Fix You

29 A Hopeful Transmission


Notas iniciais
Olá queridos! Tive o prazer de aproveitar minha última semana de férias adiantando cenas em Fix You. Comecei a adquirir o costume de postar aos domingos e descobri o motivo esse mês. O próximo é dia dos pais então pode contar com novo capítulo também. Espero que gostem desse. Estou fazendo de tudo para dar novos capítulos a vocês uma vez por semana. Não é possível postar todos os dias, mas eu bem que queria. Boa leitura. E quem ainda não viu Fix You adaptada no The Sims, dirigido pela Marina, não sabem o que estão perdendo porque ela acabou de postar o segundo episódio! https://www.youtube.com/watch?v=CtekcVuCoEg&feature=youtu.be Confiram!

Capítulo 29.: A Hopeful Transmission

Scorpius tinha um grande número de mulheres em sua vida. Não que ele tivesse um grande número de anos em sua vida. Ele não tinha a experiência de seu pai ou a que seu avô adquiriu até o falecimento, mas ele aprendeu alguma coisa com elas. Claro que em certas ocasiões Scorpius não estava pensando em ganhar sabedoria, só sexo. Ele teve incontáveis, mesmo jovem.

Ele não tinha muito interesse nas pessoas, em geral. Arrogância pura, claramente. Para ele não era natural jogar conversa fora como a maioria dos casais gostavam de fazer. Scorpius sempre procurou um jeito de pular essa parte, então quando encontrava garotas dispostas a ficarem com ele sem nenhum compromisso era melhor ainda.

Mas era difícil. Ele tinha esse charme de moço educado por fora, então sabia conquistar e iludir. Era bonito, rico e vinha de uma família respeitada na capital do país. Sem contar o jeito como tinha resposta para tudo, um verdadeiro cínico e manipulador. Tratava muito bem as garotas para conseguir o que queria, amolecendo-as. Dificilmente elas não resistiam.

“Esse vai ser difícil de casar”, comentava Cissy para Astoria. “Viu o que falou? Começou a namorar essa menina agora e já está reclamando que não está solteiro para essa festa. É um imprestável mesmo. Tenho pena da garotada de hoje por causa dele, viu? Mas se bem que essas garotas de hoje abrem a perna para qualquer pau duro.”

“Eu realmente não sei a quem ele puxou” brincou Astoria, sentando-se na perna do marido. Draco estava distraído com algumas contas a pagar na poltrona da sala quando ouviu a ironia dela.

“Ele só não encontrou a garota certa ainda” disse com despreocupação.

“Você encontrou a mulher da sua vida, Draco, e isso não o impede de ficar de papinho furado com as outras.”

“Então agora casamento virou castração? Fale que nunca flertou com outro, amor. Minta para mim.”

“Não vou mentir dizendo que você me dá umas razões para querer fazer mais coisas.”

Restou Draco apenas rir, sempre despreocupado. Eles tinham ciúmes, mas quando você tem o amor da sua vida você não precisava levar tudo a sério.

Scorpius nunca viu briga ou discussão entre seus próprios pais, mas sabia que casamento não era perfeito. Sua mãe costumava ficar fria nas atitudes quando estava zangada com Draco por diversas razões — entre elas, a bebedeira. O mesmo acontecia com Draco. Era guerra fria naquela casa. Não havia gritaria ou palavrões, tudo era muito reservado. Uma coisa que sempre admirou em sua mãe foi a confiança que ela tinha em Draco, mesmo garantindo que ele não era nenhum santo. Ambos faziam sempre piadas sobre a infidelidade do outro, talvez porque os dois sabiam que nenhum deles era zerado pelos pecados. Ou talvez porque a confiança era extrema entre o casal e não havia, de fato, infidelidade alguma.

Draco reparou que seu filho sossegou um pouco aos dezoito anos depois que começou a namorar a filha do delegado, a tal de Weasley. Eles passavam bastante tempo juntos, e não só em baladas e outros tipos de festas, mas nos cinemas e sofás. Scorpius raramente preferia lugares tranquilos para passar o tempo sozinho com uma garota, mas ele foi assim durante aquele relacionamento. Astoria não gostava das namoradas de Scorpius, uma vez que nenhuma delas mostrou muito sinal de conteúdo. Só queria dar para ele. Então ela não espalhava sua vontade de conhecer Rose, achando que a moça era como todas as outras.

