Fix You
31 Midnight
Notas iniciais
Capítulo 31.: Midnight
"In the darkness before the dawn
Leave a light, a light on..."
No extenso jardim da casa, as várias mesas estavam expostas sobre uma tenda para evitar que a neve caísse sobre as comidas que eram servidas. O Natal nos Weasley era o sinônimo de festa, motivo pelo qual tantos ruivos, loiros e morenos vieram abraçar Rose e Zoe e apertar a mão de Scorpius, trocando breves e significativas palavras além de Feliz Natal.
Zoe imediatamente foi até a mesa onde três moças conversavam animadamente. Ela fez um shhh para Dominique e Roxanne Weasley não dedurarem ela. Assim, a menina surpreendeu Lily Luna tapando os olhos castanhos com as mãos pequenas.
— Hum — exclamou Lily pensativa. — Espere um minuto. Os dedos são meio ásperos... É baixinho. Só pode ser... um duende!
— Tia Lily! — protestou Zoe, aparecendo em sua visão, rindo.
— Me dá um abraço, linda.
Elas não se viam há muito tempo. E não era porque elas não queriam. Rose sempre conversava quando era possível com Lily, mas as duas tiveram rumos diferentes em suas vidas. Enquanto Lily podia aproveitar sua juventude, independentemente solteira por opção, Rose teve uma filhinha. Lily era veterinária e não era qualquer uma. Ela tinha fascinação por leões, então estava sempre viajando para explorar tantos países, cuidando e lutando para que as caças contra esses animais fossem imediatamente vetadas e não interferissem na criação. Ela era bem corajosa, idealista e ambientalista; queria mudar o mundo e dizia que ter homem só atrapalharia no processo.
Scorpius não a via há anos. Esperou Lily deixar de abraçar Rose durante o tempo que Zoe matava as saudades de Dominique e Rox. Ele sempre fora absolutamente preocupado em criar boas impressões entre as mulheres dos locais, motivo pelo qual cumprimentou uma por uma com educação. Dominique permitiu o beijo no rosto, assim como Rox, mas Lily estendeu a mão para apertar a dele.
Ela não tinha mudado sua opinião sobre ele. Lily odiava todos os caras como Scorpius Malfoy, sempre fora assim – mesmo antes de Rose começar a namorá-lo –, mas soube deixar suas opiniões pessoais de lado e sorriu educadamente.
— Feliz Natal, Malfoy.
— O mesmo, Potter.
Rose tinha bastante papo para colocar em dia com as primas, mas mais primos vieram falar com eles. Alguns não puderam comparecer naquele ano, como Louis, que estava conhecendo a família da nova namorada, ou mesmo os filhos do tio Percy, cuja mulher havia acabado de perder o pai então estavam passando o feriado com a família dela. Mas Rose reencontrou Victoire e Teddy, casados há três anos depois de incontáveis separações quando namoravam. Demorou dez anos e toda vez que perguntavam o motivo de agora terem decidido o casamento, o afilhado do tio Harry dizia:
— Precisávamos sossegar logo.
Todo mundo estranhou que Dominique não estava com um novo namorado naquele ano, pois ela era a prima que, todo ano, tinha um namorado novo. Ela trouxera mais duas amigas e dizia que estava cansada de correr atrás de algo que, no final, não valeria a pena. A curiosidade maior era conhecer o amigo de Albus que, claro, todos sabiam que não era apenas amigo.
Mais uma vez, Albus nunca precisou ter revelado com as palavras que ele não tinha interesse em relações com garotas. Lily, do mesmo modo que Rose, já desconfiava. James Sirius não se conformou quando Albus namorou um amigo que conheceu em seu intercâmbio na Suécia. Teve susto, algumas brigas, mas foi preciso mais conversas para que o irmão mais velho não tivesse algum problema com isso. Al até dizia que evitava namorar para que James tivesse perigo de descobrir, pois o rapaz era sempre o “pegador” da escola e queria ensinar muitas coisas sobre as mulheres para ele. Al fingiu por muitos anos que se interessou por isso.
