Fix You
27 Us Against The World
Notas iniciais
Capítulo 27.: Us Against The World
And if we could float away
Fly up to the surface and just start again
And lift off
Before trouble just erodes us in the rain
***
Apesar das distrações e da intensidade que seu trabalho estava exigindo dele nos últimos dias, Scorpius não se distraiu o suficiente para esquecer Zoe na escola outra vez. Estava precisando ouvir umas histórias aleatórias sobre coisas que só ela sabia contar, mas quando ele estacionou em frente a escola, a dor de cabeça aumentou ainda mais ao ver Zoe puxar Ralph Thomas até o carro para perguntar:
– Pai, você pode dar carona para o Ralph Thomas?
Scorpius encarou o garotinho.
– Os pais dele não podem buscar ele hoje – explicou Zoe.
– Entrem. – Ele parou o garoto no momento que Thomas ia entrar no banco de trás ao lado de Zoe. – Mais para o lado. Para o outro lado, sr. Thomas. Isso. Zoe, sente do outro lado. Encosta na porta. Ótimo. Coloquem o cinto.
– Papai – Zoe protestou meio nervosa, obviamente querendo sentar ao lado do amigo, mas agora tinha o banco vazio entre eles, para deixar Scorpius mais tranquilo e feliz.
No caminho, Scorpius ficou ouvindo a conversa deles. Conversa de criança, sobre jogos e desenhos na televisão. Zoe gostava das coisas que Ralph Thomas gostava, por isso o assunto perdurou por vários minutos até o momento em que o menino disse:
– Pode me deixar aqui, senhor.
Ele gostou do modo como o garoto o chamou de “senhor”. Manteve o respeito, não estava provocando Zoe. Ótimo.
– Você mora por aqui?
– Moro no prédio daquela esquina. Obrigado. Tchau, Zoe.
O garoto pegou a mochila, fez um tchau rápido com a mão para Zoe e caminhou depressa até o prédio onde ele morava. Zoe disse a Scorpius:
– Ele não é assim educado sempre. Já falei que você assusta ele, não falei?
– Falou – respondeu sorrindo. – Assim me deixa mais tranquilo.
Zoe ficou um pouco quietinha nos próximos minutos em que Scorpius a levava para a lanchonete preferida deles. Ela tomou seu milk-shake favorito sem fazer inúmeras perguntas e, Scorpius, que passava por um período estressante na carreira, preocupou-se com ela mais do que com ele.
– Aconteceu alguma coisa? Parece desanimada.
Ela deu um longo suspiro e mentiu:
– Não é nada.
– Você pode falar para mim.
– Tá.
Mas ela não disse nada.
– Está chateada comigo ou...?
– Não, papai. É coisa da escola.
Scorpius não insistiu em saber. Se Zoe quisesse contar a ele já teria feito no momento em que pisou no carro. Ele decidiu apenas sorrir para ela, e recebeu o sorriso de volta, porém não com todos os dentinhos à mostra. Finalmente, quando eles estavam passeando até o carro, Zoe perguntou:
– Se uma pessoa está de mal com você... o que você faz pra ela não ficar mais de mal?
Ele pensou.
– Eu espero a mágoa passar. E depois tento não deixá-la chateada de novo.
– A Amanda disse que não quer mais ser minha amiga. E se a mágoa dela não passar?
– Ela não quer mais ser sua amiga? O que aconteceu?
– Eu não sei! – A essa altura, a pequena Zoe estava com a voz embargada. Se atrapalhou com a coerência das frases. – Ela está estranha porque eu deixei ela brincar com meu joguinho só um pouco e o Ralph Thomas jogou mais porque ele é bom aí eu falei que ele era bom aí ela achou que eu estava dizendo que ela não era boa, mas ela não é boa no joguinho mesmo e eu deixei ela chateada e ela não quer mais falar comigo, eu não sei o que eu faço porque ela é a minha melhor amiga!
– Calma, calma... – ele pediu depressa. Estava tirando a chave do bolso, mas quase deixou escorregar da mão quando viu que Zoe estava chorando e isso era simplesmente devastador. Precisou segurar o braço dela e se sentou no primeiro banco da calçada que ultrapassavam. – Ela só está chateada agora, vai passar. Não é tão grave.
Os olhos dela ficavam brilhantes com as gotas de lágrimas.
– E se demorar pra passar? Hoje ela nem foi conversar comigo.
