Fix You

33 Careful Where You Stand


Notas iniciais
Eu voltei :) Vocês sabem, quem me acompanha desde o começo, que eu costumava postar um capítulo por semana. Ficou nessa constante atualização por quase 30 capítulos e eu sei que diminui completamente o ritmo. Sei que isso influencia no momento em que você volta a ler a história, mas eu sinceramente peço e espero que vocês não tenham desistido dela. Pelo menos não a maioria de vcs... Queria muito voltar a vê-los na caixa de comentários e se eu não conseguir isso... vai ser uma perda que não vou conseguir mais recuperar, infelizmente (tenho experiência com isso e sei como é). E eu quero recuperar, de verdade, para continuar com essa história. Andei muito mal por não ter atualizado, então mil desculpas por soar ou parecer que não me dediquei com meus leitores. Queria dizer que vocês me ajudaram a construir o que hoje tenho feito em Fix You, então espero mesmo que gostem desse novo capítulo. Seria tipo uma flechada no meu peito se eu perceber que posso ter perdido meus leitores por causa do meu atraso, sendo que passei muitos meses pensando e me dedicando a dar a vocês essa história. Tentei muito atualizar o mais rápido possível, mas como posso postar um capítulo que não me agradava? Foi realmente um parto o capítulo 33. Eu falo isso porque Fix You é importante pra mim. É claro que vou continuar a escrever até o fim. Só conto com o apoio de vocês - faz tudo ficar mais fácil :)! Obrigada a todos vocês que continuam por aqui! Aqui vai mais um capítulo e até lá embaixo!


Capítulo 33.: Careful Where You Stand

I feel safe, I feel warm when you're here
When I do no wrong...

Cissy alinhava o nó da gravata de seu neto quando ergueu os olhos para ele. Um rapaz aparentemente jovem, mas que já carregava o peso do mundo nas costas. Tinha uma filha e uma empresa para cuidar.

Ela percebeu que ele não estava apenas mais alto do que na última vez em que ajeitara a gravata dele, provavelmente em sua formatura no colegial, mas também estava com a postura mais adulta. Lembrava a ela de quando Draco era jovem. E Lucius. Como eram parecidos... exceto os olhos. Não a cor, mas a expressão. Scorpius tinha a expressão de Astoria.

Aparentemente calmo e pensativo. Deixava os sentimentos embaixo do pano, ou melhor, do terno, e era extremamente profissional.

— Você consegue fazer isso — disse Cissy com firmeza. — Não há nada que não possa fazer, Scorpius. Lembre-se disso.

— Já fiz minha escolha.

— E qual seria?

— Serei eu mesmo. Um pai e um advogado. Como meu avô me ensinou. Se ele conseguiu, eu consigo. Ninguém vai mudar isso. — Pareceu confiante, até acrescentar baixinho: — É uma escolha certa?

— Faça ser.

Scorpius abriu um daqueles raros sorrisos sinceros para Cissy. As palavras dela sempre ajudavam.

Narcissa o havia acompanhado para a empresa pouco antes da reunião definitiva. Queria ver o rosto de Augustus Rookwood, arquiinimigo de seu falecido marido, quando Scorpius anunciasse que sua assinatura valeria a empresa.

Era bom que as paredes fossem de vidros. Ela podia ver cada traço de expressividade no rosto de cada advogado sentado na extensa mesa. Por ser uma atriz, entendia gestos, quase como se lesse pensamento. E vivendo o tempo que viveu, Narcissa conhecia pessoas sem precisar conhecê-las.

Rookwood observava Scorpius o tempo todo, como se o estudasse. Era um daqueles momentos em que ser frio tinha vantagem para Scorpius. Rookwood se intrigava com a tremenda dificuldade que era ler o Malfoy mais jovem. Lucius já foi muito mais característico, mas Scorpius tinha um quê misterioso proveniente do DNA de Astoria. Mais uma vez, ele se demonstrava filho dela. Isso deixava Cissy atenta.

A reunião durou pouco. Coisa de meia hora. Scorpius disse uma ou duas frases, mas quantidade não queria dizer nada. O impacto de anunciar a chefia da empresa com menos de trinta anos de idade não era algo que passava despercebido. Rookwood não esperou por essa escolha, devido à rigidez e o desconforto como se levantou.

Depois dos outros advogados, Scorpius recolheu suas coisas e ia ser educado suficientemente para apertar a mão dele, mas foi ignorado. Rookwood sorriu.

— Não existe tempo para hipocrisia, Scorpius. Boa sorte com sua nova empresa.

Scorpius agradeceu internamente por não ter apertado a mão de Rookwood. O homem estava certo. Não podia perder tempo.

O pai de Emily veio ao seu alcance. Ele sim tinha tempo para ser educado com Scorpius.

— Lucius ficaria orgulhoso — disse, antes de sair.

O rapaz, porém, não concordou inteiramente. Claro que Lucius desejaria que Scorpius se esforçasse para manter o nome da empresa, mas muita coisa deveria acontecer até que alguma conclusão fosse feita a respeito do que Lucius acharia. De qualquer forma, Scorpius não se sentiu um homem diferente do que era antes. Apenas havia mudado de sala e tinha todos os olhares atentos criticamente em sua direção.

Foi só um pedaço de papel. Eu só assinei um pedaço de papel.

Que poderia mudar tudo.

–--

Já fazia um tempo que Draco não experimentava a sensação de ter uma mulher gemendo seu nome com pontada de prazer na sincronia da voz. Não se lembrava das vezes que tivera relações sexuais por estar embriagado, ou apenas não fez questão de um desempenho físico que fizesse alguém desejar repetir a dose.

Lembrava-se da primeira vez que transou com outra mulher tempos depois de seu luto pela morte de Astoria. Sentira-se como se fosse ser assombrado. Não houvera sentimentos, foi apenas pela necessidade de gozar. Lembrava-se de ter transado devido à raiva por estar sozinho, mas tudo o que sobrou para Draco naquela noite fora um vazio insignificante ao seu lado na cama e uma madrugada cheia de remorso. E nas outras noites também, embora ele pudesse contar nos dedos a quantidade de vezes que ocorreram outras vezes.

Dessa vez, no entanto, ele estava ouvindo claramente os gemidos abafados contra o travesseiro. As costas sensuais da mulher mais jovem arquearam contra o corpo dele, que bombardeava forte e sem nenhuma delicadeza por trás, apoiando a mão nos seios fortes enquanto ela o mandava ir mais rápido do que já estava.

