Notas iniciais
Oi, queridos! Como estão? Como podem ver, Fix You tá de carinha nova... fiz outra capa, mas talvez eu volte com a antiga em alguns dias. Só precisava mudar o visual mesmo hahaha Estava com saudades de chegar ao final de semana e suspirar "aaah, hoje vou atualizar Fix You". Eu poderia esperar algumas horas para postar no domingo, mas pra que enrolar, não é? Tiveram mais palavras do que eu estava esperando para esse capítulo. Coisas significativas acontecendo para o Scorpius. Espero que gostem e aproveitem a leitura!

Capítulo 28.: Talk

"You could take a picture of something you see
In the future where will I be?'


***

Hugo Weasley estava tentando estudar, mas o som das vozes altas provindas do andar de baixo de sua casa impedia que sua concentração fosse absoluta. Frustrado com a gritaria dos seus pais, o rapaz tentou apertar os dedos indicadores de cada mão contra os ouvidos para tentar ocultar os ecos.

Estava na semana de provas finais e aquele período era intenso para ele. Não saía para beber com os amigos e precisava se afastar de sua namorada para que ela não o atrapalhasse. Hugo era obcecado pelas notas excelentes. Sua vida até os dezessete anos foi resumida em bom comportamento, milhares de prêmios de soletração na infância, assim como medalhas de ouros em olimpíadas de todas as matérias escolares e certificados de melhor aluno da classe todos os anos. E ainda diziam que o nerd da família era Albus Potter.

Não podia prestar atenção nas discussões. No entanto, dez minutos depois, quando o silêncio reinou na casa dos Weasley, Hugo ouviu duas batidas na porta e ele disse, tendo a certeza de que não teria mais sossego para estudar:

“Pode entrar.”

Era Rose. Ela estava com os olhos inchados e as extremidades do seu rosto coradas. Ela se sentou na ponta da cama do irmão para suspirar.

“Desculpe pela gritaria” ela disse, por fim, com a voz embargada. “Fodi tudo.”

“É” ele concordou.

Rose enxugou os olhos.

“Por que não vai até a casa da Lily pra estudar? É mais silencioso.”

Hugo girou a cadeira, ficando um tempinho em silêncio enquanto decidia o que dizer.

“Queria dar um soco no Malfoy.”

Rose conseguiu abrir um sorriso, porque não era sempre que Hugo demonstrava sua preocupação. Ele bem viu como sua irmã ficou constantemente abalada quando as coisas entre ela e o namorado dela começaram a ficar ruins. E depois que ela anunciou a gravidez para a família... as coisas pioraram.

“Agora não adianta.”

Hugo ficou olhando para Rose com um olhar indeciso e confuso.

“Rose, você tá esperando eu te dar um conselho? Eu só tenho dezessete anos.”

“Não é isso, é...”

Rose não sabia exatamente o motivo de estar querendo conversar com Hugo. Até se sentiu um pouco idiota porque não tinha razão para ir até o irmão mais novo. Tinha outras pessoas que poderiam ajudá-la, outros amigos. Talvez porque ele era sempre tão sistemático e parecia ser o único que não fazia muito alarde sobre o fato de Rose estar grávida do ex. Estava olhando para ela do jeito que sempre olhou. Como se ela fosse uma chata que estava atrapalhando os estudos dele. Apenas isso. Apenas a irmã de sempre.

“Vou tomar banho” ela disse, desistindo de entender a si mesma.

Hugo batucava o lápis sobre o caderno e, hesitando um pouco, precisou dizer quando Rose já estava saindo pela porta:

“Acho que tenho um conselho, sim.”

Rose achou que o irmão iria sugerir “esqueça o Scorpius”, mas tudo o que falou foi:

“Você podia ver se vai ser menino ou menina. O pai só tá pensando no que você fez de errado. Ele ainda não tá pensando no bebê.”

Nem mesmo ela estava pensando no bebê, mesmo com a barriga salientada. Ao notar isso, Rose teve uma sensação dolorosa de que estava sendo puramente egoísta e medrosa. Tinha uma vida dentro dela. Hugo era esse garoto avançado demais para a própria idade e tudo o que queria era que os pais ficassem bem com a irmã, assim não teria gritaria dentro da casa e ele poderia estudar sossegado. A ideia dele foi simples, mas foi o que mudou tudo.

Quando a doutora disse que seria uma menininha, Rose infantilmente pensou em uma boneca antiga que acompanhou todos os seus passos na infância. O nome dela não era Zoe, mas a amou com todo o carinho.

***

Bonecas não eram como filhas. Zoe ensinou isso a Rose na primeira amamentação, no hospital, depois que nasceu. E agora estava ensinando a ela que o tempo era assustador, pois ela crescia a cada instante. Por oito anos, toda a semana, Rose separou suas roupas com a de Zoe para lavá-las. Naquele domingo, ela sorriu tristemente quando segurou o gorro rosa que Zoe ganhara de brinde em uma loja de Nova York aos quatro anos. Costumava ficar enorme em sua cabeça até que foi se ajustando perfeitamente.

— Zoe, olha isso. — Rose saiu do quarto para, na sala, mostrar o gorro rosa a filha. — Por que você não me contou que está rasgado?

— Porque você sempre joga fora quando as minhas coisas rasgam, mamãe.

— Bem, eu não jogaria o seu gorro da sorte fora, seria loucura. Tentaria costurá-lo. Você quer que eu costure?

— Não precisa — ela disse depressa, tentando achar um canal interessante de desenho, deitada. — Eu não uso mais. Os meninos da minha escola dizem que fica feio.

— Eles dizem isso, é? Hum. Lembra quando eu disse que não precisa se importar com o que as pessoas pensam? Especialmente os meninos?

