Fix You

6 Up In Flames


Notas iniciais
Como prometido, um capítulo rápido e grande. Aproveitem e espero que gostem!

Capítulo 6.: Up In Flames

"So it's over
This time you're flying on
This time I know no song..."

Não aproveitava o tempo na banheira há tempos e, naquela noite, tudo o que ele queria era relaxar. Para garantir que não estivesse completamente sozinho com seus pensamentos, Alexis fazia-lhe companhia.

Com massagens, é claro.

Os dois estavam em lados opostos da banheira, ele com os olhos fechados, descansando, e a moça apreciando a visão masculina a sua frente. Sexy, despretensiosa, perigosa. Não tinham assuntos naquele momento. Alexis subiu os pés para o peito dele, como um modo de pedir atenção.

– Calado hoje, loiro. Achei que ouviria você comemorando a sua vitória sem parar.

Ele roçou as mãos pela extensão das delicadas pernas, com o auxílio escorregadio da água ao redor deles.

– Não quero falar sobre trabalho hoje.

– Não? – ela estranhou.

– Não quero falar sobre nada – ele sussurrou, puxando para si o corpo de Alexis. Ela não reclamou, de fato estava apreciando, sem saber, a suavidade dos movimentos. Geralmente Scorpius ia direto ao ponto e gostava disso nele. Mas as carícias dele sabiam enlouquecer mais ainda, porque estavam sempre escondidas e, uma vez que ele se rendia a elas, qualquer mulher saberia aproveitá-las com gosto.

Beijaram-se sem estimulações maiores que suas próprias línguas. Alexis se afastou para segurar o rosto molhado com suas duas mãos e encará-lo nos olhos.

– Você deve odiar mesmo ficar sozinho.

Scorpius capturou seu pescoço, ouvindo a vibração da garganta dela, resultado de um gemido breve que soltou, especialmente quando as pontas dos dedos dele prensarem a pele daquele glúteo, bem forte. Isso a fez levantar as pernas e sentar no colo dele, bombardeando o corpo como uma mina desesperada pela explosão.

Alexis voltou para Oxford no meio da noite, deixando um bilhete no travesseiro que ocupou ao lado dele na cama.

Parece que a chama estava maior do que você pensava. Nos veremos em uma próxima disputa. Alexis.”

Preparou um forte café para si mesmo, e andou até sua sala para observar a pouca movimentação da rua lá embaixo pela janela de vidro. Ainda era cedo, cinco horas da manhã, e não conseguiu voltar a dormir, embora seu corpo gritasse por descanso.

Gritasse por folga.

Ser considerado o advogado mais bem sucedido com menos de trinta anos era o resultado de inúmeros dias sem dormir, então não podia se dar ao luxo de ter folga. Não era porque seu pai era um político beirado a influências certas, e sim pelo esforço e sacrifício de ter mantido os status com seu próprio suor, tanto na época da faculdade quanto depois, orgulhando o nome da firma de seu tataravô, Malfoy.

Scorpius dedicava sua vida ao trabalho e suas inúmeras mulheres, sem saber se realmente era feliz com isso. Não procurava refletir muito, pois acabaria tirando a conclusão que não, ele não era nenhum pouco feliz. Mas agora era tarde para mudar os hábitos. Toda vez que se encontrava sozinho, no silêncio incômodo de seu próprio apartamento, ele só conseguia pensar em uma pessoa.

Duas, para falar a verdade.

– Sr. Malfoy? – Quando se deu conta, Scorpius estava de volta ao escritório em um dos espaços da firma, com sua assistente, Eliza Chang, na porta: – Ele voltou.

Não precisou nem dizer quem ele era. A presença de Lucius Malfoy era literalmente saudada por todos. Scorpius foi até sua porta para observar o alvoroço de funcionários loucos para demonstrarem que estavam fazendo algo útil enquanto Lucius passava por eles, com o apoio incondicional de sua bengala.

Ergueu os braços quando viu Scorpius.

– Hyperion!

Scorpius fez um sinal respeitoso com a cabeça e sentiu a mão do avô apertar seu ombro – um vestígio de que sentia orgulho.

– Não sabe o quanto é bom voltar para a minha empresa e ver que tudo está em pé.

– E melhor – o rapaz acrescentou.

– Como foi a viagem, sr. Malfoy? – perguntou Eliza educadamente.

– Contarei tudo – ele garantiu. – Mas agora eu preciso conversar sozinho com meu neto, garotas.

As jovens assistentes se afastaram, sorrindo, e Scorpius entrou novamente em seu escritório com a presença agora de Lucius.

O sorriso e a pose animada sumiram quase que instantaneamente. Scorpius relatava os últimos acontecimentos no tribunal quando parou e percebeu que seu avô estava olhando para a janela, com a expressão vazia.

