Fix You
20 Oceans
Notas iniciais
Capítulo 20.: Oceans
"Behind the walls, love
I'm trying to change
I'm ready for it all, love
I'm ready for the change..."
***
– ... mas aí a professora disse que não tinha problema se eu perguntasse pra senhora como era antes do meu papai nascer. Antes quando a senhora tinha a minha idade.
Narcissa parou Zoe, erguendo um dedo para ela.
– Primeiro, nunca me chame de senhora. Essa é a primeira regra entre nós duas.
Mordendo um pedaço do biscoito, Zoe fez que sim.
– Minha mamãe diz que é educado chamar pessoas mais velhas de senhora – ela respondeu em um tom de explicação.
– Você pode chamar qualquer outra pessoa mais velha que você de senhora, mas comigo não vai ser assim. Entendido?
– Entendido.
Zoe estava na casa dos avós paternos. Scorpius precisava conversar com Lucius e aproveitou para levar Zoe, já que foi logo depois que a buscou na escola. Enquanto ele e Lucius conversavam sobre algo sério no outro lado da sala, Zoe perguntara se tinha biscoitos e Narcissa foi com ela até a cozinha. Aparentemente Zoe tinha um projeto na escola e precisava fazer algumas perguntas. Tirou da mochila o caderninho rosa e abriu na pagina da lição.
– Meu projeto é sobre árvore geneao... genea... genealógica. – Leu concentrada: – Como foi a sua infância?
– Maravilhosa – respondia Cissy. – Meus pais me davam tudo o que eu queria, eu tinha dinheiro, minha família era rica por gerações. Nós tínhamos um Casarão incrível que, infelizmente, foi destruído na guerra.
Zoe olhou para o caderno e escreveu.
– O que a senh... VOCÊ, você, você... queria ser quando era criança?
– Atriz. Sempre quis ser atriz, e sou uma das melhores.
– Eu também! Eu estou fazendo aula de teatro!
– Uma atriz de verdade não precisa de aulas, lembre-se disso – ensinou. – A coisa vem naturalmente. Você entra em cena e, logo, seu personagem entra em você. Você precisa soltá-lo. Não seja muito exagerada, nunca exagere. E seja autêntica.
Zoe estava escutando admirada.
– O que é autêntica?
– Real. Tudo precisa ser real, mesmo quando não for.
– Uhum.
– Mais alguma pergunta? – Narcissa adorava falar sobre si mesma.
Não deu tempo de fazer outras perguntas, porque Scorpius e Lucius voltaram para a cozinha, com Scorpius dizendo:
– Zoe precisa voltar. Tchau, vó.
Ele se aproximou para dar um beijo no rosto dela.
– Me liga se precisar de alguma coisa.
– Não fala desse jeito – ela o repreendeu, porque sabia que Scorpius só agia assim quando a coisa estava séria.
Lucius estava usando um chapéu sofisticado e preto para esconder o fato de que estava em quimioterapia. Tinha desmaiado na semana passada e não podia mais adiar o tratamento para o câncer no sangue, e Scorpius precisou de ajuda com alguns problemas na firma que precisavam ser resolvidos antes de Lucius morrer. E, sim, o médico deu alguns meses para Lucius.
Era óbvio que todos estavam devastados, mas ninguém falava sobre isso.
– Posso fazer uma pergunta para o senhor? – perguntou Zoe com o caderno tampando-lhe o rosto, quando ficou a frente de Lucius.
– Claro. O que é?
– O que o senhor queria ser quando era criança?
Lucius pensou um pouco.
– Piloto de avião.
Scorpius olhou surpreso. Ele nunca soube disso.
– E você, papai? – perguntou Zoe.
– Eu não lembro. O que eu queria ser? – perguntou aos avós.
– Uma vez você teimou para a sua mãe comprar uma pista de fórmula 1 – contou Narcissa. – E uma espingarda.
– Para atirar em alvos de plásticos, em alvos não-vivos – acrescentou Scorpius rapidamente ao ver a expressão de Zoe.
Ela respirou aliviada e escreveu o que estava ouvindo no caderno. Por fim, virou-se com a expressão curiosa:
– Onde está o meu avô Draco? Falta só perguntar a ele!
Zoe foi até a sala onde Draco estava sentado no sofá, assistindo ao noticiário na televisão. Um pouco tímida, a menina se sentou ao lado dele e fez a mesma pergunta, tirando os cabelos do ombro com um rápido movimento que assustou Draco. Assustou porque aquilo costumava ser um gesto característico de Astoria. Scorpius conhecia essa semelhança entre as duas, e percebeu o modo como seu pai olhava curiosamente aflito para sua filha.
– Eu queria ser arquiteto quando era criança.
– Arquiteto é aquela pessoa que constrói casas?
– Sim – respondeu Draco, sorrindo. – Essa pessoa mesmo.
– Por que o senhor não é um arquiteto?
– Porque mudamos de sonhos.
– Eu não quero mudar de sonhos. Sempre vou querer ser atriz!
– Então vai seguir o exemplo da sua avó. Seja muito...
– Autêntica?
– Ela já te falou sobre isso?
– Falou. Obrigada por me ajudar na lição! – ela disse prontamente e guardou o caderno na mochila. Colocou as alças nos ombros e se aproximou de Scorpius para segurar a mão dele. Ambos se despediram dos outros Malfoy.
No carro, Zoe estava estranhamente calada.
– Algum problema? – perguntou Scorpius.
– Por que meu avô Draco parece sempre tão triste?
– Lembra quando eu te falei da minha mãe?
– Que se você fechar os olhos você consegue ver ela?
– Ele só tem muitas saudades dela.
– Você também tem?
– Pra caramba.
– O que ela queria ser quando era criança?
Scorpius não soube responder e ele não pretendia inventar qualquer coisa para a filha, mas garantiu:
– Minha mãe era muito boa no que fazia, então eu acho que ela sempre quis ser o que ela era.
– O que ela era?
– O mesmo que eu sou.
– Advogado?
– Sim.
– Todo mundo é advogado – ela reparou. – Você, a minha avó, meu bisavô Lucius e...
– E seu tataravô também era. É coisa da família.
– Eu não quero ser advogada, papai – ela disse com sinceridade. – Não tem problema?
– Claro que não. Eu nem quero que você seja.
Era muito importante ela ter a confirmação disso. Ficaram um tempo em silêncio, durante o momento em que Zoe se ocupava em cantarolar baixinho a música que estava no rádio. Ela meio que mandava Scorpius sempre colocar a trilha sonora de Frozen. Ele percebeu o quanto amava Zoe quando notou que não ligava muito para isso.
