Fix You
18 Sparks
Notas iniciais
Capítulo 18.: Sparks
"But I promise you this
I'll always look out for you
That's what I'll do..."
Quando Zoe nasceu, Rose sentiu sua agitação nos choros impossivelmente altos. A quantidade de vezes que Zoe fez Rose perder as horas de sonos, não somente com choradeiras, mas por preocupação também, era incontável. Não demorou muito e ela viu Zoe crescer para se tornar essa criança alegre, divertida, espalhafatosa, extrovertida, bondosa e carinhosa; feliz. Mas claro que tiveram momentos difíceis com a filha. Que criança não faz escândalo quando quer algum presente e a mãe não compra? Que criança não fica de birra só para conseguir o que quer? Que criança nunca fez alguma coisa errada, não por intenção, mas porque não sabia que era proibido fazer aquilo?
Na escola, pelas reuniões com a professora, Rose descobria ainda mais sobre Zoe. Ela era cercada de amiguinhos, tinha um ar confiante que atraía as outras crianças para fazerem coisas com e por ela. Uma vez Zoe foi chamada a diretoria porque duas garotas brigaram para disputarem quem ia fazer o trabalho em dupla com ela, e a professora tinha julgado que Zoe colocara lenha da fogueira, induzindo as duas garotas disputarem entre si. Zoe jurou a Rose que ela nunca fez nada daquilo e estava muito assustada com o fato de ter sido repreendida e de ter visto uma briga tão de perto.
– Eu só disse pra elas que eu escolheria uma delas para ser a minha dupla e então elas começaram a brigar – explicou Zoe, sentada no sofá da sala, ao lado de Rose. – Eu não achava que elas iam brigar! Você acredita em mim, mamãe?
– As pessoas entendem de outra maneira quando estão vendo de longe, filha, então você tem que sempre tomar cuidado com as coisas que você fala, tudo bem? Se você percebeu que as duas garotas já não se davam muito bem e estão sempre brigando, você deveria ter decidido outra dupla para você, ou pedido a sua professora para ela mesma escolher, ok?
– Eu vou ficar de castigo? – Zoe estava aflita.
– Você acha que merece ficar de castigo? Você acha que você fez alguma coisa errada?
Ela negou com a cabeça.
– Então não tem o que temer. Às vezes essas coisas acontecem pra gente aprender. E tem outra coisa... a professora escreveu na carta que você se recusou a se desculpar.
– Porque eu não fiz nada! – ela disse desesperada. – E o papai disse que a gente não precisa pedir desculpa se a gente não fez nada.
Rose ficou surpresa com essa resposta direta e decidida de Zoe. Reparou que Scorpius tinha muita influência na vida e nas características dela, apesar de ele não ter estado cem por cento presente, como Rose, na vida da filha.
– Mas você faltou o respeito com a professora quando se recusou a se desculpar? Você disse grosseiramente?
– Eu só disse que não foi minha culpa, mamãe. E eu não levantei a voz para ela.
Rose não pretendia e não era uma mãe que costumava passar a mão na cabeça dela. Mas tinha confiança de que sua filha estava dizendo a verdade. Zoe era tão sincera, desde sempre, tanto que nem era muito confortável ouvir a quantidade de coisas genuinamente verdadeiras que escapulia da boca dela.
Certa vez Zoe mentiu sobre ter escovado os dentes e a consciência dela ficou tão pesada que ela saiu da cama no meio da noite para ir de fininho até o banheiro. Ela estava subindo na tampa do vaso sanitário para alcançar a pasta de dente quando Rose a flagrou bem no ato, com o rosto amassado de sono. Ela pediu desculpas porque se sentiu culpada.
Zoe não era perfeita. Ela era a base da educação que Rose tentou dar a ela. Não era fácil ser mãe, muito menos moldar a personalidade perfeita de um filho. Quando engravidou, era despreparada, imatura e jovem. Zoe fora um susto que a forçou amadurecer para ser um exemplo digno. O exemplo que Hermione era para Rose, e sua avó Granger era para Hermione. Ela também não queria desfigurar as atitudes de Zoe, distanciando-a da figura paterna que Scorpius era. Zoe precisa de um pai. E era só ver o jeito que ela ficava quando via Scorpius atravessando a porta para buscá-la para um passeio, que Rose não tinha coragem de afastar Scorpius, mesmo sabendo que ele nunca foi a melhor pessoa, nem sequer o melhor exemplo do mundo.
