Fix You
35 Square One
Notas iniciais
Capítulo 35.: Square One
"You wonder if your chance'll ever come
Or if you're stuck in square one..."
Ele acordou em mais um hotel e seu bom humor não tinha a ver com a mulher que acabava de afastar o lençol para caminhar até o banheiro, seminua.
Scorpius abriu os olhos para a claridade da manhã ensolarada e percebeu que não havia mulher seminua caminhando em direção alguma. Apenas o celular esparramado no outro lado da cama vazia.
Ele atendeu a ligação com o rosto contorcido de sono. Ele se lembrou que deveria ter ligado para Rose antes de fazer o check-in no hotel e despencar na cama depois de mais de dez horas de viagem, filas e todas essas coisas burocráticas fora do continente.
— Eu sei, eu sei — ele já se apressou a dizer quando Rose começou a xingá-lo. — Eu sei... Cheguei muito tarde, meu celular sem bateria. E a diferença de fuso horário aqui é de três horas a menos, não queria acordar você... Não é desculpa. — Ele riu com o desespero dela. — Isso tudo é medo de me perder, Rose? Eu não estou acostumado com isso.
— Então começa a se acostumar. Zoe também fica preocupada com você, sabia?
— Calma, está tudo bem — ele disse, tranquilizando-a enquanto se levantava da cama e caminhava até a sacada para observar a silhueta da cidade. Mesmo às seis da manhã, o sol parecia queimar.
— E como é Montevidéu?
— Me dá preguiça de colocar terno. Acho que está fazendo uns trinta e seis graus aqui.
Scorpius era assíduo por viagens, mas não para lugares tão calorentos. No entanto, ele tinha uma obrigação com o trabalho para cumprir. Sem muita vontade, começou a escolher uma das inúmeras gravatas. Nesse momento, ele chamou Zoe para conversar no celular. Os dois bateram um papo de mais ou menos dez minutos até que a filha escolheu:
— A gravata azul fica mais séria em você, papai. E você tem que dar uma boa impressão para as pessoas!
Ele envolveu a gravata no colarinho.
— Como é que você entende dessas coisas, hein? – brincou.
— É o que a vovó Cissy sempre fala, não é? E eu acho que gravata azul combina com você! Mas tem que ser a escura, pra ficar bem sério.
— A escura, então. Obrigado, coisinha.
— De nada, papai. Você sabia que eu tirei nota máxima em inglês? A professora até leu meu texto pra turma inteira ler!
— Sério? — Ele calçou os sapatos e vestiu o paletó por cima dos ombros, verificando o relógio. — Você é bem filha da sua mãe.
— E você sabia que a chata da Annabella ficou morrendo de inveja e rasgou meu texto depois? Depois a diretora chamou nós duas pra sala dela e ela ficou falando um monte de mentiras pra diretora sobre mim.
— E tudo isso aconteceu enquanto eu estava fora ontem?
— Aham. E aí a Annabella ficou tentando brincar de esconde-esconde com a gente no recreio, eu não deixei, porque ela foi muito mentirosa aquela hora na diretoria. E depois ela tentou brincar com o Ralph Thomas e eu briguei com o Ralph Thomas porque ele deixou ela brincar com ele. Os dois estão super amigos agora. E eu não sou mais amiga do Ralph Thomas.
— Não? — ele perguntou, saindo do quarto. — Mas vocês se dão tão bem.
— Nunca mais vou falar com ele na minha vida.
Scorpius estava alcançando o elevador quando ocorreu um breve pensamento de que Zoe estava começando a ter fases dramáticas. Ele não deixou de rir, mas ficou meio desesperado também. Parecia que a cada minuto longe de Zoe ele perdia um pedacinho dela que estava crescendo absurdamente.
— Tio Al prometeu que a gente vai acabar com o traseiro da Annabella e do pai dela na gincana.
Scorpius ouviu Rose ralhar com Zoe, enquanto ele mesmo soltou uma risada alta.
— Olha a sua boca, Zoe!
— Foi o que o tio Al falou! — Ela voltou sua atenção para o telefone. — Então, papai... acho que eu só tenho isso pra contar agora. Quais as suas novidades?
— As minhas? Estou com saudades de vocês. Não vejo a hora de acabar com isso e voltar pra casa.
— O avião quase caiu e você pulou de paraquedas e salvou a vida de todo mundo lá dentro? Não aconteceu nada disso?
— Não queria desapontá-la, Zoe. Eu sou entediante.
Zoe suspirou.
— Tudo bem. Ainda bem que não aconteceu isso. Mamãe ficaria muito brava com você se você se machucasse.
— Ficaria, né?
— Sim. Ela diz que não tem muita sorte no amor.
— Zoe, pelo amor de Deus, me dá esse telefone.
— Mas foi o que você falou pra tia Domi! Tchau papai! Saudades de você já! Te amo muito, muito, muito. Do tamanho do infinito.
— Também te amo — ele disse baixinho. Reparou que estava sorrindo só quando viu seu reflexo no espelho do elevador.
No segundo em que se despediu de Rose e desligou o celular, colocando-o no bolso interno do paletó, a porta do elevador se abriu. O bombardeio de perguntas apressadas, Alexis de um lado, Zabini e Emily de outro, perguntando o horário do primeiro julgamento fez Scorpius precisar respirar.
— Vocês não comeram?
— Estamos atrasados, Malfoy — disse Alexis. — Onde está sua secretária? Ela entende a maioria das pessoas aqui e precisamos dela.
— Portia? — Ele reparou que Portia não estava com a equipe. Scorpius procurou com o olhar e encontrou a moça discutindo com alguém perto do balcão da recepcionista do hotel. Ela discutia com seu namorado, Corey Archner. Os dois estavam tentando controlar as vozes, mas elas somente cessaram quando Scorpius se aproximou.
— Aconteceu alguma coisa importante?
— Nada — apressou-se a dizer Portia. — Nada importante. Bom dia, Malfoy.
— Malfoy, posso conversar com você? — perguntou Corey.
Scorpius não gostava de Corey. Não porque o rapaz fez algo contra ele. Corey era apenas puxa-saco e Scorpius não gostava de puxa-sacos. Saiu há dois anos da faculdade e não tinha experiência alguma no tribunal, mas vivia insistindo para ajudar na corte. Não vencia muito dos casos que Scorpius deixava para ele em Londres, causando certa incredibilidade sobre sua capacidade com juízes e júris. Scorpius só reconheceu que ele poderia ser útil devido ao seu raciocínio lógico, pois era um rapaz muito inteligente, mas Scorpius aprendeu com seu avô que era preciso mais do que inteligência para vencer casos. Era preciso lábia. Saber manipular. Corey Archner era certinho demais para ser tão bom. E chato pra caralho com aquele topete de lado e sua mania de falar tão corretamente.