– Às vezes as pessoas que brigam com a gente por coisas assim são as que mais gostam da gente. Então, sei lá, vai passar. De um jeito ou de outro.
Segurou o ombro dela e Zoe assentiu com a cabeça, acreditando nele.
– Vamos buscar sua mãe? – perguntou, querendo animá-la.
– Sim – ela disse, enxugando o rosto depressa. Scorpius se levantou primeiro e sentiu que os dedos da filha se apertavam em volta de sua mão enquanto caminhavam juntos.
***
– ... e foi mais por esse motivo que eu decidi acabar com isso, sabe? Eu não estava mais aguentando. Perdi a confiança da minha família e... sei lá, sabe? Não quero perder minha vida... quero ter uma família só minha, uma esposa, um filho. Não conseguiria se eu continuasse com essas coisas. E... tem outra coisa... acho que estou apaixonado. E quando você está assim... você quer mudar tudo sobre você. Todas as merdas que fez...
Draco desligou sua cabeça para as inúmeras palavras que se seguiram da voz daquele jovem entre todas as outras pessoas presentes na roda. Ele se esforçou muito para se preocupar com a vida delas, mas era como assistir a uma televisão com o som desligado.
Seus ouvidos estavam dormentes quando o som dos aplausos o despertou de um provável sono. Ele percebeu, então, que os olhos estavam virados para ele agora.
– Draco, alguma coisa que queira compartilhar com a gente? – disse a mulher que comandava aquela troca de conversas sobre problemas alheios. – Ainda não nos contou nada sobre você.
Ele pensou por muito tempo até dizer:
– Não, nada que eu queira compartilhar.
– O motivo de estar aqui com a gente, pelo menos?
– Minha mãe ainda manda em mim.
Aquele simples comentário fez o pessoal dar algumas risadas.
– Garanto que não é o único. Mais alguma coisa?
– Não – ele disse orgulhoso, e ninguém mais insistiu.
Acendeu um rápido cigarro enquanto caminhava para fora do local com as outras pessoas, depois que a reunião deu por encerrada. Afastou-se delas o mais depressa possível antes que tentassem puxar algum assunto. Estava fumando tranquilamente quando viu um rosto conhecido saindo da cafeteria do outro lado da rua. Ele desejou usar uma capa para se esconder, mas Pansy Parkinson sempre dava um jeito de vê-lo nos piores momentos.
– Draco?
Não via sua ex-namorada de colegial há muitos anos e o reencontro foi nada menos que espantoso. Não deu nem tempo de Draco disfarçar que estava ocupado falando no celular.
– Parkinson, como vai?
– Quanto tempo, não?
– Sim. Eu estava fazendo umas... compras.
– Umas compras.
– Sim.
– Céus. Eu não flagrei você traficando, flagrei?
– Flagrou. Eu sairia o mais rápido possível, se fosse você.
Ela riu um pouco, passando a mão na testa.
– Alexis me contou sobre seu pai. Sinto muito.
– Ele está melhor do que todos nós.
– Concordo. Certo, foi bom revê-lo. – Ela estava a um passo de se afastar. – Até algum dia.
Draco enfiou as mãos nos bolsos e não deixou que a ex-namorada se afastasse.
– Você mudou – ele disse. – Parece menos... – encontrou a palavra perfeita, observando o sofisticado sobretudo que Pansy usava – vadia.
– Oh, sou uma moça de família agora, Draco – brincou no mesmo tom.
– Absolutamente. Alexis é uma boa garota. Boa advogada, meu pai gostava muito dela.
– Incrível como nunca mais nos encontramos. Você simplesmente... desapareceu. Bem, não simplesmente, depois do que aconteceu à irmã da Daphne, eu não posso culpá-lo.
Ele ficou calado.
– Você está ocupado agora?
– Bem, estou traficando.
– Claro, e eu não vou atrapalhar. Quando terminar... você pode conhecer a minha nova clínica. Ali naquele prédio. – Ela apontou para o prédio no outro lado da rua. – Caso quiser conversar algum dia.
– Ainda é ginecologista?
– Ainda. Só mudou de lugar.
– Certo. Talvez algum dia, quando eu virar mulher, marco um horário.
Parkinson riu, e Draco acompanhou.
– Tchau, Draco.
Ele a observou se afastando, silenciosamente. Despenteou os cabelos como se tivesse voltado aos dezessete e, não acostumado a tal sensação, precisou de mais um longo trago no cigarro. Estava sóbrio há mais de uma semana e parecia carregar o peso do mundo.
