Fix You
15 We Never Change
Notas iniciais
Capítulo 15.: We Never Change
"I want to live life, and never be cruel
And I want to live life, and be good to you..."
Rose se encontrou com Dominique no fim de semana para passarem a tarde de sábado juntas. E isso significava Rose sacrificar seus princípios e suas próprias vontades para visitar todas as lojas do shopping e ajudar Dominique a fazer suas compras. Mas, antes de tudo, ajudar Dominique a superar o rompimento com o francês Oliver. Ela costumava gastar horrores com roupas quando estava triste e pedia para Rose acompanhá-la, assim ela se controlaria com os cartões.
– Eu realmente achei que daríamos certo dessa vez – comentava Dominique. – Isso é tão deprimente, não? Tenho quase vinte e oito anos e não encontrei ninguém para sossegar.
– E você quer? Sossegar?
– Claro que quero. Eu ando tendo umas vontades malucas de ter filhos. Mas eu não sei se vou ser uma boa mãe. Vou mimar muito.
– Não é fácil – admitiu Rose.
– Ai, eu esqueço que você tem experiência nisso. Cadê a Zoe, por falar nisso?
– Scorpius tem passado algum tempo com ela nos fim de semanas.
Dominique olhou surpresa.
– Interessante. Ouvi dizer o que ocorreu a ele. Foi assaltado, não é? Albus me contou. Não o vejo desde a formatura. Você mostrou a ele que você superou, certo? Ele foi um babaca com você depois que entrou na faculdade. Não sei por que não decidiram terminar quando saíram da escola. Só evitaria muito problema. Mas Zoe não existiria, e seria muito ruim não ter a lindinha com a gente agora, não é?
Dominique tinha sempre razão nos seus pontos. Ela sempre fora muito sincera. Falava a primeira coisa que aparecia na cabeça e tinha a façanha de fazer as pessoas gostarem dela mesmo assim.
As duas conversaram sobre diversos assuntos, apenas colocando o papo em dia, enquanto Dominique escolhia algumas langeries provocantes para ela mesma em uma das lojas da Victoria’s Secrets. Ela estava se admirando/verificando pelo espelho da loja. Dominique fazia isso o tempo todo. Às vezes ela era apenas obcecada pela aparência, com a indecisão incontrolável do que comprar, uma vez que qualquer roupa ficava boa no corpo dela.
Rose não pretendia trazer Scorpius para os pensamentos, e não entraria no assunto com outra pessoa, muito menos com Albus. Mas com Dominique era diferente. Dominique sempre tinha opiniões diferentes. Rose precisava desabafar com alguém.
Por isso, e apenas por isso, ela se ouviu interrompendo as perguntas retóricas de Dominique sobre o tamanho e a cor certa de sua langerie, com essa revelação:
– Ele me beijou.
– Quem? – a prima perguntou, distraída.
– Scorpius. Ele me beijou. Do nada. Completamente do nada. E falou... umas coisas.
– Onde as mãos dele estavam?
– O que isso tem a ver?
– É importante reparar onde as mãos dele caminharam pelo seu corpo.
Dominique também não tinha escrúpulos. Ela, no meio da loja de roupas íntimas, demonstrou na prática.
– Aqui, na sua cintura? Ou aqui no seu rosto? Ficou no rosto o tempo todo? Assim?
Rose não tinha certeza se ficava incomodada ou sentia saudades do jeito nada indiscreto que Dominique sempre aparentou ter. Apertava o rosto de Rose com as duas mãos, e quem passasse por perto julgaria que as duas eram um casal.
– Sim, o tempo todo no rosto.
– Não desceram na sua bunda?
– Não.
– Ficou parada, do jeito que eu estou fazendo agora?
Rose assentiu, sentindo as bochechas serem tão pressionadas que se chegasse a falar alguma coisa pareceria um peixe.
Dominique, depois de analisar a situação, soltou ela.
– O que foi isso? – Rose riu exasperada.
– Gosto de detalhes – respondeu a prima. – Ele não tentou levar você pra cama. Isso é um bom sinal.
– Bom sinal? – ela encarou Dominique, inconformada. – Para quem, exatamente? Estamos falando do meu ex-namorado, o pai da minha filha aqui. Beijos nunca são bom sinal.
– Um bom sinal para mim. De que eu estou certa. Ele ainda te quer. Mas a pergunta mais importante... – enfatizou. – Você beijou de volta?
O silêncio de Rose foi acusador.
Dominique segurou os ombros dela, para ficarem cara-a-cara.
– E onde suas mãos estavam?
– Não lembro.
– Lembra, sim. Me mostra.
– Quer saber? Estou me arrependendo de ter contado pra você, Domi.
– Olha pra mim, então.
Rose olhou para ela.