— Eu estava me perguntando se eu poderia ficar na mesa com você hoje. Gostaria de acompanhar mais perto como funciona um tribunal diferente. Acho que posso ser útil e aprender coisas que irão me ajudar mais para frente. Sabe, preciso ter mais experiência. Estudei tudo sobre o caso de Yates. Aliás, passei a noite inteira...
— Vamos ver — Scorpius disse, sem prometer nada. Só queria fazê-lo parar de falar. Já escutara o suficiente no avião.
— Isso é um sim?
— Isso é um “vamos ver”.
— Eu sei que fiz muitas coisas erradas. Mas aprendi com meus erros. E você me chamou aqui para ajudar, então espero que eu possa ter essa oportunidade.
— Você sabe espanhol?
— Eu? Não é um espanhol perfeito, mas posso tentar. Posso começar a estudar alguns termos hoje mesmo...
Scorpius abanou a cabeça, rindo. Corey ficou ofendido.
— Estou falando sério.
— Sabe qual é o seu problema, Archner?
— Eu aguento qualquer crítica.
— A gravata. — Scorpius inclinou o rosto, insatisfeito. — Não dá aquela sensação de seriedade, sabe? Ela é amarela.
Archner olhou para a gravata, sem acreditar que esse fosse o verdadeiro problema. Scorpius se divertiu com a expressão dele.
— Só uma dica. Vamos, Portia.
A moça o acompanhou para ajudá-lo com o idioma. O dia seria longo.
***
Zoe estava transpirando, mas Albus não deixou a garota descansar.
— Vamos, Zoe. Sem preguiça. Você não quer ganhar as provas da gincana amanhã? Cadê sua resistência?
— Mas tio Al, eu não aguento mais dançar Beyoncé — Zoe apontou para a tela da televisão, onde Just Dance estava ligado com as pontuações das disputas no placar. Albus venceu todas as partidas que disputaram, sem nenhum problema em derrotar a garota de oito anos. Zoe também odiaria que ele perdesse só para agradá-lo.
Em uma tentativa de tirar os últimos problemas da cabeça, enquanto ausentavam-se de notícias sobre mais provas nas acusações contra Michael, e após deixar Luke na escolinha, ele ficou acompanhando o aquecimento entre Al e Zoe para a gincana que ocorreria na mesma tarde.
E olhou ofendido quando ouviu o que Zoe falou.
— Como pode dizer que não aguenta mais Beyoncé? Ninguém se cansa de Beyoncé, Zoe.
— É verdade.
Os dois observaram o rosto tristonho e cansado de Zoe. Ela não estava animada para a gincana de pais e filhos em Hogwarts. Mas não era só por isso agora. Albus e Michael se entreolharam.
— O que está rolando, Zoe? Por que está com essa cara?
— Conta pra gente — Michael deu espaço para Zoe se sentar ao lado dele. Albus sentou do outro lado e esperou Zoe desabafar.
— Eu briguei com o Ralph Thomas.
— Ah não! — reclamou Al. — Você não está assim por causa de menino, está? Ainda é muito cedo!
— Mas o Ralph Thomas não é menino! — Zoe acrescentou baixinho depois: — Ele é meu melhor amigo.
— Vai dar tudo certo. Se vocês são melhores amigos, vão passar por isso numa boa — garantiu Michael.
— Ele me traiu. Ele brincou com a Annabella no recreio.
— Ele fez isso?
— Isso foi muita mancada dele — admitiu Al. — Ele sabe que você e Annabella são arquiinimigas. Converse com ele! E depois se vingue da Annabella pelo que ela fala sobre você, na gincana. Imagina a cara dela e do azedo do papaizinho dela quando nós ganharmos?
— Vai ser legal ganhar dela.
— Então cadê o sorriso maléfico da princesa Zoe?
Ela imitou uma risada maléfica no instante em que Rose passava pela sala para atender a porta.
— Eu não posso deixar Zoe um minuto sozinha com vocês e ela já vira uma cascavel — lamentou em tom de brincadeira.
Quando abriu a porta, Michael interrompeu os ensinamentos de Albus sobre como rir maleficamente para Zoe. Aquele Adam estava dentro do apartamento agora.
Ele cumprimentou os dois com um aceno de mão, demorando o olhar discretamente para Albus.
— Oi.
— Oi — ele respondeu.
— Oi, Adam! É uma tatuagem nova? — perguntou Zoe, apontando para o braço do rapaz.
— Opa. É sim. Curtiu?
— Uhum. O seu braço vai ficar inteirinho de tatuagem agora!
Adam riu.
— Essa é a intenção. E você? Quando vai fazer uma, hein?
— Eu só tenho oito anos ainda — disse lamentosamente. — Mas olha só a que eu fiz hoje.
Ela mostrou as costas da mão para o rapaz. Havia o desenho de uma flor gravado em sua pele clarinha, mas do tipo que saía com água e sabão.
— Veio com o chiclete — contou, mastigando o chiclete. — A mamãe passou água e ficou marcado. Não é de verdade. Mas ficou bonita, não ficou?
— Ficou linda.
— Adam e eu estamos trabalhando — explicou Rose através dos olhares de Michael e Albus. — Nós estaremos na sacada se precisarem de alguma coisa.
— Beleza — disse Al.
Adam não tinha escrúpulos e logo entrou no assunto:
— É uma pena que não esteja interessado em participar do meu projeto, Albus. Você se daria bem.
— Que projeto? — perguntou Michael.
Rose franziu a testa para Albus.
— Não falou para Michael sobre o projeto?
— Não é nada demais — ele apressou-se a dizer, sem graça. Mas Michael ficou muito interessado.
— Que projeto?
— Queria que ele fosse o modelo para um ensaio fotográfico que quero fazer — contou Adam. — Nada mais do que isso.
— Modelo? — Michael não riu. — Isso é legal. Por que não aceitou?
— Porque... não. Eu não gosto muito de pousar para foto. É por isso.
Michael não acreditou, mas também não insistiu em saber naquele instante. Percebeu que Albus ficou incomodado, então apenas sorriu mostrando os dentes para Adam enquanto o rapaz se adiantava para a sacada com Rose.
Quando voltaram a ficar sozinhos, Michael e Albus se olharam.
— Você não disse pra mim que queria deixar de ser professor e que isso já estava te irritando? Tentar uns ensaios como modelo seria interessante. E totalmente diferente do que você está acostumado a fazer.
— Não. Eu... não era isso o que eu tinha em mente. Além do mais, você vai achar que eu estou interessado em outra coisa com ele e podemos brigar. Eu quero evitar isso.
— É por mim que não está aceitando isso? Não vou brigar com você. Deixa de ser tonto. Eu confio em você. Faça o que quiser, entendeu, Al? Não pensa muito nos outros, nem mesmo em mim. Se quiser, não perca a chance e faça por você.