Zoe se inclinou para se despedir do pai com o beijo de sempre no rosto dele. E pulou para o assento ao lado dele para dizer num desabafo:
– O nosso vizinho gosta da mamãe.
– David?
– Eu não quero que ela tenha outro namorado. Eles fazem a mamãe chorar depois. Ela não sabe que eu sei que ela me viu vendo ela chorar na cozinha depois que o Paul foi embora, mas eu sei que ela ficou triste depois.
Scorpius compreendeu, naquele momento, porque era melhor não investir na vontade de reatar as coisas com Rose. Ele estragaria tudo de novo, e ia ser mil vezes pior, porque a Zoe estaria envolvida.
Mas foi então que Zoe disse com os olhos brilhantes:
– Seria legal se a mamãe namorasse você! Você poderia jantar e almoçar com a gente todos os dias, pai. Por que você não pergunta pra ela se pode namorar com ela?
Scorpius abanou a cabeça, sorrindo para a janela.
– Não é tão fácil assim, Zoe.
– Você não gosta da mamãe?
– Eu... sim, claro.
– Então por que é difícil? A mamãe também gosta de você.
Endireitou-se no assento do carro para ouvir melhor.
– Como você sabe? Ela te disse ou...?
– Eu sei que ela gosta.
– Você sabe?
– Sei. Você quer que eu fale pra ela que você gosta dela também? – Zoe era cheia das melhores intenções.
– Quê? Não-
– Eu falo!
– Não, Zoe. Isso é coisa de adulto, não de criança.
Ela olhou para o as mãos no colo, chateada.
– Você vai falar pra ela, então?
Scorpius nunca foi desafiado por uma criança de sete anos. Viu a filha abrir a porta do carro quando Rose saiu do museu, e Scorpius acenou um leve tchau para ele, que foi retribuído.
Não que Rose já não soubesse.
***
O ano letivo estava em seu período final e isso significava reunião de pais e mestres. Enquanto ajudava Zoe a experimentar um maiô na cabine da loja, porque elas tinham o plano de aproveitar as férias de verão em piscinas e praias, Rose dizia para o celular:
– Vai ser amanhã de tarde.
– Eu preciso mesmo ir?
Dava para ouvir o tom de preguiça da voz de Scorpius.
– Pais e mestres, Scorpius. O que você acha?
– Zoe nunca mais vai olhar na minha cara se eu não for nessa reunião?
– Não será dramático se você não for, se é isso o que você quer saber. Só estou te comunicando.
– Então não preciso ir.
– Não, mas seria interessante se você fosse.
– Eu tenho milhares de coisas para fazer.
– Entendi, você não vai. Zoe, fica parada, pelo amor de Deus, assim o maiô nunca vai entrar em você – ralhou para a filha.
– Mas está me incomodando!
– Então tira ele, ficou pequeno! Você cresceu uns vinte centímetros. Vou ter que trocar seu guarda-roupa inteiro pra esse verão.
Ela voltou a dizer para o celular:
– Olha, é coisa de meia hora. Mas se não puder ir, não tem problema.
– Certo.
– Tchau, preciso ir pro caixa.
Scorpius olhou pensativo para sua mesa quando desligou o celular. Viu sua ex-namorada, Emily, aproximando-se para saber:
– Alguma notícia boa sobre Lucius?
Ele negou com a cabeça.
– O médico estimou mais alguns meses.
– Sinto muito.
– Ele ainda está vivo, não venha com esse papinho.
Depois da rispidez dele, Emily apenas abanou a cabeça e girou o corpo para voltar ao seu caminho. Mas Scorpius abriu o paletó e se levantou da cadeira para chamá-la. Um pouco relutante, ela deu um suspiro e se permitiu ouvir o que Scorpius tinha a dizer.
– Fui um babaca com você.
– Que bom que percebe isso.
– Não, estou dizendo quando namorávamos.
– É, Scorpius, você foi. Mas eu superei.
E mostrou o anel de noivado no dedo da mão. Ele olhou surpreso.
– Quem é?
– Você não conhece.
– Advogado?
– Médico. Engraçado, eu o conheci quando fui visitar você no hospital.
Scorpius sorriu.
– Felicidades aos noivos. Eu tenho certeza que ele sempre lembrará o seu aniversário.
Emily não respondeu. Com a expressão séria de sempre, mandou:
– Só vença o caso no tribunal, que é a única razão por ainda ter algum contato com a humanidade.
A reputação dele era definitivamente boa entre suas ex-namoradas. O mais louco de tudo? Ele ainda convivia com elas.
***
Acabou que sua semana não foi incrivelmente cheia. Seus dias se resumiram a levar Lucius semanalmente para o tratamento do câncer no hospital, ambos muito calados um com o outro, apenas esperando o melhor e se preparando para o pior. Draco começou a se ocupar com trabalhos no Ministério, como sempre no setor político, para não ter a chance de ter uma recaída com as bebidas.
Scorpius andou tentando se comunicar mais com a vó Cissy, uma vez que ele sabia que ela precisava de apoio. Lembrava-se de como os avôs o ajudaram quando Astoria morreu. Do jeito deles, mas ajudaram. Scorpius estava ajudando. Do jeito dele, mas ajudando.
Ele costumava esperar Lucius terminar os exames no hospital, mas dessa vez, antes de entrar na sala, Lucius interferiu:
– Você tem mais o que fazer.
– Só uma reunião de pais e mestres na escola da Zoe.
– Então o que está fazendo aqui?
– Não quer que eu espere hoje?
– Não quero que você me espere nunca. Eu ligo para você quando acabar.
– Tem certeza?
– Vai logo, Scorpius. Sei que odeia hospitais.
– Me liga, então.
Com um gesto, Lucius o enxotou. Ele era orgulhoso e não gostava que as pessoas fizessem nada por ele. Não gostava que Scorpius o visse daquele jeito, precisando da ajuda dos outros.
Rose estava sentada em um dos bancos do corredor principal entre as salas de aula onde pais saiam e entravam em cada porta, quando Scorpius chegou a escola. Zoe não estava com ela, o que significava que estava passando a noite na casa dos avós maternos.
– Oi – ele disse, surpreendendo-a, quando sentou na cadeira vazia ao seu lado.
– Oi. Achei que tivesse muita coisa para fazer.