E bufou quando Domi apertou o rosto dela novamente, para dizer bem séria:
– Se Scorpius quer você, ele vai ter que rastejar dessa vez. Esse beijo foi um momento de fraqueza, e você não será fraca. Repita comigo: depois de tudo o que ele me fez...
Rose girou os olhos. Dominique pressionou, garantindo que não a soltaria se não repetisse a frase.
– Depois de tudo o que ele me fez.
– Ele pensa que eu o desprezo.
– Ele pensa que eu o desprezo.
– Mas no final, eu só quero agradecer.
– Mas no final, eu só quero agradecer.
– Porque isso só me tornou mais forte.
– Porque isso só me tornou mais forte.
Era incrível como, mesmo tendo terminado o próprio namoro, Dominique estava sendo mais prestativa com Rose do que Rose com ela naquele momento.
Depois de repetirem Fighter, da Christina Aguilera, como um mantra sempre que uma das duas era desiludida amorosamente, Dominique se adiantou até o caixa para comprar as roupas que escolheu. Rose, conhecendo o gosto da prima para vestidos, precisou tirar da mão dela pelo menos três que com certeza Dominique não iria usar quando recuperasse o bom senso, e o bom humor. Saíram com as sacolas para caminharem até a praça de alimentação, onde, alguns minutos depois, Albus se juntou a elas quando marcaram de se encontrarem no tal lugar. Não ficavam os três juntos em uma mesa desde a época em que eles tiveram recreios.
Às vezes Rose pensava que ter voltado para Londres tinha sido uma boa ideia, afinal de contas. Seus outros primos ainda estavam distantes, e os amigos também. Todos em um lado diferente do país, da cidade e da vida deles, privando-a do contato. Os tempos mudaram, assim como as pessoas. Mas ela sentia falta de cada um deles e ficou feliz por ainda ter os melhores ao seu lado. Tudo teria sido pior se Rose ainda não tivesse os dois que a faziam rir e superar o que, há alguns anos, parecia ser impossível superar.
***
Os dedinhos de Zoe tentavam, com muito esforço, fazer o nó na gravata dele. Scorpius passou o final da tarde ensinando a filha a ajustar a gravata em seu colarinho.
– Assim?
Ele olhou para o espelho da sala. Estava um nó torto digno de criança.
– Não – ele disse com sinceridade. – Mas está melhor do que o nó que eu faço quando estou com sono.
Zoe deu uma risadinha.
– Posso tentar de novo?
– Agora não, ou vamos chegar atrasados. E sabe o que acontece quando a vó Cissy percebe que eu cheguei atrasado para a festa dela?
– O que acontece?
– Ela fica bem furiosa. Você não vai querer ver a vó Cissy furiosa comigo, vai?
Ela negou com a cabeça.
– Você se lembra dela? – perguntou, enquanto executava o perfeito nó na grava. – Da vó Cissy?
Como se temesse ser a resposta errada, Zoe fez uma breve expressão culpada.
Scorpius ergueu Zoe do sofá para colocá-la no chão novamente.
– Tudo bem. Você tinha só um ano de idade quando você a viu.
– Eu era desse tamanho – ela contou, afastando as mãos paralelamente.
– Um pouco maior. Assim.
– Uau. Agora eu sou gigante!
– Em comparação com uma formiga, é sim.
– Ei! – ela protestou, com as duas mãos na cintura, fazendo-o rir.
Quando Scorpius abriu a porta para eles saírem, Zoe depressa procurou pela mão dele e apertou os dedinhos em volta. Os dois desceram o elevador juntos. Zoe nunca tinha passado tanto tempo no prédio onde o pai morava, mas agora, até dezembro, Zoe já tinha feito amizade com quase todos os funcionários, incluindo a recepcionista. Toda vez que o pai passava pelo balcão para assinar algumas coisas, Zoe ficava tentando se empoleirar para conversar com a moça.
– Oi, Portia!
– Oi, lindinha. Aonde você vai tão chique assim?
– Gostou do meu vestido? Meu papai comprou para mim.
– Claro que comprou. – Portia sorriu para Scorpius, ele distraído com os cartões. – Seu pai tem o mais bom gosto para presentes. Você está linda!
– Obrigada! – Ela se ergueu nas pontas dos pés para espiar o balcão. – Não tem mais bombom?
– Não, hoje não tem – disse tristemente. Zoe também ficou triste.
– Você vai jantar agora, Zoe – disse Scorpius. – E eu sei que Rose não deixa você comer bombons antes de jantar.
– Mas eu só ia guardar para depois.
– Ia?
– Sim.
– Ia mesmo? Olha pra mim. Viu? Piscou. Ela não ia guardar para depois.