***
Quando Albus Potter contou a sua prima que ele era gay, a resposta de Rose foi a seguinte:
“Certo, e qual é a novidade que você disse que ia me contar?”
Ela nunca precisou que ele revelasse diretamente, ou sentasse com ela para conversarem sério sobre isso. Não que Rose tivesse o famoso tipo de radar, mas ela conviveu com Al tempo suficiente para conhecê-lo na palma da mão. Reparava, na época do colegial, que ele nunca falava sobre garotas de um modo que denunciasse sua vontade de comê-las, e não somente por ser cavalheiro e educado. Quando Rose terminara com Lorcan Scamander por mensagens de celular, ele foi o responsável por fazê-la superar através de doces, os dois acompanhados com filmes de comédia romântica, Tom Cruise e super-heróis vestidos com roupas bem justas.
E, claro, quando Albus deixou cair da mochila uma HQ gay, Rose não ficou mais com dúvidas.
“Então você sabe?”
“Al, ontem você foi o primeiro a reparar no vestido horrível que a professora estava usando. E também olhou para Terence quando ele tirou a camisa depois do jogo de futebol. E perguntou se o Scorpius é bom na cama. Você deixa algumas pistas.”
“Olha, a pergunta que eu fiz sobre o Malfoy foi apenas porque eu me preocupo com você. Qual seria a vantagem de ter só tanquinho se a torneira não funcionasse? Seria bem chato pra você.”
Ela riu.
“Você não presta.”
Eles estavam no carro tendo essa conversa, minutos depois de Rose ser convidada para ir ao baile de formatura naquela época. Convidada por Scorpius. Mas ela recusou porque Albus e Rose tinham combinado desde o primeiro ano que iriam juntos. Albus estivera a fim de um cara que não estudou no colégio deles, e nem era conhecido por ter o mesmo interesse que ele. Albus tinha mania de gostar de caras que não gostavam de... caras. Sem contar sua maior exigência:
Você tem que ser team Vingadores.
Michael, seu atual namorado, era team Vingadores. Gostava de tudo o que Albus também gostava. Era bem sucedido, colecionava artefatos nerds e ainda cuidava de um garotinho incrível de dois anos. Tinha responsabilidades maiores, não pensava em besteiras, era maduro e ao mesmo tempo criança, gentil e ao mesmo tempo direto. Tinham tudo para dar certo, mas havia um problema.
Tinha gente que não aceitava isso.
– Michael, você precisa sair desse prédio.
– Preciso?
Estavam discutindo. Era algo novo para eles também, as discussões. É isso o que acontece quando começa a conviver muito com uma pessoa.
– Só por causa dessas ameaças? Sabe quantas vezes já escutei o que eu escuto quando subo para o meu apartamento? Eu já to calejado com as ofensas.
– Todos os dias aqueles filhos da puta passam por aqui. E hoje foi a gota d’água. O que eles fizeram com a merda do teu carro foi imperdoável.
– Ficou até bonitinho. Usaram tinta rosa neon para escreverem o “eu sou veado” nas janelas.
– Não tem graça – ele retrucou furioso.
– Esquece isso, Al.
Michael se aproximou para apertar o rosto dele e fazê-lo olhar bem para os olhos.
– Pessoas não mudam, e não há nada que eu possa fazer. Uma coisa é certa... eu não vou abandonar a minha casa para fugir desses idiotas.
– Mas eles não param.
– Vão parar. Uma hora cansa.
Às vezes Albus não gostava tanto do jeito desencanado dele. Por contradição, ás vezes gostava que ele não fosse do tipo que dava a mínima para o que as pessoas pensavam sobre o que ele dava. Não importava para Michael, ele sempre tinha um jeito de se distrair das ofensas que recebia pela rua devido a sua opção sexual. Levava as coisas na brincadeira, mesmo coisas sérias. Albus ficou bravo pelo namorado não pensar que Luke poderia também ser prejudicado na escolinha e Michael, furioso, acusou que ele estava se intrometendo demais na vida dos dois. Brigaram naquela tarde, tão feio que não se falaram por alguns dias.
E era exatamente por isso que ele estava tão distraído quando Zoe chacoalhou o braço dele, em uma noite de sábado de novembro.
– Tio Al? Consegue me ouvir? É a sua vez.