“Essa é diferente, mãe” ele garantia muitas vezes.

Mas Astoria faleceu no carro da ambulância antes mesmo de tirar suas próprias conclusões sobre a namorada do filho. Nunca saberia que, de fato, ela era diferente.

E agora a mãe de sua neta.

Depois que terminou com Rose, Scorpius não se ateve presente em nenhum relacionamento. Na verdade, não procurou namorar ninguém por quase quatro anos. Conhecia Emily Zabini desde a infância, uma vez que seus pais eram tão próximos. Afinal, eles dividiam o nome de uma empresa. Emily era como Scorpius — advogada e odiava papo furado. Não que tivessem transado no primeiro encontro, ao menos tiveram encontros. Mas viveram tempos juntos o suficiente.

Eles costumavam viajar na mesma classe do avião, lado a lado. Em uma dessas viagens, Emily estava com preocupações bobas.

“Eu não sei o que eu faria se soubesse que o avião irá cair” disse Emily observando a paisagem pela janela. “Não sou lésbica para entrar no banheiro com uma aeromoça e todo mundo aqui tem mais de cinquenta anos. Descartarei a possibilidade de sexo.”

“Você podia experimentar. Vai dizer que nunca pensou?”

“Em pegar mulher?”

“Sim. E comigo. Qual o mal de querer os dois ao mesmo tempo, hein?”

Ela deu um tapa nele, que riu e ergueu a mão atrás da nuca, relaxando.

“É impossível falar sério com você.”

“Você quer que eu fale sério? Se estou sabendo que o avião cairá, eu tentaria falar com Zoe.”

“O que diria a ela?”

Ele pensou um instante para responder a essa pergunta.

Não sinta muito a minha falta, coisinha. Mas seria impossível, toda vez que ela me vê ela vem toda eufórica, sabe? Ela sentiria minha falta.”

Provavelmente a única.

Eles conversaram a viagem inteira até a cidade onde trabalhariam juntos no caso de um dos inúmeros crimes que aconteciam no mundo todos os dias. Demorou mais um tempo até Scorpius começar a mostrar um interesse por Emily que ia além de trabalho. Emily já estava perdida, porque se via encontrando o olhar dele toda vez pelo corredor da empresa com a pulsação acelerada. Ela sabia que ele não prestava, tentou resistir, mas quando ele começou a investir...

Scorpius conseguia tudo o que queria.

Isso, mais rápido.”

A primeira vez deles havia sido sobre a mesa do escritório dele. Em cima das papeladas. Haviam ficado até mais tarde depois da festa de aniversário da empresa. As persianas fechadas ao redor da sala e uma garrafa de vinho ao lado dos corpos que se movimentavam fortemente. Os dois tinham experiência e eram absolutamente parecidos demais para que não estivessem em sincronia também.

Emily foi um daqueles relacionamentos que, no final, ele saiu aprendendo alguma coisa. Papo furado não era tão ruim assim. Ele gostou dela e ainda gostava, mesmo não tendo sido fiel ou se preocupado tanto quanto se exigia em uma relação amorosa. Emily conhecia o jeito dele, sabia que ele não faria bem algum ao seu coração, mas arriscou os dois anos em que se deram bem e transaram quando sentiam a necessidade. Ela não era sentimental, mas só por fora. Por dentro, ela odiava quando Scorpius esquecia datas importantes.

***

Mesmo dois anos depois do rompimento, Emily passou por Scorpius no corredor da firma e, como ela não estava tão apressada na manhã, precisou comentar:

— Você realmente não foi.

— Fui aonde?

— No meu casamento.

— Sobre isso, desculpe — ele disse distraído com as papeladas do crime que estavam resolvendo na semana, enquanto caminhava até a área da cozinha para pegar café. — Não tenho lá muito saco para casamentos.

Emily fez o conhecido jogo do silêncio com ele. Scorpius namorou com ela tempo suficiente para saber o que significava. Como se tivesse reparado em sua presença naquele momento, ele franziu a testa.

— Espere, está chateada? Você realmente mandou aquele convite querendo que eu comparecesse?

— Eu trabalho com você todos os dias. Nos conhecemos há anos. Achei que seria o certo, o maduro a fazer. Mas só estou comentando, também não faria questão de vê-lo por lá.