Não pretendia tê-la levado para cama logo na primeira vez que jantaram, mas ela não era do tipo reservada. Desde que ele começou a levar e buscar Zoe nas aulas de teatro, Draco não deixava de perceber o olhar que a professora dela lançava para ele. Não um olhar de luxúria, mas um olhar de “deixe-me conhecê-lo”, apesar de, naquela noite, ele apenas escutara sobre os interesses dela. Draco sabia ouvir como ninguém. E talvez isso fizesse a mulher se sentir mais solta para terminar a noite desejando um orgasmo.

— Me fode mais forte, Draco.

Quando ela caiu de volta para o colchão, de bruços, Draco não parou de penetrá-la. Ele ainda não tinha terminado. Estava transpirando e sentindo que em questão de mais algumas estocadas ele gozaria. Ficou satisfeito por fazer isso depois, não antes dela. Não desempenhava uma performance assim há anos. Nesse momento, quando se empurrou contra a entrada molhada, ele abafou um grunhido de finalização. De satisfação. Aquilo podia voltar a ser bom.

Ele não deu um beijinho nela. Se afastou para ir ao banheiro e limpar o rosto. Quis uma bebida forte, mas sabia que isso era reflexo dos hábitos antigos. Apenas olhou para o seu reflexo no espelho. Não sorria, mas não estava miserável.

— Foi... muito... bom — ouviu a voz de Serena, sem fôlego. Ela, muito diferente de Draco, tinha um espírito elevado e fazia as pessoas se sentirem bem ao seu redor. Draco não foi uma exceção. Mas nesse momento, o brilho do anel de ouro pousado na pia do banheiro o obrigou a fitá-lo por um tempo. — Eu deveria ir agora.

Serena estava olhando para Draco, encostada na batente da porta. Viu o que ele segurava e olhava tão fixamente quando constatou aquilo.

Draco virou-se para ela.

— Não temos vinte anos. Fique. Eu não me importo.

Ela sorriu para ele.

— Eu realmente preciso ir, Draco. — Estava vestindo o sutiã. — Prevejo um dia cheio amanhã.

Ele não iria insistir, obviamente. Vestiu a calça jogada no chão e se dirigiu até a porta de entrada do apartamento, para abri-la para Serena quando ela já estava com sua bolsa no ombro. Ao se despedirem, ela olhou para ele esperando que ele dissesse mais alguma coisa. Algo sobre ela. Talvez um elogio. Draco tentou não compará-la com Astoria, seria errado. Era uma mulher muito bonita e sabia fazê-lo sorrir. Mas não preenchia alguns vazios. Ninguém o faria.

— Foi uma boa noite — ele confessou. — Espero que Zoe não faça muitas perguntas amanhã.

— Oh, ela vai fazer — riu Serena. — Ela sempre faz.

Beijou-o no rosto antes de se adiantar para o corredor e ir embora. Draco fechou a porta, pensativo. Ultrapassou o aposento para chegar até o quarto e se jogar na cama, exausto, mas se sentindo bem.

–--

Época de exposição em galerias era sinônimo de correria para Rose. Talvez Scorpius não conheceria esse lado apressado dela, com as contas, a filha, o pediatra, telefonemas, viagens e contatos ao redor do país se ele não estivesse acordando toda manhã ao lado dela e observando de perto seu trabalho e a dedicação que ela tinha com tudo.

Naquela manhã em particular, Scorpius se sentiu mais à vontade para mexer na cozinha. Acostumado a preparar tudo para comer sozinho, não reclamou de acrescentar mais um prato. Quando Rose andou depressa pela cozinha, deu um beijo de bom dia em seu rosto e começou a colocar as coisas sobre a mesa, sem reparar que já estava tudo pronto.

— Já estou atrasada. Tenho que levar Zoe ao dentista hoje e ela vai ter que ficar comigo essa manhã. Ninguém pode tomar conta dela de manhã e-

Deteve-se por um instante, antes de pousar o leite sobre a mesa, finalmente se dando conta de que o café da manhã já estava pronto. Só faltava ela calar a boca e sentar para aproveitá-lo.

— Você fez isso?

Ele estava distraído mandando mensagem no celular e mordendo um pedaço da maçã, quando disse:

— Hoje tenho a manhã livre antes de ir à empresa. Eu levo a Zoe para o dentista.

Rose sorriu, muito agradecida.

— Você nunca levou Zoe para o dentista, não é?

— Alguma recomendação que preciso ficar sabendo?

— Sim. Ela vai enrolar você até você desistir de levá-la.

Scorpius virou o rosto para ela.

— Sério? Ela tem medo?

— Só não é muito fã. Mas ela não pode ficar sem ir. Então quando for nove e meia, ela já tem que estar em pé.

— Entendido. Não vai se sentar? — convidou. — Ou está mesmo muito atrasada?

— Eu tenho que passar em quatro lugares só essa manhã. Obras atrasadas. Então eu...

Scorpius fez um rápido movimento com a mão, compreendendo.

— Ei, tudo bem. Eu entendo a correria. Não precisa se preocupar.

— Mas você ajeitou tudo.

— Não foi nada.

— Foi sim — ela disse com sinceridade. Pensou melhor e decidiu. — Acho que tenho um tempo sobrando, sim.

Sempre existia um tempo sobrando para comer com a companhia certa, isso era o que todos os Weasley diziam. Os dois trocaram um leve sorriso e ela se inclinou para beijá-lo nos lábios, quando se acomodou na cadeira ao lado dele. Saborearam um bom café da manhã, mas durante uma conversa aleatória entre os dois, o celular de Rose os interrompeu.

Ela fez uma expressão de culpa antecipada. Scorpius não precisou que ela se explicasse, ele entendia sobre trabalho mais do que ninguém e, definitivamente, ele não era hipócrita a ponto de ficar chateado por Rose não poder ficar naquela manhã. Ele mesmo não podia, na maioria das vezes.

— Eu recompenso — ela prometeu. — Me liga se precisar de alguma coisa, ou se Zoe precisar de alguma coisa. E acho que volto tarde. Eu te ligo.

— Boa sorte — ele desejou. — E vou esperar que não pegue nenhum trânsito pelo caminho.

— Deus me livre.

