Fix You

19 Shiver


Notas iniciais
Com o título de uma das minhas favoritas do Coldplay, queria agradecer a todos pelos comentários. Eu espero que gostem desse capítulo :) Boa leitura!

Capítulo 19.: Shiver

"So you know how much I need you,
But you never even see me do you?
And is this my final chance of getting you?..."

Depois que Zoe sarou cem por cento da sua pneumonia, o pediatra deu a permissão para ela voltar a passear e, depois de tanto tempo trancada em casa com dores, sem apetite, nada mais foi justo do que levar a Zoe para ver os leões no zoológico. Rose esperou a filha acompanhar o grupo de crianças na expedição para contar a Albus quando ficaram sozinhos, passeando em frente às jaulas de gorilas.

– Scorpius me beijou, há alguns dias.

Albus olhou para ela do jeitinho que ela estava esperando. Mas de todo o sermão que ele poderia ter feito, apenas disse:

– Eu só não quero te ver magoada, Rosie. Não suportaria de novo.

– Eu sei, Al – ela suspirou para a preocupação singela dele. – Mas não é como se fosse acontecer de novo. Foi só uma recaída.

– Só uma? – ele questionou, apoiando o braço no ombro dela. – Só uma mesmo?

– Só uma.

Ele olhou para uma família que estava passando perto deles.

– Eu não vou te julgar, eu sei o que é isso. Eu já tive recaídas, por exemplo, ontem... – ele diminuiu o tom da voz como se ele também se sentisse culpado – quando passei a tarde com o Darth Vader e Luke Skywalker. Não me julgue.

– Achei que você quisesse curtir os seus vinte e sete anos, Al. – Mas Rose estava dando um pequeno sorriso, quase até orgulhoso, pois Albus acrescentou:

– Bem, talvez eu queira. Talvez eu queira curtir a minha vida com alguém legal. Posso isso, não posso?

Deve.

Nesse mesmo momento, Zoe se aproximou com a turma de crianças e interrompeu a conversa dos dois. Ela estava usando a camiseta do zoológico e, como sempre, exalava notícias:

– Tio Al, eu vi um leão. Ele é ENORME. Maior do que eu pensava! E depois ele abriu a boca dele, do tamanho da minha cabeça. A moça disse que ele estava bocejando!

– Cuidado para ele não te engolir, Zoe!

A menina riu quando Albus se aproximou dela para segurá-la e apoiá-la em cima do ombro. Ela segurou a cabeça dele para não cair para trás e, durante a visita, Al levou ela nos ombros, ao lado de Rose. Caminharam por todo o perímetro do local, conhecendo e admirando os animais, Zoe sempre tentando se comunicar com eles através de caretas e sons com a boca. Foi uma tarde gostosa até se despedirem de Albus.

De volta para a casa, enquanto ajudava Zoe a guardar os brindes que ganharam, olhou para o número registrado de duas ligações perdidas de Scorpius.

Ela ligou para ele de volta, rodeando a sala.

– Oi – ela disse quando ouviu a voz dele. – Aconteceu alguma coisa? Duas ligações perdidas suas.

Não – respondeu ele. – Não aconteceu nada. Acabei de sair de um tribunal, perdi o caso.

– Isso é uma notícia boa?

Scorpius riu.

Ele era inocente. Mas o investigador do outro advogado foi melhor dessa vez. Rose – calou-se um tempinho, e ela esperou. – Eu estou com meu tempo livre o resto do dia. Não quer tomar um café ou... não sei, jantar mais tarde? Você e a Zoe.

– Zoe vai ter uma festa de pijama hoje na casa da Amanda. A primeira festa. Está empolgada, mas vou perguntar para ela. Zoe, seu pai está te chamando para jantar fora.

– Ai, mamãe. Mas hoje eu vou dormir na casa da Amanda – ela exclamou obviamente aflita por precisar fazer duas decisões. Tinha passado a semana inteira só falando de dormir na casa da amiguinha, mas ela não queria negar ou perder oportunidade de ficar com Scorpius também. Teve uma decisão melhor: – Deixa eu falar com ele?

Rose entregou o celular na mão da filha. Zoe falou num só fôlego:

– Pai, eu vou jantar com você. Eu posso falar pra Amanda que eu não posso dormir na casa dela hoje e-

Calma aí, coisinha. Não precisa cancelar. Que horas você vai na casa da sua amiga?

