Fix You

36 Major Minus


Notas iniciais
Olá! Lembra quando domingo era dia de Fix You? E só para avisar, escrevi uma oneshot Drastoria que conta sobre o primeiro encontro entre Draco e Astoria de Fix You. Chama "Closer". Espero que gostem se forem ler! :) Boa leitura!

Capítulo 36.: Major Minus

"They got one eye watching you
One eye, what you do?
So be careful who it is you're talking to..."

A festa de gala da empresa era um evento anual bastante comentado na capital da Inglaterra. Festa de primeira classe que garantia a presença dos maiores advogados da região. Homens e mulheres donos de fortunas e títulos invejáveis se reuniam para brindar não somente pelos casos vencidos, mas pelo aniversário da própria empresa também.

A diferença daquele com os anos anteriores era a comemoração dos cinquenta anos da firma levantada pelo respeitado e falecido bisavô de Scorpius, Abraxas. O rapaz frequentava esse evento desde muito cedo, quando ainda era adolescente, arrastado por seus pais, especialmente sua mãe, na época. Lucius frisava a importância de mostrar toda a família para seus colegas e, mesmo após a morte de Astoria, Scorpius nunca deixou de garantir sua presença meramente educada – mas cheia de intenção. Em nenhuma das vezes, após ser estabelecido como profissional da firma, Scorpius chegou com acompanhante, embora também nunca tivesse ido embora sozinho. Tirando os dois anos em que namorou Emily, é claro.

Portia foi responsável por averiguar a entrega dos convites para todos os nomes da enorme lista de convidados. Em sua sala, Scorpius se ocupava com novos casos difíceis, por isso não deu atenção para o convite que Portia colocou sobre sua mesa no final daquela tarde. Quando um caso exigia duelo entre ele e Rookwood, Scorpius não descansava. Muito menos pensava em festa.

— Posso conversar com você, Malfoy? — perguntou Portia. — Em particular?

Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, sem tirar sua atenção para o papel que a ponta da caneta rabiscava fervorosamente. Foi o suficiente para Portia se sentar a frente de sua mesa.

O gesto acabou por deixá-lo curioso. Scorpius não esperava que ela se sentasse. Olhou para ela.

Portia estava hesitante, mas sabia que precisava contar aquilo.

— Você me pediu para ficar atenta a algumas movimentações estranhas na empresa. Tenho visto Archner almoçar com Augustus Rookwood nos últimos dias.

— Corey Archner? — Como se houvesse outro.

— Sim. Não é uma acusação, eles podem ser amigos, mas...

— Mas obviamente não são amigos. — Scorpius suspirou, pousando a caneta sobre os papeis. — Você fez bem por me contar. Obrigado, Portia.

— O que precisar.

Rookwood tentava se aproximar dos advogados de Scorpius para tirar informações de casos e ficar um passo a frente dele nos tribunais. Muitas vezes o rapaz precisou ver Lucius demitir excelentes advogados que transferiam a Rookwood informações sigilosas e importantes. O homem era influente de tal maneira que conseguia manipular com promessas falsas e adquiria qualquer informação que queria a tempo de vencer nos tribunais. Scorpius não se surpreenderia caso Archner aparecesse em sua sala para pedir as contas e montar sua própria mesa na Rookwood & Associados.

Querendo se prevenir, Scorpius chamou Archner para uma conversa na sala dele.

Pretendeu demiti-lo, mas tinha poucas provas de que Archner estava traindo a firma. Claro que poderia usar as atitudes imprestáveis dele como desculpa para demiti-lo, mas Scorpius evitaria ser tão pessoal.

— Sim, Rookwood me abordou — admitiu Corey. — Eu não disse nada a ele.

— Acredito em você. — Não acreditava. — Mas apenas para evitar qualquer tipo de confronto entre nós dois, terei que tirá-lo da equipe para esse caso. Precaução. Ficará responsável por outros, mas nesse você está fora.

Corey ficou rígido na cadeira. Sua primeira reação teria sido se levantar bruscamente e tirar satisfação, mas a expressão impassível de Scorpius manteve a compostura do rapaz. A raiva que sentia por Scorpius ainda era muito visível, mesmo assim.

— Se acha que é melhor assim — disse Corey, friamente. Quando se levantou, foi para ir embora.

Scorpius o chamou novamente, impedindo-o.

— Rookwood não é bonzinho como ele garante para você. Pense bem nas suas próximas atitudes, Archner.

De costas para Scorpius, Corey disse:

— Pode deixar.

***

A família de Albus estava preocupada com Michael. Não uma preocupação de que Al tivesse se envolvido com um suposto assassino, mas sim uma que fazia Ginny ligar para ele toda hora.

"E aí, Michael já se livrou do problema? Você sabe, filho, esperei para que você encontrasse o cara maravilhoso pra você por muitos anos. Não podemos perdê-lo assim!"

Mas, graças a Scorpius, Albus não o perderia assim. Além dos inúmeros outros casos pelos quais ficava responsável, ele achava tempo e dedicação para inocentar Michael das acusações. Quando ligou para Michael, foi para comunicar uma boa notícia:

A corte vai decidir sua sentença no dia vinte e sete. Esteja preparado.

Michael, Al e Luke estavam assistindo a mais um de seus filmes de ficção científica preferidos no cinema quando Michael saiu da sala para atender a ligação de Scorpius no corredor.

— Qual é a notícia boa? Não entendi.

Terá a presença de um Júri. Você só tem que simpatizá-los.

— Meu futuro vai ser decidido por outras pessoas?

Exatamente. Isso é o melhor que poderia acontecer, Michael. Fique feliz.