Mas Albus contou a sua mãe. Diretamente. Antes de todo mundo, antes de contar a Rose ou antes de admitir a si mesmo. Porque tia Ginny se virou para ele enquanto arrumava a bagunça do quarto dos meninos. Quando encontrou camisinha no bolso da calça de Albus quando o rapaz estava com dezessete, Ginny sorriu.
“Está começando a ter relações?”
“Mãe...” Ele não tirava os olhos da tela de Battlefield, apertando freneticamente os botões do controle. “Não vou falar sobre isso com você.”
“Oh, isso é um afronto! Nem mesmo vai me contar o nome da garota?”
“Eu não usei, não está vendo que nem cheguei a abrir esse pacote?”
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Para Al. Por que Ginny deu um suspiro e, muito cautelosamente, perguntou:
“Filho. Você é gay?”
Ginny não era tapada e tinha a mente muito aberta. Já sabia disso há anos. Antes do próprio filho até. Albus se lembrava de como engasgou.
“Não!” ele disse, mentindo muito, muito mal.
“Você pode contar qualquer coisa para mim.”
Por uma sorte tremenda, seu pai, Harry, era sossegado quanto aos assuntos familiares. No fundo, a maioria dos pais tem aquela pontada de suspeita quanto à orientação sexual dos filhos. Harry nunca teria entrado no assunto, como Ginny fez naquela noite de sexta-feira, o que deixava Al um pouco sentido, porque ele sabia que nunca conversaria sobre mulheres como James conversou durante a adolescência com seu pai. Mas também acreditava que poucos teriam a mesma sorte de, pelo menos, ainda receber um grande abraço do pai quando aparecia para almoçar.
Michael e Luke foram recebidos com entusiasmo – exagerado da parte de Ginny, uma vez que seu maior sonho era ver Albus aproveitar a felicidade da maneira que pudesse. Michael, obviamente, soube com sua carisma conquistar a família deles – especialmente depois de contar um pouco sobre como conseguiu a guarda de seu sobrinho, Luke.
Diferente de Albus, Michael curtia cerveja e conversas sobre esportes, o que o fez ser bem-vindo entre os caras da família. Albus, mais uma vez, sobrou para as mesas das primas.
Scorpius percebeu que não tinha como ter a atenção de todos. Ele ficou sentado ao lado de Rose, observando Zoe brincar com as crianças no pequeno parquinho do jardim, jogando bolas de neves umas nas outras. Percebeu como ela se divertia mais ali do que na casa dos avós paternos. Aliás, qualquer um iria se divertir em um lugar tão cheio de vida como aquele.
— Então... tia Muriel está melhor, tio? — perguntou Albus para Bill enquanto se serviam da comida na mesa.
— Ela está lá em cima. Quando quiserem visitá-la só subirem as escadas. Mas já vou avisando... ela está um pouquinho... Digamos que ela não esteja no espírito Natalino.
E era verdade. Pouco depois do almoço e das conversas incessantes distribuídas em milhares de assuntos diferentes, os primos finalmente se reuniram com a coragem de ver a tia Muriel na cama do último andar da casa.
Victoire, como era a mais velha – e a mais adorada por Muriel entre os primos –, foi a primeira a entrar.
— Olá, tia Muriel. Como está se sentindo?
Rose quis chorar. Imediatamente quis chorar. A tia avó de sua mãe sempre esteve presente nos incontáveis feriados com a família, tirando todo mundo do sério com suas verdades. Uma vez até disse a Victoire que ela estava engordando. Mas isso não queria dizer que eles a odiassem completamente. Vê-la tão velhinha na cama sensibilizou Rose e ela se esqueceu de todas as ofensas que recebeu dela. Ela estava tão pequena, frágil e deixando os anos de sua vida refletirem não apenas na pele, mas nos movimentos dos olhos. Ela não se lembrava de quase nenhum sobrinho e estava com dificuldade de descobrir quem é que era a bela moça que lhe perguntava se ela estava se sentindo bem.