– Desculpa, Zoe, fiquei sem vontade de jogar hoje. Podemos só assistir televisão enquanto a gente espera seus pais voltarem?
Ela escondeu a decepção, pois esteve muito empolgada para ver o tio Albus naquela noite e ter o tempo todo para só brincar com ele.
– Tá bom.
Não conversaram muito durante o tempo em que assistiam ao programa. Mas depois Zoe perguntou curiosa:
– Tio Al, se alguém está de mal com você... como você faz para ela não ficar de mal?
– Boa pergunta, eu também queria saber.
– Minha amiga Amanda está de mal comigo. Eu disse a ela que ela não era muito boa no jogo. O Ralph Thomas é melhor.
– Michael também está de mal comigo. Por isso estou chato hoje, então desculpe, beleza?
– Quando uma pessoa briga com você por uma coisa é porque ela gosta de você – disse Zoe sabiamente. Albus virou o rosto para a menina, surpreendido. – Papai me disse.
Isso o fez abrir um leve sorriso. Albus refletiu durante o tempo em que observavam a televisão. Quando sentiu o celular vibrar em seu bolso, deslizou o dedo pela tela a procura do contato de Michael e apertou sobre a foto do rapaz e de Luke fantasiados como Darth Vader. Pensou em mandar mensagem e tentar consertar as coisas.
Não parecia um período de sorte para todos, naquelas semanas friorentas de novembro. Para o lado de Scorpius: clientes desesperados, dinheiro faltando, brigas na firma e não encontrava uma boa secretária que pudesse entrar no lugar de Elisa, então tudo estava uma desordem total – e ele ainda não queria acrescentar o fato de que o homem que ordenou sua morte há um ano estava para ser liberado de sua sentença, se o outro advogado fosse bom o suficiente na corte. Nos finais de semanas, tempo que ele podia com tranquilidade esquecer um pouco sobre papeladas e crimes, Scorpius concentrava-se em sair para um jantar com Rose. Uma semana sozinhos; outra semana com a filha. No entanto todas as tempestades do mundo decidiam, naquelas noites, tomar conta do céu de Londres, encharcando todos os seus planos.
Mesmo assim havia motivos para sorrir. Como isso era estranho. Ele ainda queria sorrir com tantas merdas acontecendo nas semanas. Estavam rindo quando Rose abriu a porta do apartamento. Como já passava da meia-noite, tentaram entrar de fininho, mas haviam tomado pouco mais que três taças de vinho acompanhadas com inúmeras conversas. Scorpius apertou Rose contra a porta do apartamento, beijando-a lentamente na boca.
– Está um pouco molhado aqui – ele sussurrou, apoiando os lábios sobre o queixo dela, sugando de uma forma nem um pouco exagerada a área úmida pela chuva que enfrentaram lá fora. – E aqui... – Começou a beijá-la no pescoço, então ouviu a vibração das palavras dela:
– Não estamos sozinhos. Calma, espera aí.
Ela tirou os saltos, jogando-os em algum canto da sala. Ultrapassou o sofá para verificar o quarto de Zoe e se deparou com a cena da menina deitada na cama, dormindo tranquilamente. Na cadeira ao lado, Albus estava babando com um livro aberto sobre o peito. Gentilmente, Rose segurou o ombro dele.
– Ei, Al.
Ele resmungou e acordou aos poucos, enxugando a boca. Rose sorriu ao ver que o primo estava com as unhas pintadas com a cor preta, algo que ele deixaria só Zoe fazer com ele quando passavam tempos juntos.
– Tiveram uma boa noite? – ela perguntou baixinho.
– Sim, foi divertido – ele disse. Passando pela porta do quarto da menina, Albus contou ao mostrar a HQ dos Vingadores: – Eu estava educando a Zoe com isso, espero que não se importe.
– Ela está se saindo bem?
– Ela gosta do Tony Stark – ele respondeu sorridente. – E como foi a sua noite? – Viu Scorpius sentado no sofá e deduziu. – Ou ainda está sendo? Mil desculpas. Vou sair agora, então.
– Não se preocupe – disse Rose depressa embora estivesse levando-o para fora do quarto. – Muito obrigada por cuidar da Zoe.
Albus foi embora, decidindo que iria contar para Rose sobre seus problemas no dia seguinte, quando ela não estivesse ocupada. As coisas estavam se saindo bem para ela e ele era altruísta o suficiente para não atrapalhar.
