Fix You

12 Viva La Vida


Capítulo 12.: Viva La Vida

"It was the wicked and wild wind
Blew down the doors to let me in..."

Rose estava tão exausta que quase se viu caindo na cama da filha quando a carregou para o quarto e a colocou embaixo do cobertor de desenhos da Rapunzel. Ela tinha capotado dois segundos depois de sair do hospital, no banco do carro.

Deu um beijo no rosto de Zoe, vendo-a ressonar baixinho e mais confortável. Ela passou por muita coisa naquele dia e precisaria de todo o descanso possível. Mesmo que ela não pudesse escutar agora, Rose achou necessário sussurrar:

– Te amo.

Estava a caminho da porta quando ouviu a resposta baixinha:

– Te amo mais.

– Te amo muito mais.

Rose viu o sorrisinho satisfeito dela, e Zoe voltou a fechar os olhos.

Entrou em seu próprio quarto, tirando o casaco e os sapatos. Livrou-se do restante de suas roupas no banheiro, escutando a água morna do chuveiro despencar sobre o chão do box. Ela se adiantou embaixo da água, relaxando a tensão dos ombros, fechando os olhos e molhando os cabelos ruivos.

Oi, gostosa.” Ouvia a voz de Scorpius de nove anos atrás no pé do seu ouvido. Ela se lembrava das tardes em que eles passavam juntos na casa dele, assistindo a um filme que um detestaria e o outro amaria, depois passando horas na piscina aos beijos e, quando ela tomava banho na casa dele, Scorpius a proibia de fechar a porta. Entrava dois minutos depois, mordendo seu pescoço de leve e chamando para o tipo de sexo que só ele soube fazer com ela.

Ela se distraía com a água nos lábios quando ouviu a porta do quarto abrir.

– Amor, trouxe comida – era a voz de Paul. – Achei que poderia estar cansada demais pra fazer o almoço. Onde você tá?

– Aqui – ela chamou, abrindo o box para vê-lo do banheiro.

Ele imediatamente tirou o casaco, a cinta, a calça, tudo, para entrar com ela. Paul era gentil, carinhoso e a beijava como se Rose fosse um vidro delicado. Ela sempre gostou disso, mas não gostava toda hora. As vezes ela queria algo mais forte, mais urgente, mais quente do que a suavidade e a calma. Ela não queria ser calma toda hora. Ela sentia falta de um beijo desesperado, como daqueles que você acha que vai perder a pessoa a qualquer instante, e precisa aproveitar tudo o que você tem com ela.

Com Paul, tudo era perfeito. Ele era perfeito, o sexo era perfeito, e o máximo de coisas que ambos tinham em comum podia fazê-los conversarem por horas. O cara com quem ela poderia muito bem passar o restante de sua vida, e eles nunca teriam uma discussãozinha sequer.

– Que foi? – ele murmurou, quando Rose diminuiu a intensidade do beijo. – Não quer agora?

– Estou exausta – ela disse em tom de desculpas, mas Paul era compreensivo e apenas assentiu, passando os dedos nos cabelos molhados dela.

– Vou ajeitar a mesa, então. Te espero lá, ok?

Paul não tinha nenhum desespero de perdê-la.

***

Scorpius não conseguia mover o braço esquerdo, justamente o braço de seu costume diário. Qualquer esforço que fizesse para mover o ombro, podia sentir a pontada na clavícula. Estava ainda usando um curativo na região que levara o tiro. Para não ter perigo de sentir dor quando usasse o braço, precisou imobilizá-lo.

Seu avô tinha tirado ele do hospital. Não às pressas, é claro; quando Scorpius começou a indicar melhorias. Ainda estava abalado com o que tinha acontecido, mas com sua frieza e adrenalina, o rapaz conquistou a liberdade rapidamente e logo se viu de volta ao seu apartamento, repousando no sofá.