Michael não era nem um pouco ciumento. Ou tinha uma confiança exagerada e extrema em Albus. Fazia brincadeiras com os caras que se interessavam por ele, mas ciúmes não existiam por parte de Michael. Secretamente, isso incomodava Albus. Ele sim era muito ciumento e tinha que se controlar para não demonstrar tanto, pelo menos não a ponto de fazer os dois discutirem. A falta de ciúmes de Michael, muitas vezes, dava a Albus a impressão de que ele não se preocupava em perdê-lo. Mas sabia que isso era ridículo.
— Vou buscar Luke — Michael anunciou um tempo depois, no mesmo instante em que Adam também saía da sacada. Ambos foram embora ao mesmo tempo, dando a chance de Albus conversar com Rose sozinho mais tarde, na cozinha.
— Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou.
Estava limpando a pia da cozinha quando reconheceu aquele olhar dele. Al esfregou os braços, sentando-se na cadeira, mas não enrolou muito para contar.
— Eu vi Scorpius ontem de manhã. Ele estava com uma moça dentro do carro dele.
— Como ela era?
— Loira. Tão bonita que enjoa.
— Deve ser Portia. É a secretária dele.
— Só achei que devesse saber. Vocês conversaram? Quero dizer, antes da viagem dele? Você não parece preocupada.
— Não estou. Não quero ficar. Claro que me incomoda que ele está há sete horas de distância daqui com um monte de advogadas lindas. Claro que me incomoda que a maioria delas é ex. Mas... ele é profissional. Não posso ficar perdendo meus dias achando que ele está aí entre duas pernas abertas. Ou quatro. Ele tem mais o que fazer, certo? Ele garantiu que não faria essas merdas.
Houve um breve silêncio no qual Albus reconhecia que Rose ainda estava inquieta, apesar de ter garantido falta de preocupação. Eles não comentaram mais nada sobre isso, então Albus preferiu mudar de assunto.
— Você acha que eu deveria tentar? O ensaio, eu quero dizer.
— Eu te mostrei o portfólio dele. O que achou?
— Não tiveram nudes. Então não vou precisar tirar minha roupa, o que pode ser menos constrangedor caso nossa família veja as fotos.
Rose riu.
— Está mesmo considerando? Adam vai ficar feliz. E ele se interessar por alguém é difícil, então... Não vejo mal se você tentar.
Albus reconhecia que precisava mudar um pouco sua rotina. Ultimamente tem se perguntado o que faria da vida. Ele trabalhava com computadores, ensinava pessoas, ensinava em uma faculdade boa, mas não era a diversão dele. Depois que viu como Rose era tão feliz com a escolha de sua profissão, o modo como ela se dedicava inteiramente a um projeto, a uma exposição, a um quadro, a qualquer outra atividade artística, Albus achou que deveria encontrar esse mesmo tipo de paixão. Então, realmente, não faria mal algum tentar mudar as coisas.
***
A última atriz dos testes para ser Clarisse foi embora depois das dez horas da noite e Cissy estava impaciente. Nenhuma delas atingia a graciosidade e elegância que sua personagem principal tinha. Mas ela ficou satisfeita com a atuação de três moças. Entre elas, sem desapontar, estava Serena.
Porém, não foi a melhor. Cissy encontrou problema nas outras duas quando elas a abordaram sobre Clarisse. Não entenderam nada sobre a personagem. Eram aqueles tipos de atrizes que precisavam que você dissesse tudo o que precisava ser feito no palco. Automaticamente.
Cissy prezava autenticidade. Interpretar uma personagem era fácil, mas ela gostava de ver alguém incorporá-lo. Serena o fazia muito bem. Serena entendia Clarisse e isso era o suficiente para Cissy fazer sua decisão ao final da noite.
Caminhou até Serena na porta do teatro e disse:
— Vamos almoçar amanhã.
Sem esperar um “sim” ou “não”, foi embora. Serena não teria outra escolha. Passaria a tarde almoçando com Narcissa Malfoy. Isso a deixou mais nervosa do que a iminência dos testes.
No dia seguinte, Serena esperou Cissy às onze e meia no restaurante bonito e aconchegante que combinaram, sentada em uma das mesas ao ar livre, ansiosa e sem saber o que esperar daquele almoço. Narcissa chegou meia hora depois, com sua postura sempre presencial. As pessoas paravam para olhar a chegada dela, mas ela não olhava para os lados.
Tirou os óculos escuros quando se acomodou a frente de Serena.
— Eu escolhi você para ser Clarisse. Não interpretar. Ser. Sabe qual é a diferença, não sabe? E eu preciso que você seja perfeita.
— Prometo tentar.
— Não. Eu não quero promessas. E você não vai tentar. Clarisse não tenta. Agora, Serena, esse será o teste final. Nós vamos almoçar como duas amigas. E tudo o que você disser para mim, eu quero me lembrar de Clarisse. Não seja Serena comigo. Seja Clarisse.
— A senhora vai fazer esse teste agora?
— “Senhora” não.
— Desculpe.
— Clarisse não se desculpa.
— Certo. Já começamos?
Obviamente haviam começado. Serena se saiu bem ao se fazer de Clarisse durante aquele almoço. Pediu o que Clarisse pediria no cardápio. Assanhou-se com o garçom, chegando a deixar Cissy até um pouco impressionada, uma vez que fez o garçom derrubar a taça de vinho no vestido de Serena, cena muito parecida com a da peça. Claro que não terminou como a peça exigiria — sexo selvagem na cozinha do restaurante —, mas isso deixou Cissy mais confiante sobre sua escolha.
Ao final do almoço, Cissy inclinou-se, cruzou as pernas e começou a dizer:
— Draco não ama você.
Não havia expressão decifrável no rosto da mulher a sua frente. Serena se esforçou para não pestanejar ou amolecer. Não seria algo que Clarisse faria. Continuou, então, com a cabeça erguida ao ouvir tais palavras tão duras.
— Você sabe disso, não sabe, querida?
Serena preferiu não dizer nada. Clarisse não diria. Por isso, Narcissa continuou.
— Mas ele se preocupa com você. E você tem feito meu filho mais feliz. Sabe, querida, eu esperei ele seguir em frente há anos. Esperei ele parar de achar que minha nora assombraria o sono dele se ele encontrasse outra mulher. Então não me faça achar que você está brincando com ele.
Serena se esforçou muito para não dizer nada, mas dessa vez falhou:
— Eu não sei o que Clarisse falaria sobre isso. Ela nunca se apaixonou.
— Oh. Não. Serena, não estamos mais nos testes. Essa sou eu mesma falando para você não foder com meu filho.
— O que quer dizer...?
— Foder de outras formas, claro que podem. Longe de mim. O que quero dizer com esse tipo “foder”? Bem, eu quero dizer que se você acabar com ele, de alguma forma... fazê-lo se sentir miserável. Magoá-lo. Eu vou acabar com você e sua carreira.