– Zoe está dormindo? – Scorpius perguntou sorrindo, puxando-a pelo quadril, quando se viram novamente sozinhos. Rose inclinou-se para beijá-lo com as pernas ao seu lado, sentada em seu colo no sofá.
– Shh – ela pediu, ironicamente, pousando um leve dedo nos lábios, para ele não emitir um som tão estrondoso quanto um sussurro. Tempos sozinhos eram preciosos.
A boca dele traçava um caminho úmido e gostoso sobre a pele clara dos ombros dela, o auxílio do dedo afastando o leve tecido da alça do vestido centímetros para baixo. Ele mordeu os lábios e a garganta pendeu um gemido masculino sufocante quando Rose desceu a mão direita bem acima do volume da calça jeans do rapaz, massageando com ternura e cuidado. Ele a interrompeu brevemente para se erguer e as pernas dela entrelaçaram-se ao redor da cintura dele. Andou com ela até o quarto, mas não parou na cama. Ultrapassou o armário para irem até o banheiro, onde Scorpius trancou a porta, desceu Rose de seu colo e começaram a despir-se.
Rose desabotoou os botões da camisa dele quando já estava sem o vestido dentro do boxe. Desceu o tecido pelos braços dele e, quando a jogou em algum canto do banheiro, ela sentiu a água do chuveiro jorrar sobre sua cabeça, morna e suficientemente deliciosa para aproveitar o gosto da pele quente do peito dele, e mais para o lado sentir a cicatriz que guardava as lembranças de um episódio assustador. Ela parou um pouco, afastando os lábios como se tivesse levado um pequeno choque. Ergueu os olhos para Scorpius, sem muitas dificuldades de encontrar as íris acinzentadas. Talvez fosse o reflexo dos próprios seus, mas dessa vez ela viu um tom azulado nos dele.
Muitas vezes Rose acreditou que estivesse fazendo aquilo por Zoe, porque ela precisava dos pais juntos, na mesma sintonia, no mesmo ritmo e no mesmo lugar. Boa parte das razões que a fizeram sorrir para ele embaixo daquele chuveiro, o vapor da água e do contato dos corpos tirando qualquer indício da baixa sensação térmica, poderia ser relacionado ao fato de que eles tinham uma filha.
Mas se fosse mesmo por isso, talvez o coração dela não batesse assim com o dele. Talvez ela não sentisse que seus beijos fossem naturais. Ainda tinha aquela pontada de preocupação, de insegurança, mas já eram adultos e tinham passado por coisas que poderiam ser superadas.
Scorpius dizia palavras que soavam sinceras, mas ela conhecia que muito dessa sinceridade vinha da forma ágil como sabia manipular. “Eu nunca quis te machucar daquele jeito, Rose.” Ela o conhecia. Passou por ele. Foi um bom namorado quando namoraram. Mas somente quando as coisas desandam é que você descobre o que uma pessoa é.
Rose sabia o que Scorpius era.
Muitas coisas. Ruins e boas.
Ela era idiota por ter dado atenção as boas? Pois ao contrário seria hipocrisia. Rose fez algumas coisas que também não foram admiráveis. Como poderia só culpá-lo por tudo o que aconteceu? Se Rose não tivesse saído do país, Scorpius poderia ter participado de muitas coisas no crescimento de Zoe.
Ela pensava sobre isso, sobre suas escolhas. Afetaram a ambos.
Importava agora as escolhas que acarretariam o futuro deles.
Ela escolheu mais uma chance.
Estavam bem agora.
***
Foi na manhã seguinte que Zoe aprendeu a fazer o nó da gravata de seu uniforme da escola sem auxílio de nenhum adulto. Ela já tinha mais do que oito anos completos e, desde o dia em que seu pai ensinara os passos de como adquirir um bonito nó na gravata, a primeira coisa que Zoe fazia quando acordava era imitar o jeitinho que tantas vezes ela observou o pai fazer.
Quando conseguiu na primeira tentativa, sem se importar em colocar pantufa ou meia ou chinelo ou trocar o pijama, com a gravata ao redor do pescoço, Zoe correu depressa pela casa.
– Mãe, mãe! Eu consegui!
Ela andou em todos os lugares da casa e, como não encontrou Rose nem mesmo na salinha de pintura, abriu a porta do quarto dela depressa, exclamando:
– Consegui fazer um nó-
– Zoe!