Se não acreditasse em Scorpius, não aproveitaria seus dias até vinte e sete.

***

A voz baixinha de Zoe ecoou pela madrugada. Três horas da manhã, Scorpius ergueu os olhos para o buraco da porta da sala quando ouviu:

— Papai.

Zoe andou até a mesa onde Scorpius estava trabalhando. Não tinha colocado pantufas, estava descalça e segurava um sonolento Cupcake no colo.

— Zoe... Aconteceu alguma coisa?

Ela sentou na perna direita de Scorpius para ver o que ele estava fazendo, sem responder a pergunta. Seu sono era forte demais para se concentrar em ler os papeis sobre a mesa, então apenas descansou o rosto no ombro do pai.

Scorpius julgou que ela pudesse ter tido um pesadelo, então tirou sua atenção do que antes estava fazendo para envolver um braço no corpinho dela.

— Tudo bem?

A menina demorou um tempinho para contar:

— Sonhei com a vovó.

— Ela estava te mandando ser autêntica? — brincou.

Zoe não sorriu. Explicou:

Minha vovó. Sonhei com ela.

Scorpius não precisou de mais palavras. Entendeu a quem Zoe se referia e tudo o que restou foi abrir um sorriso leve.

— E como foi o sonho?

— Nós duas passeamos por um booooom tempo. Mas a vovó Astoria não ficou falando muito, só me escutava. Aí...

— Aí o quê? — preocupou-se.

— Aí... eu fui pegar um sorvete. Ela mostrou alguma coisa com o dedo e aí na hora que eu olhei eu não vi nada. Aí na hora que eu voltei pra pegar a mão dela ela não estava mais lá.

— Não? Para onde será que ela foi?

Zoe ergueu os ombros, sem saber.

— Acho que ela foi para o meu sonho — deduziu Scorpius, curiosamente. — Talvez eu sonhe com ela hoje também.

— Então ela saiu do meu sonho para entrar no seu? Que incrível. — Depois Zoe fez uma expressão duvidosa. — Será que pode fazer isso?

— Em sonho a gente pode tudo.

— Também sonhei que dei uma estrela perfeita. E que sabia andar de skate.

— Viu só?

— Obrigada, papai. — Ela deu um beijinho estalado na bochecha dele e levantou.

— Pelo quê?

— Achei que a vovó tinha sumido no meu sonho, mas claro que não. Boa noite! Vamos, Cup.

A garotinha e o cão se afastaram para o quarto. Quando o aposento voltou a ficar silencioso, Scorpius olhou para os papeis que o ocuparam e se sentiu exausto de repente. Achou melhor ir para cama também, quem sabe não sonhasse com sua mãe. As vezes queria voltar a ver o rosto dela sem que fossem lembranças.

Não sonhou. Acordou angustiado no dia seguinte. Enquanto preparava o café da manhã, no entanto, Rose quem disse:

— Sonhei que sua mãe me avisava sobre você. Que você não prestava para muitas coisas. Mas me assegurou de que era um ótimo dançarino para valsa.

Dançarino? — ele gargalhou. — Para valsa?

— Foi estranho, mas muito esclarecedor.

— Zoe também sonhou com ela ontem.

Os pelos do braço de Rose se eriçaram.

— Sério?

— Sim. Acordou de madrugada e veio me contar. Coincidência, não?

Rose concordou, silenciosamente.

— Nunca sonhei com ela — contou Scorpius, sentindo-se péssimo.

— Você tem algo melhor do que sonhos — garantiu Rose, ajeitando a gravata do colarinho dele e não gostando de ver aquela expressão do rosto dele. — Você tem suas memórias. Pense nas boas.

Decidiu que estava na hora de voltar ao cemitério e visitar as lápides de Astoria e Lucius. Rose perguntou se ele gostaria da companhia dela, mas dessa vez Scorpius sentiu que precisava ficar um pouco sozinho.

No campo do cemitério, deparou-se com a presença de Serena. Por poucos segundos achou que a nova namorada de seu pai estava lá pelo mesmo motivo de Scorpius. Porém, Serena depositava flores em outra lápide, metros distantes da de Astoria.

Os dois apenas se encontraram no portão do cemitério quando estavam indo embora.

— Olá, Scorpius.

— Oi. — Scorpius não escondeu sua curiosidade e não enrolou para perguntar: — Alguém da sua família?

— Meu pai. Já faz um tempo.

Continuaram andando lado a lado, sem conversarem muito. Serena queria manter assunto, dizer qualquer coisa, mas se lembrou do conselho de Draco sobre não forçar as coisas com Scorpius.

Foi um conselho excelente, porque quando viraram a esquina Scorpius perguntou:

— Como está se saindo em Clarisse? Minha avó te dando dor de cabeça?

Serena sorriu para si mesma.

— Ela é excelente. O resultado da peça de sua avó ficará perfeito. Será fenomenal. Não digo por mim. Ontem ensaiamos a cena final e Narcissa atuou. Ela fez todos chorarem.

— Eu não consigo imaginar como As Noites de Clarisse faz alguém chorar. É um teatro pornô, quero dizer.

— Você pretende assistir?

— Minha avó me mataria se eu arrumasse uma desculpa para não ver.

— Então assista quando estrear. Vai se surpreender.

Após a breve trocas de palavras, Serena chamou o primeiro táxi que cruzou a rua. Despediu-se de Scorpius, alegando que se encontrariam outra vez, talvez em um lugar menos deprimente do que em um cemitério. Ela deixou Scorpius pensando em seu pai e se ele realmente estava feliz com ela. Esperava que sim. Gostava de Serena.

