Fix You
32 White Shadows
Notas iniciais

Capítulo 32.: White Shadows
"Maybe if you say it, you'll mean it..."
As mudanças de um novo ano surgiram logo na primeira semana do mês de janeiro. Era uma época de poucas cores na atmosfera chuvosa de Londres e as pessoas que não tinham o auxílio de transportes públicos precisavam caminhar apressadas pela rua, cobrindo-se com capas de chuva ou protegendo-se com suas bolsas ou maletas se não tinha guarda-chuva.
Draco precisou se molhar porque sua maleta do trabalho estava sendo usada para proteger a cabeça de Zoe que, apesar de correr mais rápido que o avô, não dava passos largos como ele e tinha dificuldade de alcançá-lo.
— Me espera, vovô!
Ele acabou soltando uma risada com o desespero da neta. Zoe precisou desviar das poças d’águas que atrapalhavam o caminho da calçada e isso diminuía o ritmo da corrida em direção ao edifício que ela conheceu tão bem em tão pouco tempo, desde que chegara a Londres.
Scorpius estava esperando eles no saguão, sentado em uma das poltronas do local, ocupado com uma revista. Zoe viu a recepcionista nova, mas não foi falar com ela diretamente porque, diferente de Portia, a nova era uma mulher carrancuda e não gostava de crianças. Nem ao menos tinha um pote de doces e balas no balcão! Isso era um absurdo.
Enquanto espiava para ter certeza que a nova recepcionista não estava escondendo nada dela, Zoe não reparou o motivo de Scorpius perguntar a Draco:
— Tem certeza disso?
— Você tem certeza disso? — rebateu o pai.
Scorpius entregou a chave de seu apartamento na mão de Draco.
— O senhor precisa de um lugar novo. Sei lá, precisa recomeçar de algum jeito.
Foi necessário um período de intensa abstinência em seu vício para que percebesse que Scorpius sempre se preocupou com ele. Embora ambos fossem tão parecidos, Draco reconheceu o esforço dele. E desejou ter sido mais esforçado também. Já estava na hora.
— Estou querendo saber se tem certeza do que você está fazendo. Indo morar com elas.
Scorpius distraiu-se quando Zoe esbarrou em uma mulher alta por ter voltado do banheiro correndo.
— Sem correr, Zoe.
A filha parou de perambular quando ouviu a voz autoritária de Scorpius. Nos últimos tempos, Zoe esteve escutando mais vezes o pai mandá-la parar de fazer alguma coisa que não era permitido. Zoe ficava um tanto nervosa, desacostumada, mas Scorpius sempre impôs respeito com sua postura, e isso fazia Zoe não agir imaturamente, desrespeitando-o. Ela parou de correr e andou até eles.
— Papai, quando você vai levar suas coisas pra casa?
Ela claramente estava empolgada com a ideia de ter Scorpius morando com elas, motivo pelo qual ficava tão hiperativa. O sorriso dele indicou boas notícias.
— Só queria deixar a chave do meu antigo apartamento com seu avô. E já vou para lá com você.
Ela poderia comemorar.
Scorpius acabou se despedindo de Draco, após passarem trinta minutos conversando sobre o apartamento – que inclusive havia sido presente de Lucius para Scorpius quando se formou em Oxford e começou a trabalhar com ele. Draco já conhecia o loft bem demais, então outras formalidades foram realmente desnecessárias entre pai e filho. Os papeis burocráticos da mudança já estavam prontos e naquele mesmo dia, Draco decidiu que faria um jantar para estrear sua nova mudança.
Cissy aceitava tal mudança. Ela se ocupara com um projeto de teatro, portanto seus dias não estavam resumidos ao ócio ou completamente solitários, principalmente depois que encontrou uma antiga amiga para colocarem os papos em dia e passavam tempos juntas fazendo compras. Ainda em luto pelo falecimento do marido, obviamente existiam dias que a falta era insuportável e ela se isolava de tudo e todos. Mas ela tinha a mania de se distrair com seu trabalho e agora que estava pegando o jeito das tecnologias modernas, Cissy se usufruía das vantagens delas. Além de estar começando a escrever um livro, ela estava buscando contatos para que “As Noites de Clarisse” virasse uma peça de teatro.
A casa dos Malfoy valia milhões. Uma casa espaçosa demais para apenas uma pessoa. Narcissa esperava que o tempo dissesse o que poderia acontecer ao terreno. Então quando Scorpius comentou sobre estar com planos de morar com Zoe e Rose, a vó Cissy já podia descartar a possibilidade de vender a casa. Poderiam usá-la, quem sabe, em um futuro mais próximo.
O prédio em que Rose morava era antigo, mas estava sempre em constante reforma. As pessoas que moravam nos arredores eram boas pessoas, sempre cumprimentavam e não havia arrogância. Um ou outro costumava comentar sobre a vida alheia, mas não davam motivos para ligarem para isso. Naquela semana, os elevadores estavam interditados, mas Zoe não fazia o incômodo ser grande coisa para alguém como Scorpius acostumado com coisas fáceis. Porque eram em momentos simples como esses que a relação deles crescia.
— Vem cá — ele chamou, inclinando-se para Zoe fazer o que adorava. Ela subiu nas costas dele, segurando seus ombros e apoiando as pequenas pernas na lateral do corpo dele. Scorpius, levando a filha, se adiantou um passo para o primeiro degrau da escada começando a subi-la lentamente. Zoe riu quando percebeu o fingido esforço que Scorpius fazia.
— Para, pai, eu não sou tão pesada!
— Mas é um elogio. Você não queria crescer todos os dias?
— Sim!
— Então estar mais pesada significa boas notícias.
