Fix You

11 Paradise


Notas iniciais
Muuito obrigada pelos comentários, gente! Agora voltamos ao presente na fanfic, com novos acontecimentos. Espero que gostem e boa leitura!

Capítulo 11.: Paradise

"Life goes on
It gets so heavy..."

Se havia um local que Zoe não gostava, era a sala em que estava sentada agora.

Eram tantas cadeiras vazias, com a exceção de uma ou duas. Podia ver o céu escuro pelas grandes janelas, ouvir os grilos cantando lá fora, e ela não sentia vontade alguma de dormir mesmo que estivesse com sono. Ainda não entendia tudo o que estava acontecendo. Por que a mamãe estava tão preocupada? Por que ela ainda não podia ver o pai dela?

Já tinha passado tanto tempo. Não era para ser só um machucado? Zoe achou que papai podia ter cortado alguma parte do corpo, como quando ela machucou a sola do pé e ganhou uma cicatriz. Mas tinha sido tão rápido, ela lembrava bem, a enfermeira fez sarar o machucado e deu a ela um pirulito no final.

Assistiu a mamãe conversar com uma mulher gordinha que usava o avental parecido com os de dois homens que saíam e entravam de uma porta para a outra toda hora. Depois Rose sentou ao lado dela e a puxou para o seu colo. Zoe tentou dormir porque gostava dos braços da mãe, e do cheiro do cabelo dela, mas Zoe queria ver Scorpius.

– Mamãe – sussurrou Zoe, brincando com o chaveiro de Rose. Era uma bolinha transparente que mudava de cor toda vez que você a apertava.

– Hum? – ela perguntou baixinho também.

– Por que a mulher tinha sangue no avental dela?

– Ela está cuidando do seu pai – contou Rose. – Foi um machucado muito, muito feio.

– Que nem quando eu machuquei meu pé?

– Não – disse Rose olhando em seus olhos.

– Foi pior? – os olhos assustados da filha deixaram Rose sem saber o que dizer.

– Dorme um pouco, coisinha. Nós vamos ficar aqui por algum tempo.

– Você me chamou de coisinha – cochichou a menina como se Rose não tivesse notado, e não tinha mesmo, até aquele momento. – Que nem o papai.

– Chamei, né? – Beijou o rosto dela, distraída.

Zoe fez mais algumas perguntas, mas Rose não as respondia com muitas palavras. Decidiu ficar quietinha no lugar, embora precisasse muito falar e perguntar um monte de coisas. Alguns minutos depois a mamãe não aguentou e piscou os olhos. Quando Zoe puxou o casaco dela, chamando sua atenção, ela não acordou. E Zoe estava com muita sede.

Olhou ao redor. E avistou o que precisava. Uma máquina de doces e sucos! Até se lembrou de quando passeava com a mãe em Nova York. Em um lugar assustador e chato, aquela foi a coisa que mais aliviou ela de suas inúmeras dúvidas e o medo. Andou sozinha até lá, tirando as moedas que colecionava na bolsinha tiracolo.

Procurou pela água, mas estava difícil entender os números. Não eram dólares e fazia pouco tempo que morava em Londres para se acostumar com as moedinhas de lá.

– Moço – ela chamou o homem que estava em pé verificando a outra máquina. – Quantas moedas eu coloco aqui?

Ele tinha cabelos brancos e um olhar meio assustador quando a encarou. Zoe estava quase se arrependendo de ter feito qualquer pergunta a ele, mas ele perguntou com uma voz profunda e arrastada:

– O que você quer?

– Água.

– Mostra as moedas que tem.

Ela abriu as mãos e mostrou. Quando ele ficou muito perto, Zoe parou de respirar porque o cheiro da roupa dele era bem forte. Lembrou também de quando o pai dela fumava, ficava com um cheiro parecido.

– Hum. Essas não vão dar certo.

– Por quê?

– Tente três dessa daqui. – O moço tirou do bolso dele as moedas e entregou a elas.

