Fix You

13 Speed of Sound


Notas iniciais
Oi lindos! Temos mais um capítulo para essa semana. Acontece bastante coisa. E foi um dos que mais gostei de escrever. Boa leitura e aproveitem!

Capítulo 13.: Speed of Sound

"Every chance you get is a chance you seize..."

Era como Rose tinha falado. Zoe não exigia muito dele, apenas um conhecimento absurdo de todas as respostas do universo. Ela era cheia de perguntas. Estava na época dos por que isso ou por que aquilo. Ela considerava que Scorpius tivesse todas as respostas.

Ela cuidou dele, também, como nenhuma outra pessoa fizera antes, nos momentos em que o visitou no seu apartamento. Scorpius precisava ficar de repouso, deitado para melhorar do machucado, e Zoe estava a disposição para ajudá-lo.

Em um dia, Scorpius decidiu comprar um sorvete de pote delicioso e colocou uma vela de 7 anos sobre a cauda de caramelo que ela tanto gostava.

– Faça um pedido – disse Scorpius, acendendo a vela com seu isqueiro. Estavam na espaçosa sacada do apartamento, situada em um dos últimos andares do prédio. A vista era maravilhosa, coisa que Scorpius nunca tinha reparado naquele momento. Agora ele tinha a filha do lado dele, na mesa redonda que se reuniram, e ela fazia todas as pequenas coisas do mundo chamarem sua atenção.

– Mas o meu aniversário já foi, papai.

– Eu quero recompensar, Zoe – ele respondeu. – Por não ter ido à sua festa. Então... você terá o direito de poder fazer mais um desejo. Qual vai ser dessa vez?

– Não posso falar – ela mordeu a boca.

– Não precisa. Seu pedido, seu segredo. Só assoprar.

Zoe se inclinou para o pote de sorvete e fechou os olhos, fazendo o pedido mentalmente. Ela então assoprou a vela e o fogo se apagou. Zoe ficou por alguns segundos calada.

– A família da sua mãe – começou Scorpius ao achar uma brecha naquele silêncio – não gosta muito de mim.

– Por quê?

– Não dei muitos motivos pra eles gostarem. E... eu não sou bem aceito pelo seu avô Weasley.

Ele imaginou que ela ia perguntar de novo “por quê”, mas foi mais inesperado.

– Por que eu nunca conheci meu outro avô antes?

– Meu pai? Bem... é complicado, Zoe. Muito complicado, eu queria que tivesse um jeito fácil de te explicar tudo o que está acontecendo... mas não existe.

– Por que os adultos sempre dizem que as coisas são complicadas? – ela disse frustrada, apoiando o queixo na mesa, desanimada.

– Minha mãe sempre dizia que não existe resposta para tudo, e as dúvidas só aumentam quando você cresce... E então fica complicado.

– Onde está sua mamãe? Eu nunca conheci ela.

Scorpius pousou a mão boa no rosto, surpreso com o baque que essa pergunta, na voz da filha, fez contra ele. Sentiu que tinha uma bola de pelos na garganta e respondeu baixinho:

– Ela não está mais aqui.

– Ela mudou de país?

Negou com a cabeça.

– Você quer mais sorvete? – desviou o assunto.

– Papai... – Zoe franzia a testa com força. – Você não tem mais mamãe?

Era difícil para ela imaginar uma situação dessas. Scorpius suspirou.

– Tenho, claro que tenho. Se eu fecho meus olhos, ela está aqui de novo.

– Você só tem que fechar os olhos? – ela fechou os próprios olhos. – Eu não consigo enxergar ninguém. Tudo fica escuro!

Scorpius riu. Enrolou o braço ao redor dela para dizer, sorrindo:

– Não é aqui, na cabeça. É aqui.

Apontou para o coração dela. Nesse momento, o interfone tocou e Scorpius caminhou até a sala para atender. Zoe imediatamente pulou da cadeira e correu ajudá-lo a atender o interfone. Ela mesma apertou o botão e disse:

– Quem é?

– Scorpius? É a sua encomenda de Oxford.

– O que você pediu, papai? – exclamou Zoe eufórica e ingênua.

– Pode subir, Alexis – ele disse para o interfone, e Zoe fez uma careta.

– O que é Alexis?

Scorpius passou a mão no cabelo dela.

– Fica sentada um pouco na sala agora. É uma amiga do papai, vou atender.

Zoe não obedeceu. Ela continuou grudada nele e ainda agarrou sua perna quando Scorpius abriu a porta para ver Alexis Parkinson a sua frente.

