Fix You
16 Everything's Not Lost
Notas iniciais
Capítulo 16.: Everything's Not Lost
"... life is for living we all know
and I don't want to live it alone..."
Parecia que o universo estava querendo jogar alguma coisa contra ele. O caso não deveria ser difícil. Sua cliente não era culpada por ter tirado a vida do porteiro do edifício em que morava, uma vez que, sim, tinha sinal de estupro no corpo dela. Auto-defesa. Por que a promotoria não enxergava isso logo de uma vez? Tinham que ficar trazendo à tona testemunhas, fazendo milhares de perguntas, e Scorpius estava começando a ficar inquieto atrás da mesa do tribunal.
Espiou o relógio do pulso quando Alexis deu um breve aperto no braço dele. No papel, ela rabiscou:
PROTESTE
Imediatamente se levantou, interrompendo a pergunta do outro advogado contra sua testemunha.
– Qual motivo, sr. Malfoy? – o Juiz questionou.
Nunca aconteceu isso antes. Scorpius abriu o botão do paletó e hesitou. Ele não tinha prestado atenção na última pergunta, então não tinha ideia do que estava protestando. Alexis escreveu rapidamente no papel.
– Não existem provas de que a srta. Knowles fez uso de entorpecentes – respondeu Scorpius, sentindo-se amador.
– O senhor se esqueceu do “Vossa Excelência”, sr. Malfoy?
– Vossa Excelência – ele acrescentou, distante do olhar reprovador do Juiz. – E isso também é irrelevante, Excelência. Não justifica que a minha cliente tenha induzido...
– Negado. Continue, sr. Hughes.
– Vossa Excelência...
– O senhor tem algum problema no meu tribunal, sr. Malfoy? Porque parece que estou tomando o seu tempo, julgando pela quantidade de vezes que o seu relógio parece mais interessante do que o dever que estamos cumprindo aqui. Tem algum lugar mais importante para ir?
Se fosse possível ficar mais silencioso do que estava, a corte conseguiu. Scorpius já tinha sido imprudente milhares de vezes, mas em prol da defesa ao seu cliente. Naquele caso, ele estava sendo impossivelmente desrespeitoso para com o Juiz.
Scorpius manteve-se calado. Não por orgulho, mas porque ele fez uma promessa a Zoe. Procurou o olhar de Alexis. Ele deveria ter algum tipo de sorte por se relacionar com mulheres que sabiam ser muito profissionais. Se Scorpius saísse naquele momento, daria tempo de ir a apresentação de Zoe em Hogwarts e cumprir com sua promessa, assim Alexis continuaria a lutar no tribunal em seu lugar. Mas se ele não pedisse desculpas, prejudicaria sua reputação com um Juiz, o que não era nem um pouco aconselhável no auge de sua carreira.
– Permissão para me aproximar, Excelência.
Os dois advogados se aproximaram da mesa do Juiz quando ele permitiu.
Scorpius cochichou:
– O senhor tem filha, Excelência? Netas?
O advogado ao seu lado quase jogou a cabeça para trás, inconformado, ao ouvir aquilo de Scorpius.
– Com todo o respeito, Vossa Excelência, mas o que isso tem a ver?!
– Qual é a relevância dessa pergunta, sr. Malfoy? – o Juiz questionou muito curioso.
– Eu tenho uma filha – Scorpius contou. – Ela está se apresentando na escola e prometi que eu apareceria para vê-la. Estou atrasado. Com todo o respeito, Vossa Excelência, achei que esse julgamento não passaria de dez minutos, já que a promotoria entrou em sua corte sem evidência concreta de que minha cliente não atirou no cliente do meu adversário por auto-defesa. Com todo o respeito – acrescentou novamente –, estamos perdendo tempo aqui. Bela jogada, a propósito – virou-se para o outro advogado. – Ganhar tempo para não perder o caso. Eu fazia isso nas simulações da faculdade.
– Protesto, Vossa Excelência, pelo amor de Deus!
O Juiz apoiou os braços na mesa, e Scorpius esperou que ele dissesse alguma coisa.
– Eu lhe farei um favor, então, e isso facilitará a vida de todos. Vou pedir para que se retire da corte, sr. Malfoy.
Alexis olhou inconformada para o rapaz, quando ele, sem reclamar, voltou à mesa e começou a guardar as papeladas em sua pasta com muita pressa.
– O que diabos? – sibilou Alexis.
– Eu preciso ir. – Scorpius se virou para sua cliente, que tinha o olhar desesperado e lacrimejante. – Parkinson é uma das melhores. Está em boas mãos. Desculpe.
Estou fodido, pensou enquanto saía da corte, tirando o cabelo da testa e andando apressado para fora do prédio.
– Scorpius! – Percebeu que estava sendo seguido pelo avô. Lucius andou apressado, tentando acompanhá-lo. – O que pensa que está fazendo?
– Não posso falar agora, estou atrasado.
– Aonde você vai?
– Ver a apresentação da minha filha – respondeu sem olhar para trás, afrouxando o nó da gravata. Lucius já não tinha o mesmo pique para acompanhar os passos apressados de Scorpius, mas ainda tinha força para apertar o braço dele e pará-lo ali mesmo.
– Você comprometeu com sua carreira, sua reputação, a minha reputação lá dentro só para conseguir chegar a tempo na apresentação infantil de uma escola? Coisa que os professores fazem todos os anos?
– Alexis é boa. Ela vai vencer.
– Escute aqui...
– Não! – ele falou, afastando-se da mão do avô. – Ou não vai dar tempo.
A apresentação já tinha começado há dez minutos. Olhou de novo para os ponteiros do relógio caríssimo enquanto corria até o carro no estacionamento.
O trânsito estava insuportavelmente lento. De fato tão lento que Scorpius acreditou que tinha alguém pregando uma peça contra ele. Quinze minutos.
Perguntou-se quanto tempo durava a apresentação de uma turma. Já perdeu quinze minutos.