Ele a viu ajeitar sua bolsa e encontrar a chave do carro. Estava abrindo a porta e se esquecendo do mais importante, mas voltou a tempo de entrar no quarto de Zoe e dar um beijinho de despedida nela, sem acordá-la. Antes de ir embora, puxou a gravata de Scorpius e o beijou também.

–--

Zoe sentiu o beijinho do pai na bochecha pouco antes de acordar de um sonho que ela não se lembraria para o resto da vida. Ela não deixou de comparar a diferença entre ser acordada por Scorpius e por Rose. Scorpius era estranhamente mais carinhoso e paciente que Rose em momentos assim.

— Não vai acordar, coisinha? — ele perguntou sussurrando, ajoelhado ao lado da cama.

— Não... — ela disse, puxando o edredom para cobrir o rosto.

— Você sabe que tem um compromisso importante, não sabe? Rose me disse.

— Não to me sentindo bem, papai...

Ele arrastou suavemente o edredom para poder ver de novo o rosto contorcido da filha. Zoe pegou a mão de Scorpius e colocou-a sobre sua própria testa. Muito dramaticamente, constatou:

— Acho que estou com febre.

Scorpius engoliu um riso.

— Acha?

— Uhum.

— Não parece que está com febre. Vai mentir para mim, Zoe?

Essa pergunta não foi feita de modo zangado, mas fez Zoe hesitar um pouco e olhar para Scorpius com culpa na expressão. Ela nunca mentia ao papai.

— Eu odeio ir ao dentista — explicou nervosa.

— Mas o que há de mal em ir ao dentista? Como você acha que consegui meus dentes perfeitos?

— Você nasceu assim, porque a vovó Cissy disse que os dentes dos Malfoy já são perfeitos. Então eu não preciso ir.

— Sua avó está certíssima. Mas precisa ir sim.

— A professora diz que é importante ir ao dentista, mas eu não gosto.

— Eu te levo, não vou deixar nada ruim acontecer. Vamos?

— Não vai trabalhar hoje? — perguntou estranhando. Dando-se conta de que quando Scorpius a acordava, ele não trabalhava tão cedo.

— Só a tarde.

— Você me leva para tomar sorvete depois?

— O que sua mãe fala de comer doce antes do almoço?

— Depois do almoço, quero dizer!

Ele sorriu. Fazia um tempo desde que não tomava um milkshake com ela. Zoe estava merecendo.

— Só se não me enrolar, hein?

— Já que eu estou pronta, então!

Scorpius esperou Zoe se aprontar, sentado no sofá e brincando distraidamente com Cupcake. Como dessa vez não era Rose quem estava por lá naquela manhã, Zoe escolheu suas próprias roupinhas para sair. Ela colocou seu incrível all star azul, presente de sua tia Lily de Natal, e, antes de sair do quarto, pegou sua bolsinha tiracolo para levar consigo suas bugigangas e pertences. Ela tomou leite na cozinha, enrolando inconscientemente porque a televisão estava ligada e se distraiu com o desenho. Quando Scorpius viu que estavam se atrasando, precisou ser chato e apressá-la.

No caminho até o dentista, Zoe não tagarelou muito. Ela realmente não gostava de ir ao dentista. Dizia que a sala parecia cenário de filme de terror.

— Ela vai arrancar meus dentes?

— Não, só vai dar uma olhada para ver se está tudo certo. Se não estiver, talvez ela arranque.

Ele gargalhou com a expressão dela, mas depois reconheceu que foi realmente cruel com a brincadeira e confessou que não era verdade.

Mas não tinha com o que Zoe se preocupar. Ela sempre escovava os dentes, então não tinha o que temer. Quando chegara, Scorpius ficou ao lado dela na sala de espera, mas uma coisa que Zoe não sabia fazer era esperar. Perambulou pela sala, bebeu água três vezes e foi até o cantinho onde brinquedos de crianças estavam espalhados sobre uma mesa de plástico. Sentada, deu tempo de montar um quebra-cabeça até finalmente a assistente chamar seu nome e Scorpius entrar com ela.

Não foi tão ruim. Na verdade, nunca era ruim, ela apenas não gostava da expectativa de enfrentar o dentista. A mulher, muito simpática por sinal, limpou os dentes dela com os materiais necessários e, ao final da limpeza, Zoe sentiu um gosto muito agradável na boca.

Saiu toda sorridente do consultório, dez minutos depois.

— Nunca mais vou comer, pra sempre ficar com esse gosto na minha boca.

Ele riu do comentário dela enquanto entravam no carro.

— E aquele sorvete que você queria? Desistiu?

— Ah, sorvete é mais gostoso. — Zoe se empoleirou na janela para seguir com o olhar os passos do pai na calçada, até ele dar a volta no carro e abrir a porta. — Aonde nós vamos agora?

Nesse exato momento, o celular de Scorpius tocou e interrompeu o movimento da mão na maçaneta. Zoe o viu conversar com alguém, muito sério, como sempre ficava quando o assunto era trabalho. Ela apoiou o queixo sobre os braços, chateada. Já sabia o que iria acontecer agora. Almoço e milkshake não iriam acontecer.

Scorpius sentou no banco do carro, desligando o celular. O som do rádio vagava livremente pelo espaço interno da BMW quando ele deu um suspiro e apertou distraidamente o aparelho na testa.

Depois que ergueu o rosto, ele pôde observar o reflexo de Zoe pelo espelho. A menina estava mexendo em sua bolsinha, procurando alguma coisa. Ela já sabia o que Scorpius iria falar para ela. Vamos precisar deixar você com o tio Al ou alguém que possa ficar com você, eu preciso ir a empresa. Urgência.

Por esse mesmo motivo, Zoe estranhou quando Scorpius girou a chave da ignição sem dizer aquilo. Depois de uma volta de dez minutos pela cidade, o carro entrou no estacionamento de um prédio muito bonito, alto e revestido com janelas de vidro. Zoe nunca tinha visto tal lugar antes, exceto em filmes, e percebeu que estava com a boquinha aberta observando toda a sofisticação do prédio da empresa de seu pai.

— Você trabalha aqui? — exclamou empolgada, quando Scorpius abriu a porta do passageiro e ajudou a filha a pular para fora do carro. Ele segurou a mão dela.

— Sim. Gostou?

— É bem bonito. Aonde nós vamos?