– Céus, eu nem me lembrava da última que vi você usando uma calça jeans. – E sorriu para a pequenina ao lado dele. – E você deve ser a... Zoe, certo?

– Quem é você? – ela perguntou muito desconfiada.

– Alexis Parkinson – respondeu prontamente.

Zoe olhou para a mão que Alexis estendeu a ela e não a apertou. Não porque não sabia o que fazer quando estendiam a mão para ela, mas Zoe não queria soltar o pai dela para apertar a mão daquela moça muito bonita.

– Tudo bem então – disse Alexis recolhendo a mão. Virou-se para Scorpius. – Podemos conversar?

Scorpius apresentou o caminho com um gesto. Inclinou-se para dizer a Zoe depois de fechar a porta e Alexis entrar:

– O papai consegue se virar sozinho agora, tudo bem? Fica um pouco na sala.

– Tá bom – disse Zoe com má vontade.

Sentou no sofá, mas virou a cabeça.

E olhou para Alexis o tempo todo enquanto ela conversava com Scorpius.

– Você está bem? – Os dois caminharam até a sacada.

– Preocupada? – ele ergueu uma sobrancelha.

– Não, não. Você foi assaltado e eu estou super contente com isso – ironizou. – Sim, estou preocupada. Diferente de você, meu orgulho está intacto confirmando isso. Quanto tempo vai ficar de repouso?

– Eu não sei. Só sei que não posso pensar em tribunais por enquanto. Ou... – imaginou que Zoe poderia escutar – em você-sabe-o-que.

Alexis sorriu.

– Pelo que eu conheço de você, não tem problema em usar só um dos braços para você-sabe-o-que.

Scorpius girou os olhos e, nesse silêncio, Alexis diminuiu o sorriso.

– Pensei em visitá-lo no hospital – ela admitiu. – Mas você ia achar que eu tenho sentimentos por você.

– E vir até minha casa não quer dizer nada também. Não estamos nem disputando. O que está fazendo em Londres, afinal?

– Seu avô me contratou.

Scorpius estava com a base da velinha de 7 anos na boca, experimentando o sorvete, quando escutou aquilo.

– Meu avô te contratou?

– E agora estou me mudando para Londres. Achei que deveria te avisar antes que acabasse se deparando comigo na sua firma.

– Certo – ele disse, sentindo-se incomodado. – Achei que estivesse bem na sua firma em Oxford.

– Época de demissões – ela disse, mas ainda era confiante o suficiente com suas habilidade que não parecia abalada. Afinal, já conseguira um novo cargo na empresa de Lucius.

– Agora que você trabalha para mim, não teremos mais disputas. Então por que está me procurando?

– Oh... Scorpius, eu não vou trabalhar para você – Alexis sussurrou, brincando com uma parte da camiseta dele. – Eu vou trabalhar com você. Pode ser mais interessante do que uma disputa.

Beijou o rosto dele, suavemente.

– Nos veremos quando você melhorar.

Alexis deu as costas e entrou novamente na sala, onde disse a Zoe:

– Tchau, gracinha. Acredito que vamos nos encontrar muitas vezes para...

– Eu gostei do seu cabelo – disse Zoe, de joelhos no sofá. Alexis abriu um sorriso brilhante e ia agradecer, mas Zoe acrescentou com sinceridade: – Você parece a mãe malvada da Rapunzel.

Embora quisesse, Zoe era lindinha demais para que Alexis conseguisse retrucar algo a altura.

– Está úmido lá fora, ok!? – exclamou, como se precisasse se explicar para a criança. Pareceu que ia chorar ao constatar o desastre: – E quebrei a minha chapinha quando me mudei.

Quando Scorpius se adiantou até a porta com ela, Alexis abriu um sorriso irônico.

– Sua filha. Fofa como você.

– O que posso dizer? Ela reconhece uma cobra quando vê uma.

Rindo, Alexis passou por ele.

– Gostei dela. Tchau, Scorpius.

– Tchau, Alexis.

Ela foi embora. Scorpius se aproximou do sofá e puxou Zoe para a menina se sentar na sua perna.

– Você achou mesmo Alexis parecida com a mãe da Rapunzel?

– A mãe – enfatizou. – A mãe da Rapunzel de verdade é linda que nem a minha mamãe.

– Vou ter que conhecer a história.

– Você nunca assistiu? Pai, o que você fica fazendo na sua vida? – perguntou com uma singela exasperação. – Eu tenho o filme, quer assistir comigo? Eu posso trazer ele aqui pra gente assistir.