E então revelou:

– O tumor voltou. – Notando o silêncio que teve em resposta a revelação, Lucius girou o pescoço para encará-lo. – Não diga o que está pensando. Eu não vou me aposentar. Vão ter que tirar meu corpo daqui, para conseguirem que eu me afaste permanentemente.

– Não estava pensando em dizer isso – falou Scorpius com a voz baixa. – Eu ia dizer que deveria conhecer Zoe.

– Zoe? – ele franziu a testa. – Por acaso vai se casar, para que eu precise conhecer uma namorada sua?

– Zoe é minha filha.

Não que Lucius não soubesse da existência de uma filha de Scorpius. Apenas não se importava suficientemente para ter se lembrado com rapidez. Não era assunto que frequentemente caía sobre a mesa do jantar da família Malfoy. Não que ultimamente tem existido jantares em família.

– Um rolo que teve com uma qualquerzinha e ainda mantém contato? A garota anda pedindo dinheiro, então?

– Rose nunca me pediu nada – tentou falar com a voz neutra, mas sentiu nela um pouco de rispidez no tom.

– Então você não passou de uma fonte de esperma. Lamentável.

Lucius andou pela sala e se aproximou de Scorpius.

– E conseguiu fazer com que isso não te prejudicasse na sua carreira. Que destreza, Hyperion, que destreza.

Isso se chama Zoe, ela é minha filha e, não se preocupe, contarei a ela que o senhor foi um homem excelente. Saia do meu escritório, eu tenho muita coisa para resolver.

Começou a mover os papeis da mesa com uma rapidez desnecessária, querendo se ocupar com qualquer coisa que pudesse privá-lo de encarar o olhar inquisidor do avô por mais tempo.

– Sempre foi sentimental com assuntos familiares. Herdou isso da sua própria mãe. Bem, mais ou menos.

Scorpius parou de mover os papeis.

– Astoria era superprotetora. Ela estava brigando com você no celular quando sofreu o acidente. Pedindo para que não usasse drogas, tivesse juízo, usasse camisinha, coisa que toda mãe pede. Astoria cuidava tanto de você que ela morreu porque não podia esperar para chegar em casa e te mandar ter juízo antes das suas festas. Precisou fazer isso enquanto dirigia, mesmo sabendo que os avisos nunca adiantaram com você. Continuou fazendo suas merdas. Nem para usar camisinha, usou, pois veja no que deu. Mas você acha que é um pai porque mantém contato uma vez ou outra com a sua filha? Quando fizer realmente alguma coisa pela Zoe – continuou Lucius friamente –, eu vou acreditar que é um pai, Hyperion, e vou conhecê-la com um sorriso no rosto.

No ponto em que ele parou de falar, Scorpius estava sentindo que o sangue não bombeava para suas mãos, pois as mantinha tão trincadas que se ele tivesse unhas afiadas provavelmente arrancaria sangue da pele pressionada por seus dedos.

– Só espero que eu não tenha batido as botas até lá.

Scorpius conseguiu voltar com sua respiração quando ouviu a porta se fechar. Pelas paredes de vidro, pôde observar Lucius caminhar pelo corredor de sua empresa como se o mundo devesse muita coisa a ele.

Scorpius precisou se sentar. O coração batia apressado, como toda vez acontecia quando se lembrava de Astoria. Não que ficasse um segundo sem lembrar.

Nunca gostava das visitas do avô.

Engolia muitas verdades.

***

Zoe ajudou Ron Weasley a perdoar sua filha. Não completamente, mas o suficiente. Embora tivesse passado vários anos furioso, inconformado, desiludido com Rose, aprendeu a amar aquele certo erro. Amar, cuidar, sentir falta. Rose se lembrava do primeiro sorriso do pai depois que recebeu a notícia de que ela estava grávida – revelada pela Hermione, porque a própria garota não conseguiria dizer. Foi quando Zoe nasceu, bem depois que ele rasgou a sobrancelha de Scorpius com um soco certeiro, derrubando-o. Ignorando os enfermeiros tentando estancar o sangue do rosto de Scorpius, Ron virara-se para a bebê no colo de Rose e, no primeiro bocejo que Zoe dera, tinha sorrido. Foi breve, ligeiro, nem mesmo ele se dera conta de que sorrira.

Nunca deu sugestões drásticas em relação a sua gravidez. Claro, brigou, gritou, passou anos sem conseguir falar com Rose da mesma forma. Porém, quando Zoe finalmente nasceu, Ron basicamente sentenciou:

“Ela não vai ter o sobrenome do pai dela.”

E resolveu que todos os problemas foram atraídos por Scorpius Malfoy. A culpa era dele e somente dele.