E sorriu.
Serena ficou séria.
— Eu não vou magoá-lo. Não é a minha intenção, Narcissa.
— Porque apesar de Draco não amar outra mulher, ele pode aprender a fazer isso em algum momento. E se essa outra mulher for você... Apenas cuidado. O coração dele é feito de vidro. Você pode tentar colar pedacinho por pedacinho... mas nunca mais será o que era. Estará sujeito a sempre se despedaçar com qualquer cutucão que der. Então, o que estou querendo dizer... Você é jovem. Madura. Então você reconhece o chão fraquejado no qual você está pisando, não reconhece?
— Narcissa... Draco não é fraco.
Ao ouvir aquilo, Narcissa se calou. Recostou-se a cadeira e lançou outro olhar a Serena.
— Isso só prova que você não o conhece. Não esteve com ele na época dos... vícios.
— Clarisse tinha inúmeros vícios, mas você a fez ser a personagem mais forte que eu já li.
Narcissa não escondeu que gostou dessa resposta. Ficou até um pouco sem reação. Serena pegou suas coisas.
— Obrigada pela oportunidade que deu a mim. Significa muito. Eu preciso ir. Tenho que dar aula. Obrigada também pelo almoço. E eu entendo que você está protegendo Draco e isso é admirável. Mas a única pessoa que pode dizer para mim se me ama ou se vai me amar, é ele.
— Querida, não precisa mais incorporar a personagem. Paramos o teste.
— Essa sou eu mesma falando que não vou foder com seu filho. Boa tarde, Narcissa.
Cissy viu Serena ir embora, guardando um meio sorriso para si. Ela seria a Clarisse perfeita.
***
Portia se pegou muito impressionada com Scorpius Malfoy. Escutava pelas vozes de outras pessoas o quanto ele era bom no que fazia, mas nunca tinha visto de perto antes. A facilidade com a qual encarava o destino de um cliente era admirável. Sua postura transbordava confiança extrema e era possível ver o alívio e esperança carregada no réu, porque Scorpius pressionava tanto a testemunha para o outro lado da jogada que fazia o próprio Juiz se sentir confuso e contrariado, acabando por dar a sentença buscada por Scorpius.
Ela ficou ao lado dele na mesa do réu, traduzindo tudo. Gostou bastante daquela tarefa. Ela se sentiu importante, prestativa, algo que não acontecia com frequência. Em pouquíssimo tempo, termos de julgamentos e o modo como tudo parecia um jogo extremamente viciante começou a deixá-la empolgada.
Assistiu e prestou atenção em tudo, com tanta força, que também se viu muito interessada no assunto. Ao final da primeira sessão do julgamento com a equipe de Scorpius, Portia andou apressada para alcançar a troca de palavras entre ele e Alexis. Ela finalmente começou a entender uma ou duas coisas do que falavam.
No corredor do prédio, Alexis se despediu deles, deixando Portia sozinha com Scorpius.
— Ela é muito boa — disse Portia impressionada. — Você também. O que vai acontecer agora? Com Yates?
Começaram a andar lado a lado.
— Teremos mais dois julgamentos. Pense nisso como um jogo. Essa foi a primeira fase. Passamos na primeira fase do jogo. Temos mais três até terça-feira.
— Certo.
Ele ergueu uma sobrancelha quando a viu se embaralhar com os próprios papeis para anotar as palavras de Scorpius em seu bloquinho.
— Está anotando tudo?
— Sim. Eu anotei algumas palavras diferentes para poder pesquisar a tradução depois. Percebi que se eu falhar em alguma, vocês perdem todo o caso. Então...
— Ótimo. Você anotou mais alguma coisa?
— Sim. Mas foram algumas coisas meio idiotas... Por exemplo, algumas vezes o Juiz e o Júri número 18 ficaram trocando olhares.
— Quem era o número 18 mesmo?
— Aquela mulher que fungava muito alto. Estava resfriada.
— Certo... Isso não é uma anotação idiota, Portia. Você acha que consegue prestar atenção nisso e anotar mais vezes? Essas coisas podem fazer diferença.
— Tudo bem. Anoto sim.
— Malfoy!
Foram interrompidos com a chegada de Corey Archner. Apressadamente, o jovem rapaz andou até eles. Scorpius percebeu que ele havia trocado a gravata e isso o fez rir.
— Excelente julgamento — ele disse. — Sobre o de amanhã...
— Aproveite a cidade agora, Archner.
— Mas Malfoy... eu estava pensando que talvez minha presença na mesa principal seja útil. Quero dizer... se você me permitir. Estou precisando dessa chance.
— Vamos ver.
— Isso é um “vamos ver” mesmo?
— É um “aproveite a cidade agora, Archner”.
Scorpius apressou os passos, deixando-o com Portia no meio do corredor.
No momento em que Scorpius se afastou completamente, Archner abandonou a postura e xingou:
— Filho da puta. Eu o odeio.
— Ele não é ruim.
— Não é ruim? — olhou enfurecido para Portia. — Estou há muito tempo tentando mudar o meu cargo, conseguir mais chances no tribunal, e ele vem falar que meu problema é minha gravata? Ele está tirando com a minha cara. Fazendo-me perder meu tempo. E ainda fez você ficar na mesa principal como se você fosse mais importante.
Portia virou às costas para o rapaz, ofendida.
— Amor, não quis dizer isso. Mas você não é advogada, você entende o que quis dizer.
— Não venha com essa de “amor”, Corey. Eu não estou aqui para voltar com você. Já te disse mil vezes.
— Então por que veio? Acha que vai aumentar seu salário? A empresa com a crise que está... você acha que ajudar a traduzir umas três palavras vai aumentar seu salário? Você veio por causa de mim, sim. — E sorriu, de lado, falhando muito ao soar sexy. Enquanto Scorpius, bem, Scorpius não precisava nem sorrir...
Não pense nisso, Portia.
— Você só pensa em si mesmo — a moça retrucou com desgosto.
Os dois se encararam até Archner diminuir o sorriso presunçoso. Começou a fazer as contas. Sua expressão se transformou em um intenso desprezo quando o resultado chegou a sua mente.
— Ele está te comendo.
— Tchau. Me solta, Archner — pediu com a voz contida quando os dedos masculinos envolveram fortemente seu braço, impedindo-a que desse qualquer passo.
— Então é por isso, não é? Malfoy está te comendo inteirinha. Filho da puta.
— Estou pedindo para você me soltar, Archner. As pessoas vão começar a olhar.
— Então você olhe pra mim.
Ela demorou a obedecê-lo. Já passou por muitos rapazes que se sentiam no direito de mandar nela e Portia não pretendia repetir a dose.
— O que Malfoy tem que eu não tenho? — perguntou desesperadamente curioso. Pareceu um menininho invejoso.
— Não compare-se com ele.