***

As vidas de Rose e de Scorpius eram completamente opostas. Desde os tempos na adolescência ambos enfrentavam esse problema entre eles. O lado de Rose era feito de visitas a lugares artísticos, com pessoas estranhas, decididas, diferentes, regradas por rotinas sem regras. Caras e moças tatuadas, cabelos de inúmeras cores, roupas fora ou completamente dentro da moda. E ela tinha amigos que viviam chamando-a para baladas e festas, bebidas e música, mas ela recusava algo mais radical por ser a única entre eles que tinha que se preocupar com pediatra, escola e filha na manhã seguinte.

Scorpius, apesar de não se encaixar no grupo de amigos dela, lembrava-se que sair com Rose para beber era ótimo. Não tinham mais dezessete anos, claro, mas a conversa que tiveram sobre estarem perto dos trinta fizeram os dois se arrumarem para uma festa na rua mais hippie de Londres, somente os dois.

O rapaz precisava tirar os problemas do trabalho da cabeça e Rose precisava comemorar que sua perna estava, novamente, intacta.

Em pouco tempo, a música e a vibe levaram eles para o passado. Para o tempo bom do passado, quando não tinham outras preocupações no mundo, apenas para o que estava rolando entre eles. Época quando eram egoístas, imprevisíveis, completamente apaixonados.

Rose se perguntou quando foi a última vez que se soltou daquela forma para dançar. Fechava os olhos, sentia o corpo de Scorpius dançando atrás do seu, ritmado, a batida da música eletrônica sincronizada com a de seu coração. Era como recapitular os anos que deixou de fazer isso no começo dos seus vinte. Embora sentisse falta da agitação, nunca carregava o peso nas costas por ter tido uma filha. Ela não perdeusua vida. Nunca sentiu isso. Mesmo assim, ela gostou de pensar um pouco só em si mesma naquela madrugada.

Eles teriam aproveitado a madrugada com mais bebidas, mas Rose descobriu que ela não estava mais tão forte para isso. Foi durante um amasso que provavelmente resultaria em sexo no banheiro da balada, que Rose se afastou de Scorpius, empurrando levemente seu peito.

— Espera.

— Você é virgem? — brincou. Já estavam bêbados, mas não o suficiente para Scorpius não perceber que a expressão de Rose era preocupante. — Ei, você tá bem?

— Me sentindo um pouca zonza. Preciso descansar.

— Caramba. Já está caindo?

Ela deu um tapa no ombro dele, recusando-se a achar que ela estava ficando fraca para isso.

— Quer voltar pra casa?

Relutou para acreditar que queria. Mas a razão ainda estava em pé.

— Acho melhor.

Saíram alguns minutos depois para a rua longe do tumulto dos outros jovens, onde Scorpius conseguiu parar um táxi para levá-los para casa. No banco, encostou Rose em seu ombro. Ela estava passando mal.

Quando chegaram ao apartamento vazio – já que Zoe estava dormindo na casa dos avós –, Rose precisou tomar um banho. Quando vomitou, estranhou por não ter sentido o característico alívio de esvaziar o que havia bebido a noite toda. Na verdade, ela nem tinha bebido tanto assimpara passar mal desse jeito. Na cama, Scorpius questionou sobre como ela se sentia e Rose disse:

— Cansada. Foi uma péssima ideia ir à balada.

Ele discordou.

— Eu me diverti. Sentia falta disso com você.

Ela logo reconheceu a voz pré-sexo, por isso Rose segurou a mão dele que acariciava seu seio e, delicadamente, tentou se explicar que não estava no clima. Odiava passar mal.

— Justamente hoje que você pode gritar o meu nome? — sussurrou sedutoramente.

— Eu sei, desculpe.

— Tudo bem. Podemos só ficar abraçados como dois velhos então...

Ela soltou uma risada baixinha, concordando que nunca mais voltariam a ser aqueles Rose e Scorpius de antes. Talvez eles fossem melhores agora. Os braços dele ao redor dela eram confortáveis e tudo o que precisava no final da noite. Apesar de não ser a maior agitação do mundo, sentiu-se melhor assim, sossegada, em sua cama, abraçada com o namorado que, após balbuciar duas ou três coisas sem nenhum sentido, dormiu rapidamente.

***

Apesar de reconhecer que não voltariam ao tempo, não voltariam a ser os mesmos que eram antes, Scorpius nunca esteve tão feliz. Não pensava em como perdeu sua vida tendo Zoe, mas exatamente o contrário. Com Zoe, ganhou vida. Até se dar conta disso foi uma longa jornada.

Era estranho como humor afetava tudo e a todos ao seu redor. Sua própria carreira estava nos trinques. Afiado, como nunca.

— Está de bom humor hoje — sorriu-lhe Portia quando entregou a ele novas pilhas de fichas criminais organizadas. E uma xícara de café. — Foi porque venceram Rookwood em mais um julgamento, não é?

— É ridiculamente reconfortante ver a cara de derrotado dele — admitiu Scorpius. — Mas ainda não acabou. Não posso contar vitória.

— Foi só a primeira fase — entendeu Portia.

— A decisão final do Juiz será na próxima segunda-feira depois da festa de aniversário da empresa. Por falar nisso, você vai?

— Não — ela disse. — Não sou muito de festas.

— Não estou falando sobre a festa... — corrigiu-se. — Sobre o julgamento. Você se demonstrou interessada por isso. Se quiser, pode tirar um tempo da correria por aqui para assisti-lo na segunda-feira.