— Mesmo se eu gostasse de casamentos... não teria ido. Tive um importante jantar no domingo.

— Trabalho?

Ele engoliu o café e sentiu o corpo esquentar no frio de novembro. Lambeu os lábios quando refletiu e disse:

— Família.

— Compreendo — ela disse, aproximando-se da cafeteira para se servir do mesmo que Scorpius. O rapaz viu a aliança em seu dedo quando ela movimentou a mão para apertar os botões.

— Felicidades — ele desejou e se estranhou por soar sincero.

Emily ergueu os olhos verdes, abrindo um sorriso que não abria para ele há muito, muito tempo.

— Desejo o mesmo, Scorpius.

Um barulho interrompeu a conversa dos dois. Giraram os rostos para saberem o que estava acontecendo na área das assistentes, ao centro do andar da empresa. Uma moça de vinte e dois anos, com os cabelos tão loiros que poderiam dizer que não eram naturais, enroscava-se com o fio do microfone compactado ao telefone da empresa em sua orelha. Parecia tão genuinamente nervosa que, quando derrubou a cadeira ao se levantar, ela pediu vários “desculpem, desculpem” para as pessoas que olhavam. Um dos associados imediatamente se adiantou para ajudá-la, mas isso porque Portia tinha belas curvas. Quando ela se recompôs e voltou à postura profissional, Emily perguntou a Scorpius:

— Assistente nova?

— Sim.

— Boa sorte para ela.

Os dois se afastaram para caminhos opostos. Scorpius andou até Portia com uma mão no bolso e a outra derrubou as papeladas que segurava, sobre a mesa dela.

— Você pode começar organizando esses arquivos para mim, Portia.

— Sim. Farei isso — disse com sua eficiência de recepcionista de edifícios.

— E relaxe um pouco, está deixando todo mundo tenso.

— Desculpe, sr. Malfoy.

— Sr. Malfoy é o meu falecido avô, Portia. Prefiro Scorpius. Ou apenas Malfoy.

— Certo. Desculpe. — Antes que ele pudesse interferir, Portia foi mais rápida: — E eu vou parar de ficar pedindo desculpas toda hora.

Ele sorriu para ela, mas chamou outro nome.

— Ursula?

A assistente de Alexis, logo ao lado, estava ocupada digitando um grande relatório quando, sem parar o que estava fazendo, disse:

— Sim?

Scorpius se lembrou de quando seu avô contratava novas assistentes. Ele dizia a mesma coisa:

— Mostre a firma para Portia. É bom que ela se familiarize com tudo.

— Pode ser depois? Estou ocupada.

— Sim, pode ser depois, não tenha pressa. Mais uma entrevista essa manhã e dois julgamentos, eu deveria estar apressado.

Portia e Ursula assistiram ao rapaz ultrapassar a correria dos outros advogados em direção ao elevador para ir embora. Ursula deu um alto e pesaroso suspiro ao reparar no olhar de Portia.

— Não se preocupe, vai passar.

— Passar o quê? — perguntou Portia ligeiramente preocupada.

— Todas já passaram pela síndrome de TPSM. — Ao olhar confuso da moça mais nova, Ursula se divertiu explicando: — Tesão Por Scorpius Malfoy.

Portia ficou vermelha. Pigarreou. Claramente não falaria sobre isso.

— Vou arrumar as papeladas — apenas disse.

Ursula franziu a testa para essa nova assistente. Era comportada, profissional. Ou apenas queria impressionar nos primeiros dias de trabalho. Isso só confirmou o que era verdade: a síndrome atacava todo mundo mesmo, não importava como.

***

Zoe gostou de rever seu avô Draco naquela época. Foi ele quem a ajudou no momento triste — os adultos diziam para ela não esperar que seu amigo Ralph Thomas melhorasse tão depressa. A situação dele era muito grave e, mesmo tendo passado uma semana desde que o vira no hospital, o menino continuava dormindo.

Draco dizia a ela:

— Você tem que estar preparada, Zoe.

— Como o senhor faz quando sente falta da minha avó? — perguntou, sentada no banco ao seu lado de uma praça que ambos passeavam depois que Draco passou a buscá-la nas aulas de teatro aos sábados. Scorpius deu a ele a responsabilidade de passar mais tempo com Zoe, pensar o menos possível nas coisas que o afligiam e o deixasse fora dos bares e da depressão. — E do vô Lucius?

