Fix You
37 Fix You
Notas iniciais
Capítulo 37: Fix You
"Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you..."
"Ela não resistiu na ambulância."
"Impossível. Eu falei com ela agora."
"Astoria morreu, Scorpius."
"Impossível."
"Me escuta! Ela morreu!"
"Impossível..."
"É só isso o que você tem para dizer?!"
Impossível...
Impossível.
Astoria percebeu a aflição nos olhos de Scorpius. Ele sentiu tão bem as mãos da mãe acariciando seu rosto. Carinhosamente.
"E o que o deixa tão triste? Eu não gosto de vê-lo assim, já falei. O que há de errado?"
Passou um tempo indecifrável olhando para o belo rosto de Astoria. Não tinha envelhecido um segundo. Eternamente linda.
Ele sorriu. Abriu um pequeno sorriso.
"Sinto sua falta, mãe."
"Ora. Não fale besteira. O que você aprontou? Eu sei que quando você diz coisas assim... é porque aprontou." Quando reconheceu que Scorpius estava sendo verdadeiro, Astoria rendeu-se a um sorriso. "Também sinto a sua. Muito. Quando voltará para casa?"
Quando voltará para casa?
Scorpius acordou do sonho em um ambiente escuro, familiar. Estava de volta para seu apartamento após o dia inteiro no hospital. Rose pediu para que ele pegasse o travesseiro de Zoe e ele também precisava de um banho urgente, mas acabou por desabar na cama e dormir. Estava exausto. Rose não saía para beber água, comer ou fazer qualquer outra coisa que não fosse estar ao lado de Zoe. Ela, desesperadamente machucada, desacordada em um quarto de hospital, após um acidente fatal de carro. E um sequestro.
Scorpius decidiu que odiava carros quando viu a marca dos pequenos lábios de Zoe no vidro de seu espelho, resultado da graça que fizera antes de saírem para a festa. Ele se sentou a margem da cama e apertou os cabelos. Puxou-os com força, como se precisasse canalizar sua raiva, sua própria culpa.
Cerrou os dentes, sentindo aquela sensação estranha, aquela vontade absurda de chorar, principalmente quando sua mente trocava as imagens alegres de Zoe para a que viu depois de uma cirurgia imediata que a menina precisou fazer. Deitada, tão frágil, em uma cama de hospital. Mas os médicos asseguraram que poderia ter sido pior. Ela teve muita sorte, porque um impacto maior não teria sido fácil para uma criança aguentar.
Sentiu um leve tremor ao seu lado e era Cupcake ronronando, tentando enfiar sua cabeça no colo de Scorpius. O cão pressentia que havia algo errado e seu olhar naturalmente tristonho estava mil vezes pior.
— Logo ela volta — ele prometeu ao cão, acariciando seu pelo.
Cupcake o seguiu para o quarto de Zoe enquanto ele recolhia algumas coisas dela para deixar no hospital. Encontrou jogado no cabide aquela toquinha rosa que ele adorava tanto, mas que já não via mais a filha usar. Segurou o tecido entre os dedos, abrindo um sorriso inevitável. Percebeu que todas as vezes que pensava em Zoe, não conseguia se sentir miserável.
"O que está achando de Londres?"
"Tem muitos pombos."
A possibilidade dela não ficar bem o assustava, mas ele precisava ser forte e acreditar no melhor. Ela precisava da força dele agora, do jeito que ela foi forte quando ele estava em situação de risco também.
Sua cabeça não estava voltada para o trabalho ou para Corey Archner. Não queria saber, por ora, o que aconteceu. Como tudo aconteceu. Por que tudo aconteceu. Só queria ver sua filha melhorar. Só isso o que importava agora.
Hugo, irmão de Rose, não fora enviado com nenhuma tarefa médica quando viu a sobrinha chegar a sala de emergência na madrugada anterior, uma vez que o caso era muito pessoal para ele. No entanto, nada impedia o irmão mais novo de tentar fazer com que Rose comesse alguma coisa.
— Rose, você ficando assim não vai ajudar Zoe melhorar. Por favor, coma alguma coisa.
— Estou sem fome — ela disse, sentada ao lado da cama de Zoe, acariciando o rostinho claro e cheio de ferimentos leves. No entanto, o problema era os lábios. Inchados após receberem dois pontos do médico. Ela também ganharia cicatrizes em sua barriga, na perna, no braço e no peito, mas o cobertor estava escondendo elas. — Não se preocupe comigo.
Scorpius reapareceu no buraco da porta do quarto, segurando uma pequena mala com as roupas de Zoe. Ele entrou, passando por Hugo, e a pousou perto da cama.
— Como ela está? — ele perguntou baixinho.
Esteve recebendo um certo gelo de Rose desde que chegaram ao hospital e foram recebidos por notícias péssimas pelos médicos. Sangramentos internos, cirurgia, febre e machucados, perda alta de sangue. Ela claramente estava culpando-o, mesmo que não tivesse reunido forças para gritar novamente.
— A febre aumentou de novo.
Ele olhou preocupado, mas o calor que estava em sua mão o fez dizer:
— Trouxe o gorro da sorte para ela.
Colocou-o na ponta da cabeceira, uma vez que Rose não expressou nada sobre isso. Nesse momento, chegavam mais pessoas da família dela na sala de espera. Dominique fez um escândalo com o médico que não a deixou entrar no quarto para vê-la, mas acalmou-se quando finalmente foi permitido. Tentou não chorar ao ver a menina na cama para não desesperar Rose, então o fez no banheiro feminino mais tarde, com Lily e as outras primas ao seu lado. Ron estava calado e evitava a presença de Scorpius. Hermione, por outro lado, não parou de fazer perguntas.
O rapaz explicou o acontecido com a voz baixa e contida. Um colega de seu trabalho a sequestrou por um motivo desconhecido. Suspeitava que para atingi-lo. Os motivos ainda eram bobos. Segundo a polícia, Corey perdeu o controle e o carro capotou. Por sorte, pessoas próximas viram o acidente e conseguiram socorrer Zoe, já muito ferida. A família de Corey Archner, no entanto, recebera a notícia de sua morte naquela madrugada.