– Consegui dar um jeito em tudo. Você está esperando?
– Sim. Eu devia ter sido mais esperta para dar o nome a nossa filha. Um que não fosse com a última letra do alfabeto.
Scorpius riu.
– Eu gosto desse nome.
– A única coisa em que concordamos naquela época.
– Poderia ser registrada com a letra S.
– Soe? Não, muito estranho. Ainda estaria longe da letra A.
– Ou Coisinha.
– Ou Coisinha – concordou Rose, sorrindo.
Eles se entreolharam, e foram interrompidos quando a porta da sala abriu e a bela jovem professora sorridente os chamou para conversarem. Ela não devia ser mais velha que a própria Rose.
Os dois sentaram-se a frente da mesa da professora. Ela era cheia de energia quando apertou a mão deles.
– Vocês são um lindo casal!
– Obrigado – disse Scorpius e Rose apressou-se a dizer:
– Oh, não somos um casal.
A partir daquele momento, ela olhou diferente para Scorpius. Um diferente de “é, ele está solteiro”.
– Mas que bom que os dois estão aqui, para falarmos sobre a Zoe. Ela tem feito grandes avanços – contou. – Sem muitos problemas didáticos. As notas estão ótimas. Ela é sempre afiada nas respostas, se sabem o que eu quero dizer. Sinceridade reina nessa menininha. E esse está sendo um probleminha.
– Por quê? – perguntou Scorpius. – Ela não pode dizer a verdade agora? Voltaram a proibir isso na escola?
– Tem esse garoto, e os dois definitivamente não se gostam. Zoe é muito inteligente e está sempre vencendo competições, e a outro garoto é competitivo demais, está sempre entrando em encrencas... E Zoe fala sempre umas coisas para ele, e ele retruca com outras coisas.
– Zoe não costuma brigar com as pessoas – estranhou Rose.
– Ela não briga. Ela não precisa brigar. O que é muito interessante. Ela sabe o que dizer para calar a boca de alguém.
– E quem é esse garoto? – Era só o que importava para Scorpius saber.
– Ralph Thomas.
– O trombadinha?
Rose deu um tapa no braço dele. Mas foi a professora que ralhou:
– Não chame as crianças de trombadinhas, por favor, sr. Malfoy. Eu seria demitida se deixasse você chamá-lo de trombadinha.
– Então não é um problema se a Zoe coloca o garoto no lugar dele. Você concorda comigo, certo? – virou-se para Rose. Ele se ajeitou na cadeira, incomodado por saber que Zoe estava sendo provocada.
– A questão é que ela deve relatar aos professores ou a diretora antes, e ela não faz isso.
– Sim, porque você tem muito tempo para dar um jeito no garoto. Zoe só está se virando. E o mundo é assim. Desculpe, eu não acho que a minha filha dar um jeito nos problemas dela sozinha é um problema.
– Eu entendo, sr. Malfoy. Mas ela ainda é só uma criança. Uma criança esperta, claro, mas ainda uma criança que vai precisar de ajuda porque as vezes os problemas podem piorar se ela tentar resolvê-los sozinhos.
– Zoe não gosta de entrar em encrencas – disse Rose de novo. – Tenho certeza que ela relataria a você se não estivesse ocupada com outras coisas.
– Com licença, estão dizendo que eu não dou atenção a todos os meus alunos?
– É difícil dar atenção para uma criança – respondeu Rose. – Imagine para vinte? Ao mesmo tempo? Então... eu tenho que concordar com ele.
A professora soltou um suspiro. E sorriu mostrando os belos dentes.
– Bem, eu vejo de onde a Zoe tirou a determinação dela. E deve ser realmente muito difícil dar atenção para uma criança, ainda tão jovem.
Rose se remexeu na cadeira. Scorpius ficou caladinho, ao reparar que ambas se alfinetaram.
– A reunião acabou? – perguntou Rose, incomodada.
– Sim, sim.
Eles se levantaram e Rose não falou tchau. A professora, porém, sorriu para Scorpius.
– Se tiver alguma dúvida sobre o que conversamos aqui, é só ligar. Ou eu ligo. Sei que é um bom advogado. As vezes posso precisar de um. Bati sem querer em um carro semana passada, na hora de estacionar e...
– Eu não sou esse tipo de advogado – garantiu Scorpius. – Se tiver matado alguém, então me liga. Mas, nesse caso, eu vou ter que tirar a Zoe daqui. – Sorriu. – Boa noite.
A moça sumiu com o sorriso de segundas intenções na hora.
Scorpius acompanhou Rose até o estacionamento da escola, o que não era uma caminhada curta. Ela, porém, apressava os passos, completamente nervosa.
– Zoe gosta dela?
– Não. E agora eu entendo. Quem ela pensa que é? Eu gostava da outra professora.
– O que aconteceu com a outra?
– Tirou licença. Teve um filho. Agora essa professora acabou de sair da faculdade e já acha que pode controlar os alunos. Pode controlar a Zoe. E dar em cima de você. Viu o jeito que ela passou a olhar pra você depois que eu disse que não éramos um casal? Aquilo não foi nem um pouco elegante.
Scorpius a deixou bufar o caminho inteiro, mas foi idiota o suficiente para provocar:
– Isso é um tom de ciúmes?
– Eu não vou nem responder – respondeu sílaba por sílaba. Apressou o passo, mas Scorpius segurou o braço dela e a parou no ato.
Ele estava impaciente.
– Nunca vamos falar sobre o que anda acontecendo, não é? Vamos ficar fingindo que nada está acontecendo.
– O que você quer que eu diga? Que eu estou suspirando por você? Perdendo o meu sono por você? Eu tenho coisas com o que me preocupar, e pensar no beijinho que trocamos não é uma delas.
– Então é isso? Foi só um beijinho. Dois, na verdade. E semana passada o beijo foi seu. Você me beijou.
– Vai jogar isso na minha cara agora?
– Não estou jogando na sua cara, Rose – ele disse nervoso. – Eu só estou confuso. Eu não sei o que você quer. O que diabos você quer?
– Não há relevância alguma no que eu quero, Scorpius. Se tem alguma coisa que você quer, então você tem que correr atrás.
– Você quer que eu corra atrás de você? Você quer que eu me jogue por você? Eu não posso fazer isso sem ter certeza de que vai valer a pena. Sem ter certeza de que é isso o que você quer.
– É esse o seu problema!
– Que problema? Aparentemente, tenho incontáveis.