– Porra! – gritou, buzinando para a fila de carros que não saía do lugar. O pior de tudo era que estava nevando, o que fazia a rua ficar fodidamente interceptada de neve. Ele não tinha tempo para esperar o caminhão tirar a neve da frente dos carros!
Vinte minutos.
Viu um rapaz conversando com a namorada no encostamento, estacionado com a moto. Hogwarts era no outro lado de Londres. Com essa velocidade no trânsito, ele chegaria em uma hora. Ele não tinha uma hora.
Saiu do carro, sem pensar, e foi até o rapaz.
– Me empresta sua moto, cara – pediu arrancando o relógio do pulso. Os dois o encararam como se Scorpius fosse um maluco. – Tenho um relógio, cem libras na carteira e se quiser dar uma volta naquele carro, é todo seu. Leva sua namorada também.
Foi o suficiente para conseguir a moto. Tirou o sobretudo do corpo, entregou ao cara e, depois de colocar o capacete, acelerou com tudo.
Já deveriam ter passado dez minutos. Estava meia hora atrasado. Provavelmente Zoe já tinha entrado no palco e saído. A família de Rose assistia na primeira fila e Rose teria cada vez mais certeza de que Scorpius não prestava e que ele não fazia nada pela filha. Iria decepcionar Zoe mais uma vez. Não suportou a ideia de fazer a filha chorar por sua causa novamente. Não suportou a ideia de perder a confiança dela.
Se a quantidade de azar já não fosse suficiente para aquela noite, a motocicleta parou de funcionar no meio do caminho. Faltavam três quarteirões e Scorpius decidiu correr, seus pulmões afogando-se em um frio cortante. De longe, podia ver a construção da escola erguendo-se no horizonte. Scorpius não diminuiu a velocidade das pernas.
Entrou pelo saguão principal. Estava vazio. Somente a presença do porteiro impediu sua passagem para entrar na escola. Ele o interditou e não o deixou seguir até o auditório.
Precisava entregar o ingresso especial dos pais que Zoe havia dado para ele na semana anterior. Ofegante, como se tivesse corrido uma maratona – quase isso –, Scorpius tateou o bolso...
O sobretudo.
O ingresso estava no sobretudo. E ele tinha deixado o sobretudo para trás.
Tentou manter a calma, mas teve vontade de chutar a lixeira ali do lado.
– Eu compro um ingresso agora.
– Já esgotaram os ingressos de última hora, senhor.
– Olha, minha filha está em uma das turmas da apresentação. Eu só quero entrar e vê-la, só isso. Ingresso é desnecessário.
– Regras da escola. Só estou seguindo ordens.
Engolindo milhares de palavrões que estavam na ponta de sua língua, Scorpius parou e olhou inconformado para o chão. O coração batia apressado, os pulmões ardiam pelo esforço e a cabeça latejava pela correria. Ultrapassou Londres inteira para nada.
Precisou imediatamente se sentar ou acabaria caindo no chão. Como não havia nenhum apoio ou cadeira, sentou no chão e encostou a cabeça na parede, tentando voltar à respiração normal e descobrir um jeito de fazer com que Zoe não o odeie por aquilo.
Ele tentou.
Quem diria que para ver uma apresentação de dança seria tão difícil?
Ser pai não era fácil.
O universo não queria que ele conseguisse? Ou ele não tentou o suficiente? Quando ele seria suficiente?
– Olha – ouviu a voz do porteiro. – Posso fazer uma exceção hoje. Só fale o nome da sua filha para mim.
– Zoe. Zoe Weasley.
– A Zoe? Ela sempre fala oi pra mim quando aparece aqui. Uma boa menina! Você é o pai dela, então? Fez um ótimo trabalho. Garotinha esperta, a sua.
Nunca ninguém dissera a ele que ele fez um ótimo trabalho com a filha. Foi espantoso.
– Não adianta mais. A apresentação dela já foi e ela vai saber que eu não assisti. Vou decepcionar de novo...
Não tinha ideia porque começou a desabafar aquilo para um estranho.
– Começou um pouco tarde as apresentações – contou o porteiro. – O trânsito hoje tá impossível. Pode ser que a turma dela não tenha apresentado ainda.
Ao ouvir aquela notícia – a melhor que teve desde o momento em que acordou no sábado – Scorpius passou a mão no rosto. Todo o peso do mundo pareceu cair de suas costas. Scorpius apertou a mão do porteiro, agradecendo, quando deu passagem ao rapaz.
– Valeu.
– Ei. – Nunca conheceu aquele senhor na sua vida, mas ele virou a pessoa preferida de Scorpius. – Antes tarde do que nunca!
Scorpius ergueu a mão, concordando, e voltou a andar depressa para o auditório. Pôde escutar o som da música natalina. As poltronas estavam ocupadas. Scorpius não encontrou lugar para sentar, mas não se importou. O palco era a única iluminação do ambiente. Ele procurou Zoe com o olhar e, aliviado, encontrou a menina em uma das fileiras com os coleguinhas, imitando os mesmos movimentos das outras meninas.
A leveza dos movimentos naturais de Zoe era como o corpo de Scorpius naquele momento. Finalmente conseguindo relaxar, sentiu as pernas arderem e o cansaço tirar toda a sua energia. Tudo o que queria era sentar. Qualquer lugar, qualquer espaço.
E então ele viu, bem perto do palco, um grupo de pessoas familiares. Os Weasley. Não todos, porque Scorpius sabia que aquela não era nem um terço da família inteira de Rose, mas os mais próximos, como seus pais, o irmão, o primo e uma das primas. Quase como se ele estivesse sendo testado pelo universo, havia um espaço vazio ao lado de Rose na mesma coluna onde os pais estavam.