Portia estava rindo. Ela trocou um olhar com Scorpius. Ele reparou que, antes de descobrir que Scorpius tinha uma filha, Portia ignorava a existência dele. Com certeza o achava arrogante e evitava-o por conhecer bem sua reputação. Zoe se afastou um pouco para se sentar num dos sofás e folhear uma das revistas, e Portia, entregando a Scorpius um recibo, comentou:
– Eu não conhecia esse lado seu, Malfoy.
– Que lado?
– O lado papai. É fofo. E sua filha é linda. Não a deixe escapar.
Scorpius girou o pescoço para olhar para Zoe. Só tinha que concordar.
– Boa noite, Portia.
– Bom jantar, Scorpius. – E a moça fez um aceno para Zoe quando Scorpius estendeu a mão sabendo que a filha iria segurá-la sempre.
***
A família Malfoy era a típica família tradicional e rica. Se você tem filhos fora do casamento, como Scorpius, as pessoas comentavam. Especialmente os amigos e conhecidos dos pais e dos avós. Por isso, quando Scorpius se viu em frente à porta de sua antiga casa, ele se inclinou a altura de Zoe e falou:
– Escute, minha família é bem diferente dos Weasley. Então se você não se sentir a vontade, você pode me dizer e daremos o fora daqui.
Ela fez que sim. Durante a festa, Zoe ficou grudada nele o tempo todo e de repente se tornava a menina mais tímida do mundo. Scorpius cumprimentou seus parentes, incluindo sua tia Daphne, seus avós maternos, e o primo de Scorpius, Roran. Os dois não se viam há anos, a última vez fora no velório de Astoria, porque moravam em diferentes países – a família Greengrass era de País de Gales, mas como tinham afinidade com a família Malfoy, eles visitavam quando podiam.
– Como vai, Scorpius? – Roran tinha todo esse ar insuportavelmente superior. Era um jovem neurocirurgião que sempre menosprezou o estilo de vida de Scorpius. O perfeito certinho, era como Scorpius gostava de chamar Roran pelos pensamentos. Os dois, mesmo assim, apertaram as mãos quando se reviram. – Vencendo muitos casos nos tribunais, ouvi dizer.
– Salvando muitas vidas, ouvi dizer.
– E quem é essa?
– Zoe, esse é o meu primo, Roran. Roran... minha filha.
Zoe fez um oi muito educado.
– Ah, claro – foi o que Roran disse. Com certeza sabia de onde Zoe viera. De um rolo no colegial. – Scorpius, gostaria que conhecesse minha esposa.
A esposa em questão era uma mulher elegantíssima, muito bonita e também cirurgiã. Era loira e tinha belos dentes. Estava grávida.
– Donna, esse é o meu primo Scorpius e a filha dele, a pequena Zoe.
– Olá, pequena Zoe.
– Vai ser menino ou menina? – perguntou Zoe muito curiosa.
– Menino! O nome dele é Chris.
– Oi, Chris! – Zoe falou para a barriga enorme de Donna, que sorriu em resposta.
– Oh, ele respondeu – exclamou espantada, pousando a mão na barriga. – Foi uma pontada, Roran, foi uma pontada!
No momento em que o casal celebrava esse momento muito emocionante, com beijos e abraços, Scorpius virou-se imediatamente para o garçom que trazia as bebidas. Pegou a primeira taça de champanhe que alcançou, mas seu avô Lucius arrancou a taça da mão dele, impedindo-o daquilo.
– Não vai beber com uma criança na sua cola, vai?
Scorpius suspirou e, mais uma vez, inclinou-se para Zoe, apresentando:
– Sei que é muita coisa pra você, Zoe... mas esse é o meu avô. Lucius Malfoy.
Lucius obviamente não estava acostumado com crianças, porque estendeu sua mão para Zoe como se ela fosse gente grande. Ela apertou, encarando-o.
– Olá – disse a menina, obviamente intimidada com a postura séria de Lucius, após juntar suas mãos atrás das costas.
– Olá, Zoe. É um prazer finalmente conhecê-la.
Talvez Zoe estivesse gostando da experiência de ter um adulto conversando com ela de um jeito diferente que as pessoas conversavam com crianças, porque ela disse:
– Obrigada, senhor.
A postura adulta dela vacilou quando viu Draco se aproximando dos dois. Imediatamente saiu da cola de Scorpius e foi até Draco, como se estivesse ansiosa para mostrar alguma coisa. Scorpius viu que o pai estava segurando a taça de vinho e fez um pedido mental para que ele não estivesse exagerando naquela noite.
– Oi! – disse Zoe imediatamente, fazendo Draco olhar para ela com surpresa na expressão.
– Como vai, Zoe?
– Olha só a moedinha que eu ganhei!
Foi um momento que Lucius não esperava ver. Não a parte de Draco estar se relacionando com uma criança – uma filha fora de casamento de Scorpius –, mas pela parte de vê-lo sorrir outra vez.
– Essa é uma moeda bem brilhante – ele comentou.