– Você pensa que é perder tempo se esforçar para conseguir o que quer se acha que nunca vai conseguir!
– Você me conhece, Rose, e eu não mudei. Se você não me quer... eu não vou insistir. É só você falar, e eu não encho o seu saco o resto de nossas vidas. Você quer ou não?
– É claro que eu quero.
A resposta foi muito direta. Surpreendeu Scorpius.
– Eu quero que você corra atrás de mim. Eu quero que você lute por mim. Eu tenho uma filha com você, e você é a melhor coisa para ela.
– Não seria o mesmo se a Zoe não existisse, então?
– Não – ela confirmou. – Eu nunca mais veria você se a Zoe nunca tivesse nascido. Você ter assumido ela faz alguma diferença. Então não pense que não vai valer a pena se você se esforçar.
Após dizer aquelas coisas, que calaram a boca de Scorpius, Rose virou o corpo e caminhou até o carro no lado oposto do estacionamento, deixando-o para trás com inúmeros pensamentos na cabeça.
***
Scorpius não costumava tirar férias, mas ele tinha o direito de tirar alguns dias de folga da empresa se ele quisesse. Nos anos anteriores, costumava fazer o mesmo para visitar Zoe quando ela morava nos Estados Unidos. A diferença era que agora a constante companhia da filha se tornou parte essencial da sua semana, e Zoe quase não o reconhecia sem o terno e a gravata. Scorpius parecia sempre muito normal com uma calça jeans e uma camisa simples, sem precisar se preocupar em atender telefonemas. Só se preocupar em vencer Zoe nos jogos que ela trazia para o apartamento dele.
Jogavam cartas na mesa com o Cupcake tentando comer elas ora ou outra. Um jogo infantil que Zoe insistia que Scorpius jogasse com ela. O baralho continha números até nove. Alguém precisava tirar cartas maiores e o vencedor era o que ficava com a mão vazia antes. Ou ela era muito sortuda ou muito boa, sempre estava vencendo Scorpius. Tanto que a menina até desconfiava.
– Papai, você está me deixando ganhar, não está?
– Eu não deixo ninguém ganhar. Eu sou péssimo em baralho. Eu lembro que a Rose era boa.
– É chato brincar com a mamãe. Ela sempre ganha de mim, por isso eu fico brava que quando eu ganho, foi porque ela não está prestando atenção ou me deixa ganhar. Eu não gosto que me deixem ganhar.
Continuaram a próxima rodada, Zoe constantemente precisando afastar a carta antes que Cupcake colocasse ela na boca. No momento em que o cão sossegou no chão da sala, Scorpius perguntou:
– Então... David anda aparecendo muito?
– Às vezes mamãe conversa com ele.
– Ele é legal com você?
– Eu contei a ele que você tem um cãozinho e ele disse que ele tem três.
– Três?
– Sim. Mas o Cupcake é mais legal. E eu disse que você tem um carro que dá para ver o céu. E ele disse que ele tem um trailer.
– Ele está mentindo pra você. Ninguém é assim perfeito – garantiu Scorpius. Zoe concordou. Ela definitivamente não queria que David namorasse Rose. Ela deixava bastante claro que ela preferia Scorpius.
Passaram o restante da tarde, juntos, divertindo-se com Zoe brincando com Cupcake. Quando Scorpius ficou sozinho, ligou para o avô.
– Scorpius, eu estou bem. – Foi dizendo Lucius, impaciente.
– Eu sei. Eu só quero avisar que talvez eu fique alguns dias foras.
– Por quê?
– Eu to pensando em levar a Zoe pra praia.
– Não tem mais sete anos pra pedir permissão, tem? Por que está me contando isso?
– Quem vai levar o senhor ao hospital semana que vem?
– Esqueceu que eu tenho um filho também? Eu converso com o Draco, não se preocupe. Além disso, sua avó está disposta a voltar a dirigir. Ou eu mesmo pago um motorista, não fica preocupado.
– Tá – ele disse. – Se precisar de alguma coisa...
– Não vamos precisar – garantiu. – Aproveita sua vida, não é difícil pra você.
Foi um momento que Scorpius sempre tentava evitar desde o dia em que recebeu a notícia de que seu avô tinha câncer. Lucius era mais próximo de Scorpius do que Draco ou Astoria foram. Talvez porque ele tinha admiração pelo avô ou porque o avô sempre o motivou, uma relação de mestre e aprendiz. Não estava sendo fácil encarar essa situação de levá-lo a quimioterapia. Não suportou perder a mãe, não suportaria não ter o avô com ele. E se isso fosse para acontecer, ele não pretendia agir como um estúpido. Não de novo.
Não havia o que fazer. Ele precisava se distrair e não tinha outro jeito melhor do que passar o tempo com a Zoe, e não trabalhando. Se ele trabalhasse, ficaria mais preocupado ainda, porque o trabalho era o avô. E o que ele estava buscando, dessa vez, era relaxar.
***
Rose se permitiu mais cinco minutos na cama depois que o despertador do celular tocou. Mais um dia para enfrentar, e ela estava com preguiça. Muita preguiça. Seu cérebro pedia para ela voltar a dormir. Não tinha nada com o que se preocupar, é claro. Não tinha roupas para lavar, não tinha contas para pagar, não tinha síndicos para aturar, não tinha compras da semana para fazer, não tinha uma...
A porta do quarto se abriu de supetão, e Rose evitou a luz provinda da sala cerrando os olhos quando o peso de uma criança de sete anos pulou na cama, chamando sem parar alguém com o nome de:
– Mãe... Acorda, mamãe! Acorda... Manhê!
Zoe estava eufórica.
– Quem é essa? – resmungou Rose, sentindo os dedos da filha chacoalhando seu ombro. – Não tem nenhuma mamãe aqui hoje.
Zoe fez uma careta brava para ela, resposta que sempre dava quando Rose era assim sarcástica.
– Tem sim! Perdeu a memória?! – Zoe subiu em cima dela. Caramba, ela realmente não tinha mais dois aninhos. Ouviu a voz de Zoe bem pertinho do seu ouvido, alta demais: – Esqueceu que hoje nós vamos pra praia!?
– Querida, é impossível eu esquecer já que você só falou isso a semana inteira – respondeu Rose, os lábios grudados no travesseiro.
– Você tem que fazer o café da manhã, mamãe!
– Hmmm – suspirou. – Já me acorda com essa agitação, e cadê o meu beijo de bom-dia?