— O pau dele deve ser maior também.
— Você me dá nojo. E eu não estou dormindo com ele. Não que eu tenha que te dar qualquer satisfação ou explicação.
— Mas quer, não quer? É igual a todas. Não vê a hora de ficar de quatro para ele. Vadia.
Ela deu-lhe um tapa muito forte no rosto. Sem se importar agora com alguns advogados encarando-os de longe, Portia inclinou-se e sussurrou no ouvido dele, apertando-lhe o rosto marcado por sua mão:
— Quando eu contar a Malfoy tudo o que você diz sobre ele, sobre o avô dele, sobre a empresa dele... você vai voltar para Londres desempregado.
— Você que se atreva.
— Vai se foder.
Finalmente conseguiu se livrar do aperto da mão de Corey e se afastar. Esfregou o braço, sentindo os olhos arderem de raiva a ponto de sentir as lágrimas chegando. Encontrou o cigarro na bolsa e foi imediatamente fumar.
***
Scorpius estava estudando ao final da noite, depois de passar o restante do dia conhecendo a cidade. As papeladas estavam jogadas na mesa do quarto do hotel quando Rose enviou um vídeo a ele pelo celular e o distraiu. Albus e Zoe faziam um ótimo time, porque a filha estava mostrando sua incrível medalha de ouro para a câmera. Eles tinham vencido a gincana da escola em primeiro lugar.
Rose Weasley
Mensagem enviada às 22:32
Ela ficou muito feliz! Estamos com saudades. Volta logo!
Recebeu uma mensagem de voz de Zoe. Três minutos contando como venceram todas as modalidades. Estava na narração em que Zoe detalhava sobre como Albus quase perdeu os próprios dentes na corrida quando foi interrompido pelo som estrondoso de batidas na porta.
Mas curiosamente não era em sua porta, e sim contra a do quarto vizinho do outro lado do corredor. Scorpius se levantou para caminhar lá fora e entender o que estava acontecendo, mas arrependeu-se imediatamente por ver que era Archner, aparentemente bêbado, pedindo:
— Portia, abra a porta. Por favor. Abra essa porta. Nós precisamos conversar.
— Deixe-a em paz — ele disse, cansado. — Está tarde. Se ela não quiser abrir-
Scorpius não viu aquilo chegando. No momento em que Archner reconheceu a voz dele atrás de si, virou-se com o punho da mão esquerda cerrado. Acertou o lado direito do rosto de Scorpius. Sentindo o maxilar latejar fortemente, ele esperou a dor repuxar seu sangue para massagear o local ferido. Voltou a olhar para Archner. O rapaz mais novo estava com a expressão assustada, como se não tivesse acreditado no que ele mesmo havia feito.
— Malfoy, eu-
Ficou com medo de que fosse ser demitido naquele instante. Ficou ainda mais com medo de que Scorpius revidasse o soco, mas obviamente Scorpius não se rebaixaria a tanto. Archner estava bêbado e, pelo cheiro, drogado de maconha. Se não tivesse fumado provavelmente o soco teria sido um pouco mais forte.
Scorpius se recompôs rapidamente. A voz estava baixa e equilibrada. Não quis entender o motivo por receber a raiva do advogado, mas julgou que ser chefe resultava em alguns presentes aleatórios. Não era fácil agradar a todos.
— Amanhã — ele disse —, você vai fazer perguntas às testemunhas. A corte será toda sua, Archner.
Claro que ele não estava querendo agradar o rapaz justamente agora.
— É melhor que volte para o seu quarto, tome um banho e prepare as perguntas. É a sua chance de mostrar que serve para alguma coisa.
— Isso é um “vamos ver”?
— Não. Você vai mesmo atuar amanhã.
Archner ofegou.
— Não vou decepcionar.
— Demonstre, então.
Tentando fortemente não tropeçar, Archner se esqueceu completamente de Portia e se afastou para o elevador ao final do corredor, apertando o nó de sua gravata no colarinho, como se ainda lhe restasse dignidade.
Scorpius estava para voltar a seu quarto quando Portia abriu um pedaço de sua própria porta e apareceu, vestida com um robe curto, os cabelos presos e sem os óculos.
— Ele foi embora?
Scorpius assentiu com a cabeça. Esse gesto chamou atenção para a marca roxa do soco que acabara de receber. Portia arregalou os olhos e, imediatamente, aproximou-se dele.
— Isso foi... ele quem fez...?
— Eu estou pouco me fodendo para o que você e seu namorado têm de problemas. Só resolvam isso fora do trabalho.
Mas Portia estava atenta ao machucado dele, olhando-o preocupada.
— Você precisa gelo?
— Eu tenho no meu quarto — disse, afastando-se dela. Portia olhou para suas costas que, com uma camiseta branca, salientava boa parte dos músculos. Ela abanou a cabeça, tirando qualquer pensamento idiota da mente. Ela não era uma vadia.
— Desculpe por isso — apenas disse baixinho, em tom de explicação. — Ele acha que nós...
— Nunca se desculpe por alguém, Portia. Meu avô dizia. Boa noite.
Scorpius fechou a porta atrás de si, pegou o celular sobre a mesa e deitou na cama para voltar a ouvir mais três minutos da mensagem de voz de Zoe.
***
Rose preparou um jantar gostoso só para ela e sua filha. Desde que nasceu, as duas eram inseparáveis. Papeavam juntas sobre diversas coisas. Havia vezes em que Rose até desabafava alguns probleminhas seus com Zoe, para ver o que a menina falaria sobre isso. Zoe tinha sempre ótimos conselhos.
Mas as duas estavam bem quietas naquela noite. As duas preocupadas com diferentes tipos de coisas. Zoe foi a primeira a quebrar o silêncio, após engolir a colherada do macarrão.
— É chato sem o papai agora, né, mãe?
Sinceridade era o ponto alto de sua filha, desde sempre. Isso fez Rose abrir um sorriso ofendido.
— Está dizendo que eu fiquei entediante? — brincou. — Nós sempre fizemos tudo juntas e você nunca reclamou disso.
— Mas é que antes ele não ficava muito com a gente. Aí era muito legal quando eu via ele. Mas agora ele está toda vez com a gente, então é muito chato quando eu não vejo ele. Não sei explicar.
Rose tirou um pequeno cílio solto embaixo do olho de Zoe. Era quase invisível de tão clarinho.
— Deu para entender muito bem e eu concordo com você. Agora, faça um pedido.
Sempre faziam isso. Rose mostrou o cílio sobre a ponta de seu indicador e Zoe ergueu o seu próprio dedo para pousá-lo sobre o dela. Ambas fecharam os olhos, fizeram seus pedidos mentalmente e, quando foi permitido, separaram os dedos. O cílio grudou na ponta do dedo de Zoe.
Rose sorriu.
— O seu pedido vai se realizar dessa vez.
— Qual foi o seu pedido?