– Posso ver aquela moeda da guerra de novo?
– Do meu avô? Essa daqui? – Draco tirou do bolso a moeda que Lucius reconheceu ter pertencido a Abraxas. Ele se lembrava do dia em que o pai foi embora para servir o país na guerra e Lucius, por muitos anos, acreditou que aquela moeda seria a última lembrança que teria do pai. Quando Draco tinha a idade de Zoe – também época que Abraxas morreu devido a uma grave doença – Lucius deu a moeda a ele. Agora, Draco estava mostrando para a filha de Scorpius.
– Ela é uma boa garota – disse Lucius, reparando que Scorpius também observava a cena.
– Não graças a mim – ele riu lamentosamente, desejando, por alguns segundos, que Rose estivesse ali.
Sua avó Narcissa descia as escadas nesse momento, sendo saudada por todos os convidados de sua festa de cinquenta anos de casamento com Lucius. O avô se afastou de Scorpius para andar até a esposa e, ainda muito elegante e cavalheiro, estendeu a mão para ajudar Narcissa a descer. Ela deu um tapinha na mão de Lucius.
– Ainda sei descer escadas sem ajuda, querido – reclamou, fazendo todos rirem.
– Só para as fotos, Cissy.
O fotógrafo se inclinou para registrar a foto do casal. Narcissa encontrou o olhar de Scorpius e saiu dos braços de Lucius para se aproximar.
– Não acredito no que meus olhos estão vendo.
– Oi, vó.
– É quem estou pensando que é? – Apontou com a cabeça em direção a Draco e Zoe. – Ela cresceu.
– Sete anos – ele concordou. – Eu queria mostrar a família pra ela.
– Você sabe o que eu penso sobre isso, Hyperion. Ela nem ao menos tem o sobrenome.
– Só fala oi para Zoe, ok? – ele murmurou. – Seja boa com ela. Zoe não tem culpa de nada.
Narcissa suspirou profundamente. Reunindo força de vontade, porque para alguém com princípios tão aristocratas não era fácil aceitar que Scorpius tivesse uma filha com uma ex. Mas, como Zoe não tinha culpa de nada, um oi era o máximo que Narcissa poderia dar.
– A senhora é a mãe do pai do meu pai? Então a senhora é o que de mim?
– Sua bisavó – informou Narcissa. – Pode me chamar de Cissy.
– A senhora não parece minha bisavó.
– Por que não?
– A senhora não parece velha.
A sinceridade misturada à ingenuidade de uma criança era sempre recebida com surpresa. Narcissa imediatamente se viu rindo, chacoalhando as jóias do pulso. Scorpius acompanhou a risada, assim como Lucius e até mesmo Draco, sem acreditar na própria filha. Ela soube exatamente o que dizer a Narcissa. Inacreditável.
– Nada melhor do que começar uma festa ouvindo um grande elogio desses. – Virou-se para o ouvido de Scorpius. – Eu gosto dela, mas isso não muda o que eu falei.
Scorpius aceitou isso. E compreendeu.
– Mas fico feliz que esteja aqui, querido.
Ela deu um leve beijo no rosto do neto. Foi caminhar em direção aos outros convidados, mas Scorpius segurou o braço dela e perguntou:
– A senhora e meu avô conversaram...
Cissy não estava com a mesma animação de sempre para festas, o que indicava que ela já sabia sobre as condições de Lucius.
– Se ele acha que vai se livrar de mim, o filho da puta está enganado.
Scorpius sorriu e a observou voltar a dar a mão para Lucius para receber os próximos convidados que chegavam.
No meio da festa, Zoe encontrou uma garotinha da idade dela para começar a brincar de pique esconde pela casa. Quem acabou se sentindo deslocado na festa de bodas de ouro dos avós foi o próprio Scorpius. Percebeu que estava desacompanhado. Todos os seus conhecidos tinham uma esposa ou namorada. Um pai se aproximou dele no momento que assistia Zoe brincando no quintal:
– É sua filha?
– É. É a sua?
– Minha segunda. Tenho uma filha mais velha. Fez quinze anos agora. Quem dera se elas fossem pequenas para sempre. Crescem muito rápido.
– Eu sei – Scorpius respondeu. Lembrava-se bem do dia em que segurou Zoe quando ela mal cabia em seus braços.
– É inacreditável. Nessa época, somos o mundo para ela. E então elas crescem e começam a se esquecer da gente e só pensar em namoro e garotos. E é então que você começa a pagar pelos seus pecados. Consegue imaginar sua filha daqui dez anos namorando um cara como você? Oh céus, eu penso o tempo todo e me assusta.
Por que aquele cara estava dizendo aquelas coisas para ele? Quem estava dizendo que Zoe um dia iria namorar?