– Que horas eu vou, mamãe? Oito horas, papai.

Oito horas? Então jantamos sete horas para dar tempo de você ir a sua festa de pijama, o que acha?

– Vai dar tempo? – ela perguntou preocupada. – Eu não quero ficar sem ver você mas eu não quero faltar da festa, a Amanda vai ficar magoada se eu não for...

Dá tempo de fazer as duas coisas, não se preocupe.

– A mamãe também vai? – E olhou esperançosa para a mãe ao seu lado.

Estou chamando ela também. – Scorpius também sorria por trás do celular. – Nos vemos mais tarde, então?

– Tá bom! Tchau, papai. Eu tenho que tomar banho agora. – E bufou, como se isso fosse fazê-la perder tempo. – Mamãe está mandando.

Então obedece ela. Passo aí para pegar vocês em algumas horas.

Ele desligou o celular, agitado com as últimas papeladas do dia na mesa da sala da firma. Era sempre correria perder casos, um dos motivos de sempre odiar perder, mas naquele dia, as coisas correram mais tranquilamente. Verificou o relógio do pulso e guardou suas coisas, vendo-se ansioso.

***

Zoe corria pela casa desesperada a procura do seu gorro preferido rosa. Rose estava no quarto da garotinha arrumando a pequena mala de roupas dela. Juntava duas blusas e um vestido, o pijama e meias.

– Onde tá a minha toca, Rose?

Por dois segundos achou que sua filha tinha crescido uns dez anos.

– Eu tive que lavar ela, Zoe, ou você começaria a criar piolhos. Por que tem que ficar me chamando de Rose, afinal de contas? – perguntou rindo com exasperação para a nova mania de Zoe.

– Porque seu nome é Rose.

– Eu sou mãe, esqueceu?

– Eu sei, Rose.

Zoe entrou desfilando com o lindo vestido novo que ganhara da sua avó Hermione no aniversário. Girou como uma bailarina e se olhou no espelho.

– Eu to linda, né, mamãe?

– Não era Rose? – provocou. Zoe fez careta. Rose retrucou com uma mais feia ainda. As duas riram. – E então... – começou enquanto colocava uma nova fronha em seu travesseiro. – Tem certeza de que quer fazer isso?

– Tenho.

– Mais uma noite sem a mamãe, hein.

– Oh! – Ela pousou a mão na testa, fingindo desmaiar na cama, dramaticamente, resultado das primeiras aulas de teatro que estava tendo. – Como sobreviverei?

Rose riu, apertando o nariz dela. Terminava de ajeitar as coisas dela em cima da cama. Não havia discussões sobre como Zoe ficou empolgada por estar indo a sua primeira festa de pijama. Rose sempre tinha um pequeno grau de preocupação quando ficava uma noite sem vê-la. Mas a família de Amanda era muito boa. Rose se lembrava de quando era amiga da mãe dela, no colegial. Os tempos mudaram, mas as duas ainda mantinham um contato que foi reatado quando as filhas fizeram amizade.

Zoe ficou esperando para jantar com Scorpius, sentada na sala e vendo televisão. Enquanto isso, Rose tomava banho, distraída e, como sempre, lembranças atormentando seus pensamentos, a ponto de fazê-la esquecer a água jorrando por seus ombros e apenas relaxar. Ela ficou se perguntando por que eles jantariam. Qual era a ocasião especial para aceitar um jantar com Scorpius?

É o aniversário dele.

É a merda do aniversário dele!

Ela desligou o chuveiro depressa, como se tivesse levado um choque. Meio que se xingando, saiu pela sala com a toalha, e perguntou para Zoe.

– Que dia é hoje?

– Vinte e seis – respondeu Zoe sem tirar os olhos da TV.

– Oh merda. Quero dizer, caramba. É aniversário do seu pai.

– Sim! – ela concordou.

– Você sabia?

– Uhum. Eu tenho no meu caderno de escola. A professora pediu para escrever sobre todo mundo da família, e eu perguntei pro papai o dia que ele faz aniversário e é hoje mesmo.

– Vai dar algum presente para ele?

– Sim! O meu bonequinho de algodão que eu fiz na aula de artes.

Rose acabou sorrindo fraquinho quando Zoe mostrou a ela o bonequinho. Tinha uma gravata no pescoço do bonequinho, como sempre. O sorriso dela sumiu aos poucos, quando se olhou no reflexo do espelho do quarto. Virou-se para o armário e abriu a porta com um movimento, deparando-se com suas roupas normais. Não tinha o que vestir.