Após jantar com os pais e o irmão, Rose estava naquele momento encostada à parede da sala de seus pais, observando Hugo lendo um livrinho para Zoe, que a fazia rir com todo o fôlego por causa da imitação de vozes engraçadas que ele fazia.

Percebeu que Hermione estava atrás dela, também vendo a mesma cena. As duas trocaram um leve sorriso.

Hermione sempre esteve ao lado de Rose. Em qualquer situação, mesmo com as dificuldades, Rose reconhecia que ela não teria conseguido passar por tudo o que passou sem a ajuda e o suporte de sua mãe. Se Hermione não tivesse aceitado tudo isso, Rose não saberia o que teria sido de Zoe.

– Eu estou feliz que tenha voltado para ficar, filha – disse Hermione. – E seu pai não vai falar, mas ele também está.

Ron estava dividindo uma cerveja com Paul. Os dois trocavam uma ou duas palavras, pelo esforço do pai em tentar descobrir se havia algo errado com aquele namorado da filha.

– Paul parece ser muito bom para Zoe – continuou a sra. Weasley. – Tem algum plano com ele? Não pode criar uma criança solteira sua vida inteira.

Zoe já tem um pai. Não é por isso que estou querendo ter planos com Paul.

– É, já ouvi bastante essa história. O que o pai achou dele?

– Está com dificuldade de achar algum defeito – respondeu Hermione com um meio sorriso.

Era raro acontecer isso. O pai não odiar um namorado dela. Talvez Paul fosse o cara certo, no final das contas. Rose nunca soube como teria certeza disso, especialmente porque agora qualquer decisão que ela precisava fazer em sua vida tinha que ser pensada com uma dose extra pelo bem da filha.

Rose sabia que tudo tinha mudado entre ela e seu pai. Antes, Rose era a garotinha dele. Agora, Rose tinha uma garotinha. Os dois não tinham a mesma descontração nas conversas desde que Rose abandonou seus tênis velhos de corrida, coisa que ambos costumavam fazer toda manhã juntos. Antes mesmo de Rose engravidar, a relação deles havia se distanciado. Ron culpava Scorpius por isso também. Talvez mais por ter feito Rose desejar se afastar das asas do pai do que por ter engravidado sua filhinha.

Era difícil ter certeza. Ron não falava sobre isso.

Aproveitando que Zoe estava se divertindo com Hugo, Rose decidiu ultrapassar o corredor e visitar seu velho quarto. Com nostalgia, fuçou na caixa de seus velhos pertences e encontrou fotos com Albus, algumas com sua família inteira em viagens na praia, seus outros primos e seus amigos na época da escola. Tinha uma foto que Dominique tirou das duas, ela com um copo de tequila na mão e beijando o rosto de Rose enquanto agarrava-a pelo pescoço, obviamente registrando um momento muito bêbado. Com um sorriso triunfante, Rose encontrou uma de suas camisetas do Aerosmith, amassada no fundo da caixa, embaixo de um de seus cadernos de escola. Não que dez anos fossem muito tempo, mas... sim, era o suficiente para ela sentir falta daquela camiseta.

Olhou-se no espelho e a vestiu. Estava tão velha que a cor era cinza, e não preta. A tipografia da banda estava desbotando aos poucos. Ela ainda cabia em seu corpo, mesmo que ficasse agarrada. Para falar a verdade, ficou bem melhor agora do que ficava antes.

Rose sentiu falta daquela época. Buscou por alguns CDs antigos da banda e colocou na caixa de som para, logo em seguida, ouvir as primeiras acordes de...

– Essa não. – Jogou o corpo para trás, rindo, e deitando na cama. Riu exasperada. Aquela música era a última que ela queria ouvir ali.

Como era possível odiá-la tanto, mas ainda sentir o corpo se arrepiar só com o som da gaita na introdução de Pink?

Rose não costumava beber até cair, apenas até dançar sem medo ou vergonha de que estivessem assistindo. Scorpius tivera o particular privilégio de observar o movimento do corpo dela no ritmo e na batida dessa mesma música, em frente à cama do quarto dele, em alguma noite de nove anos atrás. O refrão a animava a ponto de ela começar a tirar a roupa. Divertida, adorável e lentamente. Três aspectos que sempre fizeram o strip-tease ser algo tão sexy, mesmo que ela se considerasse a pessoa menos sexy, aos dezoito. Lembrava de Scorpius sorrindo, deitado na cama, esperando, ansioso, excitado, para que ela derrubasse todas as camadas de roupa. Ela sempre enrolava na última, de propósito, só para vê-lo se desesperar.

Ela não tinha música de strip-tease com Paul. De fato, ela nunca teve com outra pessoa.

Sentiu um corpo pular em cima dela, fazendo-a se desligar das memórias e voltar para o presente, onde os olhos da filha estavam brilhando de animação.