— Eu não sei o que está acontecendo, sra. Weasley — ele disse, sincero. Parte dele não conseguia se concentrar nas incessantes perguntas. Doía muito olhar para os olhos tão assustados, mas isso porque Scorpius ainda não havia se encarado no espelho. Não tinha visto os próprios olhos.
Aterrorizado.
Os de Albus estavam vermelhos quando ambos se viram. O maxilar rígido, o olhar meio perdido, sentado em uma cadeira com os braços cruzados. Michael estava com ele, também com uma expressão desolada, mas acariciando a nuca dele em um sinal de conforto.
Scorpius olhou ao redor da sala de pacientes do hospital. Estava silenciosa demais, com exceção de dois ou três vozes murmurantes. A família de Rose não dirigia uma palavra a ele.
Ele não conseguiu ficar lá muito tempo.
Draco estava tentando comprar uma garrafa de água, mas a máquina estava com defeito. No momento em que Scorpius se aproximou para pedir um cigarro, ele precisou correr. Draco começou a chutar descontroladamente a máquina. As pessoas olhavam.
— Pai, pare. Pare... Pare!
— A merda dessa máquina engoliu as moedas! — gritou, chamando atenção, tentando sair do aperto dos braços de Scorpius, que o arrastavam para impedir que continuasse com a agressividade.
— O senhor bebeu?
— Não. Gostaria de estar bebendo — ele disse nervoso. — Muito.
Draco pegou o maço de cigarro, interrompendo-se quando percebeu que estava vazio. Olhou frustrado, mas Serena veio ao seu encontro segurando uma garrafa de água que ele tanto parecia precisar. Acalmou-se.
— Obrigado.
Scorpius ainda sentia falta de um cigarro forte, mas ocupou seu tempo observando Zoe respirar. Passou as duas últimas semanas tendo a mesma visão e as mesmas notícias. Febre aumentou. Febre diminuiu. Respiração fraca. Melhora na respiração. Piora na respiração.
Nessas duas infinitas semanas, Rose e Scorpius pouco se falaram. Temiam brigar.
Porém, quando ela sentiu o cheiro de cigarro no casaco dele, explodiu.
— Nossa filha está lutando pela vida dela e você saiu para fumar?!
— Eu precisava. — Foi a pior resposta que poderia dar.
Ela avançou nele e Scorpius achou que fosse para socá-lo. Arrancou bruscamente o casaco do corpo dele e o jogou amassado contra seu peito. Empurrando-o para fora do quarto.
— Sai daqui. Com esse cheiro. Sai daqui, por favor. Sai daqui!
— Eu não vou sair daqui.
— Saia!
— Não vou sair daqui. Rose, pare. Porra.
— Sai daqui, Scorpius, por favor! Eu não quero olhar pra você!
Ele não esperou por essas palavras e pela dor profunda da voz dela, muito além da que estava sentindo pela situação da filha.
— É tudo culpa sua! É tudo culpa sua!
Conteve os braços dela para não levar outro empurrão e os dois se atracaram, ele apenas na tentativa de se defender. Segurou os pulsos dela, acabando por encostar as costas dela contra a porta fechada do quarto e contê-la totalmente. Eram onze horas da noite, o hospital estava silencioso, os enfermeiros não estavam por perto. Só havia o som da máquina que indicava os batimentos cardíacos da filha deles, constante mas frágeis. E os soluços de Rose.
Eles se encararam por muitos segundos. Scorpius encostou a testa na dela, sentindo que as agressões finalmente cessaram. Respiravam muito forte, tão forte que não tinham como recuperar o fôlego. Ela sentiu a mão dele acariciar seu rosto, tirando os fios de cabelos ruivos do rosto molhado de lágrimas. Acalmando-a, aos poucos.
— Eu estou grávida.
Ele apertou os olhos com força quando Rose murmurou aquilo, num fio de voz.
— De novo.
Mas não se afastaram. Ele continuou com a testa encostada a dela até reunir voz. Só que saiu um ofego que pegou ambos de surpresa quando tentou dizer alguma coisa. Scorpius não conseguia aguentar aquilo, todos os últimos acontecimentos. Ouvir aquelas três palavras explodiu algo dentro dele que ele não conseguiu guardar para si mesmo.
Rose nunca presenciou Scorpius derrubar uma lágrima. Ela mesma acabou por parar de soluçar e observar a aflição contida em todo o desespero dele. Esse momento foi extremamente precioso.
— Desculpe — ela pediu com a voz baixa, o que pareceram ser horas depois. Ele abriu os olhos lentamente para encontrar os azuis dela. — Zoe vai ficar bem... eu estou com esperanças. E eu preciso de você aqui. Então não quis dizer que não queria... olhar pra você... Nem culpá-lo... nem... te contar desse jeito. Por favor, diga alguma coisa. Odeio seu silêncio.
Ele não disse nada. Ele a beijou, forte. Seus lábios ficaram apertados contra os dela e Scorpius sentiu os dedos dela puxarem fortemente os cabelos de sua nuca.
Quando se afastaram, ele a colocou em um abraço.
— Foi só um cigarro, não vou fumar mais. Prometo isso.
Ele ergueu o dedo mindinho, tentando um sorriso.
Quando reconheceu o gesto, Rose abriu o primeiro sorriso em dias. Mesmo que pequeno e cheio de lágrimas, foi significativo.
— Promessa do dedinho — disse Scorpius.
— Você não pode quebrá-la — ela relembrou. — É muito...
— Importante, eu sei.
Eles cruzaram os dedos. Scorpius nunca mais fumaria. E dessa vez era sério.
Ambos olharam para a cama onde Zoe estava dormindo.
— Você precisa descansar — ele avisou, observando as olheiras profundas embaixo dos belos olhos de Rose. — E comer mais. Não é só por Zoe agora.
Ela olhou para a mão dele pousada em seu abdômen e seu coração disparou mais rápido. Nervoso. Ansioso.