— Eu conto se você contar.
— Eu conto se você contar.
— Então não vamos contar. Um segredo para cada uma.
— Quando o meu desejo se realizar, eu conto pra você, mamãe — disse uma despreocupada Zoe, fazendo sua mãe rir.
— Ótimo trato.
***
Scorpius descobriu que não tolerava atitudes como as de Corey Archner. Arrogante e prepotente sem motivos para ser. Lutava para se sobressair, mas não passava de um advogado barato. A viagem o fez perceber isso. Não somente pelo soco que recebera depois do rapaz ter passado a noite bebendo e fumando em época de trabalho importante, mas também porque ele passou vergonha no tribunal no dia seguinte, exatamente como Scorpius previu que seria ao passar aquela tarefa para ela na noite anterior.
Corey estava atuando em tribunal, recuperando-se de uma ressaca forte. Gaguejou cinco vezes, pelas contas de Scorpius, durante sua defesa. Não fez perguntas importantes à testemunha ocular – todas jogadas fora, um desperdício de tempo para os advogados presentes na corte daquela manhã. Começou a se sair tão mal que o próprio Corey não aguentou. Pediu para se retirar imediatamente.
Porém, não deu tempo de sair. Vomitou ali mesmo, perto da mesa do Juiz.
Blaise Zabini se inclinou no banco onde assistiam ao julgamento, para chamar atenção de Scorpius, sentado a sua frente.
— Você fez de propósito? — perguntou a ele, enquanto Corey saía apressadamente da corte com a ajuda de alguns seguranças. — Sabia que ele passou a noite inteira bebendo e mesmo assim o fez ficar responsável por essa tarefa?
— Sim — disse, sem rodeios. — Responsabilidades.
Zabini soltou um longo suspiro. Scorpius sentiu a mão do amigo de seu pai pousar em seu ombro.
— Lucius foi um mestre.
Scorpius não disse mais nada. Apenas se levantou, fechou o botão do paletó e ocupou o lugar de Archner para consertar alguns estragos a tempo.
***
Muitas vezes o trabalho privava Scorpius de conhecer a cidade na qual passava a semana viajando. Claro que muitas outras vezes ele foi capaz de conhecer mulheres interessantes. Mas naquela semana perguntou-se até se já não estava ficando entediante demais. Seu pique para flertar e receber flerte não era o mesmo quando estava sóbrio. Só queria completar o que deveria fazer por sua obrigação no trabalho, voltar para casa e beijar Rose.
Então não se surpreendeu por ficar aliviado quando quarta-feira amanheceu ensolarada, o céu perfeito para um vôo seguro e perfeito de volta para a terra da Rainha. Ele amava Londres.
Havia feito um cliente feliz. Dois, na verdade, uma vez que Miles Jackson precisava que Yates fosse inocentado das inúmeras acusações – quaisquer que sejam suas razões. Reconheceu que não conseguiria sem sua equipe. Agradeceu Portia pela imensa ajuda. Recebeu desculpas incessantes de Corey Archner. Zabini estava começando a respeitá-lo como colega e não apenas neto de Lucius. E Alexis, bem, Alexis nem o reconhecia mais.
Scorpius estava começando a ganhar algumas reputações além de seu talento nos tribunais. Era respeito. E admiração.
Durante as sete horas no avião, ficou sentado ao lado de Portia. Não conversaram muito, mas nas poucas vezes que conversaram, Scorpius se sentiu um pouco lisonjeado com as palavras dela.
— Às vezes me pergunto se seria interessante estudar direito. Tentar ser advogada como você. Eu sei que é idiota...
— Não é idiota.
— Foi legal. Ver tudo tão de perto, quero dizer. Eu nunca tinha visto julgamentos antes. E ainda de um cara acusado de assassinato... Como pode ter tanta certeza que ele não assassinou aquelas pessoas? Como consegue provar tão bem que Yates é inocente?
Eu minto pra caralho. Essa seria a resposta dele alguns anos atrás.
Naquele momento, a resposta foi com outra pergunta:
— Você acha que Yates é inocente?
— Não — ela disse, firmemente. — Por isso fiquei impressionada. Eu não acredito em Yates, mas acredito em você. Como consegue? Quero dizer, você foi excelente. Sua postura em meio a tantas pessoas esperando para não acreditar em você e então...
Ela parou de falar aos poucos, notando que estava sendo muito efusiva. Riu, um tanto sem graça.
— Estou puxando seu saco. Você odeia isso.
— Não, continue. Está fazendo bem para o meu ego.
Eles riram juntos. Portia não conseguia sustentar o olhar dele, era muito intimidante. Mas vê-lo sorrir, coisa que não fazia com frequência, fez com que fosse mais fácil. Scorpius não se preocupava em ser extremamente sedutor mesmo quando não estava pretendendo ser. Ela parou de rir ao vê-lo fechar os olhos quando o avião começou a decolar. Sentiu-se péssima por estar sentindo alguma coisa por ele. Obviamente, não era correspondida.
Portia reconhecia que Scorpius era dedicado a sua filha tanto quanto ao seu trabalho. E dedicado a filha significava dedicado também a namorada dele, mãe de Zoe. Portia não pretendia atrapalhar isso. Decidiu que dedicaria sua vida somente aos estudos e ao emprego. Ela se saiu bem naquela viagem e gostou de ter sido importante para Scorpius, profissionalmente. Assim conseguiria bloquear qualquer pensamento que não gostaria de estar tendo.
Despediram-se quando chegaram ao aeroporto de Londres ao final da tarde. Portia evitou pedir carona para Scorpius, embora precisasse. Talvez quanto menos ficasse perto dele, melhor. Precisou ligar para o próprio pai vir buscá-la. Antes isso do que voltar com Corey também.
***
Scorpius recompensou Zoe com um ótimo passeio pela London Eye depois que chegou de viagem. Pagou à filha e Rose um sorvete delicioso de casquinha. Depois os três descansaram as pernas em um banco próximo a roda gigante. Zoe ficou tão concentrada em saborear o doce até o fim que mal teve tempo de tagarelar tanto.
As vezes não precisavam conversar, afinal.
Ela só gostava da companhia deles. De ter a certeza de que seu pai estava olhando para ela quando arriscava dar uma estrela no meio da calçada. Olha só o que eu sei fazer!, exibia-se todas as vezes antes de pegar o embalo para o movimento com os braços e as pernas, fingindo-se ser uma verdadeira ginasta. Scorpius sorriu, querendo registrar esses momentos em uma fotografia. E fez. Também gravou Rose ao seu lado no banco tentando fortemente não derrubar o sorvete que estava derretendo em sua mão. Ela o viu gravando um vídeo e fez uma careta, rindo.