— Ralph Thomas diz sempre que eu fico feia quando coloco ele.

Rose derrubou o braço que segurava o gorro ao ouvir a menção do amigo dela. Limpando a garganta, pensou em dizer algo relacionado ao menino, mas não tinha notícias da melhora dele no hospital. Decidiu, por fim, voltar a arrumar o guarda-roupa dela e se concentrar em deixar a casa perfeita para quando seus pais estiverem chegando para o jantar.

***

Scorpius se viu lendo a conversa de David na foto que Rose compartilhou de um filme no facebook. Viu-se tão distraído que nem reparou que Cupcake subiu no sofá para morder o cabelo dele, em seu próprio apartamento.

David Thompson: Recomenda o filme?

Rose Weasley: Para quem gosta de Cult. Gosta de Cult?

David Thompson: Sim, curto demais.

Decidiu fechar a janela e dar um tempo com isso. Não tinha direito de ter ciúmes, mas era inevitável. Uma mensagem pipocou na tela de Scorpius, que o distraiu.

Rose Weasley enviou uma foto.

Era uma das fotos que Zoe tirou com ele pelo celular de Rose. Uma bela foto, para falar a verdade, bastante natural. Não que Scorpius nunca tivesse tirado foto com Zoe, mas aquela foi diferente. Quando ele a postou na rede social, Rose foi a primeira a curtir. Alguns minutos depois, até mesmo Albus curtiu. Seus colegas na firma e inacreditavelmente, a própria Emily Zabini. Assim como Portia e outras pessoas que nunca falaram com ele antes. Aproveitou e deu uma olhada básica nas antigas fotos que tinha em seu álbum. Ele não costumava postar muitas, mas era bastante marcado por outros contatos, principalmente em festas. Estava sorrindo em todas as fotos; diferentes mulheres no grupo. Podia se lembrar de algumas que ele comeu e não se falou mais sobre isso.

Ficou pensando que talvez devesse excluir aquelas fotos quando a tela de mensagem surgiu. Era Rose novamente.

Rose Weasley: Jantar em casa hoje, não vai furar, hein?

Ele digitou, sorrindo.

Scorpius Malfoy: Estou me preparando mentalmente.

Rose Weasley: Oi paapaai

Riu, porque sabia que Zoe digitou aquilo. Podia ter a imagem dela na cabeça, Zoe subindo no colo da Rose pra digitar no notebook, ou provavelmente celular. Zoe mandou trilhões de emoticons sorridentes para ele até que provavelmente Rose ficou meio nervosa e acabou tirando ela das teclas, pois as próximas palavras escritas, Scorpius leu:

Rose Weasley: Nos vemos mais tarde então.

Scorpius Malfoy: Até mais, Rosie.

Rose Weasley: Tchaaaaaaaaaaaau paaaaaaaaaaaaaaai

E ele ia jantar por lá mesmo, não era papo furado. Levantou-se do sofá, alongando os braços e Cupcake o seguiu até o quarto, onde ele abriu a porta do closet para escolher o que ia usar naquele jantar com os pais de Rose. Uma calça preta e uma camisa azul? Simples. Cupcake aprovou e Scorpius o colocou na caixa de transporte do cão, já que prometeu a Zoe que ia levá-lo para passar um tempo a mais com ela no apartamento de Rose.

Como era dia de pagar a taxa do segurança do prédio, Scorpius foi até a recepção onde Portia estava falando no telefone atrás do balcão. Não reparou em Scorpius, por isso continuou dizendo enquanto jantava a comida chinesa de sempre:

— Não, sim, ele era mesmo idiota. Com certeza. Você fez bem, devia ter terminado faz tempo até. Demorou pra terminar com ele. Amiga, ele foi um idiota com você e você tá aí chorando, ele não te merecia. Quer parar de chorar?

Ela girou a cadeira e deu de cara com um sorriso de Scorpius. Ela parou o garfo entre os lábios do batom vermelho e pigarreou.

— Eu te ligo depois — falou para a amiga no telefone. Ajeitou-se para olhar para Scorpius e atendê-lo. Profissionalmente, disse: — Boa noite, Malfoy.

— Portia. — E entregou o cartão para ela. Enquanto fazia seu trabalho, Portia fez a mesma pergunta de sempre:

— Vai ver a Zoe hoje?

— Já estou previsível assim?

— Tem passado bastante tempo com ela.

— E ela pediu para agradecer pela fitinha que você deu ao Cupcake, mas ela queria avisar também que ele é macho.

— Oh meu Deus. Eu achei que fosse fêmea por causa do nome.

— Ninguém te culpa.

Portia devolveu-lhe o cartão quando terminou, sorrindo.

— Divirtam-se — ela desejou. — Ah! E hoje tem bombons. — Tirou um deles do pote de bombons no balcão e entregou a Scorpius. — Ela vai adorar.

— Com certeza. Obrigado, Portia, mais uma vez.

Ela o observou indo embora, e se xingou baixinho depois. Portia abanou a cabeça, como que para espantar os pensamentos. Lembrou-se das inúmeras mulheres que ele trouxe para aquele edifício, e murmurou para si mesma: mereço alguém melhor. Mereço alguém melhor.

Não que Scorpius estivesse com muitas mulheres ultimamente. Ele estava só com uma e era a mãe da filha dele.

Portia saiu do balcão onde trabalhou por dois anos, segurando uma pasta nas mãos. Quase que tropeçando com os saltos para alcançar Scorpius em última hora, ela precisou reunir coragem para dizer:

— Sr. Malfoy.

Ele parou e se virou para ela.

— Deu problema com o cartão?

— Eu não pude deixar de ler no jornal que está procurando uma secretária para a sua empresa. Eu apenas queria deixar o meu currículo com você. Se não tiver encontrado uma... ainda.