— Você... tem certeza? — ele perguntou um tempinho depois de refletir o que estava acontecendo. — Você fez testes?
— Dois — ela admitiu. — Um antes da festa e um agora a pouco.
— Nós podemos ver com um médico aqui.
— Pensei nisso. — Sua voz ficou mais fina e trêmula. Esticou o braço para apertar a mão de Zoe sobre a cama. — Não consigo tirar meus olhos dela. Preciso que ela fique bem.
— Eu olho por você — ele disse, baixo. — Preciso que você durma.
Ela finalmente se rendeu. Havia uma cama ao lado da Zoe, vazia, onde Rose se ajeitou para dormir. O impacto dos acontecimentos logo se expandiu pelo corpo cansado e ela dormiu mais rápido do que achou que faria.
Scorpius ficou ao lado de Zoe por noites inteiras, ora olhando para o lindo rosto dela, ora olhando para o vazio, para o nada. Ele seria pai de outra criança. Pensou no que Zoe diria quando soubesse. Acreditou que a notícia a faria muito contente. Isso o fez desejar mais do que nunca que a coisinha ficasse bem. Tal sentimento era tão forte que não deu espaço para suas preocupações da responsabilidade de ter outro filho.
O trabalho voltou a chamá-lo com Zoe ainda aos cuidados de enfermeiros, com frágil estabilidade na respiração e notícias de mais exames com rendimentos lento. Ela acordava poucas vezes e não falava muitas palavras, apenas assentia e negava com a cabeça. Seu reflexo não estava dos melhores, mas ela tinha boa percepção das coisas ao seu redor. Estava aparentemente calma para uma criança de oito anos, porém ainda muito confusa com tudo. Emily foi prestativa e se comprometeu a realizar as entrevistas necessárias com testemunhas em seu lugar na empresa, embora tivesse perdido o último julgamento, contra Rookwood. Apareceu algumas vezes, assim como Portia, para visitar Zoe, olhando-a pela janela. Scorpius ao seu lado estava tão exausto que não conseguiu se preocupar com Rookwood naquele momento.
— Ela está melhorando? — perguntou ao ex-namorado.
— Sim. Aos poucos. Só é estranho... vê-la tão quieta.
— Acha que ela se lembra de alguma coisa?
— Não entramos no assunto quando ela acorda.
— Eu não acredito que aquele Archner fez isso. Tentou sequestrá-la? Por quê? O que você fez a ele, Scorpius?
— Ele não gostava de mim.
Emily percebeu um tom diferente na voz de Scorpius. Ela o conhecia há tempo demais para dizer:
— Bem, eu odiei você por um longo período de tempo. Mas não quis que nenhuma coisa ruim lhe acontecesse, muito menos... muito menos com sua filha. Então não se sinta culpado. O problema foi Corey Archner. Ele não batia bem da cabeça.
Scorpius queria se convencer disso. Agradeceu por alguém finalmente falar em voz alta que não havia sido sua culpa.
Emily foi embora logo depois para voltar ao trabalho. Portia aparecia em alguns momentos, tanto para ver Zoe quanto para atualizar Scorpius de algumas coisas. Ela o lembrou de Michael e que ele precisava de sua defesa no dia seguinte.
Scorpius precisou ir ao banheiro para lavar o rosto e tirar o excesso de suas preocupações. Sentiu a água gélida o acalmar um pouco e ele tentou se recuperar dos últimos acontecimentos.
Não posso me distrair.
Ele precisou se lembrar do que seu avô faria em uma situação dessas. Ele tiraria todos os sentimentos dentro dele para poder se concentrar em apenas uma coisa: tribunais. Mesmo que sua filha estivesse passando por aquilo, as pessoas fora de seu círculo pessoal pouco se importavam. Claro que alguns tinham simpatia, mas o Juiz da corte não quer saber se você tem uma filha ou se ela foi sequestrada ou sofreu acidente de carro. Só quer saber como você iria apresentar sua defesa.
Michael estava desconfortável com a situação toda.
— Não pode mudar a data? — perguntara, pois ele também estava bastante distraído.
Porém, na manhã seguinte, Zoe acordou indicando novas melhoras.
— Mãe...
Era Scorpius quem estava por perto quando viu a filha acordando aos poucos, com o rosto todo contorcido. Podia ser de sono, de dor, de cansaço. Ele ficou aliviado que, pelo menos, ela mexeu o braço para coçar os olhos. Qualquer movimento do membro de seu corpo era um motivo para deixá-lo aliviado.
— Oi, coisinha. Rose está dormindo agora. Tem que falar baixo.
Aproximou-se para dar um beijinho na testa dela.
— Como está se sentindo?
— Bem — ela disse. — Estou com fome, papai...
— Ótimo. Vou chamar a enfermeira...
Não precisou chamar. A mulher apareceu na porta logo que Scorpius disse aquilo, sorrindo ao ver Zoe já disposta para comer. Scorpius a assistiu trocar os curativos na filha. Ficou tenso ao ver o forte hematoma nas costelas do corpo dela. Zoe chorou um pouco quando a enfermeira encostou levemente os dedos para saber onde estava doendo mais.
— Aqui ainda está bem machucado, mas acho que hoje podemos erguê-la um pouco. Você fala para mim se começar a doer, tá, Zoe?
Ela assentiu com a cabeça. Reclamou quando o dorso ficou inclinado em quase noventa graus em relação aos pés deitados. A enfermeira abriu um sorriso.
— Bem melhor do que ontem! Vou ajeitar a cama e trazer uma bandeja bem deliciosa de comida.
Zoe estava com tanta fome que não se importou com a comida do hospital. Aproveitou as bolachinhas e o iogurte. Até ofereceu uma para Scorpius, que, sorrindo, declinou.
— Cupcake sente sua falta lá em casa — ele disse.
Ela demorou um pouco para engolir a bolacha.
— Quero ir embora.
Foi difícil explicar para ela.
— Coisinha, você sofreu um acidente de carro muito feio. Machucou bastante. Então isso pode demorar um pouco ainda.