Scorpius guardou o celular e se inclinou para tirar o pouco do sorvete que estava perto dos lábios de Rose. Beijou a área de chocolate e subiu um pouco mais a boca para que ela acariciasse sua língua quando se acomodaram em um beijo calmo. Nada mais romântico do que um passeio na área mais iluminada da cidade, após o por do sol, com a filha deles. Juntos.
— Você aprontou, não aprontou?
— Não — ele disse. Buscou os lábios dela de novo, enrolando um braço ao redor de seu ombro. Ficava bem incomodado com a necessidade de Rose em interromper beijos para ficar conversando.
— Uhum. Quando está assim todo fofo só pode ser porque aprontou.
Ele riu, despreocupado, e voltou a olhar Zoe dando mais uma de suas inúmeras estrelas, aperfeiçoando o movimento a cada tentativa.
— Só queria voltar pra casa logo — ele suspirou. — Viajar por obrigação não é incrível. Queria você comigo lá o tempo todo.
— Lembra o que falamos sobre viajar? — ela perguntou. — Está em um momento muito apertado para você, não é?
— Infelizmente sim. Mas ainda vamos sair daqui por um tempo. Só nós três. Preciso do momento certo. Você espera?
— Claro.
— Ótimo. — Sorriu para ela, acariciando seu queixo.
Ficaram aliviados que o passeio cansou Zoe o suficiente para ela dormir mais cedo naquela noite. Mais uma vez, silenciosos, Rose e Scorpius aproveitaram o que restava da noite juntos. Ironicamente, Rose quis que Scorpius passasse mais tempo longe. Toda vez que voltasse, o sexo seria espetacular daquele jeito. Mas ao mesmo tempo não queria mais Scorpius longe. Não era bom dormir sozinha. Não mais.
Ele adorava torturá-la, desobedecê-la, frustrá-la, quando ela lhe dava a ordem para ir mais rápido. Fazia-a empurrar o próprio quadril contra ele para buscar mais força nos movimentos. Scorpius sorriu, achando graça no desespero dela. Ele não pretendia ir a lugar algum, então foi gentil naquela noite. Sem pressa. Apenas curtindo cada investida que fazia dentro de Rose, sentado com o quadril entre as pernas dela e acariciando os seios do belo corpo deitado no colchão. Ele sussurrou coisas que a enlouqueceram.
— Continua... — ela pediu no instante em que Scorpius começou a investir mais rápido. — Mais devagar, amor... Isso. Assim...
— Já quer que eu te faça gozar? — perguntou com aquele sorriso safado estampado no rosto molhado de suor.
O ritmo estava tão perfeito que Rose ficou preocupada em atrapalhar isso se dissesse alguma coisa.
— Quando eu não quero? — ela retribuiu o sorriso.
— Fode meu pau então.
— Vou ter que fazer todo o trabalho?
— E você não gosta?
Ela adorava. E ele sabia muito bem disso.
Era sempre tão bom, sempre gostoso. Como um dia se cansariam disso?
— Eu te amo pra caralho — ele murmurou em seu ouvido, inclinando o rosto para que as línguas se tocassem.
Fodê-la e beijá-la ao mesmo tempo... Scorpius sempre se mostrou perfeito nisso. Não demorou mais do que aquilo depois que Rose o cavalgou. Ele gozou fora do corpo dela, molhando-a na barriga, e precisou descansar ao seu lado, transpirando tanto que parecia ter corrido uma maratona. Ela se virou para olhar para ele e acariciar seu peito com a ponta do dedo indicador, sentindo a saliência dos músculos do abdômen subir e descer freneticamente. Ela o fazia se esforçar dessa maneira. Sentia-se bem sabendo disso.
— Você acaba comigo — ele constatou exausto.
— Do jeito bom ou ruim?
— Bom. Definitivamente bom.
Ela sorriu, lisonjeada.
— Já pensou se um dia ficarmos entediantes? — perguntou Rose.
— Quando tivermos nossos setenta anos, talvez comece a pensar.
Rose ouviu aquelas palavras com o coração disparando forte – e não tinha nada a ver com o efeito do sexo recente. Ficou preocupada em tocar no assunto, Scorpius geralmente fugia do futuro. Mas foi impossível se conter.
— Pensa em nós dois aos setenta anos?
— Claro.
Não era tão claro assim.
— Já parou para pensar que um dia... se terminarmos de novo... nunca vamos nos livrar um do outro? — ele questionou. — Nós estamos juntos pra sempre, Rose.
— Isso é o orgasmo falando — brincou.
— Pode ser... Mas já parou para pensar?
— Sim. Penso nisso o tempo todo. Nós temos uma filha, afinal.
— Não consigo ver outra pessoa no meu futuro, só você. Mãe da minha filha. É a mais pura verdade.
Rose reconhecia que Scorpius dizia coisas assim depois de um sexo delicioso como aquele, mas também reconhecia que ele não mentia sobre tais coisas. Poderia ser dono de inúmeros defeitos, mas quando se tratava de definir seus sentimentos, não importava se depois ou antes do sexo, ele era puramente verdadeiro em suas palavras. Por verdades assim não acontecerem com muita frequencia, quando acontecia, o efeito era o de fazer Rose dormir tranquila e feliz.
Ela gostava disso em Scorpius. A raridade das palavras dele. Gostava de se surpreender com uma ou duas conversas mesmo que esperasse para isso durante um período longo de um eclipse lunar para outro. Conviver com ele era conviver com surpresas. Scorpius nunca dizia amar alguém apenas por dizer. Rose odiava banalidades. Então talvez eles realmente ficariam juntos para sempre.
Se ele amava, ele realmente amava. Sem frescuras.
Quatro dias fora não era tempo suficiente para eles se desacostumarem com a rotina estabelecida desde que começaram a morar juntos, então obviamente voltaram a viver normalmente. Claro que algumas vezes Scorpius não ia deixar a vida deles monótona, levando Rose para conhecer novos restaurantes, lugares e passeios. Em meio a isso, no entanto, suas semanas de trabalho exigiam duramente a paciência e ele se sentia na necessidade de ficar afastado emocionalmente. Rose estava se recuperando da perna quebrada muito bem, o que era uma sorte, porque mais um tempo de repouso a faria enlouquecer.
Os dois brigaram feio uma vez, por estresse de Rose e falta de sono de Scorpius. Zoe estava no meio da briga e quando as vozes começaram a aumentar, ela tampou os ouvidos e correu para o quarto. Ela odiava brigas. Odiava quando papai e mamãe ficavam bravos um com o outro a ponto de estarem gritando. O medo dela de que tudo desse errado entre os pais era tanto que ela precisava ter certeza de que eles estavam bem, mesmo depois da briga. Era um alívio cortante quando paravam para jantarem juntos e percebia que tudo estava bem de novo, uma vez que papai acariciava a mão da mamãe sobre a mesa. Zoe nunca entendia como adultos brigavam e discutiam tanto, e ela não pretendia entender tão cedo.