Lucius estava sentado no outro lado do sofá. Não deixou o neto, mesmo que não tivesse tido nenhuma pressa de visitá-lo no hospital. Scorpius sabia que ele tinha medo que algum médico viesse fazer exames nele por causa de seu câncer e o mandasse repousar. Lucius evitaria hospitais a todo o custo.

– O que aconteceu com a televisão?

– Zoe – respondeu Scorpius.

– Sua filha.

– Sim.

– Viu Draco? – perguntou Lucius depois de um silêncio.

– Sim. Ele ainda está vivo, sabia?

Quando Lucius não queria criticá-lo, Scorpius sabia muito bem que a conversa não passaria de perguntas e respostas curtas.

– Zoe o viu também – contou Scorpius depois de um tempo. – Ela o conheceu. Não virou muito fã. Ele disse a ela que eu não ia ficar bem.

– Draco – Lucius abanou a cabeça sem saber o que dizer. – Draco está... sem esperanças. Ele não é nada sem Astoria, eu reconhecia isso.

– Por que você sempre fala da minha mãe?

– Porque acho que você sempre quer falar sobre ela e não tem com quem fazer. Só estou dando uma chance.

– Acho que você sente falta dela. Admita. Ela era a sua melhor advogada.

– Pode ser por isso também – disse, orgulhoso. – Sabe como seus pais se conheceram?

Scorpius deu um suspiro, jogando a cabeça para trás em exasperação:

– Alguém atira em mim.

– Que foi?

– Vai me contar história de família agora? Eu sei como eles se conheceram. Você precisou de uma advogada pra te tirar da prisão, ela te tirou facilmente e depois meu pai pagou um drinque para ela. Depois você a contratou para a firma que hoje eu trabalho e meu pai pagou vários drinques para ela. E drinques após drinques após drinques, os dois se casaram. E brindaram, com drinques. E essa é a história de como eu nasci. Um brinde a mim.

– Tudo bem – ele retrucou.

– Olha – Scorpius disse, amenizando a ironia. – O senhor não precisa ficar cuidando de mim. Eu sei que deve ter muita coisa pra resolver, então...

Com seu braço bom, estendeu a mão ao avô.

Demorou um pouco para Lucius apertá-la. Não por hesitação, mas por não saber se deveria fazer isso ou, na verdade, abraçá-lo.

Lucius apertou sua mão.

– Não tenha pressa para voltar – disse o avô, ainda com a mão apertando firmemente a do neto. – E nós vamos prender aqueles filhos da puta que fizeram isso com você, e Otavio Trentwell não pisará em outro chão que senão os da solitária. Por muitos anos. Eu prometo isso.

Scorpius riu. Foi um riso involuntário, pois se lembrou de Zoe e da promessa do dedinho. Imaginou como seria fazer a promessa do dedinho com seu avô e começou a rir. Doía rir, mas precisou.

– O que é engraçado?

– Nada – disse. Seu avô não entenderia.

Lucius ajeitou o sobretudo e se levantou. A caminho da porta, Scorpius disse:

– Você avisou minha avó sobre o que está acontecendo? Estranhei que não recebi nenhuma ligação desesperada dela essa semana.

– Achei melhor não preocupá-la, mas agora vou dizer que está tudo bem com você.

– Estou dizendo sobre o seu câncer. Você contou a ela?

Lucius não respondeu.

– Descanse, Scorpius. Não se preocupe comigo.

E foi o que Scorpius fez, por muitas horas. Mesmo assim conseguiu acordar exausto e cansado, como se cada vez que fechasse os olhos, ele não conseguisse dormir de verdade. Algo o incomodava.

Ora, quem é vivo sempre aparece.

– Bom dia, vó Cissy. – Ele sorriu mesmo que Narcissa não pudesse ver o sorriso através do celular. Enquanto andava para lá e para cá, Scorpius podia ver na sua cabeça a imagem da avó sentada na varanda do casarão dos Malfoy, fumando para o céu e aproveitando a vida como qualquer mulher com seus 70 anos aproveitava: assistindo novelas.