— Costumava beber, mas agora estou me ocupando com outras coisas. Sabe o que é isso? Beber?

Ela assentiu com a cabeça.

— A mãe do Ralph Thomas bebe, ele contou para mim uma vez. Ela não liga muito para ele.

— Você gosta dele?

— Gosto só como amigo — ela explicou com ênfase exagerada, como se temesse que Draco pensasse que ele era o namorado dela, como muitos coleguinhas zombavam deles. — Porque ele sempre passa as fases difíceis que tem no meu jogo.

Draco sorriu, pensando na inocência. Desejou que Zoe fosse para sempre assim. Logo a vida começaria a mostrar a ela que as coisas nem sempre eram simples, nem sempre eram fáceis. A vida bem que poderia deixar de ter pressa.

— Respondendo a sua pergunta, Zoe, quando sinto falta da minha esposa e do meu pai, penso sempre nas melhores coisas que eles fizeram. O que me mudaram, sabe?

Ela escutava.

— Mas não se preocupe muito... conheci pessoas que escaparam de tantos perigos. É esperar o melhor pelo garoto.

Não tiveram tantas palavras a serem ditas naquele momento. No silêncio, Zoe encontrou acesso para segurar a mão dele.

— Obrigada, vovô — ela disse com a cabeça erguida para encarar os olhos difíceis de Draco.

— Ora, por quê?

Ela ergueu os ombros. Não soube explicar o motivo, apenas queria agradecê-lo.

— Por me buscar na minha aula. Eu gosto quando o papai vem me buscar, mas também gostei que hoje foi o senhor.

Foi uma boa estratégia se aproximar mais da menina. Pensava menos nas coisas ruins. Relembrava o tempo de Scorpius criança — época boa. Não que os passeios com o filho tivessem durado tanto depois dos dez anos, mas esperou não cometer o mesmo erro com a neta. Esperou não se distanciar. Ela transmitia a sensação tranquila que ele precisava. Infelizmente não era a todo o momento, pois não se viam a todos os momentos.

Na reunião semanal que Cissy o obrigava a participar, Draco falou pela primeira vez algo sobre ele. Um mês foi necessário para destrancar pouco dos seus sentimentos. Escutar as pessoas falarem começou a deixá-lo frustrado, e se ele não dissesse nada, sentia que poderia explodir.

— Culpei a morte da minha mulher pelas atitudes que tenho tomado, mas o problema não é esse. O problema é que não há mais vínculo com meu filho. Eu queria poder reatar... Acho que é o que sinto mais falta. Teria sido mais fácil suportar as coisas se eu estivesse por perto.

Começou a perceber que nada foi útil sozinho. Percebeu, também, que sua mãe queria vê-lo melhorar. Incontáveis foram essas vezes que ela ligou para ele mandando número de telefones de psicólogos, mas mal sabia Narcissa Malfoy que tudo o que Draco precisava era alguém para conversar. Claro que tinha os colegas, homens de importância e engravatados, tal como o filho — moldado por Lucius com ferramentas precisas. E claro que ele poderia desabafar com pessoas estranhas e problemáticas.

Mas a diferença era que não existia capuccinos em conversas como essa. Não existia um ambiente agradável, ou uma música agradável. Draco adoraria que tivesse um belo e charmoso whisky acompanhando o encontro, mas ele conheceria seus limites agora.

Pansy e Draco se encontravam em ocasiões propositais em uma cafeteria aconchegante na esquina da rua onde ela trabalhava. Conversaram sobre incidentes passados, ex-namorados e, entre tudo isso, surgiram breves e inesperadas risadas. Lembravam-se da adolescência e dos erros que cometeram. Trocaram até mesmo novos interesses. Em conversas como aquelas era quase impossível pensar nas dores. Em conversas como aquelas era possível imaginar as coisas se saindo bem.

Mas Pansy Parkinson estava noiva.

Ela não usava aliança por motivos que Draco não entenderia. Teve a notícia de que ela era comprometida quando fez o casual convite para um encontro mais formal, digno de um belo e atraente restaurante no centro da capital. Depois de dias conversando e reatando interesses, por que não tentar arriscar?

— Draco, eu estou adorando revê-lo, mas não pensava que poderia haver qualquer outro interesse além de tomarmos café no mesmo lugar e na mesma hora. Estou noiva.