Zoe praticamente esmagou os lábios na bochecha de Rose, que não teve outra reação senão rir e abraçá-la. Zoe já estava com o biquíni novo, e os óculos de natação na cabeça, e Rose coçou os olhos.
– Vai demorar pra gente chegar a qualquer praia agora. Que ansiedade é essa? Até parece que nunca foi antes.
– Mas eu adoro o mar. E o papai vai levar a gente! Foi o que ele falou ontem com você, não é? Ele vai levar?
– Vai, sim – respondeu Rose. Parou, pensativa, para perguntar outra coisa: – Você sabia que o avô dele está doente?
– Sabia. O vô Draco está bem triste.
– É, e seu pai não me conta nada disso.
– O papai tem muitos segredos – contou Zoe, com as mãos atrás do corpo. – Ele tem um segredo muito importante mas eu prometi pra ele que eu não ia contar pra ninguém.
– Vocês estão de segredos agora?
– Sim. Mas eu vou ficar caladinha. Você não está curiosa, mãe? – estranhou quando Rose não fez alarde sobre isso. – Nem um pouquinho curiosa?
– Você não conta os nossos segredos para ninguém, então não vou insistir que conte os seus segredos com Scorpius. É o mais justo.
– Então eu não vou contar que o papai quer namorar com você. – Ela tampou a boca e saiu correndo do quarto deixando a expressão estupefata de Rose para trás.
Agora deixou a mãe curiosa. E não era sobre o fato do pai querer namorar ela. Era sobre outro fato.
– O que você sabe sobre namoro, Zoe? – perguntou alcançando a filha no corredor do banheiro.
– Eu sei que quando você namorou o Paul, ele sempre estava com a gente. Então se o papai namorar você, ele sempre estará com a gente também.
Aliviada, Rose pousou a mão no peito.
– Só isso?
– E a menina e o menino quando namoram eles beijam na boca – contou. Rose precisava ter certeza de que Zoe, por enquanto, só soubesse disso. A filha acrescentou: – Parece bem nojento.
– Horrível – concordou Rose, rindo. – Coisa que você não tem idade pra fazer. E eu vou preparar o café, já vai pegando suas bugigangas e coloca na sala.
Enquanto preparava o preferido leite para Zoe, ligou para o Al. Rose ouviu a voz do primo no celular.
– Uou, o dia inteiro só vocês três nas belezas de Bournemouth?
– Está a fim de ir também?
– O Malfoy só chamou você e a Zoe, Rose. Seria tipo o cara te chamar para ir ao cinema pra te dar uns amassos, e você decidir levar suas amigas também. É o maior fora da humanidade.
– A intenção dele é passar o tempo com a Zoe.
– Tá bom, vou deixar você acreditar nisso. Mas mesmo se eu fosse um empata-foda, eu não iria. Combinei de passar o dia com o Michael e o pequeno Luke. O Darth Vader – acrescentou.
– Ah sim. Então o nome é Michael? A coisa está ficando séria?
– Mais ou menos. E a coisa está ficando séria também? Malfoy chamando pra férias... hotelzinho... não esqueçam da Zoe, hein?!
– Albus. Eu já te falei... nada vai acontecer de novo. Olha, não vou falar sobre isso com você agora. A Zoe tá com essa mania de que o Scorpius deveria me namorar, então... já sabe. Te ligo mais tarde.
Zoe entrou na cozinha bem na hora e se sentou para tomar o leite, rapidinho. Rose preparou umas torradas também, sentada com ela na mesa. Ambas foram interrompidas pelo som da campainha, minutos depois, anunciando a chegada de Scorpius.
Rose meio que se surpreendia toda vez que o via sem o terno da empresa. A gravata e o paletó já era sua marca registrada, mas a camisa com as mangas dobradas deixavam ele mais atraente. E Rose, apesar de ter mudado grandes aspectos, não mudou o fato de gostar de homens com as mangas dobradas. Era tipo cem vezes mais sexy, e ela precisou pigarrear para falar.
– Já estamos quase prontas.
– Papai! – Zoe apareceu da cozinha, ansiosa. – Você deixou as instruções que eu escrevi sobre o Cupcake para a Portia? Ela vai cuidar dele?
– Acabei de conversar com ela. Portia o adorou.
– Eu ainda acho que devíamos levar ele!
– O Cupcake ainda é novinho. E não permitem cães nas praias que vamos – contou Rose. Zoe olhou chateada.
– Mas ele vai ficar bem, né?
– Vai sim, coisinha, não se preocupe – disse Scorpius.
– Pai, olha só o que o meu avô Rony me deu para nadar e olhar embaixo da água – contou Zoe, imediatamente mostrando os óculos de natação que estava na cabeça.
– Não está um pouco apertado, não? – ele reparou. – Sua cabeça aumentou por causa do seu cérebro gigante. Tem que afrouxar um pouco agora.
– Afrouxar? Faz pra mim? Eu não consigo.
Scorpius era inacreditavelmente bom em ensinar coisas técnicas para ela. Como fazer um nó na gravata, como afrouxar o elástico dos óculos, como amarrar os sapatos sem precisar fazer as duas orelhas de coelhinhos.
Rose deixou os dois na sala e foi até o banheiro pegar as mochilas e verificar se Zoe não tinha se esquecido de guardar o essencial. Bournemouth não tinha uma distância enorme com Londres, então decidiram ir de carro mesmo, com o carro de Scorpius, uma vez que Zoe gostava muito de ver o céu, especialmente quando estava tão azul e com nuvens gordas e brancas de vários formatos diferentes, que ela podia identificar.
– Ali é um dragão com asa de borboleta e uma panela na cabeça – apontou.
– Como é que você enxerga tanta coisa, Zoe? – exclamou Rose. – Agora, ali é um coelho.
– Um coelho com olho de dinossauro e rabinho de cachorro. Um camaleão segurando um ovo de galinho. Papai, o que você está enxergando?
– Um carro verde com uma placa. – Scorpius era o mais sem graça.
– Ele não pode olhar pro céu – explicou Rose quando ela tentou procurar um carro verde com uma placa entre as nuvens, e não na estrada. – Se não ele se distrai e não pode se distrair quanto estamos dirigindo.
– Então vamos brincar de adivinhar qual vai ser a cor do próximo carro que aparecer.
Não é novidade dizer que Zoe não ficou com o bico fechado a viagem inteira. Ela estava mesmo eufórica para usar os óculos. Ficou sem paciência quando tiveram que deixar as coisas no hotel em que iam ficar. Queria ir logo para a praia.