— Eu preciso resolver uma coisa. Vai ser rápido. Você vai esperar aqui hoje.

A alegria da menina em poder finalmente visitar o lugar onde seu pai trabalhava foi tanta que ela só não saltitou porque dois homens sérios e antipáticos entraram no mesmo elevador que eles. Ambos vestiam ternos, como Scorpius. Mas, diferente do papai, não lhe caíam tão bem.

— Bom dia, Malfoy.

Apertaram a mão de Scorpius, mas não fizeram perguntas sobre quem era a garotinha. Já sabiam. E o elevador subiu rápido demais para dar tempo de estabelecerem alguma conversa.

Quando as portas se separaram, chegando ao andar destinado, Zoe ficou encantada e intimidada com a visão que teve do extenso local onde Scorpius trabalhava. Era dividido em várias outras salas, porém menores. A que chamou atenção de Zoe foi a que estava situada ao centro. Ela podia ver através das portas de vidro uma grande mesa. Contra a única parede de tijolos, estava uma tela parecida com a televisão que a vó Cissy tinha em sua casa.

O lugar era muito movimentado. Pessoas de terno, homens e mulheres, jovens e adultos, andavam de um lado para o outro, chamando nomes e ajeitando gravatas. Mas apesar de toda a correria existente no dia-a-dia dos advogados da firma, eles encontraram tempo para pararem e observarem a visita nova, que chegara segurando a mão de Scorpius Malfoy.

Zoe se sentiu encolhida, de repente, com tantos olhares curiosos e rostos tão diferentes. Ela quis voltar para casa, mas isso significaria não ter o pai ao lado dela e ela não podia perder oportunidades assim. Finalmente ela se sentiu mais à vontade quando reconheceu um rosto familiar em uma das mesas perto da sala gigante.

— Oi, Portia!

Portia estava falando no telefone, distraída, então piscou muitas vezes até se dar conta de que não era miragem o fato de uma garotinha de oito anos estar ali.

— Zoe? O que está...

— Pode fazer um favor para mim, Portia? — perguntou Scorpius. — Eu preciso falar com Zabini. Zoe só vai ficar um pouco aqui.

— Claro, mas...

Ele não tinha muito tempo, aparentemente, pois não esperou ela terminar a pergunta que iria fazer. Scorpius não precisou se agachar dessa vez para dizer seriamente a Zoe:

— Fique aqui com a Portia. E se comporte. Aqui não é um parque de diversões. Aqui é um lugar sério. Qualquer coisa que fizer, qualquer lugar que você fuçar, pode dar problema para muitas pessoas, inclusive para mim. Então não saia da vista da Portia. Entendeu, Zoe?

Zoe afirmou com a cabeça. Baixinho, perguntou:

— Posso ficar desenhando?

— Pode. Portia, uma caneta e um papel para ela. Obrigado. Eu já volto.

Scorpius se afastou para o corredor oposto. Nesse momento, Portia se adiantava para pegar uma cadeira para Zoe dividir com ela um espaço na mesa. As duas trocaram um sorriso e Zoe se debruçou para desenhar enquanto esperava o pai.

–--

Não foi uma conversa curta como Scorpius achou que seria. O sr. Zabini estava teimando que eles precisavam de um cliente que pudesse oferecer estabilidade a economia da empresa, mais uma vez, e esse cliente podia ser um milionário, mas Scorpius sabia que também era perigoso.

— Miles Jackson voltou a confiar na empresa.

Miles Jackson foi responsável por incontáveis casos passados de Lucius e precisou confiar em Scorpius também em um momento de sua vida. O último caso envolveu a morte misteriosa de sua esposa, há dois anos. Scorpius conseguiu inocentar o homem astuto de 70 anos, provando que a esposa havia se matado. No entanto, Scorpius nunca saberia a verdade. Miles era um dos homens mais influentes da alta sociedade de Londres, senão da própria Inglaterra. Ele tinha tantos contatos ao redor do mundo que ele poderia até ser um importante mafioso, mas ainda assim era visto levando sua neta a escola e ao cinema sem o auxílio de guarda-costas.

— Miles Jackson é um assunto delicado — retrucou Scorpius.

— Sim — disse Marcus Flint. — Mas trabalhamos para ele ou falimos. E eu tenho certeza que não é isso o que você quer para a empresa, Malfoy, especialmente depois dos papeis que assinou semana passada. Perderia toda a credibilidade logo de cara.

— Entendo que esteja preocupado comigo — ironizou Scorpius. — Mas de quanto estamos falando aqui?

Muito dinheiro.

— Eu preciso conversar com ele.

— Ele está aqui, esperando.

— Quê? Aqui? — Scorpius olhou meio assustado para Zabini. — Ninguém disse que ele estaria aqui hoje.

Flint e Zabini se entreolharam.

— Qual é o problema, Scorpius?

A resposta veio do outro lado do corredor. Flint e Zabini olharam para a mesma direção, onde Zoe estava rindo com um homem familiar e conhecido. Miles Jackson tinha o aspecto simpático de um Papai Noel e estava fazendo mágicas para Zoe, revelando uma moeda atrás de sua orelha.

— Você trouxe sua filha aqui?

A pergunta de Zabini foi ignorada quando os pés de Scorpius o levaram até a mesa de Portia. Ele interrompeu a mágica de Miles, apertando levemente os ombros de Zoe e ficando a frente do homem, que abriu um indecifrável sorriso ao encará-lo.

— Scorpius. Quanto tempo. Você tem uma garotinha muito esperta. Ela não acreditou em nenhuma das minhas mágicas.

Zoe ergueu os ombros.

— O senhor foi bem óbvio!

Miles riu com gosto.

— Estou perdendo o jeito. Bem que minha neta diz que preciso renovar o repertório.

— Vamos para a minha sala, sr. Jackson — disse Scorpius seriamente.

— Certamente. Tchau, garotinha.

— Tchau! Papai, eu-

— Agora não, Zoe. Não saia da vista de Portia, lembre-se do que te pedi.

Quando Scorpius fechou a porta de sua sala, acompanhado com Miles Jackson, Portia garantiu a Zoe:

— Ele não vai demorar mais. Se tem alguém que odeia papo furado, esse alguém é o seu pai.

–--

A primeira coisa que Miles Jackson disse a Scorpius foi o que mudou o rumo de qualquer conversa.