Todas as coisas que Scorpius não fez pela Zoe, foram consequencias das atitudes dele. Foi devido a falta de esforço que Scorpius teve para ter Zoe por perto.
Mas ele estava querendo mudar isso agora.
Teve mais certeza disso quando, no começo do mês de abril, ela precisou ir para Paris, uma urgência de trabalho e não foi possível levar Zoe. Ela ficou fora por quatro dias. Poderia ter deixado a filha com os avós, mas Scorpius tinha finalizado alguns pro-bonos da semana e sua agenda não estava cheia naqueles dias. No final de semana, Scorpius levou Zoe para viajar. E Zoe ficou tão esgotada que, nos outros dias, ela não teve pique para outras atividades que Scorpius tinha combinado, como visitar os parques, museus, teatros, porque Zoe ficou doente.
Tão gripada que ela não conseguiu dormir durante a noite. A filha não parou de resmungar, se queixar de dor no peito e a tosse dela estava ficando cada vez mais alta, rouca, impedindo Scorpius de também conseguir pregar no sono. Preocupado por ver Zoe tão desanimada, deitada na cama encolhida na coberta de frio e doente, ele ligou para Rose.
– Você mediu a temperatura dela?
– 39º graus. É muito, não é?
Rose calou-se, preocupada.
– Escute... eu só vou poder voltar amanhã. Você tem que ligar para o pediatra dela. Vou te passar o número por mensagem. Você tem que tentar levar ela agora; Zoe é muito sensível com febre... vai precisar de remédios.
Scorpius foi até Zoe. A essa altura ele já tinha deixado a filha deitar na espaçosa cama dele.
– Coisinha, você faz um esforço para irmos até o carro? Preciso te levar ao médico agora.
– Não... médico não, papai.
– Você precisa.
– Não. – Tossiu. – Eu não gosto de médico...
– Vem cá.
Ele tentou levantá-la, mas Zoe tirou o peso do corpo e ficou imensamente pesada. Tirou a mão de Scorpius, nervosa.
O que eu faço? O que eu faço?
Insistiu, coisa que nunca se sentia confortável fazendo, mas naquele momento não se viu com outra opção. Zoe acabou não tendo forças para impedi-lo de carregá-la depois de alguns minutos. Ele pegou a chave do carro, abasteceu o Cupcake com ração pois não sabia que horas iria voltar. E depois desceu o elevador com Zoe meio que se arrastando ao seu lado, segurando sua mão. Preocupado, colocou ela no carro, apertando o cinto.
Esperou no consultório pelo atendimento por cerca de uma hora. Estava ficando irritado, impaciente, principalmente depois que Zoe voltou a resmungar de dor, mas antes que começasse a perder a cabeça, a assistente chamou. O médico fez alguns exames corriqueiros em Zoe, como medir a temperatura, a pressão, reflexo, febre, verificar onde ela estava sentindo dor. Scorpius, sentado na cadeira, observou a filha apertar o peito, mostrando onde sentia mais dor. O médico sentiu o batimento cardíaco dela, pedindo para ela inspirar. Zoe inspirou. Porém, quando foi expirar lentamente, ela voltou a tossir.
O pediatra afastou o estetoscópio e ajudou Zoe a voltar a ficar em pé no chão. Conseguiu arrancar um leve sorriso do rosto de Zoe quando entregou a ela um bombom de chocolate.
– O seu preferido. Agora você vai acompanhar a enfermeira que também chama Zoe para um exame bem importante. Não precisa ter medo, tá bom? Ela é muito legal.
Por sorte, Zoe foi com a cara da enfermeira simpática e saiu da sala segurando a mão dela.