Scorpius entendeu que era uma peça de teatro sobre o Natal, porque uma garotinha estava citando as palavras decoradas. Zoe não tinha muitas falas, mas estava visível no palco naquele momento. Scorpius andou entre as cadeiras para chegar até o vazio espaço ao lado de Rose, na ponta da coluna. Como a platéia estava escura e todo mundo estava prestando muita atenção no palco, ninguém notou a presença de Scorpius.
Até ele ocupar a cadeira. A princípio, Rose pensou que alguém bem aleatório achou um lugar e sentou ali, mas quando percebeu que era Scorpius, ela se surpreendeu.
– Oi – ele disse, percebendo que ela estava com roupas de inverno e ele só com a camisa branca e a gravata frouxa.
– Você está suando.
– Trânsito – ele apenas disse e isso explicou muita coisa.
– Correu até aqui?
– Sim. Faz tempo que começou?
Rose olhava para o perfil do rosto dele, sem acreditar.
– Não. Ela acabou de entrar. Você...?
– Tentei. Estou aqui agora.
Finalmente ele pôde soltar o peso do corpo na cadeira e esquecer o resto dos problemas que enfrentou naquele dia. Assistir a filha em sua primeira apresentação escolar foi tudo o que precisava. Ele precisou desligar o celular, coisa que não fazia há anos, e se concentrou em acenar quando Zoe reparou, no palco, que ele estava ali.
Ela se sentiu inspirada, e foi a principal quando ocorreu a última cena, desejando a todos um Feliz Natal. Todo mundo levantou para aplaudir quando as crianças deram as mãos e fizeram a reverência de agradecimentos.
As crianças correram em direção atrás das cortinas, pelo comando da professora. A diretora McGonagall fez o longo uso do microfone agradecendo a todos pela presença e encerrou as apresentações. Scorpius se levantou primeiro, sabendo que precisava dar espaços para os outros passarem.
Ele passou por tudo aquilo para chegar ali, e foi tão rápido que ele não sabia se ficava frustrado ou aliviado.
Ele estava esperando o sr. Weasley vê-lo. Não soube por que a presença dele o deixava tão malditamente covarde. Não era nem medo de levar outro soco. Era vergonha. E, lembrando do que sentiu ao imaginar sua própria filha, daqui uns trinta anos, namorando alguém como Scorpius, fez com que ele parasse quando o sr. Weasley passou por ele.
Não apertaram as mãos, mas se encararam. Como não se encaravam há exatos sete anos.
A sra. Weasley estava ao lado deles.
– Querido – chamou Hermione, com um leve aperto no braço de Ron. – Vamos falar com a Zoe. Ela está saindo. Boa noite, sr. Malfoy.
Hermione era educada e estava evitando o confronto. Scorpius não esperava começar a papear com eles, então apenas observou os dois se afastarem com Hugo. Entre ele e o pai de Rose era somente uma fria relação de distância agora. Melhor assim. No próximo segundo, Albus Potter estava a sua frente, com as mãos nos bolsos do casaco e uma expressão surpresa.
– Como vai, Potter?
– No espírito natalino – ele respondeu, apertando a mão que Scorpius estendeu, por educação.
– Ora, ora, ora. – Dessa vez, Dominique se espremeu entre as cadeiras para passar pelos dois. Cruzou os braços e encarou Scorpius.
– Dominique – ele disse, demonstrando que ainda se lembrava dela.
– Quem é vivo sempre aparece, não?
Ela dava aquele olhar que mulheres sempre dão aos ex-namorados das amigas.
Era difícil lidar com reencontros sem se sentir desconfortável. Eles meio que criaram um clube Anti-Scorpius depois que Rose terminou com ele. Scorpius só esperava que os sete anos tivessem servido para alguma coisa, e eles não entrassem em assunto antigos ali e agora. Não era o momento.
Rose pareceu ser a única a notar isso, porque se aproximou dos três para dizer:
– Zoe saiu agora, vamos até ela.
Fizeram isso. A menina estava saindo do palco com as outras crianças, cada uma delas dispersarem pelos caminhos até seus parentes. Zoe quase tropeçou ao correr até os dela, toda sorridente, após a adrenalina de se apresentar a frente de tantas pessoas.
Um pouco afastado, Scorpius ficou observando a filha interagir com os Weasley. Albus segurou ela no colo, enquanto os outros adultos sorriam e elogiavam pela apresentação. Zoe se sentia muito amada entre eles.
Scorpius não ficou incomodado, mas tinha uma sensação de arrependimento por não ter ficado nos seis anos da vida dela. O arrependimento batia nele vez ou outra, mas somente naquele momento, no momento em que Zoe deixava o sr. Weasley brincar com ela, ele admitiu a si mesmo, e isso doeu nele de uma forma incontrolável.
Com as mãos nos bolsos, esperou Zoe notar sua presença. Quando aconteceu, ele se agachou em antecedência para o abraço apertado que ela correu dar em seu pescoço, quase o derrubando para trás em desequilíbrio. Toda a consequência que acontecer depois de ter sido retirado no meio de um julgamento valeria a pena por causa daquele momento. E toda a correria também.
Ele fez tudo o que pôde para chegar até ali a tempo. Claro que uma apresentação escolar não era a mesma coisa que um aniversário, mas para Zoe... o pai estava ali agora. O peso seria o mesmo.
– Você me viu em cima do palco, papai?
– Eu vi tudo – ele disse para ela quando se afastaram, Zoe com as mãos pousadas nos ombros dele e o olhar alegre, orgulhoso. – E veria de novo, e de novo.
Ela o abraçou, mas dessa vez para que ele a carregasse no colo. Ainda que tivesse uma pontada no ombro por causa do ferimento ainda cicatrizando, Scorpius sempre reunia energia para erguer Zoe. Parecia que ela crescia a cada vez que ele a segurava, e ficava mais pesada também. Já podia ver que Zoe não precisava mais disso, e pensou nos anos que não a carregou no colo. Ele se surpreendeu por não dar a mínima para o que o sr. Weasley fizesse com ele agora. Na verdade, era como se só importasse a filha.