— Você ainda não sabe, não é?

— Não sei o quê?

— Realmente pensa que foi sorte ou infortuno o fato de que Otavio Trentwell morreu exatamente uma noite antes da última sentença dele? Que provavelmente o tiraria da prisão?

Scorpius não tinha parado de pensar sobre a morte de Trentwell desde o ocorrido. Embora Rookwood tivesse garantido que Scorpius não era um interesse para vingança de Trentwell, ele não confiou inteiramente nisso. Então não se surpreendeu com a revelação quando Miles Jackson, um homem aparentemente alheio a situação, entrou no assunto. Até Scorpius soltou uma risada fria, conformada.

— Claro. Você.

— Eu não fiz nada. Só pedi um favor a alguém. Sabe como é... contatos.

— Por quê? — intrigou-se.

— Porque no segundo em que Trentwell saísse daquela prisão, ele correria atrás de você. Todo mundo sabia disso e você seria muito ingênuo de acreditar o contrário. E eu preciso de você. Vivo.

— Para quê?

— Sua habilidade. Sua aparência. Sua lábia. Preciso de você para vencer nos tribunais. Entenda... alguém como eu... não se aposenta. Muito pelo contrário. Ele se envolve com novos... negócios.

Scorpius não estava gostando do que ouvia.

— Negócios — ecoou.

— Sim.

Observou ao redor da sala e se certificou que a porta estivesse fechada. Zabini estava olhando para eles, com curiosidade. Scorpius fechou a cortina, já entendendo que tipo de negócios Miles Jackson estava envolvido. Drogas.

— Sabe como esse tipo de negócio é perigoso — continuou Miles. — Para mim. Então já estou me preparando. Como um seguro de saúde... Eu precisarei de você e dos seus melhores advogados em algum momento.

— O senhor nos dará uma dor de cabeça do caralho, isso sim.

Miles sorriu, tristemente.

— Não seria minha intenção. Mas eu sei que vocês precisam do meu dinheiro. E você, Scorpius... tem algo pessoal comigo. Digamos que isso é o começo de uma amizade entre nós dois.

— É um contrato.

— Não — discordou. — Amizade. Baseada em respeito mútuo. E, principalmente, confiança.

Ele estendeu a mão para Scorpius. Vendo-o hesitar em apertá-la, disse:

— Nunca precisei assinar nada com Lucius. Um aperto de mão, no meu idioma, é o suficiente. Quebre minha confiança, Scorpius... eu consigo quebrar tudo o que você tem. E não estou falando da pequena loirinha ali do outro...

— Pare — pediu Scorpius com a voz baixa e rígida. Não suportaria terminar de ouvi-lo. — Não há necessidade de me ameaçar. Amigos não se ameaçam.

Quando apertaram a mão, Miles ajeitou a gravata e olhou orgulhosamente para o rapaz a sua frente.

— É a escolha certa. A escolha esperta.

— Espero que saiba que amizade também se baseia em não haver segredos. Sou seu advogado, terá que me contar tudo.

— Eu sei.

A conversa se encerrou naquele ponto, embora ainda tivesse muito a ser resolvido. Antes de Miles sair da sala, Scorpius perguntou:

— Rookwood não teria problemas em ser contratado por você. Por que eu?

— Ninguém gosta dele nos tribunais — respondeu simplesmente. — Tchau, Scorpius.

Ele não passou diretamente pelo corredor da empresa, pois tentou uma última mágica para impressionar Zoe. Conseguiu fazer a caneta com a qual ela estava desenhando desaparecer e reaparecer. Foi realmente muito boa dessa vez, deixando Zoe confusa sobre como ele conseguiu aquilo.

— Um mágico nunca revela seus segredos. Até mais, loirinha.

Quando ele desapareceu atrás da porta do elevador, Zoe comentou com Scorpius:

— Ele parece o Papai Noel só que de terno.

Scorpius não soube o que dizer, então apenas suspirou.

— Certo. Vamos almoçar então?

— Papai... eu já deveria estar na escola agora.

Ela avisou aquilo de uma forma muito displicente. Scorpius verificou o relógio do pulso e xingou em voz alta quando viu o horário.

— Por que não me disse antes? — exclamou estupefato.

Zoe ergueu os ombros, mas não deu tempo de dizer “você estava ocupado!”. Scorpius imediatamente começou a puxá-la pela mão, apressado.

Ficou se xingando o caminho todo, já prevendo Rose brigar com ele assim que descobrisse que ele não levou Zoe a escola sem ela ter almoçado. Zoe reclamou de fome durante o caminho que o carro de Scorpius fazia até Hogwarts, obrigando-o a parar em uma lanchonete para comprar alguns salgados. Não foi o almoço mais saudável do mundo, mas matou a fome dela.

— Sua mãe vai me matar — ele disse. — Foi muito bom conhecer você, filha.

Mas Zoe não estava nem um pouco preocupada com isso. Aliás, ela estava achando aquilo tudo muito engraçado. Ver o pai desesperado para levá-la a tempo na escola era motivo para rir.

— Não é engraçado. Ela realmente vai acabar comigo.

Estacionou em uma vaga perto da escola, sem se preocupar em alinhar os pneus. Abriu a porta do carro para pegar a mão de Zoe.

— Não precisa ir comigo, papai!

— Vamos, já perdeu muito tempo.

Os dois correram até a portaria, onde foi permitido que ele entrasse apressado com Zoe. Ela quem acabou por mostrar o caminho até a sala de sua turminha. Os dois pararam em frente a porta fechada da classe para Scorpius se despedir dela com um abraço. Ela apertou o pescoço dele um pouquinho mais para dizer:

— Não vou contar pra mamãe! Te amo.

— Também te amo. Cadê sua mochila?

— Eu não trouxe a mochila — percebeu. — Fiquei a manhã toda lá com você, esqueceu, papai?

Ele desistiu, exausto. Só restou rir também.

— Desculpe, eu sou péssimo nisso.

— No quê?

— Nessas tarefas que sua mãe faz com você sem erro.

— A mamãe já me levou para escola um monte de vezes atrasada — Zoe fofocou, querendo fazer Scorpius se sentir menos mal.

E quer saber? Deu certo.

Nesse momento, a porta se abriu. Scorpius olhou para a professora e explicou:

— Ela chegou atrasada. Minha culpa.

— Tudo bem — ela disse. — Pode entrar, querida.