Ele a observou mastigando o último pedaço da bolacha silenciosamente. Scorpius ergueu o braço e tirou um pedaço da franjinha dela da testa. Ninguém além dele sabia o medo que teve de perdê-la. Zoe sentiu o carinho e fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, viu os de Scorpius.
— Papai... por que está assim?
— Você me assustou. E eu não quero perder você. Eu amo você.
— Mais do que o infinito?
— Um infinito gigante — garantiu. — Que não dá nem para medir.
— Eu também te amo.
Rose acordou nesse instante, levantando-se um tanto desnorteada por ver que Zoe finalmente estava sentada, comendo o que não comia há quase duas semanas direto. Ela a beijou no rosto e conteve a expressão preocupada, dizendo que estava feliz por vê-la melhor. Nenhum dos dois atreveu a perguntar alguma coisa sobre o ocorrido ainda.
— Eu preciso ir ao tribunal.
Rose não disse nada quando ouviu aquilo de Scorpius. Ela não queria mais ouvir falar sobre tribunais. Scorpius entendia o motivo. Nem ele estava com a cabeça para isso.
— Prometi a Michael. E Albus. Então...
Ele não queria ir. Queria ficar ali, com as duas. Aproveitar que Zoe estava acordada. Melhorando.
— Rose...
— Vá — ela disse. — Você não precisa de mim para dizer o que você tem que fazer. É seu trabalho.
E você está me odiando por isso agora.
— Não vou demorar — ele prometeu.
Beijou Zoe no rosto antes de recolher o paletó e sair, apressado.
***
Estava distraído no tribunal.
Suas perguntas foram rápidas para que ele não enrolasse tanto, mas se complicou quando o Juiz lhe fez uma pergunta e ele não estava prestando atenção. Teve que pedir para que repetisse a pergunta.
Albus assistia ao julgamento, muito tenso por ver que Scorpius estava tenso. Michael olhava constantemente para trás, para se certificar de que Albus ainda estivesse ali. Seu apoio foi indiscutível. Scorpius precisou respirar fundo, concentrar-se e lembrar o que precisava dizer para provar a inocência de Michael.
No entanto, a promotoria achou fotos comprometedoras e as expôs na tela da televisão. Fotos do passado de Michael, das festas, bebidas e baladas. Dos homens. Mesmo que não fossem provas de que Michael era assassino, o júri era influenciado por elas. Se alguém fosse homofóbico, Michael estava perdido.
— Mas isso é ridículo. Não existe prova alguma de que meu cliente é culpado com a apresentação dessas fotos. Não há sentido-
— Sr. Malfoy, abaixe o tom de voz.
— Só estou dizendo. Excelentíssimo — acrescentou sob o olhar do juiz. — Só estou dizendo que isso é manipulação.
— Isso é a verdade — contrapôs o outro advogado.
— A verdade? Você o conhece, por acaso? Olhe para a data dessas fotos!
— O ano em que ocorreu o assassinato. Não nos importa se o réu está arrependido ou não. Se mudou ou não. O que importa é o que ocorreu no ano do assassinato.
— Ele não o matou! — exclamou Scorpius, estressado. Sentiu o sangue ferver dentro de si. — Não há provas aqui de que ele fez alguma coisa além de ter uma noite com a vítima...
— Mas não há provas de que não fez alguma coisa depois de ter tido relações também.
— Qual seria o motivo dele? Um motivo justificável, vamos, me fale. A questão aqui é que vocês são preguiçosos. Encontram o primeiro suspeito que vê pela frente e já acha fácil apenas colocá-lo em uma sentença. Os fatos? Onde estão?
— Protesto.
— Protesta o caralho.
Michael xingou baixinho quando a corte fez um abrupto silêncio com a grosseria de Scorpius. Ele se arrependeu da atitude no segundo em que olhou para Michael.
Fodeu tudo.
— Eu não preciso pedir para que tenha modos em meu tribunal, preciso, sr. Malfoy?
Ele se recompôs e ajeitou o paletó, olhando para o Juiz.
— Peço minhas desculpas — disse com sinceridade. — Sem mais perguntas.
E sentou-se, apertando o rosto cansado de dor e exaustão.
Michael era um rapaz cheio de esperança, então ele disse para Scorpius:
— Vai ficar tudo bem.
Scorpius notou que ele não quis dizer apenas sobre o julgamento. Quis dizer sobre Zoe. O apoio que ele e Albus deram a Rose durante aqueles últimos dias fez Scorpius decidir que ele precisava se esforçar mais para tirar Michael dessa.
Sua última chance era conquistar o Júri. No discurso, falou sobre Michael e sobre Luke. Sobre responsabilidades e sobre ser pai. Falou sobre provas que não existiam e injustiças. Falou sobre pessoas piores. Pessoas ruins. E que Michael não era uma delas.
Foi preciso dez minutos apenas para o Júri decidir a sentença final. Uma mulher fez a leitura. E declarou:
— Inocente.
O alívio foi inexplicável.
Nem acreditou. Ele tinha se saído tão mal.
Michael o abraçou em agradecimento quando o julgamento se encerrou e depois fez o mesmo com Albus, acabando por beijá-lo nos lábios sem se importar que os advogados passando reparassem nisso. Scorpius recolheu suas coisas, conseguindo respirar melhor agora. Pelo menos isso deu certo.
***
Foi um mês muito difícil. Tenso. Zoe indicava melhoras, mas também apresentava alguns problemas que foram surgindo e preocupando os médicos. Scorpius pediu um tempo indefinido no trabalho apenas para passar o tempo necessário ao lado dela e de Rose, sem interrupções.
Rose precisou ser convencida por sua mãe para que voltasse e descansasse em sua casa. Zoe ainda ficaria no hospital, sarando dos ferimentos e tendo o cuidado da enfermeira simpática e do médico bonzinho. Eles estavam tratando sua filha com carinho, então não tinha o que temer, apenas desejar o melhor. Al e Dominique ficaram o tempo todo com ela, incluindo seus avós.
De volta ao apartamento sem a pequena Zoe, Scorpius observou em silêncio a preocupação de Rose quando ela tirou as roupas para tomar banho no banheiro deles e relaxar o corpo. Fechou os olhos e sentiu a água escorrendo contra seu rosto.