Porém, Narcissa Malfoy era outro nível de avó.

Ela assistia Óperas, não novelas. Suas críticas eram temidas pelo mundo. De fato, em seu tempo de brilhantina, Narcissa fora considerada a melhor atriz de drama teatral. Conhecida por ser autêntica. Os tapas que ela tanto dera nos personagens de suas peças eram tão reais quanto seus inúmeros penteados de cabelos.

O que aconteceu para se lembrar que tem uma avó, Hyperion?

– Eu levei um tiro – respondeu como se conversasse com ela todos os dias. – Acredite, estou vivo.

Para o azar de muitas pessoas. – Narcissa não dizia isso para magoar. Scorpius gargalhou. – Anda chutando muitos traseiros, eu espero.

– Do jeito que a senhora me ensinou.

Pretende aparecer para ver a múmia um dia ou vou ter que te arrastar pelas orelhas? Você sabe que eu encontro força.

– Um dia. – Ele estava considerando.

Seu filho da puta mentiroso, eu sei que não vem. Mas agradeço por ter ligado, a vovó te ama. Vou preparar bolinhos se vier.

– Mentirosa. Acho que fui a única criança que nunca comeu um bolo de chocolate da avó porque ela não perdia seu tempo com essas baboseiras.

Vai tirar satisfação depois de vinte anos, Scorpius? Tudo bem. Antes tarde do que nunca. Aprendo a cozinhar se disser que vem me visitar. Me tira dessa monotonia. Os jovens ainda vão à discoteca? Cabe uma senhora nela?

– Balada, sim. A senhora quer trair meu avô?

Já está na hora, não é, querido?

Scorpius abanou a cabeça, rindo. Há tanto tempo que não ouvia as pérolas que ela soltava. Língua afiada como ninguém. Sentia saudades da vó Cissy.

– Olha que você consegue. Corpinho de vinte anos a senhora tem, não é, vó?

Você disse que era de dezoito na última vez. E você, está namorando?

– Não.

Casando?

– Só curtindo.

– Uma hora tem que casar, Scorpius. Vida de vagabundo não pode levar pra sempre não. Seu avô e seu pai sabem disso.

– Obrigado pelos seus ensinamentos – ele disse, pousando a mão no peito. A avó deu risada.

Ficar papeando muito com você vai me dar rugas. Vejo você quando você criar vergonha nessa cara linda e vir me visitar.

– Pode deixar. Vou fazer isso.

Quero só ver – duvidou.

E desligou. Scorpius olhou para o celular e depois ergueu a cabeça para a janela de vidro. Viveu em Londres sua vida toda. A visão dela, naquele dia, estava diferente.

Tinha mais uma ligação para fazer.

– Oi, coisinha – disse quando ouviu a voz fina e infantil-tentando-ser-adulta de sua filha do outro lado da linha. Geralmente era Rose quem atendia ao celular, mas Zoe tinha mania de pegá-lo para atender também, principalmente quando conhecia o número. E o de Scorpius ela tinha decorado. – Pronta para gelar o cérebro?

Notas finais
"Eu te amo" "Eu te amo mais" "Eu te amo muito mais" - Enrolados. Não podia fazer referência Frozen sem fazer a Enrolados, né? Rose e Zoe adquiriram o costume de falar isso uma pra outra por causa do filme mesmo hahahaha Foi um capítulo super curtinho. E a Narcissa apareceu, no telefone, mas apareceu. Ela é o tipo de avó que não tem medo de xingar o neto, mas que o ama e o protege. O motivo de eu não ter apresentado todos os Malfoy em um mesmo momento foi porque Scorpius é o tipo de cara que se distanciou deles. Aparentemente, não é só com a Zoe que Scorpius precisa melhorar, mas com toda a sua família, e a família de Rose. E principalmente com Rose. Até o próximo, vai sair bem rápido e vai ser maior que esse. Só aguardar!