro comigo.

— Agora?

— Não posso perder tempo.

Ele não precisou pensar. Tirou a pouca distância que pairava entre eles na cozinha e a beijou. Tentou passar para esse beijo a confirmação que ela tanto precisava. Era o que Scorpius queria; Rose e Zoe. Não havia segredos sobre isso, apenas estava preocupado que seus problemas machucassem elas. A última coisa que gostaria de ser era responsável por algo terrível que pudesse acontecer às duas.

Mas, inacreditavelmente, enquanto beijava Rose na cozinha, em uma manhã nevoenta e fria, esquentou-se com a determinação que teve para dar um jeito em tudo. Para fazer as coisas melhorarem para ele também. Sentiu-se determinado e não era toda a mulher que o fazia sentir assim.

Soltou o rosto dela devagar e, mesmo com os lábios quase grudados, sussurrou:

— Só não quero machucar vocês.

— A única pessoa que tem machucado todo esse tempo foi você mesmo — ela disse baixinho, encostando a testa contra a dele. — Eu amo você.

Esperava ouvir as palavras há anos.

Novamente.

Scorpius ia responder o óbvio, mas ao abrir a boca, seus olhos de relance viram os cabelinhos loiros se afastando depressa para o corredor dos quartos. Não deixou de abrir um breve sorriso.

— Alguém estava espiando.

— Ah, é? — Rose ergueu uma sobrancelha.

— Vou conferir.

Foi até o quarto de Zoe, onde a menina estava com o corpo enfiado no edredom, esquentada e com os olhos cerrados. Claro que ela só estava fingindo, pois espiou com um só olho se Scorpius estava mesmo na batente da porta.

— Coisinha — ele chamou. — Permissão para entrar? Sei que está fingindo dormir, vi você na cozinha.

— Era um fantasma.

— Claro — riu. — Permissão?

— Consentida — rendeu-se e, assim, Scorpius deu um passo para dentro do quarto da menina. Acabou pisando sem querer em um giz durante o caminho que fez para sentar na cama dela.

— Ouviu o que estávamos conversando? Eu e a Rose?

— Aham. Não entendi nada.

Ela parecia realmente sincera.

— Não quero que um dia entenda, é bem complicado. Quanto menos as coisas forem complicadas para você, melhor. Só queria dizer que vai me ter bastante por perto agora... até você decidir que não quer mais. Está em suas mãos.

— Vou sempre querer você por perto — ela disse, sempre tão fácil dizer o que queria dizer.

— Vou me certificar que sim.

— Papai... você não me queria por perto? Antes?

Foi a pergunta mais difícil que Scorpius recebeu. E ele era um advogado.

— Eu sempre quis você por perto, Zoe. Só não tenho esse dom que você tem... de demonstrar. Acontecem coisas que tiram esse dom da gente uma hora, sabe? Fui perdendo o meu.

— Mas tem como ganhar de volta? Esse dom? Se você perde?

Como ela tinha perguntas tão boas?

— Sim. — Scorpius gostava dessa palavra.

Ela soou aliviada.

Scorpius lembrou-se de Ralph Thomas e quis perguntar:

— Como seu amigo está indo?

— Bem. Todo mundo da escola está dando só atenção para ele. Ele tá bem popular agora, só contando como ele caiu de bicicleta e sobreviveu. Ele ficou bem chato agora.

— Fico feliz em saber — ele disse, fazendo-a rir. — Mas garotos são assim.

— Eu sei. Chatos.

— Assim que se fala — elogiou. — Só eu que não sou.

— É — confirmou dando um risinho quase tímido. Ele apertou o nariz dela de brincadeira. Ela disse: — Te amo, pai.