Zoe sorriu muito agradecida. Quando colocou as moedas na máquina e a garrafa de água desceu para ela pegá-la, disse para o moço:

– Obrigada! Você pode abrir pra mim?

O moço abriu com facilidade, e não sorria. Mas Zoe não teve mais medo dele. O moço ajudou ela a pegar água e Zoe gostava de quem a ajudava.

– Alguém da sua família também se machucou? – ela papeou, porque tinha esse jeito extrovertido de conversar com quem quer que estivesse dando atenção a ela.

– Sim – respondeu o moço. Talvez para assustá-la ou tirá-la do caminho e parar de conversar com ele, o moço disse: – Meu filho. Levou um tiro.

Os olhos da menina ficaram arregaladas, mas ela não saiu do caminho.

– Como nos filmes?

– Sim.

– Ele vai ficar bem?

– Não sei – respondeu diretamente. – Provavelmente não, mas ninguém aqui tem coragem de dizer isso, não é?

Zoe gostou um pouco menos dele outra vez. Não soube mais o que dizer, e não precisou dizer, porque sua mãe chegou apressada até ela.

– Zoe! – Rose tentava não correr. Quando se aproximou dela, segurou seus braços. – Não suma mais assim.

O moço recuou um pouco e retirou as mãos do bolso, para passá-las no rosto, como se tivesse se assustado, e murmurou para si mesmo.

– Meu Deus.

Rose finalmente ergueu os olhos para o homem que estava ao lado da sua filha. Foi um momento de reconhecimento, confusão e desespero, da parte de ambos.

Rose realmente não sabia o que dizer agora, não sabia o que fazer. Achava que nunca mais o veria de novo. Zoe viu o homem se agachar a altura dela e, de repente, a expressão antipática dele sumiu, dando um lugar para surpresa em meio a um sorriso difícil, como se ele não sorrisse há muito tempo.

– Você cresceu tanto. Ele me mostrou algumas fotos mas nenhuma tão recente, e você...

Zoe não entendeu porque ele estava falando com ela daquele jeito.

Foi quando sua mãe apresentou:

– Zoe, querida... Esse é o... esse é Draco Malfoy. Hum. Ele é... seu avô.

Se Zoe já conhecia o avô dela e ele era ruivo, engraçado e sorridente, então Zoe sabia que estava conhecendo o pai do seu pai naquele momento.

Não sorriu. Zoe era esperta.

– Você disse que seu filho não ia ficar bem – murmurou.

O sorriso de Draco sumiu.

Zoe jogou a garrafa inteira de água nos pés do avô, zangada, e correu com toda a sua energia pelo espaçoso corredor do hospital, ouvindo e ignorando as vozes dos adultos chamando seu nome inúmeras vezes.

Zoe! Zoe! Zoe!

Ela não queria parar. Corria e sentia dor nos pequenos pulmões. O coração doía mais. Ofegante, parou no fim do corredor, já sem saber onde estava. Tinha inúmeras portas nas paredes ao redor dela. Zoe viu um rosto desconhecido que pertencia a um homem de avental branco, ele passou por ela correndo. Depois foram mais três homens correndo para a mesma sala. Ela sentiu o coração disparar muito forte. Um pavor se abateu sobre ela, tinha perdido a mamãe.

Parou. Fechou os olhos. E berrou.

O mais alto que pôde apenas essa palavra:

Pai.

Foi interrompida com o cheiro do cabelo da mãe dela. Rose tinha reunido força para carregar a filha e tirá-la do corredor. Chorando, soluçando, Zoe agarrou o pescoço e as pernas ao redor do quadril dela, grudando-se a ela o mais forte que pôde, precisando imediatamente de carinho.

– Zoe – murmurava Rose no ouvido dela. – Escute... aquele homem... o que você conheceu agora... ele não sabia o que estava dizendo. O pai dele, do papai, é um homem muito amargurado, ele... não quis dizer aquilo, tá bom?