– Claro – ele disse, sorrindo. – Na verdade... O que você acha de passar a noite aqui? Se a sua mãe deixar, é claro. E então podemos assistir a todos os filmes que eu nunca assisti com você.

Zoe olhou para o rosto de Scorpius, para ter certeza de que ele estava falando a verdade.

– Mas... mas se vamos assistir todos os filmes que você nunca assistiu comigo... – acrescentou baixinho: – uma noite não vai dar tempo.

– Então... você pode dormir aqui quantas noites forem necessárias.

– Eu vou ligar pra mamãe perguntando se eu posso ficar! – Ela saiu tão depressa que pisou no pé de Scorpius. Pegou o telefone e, sozinha, se virou para discar o número da mamãe dela. – Mãe, o pai disse que quer assistir todos os filmes que ele nunca assistiu e ele perguntou se eu queria ficar aqui pra dormir aqui e assistir os filmes, pooooosso?

***

– Uououou, calma, Zoe.

Com o celular na orelha, Rose verificava a validade do pote de maionese no supermercado. Estava fazendo compras da semana naquele sábado, enquanto aproveitava que Zoe estava com Scorpius e podia ficar mais tranquila para rodear as prateleiras. Albus estava ajudando, embora tivesse parado, naquele momento, para conversar com um cara que estava na dúvida onde ficavam os produtos de limpeza. Não que Albus trabalhasse no supermercado, ele era professor, mas até parece que o primo ia negar ajudar alguém com ótimo bíceps.

– Respira, eu não entendi nada do que você disse.

– O. Pai. Me. Chamou. Para. Dormir. Aqui. Hoje. Posso?

Rose trocou o celular para a outra orelha.

– Não quer ver o Paul tocar hoje?

– Eu quero assistir filme com o papai agora.

– Passa o telefone pra ele então?

Zoe obedeceu, porque a próxima voz que saiu foi a de Scorpius:

Oi, Rose.

– Zoe tem rinite durante a noite se a casa estiver empoeirada, ela só consegue dormir com o travesseiro dela. Se ela reclamar de dor de barriga no meio da noite, não é para ir ao banheiro, é gastrite porque ela fica nervosa por estar longe de casa... Se ela beber água a dor pode passar, mas se ela acabar reclamando de novo, vai precisar do remédio porque a dor a incomoda muito. Eu vou sair a noite, então antes eu passo aí para trazer o travesseiro e as roupas dela.

Oi, Rose, tudo bem? Tudo comigo também.

Ela deu um suspiro.

– Oi, Scorpius. Anotou tudo o que eu falei?

Não. Meu braço vai ser inútil por alguns meses.

– É verdade, eu esqueci. – Ela passou a mão na testa.

Não se preocupe, minha memória é impecável. Zoe tem rinite se ela não tiver travesseiro e a gastrite é porque ela não pode ir ao banheiro quando a casa está empoeirada. Entendido.

– Você não entendeu nada! Zoe tem rinite se a casa estiver empoeirada... por que você está rindo? – perguntou zangada quando ouviu a risada de Scorpius. Nesse momento Albus voltava segurando um papel.

Eu estava brincando. Eu entendi tudo. Zoe está pedindo para você trazer os filmes que ela tem quando passar aqui.

– Tudo bem. – Notou o silêncio. – Só isso?

É, só isso.

– Me liga se ela tacar fogo no loft ou algo assim. E Scorpius?

Sim?

– Você vai ter que cantar.

Quê?

Ela se pegou sorrindo, só de imaginar a cara de Scorpius naquele momento.

– Sim. Zoe gosta que cantem pra ela antes de dormir. Prepare-se.

Oh cara...mba. Ok. Eu acho que consigo. Que música?

– Você quer brincar na neve?

Não estamos em dezembro ainda, mas agradeço o convite.

– É o nome da música – ela disse, rindo. Quando viu o olhar de Albus, pigarreou. – Passa o telefone pra Zoe?

Oi, mamãe.

– Eu vou deixar você ficar essa noite. Mas com uma condição.

Qual?

– Dê muito trabalho ao seu pai.

Tá bom!

– Pego você aí amanhã, ok? Te amo.

Eu te amo muito muito muito muito mais que nem o infinito. Eu prometo que vou escovar os dentes todos os dias!

– Vou cobrar, hein?

Ela desligou o celular. Enquanto colocava os produtos no carrinho, Albus o empurrava e estava dando aquele olhar de sempre.