Scorpius garantiu:

— Também te amo. E isso me lembra que eu tenho que responder a mesma coisa para sua mãe, já que você interrompeu o-

A menina desmanchou o edredom e quase pulou em cima dele para dar um forte abraço pelo pescoço. Diferente de qualquer outro abraço que ele já recebeu de sua filha. Tantas vezes ela a abraçou, desde que descobriu como era fácil fazer antes mesmo de aprender a correr. Mas não daquele jeito. Não foi um abraço infantil, não foi para cumprimentá-lo. Foi para reafirmar que, de fato, ela o amava e que ela estava feliz por ele estar ali também. Talvez ela quisesse mostrar que o amava mais do que todo mundo, mais até do que a mamãe e qualquer outra mulher que ele fosse ter na vida. Zoe ainda não sabia que um sentimento não podia ser medido ou comparado, mas ela queria ser capaz de demonstrar assim.

Por trás do ombro da pequena, Scorpius piscou um olho para Rose, que estava sorrindo com o dorso encostado à batente da porta. Rose sabia que um sentimento não precisava ser dito em palavras e ela gostou que Scorpius estivesse demonstrando o seu com atitudes.

***

Somente depois da morte de seu marido, Narcissa Malfoy se forçou a aprender a mexer em um computador. Não era à toa que Scorpius recebia diariamente uma mensagem no facebook e, quando passava para visitá-la com Zoe, a avó estava absorta atrás da tela do notebook, rindo maleficamente de alguma coisa.

— Quem diria que fosse ser tão divertido.

— O que está fazendo, vó Cissy? — perguntou uma curiosa Zoe ao empoleirar-se na mesa da sala e olhar para a tela também.

— Estou reencontrando algumas velhas amigas nesse tal de facebook, Zoe. Veja só... Margareth está vivinha com o corpo que não estou com inveja alguma. Teve quatro filhos horrendos e netos piores. Como faço para mostrar que eu gostei da foto?

— Você tem que clicar no “curtir” — ensinou Zoe. Ela já viu sua mãe fazer milhares de vezes.

— Oh. Interessante.

— Nunca mexeu em um computador? — a menina achava impossível alguém desconhecer a tecnologia.

— Sou de eras antigas, não existia esse tipo de coisa no meu tempo. O que é essa bolinha vermelha aqui?

— Notificações — respondeu Scorpius, ocupado na cozinha com Rose. Eles estavam preparando o jantar de véspera de Natal, juntos, no casarão dos Malfoy. Tinham combinado de passar uma noite com Draco e Cissy para, no dia seguinte, visitar a família de Rose. Dividir a família.

— Alguém curtiu minha foto. Bem, não seria à toa, a selfie ficou maravilhosa. Por que você ainda não curtiu minha foto do perfil também? Aliás, você me tirou dos “melhores amigos”, Scorpius. Não consigo mais ver tudo o que você compartilha.

— Exatamente por isso, vó Cissy — ele disse sorrindo e se aproximando das duas na sala, com um copo de vinho na mão. O ar mais tranquilo com apenas uma camisa com as mangas dobradas, charmoso e normal. Nada de gravatas. Nada de trabalho. — Escute, amanhã Zoe e eu vamos passar o Natal em... Que aba é essa? Está em um site de encontros?

— Estou fazendo um perfil para o seu pai.

Scorpius precisou se inclinar para ler.

Loiro, olhos cinzas, sério e comprometido. 40. Garanto qualidade nos encontros. Em outras coisas também. Ele sabe que você está fazendo isso? E favorecendo a idade?

— Sei.

A voz de Draco ecoou pela casa enquanto descia as escadas. Estava ajeitando um blazer sobre os ombros. Zoe o abraçou na cintura ao cumprimentá-lo.

— Feliz Natal, Zoe. E pelo visto conheceu a nova diversão de sua avó, Scorpius. Cuidar da minha vida.

— Alguém tem que fazer isso — ela disse, distraída, digitando uma letra por uma a cada três segundos. — Já que você não estava dando à mínima para ela, não é?

— O senhor vai sair? — perguntou Scorpius, reparando que o pai não tinha a preocupação de passar gel no cabelo há anos. — Com alguém?