Scorpius ficou na mesma sala com o pediatra para receber a notícia de que Zoe estava com sintomas de pneumonia. Explicou que podia se agravar se não fosse tratado. Explicou milhares de outras coisas. Scorpius tentou com muito afinco prestar atenção em tudo, entender tudo, as medicações, o que deveria comprar, como deveria agir para fazer Zoe sarar.
– Como? – ele se ouviu perguntando. – Como ela... pegou isso? Ela estava saudável até dois dias atrás... ela estava ótima.
– Pode ser vários motivos. Ela pode ter entrado em contato com alguma outra criança. Na própria escolinha dela, é muito possível que outras pessoas também estejam doentes. Um outro motivo bastante comum é o contato com fumantes. Tem algum na família?
Scorpius sentiu que ele podia se odiar completamente agora.
– Eu. Mas eu me certifico de nunca fumar na frente ou sequer perto dela.
– O cheiro impregna – explicou o médico. – Pode não ser perceptível para você ou para os adultos, mas a criança é complemente sensível a isso.
– Merda – ele se lamentou, passando a mão nos cabelos. – Merda. A culpa é minha?
– Pode ser qualquer outra coisa, sr. Malfoy. Mas eu sugiro que tente quebrar esse hábito, para a saúde dela. Fumante passivo pode ser ainda mais prejudicado do que fumante ativo.
– Estou tentando – ele disse. – Ela vai ficar bem?
– Você a trouxe a tempo. Não esperou piorar.
– Pode ficar ainda pior?
Por que aquele maldito vírus estava fazendo isso?
Zoe voltou para a sala com a assistente. A jovem trazia um envelope que continha os resultados dos exames. O médico analisou e entregou a Scorpius o envelope.
– Ela vai ficar bem, sr. Malfoy. É seguir corretamente com o tratamento diário. E aqui estão as explicações...
Ele passou os últimos minutos prestando atenção naquilo. Um alívio enorme inundou seu corpo. Não estava grave. E Scorpius ficou ainda mais aliviado por dizer essa notícia a Rose pelo celular, que obviamente estava fervendo de preocupação em Paris.
– Eu já estou voltando – ouviu a voz agitada dela. – Não consegui ficar aqui só imaginando, precisei pegar o primeiro avião para a Inglaterra quando disse que ela estava ruim. E agora me diz que é pneumonia? Passa o telefone para ela, Scorpius? Preciso falar com ela.
De volta para o aconchegante conforto do apartamento de Scorpius, Zoe estava deitada na cama dele, mas ainda não estava dormindo. A tosse não deixava. Ele entregou o celular para Zoe, murmurando que era Rose.
– Oi mamãe...
– Querida, estou voltando para ficar com você.
– Tudo bem... o meu papai está cuidando de mim.
– Ele está fazendo um bom trabalho?
– Sim...
– Que bom, filha. Desculpa não estar aí.
– Você trouxe brinquedo pra mim?
Rose riu pelo telefone.
– Eu preocupada com você, e você só pensando no seu brinquedo? Mas claro que comprei alguma coisa pra você. Roupinhas novas. E um lindo vestido indicado pela sua tia Domi.
– Eu te amo, mamãe – ela sussurrou, depois de tossir um pouquinho.
– Eu te amo mais. Estou com saudades. Agora dorme um pouquinho, tenta fazer isso, e de manhã estou aí voltando a te mandar escovar os dentes. Por falar nisso, escovou?
Depois de confirmado, as duas desligaram os celulares. Zoe piscava os olhos, e bocejou, olhando para Scorpius sentado na margem da cama.
– Dorme um pouco, coisinha. A dor vai passar.
Ela se sentiu protegida. Scorpius nunca tinha ficado com ela quando Zoe estava doente antes, e ela gostou que ele não estivesse longe dessa vez. O remédio que ele deu a ela a aliviou da tosse e ela dormiu enquanto aplicava a inalação.
Scorpius, na sacada, ficou olhando para o maço de cigarro com desprezo. Ele odiava o vício, e era mais forte que ele. Prometeu tantas vezes a si mesmo que pararia, mas nunca conseguia de verdade. Segurou um dos cigarros entre os dedos. Iria fumar o seu último.