Dessa vez, ela estava mesmo mal. Arthur estava por perto quando respondeu a pergunta de Fred:
— Não, nenhuma enfermeira conseguiu cuidar sem perder a paciência. Molly está cuidando de tudo.
— Sai da frente — a voz rouca de Muriel fez Roxanne se afastar de sua visão. Acharam que ela estava prestando atenção no noticiário do quarto. Scorpius estava encostado à porta, longe da família, quando notou que estavam olhando para ele. — Quem é esse rapaz? Nunca o vi aqui.
Rose o apresentou, baixinho:
— Oi, tia Muriel. Esse é o Scorpius. Ele é o pai da minha filha Zoe.
Isso fez Scorpius descruzar os braços e, hesitante, andar alguns passos para dizer:
— Oi.
— Venha mais perto... mais perto. Mais um pouco. Não vou morder, rapaz, apenas... mais um pouco. Isso.
Scorpius estava mais perto do que qualquer outro familiar dela. Existiu um certo brilho no olhar de Muriel que confundiu todo mundo. A idosa revelou:
— Você... me lembra muito... meu antigo amante. Quando eu era jovem.
— Tia Muriel — exclamou Arthur, encabulado.
Ela pediu para que Scorpius se sentasse na margem de sua cama e o rapaz não soube recusar o pedido de uma velha senhora quando sentiu a mão dela contra a dele. Havia ternura. Nunca viram o sorriso de tia Muriel, mas ela tentou um ali.
— Tão lindo... eu me lembro o quanto aquele homem deu trabalho para a minha vida, mas eu não me arrependo... um minuto sequer... Eu teria fugido com ele, deixado tudo de lado por ele.
Rose sabia que Scorpius era sempre elegantemente recato, mas nunca tinha reparado em seu lado tão sereno e centrado. Ele estava dando atenção a alguém que ele nunca viu na vida. Talvez fosse porque tia Muriel estivesse adoecendo. A verdade era que Scorpius sempre gostou de pessoas mais velhas. Apresentavam sabedoria e muitos anos que se passaram, histórias, pessoas e problemas. Adquiriu isso de seu avô e ele gostaria, muitas vezes, de ter passado mais tempo com ele... sem assuntos de trabalho. Gostaria também, muitas vezes, de chegar a ter a visão envelhecida de sua mãe. E ele sabia que isso nunca irá acontecer.
— Por que não fugiu? — ele questionou.
— Não sei... não sei... Sabe... eu estou morrendo. Muitas pessoas... na minha idade... nunca teriam a chance de ter um último desejo. Eu faria tudo... se pudesse voltar ao tempo... faria tudo por um último beijo dele. Você me daria a honra?
Foi impossível não rirem. Inacreditavelmente, Scorpius manteve-se sério, considerando a proposta.
— A senhora quer um beijo meu?
Ela suspirou, teatralmente.
— Sim, rapaz. Sim.
— Parece tentador, mas sou comprometido.
— Oh — ela disse piscando os olhos. — Quem é a vadia?
— Ela é importante para mim, não posso fazer besteira.
— Uma moça de sorte.
— Eu que sou — ele disse. — Espero que entenda.
— Entendo. Entendo que vou precisar...
Ela começou a tossir muito forte. Scorpius se soltou dela e se afastou quando Molly entregou a ela um copo de água para acalmá-la. Quando se recompôs, tia Muriel olhou rabugenta para a avó dos primos e empurrou a mão dela, derrubando o copo sobre o colchão. Molly, muito sem-graça, lançou um leve olhar a Victoire, que compreendeu e chamou os primos para deixarem Muriel em paz.
— Então o segredo é parecer o amante dela. — O comentário de Albus quebrou a tensão. Eles olharam para Scorpius.
— Gostei dela — admitiu o rapaz, segurando os ombros de Zoe.
A filha estava bem quietinha. Tinha ficado muito surpresa por ver alguém da família doente daquela forma, mas qualquer dúvida que tivesse sobre isso Zoe decidiu tirar mais tarde, pois em poucos minutos a casa voltou a ter a correria e brincadeiras de sempre e crianças não sabem ficar tristes por muito tempo. Ou apenas não gostam.