Mas Scorpius pressentiu que, em pouco tempo, ela não pediria mais por isso. Costumava subir as escadas com ela em suas costas desde os seis anos, quando ela voltou para Londres, mas Scorpius nunca tinha achado necessidade de aproveitar tal momento como se fosse o último. Ela realmente crescia a cada instante, tanto que assustava. Zoe nem ao menos teria pedido a Scorpius para erguê-la e subirem juntos se Scorpius não tivesse dado a oportunidade. Naquele momento tão simples, tão aleatório do dia deles, Scorpius relembrou o que o sr. Weasley havia falado: “se não cuidar, não vai ser assim para sempre”. Ele precisava ter iniciativas agora. Ou Zoe perderia costumes que gostavam tanto de fazer juntos. Mesmo depois da escola, ela também já estava mudando o sabor do milk-shake e pedindo coisas diferentes.
— Pacote entregue — ele disse e Zoe pulou das costas dele quando entraram no apartamento.
O ar estava mais quente dentro da sala, então Scorpius achou necessidade de tirar o sobretudo. Zoe correu até Rose ao fundo do corredor dos quartos, porque ficou eufórica ao ver o que ela estava fazendo.
Com auxílio de uma pequena escada, Rose alcançava o topo da parede branca com um pincel cheio de tinta azul. Contornava um de seus belos desenhos que pareciam flutuar pela extensão da parede.
— Oi! — ela sorriu quando olhou para baixo e viu Zoe imediatamente pegando outro pincel no pote que estava encostado ao canto da parede para se juntar a atividade da mãe. — Você está encharcada, Zoe. É melhor tomar banho.
— Mas se eu vou me sujar de tinta, não é melhor eu tomar banho depois?
— Espertinha. — Olhou por cima dos ombros, sorrindo para Scorpius também. — Conseguiu falar com seu pai?
— Sim. Eu entreguei para ele a chave.
Rose estava concentrada em não borrar o contorno de tinta, então não pareceu notar a importância daquela resposta. Mas só pareceu. Ela não se incomodou em tirar o pincel da mão para descer a escada e andar depressa até Scorpius e abraçá-lo. Fortemente. Quando ela o beijou na boca, ele desejou: Céus, que eu não estrague tudo dessa vez.
— O que está fazendo? — perguntou Scorpius, curioso.
— Zoe está na idade em que a criatividade dela deve continuar sendo estimulada. Então... eu vou disponibilizar a parede para ela pintar o que ela quiser. Sem essa coisa de proibir ela de sujar a casa e tal.
— Você é uma mãe diferente — ele sorriu. — Eu gosto disso.
— Quer se juntar?
— Eu estava pensando em desempacotar as-
— Não. — Ela puxou a gravata dele e disse provocando: — Se for fazer atividade chata, ninguém aqui vai te ajudar.
— Você sabe que eu só sei desenhar palitinho.
Mesmo assim, ele estava dobrando as mangas da camisa e se aproximando de Zoe. Observou a filha se concentrar em desenhar e pintar seus personagens de desenhos favoritos. Scorpius notou que os traços dela estavam apresentando mais detalhes. Ele podia sentir uma leve evolução no modo como representava a figura de Scorpius em seus desenhos. Com mais detalhes ainda. E o sorriso dele ainda maior.
— Olha! Você está segurando as malas aqui — ela narrava os próprios desenhos. — Porque agora você vai morar com a gente. E a mamãe está com cara de apaixonada.
Rose abanou a cabeça, toda orgulhosa dizendo que não ficava com essa cara. Scorpius riu quando Zoe acrescentou mais coraçõezinhos em volta dos pais. Por fim, Scorpius acabou arriscando desenhar algumas coisas, quase temeroso por estragar as outras pinturas de Rose e Zoe, que eram tão bem feitas e coloridas. Mas Zoe não se preocupou com isso, ela o auxiliava em tudo, sempre disposta a ensiná-lo coisas que adultos deixaram de saber quando se tornaram adultos.
Passaram o final da tarde bagunçando e sujando aquela área do apartamento. Scorpius tinha tirado muitos problemas do trabalho na cabeça naquelas horas e quando deitou exausto na cama com a calça do pijama e o cabelo molhado do banho, pensou em como tinha sido uma ideia boa morar com elas. Era muito bom ter alguém para abraçar no final do dia e relaxar sem precisar de outro auxílio ou de vícios.
Desde o dia em que começou a morar com Rose e Zoe, não colocou mais nenhum cigarro na boca.
***
Mas quando chegou a semana definitiva da sentença de Otavio Trentwell, homem acusado de muitos assassinatos e de uma tentativa de homicídio contra Scorpius há mais ou menos um ano, o rapaz sentiu necessidade de acender um. Estava no saguão do prédio da firma quando viu Portia relaxando da manhã corrida no horário de almoço. Ela estava fumando, distraída, mexendo no celular.
A moça quase derrubou o cigarro entre os lábios quando viu a aproximação de Scorpius.
— Você tem mais um? — ele perguntou.
— Não — ela disse, e Scorpius sorriu frustrado quando percebeu o tom de mentira. Ela estava guardando o maço novo dentro da bolsa, mas não se importou que Scorpius notasse isso.
— Entendi. Você não ajuda no vício das pessoas.
— Eu não ajudo quem está tentando parar.
Antes que ele chegasse a entender a atitude dela em se preocupar que ele voltasse a fumar, um advogado da firma andava em direção a eles. Scorpius o reconheceu; era um dos mais talentosos associados, o ambicioso e arrogante Corey Archner. Era um grande admirador de Lucius e sempre estava disposto a seguir o exemplo dele. Agora, depois de sua morte, o rapaz de vinte e três anos via em Scorpius um tipo de fonte para o sucesso, pois estava sempre sendo prestativo com ele. E puxando o saco.
Scorpius julgou que Corey Archner estivesse procurando-o, mas quando se aproximou deles, o rapaz sorriu para Portia.