Quer dizer, olhe só para a menina. Zoe e a nova amiguinha dela estavam observando plantinhas e joaninhas no jardim. Scorpius passou a mão nos cabelos e olhou para o homem ao seu lado.
– Está muito longe para isso um dia acontecer – tentou se enganar. – Zoe só tem sete anos.
– Agora. Não pra sempre. Meu conselho: aproveite bem essa época, cara.
Scorpius nunca tinha pensado por essa perspectiva antes. Voltou a olhar para Zoe no jardim. Ele sabia que era natural que as pessoas crescessem e sabia que Zoe, daqui vários anos, não seria mais a mesma garotinha que estava sendo, mas pensou em tudo o que ele fez com algumas namoradas e outras mulheres que ele nunca chegou a ver outra vez... E se alguém fizesse a mesma coisa a Zoe quando ela crescesse?
Para não pensar muito nesse assunto, decidiu fazer companhia a Draco, que estava no balcão lá fora, tomando uns drinques, como sempre. Tinha uma mulher ali perto que não parava de secá-lo com o olhar; afinal, mesmo chegando aos cinquenta anos, Draco era um ótimo partido. Scorpius sabia que ele nunca superaria o fato de ter perdido Astoria de um jeito abrupto e trágico, mas ficou preocupado que um dia ele nunca mais encontrasse outra pessoa. Ficasse sempre sozinho.
– Sem querer soar parceiro de balada, pai, mas aquela mulher não para de olhar para você.
– Eu sei – ele disse, como se não se importasse.
– Minha mãe iria gostar que seguisse em frente.
– Iria mesmo?
– Não – Scorpius soltou uma risada. – Ela irá assombrá-lo se você comer outra mulher.
Draco não resistiu e abanou a cabeça, sorrindo.
– Ela iria, não iria? Astoria era ciumenta pra caralho.
– Você já a traiu, alguma vez?
– Nunca – ele respondeu tão rápido que Scorpius se surpreendeu. – Você não faz essas merdas se ama mesmo.
Se Draco tivesse falado isso há oito anos para Scorpius, talvez tudo fosse diferente.
Scorpius deixou o pai com suas lembranças e ouviu a risada de Zoe. Ela e mais duas criancinhas brincavam de bater palmas perto da piscina. Lembrou-se de algo aleatório; o primeiro beijo que deu em Rose, naquela mesma área da piscina. Era inacreditável como o tempo mudava. Agora ele tinha uma filha, e Rose não pretendia aceitá-lo de volta. Não que Scorpius esperasse ser aceito de volta, algum dia, mesmo com as coisas que disse a ela na semana passada.
Percebeu que Draco tinha saído ao seu lado. Ocupando o lugar dele, uma moça jovem sentou e se apresentou. Scorpius gostou do sorriso, da boca e do corpo dela. Com certeza, ela seria uma ótima ideia no final da noite. Em diferentes circunstâncias, ele não perderia tempo.
Mas quando ela deu indiretas para eles saírem da festa e irem a algum lugar mais interessante depois, Scorpius sorriu a si mesmo.
– Já estou acompanhado essa noite.
– Sério? – Ela roçou os dedos no joelho dele. – Você parece um pouco sozinho.
Nesse exato momento, como se Zoe tivesse percebido que alguém estava pretendendo tirar o pai dela de perto, a menina correu se enfiar entre eles e mostrar bem perto do rosto de Scorpius uma flor.
– Olha só o que eu achei, papai! Ela é azul... minha mamãe fala que plantinha azul não é fácil de achar... e eu achei!
– E agora – Scorpius pousou a pequena planta atrás da orelha de Zoe – você é a mais bonita dessa festa.
Zoe se empoleirou, dando um jeito de colocar um braço ao redor do ombro de Scorpius, que segurava a filha.
– Quem é você? – a menina perguntou desconfiada, como sempre fazia quando uma mulher bonita estava falando com Scorpius.
– Eu... – a moça não sabia como agir. A última coisa que esperava era o cara mais gostoso da festa estar acompanhado com uma filha. Sorriu amarelo. – Eu vou pegar alguma bebida.
Depois desse momento, Zoe o seguiu para todos os cantos pelo menos até o fim da festa. Quando estava levando-a de volta para casa, Scorpius observou ora ou outra a filha pelo retrovisor do carro. Ela ainda estava muito admirada por ter encontrado a flor de sua cor preferida. Tão admirada que não parou de falar sobre isso o trajeto inteiro. Nem quando estavam subindo as escadas (o elevador do prédio estava em manutenção) e nem quando ela bateu na porta para Rose atender.
Scorpius sentiu os dedos de Zoe tentando puxá-lo.
– Papai! – ela reclamou quando Scorpius não se adiantou mais. – Você não quer entrar?
– Não, filha, eu...
Rose abriu a porta nesse momento.