— Não havia se separado?

— Sim. Mas a vida segue e eu procuro sempre pescar um novo peixe no mar. Você me conhece bem.

Draco escondeu sua frustração. Sentiu-se humilhado. Não rejeitado. Humilhado. Desejou não ter se rebaixado a ponto de chamá-la para sair.

— Draco, eu sinto muito.

Olhou-a com certo desprezo.

— Esteve conversando comigo por pena? Pena por achar que estou sozinho e preciso de alguém? Pena por eu ser viúvo?

— Não, isso não...

— Pois parece que sim, Pansy. Não há amizade entre nós. Nem ao menos sei por que tentaria construir uma se tudo o que existiu entre nós no passado foi só desperdício de tempo. A conta é minha dessa vez.

Jogou as notas sobre a mesa e os passos elegantemente se retiraram da cafeteria.

Draco era fraco. Dirigiu até o supermercado mais próximo para comprar bebidas. Não era um garoto que precisava afogar as mágoas, repetia para si mesmo, mas sua estabilidade era frágil e seu vício também. Não era mais nem tristeza. Sentia raiva por Astoria ter morrido. Por Astoria ter deixado ele e a família tão cedo. Por Astoria ter dado a ele a responsabilidade de cuidar de um rapaz que não o deixava entrar. Por Astoria não deixá-lo seguir em frente. Por Astoria deixá-lo sozinho.

Por uma ironia do destino, ou salvação, quando estava para retirar as garrafas na prateleira e jogá-las no carrinho, ouviu uma voz ligeiramente conhecida atrás dele:

— Sr. Malfoy?

Era Rose Weasley, empacotada com suas vestes de inverno, cachecol e gorro, e a compra da semana no carrinho. De todos os mercados de Londres, os dois se encontraram justamente nesse. Coincidência? Quais as chances do universo estar tentando dizer alguma coisa? Ou impedi-lo de alguma coisa?

Infelizmente, Draco não acreditava em destino.

De tudo o que poderia ter dito para não perder a confiança da mãe de sua neta, Draco mordeu os lábios, olhou para a embalagem do whisky e ouviu sua voz sair arrastada:

— Não conte ao Scorpius.

— Não vou.

— Foi... um momento de fraqueza. Eu estava sentindo a necessidade e vir aqui é um hábito. Difícil abandoná-lo. Eu não ia beber.

— O senhor não precisa se explicar para mim.

Pessoas costumavam julgá-lo. Rose poderia ter feito o mesmo, mas apenas contou:

— Meu avô materno tinha a mesma necessidade que a sua.

— Tinha? Qual o segredo dele para agora usar o verbo no passado? Gostaria de saber.

— Ele faleceu quando eu tinha cinco. — As palavras calaram Draco de uma forma tempestuosa. Não esperava mesmo por essa resposta.

— Acidente ou...?

— Como eu disse, ele tinha muita necessidade.

Draco entendeu que a bebida o matou. A garrafa começou a pesar em sua mão e ele precisou desviar os olhos que encaravam Rose para o carrinho do supermercado ao lado dela. Viu embalagens de chocolates que as pessoas apenas compravam quando tinham crianças em casa. Lembrou-se da pequena Zoe e se condenou internamente por estar ali.

— Sinto muito — ele disse com sinceridade.

Repousou a garrafa no local onde a encontrara e foi embora com as mãos vazias.

Rose observou os passos do sogro, sentindo algum tipo de aflição incapaz de ser explicada. Continuou fazendo sua compra semanal, mesmo assim. Após pagar e levar as sacolas para o carro, uma mão a parou no meio do caminho. Era Draco, parecendo um tanto perdido.

— Escute, sei que isso não vai dar a você tranquilidade alguma... Mas não havia colocado a mão em nenhuma garrafa até aquele momento em que me viu. Espero ainda poder levar e buscar a Zoe no teatro.

Ela confirmou, depois de muito pensar nas próximas palavras:

— Todos os sábados de manhã. Não mudou.

Draco entendeu isso e prendeu um suspiro aliviado. Quase abriu ali um genuíno sorriso.

— Certo.

Ajeitando a bolsa nos ombros, Rose hesitou um pouco antes de confessar:

— Zoe fala bastante sobre o senhor.

— Não vou decepcioná-la.