— Vamos? Eu estou pronto.
— Sim, vamos. — Antes de sair com Archner, Portia achou necessidade de explicar a seu chefe: — Eu vou almoçar, mas volto assim que puder para organizar as fichas do último caso. Tchau, Malfoy.
— Aproveite o almoço.
— Ótimo julgamento na semana passada, Malfoy — disse Archner, estendendo imediatamente a mão para Scorpius. — Não consegui encontrá-lo pessoalmente para parabenizá-lo pelo excelente discurso. Convenceu o júri, lembrou-me de Lucius.
— Obrigado — disse, apertando a mão do rapaz.
Enquanto saíam, Archner imediatamente tentou acesso para tocar o braço de Portia e, depois, segurá-la pela cintura enquanto caminhavam juntos para fora do prédio. Portia deu uma olhadinha por trás dos ombros, mas Scorpius já estava de costas voltando ao trabalho e o celular sempre grudado na orelha. Pelo sorriso que dava, estava conversando com Rose. Ou sua filha.
***
Uma semana antes do julgamento de Trentwell, o desespero interno de Scorpius era tanto que ele se viu esperando Albus Potter sair da universidade em que trabalhava. Estava no estacionamento, encostado ao carro, e tinha tirado duas horas do trabalho à tarde para falar com ele.
Albus não teria parado de caminhar até sua moto se Scorpius não tivesse chamado o nome.
— O que está fazendo aqui? — ele perguntou quase assustado.
— Preciso falar com você.
Albus esperou ele continuar. Scorpius odiava enrolação, por isso foi direto ao ponto.
— O cara que ordenou o assalto ano passado será solto em menos de dois dias e eu preciso aprender a usar uma arma.
Al passou a mão na testa, embora não estivesse suando.
— Por que está me procurando para isso?
— Porque eu sei que você venceu muitos campeonatos de tiro ao alvo.
— Cara, isso foi por esporte. E eu acertava placas.
— Mas sabe atirar, não sabe?
— Eu sou ótimo. — Pausou por um instante. Pareceu até genuinamente preocupado. — Tem certeza de que ele será solto?
— Preciso me preparar para a pior possibilidade.
— Ele ameaçou você? Ameaçou que vai tentar te matar de novo se saísse da prisão?
— Ele não precisa. É óbvio que vai tentar. Seria burrice minha não me preocupar com isso.
Albus sentou na moto e olhou para seu capacete em mãos. Coçou a nuca para dar embalo a pergunta:
— Rose sabe disso?
— Sabe.
— Sobre a arma também?
— Não mencionei isso a ela. Eu não quero que ela fique preocupada demais.
— Bem, então mencione. Mesmo que a deixe preocupada. Ela odeia ficar sem saber das coisas. Eu posso te ajudar, mas Rose tem que saber disso também.
— Isso é um sim.
— Com condição.
— Eu aceito a condição.
— Então é um sim. — Vestiu o capacete, abafando a voz ao dizer brincando: — Temos um encontro, Malfoy. No final de semana?
— Eu te ligo.
— Preciso escrever meu número no seu braço?
— Não — ele disse, disfarçando o sorriso exasperado. — Eu já tenho.
— Beleza. Tchau.
Albus ligou a moto, acelerou e em poucos segundo desapareceu de vista, deixando Scorpius parado no estacionamento, tendo uma breve sensação de dejávu. Olhou ao seu redor. E se lembrou da noite que quase perdera a vida.
Não. Não vou entrar em desespero. Tenho que ser firme como meu avô seria. Aguentar e esperar. Friamente.
Mas ele não estava pensando em si mesmo naquele momento.
Conhecia homens como Otavio Trentwell. Se ele saísse da prisão, poderia se vingar de formas ainda piores do que tentando matar Scorpius. E sabia, muitas vezes, que isso envolvia a família também.
Foi mais cedo do que o normal buscar Zoe na escola. O sinal nem havia soado pelos arredores ainda e Scorpius precisou esperar em um banco no saguão vasto da entrada da construção. Precisava fumar agora. Mas não tinha nenhum cigarro, ninguém por perto para que ele pudesse dividir.
A vontade diminuiu um pouco quando viu Zoe andando com os colegas das outras turmas para fora da escola, após o sinal. Ela viu Scorpius, despediu-se rapidamente de Ralph Thomas e Amanda para andar, acelerando os últimos passos até Scorpius e abraçá-lo.
— Oi, papai! — ela exclamou eufórica, mostrando um convite de aniversário bem perto do rosto de Scorpius. — O Ralph Thomas me convidou para a festa dele. Posso ir? Posso?
— Hoje? — franziu a testa, abrindo a porta do carro para ela. Quando assumiu o volante, Zoe explicava no banco de trás, onde colocava o cinto:
— Hoje é o aniversário dele, mas a festa só vai ser no sábado. Posso ir, papai?
— Vou pensar se deixo você ir a festa dele.
— Pensar? Então promete que vai pensar bem rápido?
— O que vai ter demais nessa festa?
— Pula-pula!
— Já ganhou você, não foi?
— Sim — disse sonhadoramente, quase suspirando até. — Eu não brinco em um pula-pula há muito tempo. Eu nem me lembro mais como é pular. Eu devia ser bem nova quando pulei.
Scorpius ficou preocupado com a sensação que teve enquanto ouvia a voz de Zoe contando sobre o dia de aula. Dessa vez, ela tinha grandes novidades, notas altas, elogio da professora, até mesmo um menino que brigou com outro. Eram probleminhas que ela enfrentava diariamente, tão inofensivamente que invejava Scorpius ao mesmo tempo em que o deixava aliviado. Zoe definitivamente não era uma criança infeliz. Ele costumava ouvir a filha para esquecer os problemas de seu trabalho, mas nesse caso, com a iminência de ter um assassino solto, Scorpius ficou seriamente calado o tempo todo. E uma dor de preocupação que ele nunca esteve acostumado a lidar.