— Tchau, papai! — Depois de um último e rápido aceno, Zoe virou as costas e andou até a carteira vazia da classe.

Ele conseguiu respirar um pouco depois que a professora fechou a porta e voltou a atenção para os alunos. Scorpius verificou as ligações perdidas do celular enquanto voltava para o carro na esquina da escola e viu que três delas eram de Rose. Quando ouviu a voz da namorada pelo aparelho, ele pensou que algo ruim aconteceria se escondesse o que aconteceu.

— Zoe chegou atrasada na aula — já foi contando. — Acabei precisando ficar com ela na empresa para resolver algo urgente e...

Foi interrompido ao ouvir uma fungada característica de um choro contido.

— Rose? O que houve? Está chorando?

— Não se preocupe com isso, quero dizer... só de ter levado ela ao dentista é o suficiente.

— Você está bem? Por que essa voz estranha?

— Você vai rir de mim. – Inspirou e finalmente soltou o problema em um só fôlego: — Eu quebrei a perna e estou no hospital.

— Quê?

— Estava apressada levando dois quadros para a exposição na galeria do centro e eu acabei sendo estúpida e caí da escada. Quem cai da escada aos vinte e oito anos, Scorpius? Quem? Sem contar que quebrei o vidro que protegia o quadro... Hoje vai ser um dia incrível, já pressinto isso.

Ele não parou para ouvir. Já estava virando o volante do carro com o destino na mente, e não era um restaurante para almoçar.

— Em que hospital você está? Estou indo aí.

— No do centro mesmo, mas não precisa vir, sério. Eu saio ainda hoje. Adam me ajudou e ele se dispôs a me levar para casa. Eu sei que você deve ter uma audiência ou...

— Ele é gay? Esse Adam?

— Não, por quê?

— Estarei aí em vinte minutos.

Rose riu um pouco.

— Isso é ciúmes?

— Não — mentiu sem querer parecer convincente. — Vou desligar, estou dirigindo.

–--

Quando Scorpius chegou ao hospital, a primeira pessoa que encontrou foi o irmão de Rose. Hugo estava tomando café com outros estudantes médicos de seu ano quando viu Scorpius atravessando a sala de espera para ir até a recepcionista tentar se informar sobre Rose.

— Scorpius — chamou Hugo. — Eu levo você. Ela acabou de sair da sala de raio-x. Foi uma queda bem feia. Sabe, Rose sempre foi meio desastrada, mas dessa vez ela se superou.

Ele dizia isso como se tudo fosse ficar bem, mesmo assim. Scorpius o acompanhou pelo corredor das salas. Quando Hugo abriu a porta, permitiu a entrada dele no quarto onde viu Rose sentada na cama com a perna direita enfaixada e apoiada sobre uma grande almofada enquanto falava freneticamente pelo celular.

— Eu sei que isso vai acontecer. Não se preocupe, pai, eu vou sair em pouco tempo. Foi um acidente. Pai... tá tudo bem, juro. Sim. Eu ligo mais tarde, ok? Tchau. Manda um beijo pra mãe.

— Rose, você precisa parar de se preocupar agora. — Era o tal de Adam dando-lhe o conselho depois que ela desligou o celular. O rapaz tinha tatuagens por todo o corpo e ótimos bíceps. — Acabou de quebrar a perna e sabe-se lá mais o quê e...

Ele se interrompeu quando Scorpius deu alguns passos, chamando a atenção. Aproximou-se da cama e se sentou na cadeira.

— Ei, não precisava ter vindo — ela disse, embora transmitisse um quê de surpresa e felicidade por ver que ele realmente veio. — Não foi grave nem nada.

— Você precisa de alguma coisa?

— Vai me mimar? — riu fraquinho, sentindo a mão dele tirando um pedaço do cabelo em seu ombro. — É sério, Scorpius, eu estou bem. Aliás, vou poder voltar logo. Eu preciso terminar de arrumar a exposição. – Ele ia protestar, mas Rose disse com sinceridade: — É muito importante pra mim. Eu não posso perder essa oportunidade. Está no meu nome.

— Eu entendo. Mas como vai fazer isso agora?

— Adam está me ajudando. Aliás, esse é o meu namorado. Scorpius. — Adam fez um movimento com a mão para cumprimentá-lo, mas Scorpius nem sequer deu atenção a ele. Estava olhando para Rose.

O celular de Adam o interrompeu e ele se afastou do quarto para atender a ligação. Nesse momento, Scorpius perguntou a Rose:

— Cadê suas amigas lésbicas? Prefiro elas.

Apesar de sentir uma dor muito forte pela queda que sofreu, Rose conseguiu sorrir e acariciar a barba rala dele distraidamente.

— Você com ciúmes. Eu tinha me esquecido como era.

Ele não teve tempo de retrucar; a porta da sala se abriu novamente, mas dessa vez revelando um Albus absolutamente preocupado. Não deixou Rose nem respirar direito e já se aproximou.

— Rose, o que você aprontou? Que merda é essa? Você não vai sair daqui. Hugo me disse que você já estava achando que ia sair e voltar para arrumar a exposição, mas vai voltar pra sua casa e ficar de repouso.

— Gente, eu estou bem! É só uma perna quebrada.

— Só? Scorpius, não deixe isso acontecer. Ela precisa repousar, sem fazer esforço. E ela anda muito estressada com essa exposição e isso não está fazendo bem a ela. Tem que relaxar.

— A exposição tem que ser inaugurada essa semana — teimou Rose. — Falta só mais alguns ajustes e eu preciso ver se tudo sairá perfeito.

— Ajustes que eu posso fazer por você, Rose — garantiu Adam, eficientemente, voltando da ligação que atendeu. — Não se preocupe com isso, sério. Você ficou vinte e quatro horas correndo atrás das coisas. Tem que deixar um pouco do trabalho para os outros também.

— Ele está certo — retrucou Albus antes que Rose protestasse. — E, além disso, você tem a Zoe para cuidar. E se não repousar, vai ficar enrolando e vai demorar a tirar o gesso.

— Ele está certo — disse Adam e os dois se entreolharam. Um checou o outro, terminando com Albus pigarreando. — Aliás, eu sou Adam.

— Albus. Primo da Rose.

Os dois apertaram a mão e Adam sorriu.

— Ela me contou de você.