Não adiantou. Nas próximas horas, enquanto não tinham notícia de Scorpius, Rose só pôde fazer uma coisa pela filha: acariciar o seu cabelo para ela se acalmar.

***

As duas foram até a lanchonete do hospital quando amanheceu e Zoe se queixou de estar com fome. Paul ligou para saber das notícias que ainda eram vagas, embora não tivesse aparecido. Estava ocupado de coisas para fazer com a orquestra – tinha uma apresentação importantíssima no final de semana. E Rose sabia que Scorpius não significava nada para ele para que ele cancelasse todos os seus compromissos para ficar no hospital com as duas.

Rose, por outro lado, se viu ligando para sua chefe e avisando que não iria ao trabalho naquele dia.

– Hoje é sábado, esqueceu? – dissera a mulher, provavelmente nervosa por ter sido acordado seis horas da manhã num dia que ela poderia acordar às dez.

Rose estava com dor de cabeça.

Scorpius passou a noite em cirurgia, a bala atingiu tão perto do coração, na clavícula, que a operação para tirá-la durou horas. Tiveram complicações, perda muito alta de sangue, mas naquela manhã Rose e Zoe foram acordadas com a notícia de que Scorpius havia saído da sala de cirurgia. Mas ainda não estava nada bem. Estava com danos, o ombro quebrara, pelo choque da bala e tiveram de tratá-lo de algumas infecções causadas pela bala no sangue.

Zoe estava com os olhos fechados quando Rose voltou para a mesa na lanchonete com o salgado e suco para a filha. A princípio pensou que a menina estava dormindo, ou até rezando, mas quando ela abriu os olhos depressa, Rose soube que era algo íntimo dela e não perguntou.

A menina, porém, disse:

– Papai me disse para fazer três pedidos.

– Sério?

– Sim. Quando ele foi na minha classe e leu um poema pra mim.

– Seu pai? Scorpius? Leu um poema pra você?

– Sim. E ele disse que eu podia fazer três pedidos e que iriam se realizar. Como a lâmpada mágica.

– Certo – ela disse com a testa franzida, estranhando. – E você pode me contar quais foram os seus pedidos?

– O primeiro foi para ele nunca mais viajar. O segundo foi para ele nunca mais faltar da minha festa de aniversário. E o terceiro... ele disse que tinha que ser um pedido muito importante.

– Qual foi? – perguntou Rose muito curiosa.

– Eu ia pedir para você e o papai ficarem juntos – ela disse. E abaixou o olhar: – Mas agora desejei que ele ficasse bem.

Às vezes Rose não acreditava na filha que tinha. Passou a mão no rosto dela.

– Você é linda, sabia?

– Sabia – ela disse, pegando o salgado de presunto e abocanhando o primeiro pedaço.

E às vezes tão filha do seu pai.

Zoe terminou de comer e as duas voltaram para a sala de espera juntas. As cadeiras estavam ocupadas por mais pessoas. Algumas delas usavam ternos, então imaginou que seriam colegas do trabalho de Scorpius. Era um grupo de advogados da firma Malfoy & Zabini. Estavam tomando café quando Rose escutou:

– Otavio Trentwell. Ele estava ameaçando na prisão, falando que ia pegar alguém da firma. Quem imaginava que ia ser o neto de Lucius?

– Ele perdeu o julgamento. Não conseguiu fazer acordo. O cara vai ficar trinta anos atrás das grades por causa de Scorpius.

Por causa? – a voz era feminina e estava embargada. – Poupem-me. Scorpius sabia que ele era culpado e ainda fez o favor para ele em pelo menos tentar ajudá-lo nos tribunais. Trentwell merece a prisão que teve como qualquer outro criminoso desse mundo.

– Falei para o Malfoy comprar uma arma pra se defender e ele ignorou, falou que não iam correr atrás dele, eram só ameaças pra assustar. O cara é orgulhoso pra cacete.