– Olha o que o tio Hugo me deu! – Mostrou o bombom tão perto que chegou até a se encostar contra o nariz de Rose. – Posso comer agora, mamãe? Posso?

– Só se você me der um pedaço – disse, sorrindo. Zoe desembrulhou o bombom e colocou o chocolate na boca de Rose, que mordeu. Ela estava mastigando e saboreando o pedaço quando viu que tinha mais alguém no buraco da porta. Era Ron.

Rose cochichou para Zoe.

– Oferece um pedacinho pro vovô.

– Vovô, você quer um pedacinho do bombom que o tio Hugo me deu?

– Ai minha barriga – ele disse, pousando a mão na barriga, exageradamente cheio. – Comi demais e... quero.

Zoe riu. Ron se agachou na altura dela para comer um pedacinho. Zoe olhou um pouquinho decepcionada para o pequeno pedaço que sobrou para ela.

– Não se preocupe – disse Ron. – Eu ia te dar um também. Olha só.

Pareceu que era Natal. Zoe arregalou os olhos para o bombom que surgiu do bolso do avô.

Eufórica, mostrou a Rose de novo.

– O vovô me deu um também!

– Eu vi, filha, que delícia.

– Posso comer ele inteiro agora?

Riu.

– Aproveita.

Saiu do quarto para contar ao tio o que tinha ganhado do avô, deixando Rose sozinha com ele. Ela se levantou da cama e desligou o som. Um silêncio se formou entre o pai e a filha, que era preenchido pelas exclamações da voz de Zoe e de Hugo lá da cozinha.

– Rose... – começou Ron, mas ela não ouviu, porque a próxima coisa que fez foi dar os passos que faltavam para excluir a distância entre eles. Sem pensar, apenas tendo uma vontade absurda daquilo, Rose apertou o rosto no peito do pai e o abraçou com força. Só ela sabia a falta que tinha de ser a garotinha dele.

Ron não estava esperando por aquilo. Tinha recapitulado tudo o que precisava dizer para Rose, mas quando ela o abraçou, desistiu e afagou os cabelos ruivos.

Ele tinha o cheiro de toda a sua infância.

– Você e Hugo nunca perguntavam se podiam comer a sobremesa – ele disse, e Rose soltou uma risada, afastando os braços dele. – Faziam um esquema pra roubar da geladeira, mas acho que isso era porque vocês tinham a péssima influência do James e do Fred.

Rose passou a mão no rosto, enxugando as lágrimas. Escorriam contra sua própria vontade. Voltar para a casa dos pais era sempre esse drama.

Como se pudesse ficar ainda pior, Ron tirou um segundo bombom do bolso e entregou para ela, dizendo:

– Pra minha outra garotinha.

– Pai – ela reclamou, porque ele estava sendo fofo e ela não merecia isso depois de tudo o que ela o fez passar. – Devia estar me odiando agora.

– Não consigo – ele disse, como se tivesse realmente tentado nos últimos anos. – Vai entender isso quando Zoe crescer e cometer os erros dela.

Rose segurou o bombom, rindo e chorando ao mesmo tempo.

– Obrigada. – A voz nem saiu direito.

Ron foi virar para sair do quarto e deixar a filha sozinha com sua nostalgia, quando se virou e falou:

– Ah, e Paul... Não gostei dele.

Ela sorriu, enxugando o rosto depressa.

– Novidade.

– Muito puxa-saco. E aquela jaqueta de couro? Ele vai dançar na arquibancada do colégio, por acaso?

Ela olhou para o teto, rindo mais alto.

– Uau. Acho que esse é o mais perto de um elogio que você faz sobre qualquer um dos meus namorados, pai.

Ron piscou e se afastou para o corredor.

Zoe ainda não estava preparada para ter Paul morando com elas constantemente, isso foi uma confissão feita pela própria garotinha. Rose não queria pressioná-la e conversou com Paul sobre isso. A partir daquele momento, ele e Zoe passaram mais tempos juntos com a aula de violão semanal. Zoe ainda não conseguia apertar os dedinhos nas cordas, mas pelo menos já sabia segurar o violão no colo e ficou bem feliz. Assim, na época do começo de seu ano letivo, já não questionava a presença diária dele no café-da-manhã e no jantar.

***

– Por que tenho que usar um vestido chique pra ver o Paul tocar na banda dele, mãe?

– Pois estaremos em um lugar formal, com pessoas formais, e isso quer dizer que temos que ser formais também. Entendeu?

– Não, mas tudo bem. Eu gostei do vestido!