Ou eram roupas muito casuais.

Ou eram roupas muito formais.

Cogitou em ligar para Dominique e perguntar se havia coleção de roupas para jantar com o ex-namorado. Por fim, acabou na dúvida entre dois vestidos parecidos. Ficou tão na dúvida que, ainda com a toalha, saiu do quarto para perguntar a própria filha de sete anos:

– Qual fica mais bonito na mamãe?

– O azul.

Como Rose estava olhando para o vestido, assustou-se ao ouvir a voz de Scorpius. Ele estava sorrindo, segurando o bonequinho da Zoe, sentado no sofá. Por quanto tempo Rose ficou escolhendo roupa e nem reparou que Scorpius tinha aparecido? Rose teve a única reação que conseguiu ter. Olhou brava para a filha. Não era a primeira vez que Rose era surpreendida com a presença de Scorpius, quando usava uma toalha. Zoe não tinha nem ideia do quão constrangedor era.

– Quantas vezes eu já falei para você não abrir a porta sem a minha permissão, Zoe?

– Tudo bem, mamãe, era só o papai!

– Como é que você saberia?

– Ele disse quando eu perguntei.

– Não faça mais isso. – E finalmente olhou para Scorpius. Pensou em falar alguma coisa, que ia se trocar ou algo assim, mas apenas abriu a boca e fechou, como um peixe fora d’agua. E voltou para o quarto.

Vestiu o azul rapidamente. Não demorou na maquiagem. Pegou a bolsa, tirou o celular do carregador e foi até a sala novamente. Scorpius estava sentado com a Zoe, mostrando fotos do Cupcake no celular.

– ... e olha o que ele fez com o meu travesseiro.

Zoe arregalou os olhos para a foto do celular.

– E com o meu sofá.

– Ele fez muita bagunça – riu Zoe.

Os dois reparam que Rose já estava pronta. Scorpius se levantou, mas a Zoe foi mais rápida:

– Você tá linda, mãe!

Rose não teve certeza se isso era um bom sinal. Ela não tinha intenção de ficar linda. Era só um jantar. Mas sorriu para a filha.

– Obrigada, Zoe. E feliz aniversário.

Ela quem se aproximou para trocar um beijo no rosto com Scorpius. Foi um gesto diferente, tanto que o pegou de surpresa e ele ficou sem reação.

– Eu não tenho nenhum presente para você. – Ela foi sincera e direta.

– Não seria a primeira vez. – Mas Scorpius estava com um mero sorriso ao dizer aquilo, e os dois se lembraram do que aconteceu no aniversário de dezoito anos dele. – Vamos?

– Vamos!

Zoe pegou a mão dele e depois a de Rose.

***

O jantar estava uma delícia. E o restaurante tinha um pequeno playground onde as crianças das famílias podiam se divertir, sem os pais ficarem preocupados. Zoe comeu depressa, como se comer fosse fazê-la perder seu tempo sem diversões. Ela não podia ver outras crianças brincando por perto, e precisava se juntar as brincadeiras.

– Zoe, o prato não vai sair correndo – repreendeu Rose, vendo a filha se apressando para comer.

– Uhum – ela disse com a boca cheia.

– Você é uma verdadeira dama – ela lamentou, reparando no lado mais Weasley de Zoe, principalmente quando ela perguntou mastigando:

– Posso brincar agora?

– Você não comeu os legumes.

– Mas eu não gosto...

– Não importa se não gosta. É saudável. Come os legumes. Ou não vai brincar.

Depois de um pouco de birra para não comer o legume, Zoe acabou aceitando o desafio, e, com a boca torta de nojo, trouxe o legume para perto dos lábios, e o engoliu de uma vez, fazendo careta a cada mastigação.

Foi um grande sacrifício.

– Pronto, acabei, posso brincar agora?

Rose se rendeu e, rindo, assentiu. Zoe andou até os monitores que vigiavam as outras crianças e entrou com elas para brincarem. Deixou Rose e Scorpius sozinhos em uma mesa.

Eles se olharam.

– Quer mais um pouco? – ele ofereceu a garrafa de suco, e Rose aceitou. Os dois bebericaram, e Rose não deixou o silêncio prevalecer muito. Não suportaria.

– O que aconteceu com o seu cliente de hoje?