Quando chegaram ao edifício, Zoe perguntou:
— Posso subir nas suas costas, papai?
Ele estava distraído e já havia se aproximado do elevador agora arrumado.
— To um pouco cansado, coisinha.
— Tudo bem. — Ela segurou a mão dele e ficou calada durante o tempo em que o elevador subia para o andar em que moravam, agora, juntos. Zoe suspirou, olhando para cima, para o rosto preocupado de Scorpius. Tudo bem, mas ela se sentiu um pouco chateada. Era um daqueles momentos em que ela reconhecia que Scorpius não estava cem por cento presente para ela, porque estava pensando em seu trabalho.
Zoe estava acostumada. Zoe o conhecia bem.
***
Na madrugada de sexta-feira, Scorpius foi interrompido do sono com uma ligação no celular e o atendeu fora do quarto para não acordar Rose. Mas ela o ouviu e, mesmo sonolenta, achou necessidade de se levantar. Abotoando a camisa branca masculina no corpo magro, Rose andou até o sofá onde Scorpius estava sentado.
Ela quis fazer muitas coisas para tirar as preocupações dele. Sentou em suas pernas e envolveu os braços ao redor do pescoço dele, fazendo-o abrir um sorriso mais tranquilo.
— Vem pra cama — ela pediu carinhosa, beijando o pescoço dele.
— Eu vou. E quando isso acabar, Rose... vamos sair daqui. Viajar. Eu, você e Zoe.
— Estamos fazendo planos?
— Sim.
— Então vamos — ela respondeu, sem hesitar.
Ele descobriu que, para continuar seguindo em frente, as pessoas se prendem às outras. Elas precisam das outras. Scorpius fez o que Rose sugeriu – voltou para a cama. Sob lençóis, segurou a perna flexionada quando se acomodou no corpo quente da namorada. O tecido da camisa subiu alguns centímetros, apenas para revelar a pele macia coberta pela calcinha que, sem demoras, ele tirou.
Ela despenteou o cabelo loiro com os dedos no mesmo ritmo lento como a língua dele roçava seu clitóris, estimulando-a e atrapalhando seus pensamentos racionais. Ele a olhava profundamente enquanto a fazia se contorcer com aquela língua ridiculamente habilidosa. E a saboreava como algo que ele precisava para manter a sanidade. Ele gostava. Ele amava, na verdade. Poderia se viciar.
Rose fechou os olhos.
Como era bom.
Logo ele ocupou dois dedos para sentir a umidade e fazer o trabalho que há pouco sua língua estava fazendo. Rose estava pronta para receber mais do que isso, mas ela teria que ser paciente porque Scorpius não parava as coisas pela metade.
Foi necessário o auxílio dos lábios e da língua naquela noite para levá-la ao orgasmo. Ele sabia os pontos fracos dela, conhecia detalhes que talvez nenhum outro rapaz tivesse conhecido até então. Ele era bom em explorar cada parte que Rose gostava de ser beijada e estimulada. Ele prestava atenção nos detalhes e isso era o que fazia muita diferença na cama com ele.
E a maior diferença era que Rose se recusava a ser egoísta. Do mesmo modo que Scorpius se preocupava em nunca parar na metade, Rose retribuía com a mesma intensidade os beijos. Ela era atenciosamente sexy quando estava com os cabelos jogados e emaranhados, dando a Scorpius a perfeita visão da boca delicada e feminina chupando o que podia centímetro por centímetro. Sons escapavam de sua voz rouca e naturalmente baixa.
Ela tirou a calça dele, jogando-a em algum lugar na cama, o sono não existindo mais. Sem tirar os olhos dele, ela o preparava com a camisinha. Era só mais uma noite comum. Um sexo casual, até. Mas era sempre muito bem-vindo e bem aproveitado. Rose manteve o trabalho de subir e descer em seu colo, apoiando as mãos fortemente contra a cabeceira atrás de Scorpius, onde estava encostado.
— O que acha da Grécia? — perguntou ele, passeando as mãos pelas curvas do corpo junto à maciez do tecido da própria camisa no corpo dela. Rose beijava-o, o quadril em um ritmo constantemente delicioso contra ele.
— Maravilhosa. Roma também seria interessante, não? Eu já pensei na África.
— África? Diferente...
— Podíamos acampar. Lembra quando fomos acampar? O desastre que foi? — riu, pendendo a cabeça para trás quando Scorpius a beijou no queixo e desceu, roçando levemente a língua na região do pescoço, logo substituindo por uma mordida gostosa.
— Eu só me lembro de uma coisa naquela viagem — ele sorriu, safado. — Você transando comigo no lago, perto daquelas pedras, lembra?
— Oh — ela gemeu, lembrando perfeitamente. — Não faço umas loucuras dessas há anos...
— Precisamos dar um jeito nisso.
— Sim.
Scorpius a envolveu com os braços, jogando um pouco o corpo dela para o lado, para mudarem a posição e ele ocupar o comando dessa vez. Ele estocou forte uma, duas, três vezes, observando-a prender o gemido contra a garganta. Ela não ficou calada nos próximos segundos. Abafou a voz mordendo o ombro direito dele e arranhando fraquinho suas costas.
— Vai mais rápido — ela pedia e ele obedecia, achando energia para acabar a noite do jeito que precisavam.
Ele demorou um pouco para se recompor quando gozou, o alívio indescritível de não se sentir vazio depois da sensação deliciosa correndo por todas as células de seu corpo. Rose se desencostou dele para recuperar o fôlego, ofegante. Scorpius beijou o ombro dela, perto da tatuagem, e se levantou para tomar banho antes que caísse no sono.