– Sei o que vai dizer – acusou Rose.

– O que vou dizer?

– Que Scorpius só está assim porque ele quase morreu e assim que essa fase passar, ele vai voltar a ser o de sempre.

– Eu não ia dizer isso.

– O que ia dizer?

– Eu sei lá. Estava pensando no número de celular que eu acabei de ganhar.

Ele ergueu o papel para o rosto de Rose, sorrindo arrogantemente.

– Deixe-me adivinhar. Ele é da academia que você frequenta?

– Nunca o vi na vida – estranhou, caminhando com as mãos nos bolsos do casaco enquanto Rose levava o carrinho de compras para o caixa. – E desde quando eu frequento academia?

– Não sei, você parece mais forte. Se bem que como é só em um braço...

– HAHAHAHA – ele riu com muita ironia para a piadinha dela.

– Mas então, você vai trocar mensagens com o sr. Academia ali?

– Não sei – fez uma expressão de má vontade. – Ele não é meu tipo.

– Você tem um tipo?

– Os que geralmente não são mais bonitos do que eu.

– Poxa, eu tinha me esquecido que seu ego estava aqui. Oi, ego do Potter!

Albus apoiou o braço no ombro dela.

– Você não pode confiar em quem é mais bonito do que você, prima – ensinou. – Não em uma relação.

– Não é pra ser coisa de uma noite?

– Esse tipo de coisa não funciona. Não pra mim.

Ele vai se apegar, né? – suspirou Rose e os dois riram abalados, pois na verdade é sempre o contrário.

Eles não papeavam sobre coisas assim há algum tempo e ficou feliz de poder passar as horas da tarde com ele. Mas, quando voltou para casa, começou a ter uma espécie de dor no peito, porque ela estava desacostumada a subir o elevador sem Zoe, a não entrar em casa e mandá-la tirar os sapatos sujos de terra; estava desacostumada a colocar as coisas na geladeira sem a ajuda dela e suas inúmeras perguntas sobre saquinhos de supermercado. Estava, também, muito desacostumada com a ausência do olhar curioso da menina quando Rose se maquiava na frente do espelho.

Naquela noite, enquanto se aprontava para sair com Paul e assisti-lo tocar com sua banda, teve que tirar o excesso do batom no papel.

Quando saiu do banheiro, abanou a cabeça.

Que drama é esse? Zoe só vai ficar uma noite fora. Não vou ser como aquelas mães que se preocupam toda hora com a filha e não conseguem nem viver quando ela não está...

Suspirou, verificando-se no espelho. Ela ainda era jovem. De fato, tão jovem que nem acreditava que tinha uma filha de seis, agora sete, anos. Mal se lembrava da última vez que saiu para uma noite, sozinha. Claro, às vezes Rose deixara Zoe com uma das amigas que tinha em Nova York quando começou a namorar Paul. Mas foram pouquíssimas vezes, logo a filha passou a ficar presente em qualquer compromisso que tinham.

Mas ela nunca passou a noite fora. Nunca dormiu longe de Rose. E não era em qualquer lugar. Não era na casa dos avós maternos, nem dos bisavós. Era com o pai dela. Zoe passaria a noite na casa de Scorpius.

Será que ela fez a escolha certa em deixá-la ficar tanto tempo com Scorpius? Não sabia o que podia esperar dele nessas condições. Tomaria conta de Zoe? E se alguma mulher aparecesse por lá?

Não, Scorpius não faria isso. Seria o cúmulo. Ele não deixaria a filha de lado em sua própria casa.

Esses pensamentos estavam martelando em sua cabeça durante o tempo em que arrumava as coisas de Zoe. Enquanto colocava fronha nova no travesseiro dela, atendeu a ligação de Paul.

Oi, amor. Estão fazendo os últimos ajustes nos instrumentos. Vocês estão vindo?

– Não vou levar Zoe hoje – ela respondeu. – Ela vai passar a noite na casa do Scorpius.

– Ah – ele disse. – Ela estava querendo tanto assistir.

Sim... mas ele é o pai dela e depois de tudo o que aconteceu... eu não quis impedir.

Entendo. Bem, pelo menos então teremos a noite para nós dois. Que acha de um jantar romântico depois?

– Você quer dizer pizza e muita cerveja? – riu, recolhendo um brinquedo jogado no chão.

Não, dessa vez... dessa vez em um restaurante italiano. Eu ia fazer uma reserva na semana que vem, mas quando teremos essa oportunidade de novo? Então, o que acha?