Mas decidiu que isso era conversa fiada. Decidiu que não seria o último se ele fumasse. Jogou o maço no lixo e triturou o lixo. Precisou se livrar daquilo depressa ou não conseguiria. Claro que ele teria que se segurar para não comprar outro. E teria que se acostumar a criar outros vícios para suprirem a necessidade que ele tinha adquirido desde que sua mãe morrera, de tirar o maço do bolso interno do paletó.
O isqueiro prateado com a gravura de uma cobra era um dos objetos preferidos de Scorpius. Ficou abrindo e fechando por vários minutos, observando a pequena chama se revelar. Estava tão exausto que, quando se deu conta, fora acordado com o barulho do interfone. Eram apenas seis da manhã. Rose tinha acabado de chegar de Paris. Deveria estar exausta, mas quando Scorpius abriu a porta, a única coisa que Rose precisava saber era:
– Como ela está?
– Dormindo. Acorda algumas vezes, mas dormiu melhor que ontem.
– Isso é um bom sinal. Ela está no quarto?
Ele a acompanhou até o quarto dele, onde Zoe estava dormindo, com Cupcake encolhido no travesseiro ao lado, sempre dando suporte para a pequenina dona dele.
Rose se agachou a altura do rosto de Zoe e beijou sua bochecha. Não pretendia acordá-la, mas o sono da filha provavelmente estava muito instável, então ela abriu os olhos lentamente quando sentiu a aproximação de alguém.
– Pode continuar dormindo – Rose cochichou. – Está se sentindo melhor? O papai está cuidando bem de você?
– Sim... e eu ganhei um bombom... – Zoe tinha dormido com o bombom e quando foi mostrar a mãe, percebeu que agora estava amassado. Rose riu.
– Por que não guardou na geladeira? Ele não amassaria.
Ela não respondeu, mas voltou a tossir. Rose foi até Scorpius, e ele lhe entregou os papeis que recebeu do médico. Rose sentou no sofá, para ler e entender como seria o tratamento.
Eles estavam sentados um do lado do outro, bem próximos. Era possível notar a inquietação na expressão de Rose, mesmo ela tentando não aparentar tanto. Mas ambos sabiam que pneumonia não era para ser tratado como algo banal, uma gripe corriqueira, especialmente quando se alastrava no corpo frágil e sensível que era o de uma criança.
Rose se culpava.
– Foi a primeira vez, sabe? Quatro dias fora e achei que ela ficaria bem. Achei que não teria problema me afastar...
– Você nunca saberia. Ela vai ficar bem – disse Scorpius.
O braço involuntariamente se levantou, para pousar nas costas dela. Não ficou confiante de que ela se sentisse melhor só com um toque da mão dele, mas naquele momento, tudo o que Scorpius quis transmitir foi apoio. Pela filha deles.
Rose não se afastou, o tecido da blusa não bloqueava o calor da mão dele na região de sua coluna.
– Obrigada – ela disse de repente. – Por estar com ela.
Ele a olhou incrédulo.
– Obrigada? Você não tem que me agradecer por nada, Rose. Eu sou o pai dela.
Ela passou a mão no rosto, indicando sinais de cansaço e exaustão pela correria. Scorpius sabia o que uma viagem podia causar com sua energia, então disse:
– Vou preparar um café.
Rose ficou sozinha na sala do ex-namorado. Pela primeira vez desde que viu o lugar, ela começou a reparar nos detalhes do aposento. Os móveis eram de última geração, impecáveis como se não fizessem uso deles, apenas estavam lá por motivos de decoração. Alguns brinquedos se espalhavam pelo tapete, indicando a presença marcada por Zoe e o Cupcake. Teve certeza de que alguns dos brinquedos foram presentes de Scorpius, pois não se lembrava de ter comprado algum deles para a filha. A pintura que Zoe fez de Natal para Scorpius estava pregada na parede que dividia a sala e a sacada. Era a única arte do lugar.
Ela se ergueu do sofá e atravessou a porta de vidro, observando a vista da cidade pela sacada. Sempre soube que Scorpius tinha uma vida aproveitável, com o dinheiro. Mas ela não o invejava, de fato.