— Oh, ele está de papinhos com aquela tal de Penny não-sei-das-quantas. Uma vagabunda que corria atrás do seu pai nos tempos de escola, se é que me entende.

— Não estou mais de papinhos com Pansy, mãe. Apenas a encontrei na cafeteria que estou frequentando depois das reuniões que você me enfiou lá dentro.

— Pansy? A mãe de Alexis? — perguntou Scorpius.

— Ela já está no terceiro marido. Não vai acontecer nada.

— E onde está indo agora? — ele quis saber, genuinamente curioso.

— Um homem não pode se vestir bem dentro de sua própria casa? — ele perguntou. — Eu não vou sair, Scorpius. Vou jantar com vocês. Então tire sua namorada da minha cozinha, eu dou um jeito no jantar de hoje.

— Oh, não precisa, sr. Malfoy — disse Rose quando viu Draco dobrando as mangas da camisa para se aproximar do balcão. — Eu mesmo posso fazer se não se importarem, já que comecei e...

— Besteira — ele ralhou. — Scorpius não deveria colocá-la na cozinha. Se tem alguém que precisa aprender a tratar bem as moças, esse é o Scorpius. Aceite minhas desculpas pelo meu filho, mas aproveite a noite com ele.

Rose não ia discutir com o dono da casa. Acabou sorrindo ao guardar o pano, porque de alguma forma se lembrou de quando namorou Scorpius no fim da adolescência e Draco, naquela época, mostrava-se um homem prestativo, elegante e eficiente. Em momentos simples como aquele, Rose via muito de Draco em Scorpius. Essa necessidade de dar um jeito em tudo sem ajuda, para que as pessoas não sentissem obrigação de absolutamente nada. Uma mistura complexa do egoísmo com altruísmo. Uma característica dos Malfoy.

— Vovô, posso ajudar o senhor?

Só deixou Zoe se aproximar porque era o jeito de se distrair. Além de estar voltando a cozinhar, a tagarelice de Zoe o lembrava de Astoria. E de um jeito que o fazia sorrir.

Ela tinha até conselhos amorosos agora e garantiu que ele conseguiria uma namorada nova rapidinho, já que ele ainda era bonitão.

Muito diferente de um Natal com os Weasley, Zoe reconhecia que não ganharia muitos presentes – mas como estava desacostumada a ganhar presentes da família de seu pai, afirmou a si mesma que ela estava em lucro. Ganharia mais presentes do que em todos os outros anos! Narcissa deu a ela um livro grosso que continha todas as peças escritas por Shakespeare. A sorte da bisavó era que Zoe gostava de livros e ficou fascinada pela capa. Interessou-se com o que poderia estar escrito, mas durante a noite a menina apenas folheou – “Ela ainda é bem nova para entender tanta coisa, mãe” informou Draco. Ele, por outro lado, não foi tão audacioso no presente. Deu a garotinha um par de brincos delicados como o pingente de uma flor. Como naquele momento Rose estava no banheiro e Cissy ocupada no facebook, Zoe agradeceu o avô e foi até Scorpius.

— Olha o que o avô Draco me deu! São tão lindos. Coloca pra mim, pai?

Foi a primeira vez que Scorpius colocou brincos em sua filha, e ela ficou linda. Chateou-se um pouco por notar que Zoe não tinha outras crianças para brincar, mas ela se entreteve na casa com um filme natalino e folheando o livro da vovó Cissy, sentada no sofá. Tudo bem, talvez Zoe estivesse tão entediada que em um momento de suas exploradas pela gigante e linda casa, Scorpius a pegou olhando curiosamente para um retrato sobre a mesa de vidro em que haviam jantado minutos atrás.

Zoe olhava para a foto de Astoria com o queixo apoiado nos braços e ficou assim por bastante tempo. Nesse momento, Scorpius estava dividindo um vinho com Rose, ela sentada em sua perna na poltrona e eles compartilhando sorrisos e conversas. Quando viu que Zoe não tinha se afastado de onde estava, Scorpius precisou erguer um pouco Rose dizendo:

— Vou conversar com ela.