Colocou Zoe de volta para o chão, quando caminharam em direção ao saguão juntos com os outros pais para saírem da escola. Enquanto a menina andava em cima dos bancos, sem soltar a mão de Scorpius, os Weasley discutiam onde iriam jantar fora. Zoe deu um alto pulo para cair de pé no gramado e, em seguida, encontrou a mão de Rose que caminhava atrás deles. Ela estava entre os pais agora, cada um segurando suas mãos.
– Você foi ótima, filha – elogiou Rose enquanto sentia o olhar de Scorpius. – E me convenceu a deixá-la entrar na escolinha de teatro, se você ainda quiser.
– Quero!
– Onde? – perguntou Scorpius com uma genuína curiosidade.
– Tem esse pequeno estúdio para crianças perto da London Eye. Ensinam a dançar, cantar e atuar, são crianças da faixa etária dela. Se Zoe se comportar até o final desse ano, quem sabe o Papai Noel traz um presente, não é?
– Mas eu me comportei esse ano! – Zoe disse inconformada. Franziu a testa e ergueu a cabeça para saber: – Mas como o Papai Noel vai me dar o presente se eu moro em um apartamento e lá não tem chaminé?
Rose e Scorpius se entreolharam, sem imaginar que ela teria uma dúvida dessas. Por sorte, Al estava lá para tirar essa dúvida.
– O Papai Noel costuma se enfiar em qualquer lugar para deixar os presentes. Não importa se é em uma chaminé. Ele pode entrar pela janela. Ou até pelo buraquinho da porta, sabia?
– Mas a barrigona dele vai ficar presa lá!
Eles riram. Não tinha como convencer Zoe. Scorpius até se surpreendeu por ela não desconfiar que Papai Noel existia. Mas quem era ele para estragar a imaginação de sua filha?
– Não se preocupe com isso, Zoe – acrescentou Hermione. – Você estará na chácara dos seus bisavós e lá, como todo o ano, o Papai Noel nunca deixa de entregar os presentes para todo mundo.
Zoe gostou disso. Nesse momento chegaram ao estacionamento e Scorpius notou que só havia um carro. Ele entendeu que a família estava junta, e se agachou para falar tchau a Zoe enquanto Hermione, Al e Dominique entravam no espaçoso carro do pai de Rose.
A menina cochichou confidencialmente:
– Mamãe disse para eu não esperar você, papai... mas eu sabia que você viria... você disse que ia tentar.
– Sim – ele concordou. – E queria ficar mais tempo...
– Por que você não vai com a gente?
– Lembra o que eu te falei sobre seu avô não gostar muito de mim? Eu não quero deixá-lo desconfortável. Não fica decepcionada?
– Não – ela ergueu os ombros. – Tudo bem.
– Recompenso amanhã. Um almoço bem gostoso.
– Tá bom!
– Entra lá no carro que eu sei que sua barriga está roncando.
– Como você sabe?
– Eu escutei. E está muito frio.
Ela abafou uma risadinha. Beijou o rosto de Scorpius e direto sentou no banco com o tio Al.
Scorpius viu que Rose ainda não tinha entrado no carro. A ponta de seu nariz estava corada pelo frio. Ela sempre ficava atraente com cachecóis no pescoço e aquele destacava a cor dos olhos azuis. Ela ajeitou a bolsa no ombro.
– Hoje foi muito importante para ela.
– Sim – ele concordou.
A cabeça do sr. Weasley surgiu do buraco da janela do carro, pressionando Rose, mas Scorpius esperou ela dizer:
– Vou levar Zoe para a casa dos meus avós no Natal. Acho que consigo voltar no domingo, e ela passa o dia com você.
Ele se viu sorrindo.
– Perfeito.
Mas não era perfeito. Não era nem um pouco perfeito. O tempo todo era Zoe se deslocando de Rose para Scorpius como se existisse uma extensa ponte entre os dois. Tudo seria mais simples se eles estivessem juntos. Scorpius não jantaria sozinho, também.
– Até mais, então – ela disse. – Tchau.
– Tchau, Rose.
Ela entrou no carro. Scorpius ficou parado, esperando para dar um aceno para Zoe, e caminhou para pegar um táxi.
***
No Natal, sua família não tinha costume de jantar fora ou de se reunirem em uma ceia como as famílias gigantes faziam, como a de Rose. Narcissa e Lucius eram ainda tão jovens para eles mesmos que viajavam para todo o canto do mundo no feriado. Scorpius jantou com o pai naquela noite. Draco perguntou sobre Zoe, mas o assunto entre eles acabou ali. Quando voltou a ficar sozinho, observando a tela do celular, Scorpius buscou com o polegar o número de Rose. Ficou olhando para os números como se eles fossem dramáticos. Escreveu a mensagem, meia-noite do dia vinte e cinco:
Abriram aqui perto uma área pra patinação no gelo... to pensando em levar a Zoe amanhã. Feliz Natal pra vocês.
Recebeu a resposta de Rose cinco minutos depois.
"Ei, feliz Natal. Recado da Zoe."
Era uma mensagem de voz. Zoe pelo visto estava quase engolindo o celular quando exclamou um alegre “Feliz Natal papai” prolongando o “a” no microfone.
"Ela ficaria por mais tempo, só que é perder tempo não brincar com o Nathan."
"Quem é Nathan?"
"Filho do James. Ele é mais novo então ela não tá perdendo a oportunidade de ter um garotinho na cola dela agora."
"Quais as intenções desse Nathan?"
"Descobrir se fica mais tempo sem piscar os olhos."
Hum
"Atenção, estamos detectando o famoso ciúme de pai. Isso pode levar alguns minutos."
Scorpius riu ao ler aquilo, e se viu deitando no sofá para continuar a troca de mensagem.
"Tá respondendo rápido. Sem nada pra fazer aí?"