A mamãe estava abraçada com um moço no outro lado da cama, com os lençóis cobrindo eles. O moço não vestia a camisa. Quando ele ergueu a cabeça assustado, Zoe sorriu.
– Bom dia, papai!
– Zoe, nós estávamos... Seu pai está aqui hoje... porque ele estava...
– A cama tinha quebrado – disse Scorpius, embora ele não tivesse feito nenhum movimento para sair depressa. Aliás, estava se segurando para não gargalhar, ainda com um braço envolvendo a cintura de Rose. – E eu ajudei sua mãe consertá-la.
Mas ele falou isso dando um leve beijo no ombro de Rose, que estava tão paralisada com o lençol até o pescoço que também não se mexeu.
– Viu? – Rose exclamou, apertando firmemente a cabeceira da cama. – Viu? Ela está firme agora. Está arrumada.
– Mamãe, você está sem sutiã.
– Sim, eu estou – ela falou ironicamente tranquila, com um imediato movimento para tampar o busto com o lençol que escorregou. Deu um tapa discreto em Scorpius quando ele começou a rir alto perto do ouvido dela. – Eu estou e isso foi um acidente.
Percebendo que sua mãe estava completamente embaraçada, Zoe decidiu ajudá-la.
– Eu vou escovar meus dentes.
– Excelente ideia, filha. Excelente... Pode fechar a porta ao sair? Obrigada.
– Bem – disse Scorpius quando Zoe saiu e fechou a porta. Ele segurou Rose e a fez se virar para ele. Os dois riam, embora Rose estivesse com os olhos parcialmente arregalados de susto. – Pelo menos não sou alguém estranho.
E não era mesmo. Scorpius Malfoy pouco se lembrava da última vez que passara tanto tempo com a filha e com Rose, ou outra mulher, em geral. Foram vezes que ele esperava poder suprir a falta que fez na vida de Zoe. Ele estava em uma época atípica de sua vida e de sua rotina. Agora ele passava as noites com Rose durante as sextas. Isso não foi nem um pouco programado, apenas se transformou em um hábito naturalmente. Afinal de contas, Scorpius ia a festas nas sextas-feiras. Antes delas. Acordar com um susto da Zoe em plena manhã de sábado ou com o barulho de alguma coisa se quebrando na cozinha, fazia o humor de Scorpius ficar um pouco melhor. E não com ressaca.
– Por que você acorda tão cedo, filha? – Scorpius perguntou a Zoe quando, já com as roupas trocadas, ele se aproximou dela na cozinha. Sempre tentando pegar aquela tigela do Olaf para o cereal da manhã, apoiada com os pés na cadeira para ficar a altura que ela só teria em, talvez, cinco ou seis anos. Ou menos, pela maneira rápida como estava esticando.
– Oh, o céu acordou então eu também acordei! – ela quotou com certo tom dramático ao pousar as costas da mão em sua testa. Scorpius apontou com o dedo.
– Eu entendi a referência. Estou ficando bom nisso – sorriu para Zoe. Depois de suportar várias horas repetidas com o filme preferido de Zoe, quem não entenderia a referência?
– Olha só! – Ela mostrou a gravata. – Fiz o nó sozinha.
– Ficou bom.
– Posso fazer o nó da sua gravata, papai?
– Pode.
A gravata estava pendurada nos ombros dele. Zoe precisou se erguer na cadeira novamente para, na altura do pai, aplicar o nó com a maestria de uma criança. Ficou bom o suficiente para Scorpius, que apenas ajeitou no colarinho para ficar mais confortável, uma vez que Zoe quase sempre o enforcava quando apertava o nó em seu pescoço.
Rose gostava de vê-los assim, então estava sorrindo quando surpreendeu a filha com um beijo no topo da cabeça dela.
– Bom dia, coisinha.
– Coisinha? O papai que me chama assim!
– Sempre gostei do jeito que ele te chama. Se eu não puder chamá-la assim, é só dizer.
– Tá bom. Eu deixo. Mas só você, mamãe.
– Só eu.
– Só. Porque vocês estão namorando. Nenhuma outra moça vai me chamar de coisinha. Ouviu, pai?
Scorpius olhou surpreso para a colher que sua filha apontou para ele quase que ameaçadoramente. Ele até colocou as mãos para o alto.
– Sim, senhorita.