As duas estavam no banheiro, Zoe em pé na tampa do vaso sanitário observando sua mãe fazer maquiagem em frente ao espelho da pia. Naquele sábado, elas assistiriam a orquestra onde Paul tinha a liderança na bateria, no Festival de Londres, que também reunia obras mais influentes de artistas, e Rose nunca perdia a oportunidade de ir a eventos culturais – não foi à toa que conheceu Paul em um deles nos Estados Unidos.

– Posso usar esse batom?

– Não. Muito vermelho pra você. Passa esse daqui e depois tira o excesso como a Domi te ensinou, lembra?

Rose segurou o rosto da filha e passou um batom clarinho nos lábios dela. Zoe era uma garotinha vaidosa e gostava de maquiagens, embora Rose fizesse com que ela apenas usasse em eventos como aqueles.

Zoe tirou o excesso de seu batom na bochecha de Rose. Ela riu tampando a mão na boca, como quando faz marotagem.

– Foi assim que Dominique te ensinou a tirar o excesso? – exclamou Rose, fingindo desespero. – Vai pagar por isso, Zoe!

Apertou a filha nos braços e lascou um beijo bem apertado no rosto dela, manchando sua bochecha branquinha com o batom vermelho. A menina gargalhou jogando a cabeça para trás.

Após terminarem de se aprontar, Zoe pegou seu gorro rosa preferido em cima do sofá enquanto Rose verificava se todas as coisas estavam na bolsa.

– Nope, hoje o gorro fica em casa, ele tá encardido, Zoe.

– Ah mãe.

– Sim, senhorita. Vamos.

Pegou a mão da filha e abriu a porta do apartamento.

Assustou como se tivesse visto um alien no momento em que Zoe gritou surpresa para o homem que, coincidentemente, ia bater na porta do outro lado no mesmo instante:

– PAPAI!

Sem dar tempo de Scorpius respirar direito, a menina pulou e se agarrou a ele como uma tarântula, quase o fazendo cair de costas.

– Você está linda demais, coisinha – exclamou, segurando-a.

– Estou de batom hoje – ela anunciou toda metidinha, os braços ao redor do pescoço dele.

– A garota mais linda do mundo. Vão a algum casamento ou algo assim?

Scorpius soltou a filha de seu colo e teve vontade de rir com a expressão de Rose. Ela estava com a mão no peito, ainda recuperando-se do susto.

– Não apareça mais assim – pediu. – Por que não avisou que passaria aqui?

– Queria fazer uma surpresa a Zoe. Tirei a semana de folga e... bem, pensei em levá-la a um cinema ou parque. Mas já têm compromisso, pelo visto.

– Vamos ao show do Paul! – contou Zoe empolgada. – Temos que ir chiques para lá.

– É uma orquestra – explicou Rose ao ver a expressão de Scorpius.

– Ah, sim. Bem... – ele pigarreou tentando esconder a decepção. – Deixamos pra amanhã, o que acha, coisinha?

– Pode ser!

– Combinado então. – Acariciou o cabelo da filha e sorriu.

As duas saíram do apartamento e Rose trancou a porta com a chave. Nesse momento, Scorpius acompanhou as duas até o elevador.

***

Enquanto o elevador descia, Zoe olhou para cima e viu seus pais um do lado do outro. Sentia as mãos de sua mamãe nos ombros dela e a do papai estava no bolso da calça dele. Ficou um pouquinho triste por isso, porque queria segurar a mão dele. Estava muito silencioso ali e ela tinha a necessidade de falar muito, mas não sabia o que dizer. Pensou em algo inteligente, para impressionar o papai.

– Sabia que gatinhos sempre caem em pé?

– Por que os cachorros também não caem? – perguntou seu papai.

– Eles são diferentes. Então fazem coisas diferentes, não é?

Viu o papai e a mamãe trocarem um sorriso.

– Você não está errada – disse sua mamãe.

O silencio voltou, mas não durou muito tempo, porque o elevador parou no saguão de entrada e o papai esperou elas saírem primeiro. Estavam com seus carros no mesmo lugar, por isso ainda continuaram juntos até o estacionamento. Scorpius pegou a chave do bolso, despediu-se da filha, e foi embora com o seu carro bonitão.

Rose abriu a porta traseira do seu carro antigo. Zoe se sentou no banco de trás. A menina não precisou de ajuda e logo colocou o cinto, esperando sua mamãe entrar e ligar o carro.

O carro não ligou.

Várias tentativas, e nada.

Passado dez minutos sem nenhum resultado, Zoe viu a mamãe encostar a cabeça no volante, xingando baixinho.

Após vários suspiros, mamãe finalmente disse:

– Pega o meu celular na bolsa aí atrás, filha?

Zoe entregou o celular para ela.

– Vai ligar para o Paul buscar a gente?

– Não, Paul não pode agora, ele está ensaiando. Vou ter que ligar para o seu pai.