— Hoje é domingo, Portia — ele disse quando viu Portia estender a ele a sua pasta. — Não estou trabalhando hoje.

— Eu sei — ela disse, recolhendo imediatamente a pasta e odiando-se. — Esquece. Esquece, então. Fui idiota agora. Com licença.

— Mas pensando bem — acrescentou antes que a moça desistisse. — Está difícil de achar alguém decente. — Esticou o braço.

Portia olhou para a mão dele, como se não entendesse porque ele estava com ela em sua direção.

— Seu currículo, Portia. Pode me dar. Amanhã, depois do almoço, eu ligo para marcarmos o horário com a entrevista.

— Sim — ela disse espantada. — Sim, sim. Obrigada, Malfoy.

— Você não deveria fazer isso.

— Eu sei, estou totalmente me aproveitando da situação de que você mora no mesmo prédio em que eu já trabalho para te entregar o currículo e-

— Estou dizendo que não deveria trabalhar para mim. Vou te dar dor de cabeça e nenhum descanso. Pense bem nisso antes de se decidir.

Portia não soube decifrar se o rapaz disse aquilo em tom de brincadeira ou não. Mas julgando pela leve piscadinha que ele deu antes de voltar a se afastar para o estacionamento, fez confirmar que ele estava definitivamente com o humor que Portia nunca viu nele.

***

Rose estava tão atarefada com a organização, a limpeza e o jantar que Scorpius não se surpreendeu, quando a porta abriu, ter que abaixar o rosto para ver Zoe. A primeira coisa que ela fez ao abrir a porta da sala para o papai foi exclamar depois de um ofego:

— Você trouxe mesmo o Cupcake!

— Ele está entediado lá em casa. E o meu beijo?

Ela tinha ficado tão eufórica para abrir a caixa e soltar o Cupcake pelo apartamento que se esqueceu de fazer o que sempre fazia. Ela agiu como se tivesse cometido um erro, pois depressa se ergueu na ponta do pé quando Scorpius se inclinou para receber o apertado beijinho na bochecha. Zoe sentiu cócegas porque a barba dele estava crescendo.

— Seu avô já chegou? — cochichou para a menina.

— Não — respondeu em confidencial, ajeitando o cãozinho no colo. — E a mamãe está maluquinha. Pirou de vez.

Scorpius fechou a porta atrás de si enquanto Zoe levava Cupcake para brincarem na sala. Sorriu com o comentário da filha; ele achou que ela pudesse estar exagerando como crianças fazem, mas quando deu o primeiro passo dentro da casa, percebeu que não.

A cozinha estava desarrumada, com espátulas e panelas espalhadas na pia, o fogão parcialmente sujo como se tivesse ocorrido um pequeno acidente. Rose vasculhava dentro da porta do armário a procura de algo, urgentemente. Scorpius apoiou o casaco sobre o balcão e falou:

— Rosie...?

— Ai, cacete — ela exclamou depois que bateu a cabeça na parte superior do armário. Massageando-a, exclamou: — Me assuste assim mais uma vez, Scorpius. Que horas são? Eu estou muito atrasada! A merda do frango queimou e, pelo visto, é basicamente só isso de especial que tinha para o jantar!

Quando Rose não se ocupava em censurar os palavrões com a filha dentro de casa, era porque a coisa estava desesperadoramente séria.

— E eu estou suja... e nem tomei banho ainda. Eu fiquei a tarde inteira limpando essa casa. Tinha ainda umas caixas que eu não desempacotava desde o dia que eu voltei pra cidade. Minha mãe ia achar isso muito lindo, a minha organização excelente. Imagine só.

Sua mania de mover os cabelos para trás das orelhas quando estava nervosa nunca a abandonou. Scorpius não costumava dizer muita coisa porque ela não sentiria melhor com um “acalme-se”. Ele apenas segurou o rosto dela e a beijou fraquinho nos lábios. Presa contra o calor deles, Rose disse com os olhos abertos:

— Então magicamente tudo vai ficar no lugar com um beijo desses.

— Quem sabe — sorriu de lado e se permitiu beijá-la outra vez. Rose não recusou, estava para quase desistir de toda a correria.

— Estraguei tudo.

— Quase — admitiu com a voz calma e tranquila. — Só o jantar.

— Eles vão achar que eu ainda continuo fazendo tudo errado. Isso se eles já não me consideram uma mãe desnaturada e...

— Que acha de esquecer isso e tomar um banho? Refrescar a cabeça.

— Você está me pedindo para refrescar a cabeça? Você tem noção que eles esperam demais desse jantar?

— É por isso que estou sugerindo refrescar a cabeça.

Ela respirou um pouco e o tom de voz diminuiu para um baixinho e exausto:

— É. Eu vou. Vou fazer isso.

Desamarrou o laço do avental da cozinha, largou-o sobre a mesa e andou até o corredor onde entrou em seu quarto. Scorpius acompanhou os passos dela com o olhar e quando voltou a verificar a bagunça da cozinha, Zoe estava empoleirada no balcão, olhando para ele.

— Não falei que ela tinha pirado de vez? Por que ela está tão nervosa? É só um jantar com a vovó e vovô!

— É por minha causa — ele respondeu, começando a se mexer para limpar a cozinha. — Sua mãe tá preocupada que eu estrague as coisas.

— Por que, papai?

— Já fiz antes. Várias vezes. Quando não fui na sua festinha, eu não queria vê-los. E sabe essa cicatriz? — apontou para a sobrancelha. — Foi o seu avô que fez isso em mim.

— Foi meu avô? Ele te machucou? — Por um momento Scorpius se preocupou que tivesse feito a filha ver o avô como um cara malvadão, mas se enganou, porque Zoe disse: — Então você merecia, né? Vovô não bateria em quem não merecesse.