Somente quando chegou perto de Zoe, assustou-se por vê-la chorando. Não exatamente chorando, mas os olhos estavam aguados.

— Zoe? — estranhou. — Por que está chorando?

— Não sei — ela disse baixinho. Sincera. Ela não sabia mesmo. Permitiu-se segurar o retrato. Ela enxugou o rosto com as costas da mão. Scorpius se sentou ao lado de Zoe e também se permitiu olhar para a foto de sua mãe.

— Ela era bem bonita, não era? — perguntou depois de um tempinho.

Zoe concordou, afirmando com a cabeça várias vezes.

— Parece com atriz de televisão — falou e Scorpius riu.

— Sim. Meu pai ficava doido porque muitos outros rapazes cortejavam ela também.

— Ela era namoradeira que nem você também? — perguntou curiosa, fazendo-o rir.

— Não. Não sei, na verdade, ela não falava muito sobre a infância. Era uma mulher bem séria... E brigava quando precisava. Disso ela não tinha medo algum.

— A mamãe também briga comigo. Bastante.

— Você não conheceu a dona Astoria. Ela era feroz. Sempre dizia para mim... que no fim eu veria que ela estava certa das coisas. Se tinha alguém preocupada comigo, era ela.

Continuou falando sobre Astoria para Zoe. Contando das coisas boas, das coisas boas. Rose ouvia, mas sabia que momentos assim exigiam espaço entre pai e filha e ela respeitava isso como ninguém.

Como toda manhã de Natal, Scorpius ia ao cemitério. Não sozinho dessa vez. Levou Rose e Zoe com ele na manhã seguinte, Draco e Cissy logo atrás – Draco mais afastado, porque ele realmente não aguentava com pessoas por perto. Homenagearam também Lucius Malfoy com flores. Scorpius não suportava não tê-los mais em sua vida, por isso precisou encontrar a mão de Rose. Zoe já estava segurando a sua o tempo todo.

Na saída do cemitério, Scorpius despediu-se do pai e da avó:

— Estava bom o jantar ontem, pai.

— Até eu comi o legume — informou Zoe chocada, fazendo-os rirem.

— Aonde vão agora? — perguntou Draco.

— Vou almoçar com a família de Rose.

Draco olhou surpreso para Scorpius.

— Muita responsabilidade. — Com um movimento que reuniu durante muitos anos, segurou os ombros dele. Os óculos escuros impediam que a claridade da neve o cegasse, e Scorpius gostaria de ter visto a expressão dele no momento em que dizia: — Aproveite-a. E boa viagem. Vamos, mãe?

Cissy estava ajeitando seu cachecol quando ouviu Draco e assentiu.

***

Albus foi até a casa de Michael a tempo de vê-lo arrumando as malas. Por dois segundo, a insegurança que existia nele desde que brigaram e se reconciliaram entendeu que ele pudesse estar indo embora ou se mudando, mas Michael deu risada quando ele perguntou por que estava empacotando algumas roupas de Luke.

— Você não tinha me convidado para conhecer sua família esse feriado de Natal? Ou estou enganado?

— Eu convidei por desespero. Não achei que fosse querer.

— Quero — sorriu. — Já falei que quero. Mania de achar que eu não gosto de você, Al. Para com isso.

— É a falta de costume.

— Bem, agora você vai ter que acostumar. — O rapaz o beijou e olhou para ele, fechando o zíper da mochila. O sorriso dele era tranquilão. — Vou conquistar sua família.

Luke saiu correndo do quarto com um lightsaber em mãos, exclamando e golpeando o ar com a espada:

— Aaaaaa! Olha, Al! Eu ganhei Star Wars do tio Mike!

Se um dia Albus quisesse ter um filho tinha que ser igualzinho a esse garoto. Por esse motivo, não teve medo de mostrar Michael a família. O namorado, certamente, era corajoso.