– Vendeu algumas drogas na academia. Essa droga causou a morte de um rapaz de dezessete anos. Os dois tinham rivalidade, então... acharam que ele tentou realmente matá-lo.

– Parece um caso difícil.

– Já venci mais difíceis. Posso estar perdendo o jeito.

– Você só não está inspirado.

– Não sei. Talvez ele fosse mesmo culpado, e eu não podia fazer nada.

– Talvez.

O celular dele tocou. Não era Alexis e nem trabalho. Rose assistiu Scorpius levar o celular até a orelha e dizer:

– Oi, vó. – Pausou. – Obrigado. Não. Estou jantando com a minha filha. Sim, eu só tenho a Zoe de filha. Claro que é só a Zoe. Vó... tá bom, eu pesquiso para saber se tenho mais um filho. Meu avô melhorou um pouco? – Rose observou como ele tinha a testa franzida, e parecia ligeiramente tenso. – Tudo bem. Tchau.

Ele desligou, e olhou um pouco para a tela antes de colocar o aparelho no bolso novamente. Rose pigarreou.

– Seu avô está bem?

– Sim – ele parecia estar mentindo. – Quer mais um pouco?

Ele desviava assuntos do mesmo jeito que Rose se lembrava, e reparou nisso com aflição. Ela tinha a impressão de que ele precisava conversar com alguém sobre alguns problemas. Ela não tinha certeza se ela era a pessoa certa para isso. Ela não deveria se importar com ele.

Mas ela se importava, porque ela era assim.

Quando terminaram de jantar, Zoe já estava atrasada para sua festinha de pijama na casa da melhor amiga. Scorpius dirigiu até a rua da casa onde Zoe passaria a noite com mais um grupo de garotinhas. Rose pegou a mão da filha e entrou com ela, segurando a mala e o travesseiro, para conversar com a outra mãe. Na manhã seguinte elas iriam para a piscina, e seria um dia de muita festa para Zoe. Sem se preocupar com a mãe mandando escovar os dentes toda hora.

Scorpius esperou dentro do carro. Viu Rose atravessando o jardim da casa no subúrbio para voltar para o carro e os dois ficaram silenciosos, com Rose distraída, lançando olhares para a casa.

– Ela cresceu – Scorpius comentou.

– Parece que esticou uns vinte centímetros em duas semanas – concordou Rose.

– Nesse sentido também.

Voltaram para o prédio onde Rose morava. Durante esse tempo de vinte minutos, eles se estabeleceram em uma discussão sobre os colegas que tiveram na escola, e como eles estavam agora. No momento em que Scorpius puxou o freio de mão no estacionamneto, os dois estavam rindo.

– Eu lembro que ele costumava chorar toda vez que tinha algum teste surpresa.

– Lembra quando o professor Longbottom disse que...

– Que ia pendurar a prova dele no varal se não parasse de chorar? – Rose riu, olhando para o teto do carro. – Eu lembro, foi muito... não-Longbottom. Ele costumava ser um professor tão calmo, perdeu totalmente a paciência.

– E quem tinha paciência para aquele moleque?

– Ele foi meu primeiro beijo.

– Sério? Devon McLaggen? Seu primeiro beijo?

– Sim. Devon McLaggen. Ele chorou quando eu terminei com ele, tipo, três dias depois.

Scorpius abanou a cabeça, sorrindo.

– Eu não sabia disso.

– Como não? Era só o que fofocavam na sexta série. O dia em que McLaggen beijou uma garota.

Você era a garota?

– Sim.

– Foi caridade?

– Não! Eu gostava dele. Ele era... sensível. Garotos não costumam ser sensíveis. Ele fazia poemas para mim.

Ela ainda estava sorrindo quando eles pararam de falar. Scorpius olhou para o volante do carro e Rose tirou um pedaço da franja dos olhos. Não conversavam daquela maneira há tanto tempo que Scorpius não se lembrava da última vez que riu com ela, sobre algo totalmente aleatório, sobre outras pessoas.

– Eu estou indo. Foi um jantar bom.

Ele assentiu.

– Foi.

– Feliz aniversário. De novo.