Fazer promessa era algo frágil, mas era o que Draco tinha a oferecer nesse momento. Rose esperava não se arrepender por confiar que fosse o suficiente.

***

A notícia que Ralph Thomas acordou do coma foi enviada a Rose em uma tarde de correria no museu. Duas obras expostas haviam sido danificadas por conta de acidentes e ela passou o dia todo tentando entrar em contato com o restaurador que pudesse salvar essas obras a tempo de serem expostas na galeria da semana seguinte. A dor de cabeça a aflorava; ela estava tendo um dia ruim, e tudo estava dando errado. Precisou se sentar para não perder a compostura e, enquanto se condenava por tudo estar fora dos eixos, o celular vibrou.

A foto de Scorpius a deixou um pouco mais calma e ela atendeu a ligação.

Tudo bem? — ele perguntou quando Rose falou um “ei” bem cabisbaixo. — Parece desanimada.

— Sabe quando você tem aqueles dias ruins no trabalho? Onde tudo está dando absolutamente errado?

Conheço bem. Atrapalhei você em algo importante?

— Não. Estou estagnada. Parece que nem ao menos acho outra saída, só a de me desesperar. Mas... chega de dramas. – Sorriu um pouquinho. – Diz que tem alguma coisa boa para falar para mim.

Que bom que mencionou. Lembra do Alfred Thomas?

— Ralph Thomas. Claro que lembro.

Acordou. Ontem. Recebi a notícia de um cliente que também sabe da situação do garoto.

O coração de Rose ficou mais leve.

— Ele está bem?

Não tenho mais nenhum detalhe. Mas imagina a cara da coisinha quando descobrir.

— Já posso imaginar.

Par ou impar para ver quem fala?

Rose riu, esquecendo-se dos problemas por um segundo.

— Quer saber...? — disse baixinho. — Eu já dei tantas notícias boas para ela. Agora é a sua vez.

***

Scorpius esperou Zoe terminar o chocolate quente. Eles estavam na mesma lanchonete que costumaram frequentar desde o dia em que Zoe voltara a Londres e começou a enfrentar a escolinha. O rapaz se lembrava muito bem de como ela tagarelava sobre os amigos que tinha feito. E sempre contava sobre como Ralph Thomas era um chato e que pegava no seu pé.

Naqueles dias, Zoe pouco falou dele. Tentava se distrair e falar de coisas que não a fizesse se sentir mal. Ela também contou ao pai que fez as pazes com a Amanda, então naturalmente estava bem feliz naquele dia.

Pensou como seria se tivesse que lhe dar uma notícia ruim.

Mas era boa, muito boa.

— Coisinha, estive pensando... em visitar o Alf Thomas hoje. Agora mesmo. O que acha, você quer?

Ela negou com a cabeça. Não tinha sido uma experiência boa quando o visitou semana passada. Foi um clima tão pesado ver o garoto deitado, dormindo, com a cabeça enfaixada, e a avó do garoto chorando como se não estivesse no hospital, mas no velório... Zoe nem sequer chegou a entrar na sala. Pegou a mão de Rose e puxou a mãe para irem embora.

Ela gostaria que tivesse sido mais corajosa.

— Não ia querer devolver aquele lápis para ele?

De repente ela informou:

— Um menino da escola disse que o Ralph Thomas vai morrer.

Foi uma frase muito dura. Scorpius, mesmo assim, ergueu as sobrancelhas.

— E quem é esse menino sabe-tudo?

— O que já bateu nele várias vezes.

— Bem, se ele tem tanta certeza de que isso aconteceria ao sr. Thomas, então por que recebi hoje uma ligação me contando que o trombadinha está acordado?

Zoe piscou até entender.

Como ela não tinha reunido muitas palavras de impacto para demonstrar sua emoção, Scorpius perguntou outra vez:

— Quer vê-lo?

Ela afirmou depressa com a cabeça. Levantou-se para seguir o caminho até o carro, um tanto apressada, e se Scorpius não tivesse reparado, a menina teria esquecido sua mochila na cadeira.

***

O garoto teve uma recuperação que, para muitos médicos, era considerada sorte. Scorpius esperou com Zoe na sala até que autorizassem a visita, dando tempo de Rose chegar e abraçá-la, ambas contentes com as notícias.