Finalmente, quando chegaram, a menina já se adiantou para o mar como a criança mais corajosa do mundo, mas Rose agarrou o braço dela e a interrompeu.
– Primeiro. Lembra das regras?
Ela se lembrava das regras, só não tinha paciência para elas.
– Passar protetor solar.
– E a outra regra, a regra mais importante?
– Não lembro.
– Não ir ao mar, sozinha, nunca – relembrou, abrindo o creme para passar no corpo da filha.
– O papai vai entrar comigo não vai?
Julgando pelo modo como Scorpius ergueu a camisa para tirá-la do dorso, Rose disse que sim.
Ela percebeu que estava apertando o protetor, tanto que metade do líquido caiu na areia.
– Droga – ela xingou baixinho. – Passei muito em você, Zoe. Agora vai ficar branquinha. Passa um pouco em mim também.
Foi o que Zoe fez, rapidinho para não perder tempo, nas costas da mãe.
– Você tem que passar protetor solar também, pai – avisou Zoe como gente grande. – Senta. – Puxou a mão dele para ele se sentar na areia, e ela passou o protetor para ele, mas de um modo que fez com que os ombros dele ainda ficassem brancos. – Um pouco no rosto também. E tem que passar na pontinha do nariz. Assim. Agora vamos!
Devolveu o protetor para Rose e puxou Scorpius para eles nadarem no mar. Rose tinha sérios problemas com cenas como essas. Ela não sabia se ficava exasperada, feliz ou preocupada.
Preocupada porque Scorpius não tinha experiência com crianças. Feliz porque ele estava fazendo a filha feliz e exasperada porque isso o deixava irresistivelmente mais gostoso. Se ele estivesse com a camisa, pelo menos, Rose não entraria em dilemas.
Até parece que ainda era adolescente.
Zoe queria avançar mais um passo em relação a entrar no mar. Como as ondas não estavam fortes, ela não precisou ficar o tempo todo na beirada. Rose viu que Scorpius a levou mais afastada e achou melhor se aproximar deles.
– Olha, consigo ver as conchinhas que tem embaixo da água. Quer ver também?
– Me deixou curiosa. – Rose sorriu para a filha e colocou os óculos, para ajudá-la a explorar as profundezas do mar.
Zoe estava se divertindo tanto que teve sérios problemas quando o sol começou a ficar forte demais e a barriga roncar. Não sabia se queria continuar ou comer, mas percebeu que a escolha era de Rose, não dela. Ficaram uma tarde gostosa embaixo do guarda-sol, com Zoe ensinando Scorpius a montar um castelo de areia. Ela era boa nisso, com a ajuda de Rose, e passou bons tempos conseguindo a altura certa.
Teve um momento que Rose conseguiu ficar sossegada e tomar sol enquanto descansava com os olhos fechados. Scorpius não era imprudente com Zoe, e voltaram para o mar mais tranquilos. No entanto, foi um erro confiar que Zoe saberia se virar com Scorpius quando ouviu uma agitação na beira do bar, onde um grupo de pessoas se aproximou para saber o que estava acontecendo.
Rose estava andando e ouviu alguém sugerir:
– É melhor levar ela ao hospital para estancar isso aí.
Zoe estava tossindo sem parar, um resultado de um acidente com as ondas. Ela estava chorando, com Scorpius tentando acalmá-la. E o pior não era ver a filha sem fôlego, chorando, era ver o sangue caindo na lateral de sua testa.
– Mamãe! – exclamou Zoe, soluçando, quando a viu.
– O que aconteceu? – ela praticamente tropeçou em frente a ela quando Zoe a abraçou.
– Ela entrou com a cabeça no mar, e eu perdi ela de vista por dois segundos, e...
Rose não estava escutando a voz de Scorpius. Preocupada, segurou a mão de Zoe e correu com ela até o carro, Scorpius depressa logo atrás.
– Rose, desculpe. Eu-
– Esquece, só dirija até o hospital. Foi um corte muito profundo, vai ter que costurar.
Ela não deveria ter falado isso. Zoe imediatamente colocou a mão na testa e chorou desesperada quando viu o sangue, mas Rose tirou a mão dela.
– Não coloque a mão no machucado. Vai logo, Scorpius!
Scorpius estava com dificuldade de raciocinar o que tinha acontecido. Tudo acontecera tão depressa que ele não tinha reação. Um minuto Zoe estava com o braço ao redor do ombro dele, e na outra ela tinha sumido no mar. O sangue dele estava circulando por todas as extremidades e ele precisou manter a calma para dirigir até o hospital.
Lá, uma enfermeira atendeu Zoe em uma pequena sala. Zoe já tinha machucado feio, já tinha visto agulhas, já tinha uma cicatriz, mas no pé. Naquele momento, era um corte profundo na testa, pouco acima da sobrancelha, ela ficou temerosa com a agulha tão perto de seu olho.
– Não... – ela se afastava toda hora da enfermeira.
– Tudo bem, coisinha, não vai doer – murmurou Scorpius, o rosto na altura do de Zoe. Agachou-se para segurar a mão dela. – Não fecha os olhos. Olha pra mim. Vai ser rápido. Ela só vai dar alguns pontos. Olha pra mim, Zoe.
Zoe olhou para o pai, e cerrou os dentes quando a enfermeira se aproximou com a agulha. O machucado foi costurado em menos de um minuto, mas Scorpius sentiu os dedinhos ainda apertarem com força a sua mão e não soltaram.
– Acabou?
Scorpius sorriu.
– Pronto. Já passou.
– Agora entende porque eu falo pra você não achar que o mar é igual piscina, Zoe? – ralhou Rose. – Entende?
Zoe não encarava Rose. Ela olhava para o dedo que apertava a mão de Scorpius.
– Não briga com ela, Rose, não foi culpa dela.
– Eu nem vou começar por você. Você era para supostamente olhar ela! Eu confiei em você, Scorpius, e você deixou ela quase se afogar.
– Foi coisa de segundos. Não teve como controlar a onda.
– Segundos fazem a diferença! Principalmente na água! E ela ainda bateu a cabeça, podia ter sido mais grave!
– Mãe...
– Não quero ouvir, Zoe, você me desobedeceu por se soltar do seu pai e me assustou. E você... – virou-se para Scorpius.
– Ferrei tudo, como sempre, é isso o que vai dizer?
Não. Não era isso o que ela ia dizer.
– Bem vindo à paternidade.