Scorpius e Rose ficaram observando os dois claramente se comendo com o olhar. Ou melhor, só Adam comendo Albus com olhar, porque Albus piscou algumas vezes e ficou bem desconcertado. Ele não estava acostumado com caras olhando para ele como se fosse querer jogá-lo contra a parede naquele instante. Adam tinha esse olhar indiscreto para cima de Al.

O olhar de Scorpius dizia “não tinha falado que ele não era gay?”. O de Rose era “eu me enganei, acho”. Ela pigarreou.

— Adam, você disse que vai poder me ajudar então?

— Oi? Sim, com certeza. O que precisar.

— E se tiver algo que eu possa fazer por você — disse Al. — Só dizer.

— Tudo o que peço é que a exposição dê certo — respondeu Rose. — Estão contando comigo. Não posso desapontá-los.

— Vai dar tudo certo — garantiu Albus. — Só tem que repousar, ok?

Rose prometeu que faria isso, apesar de muita relutância. Scorpius entendia que quando existia aquela obsessão em fazer um trabalho perfeito, nada poderia impedir isso, muito menos cadeiras de rodas, no caso de Rose. Mas quando ela acabou por tentar mover a perna, a dor foi tanta que lágrimas encheram os olhos azuis e ela mordeu os lábios para não xingar de dor. Ficou cabisbaixa quando se convenceu de que não conseguiria voltar para o museu e terminar de ajeitar a exposição pela qual trabalhou tanto.

Scorpius a levou de volta para o apartamento, onde o médico exigiu que ela ficasse em repouso nos próximos dias, com auxílios de analgésicos até que, em dois meses, ela indicasse melhoras e pudesse apoiar o corpo com o pé. Ela tentou não chorar no hospital, mas quando Scorpius a ajudou a sentar no sofá assim que voltaram, ela chorou muito.

— Eu sempre falo para Zoe nunca ter pressa para fazer as coisas... mas eu mesma fui idiota.

— Não adianta se condenar agora. E você fez sua parte, não tem como seu chefe brigar com você.

— Acha que estou preocupada com meu chefe? Eu estou preocupada com as quinhentas pessoas que vão pagar para ver a exposição. Tem noção de como isso... essa exposição vai ser importante para minha carreira? Se tiver uma crítica negativa nos jornais sobre a minha curadoria...

Ela realmente estava mal, xingando-se internamente pela besteira que cometeu em cair da escada. Scorpius suspirou e segurou o rosto dela.

— Olha pra mim, Rose. Você é a mulher mais dedicada que eu conheço. Nada vai comprometer sua carreira.

— E as coisas que eu tenho que fazer com a Zoe? Como vou fazer isso com essa perna engessada? Compras da semana, levá-la ao pediatra, levá-la para vacinar? Hogwarts vai fazer uma gincana com os pais no próximo sábado e eu prometi a Zoe que iria participar com ela. Vou deixá-la tão chateada.

— Estou aqui agora. No que precisar.

Eles se olharam e Scorpius a beijou. Rose não percebia mas ela tinha imensa dificuldade em pedir ajuda às pessoas. Era muito acostumada a se virar no mundo, mas não poderia esquecer que ela tinha muitas pessoas dispostas a serem prestativas com ela. Mas nenhuma delas chegava a transmitir a necessidade que ela e Zoe tinham de Scorpius. Não gostava de se sentir dependente, especialmente de alguém que a magoou muito antigamente, mas ela não deixou de sentir que podia confiar nele agora.

Isso não daria certo se ela não continuasse confiando.

— Você iria com ela? — pediu Rose, de repente.

— Com ela aonde?

— No próximo sábado, na gincana da escola. Zoe iria amar se você fosse. É só um pedido meu, mas não precisa prometer nada. Só...

— Desbancar os outros pais em jogos? – sorriu. – Parece tentador.

E era. Scorpius se lembrava de algo muito peculiar quando era criança. Até os dez anos de idade, ele odiava ir a essas brincadeiras contra os pais de outras crianças na escola, mas Astoria o obrigava para que eles passassem tempos juntos já que nos dias de semanas ela ficava demasiadamente ocupada. Lembrava-se de quando ela o acordou bem cedo para prepará-lo para a maratona de jogos entre pais e filhos há quase vinte anos. Astoria era muito competitiva, e apesar de terem sempre perdido para famílias mais preparadas, no fim Scorpius se divertira bastante.

Talvez não fosse tão ruim voltar a algumas tradições. Ou mesmo criar algumas.

–--

A hiperatividade de Zoe veio dos genes de Rose, porque, sinceramente, Rose não conseguia ficar parada. A pior coisa que poderia acontecer a uma pessoa tão agitada era ficar de repouso devido a uma perna quebrada. Zoe passou os próximos dias ajudando Rose no que qualquer criança podia, especialmente tirando-a do tédio. A mãe pesquisou diversas coisas para elas fazerem juntas sem que precisassem sair de casa ou terem muito esforço. Tudo se resumiu a atividades de desenhos e filmes, mas logo isso poderia começar a entediar de novo.

Albus e Michael passaram a tarde de sábado para agitarem as coisas no almoço antes da grande abertura da exposição que Rose foi responsável de organizar tudo. Scorpius se empenhava na cozinha enquanto Rose conversava com eles na sacada do apartamento. Como estavam com a presença de Zoe e Luke, não tomavam cerveja, mas sorvete.

Michael de repente mudou o assunto que tinham sobre episódios de uma série.

— Você e Scorpius pensam em, sei lá, aumentar a família agora que estão juntos?

Foi uma pergunta inocentemente curiosa, que Michael julgou não ter sido nada demais. Mas se arrependeu depois que viu a expressão alarmada de Albus.

— Você tá louco de perguntar isso pra ela, cara?

— Tudo bem, Al — riu Rose, despreocupada. — Não é como se eu não tivesse pensado já.

— Sério?

— Sim. Mas Scorpius não pensa.

— Claro que não pensa — Michael abanou a cabeça. — Alguns homens são apenas medrosos, Rose. Mas já conversaram?

— Uma vez Zoe perguntou. Disse pro Scorpius que queria ter uma irmãzinha. A cara dele foi impagável. Mas não é essa a minha pressa, sabe? Quem sabe o que vai acontecer depois? Fiz planos demais antes e fui interrompida. Criei novos sonhos e novos planos depois da Zoe. Cansei de planos. Só quero viver o que tenho hoje e vou aceitar o que tiver amanhã.