Uma enfermeira simpática estava cuidando do Ralph Thomas quando Rose entrou com Zoe para vê-lo. A avó do garoto agradeceu imensamente pela visita, pela preocupação e pela consideração em ver como seu neto estava.

— Ele não recebe muitas visitas... — dizia a senhora. — Não é tão popular na escola, imagino!

Seu tom era de brincadeira. Afinal de contas, tudo estava bem agora. O neto estava com os olhos abertos, deitado na cama e observando as duas pessoas novas que entraram no quarto. Zoe se adiantou muito grudada na mamãe, ainda tímida. Rose a encorajou com um leve aperto no ombro. Ralph Thomas não sorria para ela; só olhava bem curioso, como se tentasse entender.

— Você não queria devolver o lápis a ele? Pode devolver agora — disse Rose, soltando-a. Zoe imediatamente pegou o lápis dentro da mochila.

A menina deu os passos necessários para se aproximar até a cama. Sentado, Ralph Thomas recebeu o lápis de volta.

— Obrigada por me emprestar — ela disse.

— De nada — ele disse.

A enfermeira sorria para os dois e, enquanto trocava a fronha do travesseiro do garoto, exclamou:

— Mas que amiga mais incrível, Ralph! Qual é o nome dela?

Rose, que assistia a cena com um sorriso no rosto, diminuiu a animação quando percebeu o mesmo que a avó do garoto. Ele estava fazendo esforço para se lembrar do nome da amiga. Foi quando ele disse baixinho:

— Não... não lembro.

Zoe ficou brava.

— É a Zoe! O meu nome é Zoe, como assim você não lembra o meu nome?

— Zoe, querida... — começou Rose, preocupada, aproximando-se, mas a enfermeira explicou pacientemente:

— A memória dele ainda está bem confusa. Ele pode ter um pouco de dificuldade para voltar a lembrar algumas coisas...

Rose encarou a sra. Thomas. A devastação no rosto da mulher era tão visível que doía. Embora pouco ou nada conhecesse da mulher, precisou consolá-la, mas a voz de Ralph Thomas soou pelo quarto:

— Não pode ser a Zoe. A Zoe que eu conheço não tinha esse buraco na boca, não.

Ralph Thomas! — exclamou Zoe, mais brava ainda, mas agora ela estava rindo com ele. Os dois tinham sorrisos idênticos, já que Ralph havia quebrado o dente e estava com a janelinha típica também.

— Ai, esse menino não muda — ralhou a sra. Thomas, sem saber se ria ou chorava junto com a enfermeira. Rose ficou tão aliviada que precisou encontrar o olhar de Scorpius. Ele também viu a cena, perto da batente da janela do quarto e, tendo garantido que tudo estava bem, voltou a se sentar na sala de espera, ocupando-se com uma revista e fingindo que não se importava.

Dez minutos depois Rose encontrou Hugo com o tempo livre para conversaram. Ele puxou assuntos dramáticos com Rose enquanto Ralph Thomas e Zoe tagarelava sobre as novidades; o menino apenas escutava, como se não conseguisse pescar todas as informações da amiga, mas tentou o seu melhor.

Quando Hugo foi chamado para uma emergência, Rose se afastou até o corredor e caminhou para poder se sentar a vazia cadeira ao lado de Scorpius. O rapaz lia um catálogo de remédios.

— Ele melhorou cem por cento, pelo visto. Fez aquela gracinha a Zoe, é porque está bom — comentou Scorpius.

— Sim. Meu irmão estava me contando... A mãe do garoto está em reabilitação e o pai fugiu quando ele não era nascido. Ela tem pouquíssimo dinheiro e todas as despesas da avó são direcionadas ao pagamento da educação dele, em Hogwarts. Ela não tinha como pagar o tratamento nesse hospital. Hugo mesmo me disse. Alguém pagou por eles. Talvez o pai tenha voltado, foi doação anônima.

Scorpius não tirou os olhos do catálogo quando disse:

— Peso na consciência, será?

— Não sei. Mas não foi milagre a recuperação dele. Se fosse qualquer outro hospital, as chances seriam poucas do menino sobreviver. Quem quer que tenha feito a doação... salvou a vida dele, Scorpius.

Ele não duvidou disso, mas não falou mais nada sobre o assunto. Rose segurou a mão dele sem que ele precisasse confirmar qualquer coisa.