– Em um restaurante italiano? Soa romântico.

Combinado. Te vejo do palco, ruiva.

– Quebre a perna – ela desejou enquanto ajeitava os lápis de cor da mesa de desenho de Zoe. Distribuída entre vários papeis coloridos, encontrou a foto em que ela e Scorpius estavam abraçados. Atrás da foto, a letra grande da filha se espalhava:

PAPAI MAMAE

Guardou a foto dentro da gaveta para evitar lembranças e, pegando a mala de Zoe, saiu de casa.

***

A água do chuveiro o aliviava de inúmeras dores. Durante aquele mês pós-assalto, fizera algumas sessões de tratamento para que o ombro melhorasse. Começou a sentir isso quando tentou movê-lo durante o banho; a dor agora era suportável. Scorpius desligou o chuveiro, arrastando a toalha pelo corpo, saindo do boxe. Passou o remédio no curativo da clavícula, de frente ao espelho.

Mesmo com a marca que será deixada pela cicatriz, ele ainda tinha o corpo que prezava para ter. Possuía a estatura mediana e nunca buscou músculos trincados por academia, mas sim corrida. Sempre gostou de correr.

Colocou a cueca e a calça, sem a mínima vontade de fazer esforço e vestir alguma camisa, uma vez que ele tentava diminuir as chances de ter que mover o braço para enfiá-lo nas mangas. Precisava sempre de ajuda e não gostava de pedi-la. Nem para sua filha, que estava deitada no sofá, assistindo a televisão nova, sempre disposta a ajudá-la.

– Você pediu alguma coisa para comer, papai? – Zoe perguntou quando viu Scorpius ultrapassando a sala.

– Não. Não vou pedir. Você vai ter que comer a minha comida.

Ela fez uma careta.

– Ei, por acaso já experimentou a minha comida para fazer essa careta? – perguntou indignado.

– Você sabe cozinhar, por acaso? – cruzou os braços sem acreditar.

– Quer ver?

– Sim!

O interfone tocou no momento que Zoe correu para a cozinha.

– Não pegue as facas – mandou, antes de apertar o botão e perguntar: – Rose?

Estou com as coisas da Zoe.

– Pode subir.

Alguns minutos depois, Rose estava na porta dele. Scorpius atendeu enquanto tentava enfiar a camisa pelos braços e Zoe se aproximou.

– Eu ajudo, papai!

Imediatamente ela subiu na cadeira da mesa de jantar, disposta, para ficar a altura do pai. Zoe segurou o tecido da camisa dele e, com dificuldade, Scorpius moveu o ombro mais lentamente possível para não trazer muita dor quando adentrou o braço na manga. Ele fechava os botões com uma mão quando viu Rose olhando para ele.

Ela se lembrou do motivo de estar ali.

– Suas coisas e os filmes, querida.

Zoe pegou a sacola de DVDs, enquanto Rose entregava o travesseiro e a mala para Scorpius.

– Não quer entrar um pouco? – ele convidou. Rose não negou; ela queria dar boa noite propriamente para Zoe, que decidiu verificar veementemente se todos os filmes de desenhos estavam certos dentro da sacola.

Mesmo sabendo que ela estava muito eufórica para prestar atenção, Rose se inclinou para beijar o rosto da filha.

– Passo aqui de manhã, ok?

Ela fez que sim.

– Escute. Estarei com meu celular a noite inteira. Ligue para mim.

– Tá bom.

– Ligue antes de dormir também.

– Tá bom.

– E escove os dentes, não se esqueça, você prometeu.

– Tá booooom, mãe. Ah! – ofegou, tirando um DVD da sacola. – Achei, papai! É esse daqui! Coloca esse daqui!

Rose ajeitou os cabelos e a bolsa no ombro, endireitando-se para sair. Scorpius se adiantou, abrindo a porta para ela.

– Se ela quebrar alguma coisa ou...

– Vai ficar tudo bem, Rose. Ela é mais responsável do que eu.

– E acha que isso me deixa tranquila?

Ele riu, reparando sem querer na roupa que ela estava usando. Com certeza não ia passar a noite sozinha.

– A camisa está... – ela mostrou. Scorpius olhou para a barriga e viu os botões desalinhados. Rose tinha mania de perfeição. – Eu já vou. Eu tenho um-

– Tudo bem. Não se preocupe. Aproveite o encontro ou... sei lá o que você e Paul vão fazer essa noite.

– Certo.

– Certo.

– Cuide bem dela. Se ela tiver algum pesadelo...