"Muita gente em volta. Morria de saudades de todos, mas preciso respirar agora. E você?"
"A coisa mais emocionante do meu dia foi descobrir que o síndico está comendo a cozinheira."
"Bem, isso diz muita coisa sobre o seu Natal."
Com certeza.
Ele não teve certeza se a pausa que ocorreu entre aquela mensagem foi porque Rose se ocupou com alguém de sua família ou porque ela não sabia mais o que conversar com ele. Um pouco ansioso, Scorpius voltou a escrever:
"Vejo vocês de manhã, então?"
"Sim. Nós vamos passar a noite aqui, mas depois do almoço eu deixo a Zoe no seu apartamento."
"Você não quer patinar também? O espaço é grande."
Ela demorou um pouco para responder. O que acabou saindo foi:
"Pode ser :)"
Na casa dos Weasley, Rose ficou olhando para o emoticon como se tivesse ficado maluca. Até olhou ao redor para ver se ninguém reparou naquilo. Ela não tinha mais dezesseis anos para mandar um pode ser seguido a uma carinha feliz daquelas para o ex-namorado, tinha? Antes de se arrepender, o barulhinho anunciou a chegada da próxima mensagem de Scorpius. Nada muito diferente.
"Combinado :)"
***
Foi o melhor Natal que Zoe já teve. Não só porque ela ganhou inúmeros presentes, a ponto de deixar o apartamento da mãe completamente lotado – afinal, suas bonecas, casinhas, maquiagens, jogos eram a decoração da casa –, mas porque conheceu e reencontrou pessoas novas da família da mamãe. E para melhorar, no dia de Natal, quando as duas voltaram para Londres, Scorpius a surpreendeu com o presente dele. Foi o melhor presente, sem nenhuma dúvida, que ela já ganhou em todos os anos.
Quando ela viu o cãozinho atravessando, todo atrapalhado, a sala de Scorpius, Rose achou que Zoe ia desmaiar de euforia. Ela praticamente se jogou no chão para apertar os pelos pretos do pequeno da raça pug. Foi amor a primeira vista entre Zoe e o cãozinho novo.
Rose também não se conteve e se agachou ao lado de Zoe para passar as mãos no cãozinho, sorridente. Ele tinha olhos grandões e pidonhos em direção a elas. Ainda era apenas um filhote, tropeçava nas próprias patas, mas estava também muito alegre, tentando subir nas pernas flexionadas de Rose, agitado como Zoe.
– Ele gostou de você, mamãe! Posso segurar ele? Posso?
– Ele é tão seu quanto meu, coisinha – permitiu Scorpius, sorrindo.
Com muito cuidado, Rose ajudou e ensinou Zoe a segurar o filhotinho. Parecia que Zoe estava segurando a coisa mais preciosa da vida dela. Depois, ela não se aguentou e apertou ele em um abraço bem forte, fazendo com que o cãozinho desse uma breve lambida na bochechinha dela. Zoe fechou os olhos e prometeu:
– Vou te amar pra sempre.
– Que nome você vai dar a ele? – perguntou Rose curiosa.
– Cupcake! – ela se decidiu, sem precisar pensar muito. Rose e Scorpius se entreolharam, desatando a rir.
Zoe colocou Cupcake no chão e, enquanto brincava com ele, Rose se virou para Scorpius com os braços cruzados:
– Você pretende tirá-la de mim, então?
A princípio, Scorpius estranhou que fosse possível Rose estar zangada, mas ela apenas fazia sua expressão irônica.
– Quero dizer, agora mesmo Zoe não vai querer ir embora daqui. Foi um presente bem pensado. O que deu na sua cabeça?
– Eu só pesquisei no Google o que crianças adoram. Elas adoram cachorros. E não gosto do apartamento vazio quando Zoe não está. Ele pode ser uma companhia legal.
Rose estava sorrindo.
– Você sabe que ter cachorro é quase como ter um segundo filho, não sabe?
– É? – ele não tinha ideia. Só queria ver a reação de Zoe, que foi melhor do que ele imaginou que seria. – A Zoe vai me ajudar, não vai?
– Vou! Obrigada, papai, foi o melhor presente de todos.
Ela o abraçou na altura da barriga, bem forte. Scorpius não sentia esse tipo de abraço há muito tempo. Depois de ter causado tanta decepção nela, ele achou que não seria capaz de recompensar propriamente. Mas, pelo visto, recompensou. Naqueles últimos dias, esteve tentando recompensar tudo, e Rose admitiu a si mesma que ela estava surpresa.
E o dia não tinha acabado. Quando Cupcake pegou no sono e deitou na caminha, confortável, Rose acompanhou Scorpius e Zoe para a pista de patinação no parque do quarteirão. Os três estavam juntos, talvez pela primeira vez fazendo algo somente... os três. Passaram a tarde ajudando Zoe a se equilibrar nos patins, ambos em lados opostos, segurando as mãos dela.
– Olha só o que eu sei fazer! – Zoe demonstrou, quando pegou confiança, dando um pequeno salto com os patins. Não tinha saído muito do chão, mas foi radical para ela.
– Pegue as minhas duas mãos, Zoe – chamou Rose. As duas se mantiveram frente a frente. Os dedinhos dela saíram da mão de Scorpius para segurarem a de Rose. As duas rodavam na pista, rindo, enquanto Scorpius assistia. Estava quase tirando o celular do bolso para registrar uma foto. – No três, eu vou soltá-las e você vai até o seu pai. Preparada? Um, dois e...
Zoe soltou as mãos de Rose, e não caiu. Pelo menos, não a princípio. Quando ela se desequilibrou, Scorpius foi rápido e a segurou pelas axilas. O susto passou e Zoe começou a rir, encontrando diversão na adrenalina. Revezaram entre eles até que Zoe não precisou mais segurar as mãos.