***

Estar com ela, tê-la nos dias difíceis e fáceis, trazia-lhe um conforto que evitou por besteiras e erros insignificantes.

Queria se convencer de que merecia terminar as noites com o corpo de Rose embalado junto ao seu sobre colchões e lençóis. Não tinha certeza se merecia a sensação dos beijos no pescoço e das unhas perfurando a pele, criando a ardência de um desejo cortante e reconhecido. Sentir os espasmos femininos a cada vez que sua língua circulava na região sensível, molhada, deliciosa, adorável, entre as pernas lisas e bonitas, e os dedos puxando cada fio dos cabelos loiros. Fazê-la gemer com o uso das mãos e de uma penetração que não tinha o intuito de ser delicada, mas rápida, de intensidade que Scorpius gostava. Ela o acompanhava, entrando na sincronia como um ritmo musical.

Beijavam-se entre um gemido e outro, porque não existia fôlego o tempo todo. Era como se o tempo sem aquilo fosse desesperador. O tipo de beijo que Rose sentia falta; aquele beijo que ela não teve com nenhum outro homem, antes ou depois de Scorpius. Movimentava-se contra o colo dele, gemendo sem se preocupar em criar muito barulho – coisa que só poderia acontecer quando estavam completamente sozinhos em casa. Era incrivelmente bom ter os olhos fechados, apenas sentindo Scorpius dentro dela, seus dedos longos apertando o glúteo e manuseando boa parte dos movimentos. O melhor mesmo era abrir os olhos e ver o sorriso dele, encostado com a cabeça ao travesseiro. Scorpius gostava de como Rose retribuía o sorriso e o cavalgava até o orgasmo.

Deitou ao seu lado e o abraçou, sussurrando:

— Sei que foi você.

Ele se fez de desentendido, sonolento.

— Não sei do que está falando.

Mas sorriu para ela e somente aquele sorriso breve, sem mostrar os dentes, confirmou tudo.

— Fez pela Zoe?

Ele respirou forte e pensou. Não foi inteiramente pela filha, mas ela era culpada de muitas coisas pelas atitudes que ele gostaria de ter tomado tantas vezes. Atitudes boas.

— Fiz porque... eu perdi minha mãe. E como não tem jeito de trazê-la de volta e me desculpar pelas merdas que eu fiz... ajudar o amigo da Zoe com o único recurso que eu tenho, que é o dinheiro, foi a minha saída.

Ela o beijou no peito, fraquinho, para subir até os lábios.

— Você sabe que ele vai dar muito trabalho para você — sorriu Rose.

— Quem? O Alfredo Thomas? Nah. Zoe nunca vai namorar.

— Nunca, é?

— Nunca. Vai ser sempre a minha coisinha. E se alguém chegar perto e magoá-la... eu tenho contatos na prisão.

Rose gargalhou. Parou um pouquinho para cochichar:

— É um bom papai, Scorpius.

Riu pelo nariz, sempre descrente, sempre sem saber como reagir a elogios.

— Zoe que é uma boa filha.

E pensou no que Ronald Weasley falara há algumas noites:

“Se não cuidar direito, não vai ser assim pra sempre.”

Scorpius Malfoy teve um grande número de mulheres na sua vida e Rose Weasley o ensinou diversas coisas. Ele não saberia descrevê-las em um pedaço de papel, mas com ela, sempre com ela, sentia-se diferente. Não no sentido de outro Scorpius, mas no sentido de um Scorpius melhor. Ou pelo menos alguém que queria ser.

Notas finais
Algumas cenas desse capítulo foram escritas há muito tempo. O Scorpius ajudar anonimamente no tratamento de um amigo da Zoe estava marcado para Fix You há um tempão. Pansy está para casar pela 3a vez então Draco não está mesmo com sorte. Ainda tem mais coisas para explorar sobre eles, mas pelo menos está passando mais tempo com Zoe. Bom... sei que prometi mais dos Weasley e eu vou cumprir a promessa - mas nesse capítulo ainda não consegui encaixá-los. Obrigada pelos comentários! Vocês são incríveis por estarem aqui acompanhando a jornada dessa família. Vou deixar as impressões do capítulos com vocês, pois estou um pouco desanimada por ter que me despedir das minhas férias. hahahaa Até o próximo capítulo! Beijos e abraços, Pooookie