— Seria ótimo — surpreendeu-se com o convite. — Obrigada, Malfoy.

— Portia, mais uma coisa. Sobre movimentações estranhas... alguma notícia?

— Hoje não.

— Ótimo. Eu estou com um bom pressentimento sobre esse julgamento. É bom que nada atrapalhe.

***

Rookwood fumava charutos, como no bom e velho filme do gênero noir. Esperou pela presença do jovem Corey Archner, sentado à mesa de um bar requintado por volta das nove horas da noite naquela sexta-feira. Dois minutos foi o suficiente para que Corey encontrasse o homem quando entrou no calor do recinto. Ajeitou o sobretudo e caminhou até a mesa vazia. Acomodou-se, sem ter certeza do que andava fazendo.

— Sr. Rookwood — cumprimentou. — O senhor me chamou.

— Tem ignorado minhas ligações, Archner?

— Senhor. Com todo o respeito... Eu não vou fazer isso.

— Do que tem medo? — A fumaça se expeliu de sua boca.

O rapaz suspirou encruzilhado.

— Pensou na minha oferta, pelo menos? — pressionou Rookwood. — Não existem muitas oportunidades como essa. Você será grande na Rookwood & Associados. Mas na firma dos Malfoy? Ela já está ultrapassada. E pelo que você me contou outro dia... eles não têm tratado a sua inteligência do jeito que merece.

— Eu estava bêbado quando confessei isso ao senhor. Malfoy é um filho da puta, mas é porque eu o invejo. Gostaria de ser como ele. Quero chegar aos vinte e nove com os títulos e a reputação que ele tem.

— Você nunca será Scorpius Malfoy porque você nunca teve um avô como Lucius Malfoy. Acha que Malfoy é o que é por ser bom? Ele só tem contatos aqui e ali. E é bonito. Se você não tem tais qualificações e privilégios, o jeito é usar outros caminhos. Estou cedendo um a você.

— O senhor realmente me quer na Rookwood & Associados? Serei importante por lá?

Todos são importantes na minha firma.

— Eu aceito, então.

Era um jovem ambicioso, que apenas queria se sobressair. Faria qualquer coisa para o sucesso. Estava fazendo qualquer coisa.

— Mas é aquele esquema que falei, Corey. Somente se fizer o que pedi a você...

Apesar de hesitante, Archner tentou demonstrar confiança.

— Farei. Mas não vai acontecer nada comigo, vai?

— Não. Está tudo esquematizado. Você só precisa fazer aquilo. Então conversamos depois disso. Combinado?

— Sim. Combinado.

Um aperto de mão frágil, mas significativo.

***

Rose não queria dizer a Scorpius que não estava nem um pouco disposta a enfrentar uma festa de gala. Estava sendo injusta e ela sabia. Scorpius nunca reclamava dos programas relacionados a área de trabalho dela então era hora de também fazer alguns sacrifícios naquele relacionamento e se levantar do sofá para tomar banho, sem preguiças.

Era tão importante Scorpius levar sua família que ele fez uso do cartão de crédito naquela manhã para comprar um vestido maravilhoso a Rose. A segunda caixa guardava um belo vestido ideal e encantador para Zoe. Perfeitos para a ocasião.

Rose se esforçou muito para não demonstrar sua expressão de temos mesmo que ir? O esforço estava quase virando um desafio. Já quase prontos para saírem, Scorpius ajeitava a gravata borboleta do colarinho, todo nervoso e ansioso, a frente do espelho do quarto.

— Vou ter que fazer discurso — contou.

— Você é ótimo em discursos.

— Estou bem?

— A ponto de me dar vontade de arrancar esse smoking — ela provocou, puxando o corpo do rapaz para si quando ficaram próximos. Scorpius aceitou o beijo no pescoço, mesmo que estivesse distraído.

— Você está enrolando. Não quer ir, né?

— Claro que quero — mentiu Rose, distribuindo beijinhos no queixo dele. — Estou empolgadíssima.

Ele riu, reconhecendo o tom de voz dela. Scorpius sabia que Rose não era assídua por festas em que as pessoas pagavam para falar mal de suas roupas, dinheiro e aparência. Era exatamente o tipo de pessoas que frequentavam festas assim. Scorpius beijou a boca dela.

— Obrigado por aturar então. Você sabe que eu recompenso, não sabe?

— Uhum. — Entreteve-se em beijá-lo mais um pouco no pescoço. Subiu os lábios para sua mandíbula, enrolando os braços ao redor do seu pescoço. Ao chegar perto de seu ouvido, a ruiva sussurrou: — Será que temos mais um tempo?

Pela primeira vez desde que se conheceram, Scorpius olhou para Rose, achando-a maluca ao sentir a região da virilha sendo apertada pelos dedos dela.

Mas claro que seriam interrompidos pela voz de Zoe. Graças a Deus a menina tinha mania de chamar pela mãe dez passos antes de abrir a porta. Deu tempo de se afastarem.

— Mããããe, o vestido ficou largo. Ajeita pra mim?

— Claro que está largo. Você não fechou o zíper nas costas, querida. Espera aí.

Rose se agachou a altura da filha para erguer o zíper. Em troca, Zoe ajudou Rose a fechar o seu. Sempre com a sincronia entre mãe e filha. Scorpius olhava para as duas e Zoe olhou para ele.

— Você está bonitão, papai!

— Obrigado, coisinha. Você está linda.

Zoe virou-se para as maquiagens de sua mãe, sorrindo como um cientista a frente de seu maior experimento.

— Posso passar esse batom hoje?