Às vezes Scorpius não acreditava que ele chegara ao ponto de confessar tanta coisa para ela, algumas noites atrás. Mas às vezes ele compreendia o motivo de ter feito isso. Ela estava com os cabelos presos e os óculos de leitura no rosto; apenas linda. Os dois trocaram um olhar significativo de que não tinham se esquecido do que acontecera, sob as tentativas de Zoe puxar Scorpius para dentro do apartamento. Rose não impediu, ainda mais porque Zoe estava eufórica para mostrar uma coisa a ele.
– Como foi na festa, Zoe? – perguntou Rose. E virou-se para Scorpius a caminho do quarto dela. – Ela comeu muito?
– Inacreditavelmente não – respondeu Scorpius. – Não gostou da comida de gente grande que serviram por lá.
– Eu vou preparar um jantar. Com brócolis, tomate, alface, espinafre... o que acha, Zoe?
– Eca!
Os dois riram com a careta que ela fez. Rose se afastou para a cozinha, e Scorpius entrou no quarto de Zoe, onde a menina o fez sentar na cama, para ela mostrar a ele o brilhante A+ que recebeu em sua prova na escolinha.
Ele sorriu, sendo quase afogado por tantos papeis de desenhos que ela começou a mostrar para ele. Em algumas, Scorpius reparou que Zoe representava a figura dele pela gravata. Ela desenhou várias gravatas nos bonequinhos.
– E esse é você, papai, aí aqui eu desenhei a minha mamãe... ela tá segurando a tela de pintura e está indo no museu – mostrou o museu com o dedo. – E aqui é a minha tia Domi e o namorado dela... mas acho que mamãe disse que ela terminou com ele... por isso ele está rabiscado... Esse é o tio Al! Ele está me salvando dos zumbis! E aqui... é o meu avô.
– O que ele está segurando? – perguntou muito curioso, espreitando os olhos para entender.
– Uma moedinha.
Scorpius se deu conta de que Zoe não tinha desenhado o sr. Weasley.
– Você desenhou seu avô Draco.
Foi um momento importante. Pela primeira vez, Zoe fez alguém da família de Scorpius.
– Você gostou? – ela perguntou com preocupação.
– Sim – ele respondeu, surpreso com o efeito que aquele desenho infantil causou nele. – Seu avô iria gostar muito de ver isso também. Por que não mostra para ele quando vê-lo novamente?
– Eu vou ver o meu avô Draco de novo?
– É muito provável, ele quer vê-la de novo. E vai mostrar a ele que você será uma grande artista, coisinha.
– Eu quero ser atriz quando eu crescer! – ela contou sonhadoramente. – Atriz, dançarina, cantora, como chama aquela moça que fica no avião?
– Aeromoça?
– Sim! Quero ser aeromoça também. Quero ter uma loja enorme só de brinquedos. E quero ser princesa!
Scorpius riu nessa última revelação.
– Você já é a minha. – Ele se levantou, ajeitando a pequena flor no cabelo dela. Zoe a pegou de volta para correr até a cozinha e mostrar para Rose.
Ela realmente tentou dar atenção a Zoe enquanto fazia a comida. Depois de um tempo Scorpius viu que Zoe subiu na cadeira ao lado do fogão para ajudá-la.
– Papai sabe cozinhar também, sabia, mãe?
Rose não acreditou nisso. Observando a expressão descrente dela, Scorpius se sentiu um pouco obrigado a demonstrar que Zoe não mentia, e se aproximou dela perto da pia.
– Não tenho sido inútil o tempo todo.
– Ok – ela respondeu. – Eu acredito.
– Mentira. Está toda desacreditada. Posso provar, se quiser.
Rose entregou-lhe a faca, aceitando o desafio.
Scorpius não precisou nem olhar para o legume enquanto cortava-o em pedacinhos. Um pouco arrogante, perguntou:
– Precisa de ajuda? Prometo não criticar.
Ficou olhando para Rose até ela se render.
Eram muitos legumes.
Scorpius ajudou, especialmente depois de demonstrar que ele sabia mesmo o que estava fazendo. Quando começaram a mexer no fogão, Zoe decidiu ficar esperando na sala, dançando ao som de um musical em frente à tela da televisão. Scorpius estava verificando a temperatura quando Rose quebrou o silêncio:
– Ela gostou de ficar na festa dos seus avós?
– Ela e meu pai estão construindo uma amizade – contou Scorpius. – Zoe fez um desenho dele.
– Ela fala sobre ele. Como ele está?
– O de sempre – respondeu.
Rose se lembrou da mãe de Scorpius, e do tempo sombrio que ele passou depois do falecimento dela. Rose sabia que era preciso uma delicadeza enorme para entrar no assunto de Astoria com ele. Ao invés disso, então, contou:
– A turma de Zoe fará uma apresentação de Natal na escola.