Rose sorriu para si mesma, ouvindo o som do chuveiro. Não pensou duas vezes e se levantou também. Desabotoou a camisa do corpo a caminho do banheiro, entrou no boxe com ele e aproveitaram um banho juntos.
Quando estavam de volta para a cama, Scorpius abraçou Rose por trás e ela se acomodou no calor dos braços dele para dormirem.
Scorpius continuou com os olhos abertos para a escuridão no canto do quarto. Confiou que tudo ficaria bem, tudo precisava ficar bem, então confessou:
— Otavio Trentwell foi morto a facadas na prisão durante essa madrugada. Foi essa a ligação que precisei atender. Entrou em briga e um dos prisioneiros o matou.
A morte de alguém não era motivo para aliviar uma pessoa. Scorpius não soube o que sentir.
— Você está bem? — ela sussurrou.
— Sim — ele disse. — Acho que sim.
Rose trouxe a mão dele para perto de seu peito e os dois entrelaçaram os dedos. Só assim conseguiu dormir.
***
Zoe acordou algumas horas depois com muito sono, tendo a sensação de que sonhara com um bicho de pelúcia falante. Ela tinha medo de brinquedos falantes. Coçava os olhos, bocejava e se arrastava para fora do quarto com as pantufas quando entrou na cozinha e viu a mamãe arrumando a mesa.
— Bom dia, mãe – bocejou.
— Oi, querida, bom dia. Acordou cedo. Dormiu bem?
Ela se ergueu na cadeira para dar um beijo no rosto de Rose.
— Dormi... Meu pai foi trabalhar?
— Não, estou aqui — a voz dele soou da sala. Scorpius estava assistindo ao noticiário. Zoe encheu as duas mãos com biscoitos e se juntou a ele, sentando ao seu lado. Ele ergueu o braço para envolvê-lo no ombro dela, enquanto passavam o tempo de manhã juntos antes de Scorpius precisar sair.
— Desculpe não ter passado na lanchonete com você durante esses dias, Zoe.
— Ah, o vovô compra mais de um milk-shake para mim! — ela contou sorridente. — Então eu gosto quando ele me busca na escola também.
Scorpius sorriu para ela, embora internamente desejasse que momentos com milk-shake fossem apenas de ambos. Mas ficou feliz por Draco estar se dando muito bem com ela. Não iria ficar chateado.
— E acho que o vovô está paquerando a minha professora de teatro.
— Sério?
— Sim. Eles ficam conversando durante uma eternidade antes do vô Draco me levar para casa.
— Fofocando sobre seu avô, Zoe? — brincou Rose.
— Mas é verdade! E a minha professora é bem bonita. Acho que ele vai namorar ela.
Disse aquilo muito sonhadoramente. Scorpius estranhou porque há pouco tempo Zoe achava bem nojenta a ideia de namoro já que isso incluía beijar na boca. Ela tinha que continuar achando que beijar na boca era muito nojento.
Por alguma razão, ela se lembrou de algo importante:
— Você já pensou, pai?
— Pensei no quê?
— Se posso ir na festa do Ralph Thomas?
— A do pula-pula?
— Sim!
Ele suspirou. Pensou mais um pouco. Com má vontade, disse:
— Os pais podem ir também?
Zoe riu, sem acreditar.
— Você iria à festa?
— Sim.
— Duvido.
— Eu também duvido — disse Rose, a voz saindo da cozinha, estupefata. — Amor, a avó do Thomas chamou a gente, mas eu não comentei nada porque saberia que você iria arrumar uma desculpa para não ir. Se estiver falando sério...
— Eu nunca falei tão sério — ele disse, sério. — Vamos à festa do Ralph Thomas. Sábado, certo? Vamos.
Zoe ofegou feliz.
— Hoje eu vou contar pra ele que vou poder ir e aí eu preciso pensar no presente que eu vou dar pra ele!
Deixando Zoe se empolgar, Scorpius mudou o canal para colocar em um desenho que ela costumava assistir a esse horário. Não havia muitas notícias sobre o assassinato na penitenciária e, mesmo se tivesse, Zoe não merecia ver algo assim logo de manhã na televisão. Enquanto a filha se embaralhava com os biscoitos no colo sem deixar esfarelar sobre o sofá porque isso poderia fazer Rose brigar com ela, Scorpius se levantou e foi até a cozinha.
Pegou Rose em um beijo de surpresa e a segurou sua cintura.
— Eu preciso ir — ele disse preguiçosamente.
— Pelo menos hoje é sexta — ela o animou. — Você não vai precisar trabalhar amanhã, vai?
— Amanhã seria a sentença dele. Mas depois do que houve, pode mudar tudo.
— O que vai acontecer agora? — Rose perguntou baixinho, virando-se para ele.
— Não faço ideia. Mas... vai ficar tudo bem. Eu vou dar um jeito nisso.
Queria ficar mais tempo, mas precisava resolver aquilo logo. Percebeu o olhar de Zoe o seguindo pela sala enquanto ele enrolava, sozinho dessa vez, a gravata em seu pescoço e pegava o paletó do cabide para se arrumar. Zoe viu os pais trocarem um selinho e depois Scorpius se sentar ao seu lado para explicar:
— O começo do ano é muita correria, mas não vai ser assim o tempo todo.
Ela nunca entenderia, mas assentiu. Zoe era otimista. E acreditava em Scorpius. Não vai ser o tempo todo.
— Ainda mal aproveitamos o tempo desde que me mudei. Vou recompensar.
— Você vai na festa do Ralph Thomas mesmo?
— Vou. Pra você não aprontar nada — brincou, beijando o rostinho dela levemente. — E pode me esperar que hoje também consigo buscar você depois da aula.