— Pode — permitiu Rose. Zoe correu para o espelho onde Scorpius estava se observando e passou o batom nos lábios, concentrada, direitinho e sem borrar. Ela beijou o espelho para tirar o excesso. Ou só para fazer graça.

— Zoe, esse espelho é sujo — reclamou Rose ao ver isso, mas acabou por deixar a marca do batom no vidro. — Sua louquinha.

— Vou esperar vocês dois na sala.

Não precisou esperar muito.

Saíram de casa por volta das sete e chegaram ao salão principal de festas às oito horas em ponto. Foi com grande importância a recepção dos convidados presentes no salão. Cada um deles esperava para julgar Scorpius e sua família, mas claro que ele não deixaria o julgamento crítico ser tão fácil. Não quando se tinha a companhia de uma garota adorável como Zoe. A menina, que já recebera inúmeros elogios em tão pouco tempo de vida, já sabia como acenar, sorrir e agradecer educadamente. Observou como sua bisavó Cissy, naquele momento acompanhando o neto, fazia em situações que recebia elogios. Muitas vezes a mulher não agradecia, mas apenas um leve sorriso já era o suficiente para a pessoa se sentir agradecida.

Zoe admirava muito sua bisavó. Observava e aprendia com ela coisas que não reconhecia em sua mãe, nem em sua avó Hermione. Às vezes ela se perguntava se Astoria e Cissy eram parecidas. Gostaria que fosse. Cissy exalava admiração, talvez da mesma forma que Lucius fazia para com Scorpius.

Desse modo, durante toda a festa, Cissy e Zoe ficaram juntas. A mais nova contava sobre seus ensaios nas peças, alegando que papai odiava quando ela tinha que fazê-lo ao lado de meninos. Cissy riu, garantindo:

— Não ligue para o seu pai. Você está o fazendo pagar por todos os pecados.

— O que são pecados?

Cissy não soube como explicar, mas ela tinha experiência com as palavras.

— Pecados, Zoe, são erros. Alguns erram pouco, outros erram muito.

— Erram como? Fazendo coisas ruins?

Mesmo que Cissy passasse a noite inteira falando sobre pecados para uma garota de oito anos, ela reconhecia que Zoe só entenderia quando ela cometesse os seus. E ela iria, uma hora em sua vida, mais para frente, cometer muitos erros. Mas, por enquanto, não precisava de pressa.

Scorpius apresentou Rose para seus colegas. Era como um protocolo social aristocrático, mostrar que estava muito bem acompanhado. Não foram muitas vezes que os advogados de sua própria firma viram Scorpius acompanhado seriamente com uma mulher. Ele nunca admitiu a si mesmo, mas se sentira incomodado por ser um dos poucos que apareciam sem segurar a mão de alguém. Na época em que Emily era sua companhia nas festas, Scorpius não precisava apresentá-la a ninguém. Afinal, todos conheciam Emily.

A ex-namorada estava acompanhada do novo marido. Um médico renomeado, jovem e com a expressão de extrema alerta, como se houvesse o perigo de alguém ter um ataque cardíaco logo ali. Cumprimentou Scorpius com educação, ao passo que Emily e Rose fizeram o mesmo.

Em um momento da festa, ocasião despropositada levou as duas a se encontrarem sozinhas perto da mesa dos aperitivos. Foi quando Emily sorriu para ela.

— Scorpius se esqueceu de me apresentar. Eu sou...

— Emily — completou Rose, retribuindo o sorriso. — Já ouvi falar sobre você.

Rose não deixou de pensar o quanto ela era absolutamente elegante e fina. Até se sentiu um pouco deslocada perto dela.

— Posso dizer o mesmo.

— Você está casada há quanto tempo?

— Eu já perdi a conta — a moça brincou. — Não faz tanto tempo, mas o suficiente para sentir que já estou com ele a minha vida inteira. Você me entende.

Ambas olhavam para a mesma direção. Scorpius subiu ao palanque para fazer um rápido discurso de aniversário. Eram palavras dirigidas ao sucesso e ao progresso da firma, assim como também citações de Lucius. Durante o tempo em que a voz de Scorpius no microfone se sobressaía, Emily deu um longo suspiro.

— Não sei qual é o seu segredo — admitiu Emily. Rose olhou para a moça muito curiosa com as palavras. — Quando nós namorávamos para conseguir a atenção dele era mais exaustivo do que escalar o Grand Canyon. E, acredite, eu escalei o Grand Canyon.

— Eu também não sei qual é o segredo. Ainda é uma escalada, confesso.

Aplaudiram quando Scorpius terminou seu discurso. Ele se aproximou da mesa percebendo algo muito estranho ao ver sua atual e ex rindo juntas.

— Fofocando? — perguntou curioso quando ficou ao lado de Rose.

— Estava contando a Weasley que você é péssimo em lembrar datas importantes — provocou Emily. — Eu preciso ir. Minha vez de discursar.

Quando ela assumiu o microfone para um discurso de quase meia hora, Scorpius sugeriu a Rose:

— Vamos sentar. Temos uma mesa reservada. Onde está Zoe?

— Sua avó está tomando conta dela. Seu pai realmente não veio?

— Não. Eu o chamei, mas ele não retornou minha ligação.

Rose percebeu que Scorpius não estava feliz pela ausência de Draco, mas ele não admitiu a ela tão facilmente assim. Blaise Zabini também notou tal ausência e foi até sua mesa para perguntar sobre Draco.

— Mande lembranças a ele — disse Zabini. — Não o vejo há um tempo.

Scorpius garantiu que o faria. Incomodado, decidiu ligar mais uma vez para seu pai. Draco atendeu com a voz normal.