– Deixo ela dormir comigo? – tentou.

– Não – Rose disse. – Não a faça ficar com você durante a noite toda. Ela tem que aprender a superar os medos sozinha. Eu li sobre isso – explicou.

– O que aconteceu com aquela garota que lia Jane Austen antes de dormir?

Rose passou a mão na nuca, olhando para os pés. Depois que ergueu os olhos, Scorpius viu ali um sorriso triste.

– Ela era meio clichê.

Às vezes Scorpius queria prender a respiração e dizer de uma vez: Me desculpe por toda a merda que eu fiz a você.

Foi há muito tempo. Mas não tempo suficiente para que ela esquecesse.

Agora não importava mais. Ela era essa ótima pessoa, e não merecia alguém como ele para estragar tudo. Não de novo.

Rose virou-se para pegar o elevador no final do corredor. Scorpius observou o coque que ela fez no cabelo e procurou. Procurou pela tatuagem atrás do ombro esquerdo dela, que estava visível devido à fina alça do vestido. Estava concentrado em se lembrar dos detalhes do suave e quase imperceptível design delicado do rouxinol, mas Rose já estava bem afastada.

Ela mesma virou o rosto para dar uma última olhada em Scorpius, enquanto esperava pelo elevador se abrir. Nesse meio tempo, Scorpius sentiu um furacão passar por ele, e era Zoe correndo até ela. Por um momento achou que a filha tinha desistido de ficar com ele, mas Zoe apenas queria abraçá-la, talvez se dando conta de que ia dormir longe naquela noite.

– Eu vou ficar bem, tá, mãe?

– Sei que vai, querida. É só uma noite. Sobrevivo sem você.

– Te amo!

– Te amo mais.

Deu um beijo no rosto de Rose e voltou para Scorpius, segurar a mão dele. Com a outra, acenou para Rose. A porta do elevador fechou sua imagem.

***

Era só uma noite. Mas por que ela não conseguia tirar o celular da mesa? Esperava a cada dois minutos uma mensagem que pudesse confirmar que estava tudo bem com Zoe.

Disfarçou uma olhadela para a tela do celular durante o tempo em que Paul verificava as opções do cardápio italiano. Estavam no restaurante, mesa à luz de vela, obviamente uma indicação de que aquela noite era especial para os tipos diferentes de casais pelo ambiente.

Rose tentou não engolir o suspiro porque ser dramática era a última coisa que estava em seus planos. Foi quando Paul ergueu o rosto e sorriu para a namorada.

Inacreditavelmente, os dois estavam calados naquela noite. E isso era estranho, pois sempre tiveram conversas aleatórias, papo furado e Paul falando algumas coisas fofas para ela. No entanto, ele parecia ter adorado o cardápio. E Rose não se desgrudava do celular.

No exato momento em que o garçom se aproximou da mesa, os dois disseram ao mesmo tempo:

Precisamos conversar.

– Você primeiro – Rose disse depressa. E o garçom, vendo isso, achou necessidade de atender outra mesa primeiro.

– Ok. Rose, eu não sei nem como começar... Eu amo você – ele acrescentou, segurando a mão dela sobre a mesa. – E você sabe o quanto sua garotinha significa para mim, nos tempos que passamos juntos. Eu ouvi você e sua mãe falarem sobre casamento, quando fui conhecê-los. E, de fato, eu considerei a ideia nesses últimos meses. Você não pode criar Zoe solteira.

– Eu fiz – Rose disse baixinho.

– Oi? – ele não escutou direito.

– Eu fiz. Eu criei Zoe solteira. Foi uma escolha minha.

– Sim – ele concordou, passando a mão no cabelo. – Mas...

– O que está sugerindo? Você vai me pedir em casamento?

Paul não esperava essa pergunta, porque ele, de fato, ia pedir Rose em casamento. Só que de um jeito mais romântico que aquilo.

– Você vai me pedir em casamento porque você está preocupado comigo?

– Não, Rose.

– Porque eu não preciso disso.

– Eu sei. Eu te amo. É por isso que eu vou te pedir em casamento – apressou-se a dizer.

– Não – ela pediu fechando os olhos. – Não me peça.

– Quê?

– Não faça isso. Se eu me casar com você, seremos uma família para Zoe. E se você for embora, você terá que se despedir da Zoe. Ela perderá alguém que ela gosta, porque eu sei que você não vai voltar uma vez que for embora. E eu não posso permitir que ela se machuque outra vez.