Ela já estava toda confiante na pista de gelo, sentindo-se uma Elsa, mas sempre se apoiando nas grades laterais. Tinham mais crianças com seus pais na pista, e logo Zoe se entreteve com um garotinho da idade dela, só que mais alto, quando ele mostrou a língua para ela e desafiou todo arrogante patinando ao redor dela:
– Duvido que consiga ir rápido!
– Eu consigo, tá?
– Mostra, então! Não vale segurar na grade.
Zoe aceitou o desafio de cabeça erguida. Ela empinou o nariz e tirou as mãos das grades. Conseguiu se equilibrar e andar durante um bom tempo ao lado do garoto, mas ela caiu de joelhos depois. Scorpius depressa foi tentar ajudá-la, mas Rose apertou o braço dele, impedindo-o disso.
O menino riu de Zoe, mas ela não deixou isso barato. Conseguiu se levantar sem a ajuda de ninguém e voltou a patinar. O garoto, percebendo que ela não ia chorar, acabou não precisando tirar sarro dela e, em poucos minutos, os dois estavam se divertindo, mostrando o que um sabia fazer melhor que o outro. Scorpius percebeu muito incomodado que aquele garoto só estava se exibindo para ela. E, o pior de tudo, estava conseguindo impressioná-la.
– Por que ele não vai brincar com alguém da idade dele?
– Zoe vive falando desse Ralph. Que ele é chato, pega no pé de todo mundo, fica se exibindo e dá muito trabalho para a professora.
– Como assim? Aquele trombadinha tem sete anos?
Rose riu da expressão indignada dele. Na verdade, Scorpius tem reparado que ela estava mais... sorridente. Pelo menos, quando ela estava no mesmo lugar que ele. Reparou, também, que não tiveram espaços para silêncios característicos. Principalmente porque Scorpius não hesitou ao mudar completamente de assunto.
– O que aconteceu ao Paul?
Ela não esperava que entrassem nesse assunto. Apoiaram os braços na grade, um ao lado do outro, mas ainda com a visão panorâmica do parque para não perderem Zoe de vista.
– Está em Amsterdã – ela contou.
– Era um cara bacana. Saudades dele.
Rose girou os olhos, notando a ironia da voz dele. Scorpius riu, involuntariamente tirando um cigarro do casaco. Era o último do maço e ele fez uma promessa, talvez a décima somente naquele mês, de que não compraria outro. Botou o cigarro entre os lábios, tirando o isqueiro do bolso, fumando com o pensamento de que aquele era seu último cigarro.
Frustrou-se com a dificuldade que teve de acender, mesmo assim, já que o vento apagava rapidamente a chama que se soltava do isqueiro. Ele estava quase xingando quando o par de mãos delicadas se aproximou do isqueiro para bloquear o vento, ajudando-o a acendê-lo.
Não sorriu para Rose, embora quisesse. Ele andava preocupado com os pensamentos que tinha, de beijá-la ali, na frente de todo mundo, e Rose fazer as coisas tão genuinamente, sem esperar nada em troca, apenas por um gesto natural, intensificava ainda mais essa vontade.
Scorpius seguiu com o olhar todos os movimentos do corpo dela quando ela voltou a patinar. Rose estava enfeitada com um sobretudo, cachecol e gorro. Suas bochechas estavam coradas, assim como a ponta de seu nariz, igualzinho ao de sua filha. Ela tinha cabelos enrolados e bem ruivos, e um sorriso de dentes brancos, embora os dois da frente fossem assimétricos, indicando talvez a única imperfeição que ele poderia encontrar nela, em mil anos.
Zoe se despediu de Ralph com um “tchau” super rápido e acompanhou os pais para fora da pista. Eles tiraram os patins sentados no banco. Logo em seguida, Zoe ficou cabisbaixa com a possibilidade de voltar para a casa só com a mamãe, e se despedir do papai, então ter encontrado uma cafeteria que vendia chocolate quente foi a sua alegria.
Rapidamente parou de andar e apontou:
– Chocolate quente! Vamos, por favor? Por favorzinho?
Acomodaram-se no calor da cafeteria, esperando o atendimento. Zoe conversava. Ficou fazendo inúmeras perguntas. Ela gostava quando fazia os pais rirem. E ela nunca se sentiu tão feliz antes. Queria que todos os dias fossem assim.
Durante um relato de Zoe sobre as últimas aulas que teve antes do feriado, Scorpius ficou tenso na cadeira quando viu um casal entrando no mesmo local em que eles estavam. Qual era a chance do Juiz de seu último julgamento estar passando o Natal no mesmo lugar com a mulher dele?
O homem se deparou com o olhar de Scorpius. Para o seu alívio, ou talvez desespero, o Juiz não esquecia, de maneira alguma, as caras das pessoas, e resolveu se aproximar. Por educação que adquiriu com o seu avô Lucius, Scorpius se levantou para apertar a mão dele e da mulher. Zoe e Rose se entreolharam.
– Sr. Malfoy – ele disse, sorrindo.
– Vossa Excelência?
– Só Walken hoje, por favor – riu. Ele era bem mais humorado do que no tribunal. – É a sua família?
Scorpius não tinha a intenção de explicar tudo o que aconteceu até eles chegarem a esse momento, então resumiu com a palavra mais simples que encontrou:
– Sim. Essa é a minha filha, Zoe. E essa é a mãe dela, Rose Weasley.
– Um homem de sorte, o senhor, sr. Malfoy – ele admirou.
– Senhor, sobre o julgamento. Eu realmente gostaria de pedir desculpas.
– Deixe para lá – ele o cortou. – A garota era inocente desde o princípio. Mas conhece como a promotoria é. Aproveite o Natal com sua família, sr. Malfoy. Feliz Natal, senhoritas.
– Feliz Natal – respondeu Zoe e Rose ao mesmo tempo. O Juiz se sentou ao lado da esposa em uma das mesas, e Zoe se virou curiosa para Scorpius.
– Quem é ele, papai?
– Um homem que julga se uma pessoa deve ou não ir para a prisão.