***

A casa dos avós de Rose era suficientemente espaçosa não só para os incontáveis membros da família, mas também para os convidados que acompanhavam. Namoradas, namorados, amigos, amigas, amigos de amigos. Se havia uma mulher que sabia como ser a melhor anfitriã para uma quantidade alta de pessoas, esse alguém era a prestativa e energética Molly Weasley, a matriarca da família.

Scorpius era desacostumado a ambientes como os da família Weasley, mas quando estacionou seu carro no jardim do extenso terreno revestido pela neve de dezembro, soube que não tinha volta. Não que ele pensasse em voltar, claro. Depois do jantar com o pai de Rose, Scorpius ficou mais tranquilo em relação a algum acontecimento drástico caso desse as caras por lá.

Começou a reparar que foi covarde à toa. Do que ter medo? Os Weasley eram boas pessoas.

Rose não estava nervosa com esse reencontro anual. Ela garantia que as coisas eram mais fáceis se ela não está com a responsabilidade de fazer a comida. Aliás, estava ansiosa para experimentar as inúmeras receitas que a avó fazia em apenas uma refeição. E queria rever os primos.

Diferente do casarão dos Malfoy, a arquitetura da casa dos Weasley lembrava histórias de famílias e a infância dos pais de Rose, além de sua própria. Zoe adorava visitá-los. Quando as duas moravam nos Estados Unidos, durante o vôo de volta para a Inglaterra, ela ficava perguntando a cada dois minutos: “já estamos chegando?” Rose nunca deixou de visitar sua família nos Natais, mesmo quando morava longe. Ainda assim, gostaria que tivesse visitado mais vezes.

Aquele ano seria diferente porque o pai de Zoe estava vindo. Obviamente as pessoas da família comentavam durante a espera.

“Então é verdade que a Rose voltou com o ex dela? O pai da Zoe?”

Rose não gostava de pensar que poderiam estar fazendo silenciosos julgamentos quanto às escolhas de sua vida, mas já estava calejada. Não se importava mais. Por esse motivo, independente do que estivessem comentando às suas costas, Rose estava com o sorriso aberto quando sua tia, mãe de Albus, abriu a porta de entrada:

— Rose!

Sua madrinha nunca deixava de dar fortes abraços quando se reviam. Ginny era essa mulher que não tinha ressentimentos. Humorada sem exagero e justa com quem fosse. Um pouco brava por Rose não visitá-la como antes, mas feliz por vê-la, no final das contas.

— Como vai, linda? — perguntou beijando-a no rosto. — Quantas saudades. Meu Deus.

— Oi! — Zoe estava ao lado de Scorpius quando ergueu um braço para dar um oi a tia de sua mãe, sorridente.

— Não é possível. Nas fotos eu já percebi que está crescendo, mas agora é quase assustador. Já está quase do meu tamanho, Zoe, ou eu que estou me encolhendo de tão velha.

— Continua linda, tia Ginny — garantiu Rose, observando sua filha e tia se abraçarem.

— Ela cresceu tanto. Entrem, entrem!

Zoe se adiantou primeiro. Antes de Scorpius ultrapassar a porta, foi educado o bastante para dizer “com licença”. Foi ligeiramente surpreendido quando a mulher o abraçou. Não se viam desde a formatura do colegial.

— Olá, Scorpius.

— Feliz Natal, sra. Potter.

— Feliz Natal. É bom revê-lo.

Ele teve a breve impressão que a sra. Potter iria perguntar sobre sua família. Scorpius recebera um abraço dela no velório de sua mãe há dez anos e nunca se esqueceu disso. Astoria foi advogada dos Potter por uns anos. Pensando nisso, ele apenas abriu um sorriso sem mostrar os dentes para dizer:

— Igualmente.

— Fiquem à vontade. O pessoal está lá fora, Rose. Estou ajudando Fleur e minha mãe com o almoço, se quiser falar oi para elas estamos na cozinha.