Depois de todas essas palavras proferidas no mesmo tom de voz, Paul tirou as mãos dela. Lentamente. Sem acreditar.

– Isso é um grande “e se” – ele murmurou, chocado. – Eu não vou embora.

Você diz isso agora.

– A última vez que não me importei com um “e se”, eu tive uma filha antes dos meus vinte anos. E o coração quebrado. Então me desculpe por eu não me atrever a arriscar.

Ele olhou para o nada durante alguns segundos.

– Quando você disse que precisávamos conversar... O que isso significa? Você ia terminar comigo?

Rose não soube o que dizer.

– Caramba – ele disse, desnorteado. – Bem, obrigado por avisar antes. Que você não quer se casar. E evitar o desastre que teria sido se eu tivesse me ajoelhado na frente de todo mundo.

– Paul...

– Isso é por causa dele?

– Não é por causa dele.

– É sim. Você ainda sente alguma coisa por ele.

– Isso não é sobre Scorpius! – ela disse zangada. – É sobre mim. Você tem escolhas. Você tem escolhas de ir embora quando você quiser. Eu não. Eu tenho uma filha, e eu tenho que pensar o que é melhor para ela.

– Por que você está insistindo que eu vou embora?

– Porque é o que todo mundo faz! – aumentou a voz.

E se interrompeu, engolindo o eco no fundo da garganta. Fechou os olhos, erguendo os ombros em um profundo suspiro para se recompor. Sentiu os olhares, mas já estava acostumada. Quando voltou a abrir os olhos, Paul ainda estava lá.

Rose passou a mão no rosto, e sua voz saiu mais baixa:

– E eu ouvi você conversando com Jeremy Blunt depois que fez sua apresentação hoje.

Jeremy Blunt era um dos maiores músicos da atualidade. Costumava recrutar grandes músicos para a sua orquestra. Internacionalmente.

Ela sorriu, quase tristemente.

– Ele fez uma proposta para você, não fez?

Paul afirmou, depois de um tempo.

– Tem me chamado para conhecer o Conservatório dele, em Amsterdã.

– Porra. E o que diabos você estava pensando ao me pedir em casamento?

– Eu estava pensando que eu te amo. Só isso.

Ela mordeu os lábios, visualizando a vela no centro da mesa. Quando ergueu os olhos para Paul, eles diziam: Estou evitando que faça a maior besteira da sua vida.

Os dois se encararam por pelo menos dois minutos.

E então Paul finalmente se levantou. Esperou alguma coisa, talvez por Rose impedi-lo. Quando notou que isso não iria acontecer, restou se inclinar para dar um beijo nela, de despedida, no rosto.

– Eu vou me despedir da baixinha amanhã – disse Paul como última sentença.

Rose seguiu a jaqueta dele com o olhar enquanto ele caminhava para fora do restaurante. Em poucos segundos, ela se viu sozinha em uma mesa para dois. Segurou a taça de vinho e, sentindo-se vinte anos mais velha enquanto observava o pianista, matou o líquido em um gole.

Verificou o celular sobre a mesa e se deparou com uma mensagem de Scorpius.

Provando que Zoe cumpre com as palavras dela.

Carregou a foto enviada. Era Zoe escovando os dentes, já com o pijama no corpo, dentro do banheiro de Scorpius. A boca inteirinha de espuma. Rose se pegou sorrindo, do jeito que a filha fazia, enquanto admirava a foto.

Não ia se arrepender de ter acabado as coisas com Paul. Ele tinha sido a fonte de muitas risadas e bons momentos em sua vida. Eventualmente, bem lá no fundo, Rose reconhecia que não seria um relacionamento duradouro, mesmo assim. Poderia estar com certas dúvidas naquele momento, pois nunca era fácil terminar um namoro e se despedir de um cara que a ajudou a seguir em frente. Mas ele também tinha os sonhos dele, e Rose não podia deixá-lo ficar porque ele a amava.

Isso nunca é uma justificativa. Uma hora, isso iria acabar. E não era pessimismo. Era a realidade. Rose aprendeu da pior maneira.

Ela dirigiu naquela noite, do jeito que fazem nos filmes: para espairecer e sentir a velocidade. Por minutos, horas ou dias. Não soube dizer. O rádio estava ligado e ela precisou aumentar o volume para reconhecer a música. Aquela mesma banda, o tempo todo, perseguia ela para onde quer que fosse.

Got to find yourself alone in this world
You've got to find yourself alone...