– Um Juiz?
Scorpius se surpreendeu por Zoe conhecer o nome. Rose, depois de bebericar o chocolate quente na caneca, confessou:
– Eu já expliquei a ela sobre o seu trabalho.
– É verdade que você ajuda as pessoas que já machucaram alguém?
– Eu não ajudo – ele corrigiu. – Eu defendo.
– Mesmo se elas machucaram alguém?
– Sim. – Ele se sentiu desconfortável, errado, contando sobre isso para Zoe. Será que ela o acharia um monstro? – Todas as pessoas têm seus direitos. Eu apenas me certifico de que elas tenham esses direitos no tribunal, mesmo quando fazem coisas erradas. Mas às vezes essas pessoas não são culpadas, não fizeram coisas erradas. E, nesse caso, então, eu estou ajudando sim.
– Parece um trabalho complicado – ela comentou pensativa. – Todas as crianças da minha classe têm pais que vão para falar sobre o que eles trabalham... não sei se eles iriam querer ouvir sobre o seu trabalho, papai.
Scorpius ouviu aquilo, e lamentou. Zoe estava certa. Não era um trabalho admirável. Imagina ele ficar em frente a vinte crianças para dizer “eu defendo criminosos” enquanto o outro pai vai falar como é ser um policial e estar sempre correndo risco de vida para salvar as pessoas desses criminosos.
– Não é o sonho de qualquer um fazer o que eu faço, Zoe – ele concordou. – Mas te dou um exemplo. Você roubou o bombom da geladeira da Rose antes de jantar.
– Não roubei não – ela disse depressa. – Eu nunca roubei nada, papai!
– Consegue provar isso para mim?
– Eu não tenho nenhum bombom comigo – ela cruzou os braços.
– Você pode ter comido.
Zoe não soube o que dizer depois dessa. Mas pensou rápido:
– É só ver que tem o bombom na geladeira.
– E se não tiver? E se eu não encontrar o bombom?
– Outra pessoa comeu, porque não fui eu.
– Como vai provar que foi outra pessoa? Como vai saber o que aconteceu com o bombom? O que vai fazer nessa situação, Zoe?
– Pedir desculpas pra mamãe por eu ter comido o bombom antes de jantar? – tentou Zoe, aflita. Rose soltou uma risada, e encarou Scorpius para desafiá-lo a continuar a explicação.
– Vai pedir desculpas por uma coisa que você não fez? Não, Zoe. Nesse caso, você chama um advogado. As pessoas, quando são acusadas de fazerem algo errado, chegam até mim. Elas me chamam. Eu vou tentar provar, e na maioria das vezes eu consigo, que elas não roubaram nenhum bombom da geladeira. – Scorpius se inclinou para dizer baixinho e sério: – Sei que isso não se compara a um bombeiro, a um médico ou a um militar. Sei que parece errado. Mas é um trabalho que alguém tem que fazer, ou alguém pode ir para a prisão sem ter tido culpa de nada.
Ela fez que sim com a cabeça, tentando raciocinar tudo aquilo. Ficou calada por um tempo, assoprando suavemente a caneca do chocolate quente. Scorpius não parou de pensar na curiosidade de Zoe sobre seu trabalho, e o modo como ela encararia isso quando fosse mais velha, quando entendesse melhor.
Zoe passou o final da tarde no apartamento de Scorpius para brincar e se relacionar com o novo cãozinho, Cupcake. Ela nunca se sentiu tão triste por ter que falar tchau.
– Você pode vir aqui quando quiser, coisinha – Scorpius disse, segurando as duas mãos delas, agachado a sua frente para que ficasse a sua altura. A menina estava com uma expressão desolada. – Cupcake não vai embora, tá bom?
– E você?
– Estarei aqui – ele disse. – Tenho que resolver umas coisas, e no ano novo nós nos vemos. Ei, Zoe – chamou, baixinho. A filha estava olhando para os pés, como se não quisesse que Scorpius a visse lacrimejando.
– Hoje foi o melhor dia da minha vida – ela confessou, os olhos aguados. – Por que você e a mamãe não podem ficar juntos todos os dias que nem hoje?
– Fui um idiota com ela, e a magoei.
– Por que você fez isso? Por que você magoou ela? Por que você não pede desculpas?
– Tem coisas que fazemos que desculpas não são o suficiente. Que nem quando eu não fui a sua festa.
– Mas eu aceitei suas desculpas, papai.
Scorpius nunca teve a confirmação disso antes, e se sentiu bem. Ergueu o pequeno queixo dela, Zoe explicando:
– Você depois foi na minha apresentação e você depois trouxe o Cupcake para a sua casa e eu amo o Cupcake.
Inacreditável como apenas um dia foi o suficiente para Zoe amar o bichinho de estimação. A inocência era... intrigante.
Nesse momento, Rose saía do banheiro ajeitando os cabelos. Ela observou os dois se abraçarem.
Ele acompanhou as duas até o estacionamento, com Zoe grudada como um bicho preguiça nele. Quando passaram pela recepção do edifício, Zoe acenou animadamente para a recepcionista.
– Tchau, Portia!
– Tchau, Zoe!
Rose reparou que Portia fez um tchauzinho com os dedos para Scorpius. Zoe geralmente era bem ciumenta em relação às mulheres que tentavam se relacionar com Scorpius, Rose sabia bem disso. Mas vê-la se dando bem com Portia, sempre a cumprimentando... Rose precisou se ocupar com a bolsa, onde procurava a chave do carro depressa. Enquanto isso, Zoe se descolou de Scorpius para pegar a mão dele e atravessarem o estacionamento.
Scorpius imediatamente percebeu a mudança.
– O que aconteceu com o Dodge?
– Já era velho demais – respondeu Rose, entrando no seu mais novo carro. Zoe abriu a porta para entrar também e se empoleirou na janela para fazer caretas a Scorpius. Ele retrucou com outra, mas voltou a olhar para a Rose. E depois analisou o novo carro.