Levantou-se e estava para sair quando Zoe o chamou. “Papai”. Achou que ela ia implorar para ele ficar, agarrando-se a perna dele como um coala do jeito que costumava fazer para Scorpius não ir embora. Mas as brincadeiras bobinhas dela pelo visto não se aplicavam àquele momento, porque Zoe só mostrou um caneta em sua mão:
— Você deixou cair!
Zoe entregou a caneta para Scorpius. Foi uma das heranças materiais deixada por Lucius, ele não poderia perdê-la.
— Obrigado, coisinha — ele disse com sinceridade.
Mas Scorpius tinha se enganado. Talvez as brincadeiras bobinhas se aplicassem a qualquer momento, porque Zoe o abraço e ficou grudada nele. Mesmo que chegasse atrasado até Zoe soltá-lo, ele não se importava. Isso sempre o fazia se sentir bem-vindo de volta à vida delas. Algo como: “estou sempre te esperando, pai!” E isso aumentava a vontade dele em se esforçar para melhorar nesse quesito tão difícil que é o de ser um.
***
Os sócios da firma, Blaise Zabini e Marcos Flint, estavam discutindo na reunião quando Scorpius chegou e caminhou apressado até sua própria sala. Antes de entender o que estava acontecendo, o rapaz deteve-se por um instante, pois se deparou com um homem conhecido acomodado em seu próprio sofá no mesmo instante que Portia o acompanhou pelo corredor, agitada, dizendo:
— Malfoy, eu disse a ele que você não costuma receber visitas, mas-
Ele ergueu a mão em um sinal para que ela se acalmasse. Ou não dissesse mais nada. Calado e com a postura naturalmente séria, Scorpius entrou em sua sala. Quando a porta se fechou atrás dele, Augustus Rookwood se levantou.
Aparentava ter uma idade avançada, talvez pelo excesso de casos que realizou com sucesso durante sua carreira. Não era um homem casado, não tinha filhos, não tinha netos, talvez namoradas mais novas, amantes, Scorpius nunca saberia. A vida de um dos maiores, agora o maior, advogado do país, não era revelada por ninguém. Mesmo que ainda aparentasse os seus verdadeiros setenta anos, era um homem invulnerável e com a postura intimidante. A única coisa que incomodava Scorpius diante de toda a presença marcante de um advogado tão bom era a mania que ele tinha de não abotoar o paletó quando se levantava. Lucius sempre dizia que isso era parte da etiqueta de qualquer pessoa que usava ternos e, se esse detalhe não fosse devidamente respeitado, não havia como respeitar a tentativa falha de ser sofisticado. Augustus Rookwood não era sofisticado.
— Bom dia, sr. Malfoy. Eu peço desculpas pela surpresa essa manhã.
— Seja breve — ele pediu. — É sobre Otavio Trentwell?
— Um azar, de fato.
— Com quantos motoqueiros eu tenho que me preocupar?
Rookwood riu.
— Você tem uma habilidade fenomenal de ser egocêntrico. Até me lembra de Lucius. Scorpius, Trentwell não estava interessado em você. O que você ganhou em seu ombro — apontou — foi resultado de uma tarde entediante na prisão. Ele não tinha nada para fazer, resolveu dar o seu nome para os líderes da gangue e, para um garoto ser afirmado entre o grupo, ele tinha a tarefa de matá-lo. Era só isso. Uma tarde entediante. Você é rico, mas não é importante para aquele bando de marginais.
— Qual é o seu propósito, Rookwood? — Scorpius perguntou, com as mãos nos bolsos da calça. — Está esperando eu servir um café a você?
— Eu preferiria chá, sou um britânico clichê. – Ao notar que Scorpius não riu, Rookwood suspirou. — Estou aqui para tranquilizá-lo. É plausível que tenha ficado preocupado com o que meu cliente pudesse fazer a você assim que fosse solto, mas agora posso assegurar que tudo está bem.
Claro, ele está morto.
— Então, um final feliz.
— Um final feliz para nós — confirmou, sorrindo. Mudou drasticamente de assunto. — Eu nunca tive a chance de dar os meus pêsames a sua família. Lucius foi... uma inspiração.
— Você o odiava.
Ele não foi mentiroso.
— Verdade. Éramos rivais. Mas era um ódio natural, daqueles que faz você crescer para querer ser o melhor.
— Sem ofensas, mas estou perdendo meu tempo e desrespeitando meu falecido avô por estar papeando com você.
— Então... sem papo furado. Vou direto ao ponto. — Seriamente agora, Rookwood caminhou para dizer muito perto de Scorpius: — Eu estou comprando essa firma.
Scorpius ficou impassível.
— Eu não estou ciente disso.
— Não precisa estar. Não é um sócio. O contrato de Lucius expirou há alguns meses e, como você muito inteligentemente recusou a firma, não há nada que você possa fazer. Mas, escute — ele voltou-se para dizer com consideração: —, você não é tão ruim na corte. Não vou demiti-lo.
Rookwood se retirou da sala de Scorpius, caminhando pelo corredor da firma como se já fosse o dono dela. Lançou sorrisos para as secretárias e, quando desapareceu pela porta do elevador, Scorpius se sentou imediatamente. Permitiu-se observar a discussão de Zabini e Flint, sem ouvir o que eles estavam dizendo.
Decidiu se levantar novamente e interromper a discussão, entrando na sala. Zabini terminou sua fala com um palavrão.
— Como eu estava dizendo ao sr. Flint, eu não sou a favor de vender a firma para Augustus Rookwood. O meu respeito por Lucius impede que tal coisa aconteça. Essa é uma empresa que ele ergueu com afinco há mais de cinquenta anos. Impede que o sobrenome seja retirado daquele letreiro.
— Estamos falidos se não aceitarmos a proposta — apontou Flint. — Rookwood tem reputação. Scorpius está construindo agora uma. É muito jovem.