Foi o que fez. Zoe ouviu sua mamãe conversar com o papai pelo celular. Parece que o papai estava dando instruções para ela. Zoe viu a mamãe sair do carro, abrir a tampa que tinha nele, mas depois a mamãe voltou bem rapidinho e disse algo engraçado:

– Vou explodir o carro se eu fizer isso. Não, não precisa voltar aqui só para ver se funciona. Ah!

Alguém bateu os nós dos dedos na janela da porta, fazendo Rose pular do banco e derrubar o celular no colo. Foi o segundo susto que Scorpius deu na mamãe naquela noite. Abriu a janela e o papai estava rindo.

– Não tinha saído do estacionamento – explicou. – Quando vi que o carro não funcionava, só fiquei esperando você pedir ajuda, com esse orgulho maior do que a barriga do robô do Big Hero.

– Haha – mamãe disse enquanto Zoe ria de verdade.

– Vamos. Eu dou carona.

– Você acha que isso vai adiantar alguma coisa? Eu tenho que trabalhar, não posso ter o merda do carro quebrado. Do chato – repreendeu-se imediatamente, enfatizando para Zoe. – Do chato carro quebrado.

– Ma-mãe dis-se pa-la-vrão – cantarolou a menina.

– Você pode levar o carro para a oficina amanhã. Não tem um show pra assistir agora?

– Vamos! – pediu Zoe. – Por favor, por favorzinho. Dá pra ver o céu pelo carro do papai.

Scorpius estava inclinado perto da janela, por isso Rose o encarou bem de perto.

– Tudo bem – rendeu-se e tirou a chave da ignição, sem querer se deparando com aquele sorriso de Scorpius que ela não achava fácil encarar sem ter lembranças que foram boas.

– Eba – disse Zoe saindo depressa e correndo até o carro de Scorpius do outro lado do estacionamento.

– Zoe! – gritou Rose no exato momento em que o farol de um carro apareceu de supetão no caminho. Scorpius foi rápido e puxou bruscamente o braço dela, a tempo de evitar o acidente.

– O que você tava pensando? – olhou bem para o rosto da filha, falando tão alto com ela que Zoe sentiu lágrimas brotarem nos olhos, assustada. – Queria ser atropelada!?

O motorista do carro freou bruscamente e perguntou, abrindo a porta e se aproximando deles.

– Ela está bem? Eu não a vi, apareceu de surpresa!

– Sim, sim – Rose apressou-se a dizer. – Foi só um susto. Zoe, segura a minha mão quando for atravessar um estacionamento assim, ouviu? Nunca mais corra!

– É melhor sair daqui – rosnou Scorpius para o cara. – Se eu encontrar esse carro na rua, vou te fazer perder a carteira e qualquer direito que você tem. Sabe qual é a velocidade máxima para se dirigir em um estacionamento? Então por que estava acelerando?

– Olha, cara, eu não vi a garota. Eu estava andando normal... ela que veio...

– Você bebeu?

– Não, cara...

– Eu to sentindo cheiro de álcool em você, filho da puta – retrucou Scorpius, perigosamente perto demais do cara. – Não minta para mim.

– Eu não bebi! Foram só duas ou três cervejas, cara...

– Duas ou três? Duas ou três? Você podia ter matado a minha filha com duas ou três garrafas. Sabia disso?

– Não estava dirigindo bêbado... Eu não fico bêbado porque tomo duas ou três cervejas.

– Ah, tudo bem. Então vamos fazer um teste, que acha? Quantos dedos eu tenho aqui?

O cara até ia responder que eram três, mas não deu tempo, porque Scorpius o socou no rosto com toda a força que conseguiu reunir. Ouviu Rose exclamar alguma coisa, desesperada, mas não soube dizer se era para ele ou para Zoe, pois a menina imediatamente entrou no carro para não ver a cena. O rapaz cambaleou e foi embora depressa com o carro.

Scorpius virou as costas, os nós dos dedos vibrando como sinos. A dor gradualmente se transformou em pequenos choques, fazendo com que a mão ficasse trêmula, mas conseguiu pegar as chaves e voltar até seu carro.

Zoe ainda estava assustada por ter visto o pai ficar tão zangado e Rose não parecia ter entendido a merda que poderia ter ocorrido se Scorpius não tivesse afastado ela da rua a tempo.

Scorpius parou e precisou respirar um pouco, antes de ligar o carro.

– Coloca o cinto, querida? – a voz de Rose o despertou. Quando Zoe pôs o cinto, Scorpius enfiou a chave na ignição, mas não a virou completamente, porque a mão teve um pequeno espasmo de dor. Mas ele acabou notando que não estava trêmulo por causa da dor.