Não demorou muito e dois braços envolveram sua cintura por trás. A mão direita de Scorpius roçou a barriga dela e ele encostou os lábios no ombro dela, sussurrando:
— Estamos bem?
Ela não lhe respondeu em voz alta, mas fez um leve aceno afirmativo com a cabeça, que se apoiou ao peito de Scorpius.
— Odeio pensar que me culpa por tudo. Eu já me sinto culpado suficiente.
— Eu não te culpo.
Eles ficaram embaixo da água por um tempo indeterminado, silenciosos, temerosos, Rose segurando a mão dele sobre seu abdômen. Quando se afastaram, ela se enxugou e voltou para o quarto, trocar de roupa. Precisaria voltar ao hospital para passar a noite com Zoe ou a menina pensaria que havia sido abandonada.
Scorpius ficou perto do criado-mudo verificando alguma coisa por bastante tempo. Rose não questionou o que poderia ser, por isso foi surpreendida quando estava calçando o sapato, sentada à margem da cama, e Scorpius se agachou perto dela.
Dizem que quando você vai fazer aquele pedido, você tem que ficar de joelhos.
Quando Rose viu a caixinha aveludada nas mãos de Scorpius, ela entrou em choque. Ele não conseguiu perguntar nada. Somente abriu a caixa, mostrando o brilho do anel.
Scorpius sentou ao lado dela, olhando-a de frente, quando ele percebeu que ela estava contendo um choro. Ele tentou um leve sorriso e acariciou o rosto dela, enxugando a lágrima que caiu na bochecha.
— Vai se foder, Scorpius — ela declarou, de repente. Isso não o preocupou. De fato o fez rir.
— Isso é um sim?
— Isso é um "por que você demorou tanto"?
Ela enxugou o rosto bruscamente, como se estivesse com raiva por ficar chorando toda hora. Eram os hormônios. Ela estava grávida outra vez, afinal.
Scorpius ergueu a mão para colocar uma mecha do cabelo ruivo para trás de sua orelha. Disse baixinho:
— Eu decidi que não posso ficar enrolando você.
Ele segurou a mão dela. Rose aceitou que ele colocasse o anel em seu dedo, beijando levemente seu rosto. Depois direcionou os lábios até os dela, sentindo que Rose realmente queria isso. Eles se separaram, deixando fácil para que ela observasse o pequeno diamante do anel e ficasse ligeiramente encantada.
— É lindo.
— Ficou perfeito em você.
— Quando você...?
— Há um tempo. Eu ia pedir na festa.
Rose lembrou o quanto ele estava ansioso para levá-la a festa da empresa. Agora imaginou o motivo.
— Nada saiu como eu planejei. Ia ser mais romântico do que isso e...
— Ei, tudo bem — ela sussurrou, tranquilizando-o. — Não precisa ser romântico. Eu gosto do modo como você sabe me surpreender em momentos que nunca estou esperando. Tudo o que eu consigo pensar agora é no tanto de novidades que Zoe vai ter.
Essas novidades poderiam ajudá-la a melhorar bastante.
Era estranho como muita coisa podia acontecer em um pequeno período de tempo, embora para Scorpius e Rose os dias se passassem lentamente durante o tempo em que esperavam notícias significativas de Zoe. Ela fez várias sessões de raio-x, exames, passando por vários tipos de médicos, alguns chatos e outros legais, para no fim do mês o ortopedista confirmar lesão mais séria em uma costela, o que explicava a dor que ela sofria para respirar, tossir e até mesmo rir. Ela apresentou melhoras em outros problemas e essa foi a melhor notícia que receberam naquele mês tão intenso. Por um pouco de sorte ou talvez porque Zoe era a menina mais forte do mundo, a lesão não havia danificado nenhum outro órgão interno, então o tratamento poderia ser feito na própria casa.
— Nós já podemos pensar em liberá-la — garantiu o médico, sorrindo. Rose achou que estivesse tendo um sonho muito bom ao ouvir aquelas palavras. — Ela já parece bastante entediada por aqui.
Depois disso, Rose prestou atenção nos remédios e em todo o cuidado que deveria tomar para ajudar Zoe a curar a fratura e os outros ferimentos. Por ser criança, o cuidado deveria ser ainda maior. Se Zoe colaborasse em tomar remédios – coisa que ela odiava — as chances de melhorar em mais algumas semanas dentro de casa eram certas.
— Bom, nós vamos tirar você daqui logo — contou Rose a Zoe, na mesma tarde em que conversou com o médico sobre as condições dela. — Mas você tem que me prometer uma coisa. Uma coisa muito importante.
— O que, mamãe?
— Remédio. Você não vai poder reclamar, está bem? Não vai poder fugir e nem fazer birra quando tivermos que te dar alguns remédios.
Ela assentiu com a cabeça.
— Tá bom, eu prometo.
— Promessa do dedinho, então? É muito importante, Zoe. Precisamos que você fique cem por cento boa, tá bem? E os remédios são muito importantes.
— Uhum.
As duas cruzaram os dedos. Zoe se distraiu para a imagem de seu pai fora do quarto, que estava conversando com dois policiais no corredor.
— Por que têm policiais aqui?
Rose mediu a temperatura corporal de Zoe, pousando a palma de sua mão na testa. Ela não indicava febre alta.
— Querida, você se lembra do que aconteceu?
— Eu só sei que sofri um acidente de carro porque papai me contou.
— Isso é verdade, mas... você não estava com a gente. Alguém tentou tirar você do papai. Um homem muito ruim que não gostava dele. Você se lembra dele? Ele falou alguma coisa para você?
Ela negou com a cabeça. Rose não insistiu na conversa porque percebeu que Zoe ficou assustada. De repente os belos olhos cinzas se encheram de lágrimas.
— Por... por que alguém queria me tirar do papai?
— Os policiais estão investigando tudo isso. E se você nos contar o que lembra vai ser muito importante para descobrirmos.