— Quantos anos tem, Scorpius? — perguntou Zabini. — Só para relembrarmos.
— Farei vinte e oito.
— Lucius não era mais velho que isso quando ergueu essa empresa. Draco mesmo diz.
— O que estão sugerindo?
— Ou você assina alguns papeis ou Malfoy não terá nada a ver com essa firma a partir de alguns meses. Isso depende de você.
Ele recusara a proposta de Lucius quando o avô estava vivo. Porque ele pretendia reconquistar a filha e Rose. Pretendia demonstrar muitas coisas com essa atitude. Agora ele estava nessa encruzilhada, sem saber o que fazer e sem ter alguém para dar um conselho bom, um conselho que ele seguiria sem problemas. Não era como se não pensasse que esse momento um dia voltaria, mas ele estava esperando ainda ter o avô ao seu lado para ajudá-lo.
Ele estava sozinho agora.
Mas uma coisa ele sabia: Lucius estaria se remexendo em seu túmulo se soubesse que Scorpius vendeu o nome Malfoy para Rookwood. Seria uma traição.
Não sabia o que fazer.
***
— E não sei o que fazer — ele confessou, no dia seguinte, durante o tempo em que tomava refrigerante na festa de nove anos de Ralph Thomas e observava Zoe apostando corrida com os meninos. Era uma festa ao ar livre, no sítio da avó do garoto, com direito a gincanas, pula-pula, a turma inteira do terceiro e quarto ano – porque Ralph Thomas era repetente — participando das brincadeiras e comendo doces. Albus estava no mesmo balcão, ao seu lado, e parecia que festas de aniversários de criança conseguiam reuni-los para uma conversa franca. — Sei que vai ocupar meu tempo e que vou magoar Zoe por isso. Mas meu avô, eu não posso deixar o nome que ele ergueu cair dessa forma.
— Situação difícil — disse Albus. — Sabe o que eu faria?
— O quê?
— Eu perguntaria a Zoe. Ela tem os melhores conselhos.
Ele não tinha pensado em perguntar a Zoe. Ela só tinha oito anos. E, naquele instante, estava rindo por ter deixado os garotos para trás na corrida. Depois de verem que ela era boa, eles a escolheram para o time na partida de futebol do campinho. Era o pesadelo de Scorpius ver a filha jogando com um bando de moleques, mas ficou genuinamente orgulhoso quando ela, sem querer, chutou a canela de um deles ao tentar tirar a bola do pé. Rose, que assistia a partida ao lado das outras mães, chamou ela para conversar e mandar que ela pedisse desculpas ao menino que estava chorando.
— Mas nem foi tão forte assim — ela reclamou, mesmo que depois tivesse se aproximado do amigo: — Desculpa, Henry. Foi sem querer, tá?
O menino que estava chorando não queria mais participar da brincadeira, então as crianças ficaram tirando sarro, dizendo que ele era um covarde e não aguentava uma dorzinha sequer. Henry ficou tão irritado que descontou em Zoe. Ele empurrou ela quando ela estava com a bola no pé, fazendo-a cair de bruços no gramado molhado e se sujar inteirinha, dos pés aos dentes, literalmente engolindo grama. Zoe se levantou, mas ao invés de brigar com o menino ela olhou muito chateada, sem acreditar que ele tinha feito aquilo.
— Eu tinha pedido desculpas. Você fez de propósito agora.
Os pais não estavam prestando atenção, estavam conversando e comendo, então não viram quando Ralph Thomas se adiantou e empurrou Henry pelo peito, furioso.
— Se você derrubar ela de novo, vai se ver comigo!
— Ah, cala a boca, só porque é seu aniversário?
— Ela não chutou você de propósito. Você que chora que nem um bebê por tudo, seu bebezão.
— Vou contar pra sua avó!
— Minha avó vai falar que é verdade! Você é um bebezão mesmo!
Henry pulou para cima de Ralph Thomas e a briga só não continuou porque os garotos foram interrompidos pela voz ultrajada da sra. Thomas e a aproximação desesperada de alguns pais. A sra. Thomas berrou com o neto e chamou atenção de Henry quando conseguiu separá-los. Depois de muitos sermões, os garotos tiveram que se desculpar, mas o jogo de futebol não continuou e Zoe se sentiu culpada por ter estragado a brincadeira.
Rose se aproximou de Zoe para entender o que tinha acontecido pelos relatos dela, mas a filha ignorou ela e Scorpius e todos os outros adultos para dar às costas e correr o mais rápido que podia para perto do lago. Scorpius viu Zoe se sentar e ficar sozinha, com a cabeça encostada aos joelhos, chateada.
Rose suspirou depois de perder nas tentativas de conversar com Zoe. Voltou com uma expressão exasperada para perto de Scorpius.
— Ela é parecida com você — comentou como se estivesse descobrindo o quanto ela era filha de Scorpius somente agora. — Não quer falar e fica isolada para poder ficar triste.
— Vou tentar falar com ela.
— Boa sorte — Rose desejou com sinceridade.
E ele foi até Zoe. Guardou as mãos nos bolsos enquanto dava os passos até o local onde a filha estava sentada, à margem do lago. Durante essa caminhada ele pensou em como a faria se abrir com ele, mas se interrompeu quando viu que Ralph Thomas já tinha se aproximado primeiro e estava sentado ao lado dela, conversando com ela.
Scorpius quis se aproximar para saber o que eles estavam falando. Quis muito. Mas deteve-se. Até sentiu o peito apertar um pouquinho quando Zoe aproximou o rosto e deu um beijinho na bochecha do amigo. Depois, foi o próprio garoto que saiu correndo em direção à árvore ao lado deles, começando a escalar os galhos mais altos só para se exibir. Mesmo que ele tivesse sofrido um traumatismo há pouco tempo, o garoto ainda tinha fôlego para adrenalina e os perigos. Zoe escalou também, voltando rapidamente a rir e esquecer os pequenos problemas que a afligiam.