Zoe ganhou inúmeros presentes, incluindo um incrível jogo para o Xbox. Albus deu um jeito de se convidar para jogar com ela, ensinando truques e se divertindo. Teve um momento que decidiram jogar em dupla. Como Rose estava ocupada papeando com as primas, Al chamou Scorpius para se juntar e ele não quis negar dessa vez, porque Zoe duvidou que ele ganhasse, provocando.
Scorpius jogava bem e manteve as boas pontuações com Albus. Zoe revezou com o tio Harry, depois com Luke e depois com o próprio avô. Mas nenhuma dupla ganhou de Scorpius e Albus.
— Ele parece bem — comentou Lily, na mesa com as outras moças que assistiam a mesma cena. Rose estava conversando com elas sobre os últimos acontecimentos. — Parece mais feliz. Ele sempre pareceu ser esse cara tão sério.
— Você também, Rosie — disse Rox. — Vocês passaram por diversas coisas, então é bom ver que estão superando pela Zoe.
— Sim — ela concordou sorrindo quando Zoe desistiu de jogar com o tio George para tirar Albus do controle. Agora pai e filha estavam arrasando com todo mundo nas partidas.
Scorpius teve um Natal incrível naquele ano. Um Natal diferente, onde todas as preocupações do mundo sumiram por mais do que apenas uma hora, tempo que ele, em outras condições, usaria com uma moça aleatória em festas e bebidas. Não sentiu nenhuma falta de seus hábitos ruins.
Zoe insistiu no final da noite para que passasse os dias com a vovó Weasley até o ano novo, onde ela brincaria com o pequeno filho de James e Luke, pois Al e Michael passariam o restante do feriado por lá. Rose não estava acostumada a deixar Zoe dormir fora por tantos dias, mas com a família era um assunto diferente e não a preocupava.
Além disso, Rose não reclamaria de ter tempo para se preocupar apenas com o relacionamento que ela e Scorpius estavam reconstruindo. Ele, sempre preocupado em mantê-la satisfeita, não reclamaria também.
Voltaram para o apartamento de Rose sem a pequena Zoe, mas obviamente recebendo a cada minuto um recado de Lily ou foto do que elas estavam fazendo. Os dois estavam sorrindo de uma em que Zoe escovava os dentes, quando entraram na sala carregando os presentes que trouxeram de volta. Scorpius a ajudou a organizar as coisas e, depois, Rose tirou o casaco e o cachecol do pescoço, observando-o.
Ele não poderia ver, mas ela estava sorrindo. Fraquinho. Observando a expressão concentrada de Scorpius enquanto ele se preocupava em ajeitar o ar quente pela atmosfera gelada da sala. Ela pensou em como ele agiu com sua família naqueles tempos, em como ele parecia querer levar aquilo mais a sério do que antes levaram. Pensou também em como ele sempre foi irresistivelmente atraente com as mangas da camisa dobrada. Em como ele era um cara extremamente difícil de compreender, difícil de mostrar alguma emoção, e por estar se abrindo um pouco mais com ela, Rose sentia-se bem.
Acabaram a noite deitados no tapete da sala, esquentados não apenas por eles mesmos, mas pelo cobertor que os envolviam. Eles estavam silenciosos, sonolentos, Scorpius acariciando distraidamente o braço dela com aqueles dedos que conheciam cada traço do corpo de Rose. A música que soava pelo apartamento através da televisão era bonita e Rose conhecia a letra, por isso estava movendo distraidamente os lábios no ritmo.
— Eu sinto falta dela — ele disse baixinho, interrompendo-a.
— Sim, ela deixa tudo muito silencioso — concordou Rose. Scorpius acabou rindo.
— Não estou dizendo sobre a Zoe.
Rose desencostou o rosto de seu peito, mas evitou qualquer tipo de expressão que indicasse sua surpresa quando viu os olhos de Scorpius. Ele estava querendo entrar em um assunto extremamente delicado com ela. Um assunto que ele nunca entrou com ninguém mais.