Era muito doloroso ver Zoe chorar. Sempre foi. Rose se arrependeu por ter entrado no assunto.
— Desculpe, filha, eu não queria deixá-la assim.
Ela pegou a pequena mão de Zoe e a beijou, tentando tranquilizá-la. Zoe acalmou-se um pouco, olhando para a mão da mamãe que segurava a dela.
— Que anel bonito, mamãe. Eu nunca reparei nele antes.
— Oh, esse anel? Não é nada demais. Ganhei do seu pai há alguns dias.
— De aniversário?
— Não — ela explicou pacientemente. Retirou o anel do dedo e mostrou bem pertinho de Zoe. — Esse é um anel diferente dos outros.
— Parece anel de princesa... Quando o príncipe pede a princesa em casamento nos filmes, o anel é desse jeitinho...
— É mesmo, não é?
Rose conteve um riso, apenas observando Zoe admirar o anel em sua própria mão, sem fazer as contas. Ela não deixou de testá-lo em seu próprio dedinho, mas claro que ficou muito largo.
Finalmente ela entendeu.
— O papai te pediu em casamento?
Os olhos dela foram bastante expressivos. Um misto de surpresa e felicidade instantânea. O queixo dela até caiu um pouco. Rose fez que sim com a cabeça, sorrindo de orelha a orelha. Zoe encostou a cabeça em seu travesseiro e sussurrou:
— Isso parece um sonho. Não estou sonhando?
— Não. Isso é muito real. E sabe o que é mais real? Nós três voltaremos para casa juntos e tudo vai ficar bem.
Zoe reuniu força para erguer os braços e abraçar Rose. Ela fechou os olhinhos bem apertado. Rose a confortou com cuidado para não machucá-la, sentindo o calor mais bonito e mais gostoso que era de ter os braços de sua filha ao redor dela. Beijou-a no rosto, também querendo contar a outra novidade, mas sentiu que não era o momento ainda.
Scorpius entrou no quarto, vendo as duas abraçadas. Ele se aproximou contendo uma certa rigidez em sua postura.
— Eu contei a ela — disse Rose. — Na verdade, ela quem deduziu.
— Papai vai ser príncipe — sorriu Zoe.
Ele retribuiu o sorriso. Mas virou-se para Rose:
— Eu vou precisar sair. Já volto.
— O que aconteceu? — Rose estranhou o jeito como ele estava falando. O maxilar dele estava rígido. Ficava assim quando tinha raiva de alguma coisa. Ela cochichou: — Os policiais descobriram alguma coisa?
Scorpius não disse nada. Pegou o casaco atrás da porta do quarto. Irritada, Rose segurou o braço dele quando já estava saindo pelo corredor.
— Não vai me dizer qual é o problema?
— Eu preciso resolver uma coisa. Eu explico para você quando voltar.
— Não. Você vai me contar agora. Scorpius — ela teimou. — Não esconda nada de mim, por favor. Zoe é minha filha e eu preciso entender o que aconteceu com ela. Por favor.
Ele reuniu a respiração para dizer de uma vez:
— Corey estava seguindo ordens. Descobriram que a última ligação do celular dele foi para Rookwood. Ele não é um advogado de boa reputação e tem tentado me tirar da empresa, pegar os bens dela para ele mesmo. Ele provavelmente... iria usar Zoe para me manipular e com certeza conseguir o que quer.
— Isso é doentio!
— Eu preciso confirmar isso, Rose. Então vou falar com ele.
Rose notou a ênfase da palavra falar.
— Falar?
— Só falar. E vai ser rápido.
***
Foi rápido.
Scorpius descobriu por Portia que Rookwood estava em um julgamento no centro de Londres, não muito longe do hospital. Ele percorreu alguns quilômetros com o carro até chegar ao local. Deixou a chave com um manobrista e andou sem olhar para os lados.
Entrou na corte repleta de espectadores. Aparentemente Rookwood defendia um rapaz que assassinou um hacker por ter invadido sua conta em um game. Scorpius esperou cerca de dez minutos até a corte decidir que o rapaz era culpado. Rookwood apenas conseguiu diminuir sua sentença e ele saiu parecendo bastante satisfeito consigo mesmo.
Ambos se encontraram no corredor com advogados caminhando até a saída do prédio.
— Malfoy — ele disse, virando-se de frente para Scorpius. Reparou no olhar cansado e gelado do rapaz. — Como vai sua filha?
Scorpius segurou o nó da gravata do colarinho dele, levando-o até o banheiro masculino para empurrá-lo e apertá-lo contra a parede, com tanta raiva que não conseguiu pensar no que dizer. Rookwood ficou um tanto desnorteado pelo movimento brusco.
— Foi você. Corey estava trabalhando para você. O que você quer de mim? Vamos acabar logo com isso.
— Pediria para você me soltar primeiro, Scorpius. Não vai bater em um senhor de 67 anos, vai?
— O que você quer? — ele gritou, apertando o antebraço no pescoço de Rookwood.
A essa altura Scorpius não sabia o que ele era capaz de fazer, mas estava com muita raiva. Nunca sentiu tanta raiva de alguém em sua vida e o sentimento era de querer acabar com ele. Acabar com tudo o que ele tinha. Não sabia nem por onde começar. Seus dedos formigavam, obrigando-o a fechá-los.
Mas um advogado passou por eles no banheiro, interrompendo qualquer movimento que Scorpius pretendesse fazer contra Rookwood. Ele pensou em Zoe e no que ela ia achar se soubesse que seu pai bateu em alguém, independente do motivo. Você é melhor que isso, Scorpius.
Pareceu a voz de seu avô dentro de sua cabeça. Agressão não adiantaria nada.
Aos poucos, ele soltou o colarinho de Rookwood. Ambos se encararam por indeterminado tempo até que o outro advogado terminasse de urinar. Quando finalmente voltaram a ficar isolados no banheiro, Rookwood ajeitou o nó de sua gravata e disse:
— Ele queria trabalhar para mim, isso é verdade. Estava desiludido, inconformado e vivia ligando pedindo vagas. Estava desesperado aquele garoto.