Até porque ela mesma estava enfrentando seus próprios conflitos internos.
— Voltou a falar com Ralph Thomas, Zoe? — uma vez seu pai perguntou.
Ela fez que sim – tinha até esquecido que supostamente não deveria estar mais falando com o amigo – sem tirar os olhos de seu novo livro sobre animais. Ultimamente Zoe estava lendo livros com mais palavras e menos ilustrações. Diversas vezes Scorpius a flagrou lendo o livro de Shakespeare que vó Cissy dera a ela de Natal. Lendo mesmo. E falando sobre o que tinha lido, mesmo que algumas vezes mal entendesse.
— Por que não gosta dele, papai?
— Eu? Quem disse que não gosto dele?
— Sua cara. Você adora quando eu brigo com o Ralph Thomas. Faz uma cara bem feliz.
— Impressão sua, coisinha.
O problema não era o Ralph Thomas, eram os meninos. Zoe descobriu isso algumas semanas depois de começar a ensaiar para uma peça de teatro na escola. Como tinha experiência pelas aulas com Serena durante dois anos, ela foi escolhida para interpretar a personagem principal. Era uma peça onde ela beijava um menino na bochecha na cena final, fazendo a platéia aplaudir de pé e contrair expressões de “que fofos!”. Quando Scorpius assistiu à peça na primeira fileira do auditório, ele se remexeu na cadeira ao lado de Rose quase tão inquieto quanto o próprio Ron Weasley. O garoto com quem Zoe ensaiara os beijos no rosto durante quase um mês, Scorpius descobriu depois, era dois anos mais velho. Loiro, olhos azuis e tinha pinta de galãzinho entre as meninas da escola. Zoe era encantada por ele, porque ele andava de skate e sabia tocar guitarra.
Aaron Price, esse era o nome. Foi a primeira paixonite de Zoe. Rose descobriu que o coraçãozinho que fora desenhado na página da lição de matemática dela pertencia a ele. Quis comentar com Scorpius sobre isso em uma ocasião que ele não ficasse desesperado. Quando fez, arrependeu-se por não ter tirado uma foto da expressão dele.
— Eu estava começando a me acostumar só com o Ralph Thomas — decidiu com má vontade.
Aaron Price o preocupava, porque Zoe não falava nada ruim sobre ele. Muito pelo contrário. Quando Scorpius buscava a menina na escola — e nas aulas de teatro — duas vezes precisou ver a filha pedir para esperar, porque ela queria ficar vendo Aaron mostrar suas manobras no skate, mesmo que, na percepção de Scorpius, não fossem nada espetaculares.
Poucas semanas depois, ela apareceu com um convite para a festa de aniversário dele. Rose não viu problema algum, mas Scorpius não queria deixar.
— O menino é dois anos mais velho. Não vou deixar ela participar de uma festa com garotada mais velha.
— Papai, por favor. Eu queria muito ir. Vai ter pula-pula. E vai ter um monte de outros brinquedos. Vai ser no parque. Por favor. Por que você não quer me deixar ir?
— Não conheço a família dele. Não sei se são confiáveis.
— Por favor — pediu suplicante.
Scorpius estava ocupado, sentado na mesa da cozinha com papeladas de casos intermináveis da empresa. Zoe inclinou-se no outro lado da mesa, empoleirando-se, para ficar cara a cara com ele. Os olhos dela pareciam ser os únicos que conseguiam encará-lo sem ficar intimidado.
— Quer mesmo ir ao aniversário dele?
— Muito, muito, muito. Todo mundo da minha turma também vai. Não vai ser só eu lá.
Se com oito anos já adorava ir a uma festa, imagina quando ficasse mais velha.
Nada que Scorpius fizesse iria de fato mudar isso. Ele se rendeu, mais porque não queria impedir que sua filha se divertisse fora de casa com outras crianças de sua faixa etária. Era ridículo impedir isso, mesmo que ele ficasse incomodado.
— Tudo bem.
No entanto, não foi tudo bem. Algumas horas depois de deixá-la no parque onde ocorreria a grande festa de aniversário do garotinho mais popular da escola, Rose recebeu uma ligação da mãe de Aaron, contando que Zoe havia se machucado. Ela tentara andar de skate em um momento, talvez com a ajuda do garoto, mas ela não conseguiu se equilibrar e tropeçou com os joelhos no chão. Não foi nada grave – nada que água não curasse a dor e o ferimento –, mas foi o suficiente para enfurecer Scorpius. Ele nunca tinha brigado com Zoe da forma como brigou depois, porque, antes de ter ficado no parque, a filha tinha prometido que não iria tentar fazer nada arriscado que pudesse machucá-la na ausência deles. E foi exatamente o que ela acabou fazendo.
— Você mentiu a mim, então? — ralhou Scorpius, depois de trazê-la de volta para casa. — Disse que não iria tentar nada que pudesse te machucar, mas assim que viu alguém andando de skate, você foi logo tentar fazer também. Olha pra mim, Zoe. Não adianta ficar envergonhada agora. Você quebrou sua promessa.
— Nós estamos chateados com você, Zoe — ralhou Rose, embora ajeitasse um curativo no joelho esquerdo dela com cuidado. — Isso não se faz.
Ela não os encarava. Quantas vezes os dois ficaram bravos com ela desse jeito? Rose conhecia a filha suficientemente para entender que o queixo dela, quando ficava trêmulo, indicava sinal de um choro contido. Mas ela não chorava na frente de Scorpius. Principalmente com ele olhando tão bravo, tão desapontado para ela.
— Posso ir pro meu quarto agora? — perguntou com a voz baixa. O problema é que Zoe tinha se divertido muito na festa. Não se arrependeu de verdade. E aqueles dois sabiam bem disso.
— Tome banho primeiro — mandou Rose. — Você está toda suja.
Ela obedeceu sem discutir.
— Que sorriso é esse? — Scorpius perguntou para Rose, quando viu o canto dos lábios delas erguido.
— Eu me machucava a cada dois minutos quando não estava com meus pais. Aí meu pai ficava, ainda fica, super furioso quando eu me machuco. Quando eu quebrei minha perna, só faltou ele me deixar de castigo. E eu fiz vinte e nove agora.
— Odeio quando Zoe se machuca.
— É bom deixar ela aprender as coisas do jeito dela. Não estaremos para sempre vendo tudo o que ela vai fazer. Ela cresce a cada maldito segundo e isso me assusta — ela disse. — Estamos ficando velhos, Scorpius.
— Chegando aos trinta — bufou o rapaz.
— Com uma filha de quase nove anos.
— Céus. Isso não ajuda.
— Não mesmo.
Scorpius precisou voltar ao trabalho, ou começaria a entrar em crise antes do tempo. Mas falavam que os trinta anos eram os melhores da vida de um homem. Ele tinha só pouco mais de um ano para começar a se convencer disso.
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