— Estou indo lá.

Tinham que deixar os casacos em um dos cabides perto da porta da sala primeiro. Ginny saudou a chegada deles às senhoras Weasley na cozinha. Fleur e Molly foram interrompidas quando viram Rose e as duas pessoas que a acompanhavam.

Foi ótimo abraçá-las e matar as saudades. Zoe gostava muito do cabelo da tia Fleur e dizia a Rose que queria ter um igualzinho, então as duas se davam muito bem. Ela estava preparando alguns doces e colocando-os na geladeira. Zoe fez uma expressão a Rose, que imediatamente entendeu.

— Doce só depois do almoço, filha.

— Ah, mamãe... por favor!

— É, mamãe — sorriu Fleur, entregando a Zoe um dos brigadeiros. — Hoje é Natal, Rose. Ótimo dia para algumas exceções, não acha?

Rose não deixou de rir exasperada enquanto Zoe engolia o brigadeiro deliciosamente.

— Não é a toa que ela te adora, tia. Oi vó!

A sra. Weasley estava com a mão na cintura, brava, olhando para Rose.

Que saudades! – A moça abraçou a avó com carinho.

Embora correspondesse com o mesmo carinho no aperto, ela ralhou:

— Saudades, é? Não vem mais visitar a avó e agora eu tenho que tomar o susto de ver sua filha tão grande assim.

Zoe teria que se acostumar com isso. Ela ainda escutaria de todo mundo o quanto ela tinha crescido.

— Vem cá dar um abraço na vó Molly, Zoe.

Zoe não perdeu tempo e a abraçou, dizendo:

— Feliz Natal!

— Vó, esse é o Scorpius. — Rose segurou a mão de Scorpius para trazê-lo mais perto. Ele não era tímido, apenas não muito social. Costumava sempre apertar as mãos das pessoas, mas a avó de Rose foi rápida e o abraçou. Molly abraça todos que apareciam com seus netos. Rose gostou de notar que Scorpius não era uma exceção.

Scorpius sentiu as mãos da avó de Rose apertar seu rosto. Não soube se sentiu desconforto ou apenas surpresa por ter essa aproximação imediata com alguém que nunca lhe dirigira a palavra antes. Era apenas o jeito da avó dela.

— É bom finalmente colocar um rosto ao nome. Ouvimos muito de você.

— Sobre isso, desculpe — ele disse, fazendo-as rirem.

— Bem, ninguém é perfeito — garantiu. — Feliz Natal, rapaz.

— Feliz Natal.

Molly deu uma batidinha na bochecha dele, dizendo:

— Cuida bem das minhas garotas, é o que eu ensino a todos os homens que entram nessa casa. Você não é exceção, viu?

Ele garantiu a ela que faria o possível. Molly se afastou para voltar a fazer comida, exasperadamente exclamando para Fleur quando Rose puxou Scorpius para fora da cozinha com Zoe logo a frente:

— Céus, que homem é aquele?

— Deixa Arthur escutar isso, Molly — gargalhou Fleur.

Notas finais
Nem acredito que já chegamos a 30 capítulos e ainda tem tanta coisa pra acontecer! Eu agradeço muito a todos que me acompanham, sempre e sempre. E quem começou a ler agora, lembre-se que antes tarde do que nunca HAHAHA Desde o começo da fic eu falei que Rose e Scorpius tinha se separado antes por motivos que iam além da traição dele. E a Rose expôs esses motivos nesse capítulo. A morte de Astoria o afetou muito, a ponto de deixá-lo depressivo e se afastar inteiramente de todo mundo. Se afastou dela. Mas aí a Zoe nasceu, e tudo mudou =) Bom. Tivemos um pequeno vislumbre da família Weasley, mas no próximo capítulo terá MUITO MAIS. É só aguardar :) Espero que tenham gostado e mandem sempre um comentário pra mim que eu fico muito feliz! Até o próximo capítulo, moçada!