Por sorte, Al estava na casa dele. E era com quem ela queria estar naquela noite. Ela não precisou dizer nada, foi só o amigo ver a cara dela que já a levou para o sofá de seu apartamento. Não discutiram muito sobre os acontecimentos daquele dia, apenas sentaram lado a lado, devorando um pote de sorvete como se ainda fossem adolescentes, enquanto assistiam ao filme preferido deles. Jerry Maguire. Em uma das cenas mais icônicas do filme (“Você me teve no olá”), a porta do banheiro se abriu e o sr. Academia passou pela sala, dando uma piscadela para Rose em cumprimento. Pegou a jaqueta da poltrona e foi embora, sem mais nem menos.

– Não pergunte – disse Albus, colocando um braço ao redor de Rose para abraçá-la quando ela fez uma expressão surpresa e de quem ia perguntar muitas coisas. Al colocou seus pés na mesinha de centro, enfiando a colher na boca. – Não pergunte.

– Você nunca vai aprender a lição, não é?

– Quem é que aprende?

***

Scorpius ajeitou o travesseiro embaixo da cabeça de Zoe no sofá-cama da sala. Ela já tinha escovado os dentes e os olhos estavam se fechando aos poucos, mas a garotinha ainda encontrava energia para ficar acordada. Scorpius imaginou que era por um motivo.

Pigarreou e, tentando fortemente não se achar ridículo, começou a cantar. Só duas frases, de uma banda que ele gostava. Depois calou a boca e esperou a reação de Zoe gargalhar. Mas ela não gargalhou. Na verdade, olhou para ele bem curiosa.

– Por que você cantou?

– Porque... – Se deu conta que Rose mentiu de propósito. Riu de si mesmo. Mereceu aquilo. – Deixa pra lá.

– Eu gostei da sua voz, papai.

– Obrigado, coisinha.

– Canta de novo?

– De novo?

– Uhum.

Fez um último esforço. Não lembrava metade da letra, então ficou só balbuciando. Zoe deu uma risadinha.

– Canta de novo.

– Ah, agora já cantei demais – ele disse. – Sua hora de dormir. Você conversou com Rose?

– Sim... ela está com o meu tio Albus e com muitas saudades de mim. Canta de novo?

Com Albus? Não Paul? Scorpius franziu a testa, estranhando, mas não comentou nada.

– Sua barriga está doendo? – ele perguntou.

– Não. Canta de novo?

– Deixei um copo aqui caso você tenha sede durante a noite – avisou. Antes que ela pedisse para ele cantar de novo, Scorpius quis saber: – Coisinha, o que você faz para se acalmar se tiver um pesadelo?

– Eu penso na minha mamãe.

Ele olhou para Zoe. A resposta saiu da boca dela muito depressa. Já devia ser uma estratégia corriqueira.

– E você? – ela cochichou.

– Eu penso em você.

Zoe abriu o sorriso mais lindo do universo.

O mesmo sorriso da mãe.

Ela levantou a cabeça e os braços para abraçá-lo, encostando a cabecinha no seu ombro. Scorpius ouviu as palavras que aquele coração exausto precisava tanto ouvir:

– Te amo, papai.

Não adiantava mais se lamentar. Como Rose dissera, era hora de aproveitar as próximas chances que ele teria com ela.

E Zoe daria muitas chances.

– Eu também, Zoe. Desde o dia que te coloquei nos meus braços, você era minúscula... desculpe não ter te mantido neles. Fui bem idiota e...

Ela só precisava saber de uma coisa:

– Pode ficar um pouco aqui comigo? Até eu dormir?

– Claro – ele respondeu, baixo e calmo. – Estarei aqui na poltrona.

Ela assentiu e esperou para ver se ele se sentaria na poltrona mesmo. Quando ele fez o que disse que ia fazer, Zoe fechou os olhos para sonhos tranquilos.

Notas finais
"Canta de novo?" Que criança não pede pra gente fazer a mesma coisa trilhões de vezes? Espero que tenham gostado e que esse cap recompensou o anterior muito pequeno! Não somente pelo tamanho, mas pela quantidade e da importância de cada um dos acontecimentos. Inclusive agora com a decisão de Rose, os próximos capítulos revelarão muitas coisas. Até o próximo =) PS: Se alguém é curioso com citações, a música que Rose escuta no carro é Oceans, do Coldplay. E o filme Jerry Maguire é um comédia romântica de 1996 com o Tom Cruise. A cena que ela e o Al assistiam é essa (spoiler alert): https://www.youtube.com/watch?v=zTHfZFGoXoE kkkkkkkk