Ele agradeceu, mas foi surpreendido de novo pela aproximação dela, em seu lado do rosto. O cheiro dela impregnou nele de tal modo que ele achou que poderia perder o controle ali mesmo. Rose pareceu sentir a mesma coisa, porque naquele momento, só naquele momento, ela não se afastou completamente. Apenas alguns centímetros, para encarar os olhos dele. Perto demais. Sua mão esquerda estava pousada na maçaneta, pronta para abrir a porta. Por outro lado, a mão de Scorpius subiu para o rosto dela, e ele afastou a franja dela de novo. Olhou para os lábios dela e sentiu falta deles. Mas sussurrou:

– Eu esqueci o presente da Zoe em cima do sofá.

Demorou um pouquinho para assimilar as palavras totalmente aleatórias, e quando Rose entendeu, tudo o que disse foi:

– Uhum.

– Posso pegar outro dia.

– Não vai ficar sem o presente dela na noite do seu aniversário.

Ela abriu a porta e saiu. Scorpius trancou o carro e acompanhou Rose até o elevador, onde, juntos, subiram para o apartamento dela.

O silêncio da noite de Londres era como um filme antigo, sem áudio, mas você podia saber que o mundo ainda funcionava lá embaixo. Os carros, as pessoas, as lojas, e o elevador subindo para o andar de seu prédio. Scorpius mantinha as mãos no bolso, apenas esperando, Rose ao seu lado. Ambos quietos, silenciosos, um tentando não transparecer o que o outro pensava, sentia, desejava, uma vez que eles não estavam conectados, não estavam na mesma sintonia.

Estavam se aproximando do andar de Rose, quando um homem com seus trinta anos, mais ou menos, fez o mesmo caminho e a cumprimentou com um sorriso de dentes branquíssimos.

– Boa noite, Rose.

– Oi, David – ela respondeu, educada, enquanto tirava a chave da bolsa para abrir a porta do outro lado do corredor.

– Ei, chegou uma encomenda pra você hoje de tarde, e deixaram para mim sem querer. Quero dizer, eu não tenho uma filha de sete anos para ter encomendado uma cama rosa.

– Não acredito. Chegou? É a terceira vez que isso acontece. Desculpe.

– Não tem problema. Estava esperando te encontrar hoje a tarde, mas só nos desencontramos.

– Levei a Zoe para o zoológico hoje.

– Sério? Ela melhorou, então? Você disse que ela estava doente.

– Sim. Ela está bem melhor.

Scorpius quis ir embora. Ele estava com as mãos nos bolsos da calça, apenas incomodado, apenas calado. Coçou a barba rala do maxilar e esse pequeno movimento despertou a atenção de David, que perguntou a Rose:

– Estava em um encontro?

– Não, não – ela apressou-se a dizer. – Scorpius, esse é David, meu vizinho, e, David, esse é o pai da minha filha, Scorpius Malfoy.

– Prazer, cara – ele disse, estendendo a mão que Scorpius teve dificuldade de querer apertar. Mas era educado. David voltou a atenção a Rose, muito indiscretamente querendo agradá-la: – Eu vou pegar a caixa pra você, só um instante.

– Por favor. A Zoe não parou de me perguntar quando ia chegar a nova cama dela.

Enquanto David entrava no apartamento, Rose abriu a porta do dela e permitiu que Scorpius entrasse para pegar o presente que ganhou de Zoe, em cima do sofá. Rose, por outro lado, esperou David com a caixa da encomenda no corredor perto da porta. Enquanto isso, Scorpius reparou na mesinha de centro e no livro que estava em cima dela, com o marca páginas. Pela primeira vez, Scorpius viu Rose fazer algum uso de um de seus presentes, o livro de Jane Austen.

Ele ouviu Rose e David conversarem, depois que ele entregou a grande caixa a ela.

– Vai ser difícil montar tudo isso. Estou aqui se precisar de ajuda, beleza?

– Valeu, David. E desculpa mais uma vez.

– Não tem nenhum problema. Aliás, é até legal que tem um motivo pra gente se esbarrar de vez em quando.

Scorpius olhou para o teto depois dessa. Aparentemente Rose não estava esperando que David desse em cima dela tão de cara assim, ou apenas não entendeu que aquilo sim foi uma cantada, porque apenas deu um sorrisinho para o cara e disse tchau, entrando apressadamente no apartamento.

Ela levou a caixa até o quarto de Zoe, passando por Scorpius e meio que tentando ignorar o olhar dele. A cama estava desmontada, e ia dar trabalho para ela montar sozinha. Scorpius não pretendia dar a chance de Rose pedir ajuda ao vizinho, então ele se ofereceu.

– Quer ajuda pra montar isso aí?

– Não precisa.