Rose notou isso e pousou a mão em cima da dele na chave. Foi tão inesperado que ele paralisou. Como é que ela estava tão calma? Zoe poderia... Imaginou que ela estava assim para não deixar Zoe desesperada.

– Você quer que eu dirija? – Rose perguntou, afastando a mão.

– Não. Eu estou bem.

Scorpius olhou para Zoe pelo retrovisor do carro. A menina estava quieta, olhando para suas mãozinhas juntas no colo, parecendo bastante culpada.

– Desculpe por ter visto isso, Zoe – pediu com a voz baixa quando estavam a caminho da casa de eventos pelo centro de Londres.

– Eu nunca mais vou correr na minha vida – ela murmurou. – Eu só queria chegar logo no seu carro... porque eu gosto muito de ver o céu a noite.

Rose e Scorpius se entreolharam.

– O moço vai ficar bem? – Zoe perguntou um tempinho depois.

– Eu só dei a ele um pouco mais de dor de cabeça. Não sentiu muita dor agora. Não queria que visse isso. Perdi a cabeça. Foi errado.

Zoe não falou mais nada no caminho, ficou distraída com o céu estrelado pela visão do teto solar.

Quando o GPS anunciou “você chegou ao seu destino”, Scorpius estacionou em uma vaga. Rose tirou o cinto e disse:

– Vamos, filha? – e virou-se para Scorpius. – Obrigada.

Zoe se inclinou no assento para dar um beijo no rosto de Scorpius, antes de sair também. Scorpius assistiu as duas se aproximando da entrada do teatro, na fila para entregarem seus ingressos, de mãos dadas. Não conseguia tirar os olhos de Zoe, preocupado. Se algo tivesse acontecido...

Não quis pensar no que poderia ter acontecido.

Fechou os olhos, apoiando a cabeça no encosto do assento.

De repente alguém bateu no vidro da janela do carro. Era Rose.

– Você quer entrar também? Seriam três lugares... mas Albus ficou doente e ele não pôde vir. Então, já que você tirou folga.

Não queria. Não tinha a mínima vontade de ver Paul Finnigan tocar.

Olhou mais uma vez para o local de eventos. Por outro lado, não ia conseguir ficar em seu apartamento vazio, e poderia passar um tempo ao lado de Zoe.

Desligou o carro, ajeitou a gravata e saiu, com um rápido clique na chave para trancar o carro. Ia assistir ao show daquele Paul e ter certeza se o cara era bom do jeito que todo mundo falava mesmo.

Pegou o ingresso na hora e entrou com elas na casa de teatro. Zoe imediatamente correu para pegar sua mão. Enquanto esperavam nos assentos, Zoe, sentada entre Rose e Scorpius, sussurrou:

– Papai, sua mão está machucada.

Os nós dos dedos estavam ficando com uma coloração roxa.

– Não é nada, querida.

– Tem que assoprar o machucado, porque aí vai sarar mais rápido – ela contou. – Assopra.

Não estava com vontade de ficar assoprando a mão, mas fez isso porque Zoe era sua filha e sabia que a menina era bem teimosa.

– Assim?

– Não forte. Tem que ser bem de leve.

Deve ter aprendido isso com Rose. Deixou Zoe assoprar a mão dele, pensando o quanto amava aquela garotinha.

– Uau, sarou mesmo – moveu os dedos. – Não estou sentindo mais dor. Obrigado, Zoe.

Ela fez uma expressão satisfeita e, nesse momento, o palco se abriu, mostrando a orquestra.

Estava pronto para debochar e dormir naquele lugar, quando a primeira música começou. Clássico dos clássicos, ele poderia fechar os olhos e acordar na próxima semana, de tão entediante. Paul estava na bateria, mas não fazia nada muito extraordinário nela. Porém, quando a primeira parte da apresentação acabou, o Jazz começou e Paul não parou de tocar. Não quis dar o braço a torcer, mas o cara era bom mesmo. O ritmo não se interrompia, ele levava a orquestra para um outro nível.

Mesmo assim, Scorpius se recusou a aplaudir de pé.

O mestre de cerimônia encerrou as apresentações de música no microfone e convidou a todos para visitarem a galeria de artes. No salão, Rose e Zoe ficaram observando as obras na parede, uma série de fotografias monocromáticas de distintas partes do corpo de uma modelo muito magra. Quando elas se aproximaram de um quadro branco com um risco azul, bem sem-graça, Scorpius falou em voz alta atrás delas:

– Nunca entendi porque consideram isso Arte. Eu mesmo posso pegar um pincel e fazer esse risco.