– Eu gostava dele.
– Eu também – ela disse baixinho. – Boas lembranças.
– Sim. Mas esse foi uma ótima escolha. Bem moderno.
Draco sempre costumava dizer que, quando você muda a vida, você tem que mudar o carro. Scorpius imaginou se isso se aplicava a Rose naquele momento. Novos tempos, novo carro.
– E eu estava quase me esquecendo.
Na verdade, ele não tinha certeza se deveria dar o presente. Rose costumava ignorar os presentes dele, ou mesmo não aceitá-los. Scorpius queria dar a ela algo que pudesse fazer com que Rose gostasse e admitisse. Ele pensou bastante e, por fim, comprou o que ele tirou do bolso interno do casaco.
– Antes de você dizer que “não precisava” – ele disse depressa, interrompendo os protestos da ex-namorada. – Precisava, sim.
Rose recebeu o presente retangular. Abriu e revelou o que era.
– Edição especial – ela murmurou, encantada com a capa do livro. –. Todos os livros em um só.
– Não tem problema ser clichê uma vez ou outra – ele sorriu quando ela o encarou, estupefata. – Sei que já leu todos, mas...
– Obrigada – ela disse. Scorpius reparou que ela ainda tinha a mania de passar as páginas com um movimento e levá-las até seu nariz para cheirar o aroma das folhas.
– Mamãe, posso ver? – perguntou Zoe curiosa.
– Claro, olha só.
Zoe espreitou os olhos e leu.
– Jane Austen... Cole...ção.
Scorpius olhava para Rose. Ela, apesar de ter ligado o carro, ainda não tinha engatado a marcha.
– Eu tenho algo também. – Entregou a ele um pequeno embrulho dentro do carro. Espiou enquanto Scorpius o abria. – Na verdade, é meu e da Zoe. Na verdade, é só da Zoe. Ela fez tudo. Eu só emoldurei.
Scorpius estava segurando uma tela de pintura em suas mãos. Rapidamente reconheceu os traços de Zoe, e o peculiar jeito como ela desenhava o detalhe da gravata dele.
– Foi a primeira tela dela com tinta acrílica.
– Você gostou, papai?
– Adorei, coisinha. Obrigado. Vejo vocês no ano novo?
– Tchau, Scorpius.
– Tchau.
Scorpius deu uma leve batida no teto do carro e assistiu ao carro de Rose sair pelo estacionamento, Zoe acenando com a mão atrás do vidro.
Scorpius subiu o elevador, observando a pintura que havia acabado de ganhar de sua filha, emoldurada pelas mãos de Rose. Sentiu-se bem, como há muito não se sentia.
Jogou-se no sofá quando voltou para o apartamento, querendo muito descansar porque brincar com Zoe exigia energia e a dele estava esgotada, mas foi nesse momento que ele notou a presença do Cupcake. O filhote latiu na direção dele, chamando para brincadeiras. E, realmente, não teve como Scorpius se sentir sozinho naquele Natal. Pela primeira vez em muito tempo, ele não precisou de mulheres nuas.
Mesmo assim, ainda tinha uma parte dentro dele que o incomodava. Uma breve e cautelosa pontada em seu peito que não tinha a ver com Rose, nem com Zoe, nem com a família de Rose, nem com a iminência do avô estar com câncer que em pouco tempo poderá prejudicar a saúde e por isso ele e a avó estavam viajando e aproveitando o mundo. Tinha a ver com Astoria.
Não soube dizer se foi uma escolha boa andar pelo cemitério de Londres com o sol por trás dos edifícios da silhueta da metrópole, mas como era época natalina e as famílias se reuniam com seus entes queridos, Scorpius não era o único dono das pegadas da neve. Encontrou a lápide depois de uma longa caminhada, e ficou parado a frente dela. Havia um copo de vidro, de uísque, em cima da lápide, e Scorpius imaginou que Draco já tinha feito sua visita naquele dia. Achou melhor estar sozinho naquele momento, para poder sentir sem ser observado.
Ele não acreditava em reencarnação, vida após a morte e todas essas crenças. Não era uma pessoa que conversava com lápides imaginando que alguém estaria escutando, porque não, não havia ninguém escutando.
Mas ele sentiu que Astoria estava ali e ficou arrepiado.
– Oi, mãe. Sei que não vai me responder de volta, mas há algo de reconfortante em falar para um pedaço de pedra. – Olhou para o céu escuro e mordeu os lábios. – Desculpe ter demorado tanto pra visitá-la. Culpo a mim por tudo o que aconteceu, mas cansei de evitar as coisas. Ultimamente não tenho conseguido dormir. Fico lembrando daquela ligação. A última. Você estava me mandando não andar com o Evan porque ele estava cheirando todas essas merdas de drogas. E você estava certa. Ele fodeu com a vida dele, o cara está saindo e entrando toda hora da reabilitação e a família não quer saber dele. Outro dia ele ligou pra mim pedindo ajuda para ter um lugar para ficar, tive que recusar por causa da minha filha.
Tirou o gorro da cabeça e passou as mãos nos cabelos loiros.
– Zoe tá com sete anos agora. Ela iria adorar você, e ia conseguir conquistar você, porque não tem criança que nem ela. Até minha avó não resistiu. Devia ter visto o que a Zoe falou pra ela. Você não parece velha pra ser minha bisavó. – Começou a rir com a lembrança, um riso que foi atrapalhado por uma fungada rápida dele. Apertou o nariz congelado pelo frio escaldante daquela noite de Natal. Se recompôs e, jogando uma pequena flor na pedra, murmurou: – Feliz Natal, mãe.
Não foi embora imediatamente. Sentou-se ali e tudo o que permaneceu entre ele e sua mãe foi o silêncio. Um silêncio precioso, importante. Aquele Natal tinha sido feliz.
Fale com o autor