— Ligando às dez horas da noite. Antes de sequestrar minha filha? Eles têm toda a ligação e toda a conversa que teve com você no celular.
Rookwood parecia bastante despreocupado.
— Corey fez o que fez por conta própria.
— Mentiroso do caralho.
— Eu posso, entretanto, denunciá-lo por agressão.
Scorpius ficou muito perto para dizer, baixo e contido:
— Você pode me ameaçar o quanto quiser. Você pode tentar manipular qualquer pessoa para me matar, para acabar com a minha carreira, a minha empresa e todos os meus casos, e sair ileso. Eu não me importo. Mas você machucou minha filha. Você usou minha filha. Ela só tem oito anos e passou quase um mês em uma cama de hospital. Você tem filha, Rookwood? Alguém da sua família?
Um sorriso cínico perpassou por Rookwood.
— Isso só me atrasaria.
— Vive só por você mesmo então. Como é que viveu por tanto tempo? Você devia ter muita inveja do meu avô. Muita. Ele era melhor do que você no tribunal e na vida.
— Ele não parece melhor agora.
Scorpius olhou para ele, calado. Então é isso o que você vira quando não há ninguém com você? Scorpius imaginou como teria sido a vida dele sem Zoe. Sem Rose. Vivendo só pelo trabalho, para se sobressair. Usando esquemas, pessoas e manipulando ações que poderiam ser fatais. Rookwood obviamente era um homem vazio.
O pensamento o deixou intrigado. Por alguns anos, Scorpius realmente se sentiu vazio e faria qualquer coisa para se sobressair nos tribunais. Mesmo jovem, ele já sofreu uma espécie de depressão que só a presença de alguém como Zoe foi capaz de jogá-lo de volta para a vida. De consertá-lo.
Rookwood nunca teve isso. E era tarde demais para ele.
Scorpius se afastou dele, como se não quisesse ser contaminado por tanta falta de vida.
Foi embora com a consciência limpa de que ele não chegaria ao ponto de ser um Rookwood. Decidiu que deveria apenas se preocupar com Zoe e Rose naquele momento, então voltou o mais rápido possível para o hospital. Pensaria em uma forma de incriminar Rookwood com mais clareza quando tudo estivesse voltando a se estabilizar. Com alívio, encontrou o quarto de Zoe barulhento de conversas e risadas. Albus, Michael, Luke e também o pequeno Ralph Thomas estavam lá. Zoe se exibia com as cicatrizes, dizendo que dessa vez o garoto não venceu ela.
De fato, a presença constante tanto da família de Rose quanto de Scorpius — Cissy lia histórias para ela — ajudou no tratamento de Zoe. Mesmo assim, era preciso olhar com cuidado para que não se enganassem. Zoe poderia estar indicando melhoras em sua saúde, mas o médico auxiliou que uma psicóloga conversasse com ela no final daquela tarde. Zoe saiu do quarto para conversar com a mulher em uma sala mais aconchegante, onde faria testes e responderia as perguntas, sem a presença dos pais.
Scorpius e Rose ficaram bastante curiosos, observando a filha pela parede de vidro. Ela estava sentada atrás de uma mesa, respondendo às perguntas e apontando para imagens que a psicóloga mostrava para ela. Zoe fez a mulher sorrir duas ou três vezes. Mas Scorpius reparou que ela não estava tagarelando como costumaria fazer.
Quando a consulta terminou, a mulher disse que Zoe estava em ótimas condições. Ela respondia e conversava normalmente. Não falou muito sobre o que lembrava na noite do acidente e se fechava para algumas perguntas mais pessoais. Ela repetiu milhares de vezes que não gostava de hospitais. De qualquer forma, as atitudes não eram preocupantes, mas a mulher disse que seria importante que Zoe recebesse apoio psicológico uma vez por mês. Afinal, ela havia sido sequestrada e evitar que ela crescesse com esse trauma era uma prioridade.
***
— É. Com certeza tem alguém aqui há um mês e meio.
A última vez que Rose fez um ultrassom foi há quase dez anos. Lembrava-se que Dominique estava com ela naquela manhã, dando-lhe muito apoio. Foi engraçado porque sua ginecologista tinha achado que as duas eram lésbicas.
Dessa vez Scorpius estava presente e ele fez até perguntas.
— Não, ainda é muito cedo para sabermos o sexo do bebê — respondeu a doutora. — Talvez em mais algumas semanas possamos tirar essa dúvida.
Eles observaram o monitor. Scorpius nunca seria capaz de enxergar um bebê entre as cores monocromáticas, mas tentou o seu melhor.
Quando a médica deixou os dois sozinhos, Scorpius olhou para Rose deitada na cama, com a blusa levantada o suficiente para aparecer seu abdômen. Ela sentiu a mão dele acariciando-a.
— Sabe uma coisa que eu me arrependo quando você estava grávida da Zoe? Não toquei em sua barriga.
— Você está bem? — ela perguntou baixinho. — Quero dizer, nunca falamos sobre termos outro filho.
— É meio assustador. Espero não foder tudo de novo.
— Eu também — Rose confessou.
— Você é uma ótima mãe. Desde o primeiro dia da Zoe.
— Sinto que deveria ter sido melhor com a gente.
— Te deixei com muita raiva.
— Eu também te machuquei.
— Você me consertou.
Ao ouvir isso, Rose ela sorriu e se ergueu para beijá-lo.
Ganharam a foto do ultrassom ao final da consulta. Rose chorou muito emocionada e ambos decidiram que contariam a Zoe quando ela estivesse de volta para a casa, em seu ambiente familiar. Ninguém mais, nem mesmo Albus, saberia antes dela.
***
Cupcake recebeu Zoe de volta ao apartamento tão agitado que quase a derrubou no chão quando se empoleirou em sua calça. Zoe passou o tempo todo abraçando o cãozinho. Não o soltou por nada. Quando Rose foi chamá-la para dormir, viu a filha já roncando com ele ao seu lado na cama. Delicadamente se aproximou para apagar a luz do abajur e dar boa noite para eles.