Rose estava olhando para ele nesse momento. O ar cínico de Scorpius em relação à arte sempre incomodou Rose a tal ponto que ela não podia deixar de dizer:

– Tem razão. Você poderia pegar um pincel e riscar um quadro, mas não pegou. – Observou mais um pouco a tinta acrílica no quadro, e Scorpius sabia que ela estava refletindo. – Não é sobre a estética, é sobre a pincelada. O que te faz pensar quando olha para esse risco?

– É um rio! – respondeu Zoe, apontando. – Um rio no meio de um moooonte de neve.

Rose sorriu para a resposta rápida dela.

– E você, Scorpius? Se tentar encontrar beleza, não vai achar.

– Me faz pensar que a pessoa ia pintar uma paisagem – ele respondeu –, mas foi interrompida. – Rose quase gostou dessa resposta, só que Scorpius rapidamente precisou acrescentar o pensamento: – Ou ficou com preguiça e deixou por assim mesmo.

Na verdade, aquele quadro mexeu com ele. Não gostava de admitir, mas sentiu como se todo o vazio da vida dele estivesse sendo drenado naquela rápida pincelada solitária. Ele se sentiu envolto por um monte de nadas, como a tinta.

– E o que você vê, mamãe?

– Eu? Bem, eu–

Foi interrompida quando Paul a abraçou por trás, surpreendendo-a com um beijo no rosto. Os dois sorriram um para o outro. Scorpius achou necessidade de saber que horas eram e desbloqueou a tela do celular. 22:22. Ora, quais as chances?

– Gostaram das músicas? – perguntou Paul para a Zoe, e ela fez um sim energético com a cabeça.

– Você também assistiu? – a pergunta foi direcionada a Scorpius, que estava tentando fazer uma ligação importante.

– Ele é um homem muito curioso – informou Zoe, respondendo por ele.

Pela primeira vez desde que se conheceram, Paul estendeu a mão para Scorpius, esperando que ele a apertasse.

Apertou. Mas disse:

– Ligação importante. Se me dão licença.

Zoe aproveitou a oportunidade para segurar sua mão e se afastar com ele, a fim de deixar a mamãe e o namorado dela sozinhos.

– Não vão muito longe – pediu Rose.

Scorpius encontrou um banco para se sentar em um canto do salão, guardou o celular sem ter tido ligação importante alguma, e Zoe ficou sentada ao lado dele.

Zoe tinha uma bolsinha tira-colo rosa onde costumava guardar moedinhas e brilhos e todas as bugigangas que crianças gostam de ter sempre com elas. A menina tirou de dentro dela a foto dos pais quando namoravam.

Scorpius franziu a testa.

– Onde achou essa foto?

– Quando fui na sua casa depois que quebrei a televisão. Estava no seu banheiro. Eu não sabia que você tinha fotos com a mamãe.

– As pessoas têm fotos quando elas têm uma história.

– Você e mamãe têm uma história então?

– Sim.

– Que nem um conto de fadas? – exclamou sonhadoramente.

Scorpius encontrou o olhar da ex-namorada ao lado de Paul. Os dois realmente não se tratavam mal. O máximo que Scorpius podia fazer por Zoe era isso. Não maltratar a mãe dela, mesmo depois de tê-la magoado tanto. Camuflado na frieza de não terem mais nada para compartilharem, além do amor que ambos tinham pela filha, restava somente algum respeito.

Será que deveria desiludir a filha com imagens perfeitas deles na cabeça?

Zoe não podia se iludir com os pais dela. Por isso Scorpius passou um braço em seus pequenos ombros e murmurou:

– Não, Zoe. Nada parecido com um conto de fadas.

Notas finais
Você, meu caro(a) leitora, deve estar se perguntando: Poorrrraaa pokie o que mais você tá reservando pra essa fanfic? Primeiro, Al é gay. E agora... Astoria não está mais com Scorpius... E eu sei que terão revoltas (estou me preparando mentalmente para isso), mas essa ideia não desgruda da minha cabeça, não desgruda. Para mim, se encaixou na fanfic, antes que eu pudesse perceber eu já havia matado a Astoria. Mas queria dizer que isso não significa que Astoria não estará na fanfic. De fato, ela é uma parte essencial de Fix You. Mas a pergunta fica, e o Draco? Cadê ele no meio disso tudo? De qualquer forma, eu espero que estejam gostando e que continuem acompanhando. Tivemos algumas memórias quando Rose e Scorpius namoravam. (a strip song! https://www.youtube.com/watch?v=EJuPVbu8f0I ) E quem nunca assistiu Grease, não entendeu a piada que o Ron fez com a jaqueta do Paul (interessados pesquisem "summer nights" no youtube kkk). Desculpa, mas adoooro fazer referências de filmes/músicas. E sei que a maioria de vocês tá revolts pq o Paul ainda tá com a Rose, mas tudo tem seu tempo. Só peço uma coisa: CONFIEM EM MIM! Até o próximo!