– Onde está Lucius, afinal de contas? Alguém contatou ele sobre o ocorrido?

– Sim – a mulher disse. – Ele foi ao lugar de Scorpius para ajudar no caso de John McBride. Deverá pegar o avião de volta a Londres hoje. Chegará a noite.

– Mãe, mamãe, mãããããe, manhê!

Rose estava tão distraída espiando a conversa que não reparou que Zoe estava chamando sua atenção, puxando o casaco jeans dela, impaciente.

– Quando vamos poder visitar o meu pai?

– Assim que a enfermeira nos avisar, ok?

– Mãããããe... me leva no banheiro, quero fazer xixi!

Zoe já estava começando a sentir o peso de toda a demora. Não parou de chamar Rose por nada, começou a andar para lugares do hospital sem avisar, não conseguia ficar parada na cadeira e Rose precisava de uma aspirina urgentemente ou sua cabeça ia começar a explodir.

– Mãe... mãe! Mãããe! O que a enfermeira disse? Foi sobre o papai?

– Zoe – pediu, tentando manter a calma e entender o desespero da filha. Ela não tinha dormido a noite inteira.

– Eu quero voltar pra casa pegar o meu ursinho! Eu quero desenhar alguma coisa... e fazer um desenho pro papai. Mããe... por favor... quando o papai vai aco-

– Eu não sei, Zoe! – retrucou zangada, aumentando a voz, e teve a impressão que as pessoas olharam para elas. – Eu sei tanto quanto você!

Imediatamente se arrependeu de ter falado com Zoe daquela maneira, mas não estava mais aguentando ouvir aquela pergunta que ela não tinha a mínima noção da resposta. Ela estava estressada. Simplesmente estava. Mas não com Zoe. A menina não tinha nada a ver com isso. Rose estava tentando entender por que diabos tudo aquilo estava acontecendo e por que ela sentia uma vontade imensa de chorar. Mas só faltava começar a chorar na frente da Zoe, aí sim a filha ia ficar completamente desesperada. Zoe chorava quando via Rose chorando, era algo contagioso.

Depois de ouvir sua mãe aumentar a voz com ela, Zoe segurou a mão dela e sentou ao seu lado, sem falar mais nada. Nesse tempo, a figura alta de Draco Malfoy surgiu à frente delas. Ele estava em pé e Rose, que estava segurando a cabeça, ergueu os olhos para ele.

– Ele acordou – disse com sua voz arrastada. – Acho que já podem visitá-los.

– O senhor o viu?

– Sim – foi o que respondeu.

Rose foi sorrir para Zoe, mas a menina tinha corrido em direção a uma das enfermeiras. Baixinha e ansiosa, ela perguntava para a enfermeira:

– Moça, onde fica a sala do meu papai?

– Quem é o seu papai, gracinha?

– Scorpius Malfoy.

– Você quer que eu leve você até ele?

– Mãe! – chamou Zoe, olhando para trás, toda feliz, fazendo um gesto com a mão para ela se aproximar também. Depois pegou a mão da enfermeira e foi até a porta com ela.

Rose se levantou da cadeira e soltou um suspiro que esteve preso na garganta dela desde o telefonema que tinha recebido. Por algum motivo, talvez pelo medo do pior, Rose sentiu aquele alivio se transformar em algumas lágrimas. Ela rapidamente apertou as mãos no rosto.

Sim. Scorpius a magoou como nunca. Sim, ele não era o melhor ser humano do mundo. Mas ele também já foi a melhor coisa que aconteceu a ela quando as coisas estavam perfeitas entre eles, aos dezoito. E ela o conheceu bem o suficiente para saber que ele não mereceria um fim como aquele. Não. Ele merecia ficar bem.

Viu Zoe voltando correndo para ela, porque a menina percebeu que Rose estava parada no mesmo lugar. Sentiu sua mão sendo agarrada pelas duas mãozinhas de sua filha, que tentava puxá-la com toda a força de criança.

Vem, mamãe!