Scorpius e Rose foram para a cama mais tarde, mas estavam tão exaustos que dormiram rapidamente. Scorpius, porém, tinha o sono instável e na madrugada ouviu a voz de Zoe chamar por Rose, chorando. Ele a acordou imediatamente, mas quando Rose se levantou, precisou correr direto ao banheiro pela súbita vontade de vomitar.
Scorpius ficou preso entre ver se Zoe estava bem ou dar apoio a Rose, e acabou fazendo a escolha de ver porque Zoe estava chorando. Quando entrou no quarto dela, viu Zoe parada na cama, com dor na expressão e chorando muito. Olhava para o teto, como se estivesse com medo de se mover.
— O que foi, Zoe? — Ele andou depressa para perto de sua cama e tirou a coberta sobre o corpo dela quando notou que sua pele estava suando.
— O Cupcake subiu em cima de mim... e está doendo muito agora!
Ela apontou para a região das costelas. Scorpius se sentou na margem da cama e acariciou o rosto dela.
— A dor vai passar. Tenta parar de chorar um pouco, é isso o que está fazendo doer. Respira fundo. Olha pra mim, Zoe. Vai ficar tudo bem.
— Cadê a... mamãe?
Ela apareceu naquele instante, ainda desnorteada com sono e o rosto molhado de água.
— Querida. O que aconteceu?
— O Cupcake subiu no peito dela — contou Scorpius, notando que estava sendo difícil para Zoe dizer qualquer coisa. — Está doendo muito.
— Eu não quero voltar pro hospital! — ela disse desesperada.
— Você não vai, filha — respondeu Rose depressa. Ela era bastante calma. Caso contrário, Zoe teria piorado. — A dor vai passar. Vou pegar a compressa de gelo na cozinha.
Zoe era muito insensível com dores, então Scorpius não poderia imaginar o tipo de dor que ela estaria tendo para chorar tanto. Viu bastante a mesma cena nos primeiros dias do hospital. Ele tentou de tudo para tranquilizá-la e Zoe fez de tudo para parar de chorar ou sentir qualquer dor. Olhou para o rosto de Scorpius, fechou os olhos e tentou manter a calma sentindo a mão dele afastando seus cabelos do rosto.
— Foi um susto — disse Rose, aplicando a compressa de gelo sobre a região das costelas de Zoe. Demorou um tempinho até que Zoe parasse de tremer de dor e conseguisse respirar melhor. — Pronto... está tudo bem agora?
— Uhum... não foi culpa do Cupcake, tá...?
— Claro que não foi. Não achei que fosse. Mas, querida, é mais seguro que ele não durma em cima da sua cama por enquanto. Ele é um cão que só precisa pular nas pessoas.
Dessa vez Zoe fez uma careta de dor porque tentou rir do que Rose disse.
— Ele vai ficar chateado comigo... vai achar que eu não quero ficar com ele.
— Não vai ficar chateado não. Tenho certeza que ele vai entender perfeitamente. Não é verdade, Cup?
O cão fez um ronronado baixo, deitado em sua caminha no canto da parede.
— Como está se sentindo agora? — perguntou Scorpius, tenso. Era horrível vê-la daquela jeito.
— Melhor...
— Tente não se mover tanto, ok? — Rose pediu. — Eu sei que está sendo difícil, mas você é muito forte e conseguiu passar por muitas coisas. Logo você voltará a fazer suas estrelas e brincar. Só precisa de um pouco mais de paciência. Se recuperar não é fácil, mas você está sendo tão forte que está sarando mais rápido do que os médicos previram. Fiquei muito feliz que tomou todos os remédios que precisava hoje e comeu até os legumes. — Ajeitando o travesseiro na cabeça dela, Rose acrescentou baixinho: — Você será uma irmã incrível.
— Eu vou ser uma irmã incrível?
Rose e Scorpius se entreolharam, confirmando que poderiam finalmente contar.
— Sabendo que você realmente terá um irmãozinho ou irmãzinha daqui alguns meses, quem sabe isso te ajude a melhorar ainda mais. E principalmente a dormir bem, sem dor e sem nenhum pesadelo.
— Eu vou ter um irmãozinho? Quando?
— Considerando que estou grávida há algumas semanas, daqui uns oito meses.
Ela olhou bastante curiosa para seus pais.
Rose não se lembrava de quando soube que sua mãe estava grávida de Hugo. Scorpius nunca teve irmão então não sabia qual era a sensação de receber uma notícia dessas. Mas Zoe costumava dizer que seria muito legal ter uma irmã para brincar toda hora dentro de casa, então talvez sua surpresa e curiosidade tivesse a ver com a felicidade de saber que esse desejo finalmente poderia se realizar.
Zoe sorriu. Um sorriso grande e único, depois de tudo o que ela enfrentou no hospital, depois de todas as dores que ela não mereceu ter sentido. Ela pensou no futuro, pela primeira vez. E dormiu ansiosa para que oito meses se passassem rápido.
Na manhã seguinte, Zoe acordou e caminhou até a cozinha onde seus pais estavam se provocando com beijos. Incontáveis foram as vezes que ela já flagrou os dois aos beijos e os interrompeu de sabe-se lá o quê. Ralph Thomas costumava dizer que adultos se beijavam na boca toda hora e que isso era nojento. Mamãe nunca parecia achar isso nojento quando papai a beijava. Ela até sorria mais.
— Bom dia, coisinha — disse Scorpius, afastando-se de Rose perto do fogão para pegar um pouco de chá. Rose estava rindo, tirando um resquício de batom nos lábios de Scorpius.
— Acordou cedo hoje. Não conseguiu dormir muito bem depois?
A menina sentou na cadeira e apoiou a cabeça nas mãos. Curiosíssima. Pensativa.
Ela tinha refletido bastante sobre ter um irmão. Somado ao fato de sempre ver os pais tão juntinhos, ela finalmente teve a singela curiosidade e tirou a dúvida que a atormentava:
— Mamãe, como você ficou grávida?
Scorpius deixou o chá cair em sua camiseta branca quando começou a tossir engasgado.
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