– Quando?
– Sábado que vem. E minha família vai assistir. Não vou cobrar nada de você, Scorpius, muito menos a Zoe... Só estou avisando. Se quiser aparecer para vê-la dançar no palco, apareça. Se não, nem diga que tentará.
Ele assentiu. Rose foi colocar os pratos na mesa, e se interrompeu quando sentiu os dedos de Scorpius segurarem seu braço para ela se virar para ele.
– Eu vou – garantiu, e já estava acostumada com os olhares cínicos. Ele desejou, como nunca antes, apagar os de Rose naquele momento. – É sério.
– Você sempre fala o que as pessoas querem ouvir, Scorpius – ela retorquiu. E depois chamou: – Zoe, já coloquei as coisas na mesa.
Scorpius pegou o sobretudo sobre o balcão da cozinha e o enrolou no braço. Mas antes que se aproximasse para se despedir de Zoe, Rose não se mexeu da cozinha e ele notou, com uma surpresa boa, que ela tinha colocado três pratos na mesa.
– O papai vai comer com a gente?! – exclamou Zoe, ao fazer as contas. Pediu com muita vontade quando se sentou: – Senta do meu lado, pai?
Ele estava pronto para dizer que precisava ir embora, mas ele não precisava. Scorpius espiou o consentimento de Rose.
– Você ajudou no jantar. Nada mais justo. Regra da família Weasley, não posso quebrá-la.
Não acreditou naquilo. Simplesmente não acreditou.
Ele se aproximou da mesa e puxou a cadeira para se sentar ao lado de Zoe. Ela sorriu para ele mostrando os dentes, as pernas inquietas ali embaixo da mesa.
Parecia surreal para a pequena Zoe ver os dois pais juntos na mesma mesa.
Scorpius e Rose se entreolharam. Ela tentou um sorriso para ele? Não, deve ter sido impressão. Scorpius se sentiu um estrangeiro na mesa de uma família patriota. Ele mal se lembrava da última vez que algo assim aconteceu.
Nunca aconteceu.
Claro que os dois não precisaram se preocupar com silêncios na mesa. Zoe tinha milhares de assuntos, milhares de perguntas para fazer, e tinha adquirido a habilidade de Rose em fazer as pessoas sorrirem com os comentários sobre determinado assunto.
Scorpius estava observando o riso de Rose misturado ao de Zoe e como as duas eram tão parecidas, quando o celular dele tocou no seu bolso da calça, e interrompeu as risadas.
Rose bebeu o suco e olhou para ele, sem querer espiando o nome na tela do celular.
Alexis
– É trabalho? – Ela sabia que não era trabalho.
– Não é nada – ele se ouviu dizendo. O polegar roçou o botão para recusar a chamada. Guardou o celular no bolso e voltou a olhar para elas. – Então, coisinha, quais músicas você vai dançar na sua apresentação no próximo sábado?
Zoe olhou desanimada, dando de ombros, cutucando os brócolis que Rose sempre colocava no prato dela para fazê-la comer alguma coisa saudável.
– Qual é o problema? – Scorpius perguntou.
Zoe cruzou os braços, escorregando da cadeira.
– Você não vai poder ir mesmo.
Ele se surpreendeu com essa atitude pessimista dela.
– Quem disse?
– Você nunca pode ir. Você tem que trabalhar.
Em lados opostos da mesa, Rose e Scorpius se entreolharam. Zoe aprendera a ter poucas esperanças com o pai em relação a comparecer a eventos.
Era uma responsabilidade imensa fazer a promessa do dedinho com tantos casos na firma, embora ele quisesse fazer, para agradar Zoe naquele momento. Scorpius teria que ter absoluta certeza de que ele iria comparecer a apresentação da turma dela, independente do que acontecer. Não podia fazer a promessa do dedinho, não naquelas circunstâncias de final do ano, já que ele conhecia sua rotina e sabia que época de Natal era imensamente corrida. Seria uma decepção imperdoável fazer a promessa do dedinho, para não cumpri-la.
Mas disse:
– Eu vou tentar, Zoe.
Ele precisava ter a confiança dela mesmo sem precisar fazer promessas. Infelizmente, tentar não era suficiente para uma criança. Mas Scorpius decidiu que ele iria realmente se esforçar dessa vez.
No final daquele simples, porém diferente jantar, Zoe pediu para brincar um pouco antes de dormir. Ela se despediu de Scorpius com um abraço e foi até o banheiro escovar os dentes, como Rose sempre mandava que ela fizesse.
Com as mãos nos bolsos, antes de sair, Scorpius virou os olhos para Rose.
– Nunca vamos abandonar esse silêncio, não? – ele comentou, coçando a sobrancelha.
– Scorpius...
– Eu sei. Não é hora pra isso.