— Minha mãe nunca gostava das minhas namoradas, sabe? Eu queria que ela tivesse se surpreendido com você. Ela ia falar que eu não mereceria você. Quero dizer... Ela ia gostar de você. Última conversa séria que eu tive com ela foi uma briga. Nunca te disse, não é? Eu não apareci para jantar no aniversário dela. Devo ter problemas com aniversários, considerando que fiz a mesma merda com a Zoe... Por uma semana ela ficou sem falar comigo. A gente nem se encarava mais. Ela estava muito decepcionada. Eu a decepcionei. E então nós íamos àquela praia, lembra? Você, eu e mais alguns amigos... E eu liguei para minha mãe avisando. Não teria avisado em outras circunstâncias, mas eu achei que seria certo fazer isso. Poderia quebrar o gelo. Mas ela resolveu atender enquanto estava dirigindo.
Apesar das palavras terem saído da boca dele, eram os olhos de Rose que estavam lacrimejados. Ela sentiu de perto toda a dor da família dele quando a tragédia aconteceu. Até hoje isso afetava muito Scorpius e ele não sabia lidar com isso. Mas ele estava tentando.
— Eu sinto muito — Rose sussurrou. — Por tudo o que aconteceu. Por sua família e por nós dois, depois disso.
— Eu não sinto por nós dois. — Ele penteou seus cabelos ruivos e encaracolados com os dedos, para jogá-los para trás. Rose tinha o rosto delicado e ele a beijou. — Não é algo que eu gostaria de me arrepender.
— Sim... — ela concordou, rendendo-se a um sorriso distraído. — O que seria da Zoe se não fosse por aqueles jovens idiotas e irresponsáveis que éramos?
— E o que seria da gente agora sem a Zoe, não?
Refletiram sobre a vida, coisa que nunca faziam depois que transavam, e o pensamento fez Rose soltar uma risada.
— Acho que estamos ficando muito velhos para a idade.
O silêncio se formou no apartamento, sendo possível apenas escutar a movimentação das ruas lá embaixo. Vozes, carros, alarmes, até mesmo coral de músicas natalinas. Scorpius estava sentindo o sono chegar quando ele confessou num sussurro contra a orelha de Rose, esquentando o sangue de uma forma gostosa:
— Eu odeio ter que voltar pra casa.
— Não precisa — ela respondeu quase que automaticamente. Sem nenhuma hesitação. — Hoje. Ou amanhã. Ou depois de amanhã.
— Tem certeza? Não quero foder tudo de novo.
Ela roçou os lábios calmamente no ombro dele e subiu até o pescoço, sentindo o perfume masculino e o suor do sexo que, há pouco, haviam feito.
Ela parou e ergueu o rosto para encarar os olhos dele. Como sempre, era fácil identificar a própria filha neles. E isso apertou o peito dela de uma forma impetuosa. Doía e de um jeito bom.
— Acha que é o único que tem medo de decepcionar? De fazer alguma merda e estragar tudo? Você não sabe como eu sou. Eu tenho manias.
Ele riu.
— Sei que tem. E eu gosto das suas manias.
— Você não viu nada ainda.
— E quero ver.
Ela olhou para ele, entendendo a indireta. Ele realmente estava disposto a levar aquilo adiante. A não voltar para o apartamento dele. Ficar com ela. Ficar com elas. Por mais tempo.
Ele deu a indireta sem ter certeza de que ela aceitaria. De que ela estivesse de acordo com isso. Mas uma vez escutara que ela gostaria de vê-lo se esforçar. Entregar-se a alguém sem medo do que poderia acontecer. Sem medo das consequências, porque ele poderia ainda fazer muitas merdas, mas a diferença dessa vez era que ele estava se esforçando mais.
Rose não respondeu, apenas o beijou. Ele correspondia os beijos de Rose sempre muito disposto, mas aquele foi diferente do que compartilhavam para dar embalo a um sexo ferozmente delicioso. Ela apertou a mão em seu rosto, os olhos fechados, apreciando sua língua e a palma da mão dele passeando pela perna dela. Ele prensou os dedos na pele quente de sua coxa e a ergueu para entrelaçá-la ao quadril dele, embaixo das cobertas, embaixo do calor, mas em nenhum momento sem que se distraíssem daquele beijo.