Rose se adiantou até o fogão rindo da expressão de Scorpius, mas foi interrompida quando o telefone tocou no outro lado da sala. Enquanto Rose atendia, Scorpius observou Zoe e reparou em uma coisa.
– Precisamos medir isso aí.
– O quê?
– Sua altura.
Foi como música para os ouvidos de Zoe. A pressa da menina em ficar alta era tanta que ela largou o leite e se encostou imediatamente na parede da cozinha, onde duas marcas estavam registradas desde o dia em que a mãe e a filha voltaram para Londres.
– Dos sete aos oito, você cresceu... – fez suspense e mediu a diferença. – Sete centímetros.
Zoe derrubou os ombros e o sorriso murchou.
– SÓ sete centímetros? Eu tive que esperar um ano para crescer só sete centímetros?
Scorpius despenteou os cabelos dela.
– Não tenha pressa para crescer.
Nesse momento, a voz de Rose cessou e ela voltou para a cozinha com uma expressão pálida, apertando o telefone contra o peito. Zoe estava encostada novamente contra a parede, tentando esticar o pescoço até ultrapassar a marca da caneta vermelha, mas não estava conseguindo sem que se erguesse nas pontas do pé. Aproveitando a distração da filha, Rose chamou Scorpius com o olhar. Os dois, na sala, encararam-se.
– É sobre o Ralph Thomas – ela cochichou e, por alguma razão, a voz de Rose falhou um pouquinho. – Ele caiu de bicicleta.
Scorpius não precisou que ela disse muito mais que isso. Já teve experiências com aquela expressão.
– Essa expressão não é só porque o menino quebrou a perna, certo?
– Ele está no hospital. Foi traumatismo craniano e ele não... está... ele não resistiu muito bem e está em coma. Estado grave.
Abanou a cabeça, tendo a péssima sensação de que não estava preparado para esse tipo de situação. Não gostava do garoto, isso era certo, mas do jeito ciumento. Zoe era preocupada com as pessoas que ela gostava. Scorpius não gostaria de vê-la triste.
Rose também era sensível a ponto de estar reunindo lágrimas nos olhos.
Ambos não souberam muito bem o que fazer. A última vez que Zoe tivera uma notícia grave, ela não aguentou. Seu avô paterno havia morrido e, mesmo tendo encontrado o homem tão poucas vezes, ela chorou muito. Ou talvez fora o modo como Scorpius dera a notícia, tão diretamente. Ele não tinha tato para isso, então não se atreveu a abrir a boca sobre Ralph Thomas quando Zoe apareceu na sala, percebendo algo estranho.
Desse modo Rose precisou reunir a compostura e, sabendo que Zoe não suportava vê-la chorar pois choraria também, ela as enxugou depressa. Mas foi tarde demais. Zoe tinha vista.
– O que aconteceu, mamãe?
– O Ralph Thomas, querida. Sofreu um acidente. Era a mãe da Amanda no telefone e ela me contou que ele caiu da bicicleta dele...
Zoe não entendeu o verdadeiro problema porque bufou.
– Ele não sabe andar de bicicleta. Por que ele estava andando de bicicleta se não sabe? Ele disse para mim que os irmãos dele ficam tirando sarro dele porque ele só sabe andar com rodinha. Ele tirou as rodinhas, então? É claro que ele iria cair!
– Eu não sei, Zoe, eu-
– Vou falar com ele na escola. Ele está bem, né?
– Filha, ele não vai para a escola por um tempo. Ele machucou a cabeça e... ele precisa dos médicos para cuidarem dele agora. Está no hospital.
Ela abandonou a expressão de “o Ralph Thomas é um besta mesmo” quando ouviu a palavra médico. Por alguma razão, Zoe ergueu a cabeça para o outro lado, para Scorpius, como se achasse que Rose estivesse brincando. Se estivesse, o papai não estaria tão sério como estava.
Zoe não falou muita coisa quando Scorpius confirmou que era verdade, e ele não costumava mentir a ela sobre essas coisas. Mesmo que ele não gostasse de Ralph Thomas.
– Escute – disse Rose, aproximando-se da filha cautelosamente. – Aconteceu ontem... então hoje nós podemos visitá-lo, mas ele está dormindo e-
– Eu não quero ver ele.
Não foi uma frase que Rose esperaria ouvir da voz de Zoe. A menina se afastou da mãe, passou pelo pai e sentou no sofá, para assistir a televisão segurando o Olaf de pelúcia que tinha por perto. Apertou o brinquedo contra o peito e encostou o queixo na cabeça de pelúcia, olhando fixamente para o desenho animado na tela.