— Menos uma perna quebrada — lamentou Albus. — Por essa ninguém esperava.

— É — suspirou. — Mas e vocês dois? Se Michael me perguntou sobre filhos, eu posso perguntar sobre vocês morarem juntos. E aí?

— Eu até estava disposto — respondeu Michael em um tom mesclado a seriedade e brincadeira. — Mas depois que ele falou de um tal de Adam, fiquei meio com um pé atrás.

— Mentira isso aí. Eu só comentei que ele deu em cima de mim lá no hospital, mas não quer dizer que eu tenha feito algo de volta.

— Não precisa se explicar. Você é bonito, quem pode culpar o Adam?

— Ele não é meu tipo, de qualquer forma.

— Você tem um tipo? – estranhou Michael.

— A cada semana Albus tem um tipo — riu Rose. — Mas já faz um tempo que ele tem ficado preso em um só, não se preocupe, Michael.

— Que tipo eu sou? Sempre quis saber.

— Do tipo raro — respondeu Al. — Do tipo raro que é gostoso e não é escroto. E cuida de uma criança como se fosse seu filho, o que é legal.

Michael sorriu para si mesmo, sem esperar por essa resposta. Ele ficou um pouco calado depois, só ouvindo a conversa entre Al e Rose. No momento em que Zoe avisou que Scorpius já tinha acabado o almoço, eles se reuniram na mesa. Mas, antes, Michael segurou o braço de Al chamando sua atenção.

— O que você acha?

— Acho o quê?

— Você já passa bastante tempo em casa. A gente meio que podia oficializar isso.

Rose olhou para eles da mesa, sem ouvir sobre o que falavam.

— Vocês não vão almoçar?

— Já vamos. — Albus observou o pequeno Luke tentando passar a mão no rabinho do Cupcake. Depois ergueu os olhos de volta para Michael. — Sério?

— Muito. — Mas não queria pressionar. — Você me diz depois o que acha disso. Vamos comer primeiro.

Al observou a família e pensou que não poderia pedir por uma sorte melhor. Sentou-se ao lado de Michael e trocou um sorriso cúmplice com Rose a sua frente. Ela piscou para ele, garantindo que ele realmente era um cara de sorte.

Foi um almoço agradável, com Zoe disputando a tagarelice com Luke. Foram interrompidos dez minutos depois com uma batida na porta.

— Eu atendo. — Scorpius se levantou da mesa e se dirigiu até a sala.

Atendeu a porta para dois rostos conhecidos. Por trabalhar há tempos em uma firma de advocacia, ele já tinha visto os detetives que estavam a frente deles.

— Pois não?

— Estamos procurando Michael Stratford — disse a mulher alta e séria. — Soubemos que ele estaria aqui.

— Sou eu. — Michael também se levantara. — Algum problema?

— Precisamos fazer algumas perguntas a respeito da morte de Leon Ryan.

Michael franziu a testa.

— Foi há três anos, não foi?

— Sim. Novas evidências foram encontradas e tivemos a informação de que você foi visto com ele na noite do assassinato.

O rapaz ficou extremamente desconfortável.

— Podemos conversar em outro lugar? Estou com minha família.

— Sim, na delegacia.

— Espere. — Scorpius interferiu. A detetive girou os olhos, pois conhecia quem Scorpius era e já imaginava que ele dificultaria o trabalho dela, relembrando a Michael: — Você não precisa responder nenhuma pergunta sem a presença do seu advogado.

— Não, está tudo bem — garantiu Michael. — Eles querem resolver isso logo. Eu vou com eles.

— O que está acontecendo?

Albus apareceu na sala a tempo de ver Michael se adiantar para o corredor com os detetives. Michael voltou para dizer a Luke, que estava caminhando apressadamente até Michael achando que iriam embora:

— Ei, campeão, eu já volto. Fica um pouco com Al.

O que está acontecendo? — Al repetiu a pergunta, pegando Luke no colo. Michael não respondeu.

— Cuida dele, Al. Por favor.

Rose estava confusa também e Zoe não entendia, mas observava a agitação inquietante da abordagem da polícia, assustada. O que queria com um cara tão legal como o tio Michael?

Scorpius frustrou-se e falou com a voz baixa e contida para Michael mais uma vez:

— Você está sendo indiretamente acusado de assassinato, eu sugiro que ligue para o seu advogado. Você tem um?

— Não para esse tipo de situação — confessou.

— Então arrume um.

— Posso pagar você.

Michael estava extremamente sério. Scorpius deu um longo suspiro, observando os rostos de Rose, Zoe, Luke e, principalmente, de Al. Não, ele não costumava fazer favores. Não era para fazer favores com tantos outros clientes para se preocupar, mas Scorpius já resolveu problemas muito piores do que os de Michael para outras pessoas. O que seria mais um?

Notas finais
Muito obrigada por chegarem até aqui! O que vocês acharam? Não esperavam que Michael fosse ser abordado por algo que aconteceu no passado dele, antes mesmo de Luke e de Albus (misteeeeeerios). Eu estava contando escrever um momento em que Scorpius poderia ajudá-los. E a gente vai descobrir algumas coisas sobre o Michael tb. Rose quebrou a perna e Scorpius está com mais tarefa de cuidar não só da Zoe, mas agora da Rose HAHAHA. Ele não TEM descanso. Outra coisa: Miles Jackson apareceu no começo da fanfic, se não estão lembrados. Ele reapareceu contratando Scorpius para ser advogado agora que ele se envolveu com alguns negócios perigosos. Rookwood vai deixar a firma em paz, mas será que Scorpius vai ficar em paz? Será que ele vai dar conta disso E da família? É muita coisa pra ele lidar, é uma prova de fogo. Draco se envolveu com a professora da Zoe - mais sobre isso saberemos no próximo capítulo! Eu sei que os Weasley não apareceram. Só o Hugo. Mas, gente, é muita pessoa nessa família e eu não posso colocar informações desnecessárias. Portanto eles aparecem quando têm que aparecer, e quem tem que aparecer. Espero que compreendam. Bom, se chegaram até aqui e ainda acham que mereço algum comentário, por que não mandá-lo? Vai fazer a minha semana, o meu ano. Até o próximo capítulo. Vou fazer de tudo para não enrolar dessa vez, eu prometo!!