Scorpius engoliu a gargalhada.

— Merecia. Muito.

— Aí depois você aprendeu a lição, né?

— Algumas — admitiu.

— Ralph Thomas já entrou em briga antes, sabia? Ele e um menino mais velho. Ele perdeu bem feio, a diretora até foi falar com ele e a diretora Minerva é bem brava. Aí ele ficou com um olho roxo e eu disse que ele estava parecendo um panda. Acho que eu não deveria ter falado isso pra ele...

Ela pareceu ter percebido naquele instante. Segurou o rosto com as duas mãos e Scorpius sabia, naquele momento, que ela estava pensando, tentando imaginar, como seu amigo estava no hospital.

— Ele vai sair dessa — garantiu Scorpius, guardando as espátulas depois de lavá-las. — Esse Alfredo Thomas. Vai sair dessa, e sabe como eu sei?

— Como?

— Lembra disso? — Mostrou a cicatriz da bala que o atingira na clavícula.

— Uhum.

— Eu saí dessa e acredite, Zoe, seu amiguinho merece mais do que eu.

— Ele me emprestou um lápis — contou Zoe de repente. — Eu tinha esquecido o meu estojo na sexta-feira e ele me emprestou o dele pra eu fazer a prova da professora. Como eu vou devolver pra ele agora?

A aflição de Zoe foi sincera e Scorpius quis dizer mais palavras que pudesse tranquilizá-la, mas o que ele sabia do estado do garoto? Nada. E ele não queria encher a filha de falsas esperanças caso algo mais grave acontecesse com o amigo dela.

— Ei — disse para animá-la. — Que acha de ajudarmos sua mãe a não ficar mais pirada com esse jantar e limparmos essa bagunça?

— E você tá colocando as espátulas na gaveta errada, papai — avisou, ajeitando-se prontamente para liderar a arrumação. Afinal, ela conhecia a casa melhor do que ele.

O telefone tocou no exato instante em que Scorpius tirava a última sujeira da pia. Rose saiu praticamente voando com a toalha no corpo para atender.

— Oi, mãe, vocês já estão chegando? Sim. Hum, não precisam ter pressa, tá? Não! Sim, não, olha... só aconteceu uns imprevistos... — Ela parou de falar no momento que passou pela cozinha. Piscou algumas vezes para garantir que não fosse alucinação que sua cozinha estivesse, de fato, limpa. — Ahn, quer saber? Estamos prontos. Sim, ele está aqui também. Vejo vocês dois daqui a pouco, manda um beijo pro pai.

Rose tinha passado por tanta coisa sozinha com Zoe, tinha se virado tanto sozinha durante todos esses anos, que se acostumou a não pedir ajuda para arrumar suas próprias bagunças. Quando viu Scorpius ajudando Zoe a guardar as coisas e se adiantar com o jantar, ela teve o verdadeiro sentimento de que, agora, ela não estava mais sozinha.

A cabeça dela ficou mais leve e ela conseguiu se concentrar para se arrumar. Colocou um vestido confortável e não costumava exagerar na maquiagem. Botou uns brincos delicados para dar uma aparência mais madura e demonstrar o que deveria demonstrar para seus pais.

Que aquilo era sério.

Olhou-se no espelho e respirou duas vezes.

— Um pouco melhor agora, não? — ela sorriu para a figura de Scorpius no reflexo do espelho. Ele estava encostado na batente da porta com as mãos nos bolsos, atrás dela.

— Está linda.

— Zoe pediu para você falar isso?

— Deu a dica — brincou.

Rose virou-se e andou até ele.

— Parece tranquilo com tudo isso.

— Parece admirada.

— Obrigada pela cozinha — disse com sinceridade.

— E você tinha outro frango no congelador. Está descongelando agora, acho que se torcermos para o pneu do carro dos seus pais furarem no caminho vai dar tempo de salvar o jantar.

— Céus, que desastre. — Finalmente se dando conta de que ele estava mesmo ali, Rose se inclinou para beijá-lo, dessa vez mais demoradamente, mais atenciosamente. — Desculpe a correria. Me ajuda a arrumar a mesa?

Não precisou ajudar. Quando saíram do quarto, viram Zoe colocando os pratos um a um na mesa da sala.

— Zoe, cuidado com esses pratos. São os únicos.

— Tá tudo sob controle, mamãe, calma!

Provavelmente só a filha transmitia algum efeito quando pedia “calma”, porque Rose não se aproximou para tirar o prato da mão dela, mas para dar um beijo em sua bochecha dizendo:

— Eu te amo, menininha, obrigada pela ajuda. Certo. Agora... os talheres. E esperar o frango descongelar para depois assar e depois... não vai dar tempo. Mas tudo bem. Tudo bem. Qualquer coisa eles comem os cupcakes que eu e a Zoe fizemos hoje.

E então, nos próximos minutos, eles esperaram na sala. Zoe colocou Just Dance para imitar os movimentos de dança pela tela da televisão, com Cupcake pulando em sua perna e atrapalhando enquanto Rose falhava ao parecer calma ao lado de Scorpius no sofá. Ora ou outra ela se levantava para verificar o frango ou apenas para andar para lá e para cá.

Ia reclamar da demora deles, mas as vozes indicavam que havia pessoas subindo para o andar do apartamento. Rose mal esperou baterem na porta e já estava abrindo-a para eles.

— Rose, querida — exclamou Hermione adiantando-se para abraçá-la. Por trás dos ombros da mãe, a moça sorriu para Ron.

— Desculpe pela demora, filha — ele disse, tirando seu casaco e o casaco da mulher. — Teríamos vindo mais cedo se sua mãe realmente estivesse pronta quando ela diz que estava pronta, sabe.