– Ele iria gostar muito que fosse visitá-lo, Zoe. Muitas vezes a força de uma amiga por lá pode ajudá-lo a melhorar bastante.
Ela negou com a cabeça, em uma mistura emburrada e cabisbaixa.
Rose e Scorpius se entreolharam.
– Não vou insistir que faça algo que não quer – disse Rose, sentando-se ao lado dela. – Sei que não gosta do clima de hospital.
Zoe não disse mais nada, e isso era preocupante. Rose não a entendeu, mas não fez questão de querer entender. Sua filha passava pelas próprias emoções e mesmo uma mãe não tinha como controlá-las.
– Então, você está pronta para ir à aula de teatro?
Ela negou com a cabeça.
– Você quer ir à aula de teatro hoje?
Ela fez o mesmo movimento.
Zoe nunca faltava a aula de teatro.
Rose lançou um último olhar para Zoe e passou a mão nos cabelos dela, dizendo baixinho:
– Ele vai ficar bem, tá?
Zoe se levantou do sofá, deixando a mãe com o braço suspenso no ar. Scorpius acompanhou os passos de Zoe até o quarto da menina e a viu pegar o console de jogos que ganhara dele em seu oitavo aniversário na escrivaninha. Zoe pediu com educação quando o viu parado no buraco da porta de seu quarto:
– Posso ficar sozinha, pai?
Ele a entendeu e a respeitou.
– Que acha de eu trazer o Cupcake para cá?
– Uhum – ela respondeu e Scorpius teve a sensação de que já não era a primeira vez que estava presenciando Zoe tentar esconder alguma emoção para ele. – Eu vou adorar ter o Cupcake aqui também.
– Vou preparar uma panqueca agora, quer?
– Não precisa. Eu to sem fome.
Sentada na ponta de sua cama rosa e desarrumada, Zoe tirou a gravata do uniforme da escola no pescoço e ficou como o brinquedo em frente ao rosto, concentrada em vencer o desafio do jogo. Nesse momento Scorpius quis ser prestativo, quis ajudá-la e vê-la sorrir, mas ela recebeu uma notícia triste naquela manhã e ele não sabia o que fazer.
Voltou para a cozinha e viu Rose ajeitando o café para eles. Comeram em silêncio até que Rose disse:
– Nunca a vi assim.
– Ela ficou abalada. O garoto não é o meu preferido do mundo – disse Scorpius –, mas dá pra ver que ela gosta dele mesmo.
– Penso como os pais ficam se sentindo.
– Isso se eles se importam com o menino. Essa semana inteira eu tive que dar carona para ele porque a Zoe disse que toda vez esqueciam ele na escola e voltava sozinho a pé. E o menino mora longe.
Ficaram mais um tempo em silêncio, mas não era o mesmo silêncio que eles presenciaram durante tantos anos depois do nascimento da filha. Era um silêncio que ela usou para arrastar o braço e apertar a mão dele sobre a mesa, olhando para os dedos longos entrelaçando os seus, finos e macios.
– Meu pai me ligou ontem – Rose mudou de assunto. – Perguntando sobre nós dois.
– E o que você disse?
– Eu disse que voltamos.
– E o que ele disse?
Ela passou a mão no rosto, parecendo cansada.
– Um monte de coisa. Disse que eu não ia aprender nunca a lição e que você ia me deixar, deixar a Zoe, algumas outras coisas um tanto injustas.
– Eu não o culpo. Dei razão.
– Éramos muito imaturos naquela época. E o jeito que as pessoas inventam o que pode ter acontecido entre nós fez ele ter essa péssima ideia sobre você. E eu disso isso a ele, que se ele pudesse ter a chance de falar com você civilizadamente... bem, você poderia tentar mostrar que suas intenções estão no lugar no certo.
– Ele quer conversar comigo, então?
– Ele meio que se convidou para jantar aqui. Amanhã. O que me diz?
Scorpius recostou na cadeira, dando um longo e cauteloso suspiro. Enquanto analisava a situação ele conseguia escutar o som do joguinho que a Zoe estava enfrentando dentro de seu quarto. Scorpius brincou com os dedos de Rose. Ela esperava por um comentário dele.
– Já estava na hora, acho.
Estava na hora de provar alguma coisa.
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