Scorpius sabia a diferença entre um cheio de luxúria e um com sentimentos.
Ela parou aos poucos e disse baixinho, insegura:
— Não é um lugar espaçoso aqui...
Ele demorou a entender o que ela quis dizer com isso. Rose era segura de muitas coisas, mas Scorpius conhecia o problema dela com dinheiro. Não que ela sofresse com as contas; era organizada e dedicada. Mas, quando se comparava ao estilo de vida e ao trabalho de Scorpius, Rose sabia que ele não conhecia as dificuldades que ela enfrentava.
— Tem até umas caixas que eu nem esvaziei desde a mudança. — Ela riu desastrosa, mas Scorpius manteve-se sério. Não acreditou no que ouviu.
— Você não pode achar que eu me importo com isso.
— Não acho — garantiu. — Só estou te preparando.
— Estou preparado. — Dizendo isso, Scorpius ergueu o corpo e se deitou sobre ela, sentindo os braços delicados o envolverem. Ele teve a deliciosa sensação das unhas delas roçarem bem levemente sobre a extensão das costas dele, do mesmo jeito que ela fazia quando eles namoraram antes. Alguns hábitos realmente ninguém sabe abandonar. Scorpius sorriu fraquinho para ela, olhando para os olhos dela. — Eu tinha me esquecido do jeito que a gente ficava.
— Como?
— Ridiculamente melosos.
— Ninguém precisa saber — cochichou Rose seriamente irônica — que você sabe ser romântico. E eu prometo que não conto. Você tem uma reputação a zelar, afinal — brincou.
Era bom. Scorpius estava preguiçoso demais para sair debaixo daquela coberta. Sair de Rose.
O próximo beijo foi do jeito que Scorpius gostava, porque ela o apertou contra ele, juntando os quadris a ponto de fazê-la respirar fortemente. Ele pressionou o aperto e mordeu os lábios dela. Porém, o rapaz não tinha nenhum pacote de camisinha por perto; estava no banheiro, e Rose não se incomodou em quebrar o clima por alguns minutos para pegar mais um e iniciar a próxima rodada.
Durante esse tempo, ele se perguntou por que Rose nunca pensou em fazer cirurgia para impedir outra gravidez. Não que esse fosse o único motivo de usarem preservativo, mas isso ficou martelando contra a cabeça de Scorpius. Ela já tem uma filha. Poderia impedir as chances de engravidar de novo.
Não entrou no assunto com ela e também não ficou pensando nisso. O corpo de Rose o impediu de ter qualquer outro pensamento além do que realmente importava naquele momento. Levá-la ao orgasmo.
E ele conseguia. Toda a maldita vez.
***
Passaram a semana reatando o tempo perdido. Reencontraram Zoe quando voltaram para a casa dos avós dela. A filha deles não queria voltar, obviamente havia se divertido muito com Luke e as primas de sua mãe. Passou o jantar de ano novo inteiro tagarelando para Rose e Scorpius sobre as coisas incríveis que havia feito com o vovô Weasley; suas invenções para conseguir ganhar da guerra de bola de neve contra os tios, seus novos brinquedos, suas novas descobertas e tudo o que aprendia sempre e a todo o instante. E ela mal podia esperar para contar a Ralph Thomas o quão incrível tinha sido o seu Natal.
Quando os ponteiros do relógio na cozinha de Molly Weasley detectou a chegada da meia-noite, a família Weasley se reuniu no jardim da casa para a contagem regressiva e o espetáculo mais importante no céu estrelado de uma noite fria, mas cheia de sorrisos.
A tradição exigia que cada um recebesse do jeito que quisesse um beijo quando o ano virasse. Zoe, sorridente, viu os pais trocarem um logo perto dela, talvez o primeiro de outros anos que ainda estavam por vir.
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