— E vamos culpar o trânsito também, não? — Hermione soava um tanto exasperada durante o tempo em que Ron e Rose se abraçavam.

— Oi vovô! — chamou Zoe quando seus avós entraram na sala. — Eu não posso parar agora, estou quase batendo o recorde do tio Al no Just Dance.

— Sem pressa, Zoe, quando acabar estarei esperando seu abraço, hein? Não vai fugir.

Rose ia fechar a porta, mas uma mão interrompeu.

— Ei, vai trancar seu irmão pra fora? — disse uma voz conhecida.

— Hugo? — ela se fez de desentendida quando viu o irmão. — Eu não te chamei.

— Muito engraçado. Ai, não Rose.

Ele odiava abraços muito fortes e só a irmã dele o abraçava para fazê-lo se sentir um tantinho envergonhado. Mas como não a via todos os dias e ela ficou fora do país por quase seis anos, aceitou o abraço e até deu uma batida nas costas.

— Obrigada por ter vindo — ela disse. — Sei que vai salvar o jantar se algo sair pela culatra. Entra logo.

Puxou o irmão para dentro do apartamento. Quando fechou a porta, Rose viu os pais apertando a mão de Scorpius. Hugo se aproximou para fazer o mesmo.

— Quem é essa? — ele perguntou, apontando para o Cupcake.

— É esse! É o Cupcake, foi presente do papai de Natal — disse Zoe imediatamente pegando o bichinho de estimação no colo para mostrar ao tio. Hugo deixou Cupcake lamber sua mão. — Ele gostou de você, mas o Cupcake geralmente gosta de todo mundo então não se sinta especial.

— Vou tentar — gargalhou Hugo. Ele parou quando se virou para Malfoy e estendeu a mão para apertar a dele também. — Como vai, Malfoy?

— Ótimo, e aí?

— Também.

Hermione não deixou o silêncio prevalecer muito.

— Temos muitas novidades — contou. — Que esperamos contar quando já estivermos na mesa e saboreando o jantar. O que fez para essa noite, Rose?

— Certeza que pediu por encomenda um fast food — provocou Hugo, recebendo um tapa de sua irmã de graça.

— O cheiro está bom — disse Ron e essa frase fez Rose se acalmar.

— Eu só preciso desligar o forno e já volto. Podem se sentar.

— Eu a ajudo, querida — disse Hermione depressa.

Scorpius ficou na sala com Ron e Hugo, agradecendo mais uma vez por Zoe existir entre eles, porque ela não fazia o momento ser tenso ou silencioso demais. No entanto, a menina também não tinha muito o que falar, porque ficou encarando o avô e o pai alternadamente até que decidiu:

— Tio Hugo, quer ver minha coleção de bonecas?

Quero — ele disse suplicante.

Foi aquele tipo de momento que Scorpius e Ron evitaram durante toda a vida deles. No entanto, a ideia do jantar havia sido de Ron. Quando Scorpius pensou em alguma pergunta, o pai de sua namorada abriu os lábios para dizer alguma coisa. No fim, Ron anunciou:

— Eu vou ver se elas precisam de ajuda.

Scorpius não soube se ficou aliviado com isso. Queria acabar com o assunto. Queria que os pais dela não o olhassem sempre com o pé atrás em relação a ele. Mas isso levaria mais um tempo, e a família tinha um jantar para saborear.

Hermione ajudou Rose a levar as comidas para a mesa. Em poucos minutos, a família dela estava reunida em seu apartamento, com a pequena Zoe liderando o assunto. Ela não gostava como os adultos sempre perguntavam só da escola, mas dessa vez ela tinha novidades, suas notas boas e a nova peça de teatro em que ela seria a protagonista.

— E você está empolgada? — perguntou Hermione. — Porque eu lembro que quando a Rose era escolhida para protagonizar alguma coisa, ela tentava fugir.

— Eu não sei de onde ela tirou essa facilidade de falar em público, sinceramente.

— Acho que puxei o meu pai, então! — disse Zoe apontando sorridente para Scorpius. — Ele fala em público todo dia por causa do trabalho dele. Né, papai?

— É sim.

— E eu estou bem empolgada, vovó.

O próximo assunto foi sobre a faculdade de Hugo. Ele estava entre uns dos melhores internos no Hospital St. Mungus da cidade, cheio de histórias para contar sobre pacientes e alguns problemas que enfrentava todos os dias com os outros colegas.

— E teve um garoto agora que sofreu um acidente de bicicleta e... a mãe dele não tem como pagar o plano de saúde para o garoto continuar no hospital, então amanhã de manhã disseram que ia ser transferido para outro, mas o estado dele é grave e isso pode prejudicar todo o tratamento e...

Ele parou de falar aos poucos, quando percebeu o olhar da irmã sobre ele.

— O nome do garoto é Ralph Thomas?

— É, é esse mesmo. Vocês conhecem?

— É o amigo da Zoe.

Hugo pareceu sinceramente espantado.

— Caramba, eu não sabia.

Ficou um breve silêncio no qual Zoe colocava várias garfadas entre os lábios. Hermione foi mais rápida para mudar de assunto:

— Dominique te contou, Rose? Victoire está grávida.

— Sim! Vic me mandou algumas mensagens desesperadas.

— Teddy está empolgado. Eles estavam tentando engravidar há anos, parecia que Victoire não conseguiria nunca.

— Já sabem se vai ser menino ou menina?

— Eles querem saber quando nascer — contou Ron.

— Do jeito que Victoire é curiosa duvido que já não saiba — riu Hugo. — E, Rose, a tia Muriel está morando na casa da vovó. Ela acha que vai morrer em uns dias e já começou a preparar o leito. É melhor visitá-la.

— Por que ela tem tanta pressa? — reclamou Rose. — Ela está mal?