Oi, Scorpius. Boa noite.

— Boa noite, pai. Eu enviei o convite da festa da empresa para o senhor...

Eu sei.

— Bem, eu estava esperando que viesse.

Desculpe, Scorpius. Não vou.

Simplesmente assim.

— Tudo bem. Só queria saber. Tchau.

Antes que desligasse, Draco voltou a falar:

Eu não...

— O quê?

Eu não posso. Espero que entenda.

— Não, pai, eu não vou entender isso. Mas sua presença seria importante para mim, então...

Não conseguiu completar a frase. Por que era tão difícil? Mas Draco não precisava de muitas palavras também. Dessa vez, Scorpius foi muito sincero. Tanto que o surpreendeu.

Chegarei atrasado — mudou de ideia. Mas estou a caminho agora.

Draco chegou cerca de meia hora depois da ligação, desacompanhado. As pessoas olharam para ele, cumprimentaram com sorrisos solenes, mas não foram correspondidos com o mesmo entusiasmo. Acenar com a cabeça era sempre o suficiente para seu pai. Scorpius viu Draco se aproximando da mesa reservada para sua família. Draco decidiu ficar sentado apenas observando a movimentação, sem papear muito. A única iniciativa que teve foi para abraçar Zoe quando a viu brincando com outras crianças pelo salão.

— Não trouxe Serena — percebeu Scorpius.

— Não — ele concordou. — Não a trouxe. Ela não poderia vir.

— Entendo.

Foram essas as únicas trocas de palavras entre pai e filho durante a festa. Mas Scorpius estava mais completo naquela noite. Foi o suficiente vê-lo presente.

A medida que os convidados enchiam o salão de festa, os garçons equilibravam mais e mais bandejas de bebidas e aperitivos, aparecendo em mesa e mesa para servi-las. Quando Cissy, em uma tentativa de interagir com Rose, ofereceu um copo cheio de tequila, foi com educação que Rose negou. Cissy riu, achando-a engraçada.

— Recusando essa delícia? Ou a senhorita é a pessoa mais careta que eu conheço ou só pode estar grávida de novo!

Cissy obviamente não estava tão sóbria para ter sugerido tal opção. Com a expressão de Rose estancada em seu rosto leve e contido, os lábios de Cissy murcharam em uma seriedade descomunal. Segurou o braço de Rose.

Está?

Foi uma péssima hora para tal brincadeira. Rose apenas desconfiava, uma vez que estava atrasada.

— Não. Eu apenas tomei remédio por ter passado o dia com dor de cabeça — mentiu. — Não se preocupe.

Não se preocupe? Querida, encha essa família de outras mil Zoes. Ela está precisando!

Ao ouvir a menção da filha, Rose procurou-a com o olhar. Estava na hora de fazê-la voltar para a mesa, uma vez que o local estava ficando lotado de pessoas.

— A senhora estava com Zoe?

— Sim. Mas ela encontrou duas meninas horripilantes de adoráveis e começou a brincar com elas. Devem estar correndo por aí, é claro — disse despreocupadamente.

Rose se levantou para procurá-la. As crianças da festa estavam aglomeradas em um playground no jardim. O monitor responsável por olhá-las disse que Zoe estava apertada para ir ao banheiro e saiu.

— Ela foi sozinha?

— Não, claro que não. Ela estava acompanhada com o pai dela.

— Scorpius?

— Sim. Acho que sim. É um cara alto de vinte e tantos anos? Então era ele sim.

Ficou mais sossegada ao ouvir isso, mas ainda continuou procurando. Quando encontrou Scorpius conversando com dois advogados, perto da mesa do ponche, Rose estranhou por não vê-lo com Zoe.

— O monitor disse que ela estava com você — explicou Rose.

— E ela estava com minha avó, não estava?

— Sua avó disse que ela ficou brincando com as crianças. Fui até o banheiro, onde ela deveria ter ido e não está em nenhum dos toaletes. Olhei em todos.

— Só se ela entrou no banheiro masculino sem querer. Mas eu não estava com ela, Rose.

Foi nesse momento, com a sugestão de Scorpius, que o coração de Rose se apertou em um misto de preocupação e pânico. Mas manteve-se calma, após muita tentativa. Zoe já sumira de sua vista inúmeras vezes e sempre davam um jeito de encontrá-la. Scorpius pediu licença aos homens com quem papeava, repousou a taça da bebida na mesa e foi até o banheiro masculino, verificar. Zoe não era uma garota desatenta, mas era uma criança. Qualquer errinho poderia ser muito perigoso.

Ele saiu sozinho do banheiro.

— Não. Nada.

Rose pousou a mão na testa.

— Onde ela está?

— Provavelmente se escondendo para alguma criança não achá-la.

— Eu falo para ela não brincar de esconde-esconde em lugares que ela não conhece.

— Ela vai aparecer.

— Agora eu preciso encontrá-la.

— Não tem muitas crianças aqui, não vai ser difícil.

Resolveram se dividirem para procurar pelo salão. Rose verificou embaixo de cada mesa, mesmo que, aos olhos das outras pessoas, ela parecesse uma louca. Seu desespero começou a ficar visível de tal modo que uma mulher gorda perguntou quando Rose verificou embaixo de sua mesa duas vezes:

— Querida, o que está procurando? Seus brincos?

— Minha filha.

Não reconheceu muito bem sua voz, pois estava trêmula. Quando nervosa, Rose tinha mania de tirar a franja da testa. A mão estava um pouco trêmula também.

— Oh, não se preocupe. Crianças somem da gente toda hora. Ela deve estar por aí brincando com outra criança.