***
Zoe se sentia culpada. Por que ela só estragava tudo? Mamãe estava zangada, papai estava frio e eles não pararam de discutir o caminho todo de volta para o hotel. Zoe preferiu ficar calada, para não ter o perigo de levar outra bronca. Mamãe estava mesmo muito nervosa, bufando.
No banheiro do hotel, antes de tomar banho, Zoe precisava de ajuda para tirar o biquíni e Rose, enquanto a ajudava, trancadas no banheiro, finalmente perguntou com a voz calma que também acalmou Zoe:
– Como está a cabeça?
– Dói. – Ela era muito sincera com Rose. Se Scorpius perguntasse, a resposta seria outra.
– Fiquei preocupada, querida. Não me assuste mais desse jeito.
– Por que você está brava com meu pai?
– Eu não estou brava. Era para ele ter cuidado melhor de você.
– Ele cuidou de mim – defendeu Zoe. – Ele me salvou. Eu não lembro muito bem...
Rose deu um beijo suave na testa dela.
– A gente não vai embora, vai?
– Não. Foi um susto, e agora você aprendeu a lição, não aprendeu?
– Aprendi – ela garantiu. – Nunca soltar a mão do meu pai.
Enquanto Zoe tomava banho, Rose se aproximou da mochila para ajeitar as roupas dela em cima da cama de casal. Scorpius estava bebendo uma garrafa de água perto da sacada e foi até Rose.
– Rose, eu realmente não consegui controlar a situação. Eu tava pensando, e talvez eu não deveria ficar sozinho com ela. Nunca. A última vez ela pegou uma pneumonia desgraçada, quase foi atropelada, e agora quase se afogou.
Rose abanou a cabeça, soltando um riso baixo, inconformado.
– Você não tem nem ideia, tem? Uma vez perdi a Zoe no meio de Manhattam. Ela tinha entrado em uma lanchonete porque viu os sorvetes de Frozen sendo vendidos. Eu me distraí com alguma coisa e não segurei a mão dela. Por dois segundos, eu teria perdido minha filha pra sempre. Quando ela tinha três anos, tranquei ela sem querer no carro e não achei as chaves, até que me ajudaram a quebrar o vidro. Fazia quase vinte e oito graus naquela tarde. Fiz muita merda, fiz muita cagada, até acertar em alguma coisa nessa coisa de ser mãe. Zoe não se lembra, nunca contei a minha mãe ou ao meu pai, nem ao Albus, nem a Dominique. Só eu sei todas as merdas que eu fiz.
– Por que está me contando isso?
– Sempre me considerei uma boa mãe, porque eu tento ensinar o que é certo pra ela. Mas só quando eu cuido dela, no momento em que ela passou por alguma coisa, eu realmente sinto que sou mãe. Que eu tenho uma responsabilidade, uma vida pra cuidar, além da minha. E essas coisas que acontecem quando você está com a Zoe... significa que você está presente na vida dela. Sabe, eu não te considero um péssimo pai, Scorpius, e é por isso que nunca precisei entrar na justiça por causa da guarda da Zoe. Você tem suas atitudes questionáveis, sim, com outras coisas, mas... poderia ser pior como um pai. Ela poderia não ter um pai.
Isso o fez pensar. Ele não tinha ideia de como ele era sortudo por Zoe ainda considerá-lo tanto, apesar de todas as merdas que ele fez e que ele ainda estava sujeito a fazer. Mesmo quando estavam morando em continentes diferentes, Scorpius não deixara de estar na vida dela. Distante, apenas um amigo, mas que ela precisava tanto saber que ainda existia e que ligaria para ela. Zoe podia dizer que tinha um pai, e isso foi a melhor coisa que Scorpius fez por ela.
– Acho que tem razão – ele disse. Olhou para a vista da janela, e mudou de assunto. – Fiz uma reserva em um restaurante aqui perto para jantar. Vão querer ir ou é melhor a Zoe descansar a cabeça um pouco?
Os dois ouviram a filha cantarolar Love Is An Open Door dentro do banho.
– Ela está boa – garantiu Rose, acompanhando a risada de Scorpius. Pigarrearam e Rose, mais séria, garantiu. – Você pega o jeito. Depois de um tempo. E eu sei que algumas vezes é impossível prever as coisas, então desculpa pelo meu temperamento no hospital. Não ajudei em nada estourando daquele jeito. E você foi muito bem... acalmando ela pra deixar a enfermeira cuidar do machucado.
Scorpius estava tão desacostumado a ouvir um elogio assim que somente aos poucos ele se deu conta das palavras de Rose. Ele estava tão desacostumado a fazer algo certo que não soube como agir, como dizer. Um “obrigado” parecia tão superficial. Tudo o que fez foi piscar os olhos, o que foi ainda pior. Ele realmente precisava melhorar nessas reações. Acabou apenas dizendo:
– Zoe conseguiu porque ela é forte. Não deixa um machucadinho abalar ela.
– Ela estava querendo impressionar você. Ela não gosta que você pense que ela é chorona.
– Ela te falou isso?
– Apenas sei.
Tal mãe, tal filha. Elas sempre apenas sabem. E sabem certo.
Lembrou-se do que Zoe disse a ele no carro, alguns dias atrás, e resolveu tirar a dúvida se ela tinha mencionado algo do tipo para Rose, mas nesse momento a coisinha abriu a porta com a toalha ao redor do corpo e pediu com muita educação para que o pai dela saísse para ela trocar de roupa.
Scorpius ergueu os braços.
– Não se preocupe, estou temporariamente cego.
E foi até o outro banheiro do quarto para ele mesmo se aprontar para jantar no restaurante com elas.
Mas na verdade Zoe queria que o pai saísse para poder perguntar a Rose:
– Ele já pediu você pra namorar com ele, mamãe?
– Zoe, por que essa insistência agora?
– Você não vai namorar o David, vai?
– David? – Demorou um pouco para Rose assimilar. – David, o vizinho? – Riu inconformada, quando Zoe colocou a saia. – Não, Zoe, eu não vou namorar o David.
– Ufa... Eu prefiro o papai.
– Prefere?
– Uhum.
– Por que ele é mais legal ou só porque ele é o seu pai?
– Porque ele não mente pra mim. Papai disse que David é um mentiroso.
– Disse, é?
Enquanto ajudava Zoe a colocar as sandálias, sentiu a aproximação dela no seu ouvido. Zoe confidenciou baixinho, só para a mãe:
– E ele gosta de você. Ele me disse. Shhhh.