— A saúde dela não é mais a mesma — comentou Hermione. — Mas conhece o drama que a tia avó do seu pai sempre fez. E todo mundo está indo visitá-la, uma loucura.

— É só o Albus ir até ela pra falar que está namorando e ela já vai cair durinha — disse Rose, fazendo Hugo rir. Nenhum primo gostava da tia avó Weasley. Pouquíssimos da família tinham paciência para a mulher, julgando pelo modo como era tão preconceituosa, homofóbica, fofoqueira e adorava botar defeito em todo mundo que aparecia para vê-la.

Rose tinha a fama de vadia perdida na vida com ela por ter engravidado e sido trocada por qualquer uma antes mesmo dos vinte anos.

Albus era tratado como “o filho veado da Ginny”.

Hugo ia morrer virgem.

Dominique era sua princesinha, ainda achava que a moça tinha três anos e a tratava como tal. Por alguma razão, ela gostava mais dos filhos do Bill então ele era o único dos tios que conseguia se comunicar civilizadamente com a mulher.

Para tia Muriel, Lily era a lésbica enrustida da família e ela chamava James de “praga”.

Ela achava que Fred, filho da tia Angelina, era o irmão do tio George, que havia falecido em um acidente de carro muito antes de todos os netos de sua sobrinha nascerem. Vivia tentando bater nele para se vingar das inúmeras pegadinhas que os gêmeos da família costumavam fazer contra ela.

Todos os outros primos tinham uma reputação a zelar com a tia Muriel. Ninguém gostava de escutar as verdades dela. Ou ofensas. Por isso eles cresceram com a necessidade de também fazerem piadinhas sobre ela. Tia Muriel é tão velha, mas tão velha, que foi a garçonete da Santa Ceia.

— Você foi vê-la, Hugo?

— Muito ocupado.

— Ela ainda tem mais uns quinhentos anos pela frente, não precisa ter pressa.

— Rose. Sei que vocês não são fãs da tia Muriel, mas não fale assim. Ela já está caduca e não sabe o que diz.

— Ela sabia perfeitamente o que estava dizendo quando me chamou de perdida na vida, pai.

Já bastou o senhor me olhando com reprovação todos os dias.

— Mas... e a vovó e vovô? Eles estão bem?

— Sim, sim. Só reclamando que os netos não visitam tanto quanto antigamente. Mas eles entendem.

— E a vovó Granger, mãe?

— Ela está bem, Rose. Ultimamente foi nomeada a líder do grupo de etiqueta em Brighton. Ainda bem que você não está por perto, ela ia obrigar a Zoe a participar.

— Deus me livre — riu com a mãe. — Mas preciso passar por lá também, estou com saudades.

Não tiveram desavenças por enquanto e era só isso o que Rose pediu com tanta veemência em seu consciente antes daquele jantar. Scorpius estava com eles, ouvindo e ainda meio distante, mas ela conhecia que essa era a personalidade dele. Não era um rapaz de muitas conversas, mas respondia sempre quando a pergunta era direcionada a ele. E a sorte de Scorpius foi ter a Zoe; de alguma forma a menina falava coisas boas sobre ele, como quando aprendeu a fazer o nó da gravata com sua ajuda, quando ele deu a ela o Cupcake e que ele fazia a melhor panqueca de todas.

Teve um momento que Hermione se interessou em conhecer sobre o funcionamento de uma firma como a Malfoy, Zabini & Flint, então durante todo o momento Scorpius falou sobre isso. Ele tinha a postura de um advogado que sabia sempre o que dizer. Não havia sinal de imaturidade no seu tom de voz quando falava do trabalho; Rose se lembrava de Lucius Malfoy. Ela mesma ficou calada durante a inquisição de perguntas de seus pais para ele, e culpou sua TPM por se sentir emocionada ou algo assim.

Ele estava ao seu lado conversando com seus pais, sem perceber o olhar nutrido de uma paixão antiga que Rose lançava a ele. Zoe, ao lado de Hugo, ria das caretas que o tio fazia a ela.

Há quanto tempo Rose esperava um momento assim? Sua família sem brigar e Zoe com o pai dela?

Ela nunca esperou.

Zoe sorriu para ela, mostrando os dentes, quando viu que estava sendo observada pela mãe. Acho que fiz alguma coisa certa, Rose pensou com vontade de chorar.

A sensibilidade era tremenda e ela decidiu se levantar da mesa para guardar os pratos e se distrair. Scorpius fez o mesmo para ajudá-la — ou talvez porque evitava ficar sozinho com os pais dela para não haver constrangimentos. Quando entraram juntos na cozinha o rapaz se surpreendeu por ver que Rose estava calada. Ela o pegou em um abraço calmo e ele correspondeu à intensidade do aperto, mesmo sem entender muito bem o motivo do abraço. Às vezes não precisava ter.

— Depois de tudo o que eu fiz eles passarem... Obrigada por estar aqui comigo e com a Zoe. Isso é muito importante para mim, sempre foi.

— Não precisa agradecer — ele disse, beijando-a no rosto. Ele quem devia muita coisa para ela.

— Mamãe, quando vamos poder comer os cupcakes?

Eles se separaram quando Zoe ultrapassou a cozinha para procurar a bandeja dos doces. Com cuidado exigido por sua mãe, Zoe distribuiu um para cada um na sala. Ao final do jantar, Hermione se adiantou para novamente ajudar Rose com a louça e esse era o momento em que as duas conversavam sobre diversas coisas.

Scorpius ficou assistindo a partida de vídeo-game de Ron e Hugo enquanto Zoe brincava com Cupcake e a bolinha barulhenta que ele adorava colocar na boca e devolver na mão dela. Eles abriram algumas garrafas de cerveja quando Scorpius sentiu o celular vibrar em seu bolso e se afastou para a sacada do apartamento atender a ligação.