***

Scorpius não sentia dor. De fato, estava ausente de qualquer dor. Não se sentia assim desde a adolescência quando perdia seu tempo fumando maconha. Morfina? É, ele não sentia porque ele estava tão relaxado quanto se era possível ficar medicamente. Mas Scorpius sentia, e sentia mesmo, a mãozinha de Zoe acariciando sua testa tão suave quanto o sopro de uma brisa. Quando foi a última vez que alguém fez carinho nele daquele jeito?

Sua mãe, provavelmente quando ele tinha a idade de Zoe.

Ficou feliz de ter uma filha.

Porque ele não se lembrava da última vez que tinha sido tão paparicado em sua vida.

Estava oscilando entre ficar acordado e dormir. Teve um momento que ele dormiu. Dormiu e sonhou com o paraíso. Era uma daquelas praias com areias branquinhas, águas tão azuis quanto os olhos de Rose, e Zoe estava com ele. Chutava a areia, dançava, saltitava, e Scorpius sorria para ela tentando acompanhá-la.

Mas subitamente a imagem mudou de um modo drástico e Scorpius estava de volta para o estacionamento da firma. A ponta da pistola mirando seu peito. Um segundo veículo em sua direção. O tiro explodiu.

E ele acordou, suando. Os olhos demoraram a se acostumar com seu novo quarto. Inspirou pesado, sentindo todas as dores físicas queimarem suas entranhas. Nunca sentiu tanta dificuldade de expirar o ar. Seu ombro esquerdo pressionava uma dor grave e seu coração disparava. Por um momento achou que estava sozinho, mas Rose estava ao lado da cama dele, sentada na cadeira.

– Calma – ela pediu depressa quando Scorpius ofegou. Ela assustara com o modo repentino como ele acordou, e tinha levantado da cadeira por um reflexo para tentar ajudá-lo. Mas voltou a se sentar.

– Cadê a Zoe?

Rose apontou para a cadeira. Zoe estava dormindo como um anjinho nela, as pernas juntas ao seu corpo.

– Por que você não a leva pra casa? Ela não precisa ficar nesse hospital...

– Eu adoraria que ela pensasse assim – disse Rose. – Falou que não sai sem você.

Ele afundou a nuca no travesseiro e fechou os olhos, mas depois daquele momento tentou ao máximo evitar fazer isso ou ficaria escutando o disparo do tiro toda a maldita vez. Preferiu buscar os olhos azuis de Rose novamente, e percebeu que era mais tranquilo assim, embora sua mente ainda martelasse cheio de dúvidas e incertezas quando os encarava.

– Ela é forte, sabe – contou Rose. – Sempre tem sido.

– Ela teve uma boa influência – murmurou. – E, sim, estou falando de você mesmo.

Rose sorriu fraco, concordando.

– Fodi tudo – ele se repreendeu olhando para a filha. – Não queria encarar sua família. Achei que ela não ligaria se eu aparecesse depois... E não vem com esse olhar de que vai dizer que não foi nada, só porque agora eu to nessa cama...

– Não ia dizer nada disso. Eu só acho que você deveria parar de se condenar por isso... E aproveitar as próximas chances que tiver com ela. Zoe não exige muito de você. Só energia pra correr atrás – acrescentou, passando a mão no rosto, soltando uma risada exausta. Scorpius olhou para os dedos dela enquanto perguntava:

– Você ficou aqui a noite inteira?

Ela assentiu com a cabeça como se isso não tivesse sido nada demais. Como se isso não quisesse dizer alguma coisa. Eles se entreolharam e Rose se desatou a chorar, assim, de repente, tanto que Scorpius não soube se recuava ou tentava encontrar alguma força para se levantar e fazê-la parar de chorar. Sua voz saiu baixa, fina, desesperada:

– Ela te ama tanto, Scorpius. Se acontecesse alguma coisa... eu não saberia... o que dizer... o que fazer.