– Não – ela concordou baixinho, ajeitando a alça da blusa. Scorpius reparou nisso mais do que deveria. – Boa noite.
– Boa noite.
– Scorpius? – Rose chamou quando o rapaz já estava se afastando pelo corredor. Depressa demais para o próprio gosto, ele virou o corpo. Rose apenas pediu: – Não magoe a Zoe. Não de novo.
Não importava suas intenções boas, Scorpius ainda tinha sua bagagem e uma reputação. Não é fácil ganhar confiança.
***
Não se sentiu bem quando terminou a noite com Alexis. Tinha na consciência que não deveria estar transando com ela, mas perder certos hábitos ainda exigiria mais esforço – como o fato de ele não conseguir ficar sozinho durante a noite. Mas pensou em Rose o tempo todo e isso era errado com Alexis.
Tragou um pouco do cigarro, deitado na cama somente com a boxer preta, observando o ventilador do teto. Era madrugada. Olhou para o corpo lascivo de Alexis coberto pelo lençol fino. Ela tinha belas costas nuas.
– Não vamos mais continuar com isso – ele se ouviu sussurrar. – E não tem a ver com o fato de estarmos trabalhando juntos.
Ela levantou a cabeça, apoiando o cotovelo no travesseiro.
– Não é a primeira vez que você diz isso e aqui estamos nós, Scorpius.
– Eu estou te usando para não ficar sozinho a noite. Penso em outra pessoa quando estou com você. Não é justo... pra você. Então é melhor ir embora. Não vamos mais repetir isso. Você não vai mais ligar. Eu não vou mais ligar para você.
– Uau. – Ela o encarou, inconformada. – Apenas uau. Por dois segundos, eu acreditei que nós finalmente estávamos... que isso não era mais só sexo. Entre nós dois.
– Mas é. É só isso. E você sabe. Eu nunca dei a entender outra coisa.
– Bem, considerando a quantidade de vezes que nós dois caímos na mesma cama... Estamos nisso há quanto tempo, Scorpius? Você não pode simplesmente transar tantas vezes com uma mesma pessoa sem pelo menos sentir alguma coisa.
– Você sente alguma coisa? – ele estranhou. Porque não, Scorpius não tinha a menor ideia do que Alexis sentia por ele.
– Porra, Scorpius. – Alexis se levantou da cama e começou a colocar o vestido de volta, com raiva. – Você é cego?
– Eu... Alexis, não há razão para você sentir alguma coisa – ele disse, tentando soar racional. Não estúpido, mas racional. – Eu nunca dei uma. E me certifiquei de não iludir você. Para falar a verdade, achei que você fosse imune a isso. Por isso sempre deu certo. Só sexo. Sem sentimentos.
– E acha que eu planejei isso? Me apaixonar por você?
Ao ouvir aquilo, ele enterrou as mãos no rosto, incrédulo.
– Você não está apaixonada por mim.
– Bem, desculpe desapontá-lo. E quem é essa pessoa, afinal de contas? Que deixa você tão distraído? Ela é melhor do que eu na cama? Ela é mais gostosa? O que ela tem que eu não posso ter também?
– Uma filha minha.
Alexis calou a boca. E recuou.
– Você tá de brincadeira comigo. A sua ex? Achei que aquilo não tivesse passado de um rolo no colegial.
– Não foi um rolo – ele retrucou.
– Então por que vocês não estão juntos? Porque você vive sozinho na merda desse loft enorme e come qualquer uma que vê pela frente?
– Porque eu sou fodido quando a coisa se trata de relacionamentos. Apenas por isso. Então... é melhor ir embora. Não gaste seus sentimentos comigo. Não vai valer nem um pouco a pena.
– É claro que não vai – ela retrucou. – Seria tão simples se a gente pudesse escolher o que a gente sente, não é mesmo?
– Alexis. – Ele se levantou e olhou para a moça, que já estava na porta. – Eu realmente não queria...
– Me poupe, não se preocupe comigo. Eu sou crescidinha e vou sobreviver. Tchau, Scorpius.
Ao ouvir a porta se fechar com tudo e o corpo de Alexis desaparecer a sua frente, Scorpius bufou irritado e se jogou na cama.
Parecia não ter nenhum jeito. Qualquer decisão que Scorpius fazia, nenhuma, porém, deixaria alguém feliz no final. Qual era o problema dele, afinal? Tentou apenas fazer algo certo dessa vez, que era parar de transar à toa. Mas qual era a culpa dele por ter deixado Alexis tão chateada? Ele sempre deixou claro que só era sexo; nunca sequer a convidou para sair, e ela nunca fez questão que ele convidasse. Por que tudo tinha que ser tão malditamente complicado? Nada nunca em sua vida parecia redondo, nem sequer perfeito, mesmo que tentasse o seu melhor.
O seu melhor nunca era o suficiente.
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