Nada preocupante. Cissy costumava ligar para ele nesse horário desde a morte de Lucius. Comunicava as novidades de que Draco estava participando constantemente do grupo de apoio para superar a necessidade de bebida alcoólica, e que comentou sobre ter encontrado alguns rostos conhecidos pelo caminho, o que fez Cissy precisar dizer:

Ele quer seguir em frente.

E Scorpius retorquir:

— Já passou da hora.

— Melhor ligar para ele um dia, Scorpius. E Scorpius? Lucius me assombraria se eu já estiver querendo seguir em frente também? Vi um homem tão-

— Se ele não te assombrar, eu vou — ele disse imediatamente, com medo do que ia escutar depois daquelas palavras. Mas acabou sorrindo. — Aproveita que a senhora ainda tem o corpo de vinte e cinco, vó.

Você disse que era de vinte da ultima vez, filho da mãe!

Quando desligou rindo, Scorpius viu o sr. Weasley entrar na sacada. Pigarreou para parar de rir e sentiu o ar da noite ficar mais frio. O vento soprava em seu rosto.

Ron estava para conversar sério agora. Talvez tivesse esperado o momento certo para ameaçá-lo, e Scorpius esteve se preparando. Não dava mais para adiar.

— Você tem muita sorte, Malfoy — disse, por fim, em um tom de reflexão, apoiando o braço no muro da sacada. — Muita sorte mesmo, e não faz a mínima ideia que tem, não é? Conquistar a filha não é a coisa mais fácil do mundo. Zoe tem um coração gigante, cabe o mundo dentro dele. E se não cuidar direito, não vai ser assim pra sempre. Uma das coisas mais difíceis para mim foi ver minha filha crescer e se distanciar... foi ter que tirar as asas dela. Doeu mais ainda quando ela engravidou. De você. Porque você não apenas foi alguém com que ela desgastava as energias tendo um relacionamento... mas também a machucou. E eu vi de perto o quanto a afetou.

Scorpius olhou para ele e de repente sentiu a falta de um cigarro entre os lábios. Mas não fumava há meses, pela filha.

— Eu sei da sorte que eu tenho — a voz do rapaz saiu baixa. — Por Rose ter me perdoado e, por isso, não tirado a Zoe de mim. Eu não vou procurar mais nem uma chance se foder com tudo outra vez. Então não precisa me ameaçar, vou entender que minha última chance é essa.

— Quem disse que vou ameaçar? Rose faz o que bem entender da vida dela e eu aprendi isso da pior maneira. Aprendi que ela já é adulta e sabe se virar. Saiu do país para provar a mim que ela consegue se virar, porque aparentemente eu estive prendendo ela. Fui também culpado de muitas coisas e até eu tirar a merda desse orgulho dentro de mim para admitir isso... foi uma longa jornada. Foi esses dias mesmo. Zoe virou pra mim e disse: “não briga com o meu pai no meu aniversário?” E eu acho que ela merece essa trégua entre a gente.

— Vou tentar dar a ela mais que isso — Scorpius disse com veemência. — Ela merece mais esforço.

— Ótimo... Bem, é por isso que quis que Rose fizesse esse jantar hoje. Não vamos começar a bater nenhum papo, mas pelo menos o silêncio foi quebrado. E espero que nunca chegue a entender porque eu perdi a cabeça no dia que a Zoe nasceu e te presenteei com aquele soco.

Ron pareceu que ia acrescentar mais algumas coisas, mas deixou no ar. Talvez assuntos como aqueles nunca se encerrassem.

Scorpius continuou na sacada e por alguma razão — talvez porque Rose estivesse com seus dois pais naquela noite — ele estava pensando em sua mãe e onde quer que ela estivesse naquele momento. Perguntou-se se ela ficaria orgulhosa por ele estar mais presente na vida de Zoe e por ter reconquistado, talvez, um amor que achou que nunca seria reconquistado. Ou se apenas diria “já demorou para crescer”. Ou “cuida para não fazer merda dessa vez”. Provavelmente ela diria essas opções. Sinceramente, qualquer coisa o faria mais feliz.

Não viu motivos para ir embora depois que o jantar com a família de Rose terminou e os pais e o irmão se despediram dela com abraços. Hermione chamou Zoe para passar algum final de semana na casa deles, uma vez que as coisas lá estavam entediantes, e a menina garantiu que daria muito trabalho para eles, fazendo-os rirem.

Já estava tarde quando foram embora. Cupcake tinha encontrado um caminho aconchegante no canto do sofá e Rose sugeriu a filha que o imitasse. Ela estava também bastante sonolenta e escovou os dentes depressa para poder dormir em sua confortável cama.

Rose ajeitava o cobertor em cima dela. Foi desligar a luz do abajur e acabou se deparando com o mural lotado de fotos, incluindo com suas amiguinhas e uma com sua turma onde Ralph Thomas estava fazendo um característico chifrinho atrás de Zoe e de mais uma garotinha.

— Mamãe — chamou Zoe um tempo depois quando Rose ficou absorta nas abundantes fotos que agora ela tinha de Scorpius com ela.

— Oi?

— O papai não estragou tudo hoje, né?

Sorriu, sentando-se a margem da cama para olhar para ela.

— Não. E quer saber? Ele se saiu muito bem hoje.

— Ele vai começar a morar com a gente também? Que nem quando o Paul estava namorando você? Se você perguntar pra mim... o que eu acho do papai morando com a gente... eu vou gostar muito, tá?

— Você estará preparada para um homem dentro de casa?

— Sim! E eu prometo sempre bater na porta antes de entrar no seu quarto.

Rose riu.