Todo mundo fala isso.

Mas Zoe não estava em lugar nenhum. Seus cabelos longos, lisos e loiros eram inconfundíveis. Não havia nenhuma criança tão linda ou tão igual a Zoe para ser confundida.

Scorpius voltou a ver Rose, mas também não tinha encontrado Zoe.

— Perguntei ao meu pai. Ele disse que ela saiu correndo brincar com uma menina alta e de óculos depois que ele abraçou ela.

Encontraram a menina alta e de óculos. Ela relatou:

— Ela ficou no jardim depois, porque as outras meninas estavam dando estrelas. — Havia um quê de frustração da menina. — Eu não sei dar estrela e ela me excluiu!

Crianças sendo crianças.

Rose e Scorpius foram até o jardim. Rose abordou novamente o monitor:

— Foi ele quem você viu levando Zoe para o banheiro? — Apontou para a figura alta de Scorpius ao seu lado.

— Não. Não. Ele era mais desengonçado. E mais baixo também até. Gostosinho, mas não tanto.

Scorpius apertou a mão no rosto. Rose começou a chorar.

— Cadê ela, Scorpius? Com quem ela estava?

Calma

— Não me peça para ter calma! — empurrou o peito dele com força. — Cadê a minha filha? Zoe!

Logo o alvoroço começou a contagiar as conversas entre as pessoas e atenção virou-se para o fato de que não encontravam a filha de Scorpius Malfoy em lugar algum. Narcissa ficou sóbria com a possibilidade de um desaparecimento de sua bisneta e imediatamente começou a procurar junto com eles.

Draco foi mais rápido e desceu para o saguão perguntar a algum segurança.

Foi Emily quem apertou o ombro de Scorpius, quando ele já estava perdendo a linha de raciocínio e não sabia mais onde procurar. Rose exclamava incessantemente pelo nome da filha, não se importando em ser mais alta do que a música.

— Scorpius, eu a vi — disse Emily. — Ela estava com aquele seu advogado estranho. Pareciam estar se dando super bem. Pareciam grandes amigos, ela tagarelava com ele.

— Meu advogado?

— Sim. Aquele tal de Cary Archus? Não lembro o nome.

Scorpius empurrou quem estivesse a sua frente para encontrar Corey Archner. Por coincidência ou não, também não foi visto em lugar algum da festa. Após abordar cerca de cinco advogados pelo nome do rapaz, nenhum deles parecia ter se dado conta da presença daquele advogado. "Nunca ouvi falar desse nome".

No outro lado do salão, Draco voltou dez minutos depois com uma notícia que deu por encerrada a festa. Somente Narcissa ouviu:

— O segurança confirmou que viu um rapaz saindo com ela. Ela estava dormindo no braço dele. O segurança abordou o rapaz e ele disse o seguinte: "Ela está passando mal, preciso levá-la ao hospital".

— Então ela está no hospital? Só precisamos ir ao hospital...

— Não, mãe — disse Draco. — Ela foi sequestrada. Vou ligar para a polícia. O cara não deve ter ido para muito longe nesse período de tempo... Eu espero.

Quase derrubou o celular quando o tirou do bolso, mas teve postura o suficiente para explicar toda a situação com a cabeça fria. Já recebera notícias piores na vida.

Narcissa não soube como dar a notícia a Rose.

Não precisou. No fundo, o sentimento de mãe era forte. Foi o suficiente apenas trocar um olhar com Narcissa. O peso de seu coração causou um buraco em seus pulmões e ela ficou sem ar. A voz, roca de tanto chamar pela filha, não funcionava mais.

Scorpius também entendera a situação. Sua frieza natural, nesse momento, não serviu-lhe para nada. Após tentar ligar para Corey Archner e ser ignorado, obviamente, em suas ligações, ele socou uma mesa. No entanto, não viu a taça de vinho e acabou por estourá-la nas próprias mãos. Elas sangraram imediatamente.

A família e os amigos preocupados saíram da festa para o saguão de entrada do prédio, onde passaram as últimas duas horas contatando a polícia, tentando pensar nas possibilidades, falhando miseravelmente em se acalmarem. Se Narcissa não tivesse um calmante em sua bolsa, Rose já teria desabado.

Scorpius usou o carro para sair a procura de sua filha. Porém, Londres não era uma cidade fácil. Em um sábado, principalmente, estava lotada de carros e congestionamento. Além disso, procurar um carro que sequestrou Zoe era como andar vendado. Ele não tinha ideia por onde começar nem por onde terminar.

Voltou para o saguão do prédio por volta das duas horas da manhã, quando a festa já estava encerrada e os convidados se retiravam. Pessoas que Rose nunca conheceu em sua vida asseguravam-se que encontrariam a menina. E que ela estaria bem de novo.

Rose agradeceu, mas estava chocada demais para que dissesse alguma coisa que fizesse sentido.

Culpava-se por tudo.

— Deveria tê-la deixado com meus pais essa noite — murmurava para Narcissa.

— Não adianta se lamentar agora. Entendeu? Scorpius, quem é esse Corey Archner?

Ele não respondeu.

— Isso obviamente é para atingir você, não é? Eu lembro. Ligavam para Lucius três vezes ao ano dizendo que tinham sequestrado Draco. Ligavam e pediam dinheiro em troca da vida do meu filho. As vezes apenas para se vingar de Lucius por algum caso que perdeu no tribunal. Conheço! Conheço muito bem a situação! Mas sabe o que eu dizia para esses filhos da puta que ligavam? Eu repetia exatamente as palavras que Liam Neeson discursava naquele filme lá, da filha dele que é sequestrada. Busca Implacável. Esse é o nome do filme.