Mas ele já estava tirando o paletó e desabotoando os primeiros botões da camisa preta. Agachou-se ao lado de Rose, enquanto ela lia o manual.

– Conhecendo você, isso é um sim. Ou você acha que David faria isso melhor do que eu?

– Você alguma vez já montou alguma coisa?

– Isso é uma cama, não um prédio. E eu me formei em Oxford.

– Uau – ela riu. – Tudo bem, então, gênio. Você pode me ajudar com os pregos.

– Ótimo – sorriu, disposto.

– Ótimo.

Demorou mais do que ele previa. Quem diria que montar uma cama infantil pudesse dar tanto trabalho. Scorpius era teimoso e perfeccionista, quando a coisa se tratava de conseguir fazer as coisas. Era, agora, uma questão de honra conseguir martelar aqueles pregos, juntando as peças, e levantando a madeira.

– Cuidado para não quebrar. É rosa e o martelo vai ficar marcado.

– Está tudo sob controle.

Ele fez os últimos ajustes e se levantou, sentindo a firmeza da madeira. Mas ainda havia algumas coisas para serem ajustadas, e ele se esforçou realmente para deixá-la firme.

– O que acha disso? – ele quis saber, satisfeito. Estava perfeito.

– Acho que um de nós deveria sentar e testar, antes da Zoe.

– Primeiro as damas.

– Cavalheiro – ela elogiou sarcasticamente e, aos poucos, temerosa, se sentou na cama após colocar o colchão da cama antiga. Não rangeu, estava tudo muito firme. – Deu certo. Ficou boa. Obrigada.

Eles guardaram as coisas. Um lento movimento do olhar bastou para ele encontrar a tatuagem de Rose no ombro dela quando ela deu as costas e saiu do quarto para ir até a cozinha. Ofereceu a ele um copo de vinho para terminar a noite, e ele recusou, não conseguindo parar de pensar que ela tinha um vizinho afim dela, e os bíceps eram maiores do que o de Scorpius.

– Eu já peguei o presente da Zoe. Estou indo.

– Ok – ela respondeu, sem realmente se virar para encará-lo.

Scorpius sentiu-se aflito com isso.

– Você está bem?

– Sim, por quê?

– Parece distraída. É o silêncio que a Zoe deixa?

Quando virou-se, sentiu a aproximação dele. Scorpius verifica se as pessoas estavam bem ficando perto delas, literalmente perto. Quer dizer, quando ele se preocupava com elas de verdade. Scorpius olhava bem nos olhos, quase chegando a queimar.

Rose finalmente disse:

– Pare com isso.

– Parar?

– De olhar para mim desse jeito.

– Desse jeito como?

– Você sabe perfeitamente.

– Vou tentar – ele garantiu, baixinho. – Se você parar de colocar seu cabelo atrás da sua orelha.

Ela colocou a mecha atrás da orelha, e cruzou os braços quando olhou para a expressão dele. Achou o saleiro em cima do balcão mais interessante do que o sorriso de Scorpius, naquele momento.

– Você não consegue parar.

– É mania, é mais forte do que eu. Vou ter que raspar meu cabelo para parar de mexer nele.

– Bem, então eu vou ter que arrancar meus olhos para parar de olhar para você.

– Eu tenho uma faca – ela sugeriu, sarcasticamente, e Scorpius abriu ainda mais o sorriso, chegando a soltar uma risada.

– É melhor eu ir – ele disse, depois de um tempo, quando o clima ficou um tanto... diferente.

Rose pigarreou, percebendo o mesmo.

– Sim. É uma excelente ideia.

Depois de confessar todas as aquelas palavras nunca esquecidas, depois de ter quebrado o silêncio noites atrás, Rose não se manteve acessível. Nunca, em nenhuma vez, ela foi acessível. Mas ela não impedia também. Ela não o empurrava. Ela permitia. E isso o deixava confuso, porque ele não conhecia mais os desejos dela. E isso estava queimando-o por dentro.

Ela abriu a porta para ele. Ao passar, os dois se entreolharam.

– Eu deveria ter te impedido.

– O quê?

– De levar a Zoe para longe, quando ela fez dois anos.

– Você quer dizer legalmente?

– Não. – Ele sorriu um pouco. – Não, apenas... gosto de vocês duas aqui, em Londres.

Não era exatamente gostar. Era mais para... necessidade. Ele precisava delas.

– Faria alguma diferença se eu tivesse impedido naquela época?