Estava ventando um pouco, então foi com certo alívio que viu Scorpius se adiantando para entregar a ela uma xícara de um café quente e adocicado, que agradou seu paladar. Scorpius também tinha uma xícara para ele, mas quase vomitou quando deu o primeiro gole.
– Que nojo. Você gostou disso?
– Está gostoso – admitiu.
– Argh. Horroroso. Você e seu gosto esquisito.
Ela juntou as mãos na xícara e a levou para os lábios novamente, a fim de tampar o sorriso que abriu. Ergueu os olhos para Scorpius e, mais uma vez, eles pensaram na mesma coisa quando se encararam. Era o que estava acontecendo ultimamente. Nenhuma lembrança de quando eles estavam juntos há vários anos; mas do último beijo que deram, e das palavras que Scorpius disse a ela depois de tudo.
Não tenho sido nada sem você. Muito menos um pai.
Rose desafiou Scorpius a encarar seus olhos. Ele estava muito próximo, quase encostando o corpo ao dela, e aceitou o desafio. Um tempinho depois, justamente quando Scorpius ia dizer alguma coisa, os dois foram interrompidos pela voz de Zoe:
– Mããe...
Eles deram um passo para trás, cada um, quando a pequenina, com seu pijama de estampas quadradinhas e o Cupcake logo atrás dela, caminhava em direção a sacada.
Rose se adiantou depressa.
– Está ventando muito agora, querida, tem que ficar no quentinho da cama por um tempo.
– Não consigo dormir. Minha cabeça dói...
– É o sono, você mal dormiu essa noite.
Ela deu meia-volta para voltar à sala, acompanhando Rose até o sofá. Scorpius fechou os vidros e as cortinas e olhou para as duas quando elas se abraçaram.
Quando Zoe ficava doente, era a mãe que nunca deixava de lhe enviar o conforto dos braços. E Zoe precisava muito de Rose por perto quando sentia dores, independente do grau da febre.
Scorpius se acostumou, nos anos anteriores, a receber apenas a notícia de que ela estava melhorando quando Zoe ficava doente. Ele se preocupava com a filha desde o nascimento, mas raramente observou de perto como era vê-la indisposta para brincar e comer. Foi uma sensação preocupante, mesclada a ansiedade de ver sua Zoe de sempre voltando a ficar bem.
Foram dias difíceis para os três. Rose não se demonstrou cem por cento experiente no tratamento de sua filha. Hora ou outra, Rose conversava com o pediatra pelo celular ou com sua própria mãe Hermione, pedindo por alguma dica, ajuda, qualquer coisa. As ligações de Scorpius para saber se Zoe estava bem eram mais constantes, mas isso não significou que Scorpius tivesse deixado de visitá-la também, para saber como ela estava indo, depois do almoço na firma ou depois de um caso vencido no tribunal.
Até o final da semana, Rose dava a notícia a Albus pelo celular, enquanto Zoe e Scorpius conversavam na sala:
– Al, ela está melhorando.
– Ufa, eu tava ficando preocupado. Estava olhando aqui no Google sobre pneumonia e...
– Eu sei, podia ter sido grave, mas ela tá voltando a brincar mais, e tá respirando melhor. Ela precisa fazer mais alguns exames e outro raio-x, para termos certeza de que ela sarou.
– Já to com saudades da pequena. E ela deve estar se perguntando onde o tio Albus se meteu com a espada para matar os vírus gigantes circulando por ela.
Rose sorriu.
– Ela estava realmente se perguntando. Mas você sabe que ela não é nenhuma donzela, sabe?
– Ela é guerreira.
– Uma Buffy.
– Totalmente. Começando por ser loira, está no caminho certo. Preciso colocar horas extras no dia para conseguir ver vocês duas de novo. E eu tenho uma novidade.
– O que é?
Ele demorou um pouquinho.
– Conheci esse cara. Ele não é mais bonito do que eu. E ele vota no Capitão America para ser o melhor Vingador.
Rose traduziu:
– Ele é perfeito, Al! Pra você, porque o Thor é o melhor.
– Só tem um problema.