Narcissa claramente voltou a ficar bêbada. E ela reconheceu isso, porque calou a boca ao ver as expressões. Pousou a mão na testa.

— Estou bêbada. Não vou ajudar em nada.

Scorpius estava incomodado. Sua voz saiu baixa e irritada:

— Por que ainda estamos sentados?

— Estamos esperando a polícia — disse Draco. — Eles já foram atrás do carro desse rapaz. Infelizmente não há o que fazer, Scorpius. Agora. Você já rodou a cidade e percebeu que não adiantou nada. E se isso aconteceu para atingirem você, logo receberá um aviso sobre isso.

— Corey Archner não é um criminoso — ele disse finalmente. — É um advogado que contratei.

— O que fez a ele?

— Ele não é brilhante. E eu não minto a ele sobre isso.

— Esse é o motivo? — a voz de Rose estava baixinha. — Ele sequestrou nossa filha simplesmente porque você disse a essa pessoa que ela não é brilhante?

— Não. Tem mais coisa que estou perdendo. Uma pessoa em sã consciência jamais faria isso.

Havia raiva nos olhos de Rose.

— Você vai dar um jeito nisso. Você vai encontrá-la. Se alguma coisa acontecer com ela... se alguma coisa... para você ser atingido por causa desse seu trabalho fodido...

— Você acha que eu não quero encontrá-la? — perguntou. — Acha que eu pedi para isso? Acha que eu já não estou me martirizando o suficiente pelo que está acontecendo?

A voz de Scorpius poderia ser escutada no fim da avenida. O silêncio do saguão foi cortante depois que ele gritou. Mas Rose gritou de volta:

— Então é algo inevitável? Porque você quase morreu por causa do seu trabalho! Eu não quero ter que passar pelo mesmo desespero de novo! Eu não vou suportar se ela se machucar, Scorpius! Eu não vou suportar! Ela tem que aparecer agora ou...

— Ela vai aparecer! Se o que Archner quiser é dinheiro, eu vou dar o dinheiro! O que for preciso, entendeu? Eu não vou deixar nada acontecer com Zoe. Nada.

— Eu quero voltar com ela pra casa hoje!

— Nós vamos.

Havia lágrimas grossas nos olhos de Rose. Ela odiou sentir a incerteza na voz de Scorpius, por isso começou a chorar copiosamente.

Draco, que observava a discussão calado, não aguentou e disse:

— Vamos, Scorpius. Vou ajudá-lo a procurá-la-

Foram interrompidos com a chegada de dois policias. Eles ultrapassaram a distância entre a entrada do saguão até os sofás onde a família estava sentada, ansiosos por notícias. Os que estavam sentados ficaram imediatamente em pé, para ouvirem o que tinham a dizer.

O primeiro policial contou:

— Encontramos o carro de Corey Archner.

— Cadê minha filha? — perguntou Scorpius primeiro do que todo mundo.

— Ela está bem? — Rose sentiu pela primeira vez em quatro horas uma espécie de esperança e alívio.

Tal sentimento não sobreviveu por muito tempo, pois o segundo policial acrescentou:

— Encontramos o carro dele capotado na estrada. Acreditamos que foi resultado da pista escorregadia na curva muito estreita. Estava saindo da cidade.

— Diga que Zoe não estava no mesmo carro. Ele não a sequestrou. Não era ele. Era outro carro que a levou, então.

— Não — lamentou o policial. Quando contou, olhava para Rose. — Havia uma garota loira, como foi relatado na denúncia de Malfoy. Corey Archner morreu durante o impacto, sem condições de salvá-lo quando nossos policiais chegaram, uma vez que a prioridade nos primeiros socorros são as crianças. A filha de vocês, Zoe, foi levada para o hospital imediatamente. O estado dela... é crítico.

Foi como se Scorpius tivesse ficado surdo. Não entendeu direito. Ele não sentiu as próprias pernas, embora quisesse, e muito, correr ao alcance de Zoe. No entanto, simplesmente ficou parado.

Sentiu os punhos de Rose batendo em seu peito, a moça em uma tentativa de explodir seu desespero após entender o que aconteceu. Tudo em uma fração de segundo que durou uma eternidade.

Scorpius agradeceu com a voz rígida pela informação e o trabalho rápido feito pelos policiais, que olhavam com complacência. Scorpius não quis encontrar os olhares do pai nem mesmo da avó. Apenas pegou a chave do carro em seu bolso e disse, engolindo em seco:

— Vamos... vamos para o hospital. Ela não pode ficar sozinha lá. Ela odeia hospital... Rose...

Procurou pela namorada. Ela apertava a boca, chorando. Quando Rose deu o primeiro passo para correr até Zoe, seus sentidos não suportaram a notícia.

Draco foi rápido ao segurá-la quando ela desmaiou.

Notas finais
Confesso que quando escrevo, parece que tem alguém se apossando de mim. Alguém que me controla, dizendo o que tenho que digitar. Eu também não acredito que cheguei a esse ponto. Eu sou horrível. Estou fugindo para as colinas. Imediatamente. Podem me mandar ameaças. Eu sou horrível. Porém, se serve alguma justificativa, saber que eu escreveria esse acontecimento foi o que me deu gás para continuar Fix You. Já estava marcado há algum tempo. Faltou coragem para chegar até aqui. Sou terrível por ter continuado corajosa. Obrigada por lerem. Podem me xingar, estou preparada. Beijos e até o próximo capítulo, Pokie.