– Naquela época? Não. Eu estava muito decidida.

– Por que voltou, Rose?

Foi a pergunta que Scorpius quis sempre fazer, e esperou que ela respondesse.

– Não diga que foi o trabalho, sei que não foi.

Os dois se encararam, no mesmo nível, como sempre. E disse:

– Você pode viver em qualquer canto do mundo... mas nada pode ser feito quando se pertence a um lugar. E eu pertenço aqui, não importa o quanto eu...

– Fuja?

– Sim.

– Estava fugindo de mim, então.

– Não – ela discordou. – De mim mesma. Queria abandonar aquela Rose. Não estava mais dando certo.

– Então não existe mais nenhum vestígio daquela época em você?

– Nenhum. Só lembranças.

Ele mordeu os próprios lábios, silencioso, e virou o rosto para a janela, para a silhueta da cidade iluminada lá fora. Passou a mão no maxilar; ele não fazia a barba há algum tempo.

A verdade era que ele não tinha confiança. Ele era inseguro quando a coisa se tratava de algo sério. Inseguro porque ele nunca se considerou bom o bastante para ela. Nunca.

O desejo de se permitir deixar levar, deixar acontecer, não pensar no passado, não pensar no futuro. Pensar no agora. Pelo menos naquela noite, pelo menos quando eles estavam em uma sintonia exigida pelo tempo que cuidaram juntos de sua filha, pelo tempo em que, juntos, agiram como pais.

Ele desceu o rosto para beijá-la de uma forma ironicamente calma na bochecha, como despedida. Esse gesto a fez fechar os olhos, involuntária. Scorpius não conseguiu se afastar depressa, aproveitando o momento em que podia ficar tão próximo.

Os lábios dele se arrastaram suave, torturantemente, para os lábios entreabertos dela. Ele afastou o pouco cabelo que estava em seu rosto, beijando-a. A boca dele era como doses de morfina, e Rose estava começando a se arrepiar quando Scorpius se afastou.

Ele queria ela. Não de novo, mas mais uma vez. Ele sabia que eles não podiam começar tudo de novo. Cometer os mesmos erros era a última coisa que tinha que acontecer. Não podia estragar tudo, não quando Rose parecia estar aceitando a presença dele, e sorrindo com ele, e conversando sobre lembranças com ele.

Por isso, e apenas por isso, ele não continuou, embora quisesse, e muito.

Ele só não sabia o que Rose queria.

– Boa noite – ele desejou, disposto a ir embora porque achava ser o certo.

Ela, por outro lado, manteve as duas mãos no maxilar dele e inclinou um pouco o rosto para voltar a beijá-lo. Sem acreditar, Scorpius sentiu o movimento dos lábios dela contra o seu e ele a segurou pela cintura, encostando-a contra madeira da porta aberta. Ele não se lembrava da última vez que Rose liderou um beijo como aquele. E quando ela liderava alguma coisa, ela tinha o controle de tudo, do ritmo, da profundidade, dos movimentos das línguas, e tudo o que restava para Scorpius fazer era acompanhá-la.

Rose afastou os lábios quando começou a ficar urgente. Tirou as mãos do rosto dele, como que se despertando para o que tinha acabado de fazer. A expressão dela era surpresa, sem saber que aquele beijo foi o combustível que Scorpius estava precisando o tempo todo.

Ela limpou a garganta para dizer:

– Boa noite.

Ele demorou um pouquinho para realmente ir embora. Passou por ela, sem tirar os olhos, enquanto ela olhava para o sofá, roçando a mão na boca, estupefata. Scorpius teve a impressão de que ela estava em um processo de arrependimento, e logo que Scorpius saísse, ela provavelmente iria começar a se xingar.

Notas finais
Para quem pediu mais Scorose... :) Espero que tenham gostado! Ainda tem muita coisa pra rolar, mas as coisas tem que caminhar melhor... altos e baixos e altos e baixos. Rose beijou Scorpius, e não o contrário, e vocês achando que teria uma cena mais hot aí né? HAHAHA Não queria decepcionar vcs, mas como autora, eu preciso de paciência, e saber o momento certo pra algo do tipo rolar. E Rose e Scorpius estão... se reconhecendo. Ambos mudaram, e eles não se conhecem mais. Coloquei um David aí para o Scorpius cair na real de que a Rose tá na jogada e se ele não se apressar, vai ter quem se apresse. Até o próximo gente!