Talvez em momentos como aqueles as pessoas precisem dos amigos. Não dos pais.
***
No final da tarde seguinte no domingo, Zoe acompanhou Scorpius para visitar a lápide de Lucius no cemitério. Segurava fortemente a mão do pai, pois o ambiente a deixava ligeiramente assustada, mas ela não era medrosa a ponto de desistir da caminhada. Quando pararam em frente à lapide, Zoe perguntou curiosa:
— Se eu falar, ele escuta?
— Se você falar, você vai se sentir melhor.
— Você vai falar com ele?
— Venho aqui quando preciso de um conselho. Ele não vai me dar diretamente, porque está morto. Mas... preciso clarear a mente. Tenho que fazer uma importante decisão e queria saber o que ele faria.
— Que decisão, papai? — ela olhou para cima, o sol franzindo o rosto infantil mas sério, dessa vez, por ela estar mesmo querendo saber as respostas de suas perguntas.
— Um homem que meu avô não gostava muito quer comprar o lugar que ele construiu. E você sabe que meu avô era dono, não sabe?
— Dono tipo ele mandava em tudo?
— Sim. Alguém está tentando tirar isso dele, agora que não está mais aqui... E eu sou o único que pode impedir, sabe? Se eu virar o dono também.
— Aí é você que vai mandar em tudo?
— Garota esperta — elogiou o raciocínio de Zoe, abrindo um pequeno sorriso. Ela sorriu também, sempre muito orgulhosa quando ouvia um elogio de Scorpius. — Mas não sei — continuou, depois de um logo suspiro. — Não sei se estou preparado. Para mandar em todo mundo. Posso estragar tudo.
— Vai dar tudo certo, papai — ela disse. — O vovô Lucius vai ficar muito feliz por você, eu acho.
Com uma observação bem aleatória, Scorpius reparou que o sotaque londrino de Zoe estava mais carregado do que o de quando ela voltara dos Estados Unidos depois de quatro anos vivendo na cidade americana. Estava mais parecido com o dele, talvez pela convivência. Às vezes ele sorria por ter Zoe de volta com ele, naquela cidade tão misteriosa e histórica, que ele aprendeu a amar e odiar desde pequeno. Será que ela aprenderia também ou já amava?
— Você acha?
— Acho! E ninguém pode tirar o que é do vovô Lucius — acrescentou com a veemência de uma criança decidida.
— Ninguém — concordou, surpreso por acreditar que era algo que Lucius falaria também. E que sua avó Cissy estava constantemente dizendo.
Zoe era uma Malfoy.
Mas faltava apenas saber uma coisa.
— E você, Zoe? Ficaria feliz por mim?
Ela murchou os ombros. Não sabia mentir.
— Você vai precisar trabalhar muito, né?
— Sim.
— Eu não gosto quando você precisa trabalhar muito — ela disse com sinceridade. — Mas se é importante...
— Escute. — Ele não a deixou terminar de falar. Zoe não precisava tomar decisões e ser altruísta com aquela idade. Scorpius precisou se agachar a altura dela e olhá-la bem nos olhos para deixar bem claro. — Não existe nada mais importante do que você para mim. Nada, Zoe. Entendeu?
Ela assentiu.
— Vovô Lucius também é importante, não é?
— Sim. Mas você está aqui, e eu preciso aproveitar que você está aqui. Ele não está mais. E às vezes a gente tem que fazer as coisas para as pessoas que estão com a gente, certo? E...
— Pai — ela piscou os olhos cinzas. — Você está assustado?
— Eu não quero errar feio. Já fiz muito.
E então um pensamento apertou suas dúvidas. Lembrou-se da última conversa que Lucius teve com ele. Dissera algo como “ser um grande advogado não quer dizer nada. Eu deveria ter feito você um grande homem”. E grandes homens deviam tomar grandes decisões.
Zoe estava mais alta do que Scorpius naquele momento em que segurou o ombro dele. Parecia uma pequena adulta.
— Papai... Você não vai estragar tudo. Promessa do dedinho.
Ergueu o dedo mindinho na altura do rosto dele.
Ele ergueu o dedo dele e o entrelaçou o dela.
— Não vou — sorriu.
Zoe se distraiu, apontando:
— Tem um gatinho ali!
Ela foi até o gato que, ao sentir a aproximação dela, saiu correndo. Zoe continuou por perto, seguindo os pulos do gato, e deu espaço para Scorpius observar a lápide de seu avô e dizer baixinho:
— Ser um grande homem antes de um advogado, certo? Estou aqui. Tentando. Eu tenho Rose e Zoe. Elas não precisam de mim como eu preciso delas, mas... acho que tenho uma responsabilidade maior. O senhor deve entender.
— Ele vai entender.
Uma voz soou atrás dele. Scorpius tirou os óculos escuros dos olhos quando Draco se aproximou deles. Zoe o viu e correu até ele para abraçá-lo. Com uma mão segurando o ombro de Zoe, Draco olhou Scorpius.
— Era só uma questão de tempo — continuou. — Meu pai sabia que a empresa não carregaria o nome para sempre quando eu decidi não ser advogado. Quem deveria estar tomando decisões assim sou eu, Scorpius, não você. Aproveite sua vida, filho. É muito jovem para perder o sono por causa de trabalho.
Era o que Scorpius precisava ouvir para ter certeza.
— Astoria diria isso — acrescentou Draco.
— Já a visitou?
— Estava indo até lá. Quer me acompanhar?
Scorpius perdeu Astoria aos dezoito anos. Dez anos depois, essa era a primeira vez que ele visitava a lápide da mãe com o pai.
Ela ficaria feliz. Scorpius, pelo menos, estava.
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