– Sempre – suspirou chateada. – Qual é a bagagem dessa vez?
– Ele tem esse filho.
– Não fala uma coisa dessas.
– De dois anos.
– Você tá perdido, Al.
– O que eu faço?
– Acha que vale a pena?
– Os dois foram como Darth Vader e Luke Skywalker na Comic-Con, Rose. Eu vou te mandar a foto que eu tirei dos dois.
Ele mandou a foto. Rose fez uma expressão exasperada, soltando um riso, quando leu a legenda. “Luke, eu sou seu pai.” Aquele cara foi feito para o Albus.
Alguma coisa pareceu ter caído na cabeça de Rose nesse momento. Uma ideia que nunca tinha passado na cabeça dela antes. Lembrou-se de como Al sempre se deu bem com crianças e precisou perguntar.
– Albus, você quer ter filhos?
– Eu?
– Sim. Você tem vontade? Eu vejo isso quando você está com uma criança. Com a Zoe, principalmente. Você leva jeito.
– Eu sou gay, esqueceu? Vai contra todos os princípios. Nossa família não deixa esquecer.
Ignorou o primo para dizer baixinho:
– Apoio você, Al. Se um dia quiser ter uma família, existem vários jeitos para isso. Você pode adotar.
– Credo, Rose, não vamos entrar nesse assunto muito sério não. Eu tenho só vinte e sete anos. Quero curtir minha vida.
– Ah. Então o Darth Vader vai ser uma decisão errada, Al. Não entre na vida dos dois se você só pretender curtir o momento com esse cara. Eu sei do que eu estou falando. Ele é pai. Com certeza não quer só um rolo. Ele tem uma responsabilidade maior, e só ficar de sexo é uma perda de tempo para ele.
– Acho que tem razão. É melhor terminar antes de começar alguma coisa, então. Não vai ser fácil, eu adorei o garotinho.
– E quando é fácil, né?
– Valeu, Rose. Nos falamos melhor no fim de semana. Manda melhoras pra Zoe.
– E se comporta – ela mandou antes de desligar.
Apoiou distraidamente o celular no queixo, pensativa. Olhou para sua própria sala, onde Scorpius estava sentado no sofá com Zoe. Ele a ensinava como fazer o nó na gravata de seu pescoço, mostrando cada passo. Ela ficava, em cada movimento, perguntando:
– Assim?
– Isso.
– Agora assim?
– Do lado esquerdo para o direito.
Zoe fez uma careta quando esqueceu qual era o próximo passo. Ela era muito crítica com ela mesma e ficava se condenando por não conseguir, mas Scorpius a fez parar, respirar e continuar.
– Falta só mais um passo.
– Ah! Lembrei. Assim... – Muito concentrada, Zoe criou o nó do tecido. Scorpius sorriu e abaixou a gola da camisa branca, elegantemente.
– Perfeito, Zoe.
– Consegui! – Ela jogou as mãos para cima. – Mamãe, aprendi a fazer o nó da gravata!
– Eu vi, muito bom – elogiou Rose, sorrindo.
Foi a primeira vez que Scorpius ensinou a filha algo que Rose nunca conseguiu ensinar. Zoe acompanhou com os olhos Scorpius se levantar do sofá e pegar o paletó no encosto da cadeira da mesa, já acostumado a ver o pai precisar ir embora. Jogando-o por cima do ombro para vesti-lo, disse a Zoe:
– Depois eu te ensino a fazer o mais difícil. Tá se sentindo melhor?
– Uhum!
– Ótimo – sorriu, acariciando a maçã do rosto dela. E virou-se para Rose. – Você me liga? Pra me atualizar dos exames dela?
– Claro. Sim.
Tanto ela quanto Zoe observou as costas dele, desaparecendo pela porta. Rose demorou mais para desviar os olhos, e quando desviou, viu que Zoe olhava para ela.
– O papai está diferente.
– É? – Rose se admirou por Zoe reparar em tal coisa. – Por que você acha isso?
Ela ergueu os ombros.
– Ele fica legal de barba.
Rose não deixou de rir com essa resposta menos complexa.
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