– Não vou dizer nada – garantiu Rose, flagrando-se sorrindo.
***
O restaurante que Scorpius reservou era tradicional. Costumava ser reconhecido pelos deliciosos pratos de frutos do mar, mas Zoe descobriu naquele momento que ela não gostava de frutos do mar, porque tentou evitar comer algo que veio do mar, uma vez que ela ficava se perguntando como eles faziam essas comidas. Ela passou bons tempos tão admirada observando as lagostas andando pelo aquário do restaurante, mas foi interrompida quando um moço tirou uma delas. Zoe perguntou bem curiosa:
– Para onde eles levaram a lagosta, papai?
– Para fazer nossa comida – respondeu Scorpius.
Ela não conseguiu comer a lagosta que estava no prato depois dessa. Para recompensar, Scorpius a levou para conhecer um oceanário por perto. Comprou os tíquetes em última hora, e o lugar encantou a filha.
Zoe já visitou vários zoológicos mas nada se comparava a entrar em um aquário gigante e ver os animais nadando ao redor deles. Passaram uma hora conhecendo as espécies, apontando para um tubarão que passou por perto do vidro, tentando descobrir que tipo de peixe era aquele. Zoe gostou dessa experiência e pediu para visitarem o lugar mais vezes. Ela ganhou um boneco de peixe-espada, brinquedo que distribuíam às crianças que acertavam a pergunta:
Qual a diferença entre mar e oceano?
Zoe pensou muito, e respondeu:
– O oceano é enooooooorme e quando você está no avião você consegue ver o oceano lá de cima! O mar é o que tem onda, fica perto da praia, e tem gosto de sal. Mas eu não sei se o oceano tem gosto de sal também, porque eu nunca engoli água do oceano.
A resposta fez os monitores rirem e, depois dessa, Zoe ganhou o peixe-espada. Na verdade, qualquer criança que respondesse a pergunta ganharia, não importava se estava correto ou não. Mas Zoe perguntou a Rose:
– Eu acertei a pergunta?
– Acertou. É mais ou menos isso o que disse. Claro que tem outras explicações, mas você não poderia ter respondido melhor.
– Eu ganhei pra você, papai! – ela anunciou estendendo o peixe-espada na direção de Scorpius.
Ele já podia ter um armário só dos presentes que ganhou da Zoe. Definitivamente, ele não merecia nada daquilo, mas sorriu.
– Obrigado, coisinha. Mas o mérito foi seu, não posso aceitar o seu peixe-espada.
– Eu to te dando o presente, pai.
E ela não aceitava devoluções.
Voltaram para o hotel, onde passaram o restante da noite com Zoe assistindo a alguns filmes do Netflix. Rose contou a Albus sobre o dia deles pelo celular e, quando desligou, viu que Scorpius ainda estava falando no dele, encostado na sacada e conversando baixinho como se não quisesse que as duas escutassem.
A princípio, Rose achou que poderia ser uma mulher. E de fato era, mas não uma das típicas mulheres dele. Ouviu da voz dele alguns “Cissy” e decidiu deixar Scorpius no espaço que ele estabelecia para si mesmo quando o assunto era sua própria família.
Quando Scorpius desligou o celular e voltou para a sala, Zoe já tinha dormido no sofá. Ele arrastou as mangas da camisa para pegar a filha no colo e levá-la até a confortável cama, sem acordá-la. Era uma king size já que Scorpius se recusava a pagar por hotéis ruins. Havia somente uma cama de solteiro ao lado da de casal, onde ele decidiu que iria dormir, para dar espaço a Rose e Zoe.
Ambos estavam exaustos com as caminhadas, as visitas e o dia cheio que tiveram na praia. Quando o silêncio reinou – era o que acontecia quando Zoe não estava com eles ou estava dormindo –, Scorpius bocejou e pulou na cama encostada a parede, jogando os braços atrás da nuca, relaxado.
– Boa noite – ele disse e fechou os olhos.
Rose, por outro lado, tinha quase um ritual antes de dormir, que era o de colocar o pijama e passar alguns hidratantes. Não que ela fosse vaidosa, mas tinha momentos femininos demais que ela definitivamente não estava acostumada a ter com a presença do pai de sua filha. Ela ficou um tempão no banheiro. Finalmente quando achou seguro andar com aqueles shorts que mais parecia uma calcinha, ela saiu do banheiro e com as pontas dos pés, no escuro do quarto do hotel, se enfiou embaixo do edredom ao lado de Zoe rapidinho. Ela deu uma leve espiada no outro lado do quarto, para ver se Scorpius estava mesmo dormindo, mas ela só soube dizer quando o rosto dele se moveu e eles, mesmo no escuro, sabiam que um estava olhando para o outro.
Ela quis agradecer pelo dia que tiveram, por ele ter feito Zoe tão feliz naquele dia. Para uma mãe, não tinha sensação como aquela. Ela, por fim, não precisou dizer nada. Deitou de modo que podia ver o teto. Ainda era cedo para qualquer um dos dois, por isso ficaram acordados. E ficar acordado na cama sem sono, sem nada, só significava que eles precisavam refletir sobre a vida de cada um deles.
Para não ficar sozinha com seus próprios pensamentos, Rose cochichou de modo que não acordasse o sono profundo de Zoe ao seu lado:
– O que seu avô tem?
– Leucemia.
Rose fechou os olhos. Scorpius não era o melhor ser humano do mundo, mas ele definitivamente não merecia perder as pessoas que ele amava e que o amavam. Rose se lembrou da época sombria que ele passou quando Astoria faleceu, e o quanto ela esteve ao lado dele durante esse tempo. Sabia que Scorpius era essa pessoa feita de pedra, mas ele desmorona quando lhe dão essa chance. Rose pensou também no pai dele e não podia imaginar como estavam passando por aquilo.
– A medicina avançou muito. Eles vão conseguir dar um jeito nisso.
– Sim. Eles deram – concordou Scorpius. – Por mais de vinte anos. Mas agora não tem mais jeito, eu acho.
– Mas você não vai encerrar essa luta, vai? Você tem que continuar dando força.
– Pra só piorar depois? Não posso esperar pelo melhor, sabendo que o melhor não vai acontecer. Tenho que ser realista.
Ela viu razão nas palavras deles, mas ela não sabia pensar do mesmo jeito. Talvez nem ele soubesse. Foram interrompidos com o movimento de Zoe para mudar de lado. Por fim, Rose e Scorpius mantiveram-se calados até o sono chegar.
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