— Não precisa me prometer nada, querida. — Acariciou os cabelos loiros de Zoe e a beijou no rosto, bem de leve. — E eu vou pensar bastante na sua pergunta. Agora... deixe-me ver se escovou os dentes?

Como de costume, a menina mostrou os dentes branquinhos. Rose apoiou o próprio dedo indicar no dente de leite da filha para sentir o quão amolecido ele estava. Zoe sofreu muito nos dentes inferiores que Rose havia arrancado nos anos passados, então ela estava muito temerosa para arrancar o de cima.

— Está bem molinho. Abre a boca para mãe ver, Zoe.

— Não — ela disse.

— Tá tudo bem, coisinha. Eu vou só olhar.

Costumava ser uma tática do pai de Rose. Fingir que ia só olhar e, quando menos esperava, o dente já estava fora da boca da menina. Claro que isso custava a interrupção de uma cena fofa e carinhosa para Zoe soltar um grito.

Ela estava pronta para reclamar de dor, mas se surpreendeu:

— Não doeu muito dessa vez.

— Viu só? Vai ao banheiro limpar a boca...

Rindo com o desespero de Zoe, ela a acompanhou até na pia do banheiro. Scorpius imediatamente foi ver o motivo de Zoe ter berrado daquele jeito.

— O que aconteceu?

— Menos um dente de leite — Rose contou sorridente, mostrando-o para Scorpius.

— A mamãe mentiu pra mim! Ela disse que só ia ver!

— Você ia ficar com esse dente mole pra sempre. Ou teríamos que ir ao dentista.

Zoe tremeu; morria de medo de dentistas.

— Amor, pega um gelo pra ela.

Scorpius não parou muito para reparar na importância que foi ela chamá-lo de amor. Mas não ouvia a palavra sendo referida a ele por anos. Quando voltou com o gelo, se deparou com Zoe sorrindo amarelo para o espelho e tentando se acostumar com a nova aparência.

— Você ficou uma graça com essa janelinha — sorriu Rose, lembrando-se de si mesma quando tinha a idade dela.

Zoe colocou o gelo contra a gengiva que estava sangrando e se acalmou um pouco depois. Voltou para a cama ainda massageando com a pontinha da língua o local onde não havia o dente tão precioso que ela, com certeza, não sentiria falta depois. Rose deu um beijo nela pedindo desculpas sinceras por ter mentido, mas que “foi melhor desse jeito” e Zoe a perdoou rapidinho quando descobriu que ganharia um delicioso sorvete no dia seguinte. Ela deu boa noite para Scorpius também, mas ficou acordada quando as luzes apagaram, esperando a pontada de dor não incomodá-la.

Mas não conseguiu dormir mesmo que o gelo já tivesse derretido. A dor não provinha da região da boca. Ela sentia um incômodo no peito. Ouvia as vozes calmas dos pais na sala e entendeu que não conseguiria dormir se não tirasse a dúvida que a atormentava desde o dia anterior.

— Mamãe... papai...

Eles estavam assistindo a um filme deitados juntos no sofá. Scorpius foi o primeiro que viu Zoe quando ergueu a cabeça.

— Ainda está doendo, filha? — perguntou Rose, que acariciava distraidamente um Cupcake sonolento perto deles no sofá.

— Não é o dente mais... Quero ver o Ralph Thomas. Se ele vai voltar logo pra escola pra eu devolver o lápis dele que ele me emprestou.

Scorpius e Rose se entreolharam.

— Zoe, agora... agora? — estranhou Scorpius.

— Uhum!

— Agora não podemos — disse Rose pacientemente. — Porque eles precisam permitir o horário de visita e agora está muito tarde.

— Pode ser amanhã então?

— Claro, amanhã vamos vê-lo sim. Não se preocupe, ok?

Ela assentiu com a cabeça e voltou para o seu quarto, mais tranquila.

Quando algo a deixava muito triste Zoe costumava pensar em coisas boas. E ver o papai e a mamãe juntos fez com que ela conseguisse dormir bem naquela noite. Contava que logo devolveria o lápis ao amigo.

Notas finais
Me deu saudades do meu pai tentar arrancar meu dente e eu me esconder embaixo da cama KKKKKKK Muito obrigada a quem chegou até aqui! Vocês estavam esperando discussão, barraco, treta envolvendo o Ron e o Scorpius? Não era o que eu tinha em mente. Anos se passaram desde o nascimento da Zoe e se o Ron não tivesse reunido algum senso ou maturidade, não faria sentido pra mim. Que motivos o Scorpius estaria dando agora? Mas ele falou o que precisava falar para o Scorps, só não significa que vão sair tocando mão porque uma coisa é fato: O Ron nunca vai gostar dele. Outra coisa é que, como eu procuro botar um pouco de realidade nas coisas, não consigo ver esse Scorpius deixando de ser charmoso pra cima de outras mulheres, mesmo por ser apaixonado pela Rose, então por isso a piscadinha pra Portia. Por falar nisso, essa personagem estava marcada para se tornar mais presente na fic desde o momento em que ela foi apresentada... O que será que vai rolar hein? Quais suas impressões? Falem! A Cissy apareceu no telefone. Como esse cap foi exclusivo pra família da Rose não pude colocar mais do que isso sobre os Malfoy. Queria até mostrar mais interação entre a Rose e os pais ou o Scorpius e o Hugo, mas vai ficar mais pra frente. Como esse capítulo foi só um domingo inteiro, não tivemos notícias do Ralph Thomas, mas a Zoe decidiu que quer vê-lo. E uma última coisa: quis colocar a tia Muriel no meio pra mostrar a véia chata que toda família tem... e teremos mais sobre ela e os primos nos próximos capítulos! Espero vocês por lá e que comentem nesse, o próximo não vai demorar também. Até lá!