Por favor, pare de chorar, odeio ver mulher chorar, odeio ver você chorar. Para com isso, na minha frente não.

– Ela precisa de você – murmurou Rose depois. – Muito.

– Só ela?

Foi um momento intenso. Aquele tipo de momento que duas pessoas sabem o que estão pensando quando se encaram. Ou o que estão lembrando.

Por alguma razão, Scorpius tinha Don’t Panic na cabeça.

And we live in a beautiful world.

Yeah we do, yeah we do

– Eu já precisei de você – sussurrou Rose. – Antes.

– Antes – ele ecoou.

Uma palavra que poderia resumir tudo entre eles:

Antes.

Quis dizer alguma coisa, como sempre quer mas nunca acha as palavras certas. O som da cadeira indicou que Zoe tinha se levantado.

– Oi papai – ela disse bocejando. Estava com um chaveirinho na mão quando subiu depressa na cama com ele.

– Calma, coisinha, deita do outro lado – ele pediu. – Isso. Machuquei esse ombro então dói um pouco.

Na verdade, doía pra caralho.

– Desculpa – ela pediu sincera, e deitou a cabeça ao lado do ombro bom de Scorpius. – Quando você vai sair daqui?

– Logo – ele respondeu otimista. – Assim que um desses enfermeiros chatos me liberarem. Quer um segredo?

Ela adorava segredos.

– Acho que se você pedir para eles, eles vão deixar.

Zoe sorriu, considerando a ideia. Depois Scorpius pigarreou, sob o olhar de Rose, e acrescentou:

– Mas você deveria voltar com a Rose pra casa enquanto isso, e tomar banho e dormir confortável na sua cama.

– Você não me quer aqui?

– Não em um hospital. Não quero mesmo. Mas escute... Vou sair daqui. E aí vamos tomar um milk-shake.

– E congelar os nossos cérebros pros zumbis não comerem os nossos cérebros? – perguntou tão eufórica que atropelava as palavras.

– Ótima ideia – ele sorriu.

– Promete? – ela desafiou erguendo o dedo mindinho.

– Prometo – disse Scorpius, dessa vez sem medo algum de cumprir a promessa. Moveu o braço que conseguia erguer e os dedos se cruzaram. Ele riu. Nunca faria isso com outra pessoa, só com a Zoe.

– A promessa do dedinho é muito importante – disse Zoe com seriedade. – Você não pode quebrar a promessa do dedinho nunca. Não é, mamãe? Mamãe e eu sempre fazemos a promessa do dedinho e ela nunca quebrou elas.

Rose estava observando os dois.

– É muito importante – concordou.

– Então você acha que estou preparado para a promessa do dedinho, Zoe?

– Acho.

– É uma grande responsabilidade.

– Você consegue, papai.

A confiança dela foi o que ele precisava.

Um grupo de policiais se aproximou da porta do quarto com os enfermeiros nesse momento, então Rose precisou ajudar Zoe a sair da cama e deixá-los a sós para conversarem com Scorpius, obviamente sobre o ocorrido e os assaltantes que fizeram isso a ele.

Inacreditável que, durante todo o seu depoimento para a polícia, Scorpius só pensava no milk-shake muito, muito gelado que iria tomar depois que saísse daquela cama.

Ele quase morreu. E, pela primeira vez em muito tempo, nunca se sentiu tão vivo.

Notas finais
Um dos motivos de eu decidir escrever em 3a pessoa era para dar a chance de conhecermos mais sobre o interior dos outros personagens também, apesar de Scorpius ser o central da fanfic a história dele não seria nada sem a de Zoe e de Rose. Esse capítulo foi uma interação entre mãe e filha durante a preocupação de saberem se Scorpius ficaria bem. Não foi muito grande, mas foi essencial, especialmente porque Draco reencontra a neta com um susto e a relação entre ele e Zoe também será importante, apesar de não começar tão bem também. E sim, Scorpius jurou juradinho que ia sair daquele hospital. Até o próximo capítulo!